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quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O CARROSSEL – Marília Benício dos Santos



O carrossel

 Marília Benício dos Santos

 

          O sol continuava dormindo. O domingo estava nublado.

          Em vez de praia fomos à Quinta da Boa Vista. Ao sairmos, Júlia Maria exclamou:

          - Um carrossel, minha tia!

          Chegamos em frente ao carrossel e ficamos a observá-lo.

          - Venha, vovó, disse Lucas, tentando subir. Resolvi aceitar o seu convite. Ele, muito entusiasmado, montava no cavalinho e eu o segurava, e ao abraçá-lo, abraçava também o cavalo.

          Quanta diferença desse carrossel para o carrossel da minha infância!

          Enquanto o carrossel girava, eu refletia: “O carrossel se identifica com a vida; ambos sempre estão a girar, passam pelos mesmos lugares”.

          Todos os anos há Natal, Páscoa; as estações vêm todos os anos. A primavera com suas flores dando uma colaboração imensa para ornamentar a vida. O verão, portador de alegria com o sol muito intenso, traz mais alegria para viver. Tem também o outono, quando as flores caem e dão lugar aos frutos, e, finalmente, o inverno, quando há um amadurecimento intenso e assim permite que surjam as flores na primavera e os frutos no outono.

          E o carrossel da vida vai girando, girando... Só que neste carrossel não podemos voltar atrás. Embora haja primavera, a primavera de minha infância jamais voltará. O carrossel brinquedo, sim, o homenzinho que o dirige pode dar meia-volta. Na minha fantasia, porém, eu tento voltar atrás. É isso que eu faço agora. Abraçada com Lucas e o cavalinho, volto à minha infância.

          Como era bonito aquele carrossel! Cada menina exibia o seu vestido novo cheio de rendas, babados e fitas. Cada uma usava um laço de fita nos cabelos que dava um brilho lindo, confundindo com o colorido do carrossel.

          O carrossel girava, girava... Era lindo vê-lo assim levando tantas crianças, fazendo-as felizes.

          O carrossel da Quinta da Boa Vista levava também muitas crianças diferentes, bem nenês, por isso exigia a presença de alguém para protege-las.

          Ao meu lado estava um senhor que segurava uma criança. – Será que ele também estava lembrando da infância? A criança que ele protegia era menina ou menina? Não conseguia identificar. Logo, porém, o fiz, pois havia uma argola na sua orelha.

          No carrossel da minha infância os meninos eram também muito bem-vestidos. A camisa podia ser colorida, mas a calça era geralmente branca ou azul marinho, algumas mais sofisticadas, de veludo.

          O carrossel era armado sempre no Natal, daí a razão para as crianças estarem bem arrumadas. Esperavam a Missa do Galo, o ponto alto da festa.

          Para completar a alegria, o carrossel era acompanhado de uma linda música.

          Depois de algum tempo passei a fazer parte daquela multidão que apenas observava o carrossel. “Menina grande não andava no carrossel”. Hoje, abraçando Lucas e o cavalinho, dava risadas e refletia.

          Há sempre aqueles que participam e aqueles que observam. Quantas vezes nos anulamos e ficamos à margem, apenas vendo o carrossel girar, girar...

          Não importa a idade; enquanto estamos vivos, vamos participar de tudo que temos direito. Do colorido que o carrossel da vida nos oferece, da música, do amor, da alegria, da festa. Devemos sempre lutar por um lugar neste carrossel, e ao encontrá-lo, segurá-lo com muita garra. Nunca ficar à margem a observar o carrossel girar.

          O carrossel da vida passa rápido e não para. O carrossel de brinquedo para de quando em quando, e novas crianças vão participando de suas alegrias. O carrossel da vida não para; quando isso acontece, realmente acabou, apagou, emudeceu.

          Para nós que acreditamos em outra vida, vamos pegar outro carrossel, no qual há sempre um lugar para aquele que tem esperança. Esse carrossel passa pelos mesmos lugares do carrossel da minha infância; há, porém, uma grande diferença: embora passando pelos mesmos caminhos, estes são sempre renovados, as belezas são modificadas a cada instante e esse imenso carrossel vai girando, girando, circulando o amor ao som de uma música celeste.

 

MARÍLIA BENÍCIO DOS SANTOS

Itabuna (BA)

*10/10/1920   +24/05/2014

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quinta-feira, 11 de novembro de 2021

“OS ANOS CORRERAM A PASSAR E O MATO CRESCEU AO REDOR” – Marília Benício dos Santos


Esta é uma cantiga de roda cantada por muitas gerações.

Os anos correram a passar... E com que rapidez! Cada vez correm mais.

Quantos Natais passados, quantas recordações!

E as crianças continuam cantando a roda.

O mato cresceu ao redor... como cresceu! Com ele as ervas daninhas.

Ervas que precisam ser arrancadas para que nasçam as flores.

Surgiram também animais nocivos que destroem as plantações. O mato precisa ser capinado, e a planta podada. Toda poda exige sofrimento.

O mato continua crescendo ao redor, porque não temos coragem de cortá-lo. E fica cada vez mais alto, mais difícil de ser capinado.

 

E as crianças continuam cantando:

Um dia veio um lindo Rei

E despertou a Rosa assim”.

 

O Rei veio até o jardim, mas não foi percebido pela Rosa.

A Rosa estava tão emaranhada nos matos que não percebeu o seu perfume, nem sentiu o seu beijo. Continuou dormindo.

É mais cômodo para a Rosa continuar dormindo. Dormindo, você muitas vezes não sofre, não vê as coisas que lhe maltratam. Dormindo, você alimenta a sua preguiça, sua vaidade. Vive voltada para você mesma, mas apenas na superficialidade. Poderá até ser feliz. Mas a felicidade poderá ser maior se você se deixar despertar por “Sua Majestade”.

 

Só acordados podemos sentir o bom de tudo que acontece em torno de nós para o transformarmos em mel, como fazem as abelhas.

Para você, Rosa, que ainda não despertou, surge sempre mais uma oportunidade.

 

O Natal se aproxima. O nosso Rei mais uma vez está disposto a acordar as rosas adormecidas.

Ele, porém, não poderá agir se você não quiser.

Aproveite o Advento e capine o mato em volta do jardim. Só assim poderão surgir muitas flores, e com elas as abelhas e o mel que será saboreado por você, Rosa, junto com o seu Rei, nesse Natal que será muito especial!


 MARÍLIA BENÍCIO DOS SANTOS

Itabuna (BA)

*10/10/1920   +24/05/2014

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terça-feira, 17 de agosto de 2021

DEIXE DE FALAR BESTEIRA – Marília Benício dos Santos

 


 “Vovó Dinda, conte uma estória”, insistia Matheus para que sua Vó lhe contasse uma estória.

 - Conte, vovó, conte aquela do peixinho do fundo do mar...

Havia acabado de contar exatamente aquela história. Meu repertório já havia se esgotado; ele, porém, continuava insistindo:

          - Vó, conte uma estória.

          Resolvi, então, contar-lhe a minha história.

          - Você sabia que eu já fui do seu tamanho? Que eu tinha pai e mãe? Ele foi saindo devagarinho de baixo do cobertor, sentou-se na cama e fitando-me com seus olhinhos inteligentes me disse: “Deixe de falar besteira”. Ri muito e resolvi contar-lhe mais uma vez, uma das muitas estórias repetidas.

          Matheus dormiu antes de eu acabar. Fiquei ali a seu lado, saboreando as palavras dele, refletindo no quanto ele tinha razão. Voltar ao passado é uma besteira muito grande. Viver intensamente o nosso dia a dia é o que importa. Cada dia é um renascer. O sol nasce todos os dias para todos, não importa a idade. Mesmo nos dias nublados, ele nasce, ele ali está. Às vezes pensamos que as nuvens conseguiram encobri-lo, mas nada. De repente as nuvens passam e ele surge de novo. O sol é calor, luz, energia...

          Temos um sol dentro de nós. Precisamos ter cuidado para que este sol não seja abafado pelas nuvens. “Vós sois a luz do mundo”. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire. (Mt. 5, 14-15). Precisamos estar atentos para esta realidade de fé. Nós, cristãos, somos a luz do mundo. Essa luz não pode ficar escondida. A luz aparece, se comunica. Não podemos deixar essa luz se ofuscar. Não importa a idade que temos, dentro de nós há um sol. Um sol que nasce todos os dias, que nos aquece e nos ajuda a viver mantendo a nossa juventude, apesar dos anos.

          Portanto não adianta voltar ao passado. “Deixe de falar besteira”. As palavras de Matheus ainda ressoam no quarto, travessas e misteriosas. Na sabedoria dos seus três aninhos ele me dizia para seguir em frente, sem as nuvens das tristezas, recebendo os pequeninos, contando parábolas, “a luz das minhas boas obras iluminando a todos os que se encontram em casa”.


 MARÍLIA BENÍCIO DOS SANTOS

Itabuna (BA)

*10/10/1920   +24/05/2014

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terça-feira, 27 de julho de 2021

PRIMEIRA ESTRELA QUE VEJO DÁ-ME O QUE DESEJO – Marília Benício dos Santos


          Deitada na rede, eu olhava para o céu. De repente surge uma estrela que vai aumentando lentamente e sua luz cresce de intensidade.

          Recuei ao passado, voltei à infância e lembrei-me do tempo em que eu dizia: “primeira estrela que vejo, dá-me o que desejo”.

          Naquela época eu desejava um bocado de coisas. Eu e minhas amiguinhas pedíamos uma série de coisas àquela estrelinha.

          E hoje, o que eu desejo?

          Voltar ao passado? Não.

          Tirar na loteria esportiva? Não.

          O que desejo é... Ser uma estrela sempre a irradiar alegria, paz, amor. Uma estrela sempre no alto a espalhar os seus raios para todos.

          Não se acende uma luz para colocar debaixo do alqueire, mas para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que ilumine a todos que estão em casa. (Mateus, 5.15).

          Seguindo o exemplo da estrela, quero derramar sobre todos, tudo de bom que tenho dentro de mim: amor, ternura, alegria gratidão...

 

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Marília Benício dos Santos,

Itabuna BA . *10/10/1920   +24/05/2014

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