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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

ACADÊMICA ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA LANÇA NOVO LIVRO EM EVENTO VIRTUAL

 


Acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira lança novo livro em evento virtual


A  Acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira lançará seu novo livro, “Liberdade”, em um evento virtual promovido pela Editora Rocco em seu canal no Youtube. O evento acontecerá no dia 23 de fevereiro a partir das 18h. A nova obra oferece um voto de confiança no povo brasileiro, “cujo amor à liberdade se revela em sua diversidade, afeita em sua história à obrigação de negociar as diferenças e que se revela na obra de seus grandes artistas, nossos verdadeiros heróis”.

Exemplares já autografados poderão ser obtidos com exclusividade na Livraria Argumento do Leblon, situada na rua Dias Ferreira, 417, Rio de Janeiro.

Rosiska Darcy de Oliveira é a sexta ocupante da cadeira 10, eleita em 11 de abril de 2013. É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo. Presidiu de 2007 a 2015 o movimento Rio Como Vamos de promoção da participação e responsabilidade cidadã. Foi vice-presidente de Cultura da Associação Comercial do Rio de Janeiro e é membro do Conselho Diretor da ACRJ, do Conselho Técnico da Confederação Nacional da Indústria e do Instituto Brasileiro de Defesa do Deficiente (IBDD), do PEN Clube do Brasil, do Conselho Científico do Museu do Amanhã.

 
22/02/2021

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

PARABÉNS, FERNANDA - Rosiska Darcy de Oliveira


Parabéns pelo Prólogo, a infância difícil no plano material, nem por isso menos feliz, a ensinar para toda a vida que a solidariedade familiar vale mais que uma conta em banco, que a cultura é um bem precioso e que o sentido moral se aprende na infância. Em tempos de desvairada corrida ao dinheiro, aos podres poderes, quando tudo e todos parecem ter preço, é uma herança inestimável a que você nos lega.

Parabéns pelo Ato, pelos atos, por cada pano que se abria como uma janela sobre o infinito, proporcionando tantos mundos à adolescente que eu fui e que lhe aplaudia de pé. E aplaudo ainda. Assim como todos aqueles para quem o teatro tem alguma coisa de sagrado, os que choramos no anfiteatro de Epidauro e no Teatro Municipal com a mesma emoção. Esse ofício de que você tanto se orgulha e fala com alegria e paixão. Ouvi você dizer a um grupo de jovens atores que quem não acredita ser o mundo essas três paredes e as tábuas do chão não deve insistir nesse ofício.

Parabéns pelo Epílogo, fértil e corajoso, que há de ser longo e lindo como foram o Prólogo e o Ato. Obrigada por ser a face luminosa do Brasil, a promessa do que ainda não somos mas gostaríamos de ser, nós, esses milhões de brasileiros que lhe respeitam, admiram e têm como exemplo.

Sobre você Caetano escreveu que se o Brasil “nunca se tornar um país são e respeitável, é porque terá traído Fernanda Montenegro”. Não vamos lhe trair. Você se lembra, Fernanda, do que dizia nosso amigo Darcy Ribeiro? Pois é, apesar de tanta sombra, apesar de uma gente vil que lhe insulta e é a nós que ofende, “havemos de amanhecer”. Quando assim for e assim será, terá sido graças aos grandes brasileiros como você, como Darcy e Caetano.

Obrigada, minha amiga. Feliz aniversário, Fernanda.

O Globo, 14/10/2019


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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013, Rosiska Darcy de Oliveira é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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terça-feira, 3 de setembro de 2019

“ELOGIO DA LIBERDADE”, FILME QUE NARRA A TRAJETÓRIA DA ACADÊMICA ROSISKA DARCY DE OLIVEIRA, SERÁ EXIBIDO EM SESSÃO ESPECIAL NA ABL


Dando prosseguimento à série Cinema na ABL, sob a coordenação do Acadêmico Carlos Diegues, será exibido, em uma sessão especial, o filme Elogio da Liberdade, que aborda a vida e a obra da Acadêmica e escritora Rosiska Darcy de Oliveira. A produção, com duração aproximada de 85 minutos, tem a direção de Bianca Comparato.
A protagonista
Rosiska Darcy de Oliveira é acadêmica, jornalista, advogada, professora universitária e escritora. Acusada de denunciar torturas contra presos políticos, foi obrigada, em 1970, pela ditadura militar, a se exiliar na Suíça. É doutora em Educação pela Universidade de Genebra, onde lecionou até 1984, quando retornou ao Brasil. Participou ativamente do emergente Movimento Internacional das Mulheres.
Sua trajetória
Presidiu a Coalizão de Mulheres Brasileiras para a Rio-92, que organizou o evento Planeta Fêmea no Fórum de ONGs da Conferência Mundial do Meio Ambiente realizado no Rio de Janeiro.
Em 1995, assumiu a presidência do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e chefiou a delegação brasileira à Conferência da ONU sobre a Mulher em Beijing. Foi, por sete anos, Embaixadora na Comissão Interamericana de Mulheres da OEA.
Membro do Conselho Assessor sobre Mulher e Desenvolvimento do BID e consultora da UNESCO para o tema “A emergência do feminino na cultura”. Integrante do Painel sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável da UNESCO e do Painel Mundial para a Democracia, presidido pelo Secretário-Geral da ONU Boutros-Ghalli.
Fundou e dirigiu por 12 anos o Centro de Liderança da Mulher no Rio de Janeiro, projeto apoiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. Como vice-presidente de Cultura da Associação Comercial do Rio de Janeiro, presidiu o Conselho Empresarial de Educação dessa associação e é membro do Conselho Consultivo da Confederação Nacional do Comércio, bem como do Conselho Científico do Museu do Amanhã.
Foi colunista do Estado de S. Paulo e é articulista do blog Opinião de O Globo. Professora durante 15 anos do Doutorado em Letras da PUC-Rio, é membro do Pen Club do Brasil. Recebeu, entre outras condecorações, a Medalha Rio Branco por serviços prestados à Nação.
O filme
Elogio da Liberdade vai muito além da biografia pessoal, traçando uma evolução histórica dos movimentos de mulheres no Brasil. O processo de montagem durou cerca de um ano. O documentário se torna ainda mais importante por conter imagens de seu arquivo pessoal e um rico material de entrevistas e programas de televisão da época.
O documentário, dirigido por Bianca Comparato, percorre sua infância e adolescência, e relata trechos selecionados do trabalho da acadêmica. Conta, ainda, com as participações da filósofa Djamila Ribeiro e da vereadora Marielle Franco, bem como registros das passeatas feministas mais recentes.
O filme Elogio da Liberdade será exibido no Teatro R. Magalhães Jr., localizado na Academia Brasileira de Letras, Av. Presidente Wilson, 203 – Castelo. A sessão acontecerá no dia 4 setembro, às 15h30. A entrada é franca. Faça sua reserva abaixo ou pelo telefone (21) 3974-2526. A Entrada é franca, limitada à capacidade do teatro. 
INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esta sessão exclusiva. Lugares limitados.


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segunda-feira, 5 de março de 2018

PACIFICAÇÃO - Rosiska Darcy de Oliveira


Pacificação


A intervenção das Forcas Armadas na segurança do Rio, bem ou mal recebida, é um fato consumado.

É muito possível que a decisão sobre a intervenção tenha atendido aos baixos interesses políticos de um presidente em agonia e seus acólitos contumazes que, mais que tudo, temem a prisão. A ninguém surpreenderia uma manobra fria e manipuladora urdida nos porões do Jaburu.

Muitas das reações contrárias à intervenção obedecem à mesma lógica do interesse político, perguntando quem ganha e quem perde em seus cálculos eleitoreiros. Lula chamou a atenção para as oblíquas pretensões eleitorais do presidente. Bolsonaro bravateou que ninguém roubará sua bandeira, como se a segurança tivesse dono. O interesse político há muito se dissociou do interesse público. A população só é visível quando as pesquisas de opinião traduzem as tragédias em prováveis votos futuros.

Do ponto de vista da população desamparada por serviços públicos em frangalhos, sofrendo na carne a violência, a questão é saber se este fato consumado será o ponto de inflexão, o freio no descontrole da segurança pública sensível no aumento da violência, territórios dominados pelo tráfico e paralisia da polícia minada pela corrupção. Ou uma bala de prata que, errando o alvo, provoque o efeito contrário, a aceleração de todos esses processos nefastos.

Estamos, portanto, diante de uma situação de altíssimo risco em que não cabem precipitações que ponham tudo a perder. Inteligência, perseverança, bom senso e capacidade de escuta serão necessários aos responsáveis da intervenção.

Se a intervenção na segurança fracassar, uma sociedade convivendo com a barbárie no seu cotidiano, tomada pela exasperação, poderia recorrer a uma candidatura truculenta que aumentaria o caos, levando de cambulhada direitos e liberdades.

Há uma aposta possível na capacidade operacional deste Exército brasileiro que, nas palavras do fundador do Viva Rio, Rubem César Fernandes, que trabalhou com os militares na bem-sucedida missão de paz no Haiti, se reinventa como força de estabilização e de pacificação. Pacificação é o que se espera das Forças Armadas no Rio de Janeiro.

A intervenção na segurança pública tem motivado em pessoas desesperadas com a espiral da violência uma retórica guerreira.
Reação explicável por um imenso cansaço, pelo desgaste das esperanças e pela confessa incapacidade do governo do estado de defender a população contra o crime organizado, encastelado em territórios ocupados, e contra o crime desorganizado que se espalha, epidêmico, em um ambiente propício de desordem e impunidade. E pelo medo com boas razões partilhado por toda a população. Essa retórica guerreira, no entanto, seria como apagar um incêndio com gasolina. O desespero, ainda que compreensível, é péssimo conselheiro.

As Forças Armadas estão assumindo uma grave responsabilidade. Se a intervenção na segurança pública for, de fato, um impulso na reconstrução do Rio, a dimensão policial e militar precisará ser completada por um leque muito mais amplo de ações sociais, como há anos vem sendo dito e redito por todos que se debruçam seriamente sobre o desafio da segurança.

Escolas, creches, postos de saúde, trens e ônibus dependem para funcionar da garantia da ordem pública. No caos em que estamos vivendo, restabelecer a ordem pública, reduzir a violência e estancar a corrupção é o começo,o meio e o fim do processo de pacificação.

A atitude da população do Rio não pode ser a de vítima inerte ou espectadora atenta. Sua participação não atenderá a uma receita que alguém lhe dê como tarefa. Cabe a ela mesma a autoria de suas iniciativas.

A expectativa positiva da maioria da população coexiste com a desconfiança, em muitos, de que a legítima aspiração à paz seja mais uma vez frustrada. Os fatos falarão por si. A confiança se constrói no tempo. O monitoramento das operações de pacificação é essencial na construção da confiança.

Este é o papel das lideranças comunitárias, da mídia e de todos aqueles que, na democracia, têm o direito de opinar sobre o que afeta suas vidas. Quanto maior a interação entre os militares e a população, melhor, cabendo à Justiça o exercício de sua função de balizamento dos limites da lei, como ocorreu no debate sobre a legalidade do mandado coletivo de busca e apreensão.

O futuro é incerto, sabemos, mas é sempre pelas brechas da incerteza que a esperança se infiltra. O Rio de Janeiro é resistente. Agora, mais do que resistir, é preciso pacificar. Reconhecer a queda, não desanimar e dar a volta por cima.

O Globo, 24/02/2018

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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013. É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.


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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

SENHORA DO AMANHECER - Rosiska Darcy de Oliveira

Senhora do amanhecer


O vento em Delfos zunia e eu pensava como é antigo e aflito o desejo de adivinhar o futuro. Deve ter sido esse barulho do vento que parecia uma voz contando ao Oráculo o que ninguém ainda sabia que levava os poderosos de então a buscar conselho de quem podia prever o amanhã. Tantos erros, tantas guerras, quem sabe levadas pelo errático conselho dos ventos. Fiz essas anotações no meu diário de bordo na primeira viagem que fiz à Grécia.

O desvalimento humano, a angústia diante da incerteza atravessaram os séculos, tão doloridos que, em todos os cantos da terra, uma bola de cristal ou uma simples vidente de subúrbio trazem um parco alívio a quem se pergunta o que vem por aí.
Diante do absurdo da morte há até mesmo quem aceite a promessa da vida eterna.

O que será de nós, questão fatal nesse limiar do Ano Novo, perguntam-se os brasileiros, jogando flores brancas ao capricho das ondas, esperando uma resposta amiga da Rainha do Mar.

A incerteza fez-se a regra do mundo, o princípio que rege todas as coisas e conviver com ela é o verdadeiro purgatório contemporâneo, sem que nenhum céu mais adiante seja de fato garantido, abandonados que somos ao jogo incerto do acaso e da necessidade. O destino se cumpre na medida em que se escreve, afirma um dos meus autores preferidos, o prêmio Nobel de medicina Jacques Monod.

O futuro não é uma história pronta que um vidente vai buscar em algum lugar secreto ou que o vento sussurra. O futuro não está em lugar nenhum, ele não existe senão como expectativa presente.
O futuro não está escrito senão na ilusão de jogadores que multiplicam apostas, ele é uma página em branco onde um autor imaginativo pode, a qualquer momento, escrever o improvável.

O jogo mais desafiante e paradoxal é o calculo das improbabilidades. Nada nos resta pois senão, a cada dia, fazer escolhas assumindo a autoria de nossos destinos. Não há que temer as encruzilhadas de um labirinto. Elas não são a certeza de um beco sem saída, são a oportunidade de fazer a boa escolha.

É pelas frestas da incerteza que se infiltra a esperança. A esperança não é um sentimento abstrato, uma prece passiva a um Deus silencioso e opaco. Se fosse, seria paralisante. Tampouco tem a ver com otimismo ou pessimismo. Estes estão mais próximos das certezas, do sim ou do não.

A esperança habita a terra de ninguém da incerteza onde o improvável não está excluído. A esperança tem vida própria e nos expulsa das cavidades da memória onde se escondem fundadas decepções. É ela que, quando um cansaço imenso busca o testemunho das desilusões, vira as costas e anuncia que viaja nua para o futuro. Afirma que os otimistas podem se enganar e que os pessimistas já se enganam no ponto de partida. Antes de partir, alerta: “tenho uma boa notícia”. E é ela que todos querem ouvir.
Ela, a senhora do amanhecer.

A esperança é arquiteta de destinos, é recusa de aceitar o mal como inexorável vitorioso, é teimosa e insolente. Não faz previsões otimistas ou pessimistas, constrói realidades, faz acontecer. A desesperança, sua irmã gêmea, também é construtora de realidades.
Ao reverso. É cúmplice do inimigo, ajuda a derrota.

Nesse fim de ano tenho sentido os brasileiros desesperançados. O momento presente é desanimador. Porém, projetar o presente no futuro é um equivoco que congela o tempo e ignora o legado do passado. Já vivemos dias piores, anos de chumbo e sombra. De lá para cá refundamos a democracia, vencemos a inflação, diminuímos as desigualdades.

Caímos em um pesadelo histórico. Não deixamos por isso de ser mais de 200 milhões de habitantes, vivendo em um imenso território, donos de bens naturais inestimáveis como a Amazônia e bacias hidrográficas de dar inveja a um mundo assombrado pela carência de água e de ar puro.

Uma cultura em que desaguaram três cosmogonias tão estranhas uma a outra, que há quinhentos anos negociam essas contradições com um sentimento de incompletude, buscando uns nos outros o que não somos e nos reconhecendo nessa gente original que nos tornamos, sedimentada por séculos de miscigenação, cuja identidade é um paradoxo, diversidade que se fez identidade e que conhece bem “a dor e a delícia de ser o que é”.

É essa cultura que nos une, esse país que nos irmana e essa identidade que nos salva. Que o ódio não abra suas asas mórbidas sobre nós. Que justiça seja feita reparando todo o mal que nos foi feito. Que todos os deuses do Brasil nos ajudem a preservar essa “estranha mania de ter fé na vida” e a construir um Ano Novo mais feliz. Feliz Ano Novo.

O Globo, 30/12/2017


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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013, é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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terça-feira, 7 de novembro de 2017

UM LUGAR PERIGOSO - Rosiska Darcy de Oliveira

Um lugar perigoso


Ciro Gomes decretou que as eleições de 2018 serão uma brincadeira de meninos. Marina fica fora do jogo por falta de testosterona. Jogo agressivo, coisa de macho. Discursava para empresários, falando grosso. Será que alguém riu? Ou protestou? Ou passou despercebida essa manifestação — Ciro, de novo — de machismo explícito?

Outro pretendente à Presidência da República, parlamentar, disse à deputada Maria do Rosário que não a estupraria porque ela não merecia. Uma agressão que foi parar no Supremo Tribunal Federal. Bolsonaro virou réu, mas seus possíveis eleitores aumentaram.

Enquanto o Brasil caminha, célere, de volta à Idade da Pedra, no país de Donald Trump, notório predador, um poderoso produtor de Hollywood, campeão de premiações no Oscar, foi apeado de seu trono cinematográfico quando atrizes famosas denunciaram uma prática bem conhecida das mulheres. Harvey Weinstein cobrava propinas sexuais para deixar que essas atrizes ascendessem ao estrelato. A antessala do sucesso era o quarto de hotel do produtor.

Agora, que elas ousaram falar, abriram-se as comportas de um mar de ressentimentos até então represados, que inundaram a imprensa mundial. As francesas ecoaram o protesto das americanas e publicaram na internet milhares de depoimentos sobre situações vividas de assédio, agressões sexuais e estupros. Passada a fase de catarse virtual, foram para a rua. A jornalista Carol Galand, que convocou a manifestação no asfalto, disse que queria fazer uma coisa diferente de uma zoeira nas redes sociais.

Com esses milhões de cacos de vida, vai-se compondo o puzzle perfeito do que é o achincalhe e a violência sexual que, no mundo inteiro, ameaçam as mulheres moral e fisicamente. Essa denúncia, que viralizou nos Estados Unidos e na França, ganhou as ruas e muda uma situação imemorial e global. Quebrou-se o silencio que garantia a impunidade, acabou o medo.

Por um estranho mecanismo gerado na experiência vivida, as mulheres transformavam as agressões que sofriam em sentimento de culpa. Como se de alguma maneira elas provocassem essas agressões, o que lhes foi tantas vezes repetido, sobretudo nas delegacias quando denunciavam casos de estupro e eram acusadas de provocar com as roupas que usavam o estuprador, transformado em vítima de uma irresistível sedutora.

O mesmo acontecia nos casos de assédio sexual. Essa chantagem que paira sobre as mulheres se revela na atitude de empregadores que despedem não quem assedia e, sim, quem é assediada. Na França das liberdades e dos direitos humanos assim foi em 95% dos casos em que mulheres denunciaram seus chefes. O mito da mulher sedutora que desgraça um homem é tão velho quanto Adão e Eva.

As propinas sexuais cobradas por quem tem autoridade sobre as mulheres são uma forma de prostituí-las. Envenenam e muitas vezes invalidam os projetos profissionais daquelas que dizem não. Levantam suspeitas sobre o sucesso profissional das mulheres. Que preço teriam pago?

Esse clima perverso, de promessas, ou o seu avesso, de ameaças veladas ou não, alimentam uma cumplicidade masculina que começa em piadas e comentários jocosos e termina em conivência com as atitudes mais vis. Essa cumplicidade é constitutiva da relação de poder dos homens sobre as mulheres, um fator de humilhação e intimidação que pode atingir qualquer uma, em qualquer idade ou classe social.

A quebra do silêncio torna irrefutável a gravidade de um escândalo mundial: o assédio e a violência sexual ainda são absolvidos pela cultura, mesmo quando proibidos pela lei.

O Conselho Nacional de Justiça divulgou que em 2016 tramitaram nos tribunais mais de um milhão de processos referentes à violência doméstica contra a mulher. Um processo para cada cem mulheres brasileiras. Ao longo do ano passado tramitaram na Justiça mais de 13 mil casos de feminicídio, o assassinato da mulher por ódio, desprezo ou perda de controle sobre ela. O Anuário de Segurança Pública registrou 45.500 casos de estupro em um ano. Cifras de uma guerra suja e covarde.

Dar um basta nessa aberração é um imperativo civilizatório. A violência contra as mulheres não é um hábito doentio que o tempo e a impunidade transformaram em direito não dito. Não pode ser naturalizada, degrada a todos. É um crime contra a humanidade.

Assédio sexual, violência doméstica, estupro, feminicídio são gradações de uma mesma evidência: na segunda década do século XXI, a dignidade das mulheres ainda é uma abstração negada na vida real.
O mundo é um lugar selvagem e perigoso para o sexo feminino.

O Globo, 04/11/2017


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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013. É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O BEM SUPREMO - Rosiska Darcy de Oliveira

O bem supremo


Não será a primeira vez que uma decisão do STF influenciará o curso da história no Brasil. As decisões sobre o mensalão, a prisão de Eduardo Cunha, o apoio às ações do juiz Moro foram essenciais ao processo em curso, de redenção do país. Entra agora em pauta o caso Aécio Neves, questão que, pelos efeitos em cascata que pode provocar, ganha uma dimensão de alto risco.

O julgamento transcende de muito a figura mais patética do que relevante do ex-candidato à Presidência, pilhado pedindo propina a um empresário em um telefonema obsceno. O PSDB não teve a decência de expulsá-lo. O próprio partido expôs-se, assim, a ser expulso da confiança de seus eleitores. Ignorar que seu presidente se corrompera, o que toda a nação assistira, não ajuda a absolvê-lo e faz cúmplice o partido. Melhor faria admitindo e corrigindo seus erros.

O retorno de Aécio Neves a sua cadeira no Senado seria uma afronta a uma população já exasperada com a corrupção e a impunidade. Essa exasperação é a única explicação para o apoio suicida que ela vem exprimindo a uma possível intervenção militar.

A todos os problemas que nos afligem — e são tantos — veio agora somar-se esse velho demônio que acreditávamos exorcizado para sempre. Um general falou, outro o apoiou, o comandante do Exército deu garantias de respeito à legalidade. Apesar disso, desde então, formou-se no horizonte um ponto de interrogação que assombra o Brasil.

O recurso à ditadura não é só a pior das soluções. É uma não solução, é um gigantesco problema. Inimaginável, na contramão da história recente do país e da América Latina, do bem supremo na vida de cada um que é a liberdade. Quem, a qualquer pretexto, admite essa hipótese tem memória curta ou ignora o pesadelo que a quebra da democracia implicaria para o cotidiano de todos nós, lá onde ela se encarna em direitos e liberdades. Sem falar no opróbrio internacional que cobriria o Brasil, devolvido ao status de república de bananas.

Não há meia democracia. Ou a liberdade e as instituições estão garantidas ou, suspensas a liberdade e as instituições, viveríamos em uma ditadura.

Que esta possibilidade tenha sido aventada só se explica pelo estado de indignação, revolta e frustração vividas pela imensa maioria dos brasileiros diante do espetáculo degradante de políticos, acusados aos magotes, que não se arrependem de nada e continuam a delinquir, em flagrante deboche dos sentimentos da população.

A crise de legitimidade do governo Temer e do sistema partidário é uma evidência. Assim como é evidente que a solução da crise não virá de um sistema político apodrecido. Esses homens não se regeneram. Escondem-se atrás de imunidades, manipulando as garantias democráticas para protelar inapeláveis condenações. Usam a Justiça, seus ritmos e processos para impedir, com chicanas, que justiça seja feita.

É a incapacidade do sistema político de desatar o nó de um governo sem legitimidade e de um Congresso conivente com a corrupção que nos expõe seja ao fantasma da intervenção militar, seja ao risco do retorno de um populismo carcomido, cuja mentira e demagogia são reveladas a cada volta de parafuso das investigações da Lava-Jato. Em ambos os casos, um trágico retrocesso, que deixa ao relento quem busca refundar a democracia.

Políticos que tanto mal fizeram ao país, pilhando os cofres públicos, não contentes de desmoralizar a política e o Poder Legislativo querem agora desmoralizar o Judiciário. O Senado que já desafiou o Supremo Tribunal Federal uma vez, mantendo — logo quem — Renan Calheiros na sua presidência, desafia mais uma vez a autoridade da Suprema Corte, chamando a si o destino de Aécio Neves. Ora, não é o destino de um homem que está em jogo, é o de um país.

A ação do Supremo Tribunal Federal é determinante para assegurar que as instituições democráticas sejam capazes, por si só, de desfazer a teia de criminalidade que enredou a população brasileira. A confirmação pelo plenário do Supremo da decisão tomada pela Primeira Turma de suspender o mandato de Aécio Neves reafirmaria o princípio de que ninguém está acima da lei e seria exemplar da capacidade da Justiça de fazer justiça.

Maior significado ainda teria a recusa do STF de rever sua histórica decisão sobre a prisão de réus condenados em segunda instância, marco do fim da impunidade.

Se o Legislativo perdeu, neste momento, a confiança da população, mais que nunca é preciso que ela possa confiar em seus tribunais.

A resposta aos desmandos dos políticos não é a quebra da democracia. É o seu aprofundamento.
O Globo, 07/10/2017


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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013.  É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A FARSA ACABOU - Rosiska Darcy de Oliveira

A farsa acabou
  

As máscaras caíram. La commedia è finita. A História, irônica como sempre, escolheu a Semana da Pátria para presentear os brasileiros com as imagens definitivas, irrefutáveis do fim de uma trama sórdida, urdida por uma gente abominável. Malas e malas de dinheiro sujo do ex-chefe da Secretaria de Governo de Temer, um depoimento frio e devastador contra Lula, uma gravação obscena e machista de um bandido armado com a poderosíssima arma que uma grande fortuna pode ser.

Que o Brasil tenha se tornado um acampamento de bandoleiros parece evidente. O que importa agora é que os Joesleys da vida estão encurralados, acabarão todos atrás das grades, onde já está Geddel, depois de uma boa e profilática limpeza de lava a jato. Essa é a melhor das notícias, o presente do Dia da Pátria.

Nos mesmos dias em que as fitas com o chorrilho de canalhices machistas de Joesley eram ouvidas no STF, em Curitiba Palocci contava ao juiz Sergio Moro o que muitos já sabíamos. Duzentos milhões de brasileiros ouviram do homem forte do governo Lula que o maior líder popular do Brasil, depositário não só das esperanças mas sobretudo do amor dos mais pobres, eloquente no discurso contra “eles”, os ricos, vivia a soldo “deles”, pedia milhões em propinas aos homens mais podres do Brasil. E recebia, fartamente. Dilma sabia das regras do jogo, jogando nas laterais. Eram “eles” que governavam o Brasil, embora os brasileiros acreditassem ter votado no Partido dos Trabalhadores.

O depoimento de Palocci, o Italiano das planilhas da Odebrecht, quebrou definitivamente os pés de barro do ídolo nacional que foi Lula, posto a nu na sua verdadeira condição de cúmplice do poder econômico mais corrupto. Sem apelação possível, ficaram demonstrados a periculosidade e o cinismo de uma organização criminosa que, sob o seu comando, governou o país por 16 anos.

É humilhante, sim, para o povo brasileiro, é uma traição terrível, uma decepção imensa para os milhões que o elegeram, mas é a verdade necessária que desconstrói os mitos e permite refundar a vida democrática.

Quando alguém é traído, no amor ou na amizade, o grande risco é perder a capacidade de amar. Na política, os melhores sentimentos podem deslizar para o desencanto. O risco que corre o povo brasileiro é, em um surto de depressão nacional, desacreditar de suas esperanças e cair nos braços de outro aventureiro ou psicopata, já que isso não falta na lista de pretendentes à sucessão de Lula no coração do povo. Um Lula ameaçado de passar as eleições de 2018 na cadeia.

Não me inscrevo entre os deprimidos. Indignada, sim, estou há décadas, com a obscena desigualdade deste país injusto, com a ditadura que ganhei de presente de 20 anos, com a progressiva usura dos sonhos de ver o Brasil tornar-se a grande nação que acreditei que ele fosse, com a evidencia da corrupção desvairada que, como um cupim, vai desfazendo o Estado brasileiro e contaminando a sociedade. Por tudo isso, creio que estamos vivendo um momento de travessia e de ruptura. Nada será como antes.

O ministro Luís Roberto Barroso, clarividente, aposta em uma revolução silenciosa em curso. “O velho já morreu, só falta remover os corpos. O novo vem vindo. Há uma imensa demanda por integridade, idealismo e patriotismo. Essa é a energia para mudar o curso da História”, escreveu em artigo recente.

Não é hora para depressão, ao contrário, é preciso celebrar essa revolução silenciosa e usar essa energia que a raiva e a frustração alimentam para fortalecer essas demandas que exprimem um querer coletivo.

A exigência de integridade é condição para governar, já que é obvia a relação de causa e efeito entre a pobreza e a corrupção, a ineficiência dos serviços e o assalto aos cofres públicos.

Idealismo, porque nunca tantos se preocuparam tão intensamente com o destino do país, opinando nas redes e nas ruas. E se há visões contrárias, o que é da natureza da democracia, são interpretações diferentes de um mesmo desejo de viver em um país mais justo. A lenda da juventude apática caiu por terra.

É preciso coragem para falar em patriotismo desde que o perigosíssimo Jair Bolsonaro usurpou a palavra para batizar seu partido fascistoide. No texto de Barroso essa palavra é reinvestida pelo que de fato é, o sentimento cálido de pertencimento, real, que todos conhecemos desde a infância e que nos leva a querer contribuir para tirar o país da tragédia em que mergulhamos.

A Semana da Pátria foi gloriosa. A farsa acabou. Caiu o pano.
Desmascarados, nos bastidores, o salve-se quem puder.

O Globo, 09/09/2017
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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013. Escritora e ensaísta, sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo.

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quinta-feira, 20 de julho de 2017

UM ROMANCE BRASILEIRO - Rosiska Darcy de Oliveira

Um romance brasileiro



A sentença afirma, ao cabo de longa e cuidadosa investigação, que o herói do povo brasileiro, o defensor dos pobres, o líder dos operários do ABC, o presidente da República estimado mundo afora, sonhava com um tríplex no Guarujá e não hesitou em se dar um de presente, desenhado sob medida, pago indiretamente por dinheiro sujo desviado da Petrobras. Tivesse o episódio, como protagonista, um funcionário público qualquer ou outro politico corrupto, não teria a carga dramática que tem essa condenação.

Acontece que por 40 anos Lula incendiou o imaginário do povo brasileiro e foi depositário das melhores esperanças de redenção de um país terrivelmente desigual, órfão de um “pai dos pobres”. Sobretudo os mais jovens que, com razão, vivem no futuro e se nutrem de utopias, e os mais pobres, a quem pouco resta senão fé e esperança, devotaram ao jovem imigrante nordestino que virou presidente uma admiração, confiança e fidelidade quase religiosas que, ainda hoje, resiste aos trancos da vida real e nega a nudez crua da verdade: o ídolo tinha pés de barro e sonhos de ouro, de grandeza, poder e dinheiro. E nenhum escrúpulo.

Os bons personagens da literatura têm uma alta carga de ambiguidade. Lula foi suficientemente ambíguo para bem compor o personagem principal de uma história que, durante anos, empolgou o Brasil: a incrível aventura de um partido fundado para trazer a justiça social e que, metamorfoseado em uma organização criminosa, que ele é acusado por procuradores de chefiar, saqueia o país. Representou tão bem o seu papel que ainda hoje é difícil distinguir o que nele é verdade ou ficção. Talvez nem ele mesmo saiba, à força de trocar de bonés, enganando a todos, ora amigo cúmplice de Emílio Odebrecht e companheiro de Léo Pinheiro, ora herói dos sem-terra.

O que ele certamente sabe é que quer voltar ao poder, ar sem o qual não respira e, a qualquer custo, escapar da prisão. Decadência de um personagem que se apresentou como redentor de um país gigante e dramático, percebido como um herói e que acaba condenado por um tríplex de mau gosto que um empresário rico e vigarista lhe deu de gorjeta.

Quem o condenou foi um juiz muito jovem, de primeira instância, um anônimo juiz de Curitiba, homem de classe média, admirador do juiz Giovanni Falcone, que comandou a operação Mãos Limpas na Itália, assassinado pela máfia. Saído do nada, como cabe aos personagens que vão crescer na história, imbuído de uma ideia obsessiva de bem cumprir seu dever de garantidor da lei, Sergio Moro vai puxando os fios que pouco a pouco desfazem uma gigantesca teia em que se moviam, soberanos, os ricos e poderosos, homens criados e afeitos à impunidade, assaltantes contumazes dos cofres públicos disfarçados de políticos, ministros e presidentes.

Nessa teia moviam-se também, em promíscua cumplicidade, as lideranças daquele partido que ia salvar o país.

A cada capítulo desse romance é um herói que se revela bandido, um empresário que se revela mafioso, um mafioso que se torna ministro. Sergio Moro empolga seus pares, multiplicam-se os juízes e procuradores atentos à corrupção. São poucos os políticos influentes que ainda não foram chamados a se explicar.

Nas páginas atuais do romance, apesar de condenado Lula ainda se mantém viável como candidato a voltar à Presidência. Pesquisas de intenção de voto, no entanto, mostram aquele anônimo juiz de Curitiba, o que o condenou à prisão, como capaz de derrotá-lo nas urnas se candidato fosse. Mas não é. O que anda pensando e sentindo, de fato, a maioria do povo brasileiro? Os próximos capítulos dirão.

De todo modo, o que esse romance conta é a trágica história de um povo traído em suas esperanças, perplexo, que tem agora que viver o luto pelos salvadores da pátria condenados por crime comum. Que aprende duramente a viver sem mitos, a pensar pela própria cabeça e fazer escolhas encarando sua dura realidade, aquela em que o país mergulhou, a pobreza, o desemprego e a violência, por conta do saque que os salvadores da pátria, nas sombras, organizaram.

Em todo bom romance, o desfecho é surpreendente. Surgirão novos personagens, inesperados ou até agora secundários, que trarão um pouco de felicidade a essa terra tão castigada? Ou, ao contrário, estará ela condenada à repetição de um destino maldito, ser a presa de impostores?

O Globo, 15/07/2017


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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013. É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

APESAR DE VOCÊS - Rosiska Darcy de Oliveira

Apesar de vocês


A recusa pelo TSE a cassar a chapa Dilma-Temer pode ter sido a gota d’água que transbordou o pote de mágoas dos brasileiros. Nas redes sociais, recorrente, uma indignação sofrida.

Apesar das caras e bocas que com lábios frouxos pronunciam com desprezo a palavra povo; da frieza com que provocam a repulsa da sociedade; da vaidade tragicômica que atinge píncaros do ridículo; apesar de vocês, juízes que comprometem a Justiça, há no país um genuíno desejo de decência.

O novo Brasil que está nascendo falou, no julgamento do TSE, pela voz do ministro Herman Benjamin, que se recusou a ser coveiro da verdade. A verdade ficou ali, gritante, reiterada por dois ministros do STF, Luiz Fux e Rosa Weber.

Apesar de vocês, políticos canastrões no papel de estadistas, com seus peitos estufados, suas gravatas espaventosas, apesar dos seus porões noturnos, seus sussurros e maquinações escabrosas, suas mesadas milionárias, seus empresários tão amigos, apesar da venda do país e de nós todos ao longo de décadas, todos rindo muito, trocando de cúmplices como de sapatos, nessa omertà insultuosa aos brasileiros que lhes sustentam com seu trabalho. Apesar de vocês, contra vocês e mais forte do que vocês, um outro Brasil já existe como querer coletivo.

À decisão do TSE, à profunda revolta que provocou, veio se somar, dias depois, o suicídio político do PSDB. O partido que se demarcara do PMDB em nome da ética, contra todas as evidências de corrupção no governo decide continuar a apoiá-lo e protege seu próprio presidente enredado em gravações espantosas. O que põe a nu uma nova clivagem que não se pode chamar de política, já que os partidos esvaziaram o sentido dessa palavra. Uma clivagem que não é sequer ideológica, é moral.

A verdadeira clivagem é entre corrupção e honestidade. De um lado, a corrupção que contamina todos os grandes partidos em um gigantesco esquema de cumplicidade, entre si e com empresas bandidas; do outro, a população, ofendida, para quem honestidade na vida pública é meio e fim de um Brasil refundado. Que quer ver desaparecer da vida pública esses homens e mulheres que já não representam posição política alguma, apenas os seus próprios interesses de poder ou de dinheiro.

O desprezo é um sentimento quase sempre recíproco. A população despreza quem a despreza, o que em si já é parte do novo Brasil. Os partidos sabem disso. Daí quererem impedir candidaturas independentes, restringindo a escolha do eleitorado ao seu círculo incestuoso, onde jogam o jogo do toma lá dá cá, um abraço de afogados. Fingem não saber que o problema não é mais de política, e sim de polícia. Inútil, mais cedo ou mais tarde as sentenças virão.

A trama criminosa que se instalou no Brasil e que não tem paralelo no mundo continua viva e atuante, tentando a todo custo neutralizar a Lava-Jato e, se possível fosse, destruí-la. Esta persistência no crime fere a democracia e deixa uma cicatriz. E ainda nos expõe ao risco real e iminente de enfunar as velas de uma abominável extrema-direita pronta para aproveitar-se do vazio de poder aberto pela derrocada do sistema político.

Para além da luta contra a corrupção, da afirmação do fato moral, é urgente vertebrar a sociedade que queremos. Novas lideranças conquistarão o seu lugar na medida em que apresentem ideias e propostas para reconstruir o país, refundando a política e a democracia sobre os escombros que herdamos.

Ponto nevrálgico desse legado maldito avulta, entre outras misérias, a violência. A tragédia de jovens pobres e negros que se matam entre si, sem saber quem são nem por que vivem, a quem foi negada mínima chance de uma verdadeira escola, capacidades e valores, jogados no colo dos traficantes. Os que não morrem adolescentes vão agonizar em prisões concentracionárias, as mãos entre as grades em gestos de pedintes ou loucos. Políticos desonestos, que lhes roubaram a possibilidade de outro destino, também são culpados de seus crimes, da guerra nas ruas que está levando tanta gente a abandonar o Brasil. Também roubaram o futuro dessas crianças transformadas em exilados. E continuam dando a todos os jovens o pior dos exemplos, o da insensibilidade moral.

Vocês são hoje fantasmas, sentados em suas nobres cadeiras. Seu tempo acabou. Porque se o poder vem de cima, e se negocias nos porões, a confiança vem de baixo, e essa confiança vocês perderam.

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Registro aqui minha repulsa à agressão sofrida pela jornalista Míriam Leitão. A intolerância dos agressores atingiu não só a ela, também à liberdade de imprensa.
O Globo, 17/06/2017

Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL. Eleita em 11 de abril de 2013, é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.




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quinta-feira, 25 de maio de 2017

DE CERTEZAS E INCERTEZAS- por Rosiska Darcy de Oliveira

De certezas e incertezas

O esgoto transbordante com que o povo brasileiro convive desde o começo da Lava-Jato não para de jorrar. Por pior que seja a sensação cotidiana de desgosto e nojo, a gravação do presidente Temer, apanhado em conversas estarrecedoras com o empresário Joesley Batista, e a desfaçatez de Aécio Neves, pedindo propina do mesmo empresário e oferecendo em troca diretorias da Vale, dão a dimensão do profilático trabalho de purga que a operação Lava-Jato vem fazendo. Na semana passada, foi a vez de Lula e Dilma serem desmascarados pelos marqueteiros que inventaram suas máscaras.

Não fosse o nível rasteiro do que está em jogo — roubalheiras e mentiras —, a morte política de personagens centrais dos últimos governos lembraria o desfecho das tragédias. Aqui é só o enredo de um folhetim político-policial com bandidos em todos os partidos, atirando uns nos outros, mas trabalhando todos, cúmplices, para sabotar a Lava-Jato. O que desde logo desmente as acusações de parcialidade que lhe imputavam as vozes raivosas do PT.

Vira-se uma página da história contemporânea que, melancólica, termina com o sistema político caindo de podre. Que futuro ainda é possível para um país massacrado por crise econômica e acefalia política?

Temer escolheu não renunciar. Mais cedo ou mais tarde, será destituído pelo TSE ou em um processo de impeachment. Seu governo tornou-se inviável e agoniza. A base parlamentar se esfacela. Ele nega as acusações. Não convence. Se se agarrar à cadeira presidencial, provocará uma crescente exacerbação da população que já lhe perdeu o respeito. Mexerá em vespeiro.

Em meio às incertezas, algumas certezas. A Constituição deve ter a primeira e última palavra, e a sua defesa caberá sempre ao Supremo Tribunal Federal. O funcionamento das instituições democráticas deve ser garantido impedindo que pescadores de águas turvas se insinuem como salvadores da pátria. Seria uma trágica ironia da história se todo esse esforço de moralização da vida pública desembocasse na ascensão de demagogos e corruptos.

No horizonte, acumulam-se interrogações e riscos. Na hipótese de eleições indiretas para substituir Temer, como previsto na Constituição, o presidente da Câmara ou, na ausência dele, o do Senado, ambos comprometidos na Lava-Jato, teriam legitimidade moral para assumir interinamente a Presidência e comandar o processo de eleição do novo presidente? Não seria mais indicado que a ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, de indiscutível honorabilidade, assumisse essas funções?


A honorabilidade deve se tornar uma exigência incontornável para ocupar cargos de comando do país. Uma vida pública sem máculas seria, no caso de eleições indiretas, o requisito primeiro para a escolha de um candidato ou candidata tanto quanto possível consensual. O espírito da Lei da Ficha Limpa deveria ser rigorosamente invocado na legitimação de candidatos a todo e qualquer cargo público, sobretudo a chefia do Poder Executivo.

Em situações normais, eleições diretas seriam o caminho mais apropriado para refundar o país. Porque é disto que se trata, refundar o Brasil. Mas não estamos vivendo tempos normais. O país foi saqueado. A Lava-Jato ainda não chegou ao fim de seu trabalho de erradicação da corrupção. A prova é que, como agora, descobrimos, pasmos, que crimes continuam sendo cometidos por políticos que não se arrependem, reincidem, têm uma fé cega na impunidade.

O que está em jogo é um embate decisivo entre o sucesso da Lava-Jato com a punição dos culpados e o risco de volta ao poder daqueles que, por palavras e atos, minaram a democracia até quase destruí-la. O tempo da Justiça pode não coincidir com o da política.

Duzentos e oito milhões de habitantes, vivendo em um gigantesco território, donos de bens naturais inestimáveis como a Amazônia e bacias hidrográficas de dar inveja a um mundo assombrado pela carência de água e de ar puro, com capacidade empresarial para construir a Petrobras e reconstruí-la depois de um assalto demolidor. Assim é o Brasil. Um povo que ganha honestamente a sua vida, uma cultura mestiça, que dá lições de diversidade a quem não suporta um vizinho estrangeiro.

Não somos um país de corruptos, somos um país em que, durante décadas, os governantes se venderam e nos venderam a umas poucas gigantescas empresas que, na sombra, governavam, pervertiam o Estado e a política, cresciam como parasitas, sugando os recursos públicos. A essa devastação, sobrevivemos. O Brasil é maior do que a crise, essa é a maior certeza.

O Globo, 20/05/2017




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Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013, Rosiska Darcy de Oliveira é escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.

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