Passei três semanas na agradável e prazerosa companhia de
Ernestina, Ludmila, Fabíola e Milceia, as filhas do coronel Mendonça que vieram
me visitar. Com elas, conheci o músico Conrado, o major Silveira, o doutor
Lustosa, Bibiana, Didá, seu filho João Rafael, Claudionor, Marcelino, o doutor
Ariano Condé, Ziraldo Conceição e algumas outras figuras bastante
interessantes. Pessoas simples e comuns que nos levam a refletir sobre nossas
visões de mundo, nossos medos, nossos preconceitos, nossas paixões
desencontradas, nossos desejos e sonhos postergados, realizados, irrealizados
ou por se realizar.
As meninas do Coronel me levaram a cruzar a fronteira do
tempo e passear pelas ruas tranquilas de uma Salvador ainda pacata, mas já com
ares metropolitanos e suas mazelas. Revivi o tempo em que, ainda estudante de
Letras, morei na casa de minha irmã Maria José Freire na Ribeira e andava
despreocupadamente pela península itapagipana, já que elas eram minhas
vizinhas. Foi um belo retorno ao tempo da delicadeza que tanto nos falta nos
dias de hoje. Com elas, viajei mais um pouco para trás, para a década de 50, e
fizemos ‘footing’ na elegante rua Chile e suas lojas chic. Com Conrado, andei
de bonde da Ribeira à Praça Cayru, tomamos o Elevador Lacerda e saboreamos
deliciosos sorvetes na Cubana. Depois seguimos para vê-lo tocar com sua
orquestra no Palace Hotel, no Tabaris Night Club (onde hoje se localiza o
Teatro Gregório de Matos), no Hotel da Bahia e no Clube Baiano de Tênis.
Todas essas experiências e emoções – com direito a um
variado fundo musical, parte de uma trilha sonora que se gestava naquela época
em bailes dançantes e emissoras de rádio que lançavam novos ritmos e modas como
o rock e a bossa-nova – me foram proporcionadas pelo livro “As meninas do
coronel”, terceiro romance do excelente escritor Aramis Ribeiro. Sua narrativa
nos puxa pelo braço e ganha nossa atenção do começo ao fim através de uma
técnica bastante sedutora que cria um grande suspense em relação ao desenrolar
dos fatos e faz com que atravessemos tranquilamente suas mais de seiscentas
páginas, sempre com gosto de quero mais. E é esta a sensação que sentimos ao
final, uma vontade de continuar em companhia desses personagens demasiado
humanos que o autor nos apresenta de forma magistral.
Aramis Ribeiro faz parte do rol de grandes escritores
contemporâneos, com 28 livros publicados, e que merece maior divulgação,
principalmente aqui na Bahia, sua terra de origem. Depois de ter comentado aqui
no FB sobre o impacto que seu livro de contos “Reportagem Urbana” me havia
provocado, tive o prazer de ser presenteado pelo próprio autor com este
fantástico livro que acabo de ler e recomendo a todos que buscam uma excelente
companhia de leitura. Abaixo encontra-se o link da editora para quem deseja
encomendar. Tenho certeza de que irão gostar. Boa leitura e bom passeio por
esta cápsula do tempo!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, quando a multidão viu que Jesus não
estava ali, nem os seus discípulos, subiram às barcas e foram à procura de
Jesus, em Cafarnaum. Quando o encontraram no outro lado do mar,
perguntaram-lhe: “Rabi, quando chegaste aqui?”
Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, eu vos digo:
estais me procurando não porque vistes sinais, mas porque comestes pão e
ficastes satisfeitos. Esforçai-vos não pelo alimento que se perde, mas
pelo alimento que permanece até a vida eterna, e que o Filho do Homem vos dará.
Pois este é quem o Pai marcou com seu selo”.
Então perguntaram: “Que devemos fazer para realizar as obras
de Deus?”
Jesus respondeu: “A obra de Deus é que acrediteis naquele
que ele enviou”.
Eles perguntaram: “Que sinal realizas, para que possamos ver
e crer em ti? Que obra fazes? Nossos pais comeram o maná no deserto, como
está na Escritura: ‘Pão do céu deu-lhes a comer’”.
Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade vos digo, não foi
Moisés quem vos deu o pão que veio do céu. É meu Pai que vos dá o verdadeiro
pão do céu. Pois o pão de Deus é aquele que desce do céu e dá vida ao
mundo”.
Então pediram: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”.
Jesus lhes disse: “Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não
terá mais fome e quem crê em mim nunca mais terá sede”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
“Quem vem a mim não terá mais fome e quem crê em mim nunca
mais terá sede” (Jo 6,35)
Depois da multiplicação dos pães, Jesus, ao perceber que o
povo não tinha entendido nada do que acontecera, pois tentava fazê-lo rei,
retirou-se a uma montanha, sozinho. A multidão ficou satisfeita por ter se
alimentado; ela segue Jesus por aquilo que Ele pode dar. No entanto, a
identificação com Ele e seu projeto passa longe. Seus interesses vão em sentido
contrário à atitude de Jesus de despertá-la para a compaixão e
a partilha. Jesus ensina como repartir, isto é, como as pessoas
precisam ser umas com as outras.
Jesus empenha-se por uma nova humanização, onde as
pessoas possam ser livres, mas elas preferem continuar dependendo de outro
(rei). Enquanto as pessoas buscam alguém que se responsabilize por elas, Jesus
ensina a responsabilidade mútua, a corresponsabilidade. A abundância de
alimento é graça de Deus, mas é igualmente empenho de cada pessoa e de todas
juntas.
A solução para uma nova humanidade não é o dinheiro, o
poder, o domínio ou um milagre externo, mas saber compartilhar tudo com todos.
O problema não se soluciona comprando, o problema se soluciona compartilhando.
A verdadeira salvação não está em que alguém solucione nossos problemas, nem
sequer em ajudar a solucionar todos os problemas dos outros. A verdadeira
liberdade está em superar o egoísmo e estar disposto e dividir com os outros o
que cada um tem e o que cada um é.
“Não temos em nossas mãos a solução de todos os problemas do
mundo, mas diante dos problemas do mundo temos nossas mãos” (Congresso de
jovens latino-americanos).
No entanto, segundo o relato de João, a multidão continua
buscando a Jesus. Há algo n’Ele que a atrai, mas ainda não sabe exatamente por
que o busca nem para quê. As pessoas começam a intuir que Jesus está lhes
abrindo um novo horizonte, mas não sabem o que fazer, nem por onde começar.
“Do outro lado do mar” Jesus começa a conversar com
elas. Há coisas que convém aclarar desde o princípio. O pão material é
importante. Ele mesmo lhes ensinou a pedir a Deus “o pão de cada dia” para
todos.
Comer nunca significa um mero ato biológico de ingerir
alimentos; é sempre um ato comunitário e um rito de
comunhão. À mesa, onde se parte o pão do Senhor, o cristão
aprende a partir e a partilhar o “pão de cada
dia” com os outros.
Além disso, o pão que comemos esconde toda uma
rede de relações anônimas; antes de chegar à mesa, ele passou pelo
trabalho de muitos braços; há muitas lágrimas e suores escondidos em cada pão,
como também há muito de solidariedade e partilha. Portanto, o pão que
é produzido junto deve ser repartido junto e consumido junto. O Senhor resgata
em nós a fome e a sede mais profunda de encontro, partilha e vida. A mesma
necessidade básica nos iguala a todos; a satisfação coletiva nos confraterniza.
Só então podemos, verdadeiramente, pedir: “Senhor, dá-nos sempre desse
pão”.
A conversa de Jesus com o povo, com os judeus e com os
discípulos é um diálogo bonito, mas exigente. Jesus procura abrir os olhos do
povo para que aprenda a ler os acontecimentos e descubra neles o rumo que deve
tomar na vida. Pois não basta ir atrás de sinais milagrosos que multiplicam o
pão para o corpo. Não só de pão vive o ser humano. A luta pela vida sem uma
mística que inspira, não alcança a raiz do próprio ser.
Enquanto vai conversando com Jesus, o povo fica cada vez
mais contrariado com as palavras dele. Mas Jesus não cede, nem muda as
exigências. O discurso parece um funil. Na medida em que a conversa avança, é
cada vez menos gente que sobra para ficar com Ele. No fim só sobram os doze, e
nem assim Jesus pode confiar em todos eles. Esse é o eterno problema da vida
cristã: quando o evangelho começa a exigir compromisso, muita gente se afasta;
quando se trata de seguir e se identificar com uma Pessoa (Jesus), muitos se
refugiam na doutrina, no legalismo, no ritualismo..., vivendo um seguimento
estéril.
O dinamismo do seguimento é gerar vida, fazer o(a)
discípulo(a) viver a partir da verdade mais profunda de si mesmo(a); ou seja,
viver a partir do coração, do “ser profundo”.
“Trabalhai não pelo alimento que perece, mas pelo alimento
que permanece até a vida eterna”.
No gesto da multiplicação dos pães se condensou todo o
caminho de Jesus: vida doada na luta contra todo tipo de sofrimento e fome, na
mesa partilhada onde as relações humanas alimentam a fraternidade do Reino.
Aqui se conecta a essência da Vida de Jesus com a vida dos seus seguidores.
Para a mentalidade bíblica, o pão é um dos sinais
primordiais da graça e do amor com que Deus nos sustenta e nos protege. Diante
do pão estamos face a uma realidade santa. O pão é tratado
com respeito e veneração. O pão é santo porque está associado ao
mistério da vida que é sacrossanta. Em cada pedaço de pão há
mais presença da mão de Deus do que da mão do ser humano.
Para o cristão o pão é ainda mais santo porque
simboliza a reconciliação final de todos no banquete definitivo do
Reino; o pão carrega a promessa de uma plenitude de vida.
O “pão do Reino” já se antecipou e é Jesus mesmo
em sua vida e mensagem; Jesus continua presente na história e na vida de cada
um através do “pão eucarístico”, alimento dos peregrinos rumo à
pátria celeste. Somos eternos insatisfeitos; nunca nos saciamos de pão e
milagres; queremos mais e mais. Isso nos revela que nosso interesse é ter vida
assegurada e o estômago cheio.
Esta realidade nos leva a perguntar: que pão nos sacia?
Porque há pães que, enchendo o estômago, nos tiram a
liberdade. São pães repartidos em escravidão, pães seguros com sabor de suor e
lágrimas; pães de Egito, pães que dão a falsa sensação de saciedade.
Há pães que nos despertam para confiar em Deus; são pães que
chegam providencialmente e de maneira gratuita. Aparecem quando menos esperamos
e tem o sabor do caminho e do encontro. Para qual pão trabalhamos? Ou
ainda, a partir de onde pedimos pão? A partir da segurança e da escravidão ou a
partir da insegurança e da confiança?
Jesus se apresenta a nós como o alimento que não perece.
Buscá-Lo é descobrir o que Deus quer de nós e agradecer o que nos dá para o
caminho. Quem o rejeita fica atado aos pães deste mundo que exigem fadiga,
competição e escravidão. Quem o aceita, liberta-se dos tempos e espaços e se
sacia de confiança.
Que pão buscamos? Que pão desperta outras fomes em nós?
“O que é que nutre realmente o nosso ser essencial?”
“Não somente o nosso corpo, não somente nosso psiquismo, não
somente nossa afetividade, mas o que é que nutre aquilo que não morrerá em
nós?”
“O que é que nutre a eternidade em nós?”
“O que é verdadeiramente nutritivo? O que é que nutre a
nossa identidade?
Texto bíblico: Jo. 6,24-35
Na oração: Não é possível reconhecer o Corpo do
Senhor presente na Eucaristia se não se reconhece o Corpo do Senhor na
comunidade onde alguns passam necessidades. Pois, se fechamos os olhos às
divisões e às desigualdades mentimos ao dizer que Cristo está presente na
Eucaristia.
Enquanto não nos mobilizamos a mudar nossa sociedade de
maneira que mais pessoas aceitem a alegria de compartilhar o pão e
a vida, faltará algo em nossa Eucaristia. Essa “ferida” o cristão deve
sempre tê-la presente.
Alguém
disse que, quando lemos um clássico pela primeira vez, realizamos, a bem da
verdade, uma segunda leitura. Mais que um paradoxo, as linhas de força de um
grande livro não deixam margem à dúvida.
Esse é o caso de Moby Dick. Antes de navegar com Ismael, naquelas águas altas e
perigosas, quem não passou por um sem-número de filmes e desenhos animados,
músicas e quadrinhos, que aludem à baleia branca de Herman Melville? Portanto,
sabíamos algo de Moby Dick, antes mesmo de aportarmos no romance, através de
remissões e fragmentos.
Um clássico dialoga com as vozes que o precederam. Melville
não esqueceu a viagem dos Argonautas, o naufrágio da Odisseia e
a tempestade da Eneida.
Assim, quando chegamos a Moby não somos uma página em branco. A primeira
leitura é, no mínimo, a segunda.
A tradução de Melville em português adquire novo teor
salino. Nossa língua é filha de Netuno e de Ulisses. Cresceu na intimidade com
o mar, entre sonhos e lágrimas, naufrágio e calmaria, Vênus e Adamastor.
A literatura é um repertório infinito, rede lançada em pleno
oceano para buscar uma ostra, ou quem sabe uma estrela que dorme, afogada. Ou,
ainda, uma baleia, simbólica e profunda.
Há outro fato que me encanta em Moby Dick. Leio um artigo
publicado no jornal carioca Última hora: “Casca de Noz em pleno Oceano”. O
repórter Irênio Delgado é atraído por um pequeno barco no porto do Rio. O
“Buona Stella” partiu de Gênova e levou três meses para chegar ao Brasil.
Corria o ano de 1951. Havia um mascote a bordo chamado Tânger. “Cachorro fiel
que viveu os mesmos perigos da longa travessia”. Irênio entrevista um jovem de
29 anos, Egidio, oficial telegrafista. Era meu pai. A vida toda me falou da
travessia, tempestades e baleias.
Moby estava em mim antes de conhecê-la.
A “segunda” leitura do romance deu-se numa praia de Niterói
de cara para o Atlântico. Ia eu cercado de antigas ideias, O velho e o mar e Os
lusíadas. Dezessete anos de idade. Não conseguia separar-me da ficção que
condensava uma vida: o mistério do bem e do mal, as ideias fixas: o mundo
sombrio e luminoso de cada personagem. E logo me apresento ao capitão Ahab:
“Olá, meu nome é Marco”. E vogo em alto mar, preso ao convés, de olhos bem
abertos, a sondar o horizonte.
Se alguém disser que saiu do romance, não acredite, leitor.
Quem bebe dessas águas não é capaz de abandoná-las. Um clássico passa a
fazer parte de nossa biografia, amizade que reconheço, quatro décadas depois,
na mesma praia de Itacoatiara. Não tenho dúvidas de que Moby me engoliu. Quem
sabe me tornei um novo Jonas, apaziguado no corpo da baleia.
Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL,
eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi
recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito
Presidente da ABL para o exercício de 2018.
Deitada na
rede, eu olhava para o céu. De repente surge uma estrela que vai aumentando
lentamente e sua luz cresce de intensidade.
Recuei ao
passado, voltei à infância e lembrei-me do tempo em que eu dizia: “primeira
estrela que vejo, dá-me o que desejo”.
Naquela época
eu desejava um bocado de coisas. Eu e minhas amiguinhas pedíamos uma série de
coisas àquela estrelinha.
E hoje, o
que eu desejo?
Voltar ao
passado? Não.
Tirar na
loteria esportiva? Não.
O que desejo
é... Ser uma estrela sempre a irradiar alegria, paz, amor. Uma estrela sempre
no alto a espalhar os seus raios para todos.
Não se acende
uma luz para colocar debaixo do alqueire, mas para colocá-la sobre o candeeiro,
a fim de que ilumine a todos que estão em casa. (Mateus, 5.15).
Seguindo o exemplo da estrela, quero
derramar sobre todos, tudo de bom que tenho dentro de mim: amor, ternura,
alegria gratidão...
Até que idade se pode permanecer na ativa? O certo é que não
existe uma resposta precisa para essa pergunta. Veja-se o caso do escritor e
pensador francês Edgard Morin. Ele está completando 100 anos e segue
escrevendo, dando ao mundo o resultado de uma experiência que parece não ter
fim.
Nelson Motta, em “O Globo”, defende a tese de que o
tempo não se mede pelo calendário, mas pela intensidade. E dá muitos e bons
exemplos, como Marcos e Paulo Sérgio Valle, irmãos da minha professora
Patrícia. A sua inspiração parece infinita.
Falar em termos pessoais nem sempre é o melhor caminho. Mas
não posso deixar de revelar que me sinto inteiraço aos 86 anos de idade. Fruto
talvez de um passado bem vivido de atleta. Recebi um elogio recente do médico
Paulo Niemeyer Filho: “Você tem ossos muito bem constituídos.” E assim
ele pôde operar, com sua competência internacional, a minha lombar que ameaçava
dar mais trabalho do que deveria.
Hoje, apear da idade, estou na plenitude das minhas
atividades profissionais. Sou presidente do Conselho de Administração do Centro
de Integração Empresa-Escola (CIEE) do Rio de Janeiro, oferecendo oportunidades
de emprego a milhares de jovens estagiários e aprendizes. Faço lives e dirijo e
apresento o programa “Identidade Brasil”, no Canal Futura de televisão, com uma
audiência espetacular. Integro os quadros da Academia Brasileira de Letras,
figurando hoje como o seu vice-decano (só perco para o amigo José Sarney).
E estou colaborando com o fraternal amigo Carlos Alberto
Serpa de Oliveira para criar a Academia Brasileira de Cultura, que em breve
estará funcionando na plenitude. A idade só ajuda a ter mais experiência.
Utilizando as virtualidades do tempo, escrevo livros e
artigos semanais para diversos periódicos. O tema é sempre educação, como tenho
feito de forma ininterrupta. E não deixo de dar uma relevante contribuição ao
Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio de Bens e Serviços,
obediente à liderança dos notáveis Ernani Galvêas e Bernardo Cabral. Velho? Nem
pensar…
Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL,
eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17
de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos
Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia
Brasileira de Letras em 1998 e 1999.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus foi para o outro lado do mar da
Galileia, também chamado de Tiberíades.
Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele
operava a favor dos doentes. Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com os
seus discípulos.
Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Levantando os olhos e vendo que uma grande multidão estava
vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que
eles possam comer?”
Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito
bem o que ia fazer.
Filipe respondeu: “Nem duzentas moedas de prata bastariam
para dar um pedaço de pão a cada um”.
Um dos discípulos, André, o irmão de Simão Pedro,
disse: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o
que é isto para tanta gente?”
Jesus disse: “Fazei sentar as pessoas”. Havia muita relva
naquele lugar, e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens.
Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que
estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes.
Quando todos ficaram satisfeitos, Jesus disse aos
discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca! Recolheram
os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos
que haviam comido. Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens
exclamavam: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”.
Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para
proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.
“Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes” (Jo
6,9)
Do pão de trigo ou cevada para o pão do sentido de vida
doada; do alimento de cada um para a circularidade do alimento partilhado, em
pequenos grupos, sem templo, na gratuidade e frugalidade...
Este é o sentido do texto joanino, proposto para este
domingo.
De todos os gestos realizados por Jesus, durante sua
atividade profética, o mais recordado pelas primeiras comunidades cristãs foi,
seguramente, uma refeição multitudinária, organizada por Ele no descampado, nas
proximidades do lago da Galiléia. É a única cena relatada em todos os
evangelhos.
O conteúdo do relato é de grande riqueza e cheio de
simbolismo. Seguindo seu costume, o evangelho de João não o chama “ milagre”,
mas “sinal”. Com isso nos convida a não ficarmos nos fatos externos que são
narrados, mas descobrir, a partir da fé, um sentido mais profundo.
Longe do templo e das autoridades judaicas, seguido por uma
multidão, Jesus sinaliza para uma Páscoa centrada na pessoa dele, aberta a um
processo de partilha, comunhão e retorno de vida abundante para todos. O
congraçamento de Israel, durante a festa da Páscoa, no Templo, é substituído
pelo congraçamento em torno a Jesus, no lugar onde Ele estiver, com a multidão
que o segue.
Mas, enquanto a Páscoa no Templo favorece os controladores
dele, a Páscoa em torno de Jesus favorece e engrandece a todos.
Jesus ocupa o lugar central na cena; ninguém lhe pede que
intervenha. É Ele mesmo que olha, intui a fome daquela multidão e ativa a
necessidade de alimentá-la. Como alimentar tanta gente no meio do descampado?
Os discípulos não encontram nenhuma solução. Felipe diz que não se pode pensar
em comprar pão, pois não têm dinheiro. André sugere que se poderia partilhar o
que havia, mas só um menino tem cinco pães e dois peixes. Que é isso para uma
multidão?
Segundo João, enquanto Filipe justifica a impossibilidade de
solução, André procura uma alternativa e se depara com cinco pães de cevada e
dois peixinhos nas mãos de um menino. Filipe ocupa seu tempo e sua inteligência
em buscar justificativas para o impasse e desculpas para não ser
responsabilizado.
André, no entanto, encara a realidade e se ocupa na busca de
solução. Encontra um sinal. Há pão, é de cevada, não de trigo, é pouco, mas o
menino, pessoa que está começando a vida agora, coloca à disposição.
Naqueles vastos campos da Galiléia, Jesus propõe a
grande mesa da comunhão universal, a mesa “fora dos
templos” que inclui a todos, sem distinção. O gesto da benção instaura o
horizonte da partilha, em que os alimentos são destinados à necessidade de
todos, por meio da coresponsabilidade dos participantes no banquete da Criação,
sobre cuja mesa Deus preparou pão em abundância para todos.
Todos acompanham com atenção os gestos de Jesus: coração em
ação de graças, olhos fixos, ao mesmo tempo, no pão, enquanto o parte, e na
multidão ao seu redor. Primeiro dá graças à Fonte da vida. Segundo, contempla o
pão, fruto da terra e do trabalho de muitos homens e mulheres, que deve ser
partido e compartilhado. Terceiro, convida a repartir e assegura-se de que a
distribuição é justa.
Jesus dá graças por cinco pães e dois peixinhos diante de
cinco mil pessoas famintas. É a gratidão sobre o pouco que faz o muito. É
pouco, mas é dom de Deus, e dom pode-se multiplicar, pois a graça partilhada
tem alcance ilimitado. Nós, geralmente, só damos graças quando temos em
abundância, porque, a nosso ver, é a abundância que significa graça.
Depois da ação de graças, o pão se multiplica, tem
para todos, o quanto necessitam, e ainda sobra abundantemente. Quanto mais se
partilha, mais se tem. A fome desse momento foi saciada, mas a vida continua.
Jesus ensina como repartir, isto é, como as pessoas devem proceder na relação
de umas com as outras.
A abundância de alimento é graça de Deus, mas é igualmente
empenho de cada pessoa e de todas juntas.
Jesus é o primeiro responsável, mas quer partilhar com os
seus. Isso exige a participação de todos.
A cena é fascinante: uma multidão dispersa, transformada
pelo encontro com Jesus, já é capaz de sentar-se em grupos ordenados sobre a
relva do campo, iguais, sem divisão em hierarquia e partilhando uma refeição
simples e gratuita. Não é um banquete de ricos; não há vinho nem carnes. É a
refeição frugal das pessoas que vivem junto ao lago: pão de cevada e peixe
defumado.
Os que tinham algo para comer também foram repartindo com os
outros. Na realidade, o verdadeiro milagre foi o da partilha, onde as pessoas
famintas não se lançam vorazmente sobre os pães numa luta para conseguir os
alimentos escassos. Compartilhar gratuitamente com os outros, com
desconhecidos, e não acumular o que sobra, isso sim é milagre.
A comunhão bíblica se realiza entre os “distantes”, por meio
de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas
de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem, que
distribuem...
O dinheiro continua hoje sendo a causa de toda desigualdade.
Tudo tem um preço, incluídos os “bens espirituais”. A gratuidade e a partilha
são gestos que estão desaparecendo de nossa sociedade.
Jesus abre outra lógica: a da partilha, frente à
lógica do mercado, focado na apropriação e na acumulação.
Só se fará efetiva a nova comunidade quando pães e peixes
entrarem na lógica do Reino. Sem oferecer o próprio pão, os próprios recursos,
a própria pessoa, não há possibilidade de construção do Reino de Deus.
Em cada migalha de pão, em cada pedaço de peixe, há uma
história de amores e trabalhos que vão passando de mão em mão, sem cobiça
devoradora. Os bens deste mundo carregando dentro uma vocação fraterna e
universal. São dons para todos.
Nesta refeição de todo o povo sobre o campo verde não se
discrimina ninguém, não se pergunta a ninguém pelo seu passado, sua profissão
ou sua situação moral e religiosa. Todos são acolhidos como expressão das
entranhas compassivas de Deus, que chama todos a compartilhar sua mesa. Todos
se sentem pessoas dignas e amadas.
Esta é a utopia do Reino: tudo está reconciliado: o cosmos,
com a natureza verde e em paz; os produtos do trabalho humano, da generosidade
do mar e da terra; e as pessoas, numa relação harmoniosa entre si e com Deus,
sem exclusões, competições nem privilégios. A sensibilidade solidária de Jesus
situa tudo na lógica do amor, que é a única força transformadora da
história.
Texto bíblico: Jo 6,1-15
Na oração: A oração é também questão de densidade de
vida, de humanismo, de ativar a sensibilidade para com aqueles que não têm quem
os defenda; é revelar que em nosso peito bate um coração de amor infinito,
capaz de vibrar e mobilizar-nos em favor dos outros. A oração implica entrar em
sintonia com o coração compassivo de Deus voltado para a miséria humana.
- Como seguidor(a) de Jesus, qual é a sua “lógica” diante do
contexto social de exclusão e de miséria? A do Reino ou a do mercado neo-liberal?
- A pobreza, a miséria, a fome... despertam em você uma
“santa indignação” ou uma acomodação doentia?
- Os gestos de partilha e solidariedade são um modo de
proceder contínuo em sua vida?
O poeta Grapiúna, GABRIEL NASCIF teve publicado
em 1980, pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, o livro "O Sopro do Cachoeira", uma coleção de belíssimos poemas declarando seu grande amor
pela cidade natal, por pessoas, pela vida...
Apresentando o poeta, Haydée de Amorim inicia com a bela
frase: "Berço primeiro em terra Itabunense: 'Jaqueira' - rua beirando
'O Cachoeira', em certa ensolarada tarde de novembro..."
Depois de traçar o perfil do 'menino inquieto, sempre em
busca do desconhecido..., encerra assim: E de repente, “não mais que de repente”, a
eclosão dos seus versos na magnitude e dolência do SOPRO DO CACHOEIRA,
serpenteando como sua alma, ávida de emoções, numa busca eterna e
oceânica..."