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domingo, 22 de julho de 2018

ITABUNA, TERRA AMADA: As Solidões de Sonia Coutinho, por Cyro de Mattos


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As Solidões de Sonia Coutinho  
            Cyro de Mattos


Sabemos que a morte é o que temos de mais certo na vida. Nunca nos  acostumamos com o quadro irreversível dessa senhora que não sabe o que é remorso.  Pensei nisso quando tomei  conhecimento  da notícia chocante de que a escritora  Sonia Coutinho foi encontrada morta pela filha em seu apartamento, no Rio de Janeiro.   Aos 74 anos de idade, a escritora baiana morava sozinha.  Comentou-se que havia  comunicado à filha pouco antes um mal-estar.

             A visita dessa senhora  cor de luto é amarga.  Em alguns  casos,  quando se vive muito, preenche-se a vida com ganhos, formando-se uma biografia bem-sucedida no plano familiar, econômico e profissional, ocorre o consolo entre os parentes, amigos e conhecidos do falecido. O trauma é atenuado com  o fato  de que não se podia querer mais do morto. A dura lei da  vida foi para ele  recheada de trunfos. Assim, o falecido, de saudosa memória, deixa boas marcas e lembranças.

            Com Sonia Coutinho, a traiçoeira invenção da vida não permitiu sob vários aspectos que os fatos acontecessem no lado azul da canção. Mas  não é o momento agora para se falar das amargas que perseguiram essa admirável  escritora baiana.  Se Virgínia Woolf disse que viver é perigoso, verdade que alcança todos nós,  em nossa condição de solitários no mundo,  com Sonia Coutinho, autora de uma obra na moderna literatura brasileira ao nível de Clarice Lispector, foi para lá de lastimável.

            Ela nasceu em Itabuna, em 1939, filha do promotor Natan  Coutinho, homem culto, poeta parnasiano, inteligência brilhante, que chegou a ser  deputado estadual na Bahia. Com a família, ainda menina,  mudou-se para Salvador. Na capital baiana graduou-se em Letras pela Universidade Federal da Bahia.  Depois que estreou com Do Herói Inútil, em 1966, contos, pequeno grande livro, que já prenunciava uma ficcionista de boas qualidades na sondagem e exposição contraditória da alma humana, ela foi morar no Rio onde exerceu o jornalismo. Viveu para sobreviver no Sul do Brasil  também como tradutora de grandes romancistas e  deu prosseguimento à sua carreira literária.

            Publicou, entre outros,  Nascimento de Uma Mulher, 1971, Uma Certa Felicidade,1976, O Último Verão de Copacabana, 1985, livros de contos. E os  romances: O Jogo de Ifá,  1980, Atire em Sofia, 1989,  O Caso Alice, 1991,  e Os Seios de Pandora, 1999. Era  também ensaísta. Seus textos participam   de importantes  antologias do conto, no Brasil e exterior. Conquistou prêmios literários expressivos, com destaque para o Jabuti da Câmara Brasileira do Livro (SP), duas vezes, o da Revista Status, para literatura erótica, e o da Fundação Biblioteca Nacional.

            Sua ficção une arte e documento para situar o real como vínculo de gravidade nas limitações da condição humana. Desenganos,  desencontros, problemas existenciais e psicológicos de natureza aguda na cidade grande, informam o herói em crise, que a autora logra questionar através de cortes e monólogos interiores,  em suas narrativas curtas e longas, de densidade existencial surpreendente.

            Sonia Coutinho pertenceu  à geração desse escriba interiorano.  Dizia-se entre os de sua geração  que tinha temperamento difícil no trato com os companheiros de letras na Bahia. Comigo não foi bem assim. Gostava de privacidade. Cultivava o pensamento livre e se  mostrava contrária à atitude postiça da família burguesa em sua maneira de conceber as pessoas no mundo. Sempre quis ser uma escritora com circulação nacional. Em Salvador foi casada com o poeta Florisvaldo Mattos. Quando foi morar no Rio, viveu  aventura amorosa com o romancista Marcos Santarrita e, por último,  Hélio Pólvora, autor de qualidades expressivas  na arte da criação literária, também nascido em Itabuna.
 
            A  solidão e sua vocação legítima para escrever o bom texto deram-lhe o convívio íntimo e pessoal para erguer  uma  leitura crítica da vida como poucos.  Um ritual doloroso de intensa celebração dos escombros e ruínas humanas ante a  indiferença da existência.  Seu  grande ponto de gravidade para construir uma obra literária de dimensão maior, com uma  estrutura criativa coesa,   encontrou eco numa dura  solidão, que abraçou como maneira de vida e nunca se afastou dela. Criatura incompreendida por companheiros de geração, foi  autêntica na sua maneira particular de sentir os seres humanos em trânsito no mundo.
 
            Como ícone da moderna literatura brasileira no século XX, há anos ela já é reconhecida,  nos meios avançados  e da melhor crítica.    

  
  * Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz. Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Segundo Lugar do Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro ,  duas vezes, em Gênova, Itália, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras,  o da Associação Paulista de Críticos de Arte   e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil.

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segunda-feira, 12 de junho de 2017

CERRADOS E CACAUAIS – Sonia Coutinho

Cerrados e Cacauais


            O ônibus freia bruscamente, parece que um animal atravessava a estrada, em meio à escuridão. Alguns passageiros acordam, estremunhados, mas Renato não tinha conseguido dormir um só instante, a mente girando um carrossel de recordações cada vez mais antigas.

            Os primeiros tempos na cidadezinha onde nasceu, quando a Segunda Guerra Mundial estava pela metade. Sua família tinha um rádio e, quando o conflito terminou, todos saíram correndo e gritando pelas ruas. A guerra, para eles, era uma coisa distante, quase inverossímil, mas, agora que tinha acabado, sentiam que uma nova era ia começar. Aquela noite, em comemoração, foram acesos muitos fogos de artifício.

            Talvez seja essa, pensando bem, imagina Renato, a única lembrança de alegria coletiva daquele período. O resto são visões sombrias, uma pequena cidade cercada de florestas, onde o índio continuava uma presença misteriosa e ameaçadora, coisa atemorizante se inserindo no cotidiano das pessoas, como se todos esperassem um ataque iminente, mas sempre adiado.

            Já menino de sete ou oito anos, quando sua família se mudou para a capital do Estado, reencontrou aquela região – a Região Cacaueira – na psicologia de todos os seus parentes. Aquele sentido trágico e fatalista da vida, resultante, segundo concluiu, da imprevisibilidade das safras, das possíveis pragas, o preço do cacau, decidido sempre em outra parte (fatores internacionais de mercado etc.), tudo  coisas completamente incontroláveis e remotas para os moradores da região. Que, às vezes, estavam bem de dinheiro só para, poucos meses depois, quase mendigarem alguma coisa para comer. Tinha chovido demais, dera a mela, a podridão parda, a safra estava inutilizada. O peso da Moira, como na mitologia grega.

            Fora isso, tudo que conseguia lembrar-se daqueles primeiros anos da sua vida eram cenas disparatadas e dispersas – a mulher-aranha de um espetáculo circense, a avó espírita que “dava passes” e “recebia o caboclo”. Além de recantos escuros, muitos recantos escuros,  uma escuridão vinda de sob as árvores de grande floresta que abrigava os cacaueiros.


(“O JOGO DE IFÁ”)

Sonia Coutinho
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Sônia Coutinho nasceu em Itabuna, em 1939, e era filha do poeta simbolista Nathan Coutinho (1911-1991). Teve 11 livros publicados e traduziu outros 3.

Seu primeiro livro, "O Herói Inútil", foi lançado em 1964, em Salvador, pela Editora Macunaíma. Romancista, contista e tradutora, Sonia ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti de Literatura. Em 1979, com "Os Venenos de Lucrécia", e em 1999, com "Os Seios de Pandora".

Em 2006, a escritora recebeu o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, para o melhor livro de contos com "Ovelha Negra" e "Amiga Loura". Entre outros títulos da autora, destaque para "Uma Certa Felicidade", "Mil Olhos de Uma Rosa" (2001), "O Caso Alice" (1991) e "O Jogo de Ifá" (2001).

Em 1994 ganhou o título de mestre em teoria da comunicação com a tese-ensaio "Rainha do Crime — Ótica Feminina no Romance Policial”.

Faleceu  no dia 24 de agosto de 2013.

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quinta-feira, 20 de abril de 2017

FILHOS DE ITABUNA: Sonia Coutinho

Sônia Coutinho


Sônia Coutinho nasceu em Itabuna, em 1939, e era filha do poeta simbolista Nathan Coutinho (1911-1991). Teve 11 livros publicados e traduziu outros 3.

Na infância começou as primeiras leituras, livros infantis e contos de Maupassant, frequentava a biblioteca do pai. Licenciada em inglês, formada pela Faculdade de Letras da Universidade Federal da Bahia. Jornalista com passagem como redatora pelo “Jornal do Comércio”, “O Jornal”, “O Globo” e agência Reuters, no Rio de Janeiro.

Sua ficção une arte e documento para situar o real imbrincado nas limitações da condição humana. Desenganos, desencontros, problemas existenciais e psicológicos na cidade grande informam o herói em crise que a autora logra exibir com surpreendente força em suas narrativas.

Seu primeiro livro, "O Herói Inútil", foi lançado em 1964, em Salvador, pela Editora Macunaíma. Romancista, contista e tradutora, Sonia ganhou duas vezes o Prêmio Jabuti de Literatura. Em 1979, com "Os Venenos de Lucrécia", e em 1999, com "Os Seios de Pandora".

Em 2006, a escritora recebeu o Prêmio Clarice Lispector, da Biblioteca Nacional, para o melhor livro de contos com "Ovelha Negra" e "Amiga Loura". Entre outros títulos da autora, destaque para "Uma Certa Felicidade", "Mil Olhos de Uma Rosa" (2001), "O Caso Alice" (1991) e "O Jogo de Ifá" (2001).

Sônia Coutinho foi casada com o poeta, escritor e jornalista Florisvaldo Mattos, com quem teve uma filha.

Participou de várias antologias nacionais e internacionais e teve sua obra também publicada nos Estados Unidos, na França e na Alemanha. Seu conto "Toda Lana Turner Tem Seu Johnny Stompanato", publicado originalmente em seu livro "O Último Verão de Copacabana", foi incluído na antologia "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", organizado por Italo Moriconi.

Em 1994 ganhou o título de mestre em teoria da comunicação com a tese-ensaio "Rainha do Crime — Ótica Feminina no Romance Policial”.

Sônia Coutinho faleceu  no dia 24 de agosto de 2013.

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Trecho do conto Camarão no jantar de Sônia Coutinho:



“E chega a noite do prometido jantar.

Não quero descrever a angústia dessa mulher, na sala, meia-luz, enquanto o tempo passa e a comida esfria.

Rogério está atrasado meia hora, mas ela ainda não sente inquietação. De vez em quando, vai até a cozinha dar uma olhada no bobó. Para acompanhar, há apenas arroz, uma refeição simplificada.

Agora, Rogério está atrasado uma hora, mas ainda sente esperanças.

Uma hora e meia de atraso, toda e qualquer possibilidade vai desaparecendo deste mundo.

Ah, mas que história insuportável. Ah, meu Deus, que dor. Terrível, a dor dessa perda.

Um amor que, no entanto, ela continua achando que não levou tão a sério quanto merecia.

Por que teve aquela reação tão radical, quando soube que ele era casado? Por que não fez como todas as outras, foi levando? Como não percebeu na mesma hora que tinha de ser humilde, porque jamais esqueceria aquele amor?

Um homem que, quem sabe — e isso alimenta sua dor —, ela talvez tivesse conquistado, no início, se fosse mais esperta.”



(Texto organizado por Eglê Santos Machado)
Fontes: A TARDE – Cultura/Literatura 25/08/2013, Cyro de Mattos/ ”Itabuna, chão de minhas raízes” e Projeto Releituras.

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