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segunda-feira, 21 de junho de 2021

UM CAPRICHO – Artur Azevedo




Um Capricho 
 
Artur Azevedo


          Em Mar de Espanha havia um velho fazendeiro, viúvo, que tinha uma filha muito tola, muito mal-educada e, sobretudo, muito caprichosa. Chamava-se Zulmira.

          Um bom rapaz, que era empregado no comércio da localidade, achava-a bonita, e como estivesse apaixonado por ela, não lhe descobria o menor defeito.

          Perguntou-lhe uma vez se consentia que ele fosse pedi-la ao pai.

          A moça exigiu dois dias para refletir.

          Vencido o prazo, respondeu:

          - Consinto, sob uma pequena condição.

          - Qual?

          - Que o seu nome seja impresso.

          - Como?

          - É um capricho.

          - Ah!

          - Enquanto não vir o seu nome em letra redonda, não quero que me peça.

          - Mas isso é a coisa mais fácil...

          - Não tanto como supõe. Note que não se trata da sua assinatura, mas do seu nome. É preciso que não seja coisa sua.

          Epidauro, que assim se chamava o namorado, parecia não ter compreendido. Zulmira acrescentou:

          - Arranje-se!

          E repetiu:

          - É um capricho.

          Epidauro aceitou, resignado, a singular condição, e foi para casa.

          Aí chegando, deitou-se ao comprido na cama e, contemplando as pontas dos sapatos, começou a imaginar por que meios e modos faria publicar o seu nome.

          Depois de meia hora de cogitação, assentou em escrever uma correspondência anônima para certo periódico da Corte, dando-lhe graciosamente notícias de Mar de Espanha.

          Mas o pobre namorado tinha que lutar com duas dificuldades: a primeira é que em Mar de Espanha nada sucedera digno de menção; a segunda estava em como encaixar o seu nome na correspondência.

          Afinal conseguiu encher duas tiras de papel de notícias deste jaez!

          “Consta-nos que o Revm.º Padre Fulano, vigário desta freguesia, passa para a de tal parte.”

          “O Ilm.º Sr. Dr. Beltrano, juiz de direito desta comarca, completou anteontem 43 anos de idade. S. Sr.ª, que se acha muito bem conservado, reuniu em casa alguns amigos,”

          “Tem chovido bastante estes últimos dias” etc.

          Entre essas modestas novidades, o correspondente espontâneo, depois de vencer um pequenino escrúpulo, escreveu:

          “O nosso amigo Epidauro Pamplona tenciona estabelecer-se por conta própria.”

          Devidamente selada e lacrada a correspondência seguiu, mas...

          Mas não foi publicada.

 

          O pobre rapaz resolveu tomar um expediente e o trem de ferro.

          - À Corte! À Corte! – dizia ele consigo – Ali, por fás ou por nefas, há de ser impresso o meu nome!

          E veio para a Corte.

          Da estação central dirigiu-se imediatamente ao escritório de uma folha diária, e formulou graves queixas contra o serviço da estrada de ferro. Rematou dizendo:

          - Pode dizer, Sr. Redator, que sou eu o informante.

          - Mas quem é o senhor? – perguntou-lhe o redator, molhando uma pena. – O seu nome?

          - Epidauro Pamplona.

          O jornalista escreveu. O queixoso teve um sorriso de esperança.

          - Bem, se for preciso, cá fica o seu nome.

          Queria ver-se livre dele; no dia seguinte, nem mesmo a queixa veio a lume.

          Epidauro não desesperou.

          Outra folha abiu uma subscrição não sei para que vítimas; publicava todos os dias a relação dos contribuintes.

          - Que bela ocasião! – murmurou o obscuro Pamplona.

          E foi levar cinco mil réis à redação.

          Com tão má letra, porém, assinou, e tão pouco cuidado tiveram na revisão das provas, que saiu:

          Epifânio Peixoto........................... 5$000

          Epidauro teve vergonha de pedir errata e assinou mais 2$000

          Saiu:

          “Com a quantia de 2$, que um cavalheiro ontem assinou, perfaz a subscrição tal a quantia de tanto que hoje entregamos etc. Está fechada a subscrição.”

 

 

          Uma reflexão de Epidauro:

          Oh! Se eu me chamasse José da Silva! Qualquer nome igual que se publicasse, embora não fosse o meu, poderia servi-me! Mas eu sou o único Epidauro Pamplona...

          E era.

          Daí, talvez, o capricho de Zulmira.

          Uma folha caricata costumava responder às pessoas que lhe mandavam artigos declarando os respectivos nomes no Expediente.

          Epidauro mandou uns versos, e que versos! A resposta dizia: “Sr. E.P. – Não seja tolo.”

 

          Como último recurso, Epidauro apoderou-se de um queijo de Minas à porta de uma venda e deitou a fugir como quem não pretendia evitar os urbanos, que apareceram logo. O próprio gatuno foi o primeiro a apitar.

          Levaram-no para uma estação de polícia. O oficial de serviço ficou muito admirado de que om moço tão bem trajado furtasse um queijo, como um reles larápio.

          Estudantadas... refletiu o militar; e, voltando para o detido:

          - O seu nome?

          - Epidauro Pamplona! – bradou com triunfo o namorado de Zulmira.

          O oficial acendeu um cigarro e disse num tom paternal:

          - Está bem, está bem, Sr. Pamplona. Vejo que é um moço decente, que cedeu a alguma rapaziada.

          Ele quis protestar.

          - Eu sei o que isso é! – atalhou o oficial. – De uma vez em que saí da súcia com uns camaradas meus pela Rua do Ouvidor, tiramos à sorte qual de nós havia de furtar uma lata de goiabada à porta de uma confeitaria. Já lá vão muitos anos.

          E noutro tom:

          - Vá-se embora, moço, e trate de evitar as más companhias.

          - Mas...

          - Descanse, o seu nome não será publicado. Não havia réplica possível. Demais, Epidauro era por natureza tímido.

          O seu nome, escrito entre os dos vagabundos e ratoneiros, era uma arma poderosíssima que forjava contra os rigores de Zulmira. Dir-lhe-ia:

          - Impuseste-me uma condição que bastante me custou a cumprir. Vê o que fez de mim o teu capricho!

 

          Quando Epidauro saiu da estação, estava resolvido a tudo!

          A matar um homem, se preciso fosse, contanto que lhe publicassem as dezesseis letras do nome!

 

          Lembrou-se de prestar exame na Instrução Pública.

          O resultado seria publicado no dia seguinte.

          E, com efeito, foi: “Houve um reprovado.”

          Era ele!

          Tudo falhava.

 

          Procurou muitos e muitos meios, o pobre Pamplona, para fazer imprimir o seu nome; mas tantas contrariedades o acompanharam nesse desejo que jamais conseguiu realizá-lo.

          Escusado é dizer que nunca se atreveu a matar ninguém.

          A última tentativa não foi menos original.

          Epidauro lia sempre nos jornais:

          “Durante a semana finda, S. M. o Imperador foi cumprimentado pelas seguintes pessoas, etc.”

          Lembrou-se também de ir cumprimentar Sua Majestade.

          - Chego ao paço – pensou ele – dirijo-me ao imperador, e digo-lhe: - Um humilde súdito vem cumprimentar Vossa Majestade – e saio.

          Mandou fazer casaca. Mas, no dia em que devia ir a São Cristóvão, teve febre e caiu de cama.

 

          Voltemos a Mar de Espanha:

          Zulmira está sentada ao pé do pai. Acaba de contar-lhe a condição que impôs a Epidauro. O velho fazendeiro ri-se a bandeiras despregadas.

          Entra um pajem.

          Traz o “Jornal do Comércio”, que tinha ido buscar à agência de correio.

          A moça percorre a folha, e vê, afinal, publicado o nome de Epidauro Pamplona.

          - Coitado! – murmura, e passa o jornal ao velho.

          - É no obituário.

          “Epidauro Pamplona, 23 anos, solteiro, mineiro, - Febre perniciosa.”

          O fazendeiro, que é estúpido por excelência, acrescenta:

          - Coitado! Foi a primeira vez que viu publicado o seu nome.

 

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Artur Azevedo
(Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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domingo, 20 de junho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Domadora do Oceano - Moacir Gomes de Almeida



 
Domadora do Oceano

 Moacir Gomes

 

Eis a teus pés o oceano... É teu o oceano!

Deusa do mar, teu vulto aclara os mares,

Esguio como um cíato romano,

Nervoso, como a chama dos altares...

 

A alma das vagas, no ímpeto vesano,

Ajoelha ante os teus olhos estelares...

Eis a teus pés o oceano... É teu o oceano!

Cobre-se do verde sol dos teus olhares!

 

Sou o oceano... És a aurora! Eis-me de joelhos,

Ainda ferido nos tufões adversos

Lacerado em relâmpagos vermelhos!

 

Sou teu, divina! E, em meus gritos medonhos,

Lanço a teus pés a espuma de meus versos

E as pérolas de fogo de meus sonhos!

 

MOACIR GOMES DE ALMEIDAPatrono na Academia Belo-Horizontina de Letras (Cadeira de número 40) e da Academia Carioca de Letras (Cadeira de número 40), nasceu no Rio de Janeiro em 22/04/1902 e aí faleceu em 30/04/1925, deixou um famoso livro de poesias que intitulou Gritos Bárbaros, editado em 1925, que é um dos mais interessantes livros da moderna geração de poetas brasileiros. Pelo apuro da forma é um parnasiano e pela maneira de tratar os temas foi um condoreiro. Outras produções poéticas esparsas foram coligidas e editadas, juntamente com Gritos Bárbaros, sob o título de Poesias Completas por seu irmão (também poeta) Pádua de Almeida.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (235)

 


12º Domingo do Tempo Comum – 20/06/2021

 

Anúncio do Evangelho (Mc 4,35-41)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!”

Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele.

Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher. Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro. Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?”

Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” O vento cessou e houve uma grande calmaria. Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”

Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/liturgia/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Frei Pedro Júnior, Ofs:



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A força sedutora das "margens"



imagem: pexels.com

“Vamos para a outra margem!” (Mc 4,35)

 

O evangelho deste domingo fala de movimento, de deslocamento em direção a outras perspectivas, de saída dos próprios espaços de proteção e segurança, para acolher outras vidas, outras histórias, abrir-se ao novo, ao diferente. Que significa, para cada um, a outra margem? Desde logo, não há resposta padrão; ela é muito pessoal, como é pessoal a adesão à pessoa de Jesus. Convite pessoal e comunitário, de relação amistosa profunda, para encontrar n’Ele nossa segurança e, assim, continuar a vida com mais inspiração.

É uma grande riqueza ir às margens de nossos irmãos, não como turista, mas como peregrinos.

Jesus convida a todos nós a cruzar o mar em direção à outra margem. Estamos tão acostumados em nossa margem rotineira que não é fácil arriscar e fazer a travessia; nem sequer estamos convencidos de que exista outra Margem, mais além das comodidades e das seguranças que buscamos. No entanto, nossa meta está do outro lado do risco e do perigo. A falta de confiança continua sendo a causa de não nos atrevermos a dar o passo; resistimos acreditar que Ele vai em nossa própria barca.

“A nossa fé não é uma fé laboratório, mas uma fé caminho, uma fé histórica. Deus se revelou como história, não como um compendio de verdades abstratas... Não é preciso levar a fronteira à casa, mas viver em fronteira e ser audazes” (Papa Francisco).

Entrar na barca com o Mestre significa “embarcar” na vida d’Ele, correndo riscos de sofrer rejeições, abalos e tempestades.

O contexto social pós-moderno desencadeou uma complexa turbulência em todos os domínios da vida, gerando novos desafios para a adaptação do ser humano a seu ambiente. As pessoas sentem-se cada vez mais ameaçadas, por realidades externas e internas, a sensação de insegurança aumenta e torna-se mais indefinida; por conseguinte, os níveis de ansiedade e angústia são cada vez mais elevados, conduzindo a verdadeiras situações de ruptura e desespero.

Reforçam-se e elevam-se os gradeamentos, mudam-se e sofisticam-se as fechaduras, as pessoas armam-se, as sociedades ficam cada dia menos seguras e estáveis. É um círculo dramático e infernal cujo resultado é o desenvolvimento crescente de uma espiral de medo, de violência, de stress..., tornando as pessoas insensíveis, passivas e conformadas.

É com esta situação que temos de aprender a lidar e a conviver. De fato, a pressão rotineira vivida cotidianamente nos diferentes ambientes demanda uma enorme competência e uma capacidade de adaptação diante de situações altamente adversas, agressivas e até violentas. 

Como seguidores(as) de Jesus que bebemos das fontes do Evangelho, duas são as “margens” que nos seduzem, nos mobilizam e nos fazem chegar onde outros não chegam ou  encontram dificuldades para chegar; estas duas “margens” constituem a originalidade de nossa vivência cristã e de nossa missão no mundo de hoje: a “margem” da interioridade e a “margem” da universalidade. São “margens” que nos humanizam, pois nos mobilizam a “descer” em direção àquilo que é mais humano, em nós e na realidade que nos interpela.

Em primeiro lugar, “passar para a outra margem” nos evoca o chamado a assumir um deslocamento social e religioso que tem um componente de risco e mudança. Implica sair do conhecido, abandonar as próprias seguranças; mudar de lugar, geográfico e/ou existencial, ir aonde ainda não temos ido e enfrentar uma travessia incerta; e, por último, atrever-nos a entrar em contato com o diferente e desconhecido e aceitar ser transformados. Esse desafio hoje nos sacode e pode gerar em nós inquietude e desassossego, como a tormenta que ameaça os discípulos depois de entrarem na barca. 

Precisamos também fazer a travessia em direção à outra margem de nós mesmos, aquela que não costumamos visitar. Descobrir nosso tesouro escondido: a quantidade de qualidades e recursos que ativamos com mediocridade, ou simplesmente não usamos. Porque, se nos níveis mental e emocional tendemos a nos instalar, no mais profundo, no entanto, nos habita o desejo do “mais”, que nos impulsiona, a partir de dentro, numa expansão aberta a horizontes cada vez maiores.

A “outra margem” é a novidade do presente, a descoberta incessante, a amplitude sem limites. Mas só poderemos começar a cruzá-la se estivermos dispostos a deixar nossos caminhos trilhados e nos entregarmos com docilidade à Vida – outro nome de nosso “mestre interior”.

O primeiro desejo de chegar à outra margem nasce de dentro, do coração, que entende sua missão como busca e peregrinação interior, como um colocar-se em movimento... Sair da margem conhecida, “velha”, rotineira... para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade, de encontro com o novo e diferente… 

A outra margem, lugar provocador, incitador, que desperta curiosidade... Aqui brotam as grandes experiências religiosas, as intuições, projetos, ideais vitais.

Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em seu próprio interior...

Precisamos, para isso, ativar nossa “inteligência espiritual”, como a capacidade que nos permite acessar e conectar com essa dimensão profunda, à qual nos referimos com o termo “espiritualidade”. 

Aderir à pessoa de Jesus, portanto, é arriscar-nos à travessia do mar da vida; não estamos sozinhos; talvez nos encontramos perdidos em alto mar esperando resgate e não somos capazes de perceber que no interior de nossa barca há uma presença que nos pacifica. Ao chegarmos à outra margem descobriremos uma experiência pessoal e comunitária de fé na pessoa de Jesus, que nos ressuscita por dentro, que nos injeta vida nova e alegria profunda.

No entanto, é na vivência da adversidade que se dá o encontro das oportunidades para o crescimento.

Muitas vezes, são justamente as circunstâncias adversas, extremamente difíceis, que despertam na pessoa as condições mais criativas, que enriquecem suas possibilidades práticas de atuar sobre a realidade em que vive e transformá-la ou transformar-se.

Isto quer dizer que, diante da adversidade, a pessoa mobiliza um conjunto de recursos dos quais não tinha consciência anterior, mas cujo efeito é potencializador de crescimento e enriquecimento pessoal. 

Texto bíblico:   Mc. 4,35-41 

Na oração:  Nas nossas vidas acontece algo de verdadeiro e belo quando nos dispomos a buscar dentro de nós mesmos a razão da nossa existência.

- A nossa vida é um êxodo, um sair constante de uma realidade para entrar em uma outra realidade nova.

peregrinar é o elemento determinante e com maior valor simbólico para toda a vida.

- Existem ainda céus por explorar, aventuras por empreender, pensamentos por experimentar e experiências por aceitar; falta-nos ainda muito por saber, por ver, por sentir, por desfrutar...

- No “mapa espiritual” de nosso interior ainda existe uma “terra desconhecida”, que desperta interesse à vida, suscita curiosidade, nos põe a caminho...  Grandes surpresas interiores estão à nossa espera, e a capacidade de continuar buscando é que dá sentido ao esforço e vigor à vida.


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2349-a-forca-sedutora-das-margens

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sábado, 19 de junho de 2021

A VOLTA DA CASA 842 - Ignácio de Loyola Brandão

 


Para Maurice Capovilla, 

cujo primeiro filme eu escrevi, 

amizade de uma vida


Rita Mazzoni, parente minha e neta de Sebastião Bandeira, contou que Mário de Andrade, certa tarde em que esteve em Araraquara, em uma de suas visitas à chácara de Pio Lourenço, desceu a Avenida Guaianases, hoje Djalma Dutra. Foi visitar Sebastião Bandeira, famoso por estar desenvolvendo um moto-contínuo. Ao chegar, Mário deu com Sebastião a conversar com José Maria Brandão. Entrou na conversa e foram confirmar os progressos de Sebastião. Assim teria sido o encontro de meu avô com um dos mais célebres intelectuais brasileiros. Vovô Gegé, como dizia vovó Branca, vindo de Matão, morou até o final da vida na esquina da rua 8, número 842. Aquela casa faz parte da memória afetiva de gerações. Ali vivi o episódio que me angustiou a vida inteira até que, 60 anos depois, consegui escrever Os Olhos Cegos do Cavalos Loucos, um dos cinco Jabutis que ganhei.

Esta casa voltou a fazer parte de minha vida depois de 40 anos. Há décadas ela desligou-se da família e de repente ressurge. Acabou de chegar um e-mail de dois jovens, Flávia e Gabriel Paduan, contando que se casaram e compraram a casa. Souberam que ela tinha pertencido ao meu avô e gostariam de saber o que o lugar significa para mim. “Que espaço é este em que vamos morar?”, indagaram. Aquela casa ainda tem para mim a fragrância das madeiras amontoadas na marcenaria de meu avô. O cheiro dos pudins que vovó Branca assava no fogão a lenha com brasas na tampa. O aroma espesso do “virado” de banana e farinha de milho, no qual tia Maria era tão craque quanto Rita Lobo. O cheiro de licor de abacaxi, criado a partir da casca da fruta fermentada, e também o dos pães quentinhos trazidos pela carrocinha do Pasetto. O perfume de tia Ignácia, minha madrinha, flutuando pela casa, quando ela saia domingo para a sessão de cinema. O verde transparente e mágico dos olhos de tia Terezinha, mulher do tio José. As arruaças dos netos vindos de Bauru ou de alguma cidade da Araraquarense, ansiosos por ouvir tia Margarida ler os contos da Carochinha. Os perfumes diferentes (franceses?) de tia Inez, mais bela que Rita Hayworth, mulher do tio Geraldo, quando vinham encontrar a família, para irem a um teatro, cinema ou reza solene. Tio Geraldo, conhecido como Celso Davila, foi dos melhores atores das novelas da PRD-4 Rádio Cultura. 

O número 842 ficava na frente da casa de Cristina Machado, Iaia, minha primeira professora. Ela vendeu sua escola para Lourdes Prado, que ficava na esquina oposta. Lourdes me ensinou redação. Naquela esquina, aos 11 anos, durante o ano inteiro de 1947, no começo da noite de quarta-feira, eu esperava por Carmem de Paula. Ela assinava o Diário de São Paulo e me entregava o suplemento juvenil que trazia os quadrinhos de Drago, clássico de Burne Hogart (um dos criadores de Tarzan nos gibis) e de Brick Bradford, de William Ritt e Clarece Day. Incendiavam minha imaginação. Sôfrego, eu lia sentado na sarjeta à luz do poste e tremia com vilões como o assassino Stiletto, o nazista Barão Zodiac e a bela Tosca. 

Na esquina da rua 8, em frente à escolinha da Lourdes, ficava o ônibus circular à gasogênio do Braz Pirolla, que tinha uma oficina mecânica. Brincávamos dentro, até que Braz aparecia e fim da festa. “Dirigi” tanto aquele ônibus que nunca mais dirigi na vida. Poucos souberam que na esquina oposta a de vovô, na avenida 7 de Setembro, morou uma mulher vinda de Santa Rita do Passa Quatro, de nome Branca, paixão de Zequinha de Abreu, o compositor de Tico-tico no Fubá. Para ela, Zequinha escreveu a valsa que leva seu nome, um clássico. Branca foi vivida no cinema por Tônia Carrero em filme de 1952 dirigido por Adolfo Celli e produzido por um dos melhores amigos que tive, Fernando de Barros. Vizinhos, os Carmona, produziam macarrão eu ia lá buscar letrinhas de massa para fazer sopa, mas eu preferia escrever frases colando-as em papel.

Nos finais de tarde, vizinhos e amigos sentavam-se na calçada para a roda de conversas e café, encontro que seguia até 10 da noite, quando a sirene da Meias Lupo tocava, para o novo turno de funcionários. Alguém alertava: “A sereia da Lupo tocou, vamos entrar”. A cidade ia dormir. Sereia era a sirene. Este costume foi retratado por Zé Celso Martinez Corrêa em sua primeira peça teatral Cadeiras na Calçada.

Agora, vejam só, Flávia é bisneta de Vicente Gullo, imigrante italiano que montou seu açougue na esquina da rua 6 com a avenida Sete. Vicente e Domingas, dona Didi, são avós de Marcia, minha mulher. Dona Didi foi das melhores amigas de minha mãe, Maria do Rosario, unidas pela devoção a São José. De vestido preto e fitas amarelas iam juntas para a Matriz, no começo da noite. Morando na casa 842, o que é a vida? Pontos soltos se encontram. Acaso, ou simultaneidade? 

O Estado de S. Paulo, 04/06/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/volta-da-casa-842

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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sexta-feira, 18 de junho de 2021

INÚTIL SERÁ LEVANTAR DE MADRUGADA – Pe. David Francisquini



Padre David Francisquini *

A virtude da fé é a regra da vida, e a conduta virtuosa o espelho da alma de quem crê em Jesus Cristo e se conforma com os seus ensinamentos. Com efeito, aqueles que amam e temem a Deus constituem exemplo para todos, de modo especial para os inocentes, luz reflexa de integridade moral.

A vida delas apresenta-se fácil aos olhos dos adultos, pois possuem uma espécie de bússola que as guia diante de exemplos que as encantam. Nosso Senhor serviu-se delas como exemplo para alcançarmos o reino dos céus, tornando-nos como crianças.

Enquanto os incrédulos e orgulhosos do mundo as ofendem, os pequeninos em Cristo edificam-nas e honram-nas, por isso mesmo Nosso Senhor disse aos que as escandalizam que melhor lhes fora pendurar a mó de um moinho ao pescoço e se atirarem nas profundezas do mar.

O Filho de Deus usa a linguagem corrente da época para nos ensinar esta verdade, pois a prática de amarrar a mó ao pescoço era própria para castigar os grandes criminosos, sobretudo pelos pecados de escândalo.

As crianças devem ser alvo de carinho, afeto e predileção, uma vez que seus anjos contemplam a face de Deus Pai que está nos céus.

Seria grosseiro não se comover por isso, pois o próprio Jesus disse: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o reino de Céu”.

É para os que não se deixam comover que Nosso Senhor adverte severamente com a figura da mó ao pescoço, anatematizando os escandalosos que desviam as crianças do bom caminho, da luz da verdade e da ciência, do brilho da fé e do esplendor da virtude.

Quem mais escandaliza em nossos dias? Impossível responder sem entrar no campo político-social. Ao propor o ensino da ideologia de gênero, por exemplo, a esquerda procede em relação às crianças de modo escandaloso, ensinando o amor livre, a pedofilia, e tudo o que decorre disso.

Fazer o mal moral à criança é operar contra o próprio Jesus Cristo: “Quem recebe uma criança, a Mim recebe”. Na verdade, a esquerda anela por uma sociedade sem Deus, sem virtude, sem regras nem disciplina. Uma sociedade assim moldada resvalará infalivelmente para o caos e a anarquia.

Se o futuro de uma nação tiver suas raízes na família, no seio da qual as crianças sejam bem educadas, podemos esperar o que há de melhor para a sociedade. Caso contrário, ela resvalará para a própria destruição.

Com os meios de comunicação atuais, torna-se impossível não ver isso acontecendo na Venezuela, na Argentina, bem como em todos os países dominados pelos regimes da esquerda, onde, ao lado da pobreza moral e espiritual, haverá sempre carência e miséria material.

Ao falar do homem sábio e prudente que edifica a sua casa, Nosso Senhor ensina: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e não as pratica, será semelhante ao homem insensato, que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa e ela caiu e foi grande a sua ruína” (Mt 7, 26-27).

A ruína de que fala Nosso Senhor não se restringe à matéria, mas toca nos aspectos transcendentes, pois uma sociedade que nega Jesus Cristo e seus ensinamentos tem como meta a ruína moral, espiritual, econômica e social.

Em próximo artigo pretendo dar continuidade a este tema, tão importante para guardarmos a fé e fazermos da virtude a regra de nossas vidas. Caso contrário, ser-nos-á inútil levantar de madrugada…

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* Sacerdote da Igreja do Imaculado Coração de Maria – Cardoso Moreira (RJ).

https://www.abim.inf.br/inutil-sera-levantar-de-madrugada/

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quinta-feira, 17 de junho de 2021

TRÊS REGISTROS – Cyro de Mattos

 


Três Registros

Cyro de Mattos

 

   O Gesto 

        Estava com o lado esquerdo todo paralisado, a fala comprometida. Alimentava-se por sonda. Talvez fosse irreversível seu estado.  Rezava por ele. “Se tivesse alta do hospital, provavelmente irá para uma clínica”, pensou.

       Requeria cuidados, durante 24 horas por dia. 

       Foi visitá-lo no hospital e ficou muito sensibilizada. Não entendeu nada do que ele falou. Ele pegou sua mão e deu um beijo. Era como se despedia dela. Agradecia todos os momentos que habitara com ela, envoltos na alegria e na tristeza. 

       Voltou para casa sabe como...  Lamentou daí a instante quando soube que ele acabara de falecer. Em lugar da máscara, a pele enrugada cobrindo o rosto ossudo, levava uma expressão serena, assinalada pelo gesto que fez quando lhe beijou a mão. Deixava assim para ela uma saudade formada de afeição e entendimento nos momentos que viveram juntos. 

        Durante sessenta anos de casados. O tempo havia ofertado a eles cinco filhos e quinze netos. 

 

 O Espetáculo

De repente o menino se fez homem.

De repente o homem se fez idoso.

De repente o idoso se fez velhinho.

As cortinas fecharam-se.

Não mais que de repente.

 

Presente

O pai disse que ia lhe dar um grande presente.

Estava fazendo cinco anos no domingo. 

- Pai, é esse o mar?

- É

- De quem é, pai?

- É seu.

O mar rugia sem parar. A água molhava seus pés pequenos.

Na poça que se formou ali perto, encheu de água o balde de plástico.

Ficou cavando com a pá a areia.

O vento soprava nos cabelos.

Aquele marzão era todo seu.

De contente sorriu.

Um sorriso do tamanho do mar.

 

Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).  Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.

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quarta-feira, 16 de junho de 2021

ACADEMIA GRAPÍUNA DE LETRAS PROMOVE REUNIÃO E HOMOLOGA COMISSÕES

 


No último dia 10/6, quinta-feira, às 19 horas, a Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), sediada em Itabuna, realizou via plataforma google meet, em função da inviabilidade de reunião presencial, por causa das medidas restritivas acerca de distanciamento social, face à Covid-19, reunião ordinária e extraordinária.

Na reunião ordinária, presidida pelo acadêmico-presidente Samuel Leandro Oliveira de Matos [foto acima], com as presenças de confrades/confreiras, foram homologadas pelos acadêmicos duas importantes comissões a de Avaliação de Textos para Publicação, composta pela confreira Lílian Pereira como presidente e os confrades Jailton Alves e Samuel Mattos como membros e a Comissão de Análise e Seleção de Currículos e de Eleição de candidatos a acadêmicos da “Casa das Letras Grapiúna”, tendo o confrade Vercil Rodrigues na presidência e os confrades José Carlos Oliveira e Washington Cerqueira como membros. 

O presidente Samuel Leandro , falou da importância de cada acadêmico (a) escrever sobre seu próprio patrono ou patronesse, com vistas a futura publicação da AGRAL, e apresentou informações biográficas do seu patrono, Sosígenes Costa e um áudio, de poema seu, na voz da atriz Nevolanda Pinheiro (“Flor de Cacau”).

Encerrada a reunião ordinária, iniciou-se a extraordinária, aberta ao público, quando o professor-doutor em educação física e membro da Academia Grapiúna de Letras Samuel Macêdo Guimarães [foto abaixo], proferiu brilhante e elucidativa palestra intitulada “Acentuações Terapêuticas Corporais na Saúde Mental: Uma Contemporaneidade de Saúde Pública em tempos de Pandemia”, que pela qualidade do palestrante e da temática mereceu elogios dos acadêmicos e convidados.



Fonte: http://jornaldireitos.com/#/noticia?p=16285