Total de visualizações de página

sábado, 11 de dezembro de 2021

ÁRVORE DE NATAL - Luiz Gonzaga Dias

 


Árvore de Natal

 

Em cada peito que a alegria inunda,

Há um presépio, músicas e flores,

A natureza em trajes multicores,

A vida em festa de prazer circunda.

 

Engalanada a terra – mãe fecunda –

Estua em risos, luzes, esplendores.

E a alma das coisas descortina albores,

Novas promessas de emoção jucunda.

 

Fim de ano. Natal!... Princípio de ano...

Romantismo no coração humano,

Entre nuvens de incenso e aspiração.

 

Desejos de bondade e de ventura...

Os Reis Magos... Assomos de ternura,

Perfumando a existência e a tradição.

 

 

(VOZES DO SÉCULO)

Luiz Gonzaga Dias


* * *

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

O MENINO QUE VIA A VIDA ACONTECER – Sônia Carvalho de Almeida Maron


O menino que via a vida acontecer

                                               Sônia Carvalho de Almeida Maron

 

O melhor mirante da cidade era o alto do 

telhado, de onde se via a vida acontecer no céu 

e na rua, por onde passavam personagens e 

fatos importantes que iriam marcar a vida do 

menino para sempre. (In: Cyro de Mattos, 

contracapa do livro Histórias do mundo que 

se foi, editora Saraiva, SP, em sexta edição, 

Prêmio Adolfo Aizen da União Brasileira de 

Escritores-RJ )

                    

            Aquele menino da Rua Ruy Barbosa tinha mesmo um jeito diferente. Em nossa rua não existiam estranhos: do primeiro ao último quarteirões, famílias trocavam sorrisos e cumprimentos, das crianças aos mais velhos. E o menino passava para o colégio, muitas vezes em companhia do irmão mais velho, compenetrado e sério, segurando a pasta com os livros como se fossem uma carga preciosa. O irmão mais velho tinha o riso fácil e todas as vezes que passava em frente à minha casa sorria de forma amistosa. Os pais do menino gostavam de mim, eu tinha certeza, pois sabiam o meu nome e conheciam meu pai.

            Na vida mansa da nossa rua todos eram conhecidos e a maioria amigos de verdade. As famílias visitavam-se, sentavam-se em cadeiras colocadas nos passeios nos dias de domingo, enquanto as crianças pulavam corda, jogavam bola de gude, pulavam amarelinha e cantavam cantigas de roda nas noites de luar. O menino fazia parte desse nosso mundo, mas eu sentia que participava de uma forma diferente:  meus olhos de criança não sabiam definir se era tímido ou se não queria participar de nossas brincadeiras por ter coisa melhor para fazer. Eu desconfiava que fosse mais amigo dos livros do que de nós.

            E o tempo foi passando. Os colégios da cidade não permitiam que os jovens sonhassem com as carreiras mais nobres, não existiam faculdades. O menino e o irmão contaram com o apoio do pai e seguiram para a capital identificada pelos mais velhos como “Bahia”. Àquela época diziam com orgulho “meu filho foi estudar na Bahia”, como se Itabuna fosse um lugar distante e fora do mapa do Estado. É que o privilégio de estudar na capital era restrito aos mais abastados da classe média. As famílias de milhares de arrobas de cacau enviavam os filhos para os colégios e faculdades do Rio de Janeiro e São Paulo.

             Não é que o pai do menino fosse um homem arrogante e rico como muitos coronéis do cacau. Ao contrário. Era um homem simples e trabalhador, sem diplomas e títulos, mas vislumbrava um futuro grandioso para os filhos e, para ele, o estudo era o único caminho. Acertou em cheio e ganhou um filho médico e o outro advogado.

            O jovem advogado iniciou, sem muito entusiasmo, o caminho das lides forenses. Gostava mesmo era de escrever, escrever de verdade, coisa diferente das petições dos processos cíveis e criminais. E enfrentou o desafio. A força que o conduzia para a carreira sonhada era mais poderosa que o encanto dos embates da advocacia. Determinado, passo a passo, conquistou o reconhecimento do mundo literário do país conseguindo o que poucos alcançaram: Cyro de Mattos é um escritor. Não um escritor qualquer. O itabunense que via “a rua acontecer no céu e na terra, do alto do melhor mirante da cidade, o telhado de sua casa”, como podemos ler na contracapa de um dos seus livros, Histórias do mundo que se foi, coleciona prêmios e títulos como ficcionista, cronista, ensaísta, poeta e demais variantes que pode assumir um verdadeiro escritor. Por último, representará sua cidade na Academia de Letras da Bahia, na cadeira de nº 22, que teve como membro fundador o mais conhecido e ilustre dos baianos, Ruy Barbosa. Sem esquecer que leva em seu currículo os títulos de membro da Academia de Letras de Ilhéus e membro fundador e idealizador da Academia de Letras de Itabuna – ALITA. 

            Cyro de Mattos é “prata de casa” da melhor qualidade. Todos sabem que seu currículo é conquista de poucos e nossas academias são citadas primeiro por motivo puramente sentimental.  Em resumida amostragem, registre-se o título de membro efetivo do Pen Clube do Brasil e Ordem do Mérito da Bahia, no Grau de Comendador. Em suas incursões pelo mundo integrou a delegação brasileira de Poetas da Universidade de Coimbra, em Portugal, e no XVI Encontro de Poetas Iberoamericanos da Fundação Salamanca Cidade de Cultura e Saberes, na Espanha. Foi agraciado com vários prêmios literários de expressão, sendo autor de mais de cinquenta livros no Brasil e no exterior.

            A Rua Ruy Barbosa, na cidade de Itabuna, Bahia, Brasil, passou à imortalidade. A geração de Cyro de Mattos, que é também a minha, festeja a conquista de um dos seus meninos do Ginásio Divina Providência. Festejamos o amigo que desenvolveu a admirável arte de observar o mundo com os olhos e o sentimento que só conhece quem adquiriu o conhecimento guardado nos livros, sobre terras, homens e tempos e serve de exemplo para a geração que se recusa a reconhecer a força mágica que o livro empresta à nossa vida.      

 

Sônia Carvalho de Almeida Maron é escritora, juíza de Direito aposentada, ex-professora de Direito da UESC, uma das fundadoras da Academia de Letras de Itabuna, foi presidente da instituição por dois mandatos.

 * * *

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

IMACULADA CONCEIÇÃO DE NOSSA SENHORA

8 de dezembro de 2021

 

A Coluna da Imaculada, na Piazza di Spagna (Roma), erguida a 18 de dezembro de 1856 e abençoada pelo Bem-aventurado Pio IX em 8 de setembro de 1857.


Hoje, 8 de dezembro, é festa da Imaculada Conceição, uma das magnas celebrações da Santa Igreja. Neste dia em 1823, na cidade de Ariano di Puglia, os padres dominicanos Gassiti e Pignataro obrigaram satanás, em nome de Deus, provar Imaculada Conceição de Maria, através de um menino de 12 anos, possesso, analfabeto, que estava sendo exorcizado. Obrigado, e muito contra sua vontade, fez satanás com este soneto:

 

Sou verdadeira mãe de um Deus que é Filho

E sou sua filha, ainda ao ser-lhe mãe

Ele de eterno existe e é meu Filho

E eu nasci no tempo e sou sua mãe

                   Ele é meu criador e é meu Filho

                   E eu sou sua criatura e sua mãe

                   Foi divinal prodígio ser meu Filho

                   Um Deus eterno e ter a mim por mãe

O ser da mãe é quase o ser do Filho

Visto que o filho deu o ser a mãe

E foi a mãe que deu o ser ao Filho

                   Se, pois, do Filho deve o ser a mãe

                   Ou há de se dizer manchado o Filho

                   Ou se dirá Imaculada a mãe.

____________

Pio IX, que proclamou o dogma da Imaculada Conceição em 1854, se emocionou ao ler este soneto (Apud. Salve Rainha, pág.147, Caxias do Sul-RG, 1955).

https://www.abim.inf.br/imaculada-conceicao-de-nossa-senhora/

* * *


O CARROSSEL – Marília Benício dos Santos



O carrossel

 Marília Benício dos Santos

 

          O sol continuava dormindo. O domingo estava nublado.

          Em vez de praia fomos à Quinta da Boa Vista. Ao sairmos, Júlia Maria exclamou:

          - Um carrossel, minha tia!

          Chegamos em frente ao carrossel e ficamos a observá-lo.

          - Venha, vovó, disse Lucas, tentando subir. Resolvi aceitar o seu convite. Ele, muito entusiasmado, montava no cavalinho e eu o segurava, e ao abraçá-lo, abraçava também o cavalo.

          Quanta diferença desse carrossel para o carrossel da minha infância!

          Enquanto o carrossel girava, eu refletia: “O carrossel se identifica com a vida; ambos sempre estão a girar, passam pelos mesmos lugares”.

          Todos os anos há Natal, Páscoa; as estações vêm todos os anos. A primavera com suas flores dando uma colaboração imensa para ornamentar a vida. O verão, portador de alegria com o sol muito intenso, traz mais alegria para viver. Tem também o outono, quando as flores caem e dão lugar aos frutos, e, finalmente, o inverno, quando há um amadurecimento intenso e assim permite que surjam as flores na primavera e os frutos no outono.

          E o carrossel da vida vai girando, girando... Só que neste carrossel não podemos voltar atrás. Embora haja primavera, a primavera de minha infância jamais voltará. O carrossel brinquedo, sim, o homenzinho que o dirige pode dar meia-volta. Na minha fantasia, porém, eu tento voltar atrás. É isso que eu faço agora. Abraçada com Lucas e o cavalinho, volto à minha infância.

          Como era bonito aquele carrossel! Cada menina exibia o seu vestido novo cheio de rendas, babados e fitas. Cada uma usava um laço de fita nos cabelos que dava um brilho lindo, confundindo com o colorido do carrossel.

          O carrossel girava, girava... Era lindo vê-lo assim levando tantas crianças, fazendo-as felizes.

          O carrossel da Quinta da Boa Vista levava também muitas crianças diferentes, bem nenês, por isso exigia a presença de alguém para protege-las.

          Ao meu lado estava um senhor que segurava uma criança. – Será que ele também estava lembrando da infância? A criança que ele protegia era menina ou menina? Não conseguia identificar. Logo, porém, o fiz, pois havia uma argola na sua orelha.

          No carrossel da minha infância os meninos eram também muito bem-vestidos. A camisa podia ser colorida, mas a calça era geralmente branca ou azul marinho, algumas mais sofisticadas, de veludo.

          O carrossel era armado sempre no Natal, daí a razão para as crianças estarem bem arrumadas. Esperavam a Missa do Galo, o ponto alto da festa.

          Para completar a alegria, o carrossel era acompanhado de uma linda música.

          Depois de algum tempo passei a fazer parte daquela multidão que apenas observava o carrossel. “Menina grande não andava no carrossel”. Hoje, abraçando Lucas e o cavalinho, dava risadas e refletia.

          Há sempre aqueles que participam e aqueles que observam. Quantas vezes nos anulamos e ficamos à margem, apenas vendo o carrossel girar, girar...

          Não importa a idade; enquanto estamos vivos, vamos participar de tudo que temos direito. Do colorido que o carrossel da vida nos oferece, da música, do amor, da alegria, da festa. Devemos sempre lutar por um lugar neste carrossel, e ao encontrá-lo, segurá-lo com muita garra. Nunca ficar à margem a observar o carrossel girar.

          O carrossel da vida passa rápido e não para. O carrossel de brinquedo para de quando em quando, e novas crianças vão participando de suas alegrias. O carrossel da vida não para; quando isso acontece, realmente acabou, apagou, emudeceu.

          Para nós que acreditamos em outra vida, vamos pegar outro carrossel, no qual há sempre um lugar para aquele que tem esperança. Esse carrossel passa pelos mesmos lugares do carrossel da minha infância; há, porém, uma grande diferença: embora passando pelos mesmos caminhos, estes são sempre renovados, as belezas são modificadas a cada instante e esse imenso carrossel vai girando, girando, circulando o amor ao som de uma música celeste.

 

MARÍLIA BENÍCIO DOS SANTOS

Itabuna (BA)

*10/10/1920   +24/05/2014

* * *

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

É a corrupção, estúpido !

12 POEMAS DE NATAL - Cyro de Mattos



12 Poemas de Natal

Cyro de Mattos

 

 

É Natal!

 

Do céu dos céus

Uma estrela

Que anuncia

Só amores

Para iluminar

As pobrezas

Dessa terra.

 

Na manjedoura

Ondas embalam

O menino no berço

Feito de palha.

Cantam os anjos,

Tocam os pastores

Suas doces flautas.

 

Os reis magos

Estão sorrindo

De pura alegria.

Numa manjedoura

O bem afugenta o mal.

Os sinos tocam:

É Natal! É Natal!

 

***

 

O Pinheiro

 

Antes triste, no canto,

Só que de repente

Como por encanto

Aparece iluminado

Com estrelinhas do céu,

Não mais que de repente

Todo aceso de Deus.

 

***

 

Manjedoura

 

O que mais encanta

É nascer o menino

Na poeira desse chão

Onde os bichos andam

E até hoje esse menino

Com sua luz suave

Semear grãos azuis

De amor e de paz

Na manjedoura dos ares.

 

***

 

Árvore de Natal

 

Esse pequeno cofre

Para o papai Onofre,

Esse quadro com flores

Para a mamãe Dolores,

Esse cachimbo dourado

Para o vô Clodoaldo,

Essa coberta branquinha

Para a vó Vitorinha,

Essa camisa de linho

Para o tio Bernardinho,

Essa boneca que chora

Para a maninha Eudora,

Esse pião e o tambor

Para o meu primo Dodô.

Quem quiser a flautinha

Nem espere que é minha

 

***

 

O Amanhecer

 

Para Firmino Rocha,

em memória

 

A estrela desponta,

A nuvem se descobre,

O galo clarineta

E anuncia que em Belém

O menino já chegou

Na manhã mais bela.

 

A boa notícia corre

No fiozinho do rio

Que da montanha desce.

Segue no vento leve

Que sopra a flor sozinha

Na plantinha do brejo.

Vem com a borboleta

Que pousa na roseira

E fica brincando

Com os raios de sol.

 

***

 

Uma Oração Pequena

 

Pelo

Papai Noel

Que só aparece

Na televisão.

 

Pelo

Riozinho

De minha cidade

Cada vez pior

Com os despejos.

 

Pelo

Menino

Que na seca

Fez com os ossos

Do cachorro

Um carro

De brinquedo.

 

Pela

Professora

Que mal tem salário

Mas ensina

Um mundo.

Menino Jesus

Seja bem-vindo!

 

***

 

Esse Menino Jesus

 

Com o seu jeito

Amigo de dizer

Que pra vencer

O egoísmo

Dessa guerra

De cada um

Pensando em si

Basta querer

Sair por aí

De mãos dadas

E como criança

Espalhar

Num instante

Só ternura

Nessa terra.

 

***

 

 Presépio

 

 

Virgem Maria:                                 Seda do céu

                                                         Adorna o dia,

                                                         Pureza eterna

                                                         O amor de Maria.

                      

 

São José:                                        As mãos na enxó,

                                                       Plaina e formão

                                                       Talham a fé

                                                       Do constante coração.

 

 

Os Reis Magos:                            Basta uma palavra

                                                      E seremos salvos;

                                                      Não somos dignos

                                                      De tocar na palha.

 

 

O Burro:                                       Nos meus cascos

                                                      Que não cansam

                                                      Venço a solidão.

 

 

O Galo:                                         Amar a todos!

 

                   

A Ovelha:                                     Não o egoísmo!

 

              

A Cabra:                                       Cortar todo o mal!

 

                     

 

A Vaca:                                        E perdoar sempre!

 


A Estrela-Guia:                           Eu sou a luz

                                                     Que mostra

                                                     O caminho

                                                     Sem qualquer desvio

                                                     Onde com ternura

                                                     Somos todos irmãos.

 

 

O Menino:                                   Minhas proezas

                                                    Numa só mesa

                                                    De todas as mãos

 

Os Anjos:                                    Foi tanto balão

                                                   Que subiu ao céu,

                                                   Foi tanta canção

                                                   Que ventou ao léu

 

                                                  Que até hoje luz

                                                  Do menino a cruz.

 

***

 

Canção do Deus Menino

 

 

Alegre como passarinho

Lá vou eu pelo caminho

Cantando porque nasceu

Em Belém o Deus menino.

 

Esse menino que nasceu

Na manjedoura em Belém

Como estrela nos fascina

Na cidade ou na campina.

 

Quer os homens como irmãos

Convivendo em comunhão

Dentro de cada coração

Pelos ares ou no chão.

 

Quer os bichos sem matança,

A vida sem agressão,

A vida sem solidão,

A vida como uma dança.

 

Alegre como passarinho

Lá vou eu pelo caminho

Cantando porque nasceu

Em Belém o Deus Menino.

 

***

 

Presença de Natal

 

O canto do galo

Que fere a aurora

Dessa vez é belo.

 

Num sorriso silencioso,

A Virgem Maria sabe

Do amor de Deus no chão.

 

Abelhas de ouro zumbem,

A música que comove

Sai da flauta dos pastores.

 

Todos os anjos entoam

A cantiga que nos fala

Deste amor pelo mundo.

 

“Eu sou pobre, pobre, pobre

Desde que eu nasci;

Eu sou rico, rico, rico

Quando estou dentro de ti.”

 

***

 

Meu Sino de Natal

 

O sino de Raquel

Toca para o céu,

O sino de Raul

É quase sempre azul,

O de Josefina

Vai pela campina,

O de Graça Capinha

No País de Pero Vaz de Caminha,

O da professora Nelly

Como é bom ouvir!

 

O de Maria

Soa com alegria

E o de vovô

Dói de tanto ardor,

O de Jesuscristinho

Toca no Natal

E vem de Belém

Só pra me dizer

Que ele é o que mais

Vai me querer bem.

 

***

 

Louvemos Baixinho

 

 

Para Manuel Bandeira,

em memória

 

Nasceu numas palhas

O nosso reizinho,

Os matos cheiravam,

O vento embalava.

 

A Virgem Maria

Sentia como doía

O destino humano

Do filho de Deus.

 

Quando for um homem

Com o nome de Jesus

De tanto nos amar

Irá morrer na cruz.

 

Louvemos no Natal

O nosso reizinho

Enquanto ele dorme

Como um cordeirinho.

 

 ----------------

Cyro de Mattos é autor premiado no Brasil e exterior. Autor de 55 livros pessoais, de diversos gêneros.

* * *