Lira I
* * *
Lira I
* * *
Escritores Brasileiros do Século XX Cyro de Mattos
Em sua
contribuição enciclopédica e analítica da literatura, Nelly Novaes Coelho,
intelectual rara, desincumbe-se da jornada literária com erudição, consciência
crítica e uma santa paciência de pesquisadora. Ela sempre está surpreendendo.
Depois de enriquecer o corpo das letras brasileiras com volumes importantes,
como Literatura e Linguagem, Literatura Infantil, Dicionário Crítico de
Escritoras Brasileiras, Dicionário Crítico de Literatura Infantil e
Juvenil Brasileira, Panorama Histórico da Literatura Infantil/Juvenil, na
idade em que muitos já aposentaram suas ferramentas, eis que ela pra lá dos
oitenta anos comparece com ensaios fecundos para brindar seu público leitor com
a obra Escritores Brasileiros do Século XX, publicado pela Editora Letra Selvagem.
Monumental testemunho
crítico, o alentado volume é resultado de cinquenta anos de pesquisas, leituras
e releituras de obras apresentadas em cursos universitários, congressos,
seminários, colóquios, no Brasil, Portugal e Estados Unidos da América. São
oitenta e um escritores analisados neste precioso e extenso livro. Dos mais
conhecidos, como Jorge Amado, Graciliano Ramos. Guimarães Rosa, Mário de
Andrade e João Ubaldo Ribeiro, passando por nomes expressivos que ficaram
esquecidos pela crítica e do mercado editorial, como Cornélio Pena,
Gustavo Corção, Adonias Filho e Murilo Rubião.
E ainda
outros que precisam de divulgação para que melhor sejam conhecidos: Ricardo Guilherme Dicke, Mora Fuentes, Samuel
Rawet e Nicodemos Sena. Todos esses autores, elencados nessa obra de natureza
o enciclopédica, dão voo à razão e à
emoção quando abordam a problemática existencial do ser humano e a crise de uma
sociedade exaurida de valores e sentidos. Dão imaginação e transcendência ao
mundo.
A ensaísta admirável revela:
- Foi a “Sorte
ou o Acaso” que puseram em meu caminho os oitenta e um escritores reunidos e
analisados neste meu último livro.
A
generosidade, a humildade e a solidariedade são marcas da alma dessa enorme
ensaísta. Os autores no extenso volume analisados tiveram, sim, a
sorte ou o acaso, posto em seus caminhos
para a leitura crítica dessa valorosa analista literária.
Ela disse:
- Um autor
para ser instituído como cânone precisa de um crítico dotado de
instrumental teórico suficiente que chame atenção para as questões
estéticas, seja capaz de revelar os elementos estruturantes que entraram
na composição da forma e conteúdo da sua obra.
No meu caso, de autor
baiano insulado na cidade natal, no sul da Bahia, distante do eixo Rio e São
Paulo, que ainda hoje funciona
como tambor cultural desse país inculto e enorme, por mais que o mundo de uns
tempos para cá tenha se tornado uma aldeia globalizada, nem sei como agradecer
nossa inclusão na relação desses escritores conceituados, selecionados e
reunidos no testemunho crítico da professora
doutora Nelly Novaes Coelho.
Vale a pena repetir o que certa
vez ela disse sobre a literatura:
- Sem leitura e escrita a vida não tem emoção.
Essa Nelly Coelho Novais, que
viveu para amar a literatura e que, com uma vocação valorosa, na passagem dos
anos, tanto demonstrou quanto a amava.
Cyro de Mattos, poeta, ficcionista, cronista, ensaísta e
autor de literatura infantojuvenil. Publica quinzenalmente uma crônica na
revista digital RUBEM.
* * *
REPRESENTAÇÃO DA
APARIÇÃO DE
NOSSA SENHORA A
ALPHONSE
RATISBONNE
No dia 20 de
janeiro de 1842, há exatamente 180 anos, o judeu Alphonse Ratisbonne se
converteu milagrosamente ao catolicismo, por intervenção direta de Nossa
Senhora
Plinio Corrêa de Oliveira
De família muito rica de banqueiros de Estrasburgo
(Alemanha), o jovem judeu Alphonse Tobias Ratisbonne (1814-1884) percorria
vários países. Após uma viagem ao Oriente, em 1842 passou uma temporada em
Roma, onde se encontrou com um antigo colega, Gustavo de Bussières, de religião
protestante. Na residência deste, conheceu seu irmão, o Barão Teodoro de
Bussières, que havia se convertido ao catolicismo.
Naqueles dias falecera em Roma um grande amigo do Barão, o
Conde de La Ferronays (1777-1842), ex-embaixador da França junto à Santa Sé.
Assim, Bussières convidou Ratisbonne para acompanhá-lo à
igreja de Sant’Andrea delle Fratte a fim de tratar de uma cerimônia fúnebre
pelo falecido. Concordou de mau grado, pois o judeu detestava a religião
católica, mas como turista iria para apreciar as obras de arte daquela igreja
romana.
Após tratar do assunto da cerimônia, o Barão de Bussières
voltou para o centro da igreja e se deparou com uma grande surpresa: Ratisbonne
ajoelhado em frente ao altar lateral de São Miguel Arcanjo! O judeu rezando
fervorosamente, extasiado, maravilhado.
Ratisbonne achava-se completamente mudado, estava
convertido, e queria mudar de vida. Ele se fez batizar. Alguns até consideram
que ele tenha morrido em odor de santidade.
Naquele altar da aparição foi introduzido um quadro que
representa Nossa Senhora segundo as descrições de Ratisbonne. Ela é chamada
de Madonna del Miracolo (Nossa Senhora do Milagre).
_____________
Excertos da conferência proferida pelo Prof. Plinio
Corrêa de Oliveira em 20 de janeiro de 1973. Esta
transcrição não
passou pela revisão do autor. Fonte:
Revista Catolicismo, Nº 853, Janeiro/2022.
https://www.abim.inf.br/retumbante-conversao-de-um-judeu/
* * *
Três Poemas da Lua
Cyro de Mattos
Moça bela
Em luares de relva
Na rede embala-me
Nudez tão pura.
Bafeja meu rosto,
Veste-me de sonho.
Para o céu me leva
No colo que flutua
Moça bela,
Toda nua.
O menino e a lua
O menino sonha com a lua
acima da nuvem escura
fazendo descer para o rio
uma comprida luaranha.
O menino sonha com a lua
no céu de estrelas, cintilante,
aquele pedaço da frente
ele abocanhou na crescente.
O menino sonha com a lua
chamando-o pra brincar no areal
deixado pela grande enchente.
Lá ele cata muita prata,
depois é levado pro céu
no colo da lua
risonha.
A cidade e a lua
Toda ela iluminada
flutua no colo da lua
que lhe trouxe rosas.
Ó encantos! Ó perfeições!
Carícia e frêmito de sonho.
Suspiros de ternura.
Brilha cantiga da beleza,
a cidade no eterno pervaga,
perfumes a noite exala.
* * *
Sempre que dou aula de clínica médica a estudantes do quarto ano de Medicina, lanço a pergunta:
– Quais as causas que mais fazem o vovô ou a vovó terem confusão mental?
Alguns arriscam: Tumor na cabeça.
Eu digo: Não.
Outros apostam: Mal de Alzheimer
Respondo, novamente: Não.
A cada negativa a turma se espanta…. E fica ainda mais
boquiaberta quando enumero os três responsáveis mais comuns:
– diabetes descontrolado;
– infecção urinária;
– a família passou um dia inteiro no shopping, enquanto os idosos ficaram em
casa.
Parece brincadeira, mas não é. Constantemente vovô e vovó,
sem sentir sede, deixam de tomar líquidos.
Quando falta gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez.
A desidratação tende a ser grave e afeta todo o organismo.
Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos
batimentos cardíacos (batedeira), angina (dor no peito), coma e até morte..
Insisto: não é brincadeira.
Na melhor idade, que começa aos 60 anos, temos pouco mais de
50% de água no corpo. Isso faz parte do processo natural de envelhecimento.
Portanto, os idosos têm menor reserva hídrica.
Mas há outro complicador: mesmo desidratados, eles não
sentem vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno não
funcionam muito bem.
Conclusão:
Idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem
reserva hídrica menor, mas também porque percebem menos a falta de água em seu
corpo. Mesmo que o idoso seja saudável, fica prejudicado o desempenho das
reações químicas e funções de todo o seu organismo.
Por isso, aqui vão dois alertas:
1 – O primeiro é para vovós e vovôs: tornem voluntário o
hábito de beber líquidos. Por líquido entenda-se água, sucos, chás,
água-de-coco, leite, sopa, gelatina e frutas ricas em água, como melão,
melancia, abacaxi, laranja e tangerina, também funcionam. O importante é, a
cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!
2 – Meu segundo alerta é para os familiares: ofereçam
constantemente líquidos aos idosos. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem
que estão rejeitando líquidos e, de um dia para o outro, ficam confusos,
irritadiços, fora do ar, atenção. É quase certo que sejam sintomas decorrentes
de desidratação.
Líquido neles e rápido para um serviço médico.
*Arnaldo Lichtenstein, médico, é clínico-geral do Hospital
das Clínicas e professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
* * *
As Pombas
Raimundo Correia
Vai-se a primeira pomba despertada,
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.
Também os corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais!
------------
Raimundo da Mota Azevedo Correia, o mais célebre dos
parnasianos brasileiros, foi autor de famosos sonetos e de famosas poesias que
podem ser consideradas das melhores da língua. Nasceu a bordo de um navio surto
num porto do Maranhão em 13/05/1860 e faleceu em Paris em 13/09/1911. Na vida
civil foi professor de Direito, magistrado e diplomata. Publicou: “Primeiros
Sonhos” (1879), “Sinfonias” (1882), “Versos e Versões” (1886), “Aleluias”
(1890). Em 1898 coligiu suas principais produções poéticas num volume a que deu
o título “Poesias”; 2ª Edição1906; 3ª Edição 1910; 4ª Edição 1922. Foi um dos
fundadores da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 5, que
tem por patrono Bernardo Guimarães e onde teve por sucessores Osvaldo Cruz e
Aloísio de Castro. Suas “Poesias Completas”, a cargo de Múcio Leão, foram
editadas em dois volumes em São Paulo em 1948.
* * *