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domingo, 27 de junho de 2021

PALAVRA DA SALVAÇÃO (235)

 


13º Domingo do Tempo Comum – 27/06/2021


Anúncio do Evangelho (Forma longa: Mc 5,21-43

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus atravessou de novo, numa barca, para a outra margem. Uma numerosa multidão se reuniu junto dele, e Jesus ficou na praia. Aproximou-se, então, um dos chefes da sinagoga, chamado Jairo. Quando viu Jesus, caiu a seus pés, e pediu com insistência: “Minha filhinha está nas últimas. Vem e põe as mãos sobre ela, para que ela sare e viva!” Jesus então o acompanhou. Uma numerosa multidão o seguia e o comprimia.

Ora, achava-se ali uma mulher que, há doze anos, estava com uma hemorragia; tinha sofrido nas mãos de muitos médicos, gastou tudo o que possuía, e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais. Tendo ouvido falar de Jesus, aproximou-se dele por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa. Ela pensava: “Se eu ao menos tocar na roupa dele, ficarei curada”. A hemorragia parou imediatamente, e a mulher sentiu dentro de si que estava curada da doença.

Jesus logo percebeu que uma força tinha saído dele. E, voltando-se no meio da multidão, perguntou: “Quem tocou na minha roupa?”

Os discípulos disseram: “Estás vendo a multidão que te comprime e ainda perguntas: ‘Quem me tocou?’”

Ele, porém, olhava ao redor para ver quem havia feito aquilo. A mulher, cheia de medo e tremendo, percebendo o que lhe havia acontecido, veio e caiu aos pés de Jesus, e contou-lhe toda a verdade.

Ele lhe disse: “Filha, a tua fé te curou. Vai em paz e fica curada dessa doença”. Ele estava ainda falando, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, e disseram a Jairo:  “Tua filha morreu. Por que ainda incomodar o mestre?” Jesus ouviu a notícia e disse ao chefe da sinagoga: “Não tenhas medo. Basta ter fé!” E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e seu irmão João.

Quando chegaram à casa do chefe da sinagoga, Jesus viu a confusão e como estavam chorando e gritando. Então, ele entrou e disse: “Por que essa confusão e esse choro? A criança não morreu, mas está dormindo”. Começaram então a caçoar dele. Mas, ele mandou que todos saíssem, menos o pai e a mãe da menina, e os três discípulos que o acompanhavam. Depois entraram no quarto onde estava a criança. Jesus pegou na mão da menina e disse: “Talitá cum” – que quer dizer: “Menina, levanta-te!” 42Ela levantou-se imediatamente e começou a andar, pois tinha doze anos. E todos ficaram admirados. Ele recomendou com insistência que ninguém ficasse sabendo daquilo. E mandou dar de comer à menina.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Cleberson Evangelista:


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Distanciamentos que matam


 

 “...aproximou-se de Jesus por detrás, no meio da multidão, e tocou na sua roupa” (Mc 5,27) 

O evangelho deste domingo diz respeito, de uma maneira especial, às mulheres de qualquer idade e condição; mas sua mensagem é universal e não é dirigida somente a elas.

Impressiona-nos ver Jesus buscando a libertação radical das pessoas, de tudo aquilo que possa ser um obstáculo em suas relações, crescimento pessoal, realização total.

Se considerarmos unicamente sua capacidade de curar enfermidades, nossa visão de Jesus seria muito superficial, sem captar o desejo dele de despertar em cada pessoa sua identidade mais profunda.

Ele, no seu “ministério terapêutico”, livre das ataduras da cultura, das leis, dos costumes e até da imagem de Deus alimentada pelas autoridades religiosas, é capaz de olhar cada pessoa e ver nela uma filha de Deus. Por isso, o evangelho nos revela, através de seus ensinamentos e de suas obras, a mensagem profunda de Deus de querer que seus filhos e filhas se desenvolvam em plenitude e alcancem a felicidade.

O evangelista Marcos, neste domingo, nos situa diante de duas mulheres, ambas no limite da vida: a hemorroissa leva doze anos enferma (o tempo de maturação de uma mulher), e a adolescente que está no desabrochar da vida (doze anos é a entrada na vida adulta, conforme a visão desse tempo). São suas feridas que as conduzem para o interior do amor de Deus. Por essa abertura, elas se sentem aceitas e amadas.

Por isso, nessa dupla atuação curativa de Jesus, cada um dos detalhes revela uma infinidade de mensagens diante das quais podemos nos deter para “saborear” alguma delas, e assim nos ajudar no nosso caminho de identificação com Ele. 

Vamos dedicar atenção especial ao encontro de duas sensibilidades: a de Jesus e a da mulher com hemorragias. A cena é surpreendente. Marcos nos apresenta uma mulher desconhecida como modelo de fé para as comunidades cristãs. Dela, todos poderão aprender como buscar a Jesus com fé, como chegar a um contato sanador com Ele e como encontrar nele a força para iniciar uma vida nova, cheia de paz e saúde.

A mulher é anônima, está sozinha, arruinada e junto dela não se vislumbram parentes ou amigos. Não é coxa, não é cega, não está paralítica, não é pobre, não é pagã.

Só sabemos que padece de uma enfermidade secreta, tipicamente feminina, que lhe impede viver de maneira sadia sua vida de mulher, esposa e mãe. A religião e o contexto social lhe impõem um distanciamento desumanizador; a lei religiosa está destruindo esta mulher, sem oferecer-lhe nenhuma saída de esperança; existencialmente é considerada como morta: não há lugar para ela em nenhum ambiente.

A mulher está quebrada por dentro; arrasta um drama secreto. Leva uma vida oculta que ninguém conhece. Sua perda de sangue, além de torná-la estéril, encaminha-a para a morte e a situa no mundo da impureza, da vergonha e da desonra. Quer amar e não pode. Espalha “impureza”; segundo sua lei, converte em impuro tudo o que toca. Ela é toda angústia, é toda amargura. Sua ferida interior a corrói em silêncio. “...tinha sofrido nas mãos de muitos médios, gastou tudo o que possuía e, em vez de melhorar, piorava cada vez mais” (v.26). 

Sofre muito, física e moralmente; sua vida está se esvaindo, secando, não têm forças para viver, sente-se separada dos outros. Seu dom, o sangue que possibilita gerar e nutrir outra vida nova, se converte em seu peso e em motivo para ser rejeitada por muitos. Excluída das relações, é submetida ao juízo social e ao isolamento. 

No entanto, ela resiste a viver para sempre como uma mulher enferma. Está sozinha. Ninguém lhe ajuda a aproximar-se de Jesus, mas ela saberá como encontrar-se com Ele.

Não espera passivamente que Jesus se aproxime dela para lhe impor as mãos. Ela mesma toma a iniciativa e o busca. Vai superando todos os obstáculos, faz tudo o que pode e sabe.

A angústia armazenada leva-a a romper com sua Lei; ela tem de prescindir da instituição religiosa para aproximar-se de Jesus, por sua conta, saltando sobre todas as normas. Cansada de sofrer física e moralmente e alimentando um profundo desejo de ser curada, rompe com todos os protocolos sanitários que a separavam dos outros, inclusive de Deus, e busca a quem possa lhe devolver a saúde. Para isso, ousa transgredir as normas de distanciamento social, abre caminho por entre a multidão para se aproximar de Jesus, de quem muitos lhe haviam falado. 

A mulher não se contenta só em ver Jesus de longe. Busca um contato mais direto e pessoal. Atua com determinação, mas com pudor e delicadeza. Não quer atrapalhar ninguém e nem interromper o caminho de Jesus. Aproxima-se dele por detrás, entre as pessoas e lhe toca o manto. Nesse gesto delicado se concretiza e se expressa sua confiança total na força sanadora de Jesus. Toca e se deixa tocar por Ele para poder experimentar a cura e a paz em seu interior.

“Quem tocou na minha roupa?”, perguntará Jesus. A mulher é chamada a sair de seu esconderijo, a romper o tabu que a marginalizava, a colocar um fim na cumplicidade existente entre sua vergonha e a rejeição social. Jesus não aceita essa situação “às escondidas”, à qual a mulher estava condenada por um tabu, de modo que, fora de seu costume habitual, Ele concede ao milagre o caráter de publicidade. Ela é convocada por este Homem a depositar fé em si mesma como mulher. Doravante já não será mais uma “mulher impura”, mas uma filha muito amada. “Filha, a tua fé te curou”

Para Jesus, não basta curá-la, e não fica satisfeito enquanto não estabelecer com ela um diálogo interpessoal, no qual ela lhe diz “toda a verdade”. A cura recebida abarca, pois, não somente seu corpo, mas também seu espírito, seus temores e sua vergonha, que desaparecem na confiança do diálogo e na experiência de ser reconhecida, escutada e compreendida.

Ela esperava ser salva na passiva, mas Jesus emprega o verbo na ativa, e situa nela a força que a salvou: a mulher vai embora, não apenas curada, mas tendo escutado uma bem-aventurança por causa de sua fé e tendo recebido o nome de “filha”, um título familiar raro nos Evangelhos. “Minha filha, a tua fé te curou; vai em paz e fica curada dessa doença” (v. 34)

A hemorroissa é a única pessoa nos evangelhos à qual Jesus chama “filha”. Porque estava separada de qualquer relação, Jesus estabelece com ela o vínculo mais forte que experimentou: chama-a “filha”, como Ele mesmo se sentiu chamado de “filho” pelo Pai, no batismo. Ele está batizando esta mulher; ela está nascendo para uma nova vida.

Texto bíblico:  Mc 5,21-43 

Na oração: O relato deste domingo também nos faz penetrar nos meandros da fé, convidando-nos a crer que nossa força reside precisamente em nossos limites e fragilidades, reconhecidos e assumidos.

A Revelação nos diz que Deus tem mais facilidade de entrar em nossas vidas pelas feridas, fracassos, derrotas... e não pela porta das virtudes, da perfeição, do legalismo...

- Fazer “memória redentora” de suas “feridas existenciais” como oportunidades para quebrar todos os protocolos, inclusive religiosos, e se aproximar de Jesus para tocá-lo. Talvez, basta um “toque” para o despertar de outras energias e inspirações e, assim, viver com mais intensidade e sentido.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2355-distanciamentos-que-matam


sábado, 26 de junho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: A Canção Acabou - Luiz Gonzaga Dias

 



                           A Canção Acabou

 

A canção acabou! Porém, a melodia

Anda bailando, ainda flutua no ar,

Como a nave que naufragou um dia,

Cujos destroços vogam pelo mar.

 

A canção terminou! Resta a harmonia,

Como saudade terna a soluçar,

Nas dobras da ilusão, o que tangia,

Os acordes finais do verbo amar.

 

Assemelhou-se a um dueto interrompido,

Cujas notas ficaram em resumo,

De quando em vez ressoando em meu ouvido.

 

Para que repeti-la? Esquece pois...

Já se extinguiu como um pouco de fumo.

 - A canção acabou para nós dois!


 

(IMAGENS MUTILADAS)

Luiz Gonzaga Dias

 


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Em lugar de Prefácio

 

          Como um derivativo à luta diária, neste século agitado, nesta época de progresso vertiginoso, aqui estão alguns versos reunidos neste volume, poesias na sua maior parte, dispersas nas publicações brasileiras.

            Sentencia o Evangelho, que nem só de pão vive o homem, sendo, portanto, estes versos, assim como um oásis, no deserto febril da civilização, da política, da atividade multifária dos seres, na era do avião a jato, dos inventos nucleares e do perene choque de interesse dos homens.

            Um momento de arte e descanso, não faz mal ao corpo ou ao espírito exausto.

            Se o leitor não acha que ler poesia é perder tempo, leia um pouco estes versos.

            Ao contrário, desculpe, e passe adiante.

            De qualquer modo, queira aceitar os agradecimentos do autor.

 

                                                                                  São Felix, Estado da Bahia, Julho de 1962.

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sexta-feira, 25 de junho de 2021

A DOR – Gibran Khalil Gibran

 


A Dor

 

          E uma mulher disse: “Fala-nos da Dor”.

          E ele respondeu:

          “Vossa dor é o rompimento do invólucro que encerra vossa compreensão.

          Assim com o a semente da fruta deve quebrar-se para que seu coração apareça ante o sol, deste mesmo modo deveis conhecer a dor.

          Se vosso coração pudesse viver sempre no deslumbramento do milagre cotidiano, vossa dor não vos apareceria menos maravilhosa que vossa alegria;

          E aceitaríeis as estações de vosso coração, como sempre aceitastes as estações que passa sobre vossos campos.

          E contemplaríeis serenamente os invernos de vossa aflição.

          Grande parte de vosso sofrimento é por vós próprios escolhida.

          É a amarga poção com a qual o médico que está em vós cura o vosso Eu doente.

          Confiai, portanto, no médico, e bebei seu remédio em silêncio e tranquilidade.

          Porque sua mão, embora pesada e dura, é guiada pela suave mão do invisível.

          E a taça que ele vos dá, embora queime vossos lábios, foi confeccionada com a argila que o Oleiro umedeceu com Suas lágrimas sagradas.”

         

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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VIDA E OBRA DE GIBRAN (6)

1918 Gibran deixa, pouco a pouco, de escrever em árabe e se dedica ao inglês, no qual produz também oito livros:  1918, O Demente; 1920, O Precursor; 1923, O Profeta; 1927, Areia e Espuma; 1928, Jesus, O Filho do Homem; 1931, Os Deuses da Terra. (Após sua morte foram publicados mais dois: 1932, O Errante; 1933, O Jardim do Profeta). Todos os livros ingleses de Gibran foram lançados por Alfred A. Knopf, dinâmico editor americano com inclinação para descobrir e lançar novos talentos. Ao mesmo que escreve, Gibran se dedica a desenhar e pintar. Sua arte inspirada pelo mesmo idealismo que lhe inspirou os livros, distingue-se pela beleza e a pureza das formas. Todos os seus livros ingleses foram por ele ilustrados com desenhos evocativos e místicos, de interpretação às vezes difícil, mas de profunda e comovedora inspiração. Seus quadros foram expostos várias vezes com êxito em Boston e Nova Iorque. Seus desenhos de personalidades históricas são também célebres.

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quinta-feira, 24 de junho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA REFLETINDO: Se para corrigir você precisa humilhar, você não sabe ensinar


Um jovem encontra um senhor de idade e lhe pergunta:


- Se lembra de mim? E o velho diz NÃO.

Então o jovem diz que foi aluno dele.

E o professor pergunta:
- O que você está fazendo, o que você faz para viver?

O jovem responde:
- Bem, eu me tornei professor.

- Ah, que bom, como eu? (disse o velho).

- Pois sim.

Na verdade, eu me tornei professor porque você me inspirou a ser como você.

O velho, curioso, pergunta ao jovem que momento foi que o inspirou a ser professor.

E o jovem conta a seguinte história:
- Um dia, um amigo meu, também estudante, chegou com um relógio novo e bonito, e eu decidi que queria para mim e eu o roubei, tirei do bolso dele. 
Logo depois, meu amigo notou o roubo e imediatamente reclamou ao nosso professor, que era você. Então, você parou a aula e disse:

- O relógio do seu parceiro foi roubado durante a aula hoje.
Quem o roubou, devolva-o.

Eu não devolvi porque não queria fazê-lo.

Então você fechou a porta e disse para todos nos levantar e iria vasculhar nossos bolsos até encontrar o relógio.

Mas, nos disse para fechar os olhos, porque só procuraria se todos tivéssemos os olhos fechados.

Então fizemos, e você foi de bolso em bolso, e quando chegou ao meu, encontrou o relógio e o pegou.

Você continuou procurando nos bolsos de todos e, quando disse:
- "Abram os olhos. Já temos o relógio."
Você não me disse nada e nunca mencionou o episódio.
Nunca disse quem foi quem roubou o relógio.
Naquele dia, você salvou minha dignidade para sempre.
Foi o dia mais vergonhoso da minha vida.

Mas também foi o dia em que minha dignidade foi salva de não me tornar ladrão, má pessoa, etc. Você nunca me disse nada e, mesmo que não tenha me repreendido ou chamado minha atenção para me dar uma lição de moral, recebi a mensagem claramente.

E, graças a você, entendi que é isso que um verdadeiro educador deve fazer.

Você se lembra desse episódio, professor?

E o professor responde:
- "Lembro-me da situação, do relógio roubado, que procurava em todos, mas não lembro de você, porque também fechei os olhos enquanto procurava."

....
Esta é a essência do ensino:
Se para corrigir você precisa humilhar, você não sabe ensinar.

 

https://www.instagram.com/p/CQgD6tFBBfB/?utm_source=ig_web_copy_link

(Copiado do Instagram. Autor não mencionado)

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quarta-feira, 23 de junho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Luiz Gonzaga Dias - Máscara para Vencer na Vida

 


 

Máscara para vencer na vida

Luiz Gonzaga Dias

 

Usou-a no carnaval... Pleno sucesso,

Na vez primeira que ocultou a cara.

Máscara linda aquela – um adereço,

Para esconder da natureza a tara...

 

Folgou, fingiu ter qualidade rara,

E despertou admiração, apreço...

Então pensou usá-la sempre, para,

No social meio, conservar ingresso.

 

Nem previra o prestígio conseguido!

Buscado há tanto, a custo de canseira,

Achado quando já desiludido...

 

Tamanho êxito ganho na primeira

Vez, fê-lo seguir disposto, decidido,

A usar máscara pela vida inteira!

 

(IMAGEM MUTILADA)

Luiz Gonzaga Dias


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terça-feira, 22 de junho de 2021

UM POETA DA MATEMÁTICA - Marco Lucchesi


A matemática perde um grande poeta. E quanto a mim, perdi um mestre e um amigo. Ubiratan d'Ambrosio (falecido a 12 de maio, aos 88 anos, em S. Paulo, de onde era natural) fundou uma nova antropologia da matemática e uma forma inovadora de ensiná-la. Mestre de águas claras, Paulo Freire era seu irmão de liberdade. E declarou que a paz era também função de número e proporção. A etnomatemática deve-lhe a fundação, a forma de aprofundar-se, uma rede conceitual. 

Volto às suas memórias híbridas, sem narrador onisciente, inclinado à ficção da matéria rediviva. Várias formas de entrar e sair. Um tesouro de testemunhos, e felizes redundâncias, como um discurso musical, quando o mesmo episódio é revisitado com variações. Memórias que ostentam uma saudável dispersão, aparentes disjecta membra. Cabe ao leitor a tarefa dos fios da narrativa, que acercam a matemática no Mali e no Brasil, as atividades docentes, as não poucas missões entre organismos internacionais e escolas em áreas vulneráveis. E sobretudo a defesa de novas epistemologias, enucleadas no viés transcultural e no recorte transdisciplinar, que formam a digital de Ubitatan.

Emociona a evocação de Salomon Marcus, nosso amigo comum, professor que transitou vida afora entre a poesia e a matemática, discípulo, como foi, do grande poeta matemático Ion Barbu. Não são dois mundos, o das ciências exatas (depois de Gödel temos de mudar o tom) e o das ciências humanas. Nada além do mundo cultural, desde um generoso senso de unidade. Esse é também o espírito sensível de Ubiratan. Tenho uma dívida com ele, por haver apaziguado minha relação, outrora nada simples, com as matemáticas. Voltei para essa casa, de números e padrões, como o filho pródigo, através de seus livros, mediante suas palavras audazes.

A etnomatemática é um divisor de águas no campo dos saberes, que tangencia a hermenêutica e a história da matemática, rasgando novas fronteiras. E me levou-me a pensar, de modo mais estruturado, em uma poética da matemática. Como se o fio de Novalis não se houvesse peridod, assim como a lição de Leonardo, que vibra além das disciplinas e não se fecha em dimensões burocráticas, Ubiratan me conquistou pelo seu juízo severo do ensino da matemática, segundo um cardápio de sugestões fascinante.

Mas é a proposta de uma cultura da paz que se afirma, a cultura, onde seguimos todos implicados, nas escritas da periferia e do sistema prisional. Ubiratan acertou em cheio. O ensino da matemática traduz parte do ideal possível de uma paz perpétua, ou de uma ética em trânsito que sonha com uma parcela de beleza e liberdade.

Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), 19/05/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/um-poeta-da-matematica

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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segunda-feira, 21 de junho de 2021

UM CAPRICHO – Artur Azevedo




Um Capricho 
 
Artur Azevedo


          Em Mar de Espanha havia um velho fazendeiro, viúvo, que tinha uma filha muito tola, muito mal-educada e, sobretudo, muito caprichosa. Chamava-se Zulmira.

          Um bom rapaz, que era empregado no comércio da localidade, achava-a bonita, e como estivesse apaixonado por ela, não lhe descobria o menor defeito.

          Perguntou-lhe uma vez se consentia que ele fosse pedi-la ao pai.

          A moça exigiu dois dias para refletir.

          Vencido o prazo, respondeu:

          - Consinto, sob uma pequena condição.

          - Qual?

          - Que o seu nome seja impresso.

          - Como?

          - É um capricho.

          - Ah!

          - Enquanto não vir o seu nome em letra redonda, não quero que me peça.

          - Mas isso é a coisa mais fácil...

          - Não tanto como supõe. Note que não se trata da sua assinatura, mas do seu nome. É preciso que não seja coisa sua.

          Epidauro, que assim se chamava o namorado, parecia não ter compreendido. Zulmira acrescentou:

          - Arranje-se!

          E repetiu:

          - É um capricho.

          Epidauro aceitou, resignado, a singular condição, e foi para casa.

          Aí chegando, deitou-se ao comprido na cama e, contemplando as pontas dos sapatos, começou a imaginar por que meios e modos faria publicar o seu nome.

          Depois de meia hora de cogitação, assentou em escrever uma correspondência anônima para certo periódico da Corte, dando-lhe graciosamente notícias de Mar de Espanha.

          Mas o pobre namorado tinha que lutar com duas dificuldades: a primeira é que em Mar de Espanha nada sucedera digno de menção; a segunda estava em como encaixar o seu nome na correspondência.

          Afinal conseguiu encher duas tiras de papel de notícias deste jaez!

          “Consta-nos que o Revm.º Padre Fulano, vigário desta freguesia, passa para a de tal parte.”

          “O Ilm.º Sr. Dr. Beltrano, juiz de direito desta comarca, completou anteontem 43 anos de idade. S. Sr.ª, que se acha muito bem conservado, reuniu em casa alguns amigos,”

          “Tem chovido bastante estes últimos dias” etc.

          Entre essas modestas novidades, o correspondente espontâneo, depois de vencer um pequenino escrúpulo, escreveu:

          “O nosso amigo Epidauro Pamplona tenciona estabelecer-se por conta própria.”

          Devidamente selada e lacrada a correspondência seguiu, mas...

          Mas não foi publicada.

 

          O pobre rapaz resolveu tomar um expediente e o trem de ferro.

          - À Corte! À Corte! – dizia ele consigo – Ali, por fás ou por nefas, há de ser impresso o meu nome!

          E veio para a Corte.

          Da estação central dirigiu-se imediatamente ao escritório de uma folha diária, e formulou graves queixas contra o serviço da estrada de ferro. Rematou dizendo:

          - Pode dizer, Sr. Redator, que sou eu o informante.

          - Mas quem é o senhor? – perguntou-lhe o redator, molhando uma pena. – O seu nome?

          - Epidauro Pamplona.

          O jornalista escreveu. O queixoso teve um sorriso de esperança.

          - Bem, se for preciso, cá fica o seu nome.

          Queria ver-se livre dele; no dia seguinte, nem mesmo a queixa veio a lume.

          Epidauro não desesperou.

          Outra folha abiu uma subscrição não sei para que vítimas; publicava todos os dias a relação dos contribuintes.

          - Que bela ocasião! – murmurou o obscuro Pamplona.

          E foi levar cinco mil réis à redação.

          Com tão má letra, porém, assinou, e tão pouco cuidado tiveram na revisão das provas, que saiu:

          Epifânio Peixoto........................... 5$000

          Epidauro teve vergonha de pedir errata e assinou mais 2$000

          Saiu:

          “Com a quantia de 2$, que um cavalheiro ontem assinou, perfaz a subscrição tal a quantia de tanto que hoje entregamos etc. Está fechada a subscrição.”

 

 

          Uma reflexão de Epidauro:

          Oh! Se eu me chamasse José da Silva! Qualquer nome igual que se publicasse, embora não fosse o meu, poderia servi-me! Mas eu sou o único Epidauro Pamplona...

          E era.

          Daí, talvez, o capricho de Zulmira.

          Uma folha caricata costumava responder às pessoas que lhe mandavam artigos declarando os respectivos nomes no Expediente.

          Epidauro mandou uns versos, e que versos! A resposta dizia: “Sr. E.P. – Não seja tolo.”

 

          Como último recurso, Epidauro apoderou-se de um queijo de Minas à porta de uma venda e deitou a fugir como quem não pretendia evitar os urbanos, que apareceram logo. O próprio gatuno foi o primeiro a apitar.

          Levaram-no para uma estação de polícia. O oficial de serviço ficou muito admirado de que om moço tão bem trajado furtasse um queijo, como um reles larápio.

          Estudantadas... refletiu o militar; e, voltando para o detido:

          - O seu nome?

          - Epidauro Pamplona! – bradou com triunfo o namorado de Zulmira.

          O oficial acendeu um cigarro e disse num tom paternal:

          - Está bem, está bem, Sr. Pamplona. Vejo que é um moço decente, que cedeu a alguma rapaziada.

          Ele quis protestar.

          - Eu sei o que isso é! – atalhou o oficial. – De uma vez em que saí da súcia com uns camaradas meus pela Rua do Ouvidor, tiramos à sorte qual de nós havia de furtar uma lata de goiabada à porta de uma confeitaria. Já lá vão muitos anos.

          E noutro tom:

          - Vá-se embora, moço, e trate de evitar as más companhias.

          - Mas...

          - Descanse, o seu nome não será publicado. Não havia réplica possível. Demais, Epidauro era por natureza tímido.

          O seu nome, escrito entre os dos vagabundos e ratoneiros, era uma arma poderosíssima que forjava contra os rigores de Zulmira. Dir-lhe-ia:

          - Impuseste-me uma condição que bastante me custou a cumprir. Vê o que fez de mim o teu capricho!

 

          Quando Epidauro saiu da estação, estava resolvido a tudo!

          A matar um homem, se preciso fosse, contanto que lhe publicassem as dezesseis letras do nome!

 

          Lembrou-se de prestar exame na Instrução Pública.

          O resultado seria publicado no dia seguinte.

          E, com efeito, foi: “Houve um reprovado.”

          Era ele!

          Tudo falhava.

 

          Procurou muitos e muitos meios, o pobre Pamplona, para fazer imprimir o seu nome; mas tantas contrariedades o acompanharam nesse desejo que jamais conseguiu realizá-lo.

          Escusado é dizer que nunca se atreveu a matar ninguém.

          A última tentativa não foi menos original.

          Epidauro lia sempre nos jornais:

          “Durante a semana finda, S. M. o Imperador foi cumprimentado pelas seguintes pessoas, etc.”

          Lembrou-se também de ir cumprimentar Sua Majestade.

          - Chego ao paço – pensou ele – dirijo-me ao imperador, e digo-lhe: - Um humilde súdito vem cumprimentar Vossa Majestade – e saio.

          Mandou fazer casaca. Mas, no dia em que devia ir a São Cristóvão, teve febre e caiu de cama.

 

          Voltemos a Mar de Espanha:

          Zulmira está sentada ao pé do pai. Acaba de contar-lhe a condição que impôs a Epidauro. O velho fazendeiro ri-se a bandeiras despregadas.

          Entra um pajem.

          Traz o “Jornal do Comércio”, que tinha ido buscar à agência de correio.

          A moça percorre a folha, e vê, afinal, publicado o nome de Epidauro Pamplona.

          - Coitado! – murmura, e passa o jornal ao velho.

          - É no obituário.

          “Epidauro Pamplona, 23 anos, solteiro, mineiro, - Febre perniciosa.”

          O fazendeiro, que é estúpido por excelência, acrescenta:

          - Coitado! Foi a primeira vez que viu publicado o seu nome.

 

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Artur Azevedo
(Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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