Paulo Bezerra – Juiz do Trabalho da 19ª Região – AL
(Poema escrito em União dos Palmares)
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O ESTRO QUE ILUMINA O SER – 1ª EDIÇÃO
Paulo Bezerra
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quarta-feira, 9 de março de 2022
Agudo mundo ou do solitário caminhante nos campos insanos
Cyro de Mattos*
...matador de
pássaro terra água a mancha que envergonha.aguda fome vil de novo impelindo-te.fecha as pálpebras o sol quando vê tuas águas oleosas ondas dum peito
sem dó e lágrima a comemorar de ira excedido o que o coração mais lateja
desamor a queimar no verde a cobrir com cinzas os tocos das vastidões
desoladas. em flor carbonizada borboletas ausentes de odores fragrâncias sem
finas saliências a relva em hesitante tremor. sem tecer da natureza minúsculos
dramas a vida.sanha sorves de todas as
forças reunidas pulsando veias nervos num calor para matar os sobreviventes. te
ativa o cheiro enfurecido das manadas som das patas nas têmporas tua fronte do
animal transformador babando bufando nas rugas do tempo o detentor só de
fissuras o mundo te pergunta se no antigamente havia o semeador no campo de
centeio decididamente desviado da rota alegre dos dias preferindo ser o que se
acha nos gestos impuros mãos impassíveis dentro da bruma.o litoral tu fizeste de tal assombro clamor
que perfura a inocência irrompendo das gargantas sedentas do abraço. que
adiantam soluçantes vozes emanando miasmas contaminações dos peitos esvaídos a
cidade em grito? o deserto o deserto tua marcha algemando estas mãos abertas em
súplicas sopradas por vento de amanhecer sofrido. de assaltos atropelos dizem
os que são vítimas dum surpreendente audaz animal andarilho bicho insano
poliglota suicida
NÃO NOS MATE MAIS SOMOS A INFÃNCIA QUE VIVE NAS COLMEIAS DO
METRÕ DORME EM ESCADARIA DE IGREJA ROLA NAS RUAS SOLITÁRIAS PUTAS NO CALABOUÇO
DA CARNE NEGROS AÇOITADOS NOS PORÕES DA MEMÓRIA ESCRAVA POUCOS NATIVOS
SOBREVIVENTES EM GRITO DA FUGA TRESPASSADA NOS RASTROS DA DESGRAÇA
fuzilas com
o sorriso aplaudes com os dentes de metralha habitas nesta inconcebível fundura
dos mais vastos ais abismo feito invenção de fornos crematórios no espetáculo
de amontoados nos vagões como boi pro matadouro tão pele osso os que sequer
adeus podiam dar aos que ficavam sonâmbulos penetrados de angústia pelas
trilhas do horror. tua máscara o sabor dos holocaustos tuas veias até hoje
inflamadas no letreiro de ódio:
MINHA VOZ CONFUNDE ATÉ O AR AS AMARGAS SIM AO INVÉS DE
SADIOS SABERES BEM-VINDOS NO AMOR SABORES DAS FRUTAS DOCES NO VERSO DO TEMPO ME
MASCARO DE IDEOLOGIA NEGATIVA NADA DE UTOPIA COMO CANÇÃO DO AMOR
de
crimes hediondos executor numa incrível capacidade de proliferar tudo que não
se cobre com a folhagem da vida
QUERO QUE O POBRE EXPLODA MENINO DE RUA SE FODA PRETO QUE SE
LASQUE PUTA QUE VÁ PRA PUTA QUE PARIU ÍNDIO MATO AGORA É COM GRANADA
à
vontade instauras teus ares disseminando pétalas atômicas. gente flora fauna
alimentando teu ópio com ventos gemedores urdidos de agonia nos sequestros
diabólicos. o viajante das estrelas corruptor corrompido estampado no mundo não
mundo como o matador incansável dos que cantam a poesia da pomba em veias puras
da manhã carícia feita mansidão verdadeira. na bomba teu maior elogio dos
escombros no sal destas águas que despojam as cores do arco-íris nada de choro
com a menina morta a bala perdida encravada na cabeça remorso não habita teus
becos insones bem conheces tua música de eficiente terror no ar a explodir a
maravilha estilhaçada de gritos entre tudo que soterras quem te fez exilado nas
próprias sombras dos anos desalmados? não maispressentes sementes da terra amputada dos rumoresdo vento nos ramos trescalando chuva de
flores nem o encontrodos amantes com
seus anéis brilhando nos jardins do amor já não existemais choro mais grito mais dor mais nada
conseguiste secartodas as lágrimas de
seres provisórios neste estar no mundo ambíguo. não conseguem encarar-te as
trevas há muito tempo a morte evita encontrar teu olhar medonho numa carreira
tão veloz sumiu para que o vento mais rápido nessa fuga de assombros nunca
consiga alcançá-la
apesar de tudo creio.sabe o tempo caminhos de mim mais os outros mais o mundo. duma flauta
mágica da qual escorre uma música de tranças que se faz no seu expectante
amanhecer. enleio de canção que acena com luzes na parte obscura do ser
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* Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, ensaísta, cronista,
romancista e autor de literatura infantojuvenil. Editado também em Portugal,
Itália, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Premiado no Brasil e
exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e Pen Clube do Brasil. Primeiro
Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Autor de mais de 80 livros.
É NO CORAÇÃO QUE DEUS COLOCOU O TALENTO INVENTIVO DAS
MULHERES, PORQUE AS OBRAS DESSE TALENTO SÃO OBRAS DE AMOR. - Alphonse de
Lamartine
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segunda-feira, 7 de março de 2022
Duas
mulheres guerreiras de Jorge Amado
Cyro de Mattos
Reconhecido
como o embaixador símbolo do povo brasileiro no exterior, Jorge Amado, o baiano
que dizia ser a sua paixão escrever, viver sem ela não fazia sentido diante das
incompletudes da vida, no romance Tieta do Agreste cria uma das
personagens femininas mais sensuais e rica de caráter para ficar em definitivo
com a sua grandeza na prateleira da sua galeria de mulheres inesquecíveis,
elaboradas com imagens certeiras, bem forjadas nos traços do caráter e curvas
de cada beleza, como ressoam na retina os casos de Gabriela, Dona Flor e Teresa
Batista, para citar algumas.
Liberação
sexual, luta pelo poder, necessidade de preservar o meio ambiente, conflito
entre o atraso e o progresso são alguns dos ingredientes formadores do cenário
provinciano de Santana do Agreste, palco onde vai se desenrolar o enredo
protagonizado por Tieta, a pastora de cabras, representante da garra e ardência
da vida, expulsa pelo pai por ser muito namoradeira. E, pelo outro lado
Perpétua, a irmã rival, ciumenta, invejosa, com um caráter mesquinho, que
encarna tudo que é maledicência para nutrir a alma com negações nos dias cor de
sombras.
A volta de
Tieta de São Paulo cria um rebuliço no ambiente da vidinha provinciana, da
cidade estagnada no tempo, alimentada dos valores mesquinhos, da fuxicaria na
falta de perspectivas, acostumada à vigilância dos que vivem de vigiar a vida
alheia, sem razão para alcançar os horizontes dos melhores dias.A menina que saíra pobre da sua terra natal
voltava agora amadurecida, cheia de ímpeto para lutar contra os velhos
costumes, pela valorização do meio ambiente, trazendo esperança à localidade
com a instalação da energia elétrica, disseminando novos meios de vida no lugar
dos preconceitos e das desigualdades sociais.
Aos poucos,
o romancista, que aderiu ao humor no lugar do juízo de valor no estilo, vai
colocando nas páginas dúvidas sobre a vida de Tieta em São Paulo. Não se fizera
a moça sedutora que inquietava os homens, nem casara com um comendador rico.
Não passara de dona de um bordel de prostitutas, exploradora de mulheres da
vida, que frequentavam a sua casa, fazendo na prostituição com que suas
condições produzissem a riqueza necessária para o bem-estar da vida.Para muitos em Santana do Agreste o que
importava era sua maneira nova de ver a vida, a garra que transmitia para que a
esperança motivasse livres movimentos, ideias e sentimentos misturados com
fervorosa ternura, na qual sobressaía a garra da vida vivida ardentemente, com
seus lances repletos de inquietações em caminhos contraditórios, desafiadores
na natureza.
De maneira até
certo ponto idêntica com Tieta do Agreste, a leitura de Teresa Batista
cansada de guerra (1977), de Jorge Amado, forte romance, pleno de
verdades, nos força a pensar sobre aquela mulher não resignada, que rola no
mundo. Aquela a quem um dia elogiei com este poema:
Para onde vá sem voz
Deixa que seja levada.
Maneira de ser conduzida
Expressa o espaço inútil.
Rolam anos de vergonha,
O que podemos achar nela?
Amanhecer é preciso
Apesar das opressões.
Chega! Um grito é capaz
De parir as próprias emoções.
Sabe que viver são ondas
Passando pelo mito da mulher.
Significa enfim o arrojo
Ao alcance da verdade.
Tal qual o parceiro na lida
De frente para o mundo.
A personagem
Teresa Batista simboliza a vida de muitas mulheres marcadas pela violência
física e psicológica do machismo, preconceito e injustiça social. Sua história
caracteriza-se pelas circunstâncias de uma garra mística, que exibe sem
romantismos o contexto formado de negações, entranhado na desumanidade, no
machismo que ofende e não se dá por satisfeito porque está nas entranhas do
irracionalismo.
A narrativa
de alentado volume une as pontas de passado e presente, com feição de cordel em
muitas passagens, dando uma visão certeira das relações sociais da Bahia em
meados do século XX. No centro das atenções, à mulher reserva-se o polo passivo
da submissão, que lhe é imposto sem concessão, para ser vista como alguém
relegado à passividade, dominada pelas normas de desumanidade e preconceito.
De regresso
a Sergipe, depois de solta com a intervenção do advogado Lulu Santos, a estrela
da noite fará sua estreia no cabaré famoso. A cena do homem que, na pista de
dança, bate na sua mulher, deixa essa heroína das gentes indefesas com sangue
nos olhos. Fere os brios de quem não gosta de ver homem batendo em mulher. Vai
para cima dele, a briga rende-lhe ferimentos e a quebra dos dentes, é presa.
Tem início aí o inconformismo da personagem, que terá uma imagem construída com
valentia e misticismo, a se opor sempre contra as injustiças cometidas pelo
sistema de poder contra a mulher.
O espírito
de revolta dessa mulher incrível está ligado ao passado sofrido, reiterado pela
pobreza, abandono e exploração sexual. Para atenuar as negações do mundo,
acompanham-na três orixás, de quem herda forças e virtudes que lhe infundem o
caráter. De Iansã, dona dos raios e tempestades, ela herda a coragem e a
valentia, de Omolu, orixá que cura as moléstias, a perseverança de quem tudo dá
e nada quer em troca, pois como reza o canto, “o mundo de Deus é grande, trago na mão fechada, o pouco
com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.” De Oxalá, dono de Olorum, o pai de
todos os orixás, tem o socorro da mão protetora, que a salva das ocasiões
perigosas.
Menina,
órfã, aos doze anos, por uma ninharia é vendida pelos tios ao capitão
Justiniano Duarte da Rosa, conhecido na região pelas falcatruas, corrupções e
estupros. Sua tara tende para preferir as vítimas que mal tinham tido a
primeira relação sexual. Teresa Batista torna-se propriedade sexual exclusiva
do capitão, violentada todos os dias, durante anos.Numa proeza em que entram a audácia e o
espírito místico, ela consegue escapar da prisão na casa do capitão Justiniano.
Por sua valentia atuante nas causas justas,
vai para a prisão, torna-se amante de um coronel, que certa vez a libertou.
Depois que ele morre, volta à prostituição para poder se sustentar, até que
encontra o jovem médico, junta-se a ele, que a leva para uma cidadezinha no Sergipe.
Lá é que outra vez se mostra como verdadeira guerreira, dessas que causa pasmo
e é aplaudida de pé pelos que são vítimas de circunstâncias críticas operadas
pela dura lei da vida.
Inspirada por Omolu, combate sem trégua uma
epidemia de varíola, sem temer permanece no meio das prostitutas da pequena
cidade de Buquim. Em Salvador, mais uma vez volta à prostituição, mobiliza e
lidera uma greve das prostitutas contra a violência policial e a destruição dos
prostíbulos mais pobres. Essas e outras façanhas constroem a biografia
audaciosa de Teresa Batista, mulher guerreira, de feitos intrépidos e incomuns
na travessia da vida, de caráter forjado com a fome, peste e guerra. Na
constante estupidez cometida pela sociedade contra a mulher, valente e impetuosa.Daí se tornar no estrangeiro a bandeira de
movimento feminista.
Referências
AMADO, Jorge. Tieta do agreste, romance, Editora
Record, Rio,
1977.
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Teresa Batista Cansada de Guerra, romance,Livraria Martins Editora, São Paulo, 1972.
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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da
Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris
Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou
do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado
pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso,
sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda
que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só
de pão vive o homem’”
O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante
todos os reinos do mundo e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda
a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem
quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso
será teu”.
Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu
Deus, e só a ele servirás’”.
Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a
parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui
abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu
respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas
mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”.
Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o
Senhor teu Deus’”.
Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para
retornar no tempo oportuno.
“Jesus, cheio
do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo
Espírito” (Lc 4,1)
O primeiro domingo da Quaresma sempre apresenta o relato das
tentações de Jesus no deserto, que ajuda a desvelar o sentido de
sua missão, seu caminho, seu destino. É relevante o fato de que se vincule a
ida de Jesus ao deserto após o batismo, sendo conduzido pelo Espírito.
O deslocamento de Jesus ao deserto está em profunda sintonia
com a experiência vivida pelo povo judeu.
Foi no deserto que Israel aprendeu a descobrir e a
confiar em Deus. Longe da segurança do Egito, emergiu o que havia no fundo do
seu coração. Os profetas cantaram o tempo do deserto como tempo
das obras maravilhosas de Deus. Foi no deserto que o povo
de Israel sentiu profundamente sua pequenez e total dependência de Deus.
Não existiam caminhos prontos. Era preciso
discutir, planejar, rezar, lutar e sonhar para fortalecer a caminhada. No
fundo, o Êxodo foi um profundo tempo de discernimento coletivo, que
desembocou numa radical opção pela liberdade, porque um povo só é livre
quando pode decidir o rumo de seu caminhar:
Deserto: lugar da Aliança, escola da intimidade
com o Senhor; expressão que, mais do que um determinado lugar, indica uma
experiência forte de Deus.
Jesus, como todos os profetas, antes de assumir
sua missão, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Frequentemente Ele recorria
a esta experiência em meio à sua vida ativa: afastava-se para lugares
solitários, confrontava a sua missão com a Vontade do Pai.
Todos os personagens bíblicos, todos os(as) santos(as)
passaram pela experiência de deserto: peregrinação interior,
confronto com a própria vida, comunhão com o Senhor, descoberta da própria
missão...
“Eu o(a)
levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os. 2,16).
Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas
por Jesus no deserto não são propriamente de ordem moral. Não se trata de uma
eleição entre o bem e o mal. São tentações que apresentam maneiras falsas de
entender e viver sua missão. O tempo do deserto foi, para Jesus, um tempo
de discernimento sobre os melhores “meios” para viver seu
messianismo. As tentações não diziam respeito ao “ser Messias” de Jesus; isto
estava claro e fora confirmado pela experiência do seu batismo: “Tu és o
meu filho amado”.
As tentações de Jesus aconteceram no campo das mediações: entre
pensar em seu próprio interesse ou deixar-se conduzir pela vontade do Pai;
entre impor seu poder como Messias ou colocar-se a serviço daqueles que mais
precisam; entre buscar a própria glória e prestígio ou manifestar a compaixão
de Deus para com aqueles que sofrem; entre evitar riscos para fugir da
perseguição ou entregar-se fielmente à sua missão, confiando somente no Pai.
De fato, os meios apresentados pelo “tentador”,
humanamente falando, são os meios mais eficazes que ninguém poderia imaginar:
possibilidade de transformar as pedras em pão, o prestígio indiscutível de quem
salta do alto do templo, sustentado pelos anjos e, para culminar, todo o mundo
a seus pés.
Quem resiste a um homem com tais meios?
Todos seriam atraídos porque, em definitiva, teria entre
suas mãos o poder total e o domínio absoluto.
Eis aqui a intuição e a genial proposta do tentador: salvar
e libertar toda a humanidade, mas mediante o poder, o prestígio e
a dominação. O tentador não pretende que Jesus se afaste de seu fim, senão
que procure atingir esse fim, usando os meios que são
exatamente o oposto da solidariedade.
Para a Liturgia, parece ser de uma evidência fundamental que
a pedagogia quaresmal devesse começar por des-velar (tirar o véu) a desordem na afetividade. No
caminho da vivência cristã, percebemos uma “aderência afetiva” (fixação
afetiva) a coisas, posses, pessoas, ideias, cargos, poder, prestígio, status,
ídolos, dependências.... que somada a outras, passa a constituir uma estrutura
de “maus afetos” (“afetos desordena-dos”), esvaziando ou atrofiando o seguimento
de Jesus
A Quaresma, nesse sentido, apresenta-se como uma pedagogia
para aprender a ordenar nossos afetos”, libertar-nos dos afetos
desordenados e assim percorrer o caminho do desejo mais
profundo: estratégia centrada em Deus, leve e cheia de graça, uma aventura...
O desejo de poder, de possuir, de ser
o centro (ego inflado) confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma
lição moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico e espiritual
que se dá em nós pelo fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a
consequente perda de liberdade e o perigo da dependência que
esse apego causa. O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com
facilidade. Perdemos o “fluxo” da vida, o impulso do movimento, a
suavidade do “deslizar pela existência”.
“Diga-me o tamanho dos seus apegos, e eu lhe direi o tamanho do
seu sofrimento”.
É necessário introduzir um princípio “ordenador” em
nossa vida, que inspire todo o nosso ser e o nosso agir, até que a “afeição” se
converta em identificação existencial com Jesus Cristo.
Esse novo objeto deve ter uma repercussão decisiva
na configuração da vida. Isto é, somos chamados a modificar profundamente o
mundo de valores, pensamentos, condutas...
É necessário, ao iniciar o percurso quaresmal, detectar
os condicionamentos afetivos (amarras) que de fato limitam a
nossa liberdade, bloqueando-nos diante da proposta de vida que Jesus nos
apresenta.
O que está em jogo no “deserto quaresmal” é chegar a conhecer-se profundamente,
encontrando a raiz do próprio ser nos afetos desordenados.
Esse conhecimento interior, profundo, é condição
indispensável para poder dispor de si, em maturidade de liberdade. Sem
ordenar os afetos o ser humano não é verdadeiramente livre. A “desordem” nos
afetos produz em sua liberdade uma essencial falsificação: faz tomar como absolutos o
que são coisas relativas.
Só ordenando os afetos a pessoa se situa diante de
Deus, reconhecendo-O como Absoluto.
Há afetos organizados negativamente por acúmulo
de “experiências negativas”. Para atingi-los, a pedagogia quaresmal
coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, sua missão, o
Reino, ...)
Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o
que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou
seja, reorientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou
pessoas para um horizonte de sentido: amor a Jesus Cristo e a seu Reino.
Nesse sentido, nossa quaresma torna-se um “estar
com Jesus” no deserto, para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa
vida.
A quaresma é um tempo em que damos maior liberdade
a Deus para agir em nós; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus.
É tempo de reconstrução de nós mesmos (conversão), de retomada da
opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais
compaixão, mais solidariedade...).
Nossos “apegos” se assemelham às construções à
beira do rio que nos fixam num determinado lugar que nos parece confortável,
desejável e seguro. Mas, se assim agirmos, afastamo-nos da correnteza da vida e
não vai fluir em nós nem crescimento e nem progresso rumo à liberdade dos
filhos de Deus.
A experiência de deserto passa a ser “tempo e
lugar” de decisão, de orientação decisiva da vida, de enraizamento de
nossos valores, de consciência maior da nossa identidade pessoal e da nossa
missão... O mestre do deserto é o silêncio; o deserto tem
valor porque revela o silêncio, e o silêncio tem valor
porque nos revela Deus e a nós mesmos.
O deserto é o grande auditório para ouvir
Deus; “solidão” cheia de presença. Ainda que sozinhos, sentimo-nos
solidários, em comunhão com todos. O decisivo é “deixar-nos conduzir” pelo
Espírito. Aqui não há engano.
Texto bíblico: Lc 4,1-13
Na oração: Temos muitas atitudes,
posses, ideias, cargos, posições, bens... que consideramos ser
Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos medos, de
nossa insegurança...
O desafio permanente é este: examinar as “coisas” que
estão ocupando por completo nossa existência e “tomando conta de nós” a ponto
de bloquear o fluxo da graça e da vida.
- Quais “tentações” estão travando
sua vida, impedindo-o de seguir a Jesus mais livremente?
- Rezar suas “pulsões desordenadas” que atrofiam sua
sintonia com Deus e sua abertura aos outros.