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quinta-feira, 10 de março de 2022

RUMO E FASES - Paulo Bezerra

 


Rumo e Fases

 

 

Quando eu tinha dez anos

sentava-me na pedra e olhava o mar.

Via navios iluminados

e sonhava com um mundo lá de fora.

E já tinha tanto, no peito, pra dizer.

 

Quando eu tinha quinze anos

sentava-me na pedra e olhava o mar.

Não via mais os navios,

mas sonhava com um mundo lá de fora

e tinha mais coisas, no peito, pra dizer.

 

Quando eu tinha vinte e cinco anos

sentava-me na pedra e olhava o mar.

Não via mais os navios iluminados,

nem sonhava com um mundo lá de fora,

mas tinha, ainda, coisas, no peito, pra dizer.

 

Quando eu tinha trinta e cinco anos

não sentava mais na pedra nem olhava o mar.

Não via os navios iluminados,

nem sonhava com um mundo lá de fora.

Mas já gritava o que tinha, no peito, pra dizer.

 

Às vésperas dos quarenta e cinco anos

não sento na pedra, nem olho o mar.

Não vejo os navios iluminados,

não sonho com um mundo lá de fora,

nem uso palavras pra dizer o que tenho pra dizer.

Apenas vivo, e digo, assim, sem ter palavras,

tudo o que tinha e tenho pra dizer.

 

Paulo Bezerra – Juiz do Trabalho da 19ª Região – AL

(Poema escrito em União dos Palmares)

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O ESTRO QUE ILUMINA O SER – 1ª EDIÇÃO

Paulo Bezerra

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quarta-feira, 9 de março de 2022


 

Agudo mundo ou do solitário caminhante nos campos insanos

Cyro de Mattos*

 

    ...matador de pássaro terra água a mancha que envergonha.   aguda fome vil de novo impelindo-te.  fecha as pálpebras o sol quando vê tuas águas oleosas ondas dum peito sem dó e lágrima a comemorar de ira excedido o que o coração mais lateja desamor a queimar no verde a cobrir com cinzas os tocos das vastidões desoladas. em flor carbonizada borboletas ausentes de odores fragrâncias sem finas saliências a relva em hesitante tremor. sem tecer da natureza minúsculos dramas a vida.  sanha sorves de todas as forças reunidas pulsando veias nervos num calor para matar os sobreviventes. te ativa o cheiro enfurecido das manadas som das patas nas têmporas tua fronte do animal transformador babando bufando nas rugas do tempo o detentor só de fissuras o mundo te pergunta se no antigamente havia o semeador no campo de centeio decididamente desviado da rota alegre dos dias preferindo ser o que se acha nos gestos impuros mãos impassíveis dentro da bruma.  o litoral tu fizeste de tal assombro clamor que perfura a inocência irrompendo das gargantas sedentas do abraço. que adiantam soluçantes vozes emanando miasmas contaminações dos peitos esvaídos a cidade em grito? o deserto o deserto tua marcha algemando estas mãos abertas em súplicas sopradas por vento de amanhecer sofrido. de assaltos atropelos dizem os que são vítimas dum surpreendente audaz animal andarilho bicho insano poliglota suicida 

 

NÃO NOS MATE MAIS SOMOS A INFÃNCIA QUE VIVE NAS COLMEIAS DO METRÕ DORME EM ESCADARIA DE IGREJA ROLA NAS RUAS SOLITÁRIAS PUTAS NO CALABOUÇO DA CARNE NEGROS AÇOITADOS NOS PORÕES DA MEMÓRIA ESCRAVA POUCOS NATIVOS SOBREVIVENTES EM GRITO DA FUGA TRESPASSADA NOS RASTROS DA DESGRAÇA

 

        fuzilas com o sorriso aplaudes com os dentes de metralha habitas nesta inconcebível fundura dos mais vastos ais abismo feito invenção de fornos crematórios no espetáculo de amontoados nos vagões como boi pro matadouro tão pele osso os que sequer adeus podiam dar aos que ficavam sonâmbulos penetrados de angústia pelas trilhas do horror. tua máscara o sabor dos holocaustos tuas veias até hoje inflamadas no letreiro de ódio:

 

MINHA VOZ CONFUNDE ATÉ O AR AS AMARGAS SIM AO INVÉS DE SADIOS SABERES BEM-VINDOS NO AMOR SABORES DAS FRUTAS DOCES NO VERSO DO TEMPO ME MASCARO DE IDEOLOGIA NEGATIVA NADA DE UTOPIA COMO CANÇÃO DO AMOR

 

             de crimes hediondos executor numa incrível capacidade de proliferar tudo que não se cobre com a folhagem da vida 

 

QUERO QUE O POBRE EXPLODA MENINO DE RUA SE FODA PRETO QUE SE LASQUE PUTA QUE VÁ PRA PUTA QUE PARIU ÍNDIO MATO AGORA É COM GRANADA

 

                    à vontade instauras teus ares disseminando pétalas atômicas. gente flora fauna alimentando teu ópio com ventos gemedores urdidos de agonia nos sequestros diabólicos. o viajante das estrelas corruptor corrompido estampado no mundo não mundo como o matador incansável dos que cantam a poesia da pomba em veias puras da manhã carícia feita mansidão verdadeira. na bomba teu maior elogio dos escombros no sal destas águas que despojam as cores do arco-íris nada de choro com a menina morta a bala perdida encravada na cabeça remorso não habita teus becos insones bem conheces tua música de eficiente terror no ar a explodir a maravilha estilhaçada de gritos entre tudo que soterras quem te fez exilado nas próprias sombras dos anos desalmados? não mais  pressentes sementes da terra amputada dos rumores  do vento nos ramos trescalando chuva de flores nem o encontro  dos amantes com seus anéis brilhando nos jardins do amor já não existe  mais choro mais grito mais dor mais nada conseguiste secar  todas as lágrimas de seres provisórios neste estar no mundo ambíguo. não conseguem encarar-te as trevas há muito tempo a morte evita encontrar teu olhar medonho numa carreira tão veloz sumiu para que o vento mais rápido nessa fuga de assombros nunca consiga alcançá-la

 

apesar de tudo creio.  sabe o tempo caminhos de mim mais os outros mais o mundo. duma flauta mágica da qual escorre uma música de tranças que se faz no seu expectante amanhecer. enleio de canção que acena com luzes na parte obscura do ser

 

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* Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, ensaísta, cronista, romancista e autor de literatura infantojuvenil. Editado também em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.  Autor de mais de 80 livros.

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terça-feira, 8 de março de 2022

08 DE MARÇO - Dia Internacional da Mulher

 


PARA NOSSA CONSCIÊNCIA

 

Um dia para nossa consciência:

dos homens – que precisam aprender

que braços de ternura e reverência

não são favor algum a se fazer,

mas são direito e dom da convivência!

 

Um dia pra firmarmos compromisso

conosco, com o nosso bem-querer,

em vista de um olhar jamais omisso,

pois elas, as mulheres, são pra ser

parceiras de partilha e de serviço.

 

Um dia que nos lembra esta incumbência:

servi-las!... Sim, a Paz precisa disso!

 

J. Thomas Filho

Petrópolis /RJ


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É NO CORAÇÃO QUE DEUS COLOCOU O TALENTO INVENTIVO DAS MULHERES, PORQUE AS OBRAS DESSE TALENTO SÃO OBRAS DE AMOR. - Alphonse de Lamartine

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segunda-feira, 7 de março de 2022


 

  Duas mulheres guerreiras de Jorge Amado

                                 Cyro de Mattos

 

          Reconhecido como o embaixador símbolo do povo brasileiro no exterior, Jorge Amado, o baiano que dizia ser a sua paixão escrever, viver sem ela não fazia sentido diante das incompletudes da vida, no romance Tieta do Agreste cria uma das personagens femininas mais sensuais e rica de caráter para ficar em definitivo com a sua grandeza na prateleira da sua galeria de mulheres inesquecíveis, elaboradas com imagens certeiras, bem forjadas nos traços do caráter e curvas de cada beleza, como ressoam na retina os casos de Gabriela, Dona Flor e Teresa Batista, para citar algumas.

          Liberação sexual, luta pelo poder, necessidade de preservar o meio ambiente, conflito entre o atraso e o progresso são alguns dos ingredientes formadores do cenário provinciano de Santana do Agreste, palco onde vai se desenrolar o enredo protagonizado por Tieta, a pastora de cabras, representante da garra e ardência da vida, expulsa pelo pai por ser muito namoradeira. E, pelo outro lado Perpétua, a irmã rival, ciumenta, invejosa, com um caráter mesquinho, que encarna tudo que é maledicência para nutrir a alma com negações nos dias cor de sombras. 

          A volta de Tieta de São Paulo cria um rebuliço no ambiente da vidinha provinciana, da cidade estagnada no tempo, alimentada dos valores mesquinhos, da fuxicaria na falta de perspectivas, acostumada à vigilância dos que vivem de vigiar a vida alheia, sem razão para alcançar os horizontes dos melhores dias.  A menina que saíra pobre da sua terra natal voltava agora amadurecida, cheia de ímpeto para lutar contra os velhos costumes, pela valorização do meio ambiente, trazendo esperança à localidade com a instalação da energia elétrica, disseminando novos meios de vida no lugar dos preconceitos e das desigualdades sociais.

          Aos poucos, o romancista, que aderiu ao humor no lugar do juízo de valor no estilo, vai colocando nas páginas dúvidas sobre a vida de Tieta em São Paulo. Não se fizera a moça sedutora que inquietava os homens, nem casara com um comendador rico. Não passara de dona de um bordel de prostitutas, exploradora de mulheres da vida, que frequentavam a sua casa, fazendo na prostituição com que suas condições produzissem a riqueza necessária para o bem-estar da vida.  Para muitos em Santana do Agreste o que importava era sua maneira nova de ver a vida, a garra que transmitia para que a esperança motivasse livres movimentos, ideias e sentimentos misturados com fervorosa ternura, na qual sobressaía a garra da vida vivida ardentemente, com seus lances repletos de inquietações em caminhos contraditórios, desafiadores na natureza.

          De maneira até certo ponto idêntica com Tieta do Agreste, a leitura de Teresa Batista cansada de guerra (1977), de Jorge Amado, forte romance, pleno de verdades, nos força a pensar sobre aquela mulher não resignada, que rola no mundo. Aquela a quem um dia elogiei com este poema:

 

Para onde vá sem voz
Deixa que seja levada.
Maneira de ser conduzida
Expressa o espaço inútil.

Rolam anos de vergonha,
O que podemos achar nela?
Amanhecer é preciso
Apesar das opressões.

 Chega! Um grito é capaz
De parir as próprias emoções.
Sabe que viver são ondas
Passando pelo mito da mulher.

Significa enfim o arrojo
 Ao alcance da verdade.
Tal qual o parceiro na lida
De frente para o mundo.

 

          A personagem Teresa Batista simboliza a vida de muitas mulheres marcadas pela violência física e psicológica do machismo, preconceito e injustiça social. Sua história caracteriza-se pelas circunstâncias de uma garra mística, que exibe sem romantismos o contexto formado de negações, entranhado na desumanidade, no machismo que ofende e não se dá por satisfeito porque está nas entranhas do irracionalismo.

          A narrativa de alentado volume une as pontas de passado e presente, com feição de cordel em muitas passagens, dando uma visão certeira das relações sociais da Bahia em meados do século XX. No centro das atenções, à mulher reserva-se o polo passivo da submissão, que lhe é imposto sem concessão, para ser vista como alguém relegado à passividade, dominada pelas normas de desumanidade e preconceito.

          De regresso a Sergipe, depois de solta com a intervenção do advogado Lulu Santos, a estrela da noite fará sua estreia no cabaré famoso. A cena do homem que, na pista de dança, bate na sua mulher, deixa essa heroína das gentes indefesas com sangue nos olhos. Fere os brios de quem não gosta de ver homem batendo em mulher. Vai para cima dele, a briga rende-lhe ferimentos e a quebra dos dentes, é presa. Tem início aí o inconformismo da personagem, que terá uma imagem construída com valentia e misticismo, a se opor sempre contra as injustiças cometidas pelo sistema de poder contra a mulher.

          O espírito de revolta dessa mulher incrível está ligado ao passado sofrido, reiterado pela pobreza, abandono e exploração sexual. Para atenuar as negações do mundo, acompanham-na três orixás, de quem herda forças e virtudes que lhe infundem o caráter. De Iansã, dona dos raios e tempestades, ela herda a coragem e a valentia, de Omolu, orixá que cura as moléstias, a perseverança de quem tudo dá e nada quer em troca, pois como reza o canto, “o mundo de   Deus é grande, trago na mão fechada, o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada.” De Oxalá, dono de Olorum, o pai de todos os orixás, tem o socorro da mão protetora, que a salva das ocasiões perigosas.

          Menina, órfã, aos doze anos, por uma ninharia é vendida pelos tios ao capitão Justiniano Duarte da Rosa, conhecido na região pelas falcatruas, corrupções e estupros. Sua tara tende para preferir as vítimas que mal tinham tido a primeira relação sexual. Teresa Batista torna-se propriedade sexual exclusiva do capitão, violentada todos os dias, durante anos.  Numa proeza em que entram a audácia e o espírito místico, ela consegue escapar da prisão na casa do capitão Justiniano.

          Por sua valentia atuante nas causas justas, vai para a prisão, torna-se amante de um coronel, que certa vez a libertou. Depois que ele morre, volta à prostituição para poder se sustentar, até que encontra o jovem médico, junta-se a ele, que a leva para uma cidadezinha no Sergipe. Lá é que outra vez se mostra como verdadeira guerreira, dessas que causa pasmo e é aplaudida de pé pelos que são vítimas de circunstâncias críticas operadas pela dura lei da vida.

           Inspirada por Omolu, combate sem trégua uma epidemia de varíola, sem temer permanece no meio das prostitutas da pequena cidade de Buquim. Em Salvador, mais uma vez volta à prostituição, mobiliza e lidera uma greve das prostitutas contra a violência policial e a destruição dos prostíbulos mais pobres. Essas e outras façanhas constroem a biografia audaciosa de Teresa Batista, mulher guerreira, de feitos intrépidos e incomuns na travessia da vida, de caráter forjado com a fome, peste e guerra. Na constante estupidez cometida pela sociedade contra a mulher, valente e impetuosa.  Daí se tornar no estrangeiro a bandeira de movimento feminista.

 

Referências

AMADO, Jorge. Tieta do agreste, romance, Editora Record, Rio, 

1977.

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Teresa Batista Cansada de Guerra, romance, Livraria Martins Editora, São Paulo, 1972.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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domingo, 6 de março de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (257)


1º Domingo da Quaresma – 06/09/2022


Anúncio do Evangelho (Lc 4,1-13)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”

O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”.

Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’”.

Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”.

Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”.

Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Donizete Ferreira – Comunidade Canção Nova:


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Deserto, escola para ordenar os afetos

 


Imagem: pixels.com

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito” (Lc 4,1)

O primeiro domingo da Quaresma sempre apresenta o relato das tentações de Jesus no deserto, que ajuda a desvelar o sentido de sua missão, seu caminho, seu destino. É relevante o fato de que se vincule a ida de Jesus ao deserto após o batismo, sendo conduzido pelo Espírito.

O deslocamento de Jesus ao deserto está em profunda sintonia com a experiência vivida pelo povo judeu.

Foi no deserto que Israel aprendeu a descobrir e a confiar em Deus. Longe da segurança do Egito, emergiu o que havia no fundo do seu coração. Os profetas cantaram o tempo do deserto como tempo das obras maravilhosas de Deus. Foi no deserto que o povo de Israel sentiu profundamente sua pequenez e total dependência de Deus.

Não existiam caminhos prontos. Era preciso discutir, planejar, rezar, lutar e sonhar para fortalecer a caminhada. No fundo, o Êxodo foi um profundo tempo de discernimento coletivo, que desembocou numa radical opção pela liberdade, porque um povo só é livre quando pode decidir o rumo de seu caminhar: 

Deserto: lugar da Aliança, escola da intimidade com o Senhor; expressão que, mais do que um determinado lugar, indica uma experiência forte de Deus.

Jesus, como todos os profetas, antes de assumir sua missão, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Frequentemente Ele recorria a esta experiência em meio à sua vida ativa: afastava-se para lugares solitários, confrontava a sua missão com a Vontade do Pai.

Todos os personagens bíblicos, todos os(as) santos(as) passaram pela experiência de deserto: peregrinação interior, confronto com a própria vida, comunhão com o Senhor, descoberta da própria missão...

        “Eu o(a) levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os. 2,16).

Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas por Jesus no deserto não são propriamente de ordem moral. Não se trata de uma eleição entre o bem e o mal. São tentações que apresentam maneiras falsas de entender e viver sua missão. O tempo do deserto foi, para Jesus, um tempo de discernimento sobre os melhores “meios” para viver seu messianismo. As tentações não diziam respeito ao “ser Messias” de Jesus; isto estava claro e fora confirmado pela experiência do seu batismo: “Tu és o meu filho amado”.

As tentações de Jesus aconteceram no campo das mediações: entre pensar em seu próprio interesse ou deixar-se conduzir pela vontade do Pai; entre impor seu poder como Messias ou colocar-se a serviço daqueles que mais precisam; entre buscar a própria glória e prestígio ou manifestar a compaixão de Deus para com aqueles que sofrem; entre evitar riscos para fugir da perseguição ou entregar-se fielmente à sua missão, confiando somente no Pai.

De fato, os meios apresentados pelo “tentador”, humanamente falando, são os meios mais eficazes que ninguém poderia imaginar: possibilidade de transformar as pedras em pão, o prestígio indiscutível de quem salta do alto do templo, sustentado pelos anjos e, para culminar, todo o mundo a seus pés.

Quem resiste a um homem com tais meios?

Todos seriam atraídos porque, em definitiva, teria entre suas mãos o poder total e o domínio absoluto.

Eis aqui a intuição e a genial proposta do tentador: salvar e libertar toda a humanidade, mas mediante o poder, o prestígio e a dominação. O tentador não pretende que Jesus se afaste de seu fim, senão que procure atingir esse fim, usando os meios que são exatamente o oposto da solidariedade. 

Para a Liturgia, parece ser de uma evidência fundamental que a pedagogia quaresmal devesse começar por des-velar (tirar o véu) a desordem na afetividade. No caminho da vivência cristã, percebemos uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, posses, pessoas, ideias, cargos, poder, prestígio, status, ídolos, dependências.... que somada a outras, passa a constituir uma estrutura de “maus afetos” (“afetos desordena-dos”), esvaziando ou atrofiando o seguimento de Jesus

A Quaresma, nesse sentido, apresenta-se como uma pedagogia para aprender a ordenar nossos afetos”, libertar-nos dos afetos desordenados e assim percorrer o caminho do desejo mais profundo: estratégia centrada em Deus, leve e cheia de graça, uma aventura...

O desejo de poder, de possuir, de ser o centro (ego inflado) confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma lição moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico e espiritual que se dá em nós pelo fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a consequente perda de liberdade e o perigo da dependência que esse apego causa. O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o “fluxo” da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”.

            “Diga-me o tamanho dos seus apegos, e eu lhe direi o tamanho do seu sofrimento”.

É necessário introduzir um princípio “ordenador” em nossa vida, que inspire todo o nosso ser e o nosso agir, até que a “afeição” se converta em identificação existencial com Jesus Cristo.

Esse novo objeto deve ter uma repercussão decisiva na configuração da vida. Isto é, somos chamados a modificar profundamente o mundo de valores, pensamentos, condutas...

É necessário, ao iniciar o percurso quaresmal, detectar os condicionamentos afetivos (amarras) que de fato limitam a nossa liberdade, bloqueando-nos diante da proposta de vida que Jesus nos apresenta.

O que está em jogo no “deserto quaresmal” é chegar a conhecer-se profundamente, encontrando a raiz do próprio ser nos afetos desordenados.

Esse conhecimento interior, profundo, é condição indispensável para poder dispor de si, em maturidade de liberdade. Sem ordenar os afetos o ser humano não é verdadeiramente livre. A “desordem” nos afetos produz em sua liberdade uma essencial falsificação: faz tomar como absolutos o que são coisas relativas.

Só ordenando os afetos a pessoa se situa diante de Deus, reconhecendo-O como Absoluto.

Há afetos organizados negativamente por acúmulo de “experiências negativas”. Para atingi-los, a pedagogia quaresmal coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, sua missão, o Reino, ...)

Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou seja, reorientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou pessoas para um horizonte de sentido: amor a Jesus Cristo e a seu Reino. 

Nesse sentido, nossa quaresma torna-se um “estar com Jesus” no deserto, para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida.

A quaresma é um tempo em que damos maior liberdade a Deus para agir em nós; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus. É tempo de reconstrução de nós mesmos (conversão), de retomada da opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais compaixão, mais solidariedade...).

Nossos “apegos” se assemelham às construções à beira do rio que nos fixam num determinado lugar que nos parece confortável, desejável e seguro. Mas, se assim agirmos, afastamo-nos da correnteza da vida e não vai fluir em nós nem crescimento e nem progresso rumo à liberdade dos filhos de Deus.

A experiência de deserto passa a ser “tempo e lugar” de decisão, de orientação decisiva da vida, de enraizamento de nossos valores, de consciência maior da nossa identidade pessoal e da nossa missão... O mestre do deserto é o silêncio; o deserto tem valor porque revela o silêncio, e o silêncio tem valor porque nos revela Deus e a nós mesmos.

O deserto é o grande auditório para ouvir Deus; “solidão” cheia de presença. Ainda que sozinhos, sentimo-nos solidários, em comunhão com todos. O decisivo é “deixar-nos conduzir” pelo Espírito. Aqui não há engano.

Texto bíblico:  Lc 4,1-13 

Na oração: Temos muitas atitudes, posses, ideias, cargos, posições, bens... que consideramos ser Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos medos, de nossa insegurança...

O desafio permanente é este: examinar as “coisas” que estão ocupando por completo nossa existência e “tomando conta de nós” a ponto de bloquear o fluxo da graça e da vida.

- Quais “tentações” estão travando sua vida, impedindo-o de seguir a Jesus mais livremente?

- Rezar suas “pulsões desordenadas” que atrofiam sua sintonia com Deus e sua abertura aos outros.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2521-deserto-escola-para-ordenar-os-afetos

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