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terça-feira, 11 de maio de 2021
A ACADEMIA GRAPÍÚNA DE LETRAS PROMOVE PALESTRA
“COVID 19: Fatos e boatos. Ciência e política”
No
último sábado, 8/4, às 17h, a Academia Grapiúna de Letras (AGRAL) de Itabuna,
realizou na plataforma Google Meet, em função da inviabilidade de reunião
presencial, por causa das medidas restritivas acerca de distanciamento social,
face à pandemia Coronavírus, prestigiada reunião ordinária com direito a
palestra do confrade-cardiologista Jairo Xavier Filho.
A reunião, que foi conduzida pelo acadêmico-presidente
Samuel Leandro Oliveira de Mattos, teve as participações dos acadêmicos Vercil
Rodrigues, José Carlos de Oliveira, Lílian Lima Pereira, Antônio José de Souza
Baracho, Maria da Glória Oliveira Brandão Marques, Jairo Xavier Filho, Kleber
Antônio Torres de Moraes, Luiz Cláudio Zumaeta Costa, Zélia Possidônio dos
Santos e Samuel Macedo Guimarães e dos convidados Damares Maria de Oliveira
Mattos, Iris Silva Brito, Josanne Francisca Moraes, Telma Viana Soares Brito,
Rebeca Lília de Mattos Filgueiras, Isis Silva Brito, Edilza Bastos de Sousa,
Eliel Brito Medeiros, Isabela Silva Brito Medeiros, Emyr Apolônio Brito Gomes e
Wynne Brito Gomes.
A confreira e poetisa Glória Brandão, na oportunidade,
brindou a todos, declamando um dos seus poemas, intitulado “Amigo é doce
abrigo”.
Samuel Leandro agradeceu as presenças dos confrades e
convidados, e deu votos de boas-vindas aos confrades que retornaram às atividades
regulares da “Casa de Letras de Itabuna”, o jornalista Kleber Antônio Torres de
Moraes, ao professor-escritor Luiz Cláudio Zumaeta Costa e ao professor
universitário Samuel Macedo Guimarães, bem como apresentou o plano de trabalho
da equipe gestora, referente ao biênio 2021-2023.
A assembleia
provocada, deliberou unanimemente favorável à proposta da diretoria em conceder
ao confrade Ivann Krebs Montenegro, o título de ‘Presidente Emérito da AGRAL’,
visto ter sido o seu primeiro presidente e um dos seus idealizadores.
Dentro da proposta da diretoria da AGRAL de fomentar a
cultura lato sensu, o confrade Jairo Xavier Filho, que é médico cardiologista,
proferiu brilhante e esclarecedora palestra, com o título “COVID 19: Fatos e
boatos. Ciência e política”. E após à palestra, abriu-se para acadêmicos e
convidados momento para perguntas e comentários.
* * *
domingo, 9 de maio de 2021
GOVERNO DE ISOPOR - Eugenio Trujillo Villegas
Eugenio Trujillo Villegas*
A arremetida terrorista que deixou a Colômbia de joelhos nos
deixa com várias conclusões fundamentais: Primeiro, temos um governo de isopor,
incapaz de enfrentar a gravíssima situação. E, em segundo lugar, o erroneamente
denominado “protesto pacífico” não é senão o nome dado a uma operação de guerra
urbana, articulada e financiada por uma organização criminosa, preparada com
meses de antecedência para derrubar o governo, tomar o poder e impor uma
ditadura marxista na Colômbia.
Infelizmente, esta óbvia realidade ainda não foi
compreendida pelo presidente Iván Duque, após oito dias de guerra. A Colômbia
não tem cabeça! Não há governo e nas ruas das principais cidades há uma
verdadeira guerra civil. Grande parte do mobiliário urbano de Bogotá, Medellín
e Cali, as três cidades mais importantes da Colômbia, foi destruído por hordas
terroristas articuladas, pagas e dirigidas por alguém.
A “paz” do Acordo com as FARC
Esta é a “paz” do Acordo com as FARC. E foi o
próprio ex-presidente Juan Manuel Santos quem anunciou que a guerra urbana
chegaria à Colômbia, como mecanismo de imposição do Acordo que lhe
rendeu o Prêmio Nobel. Estabeleceu-se a impunidade total para os
terroristas, a liberdade de plantar 200.000 hectares de coca, o suposto direito
de transformar o protesto em terrorismo, o controle político que as FARC agora
exercem no Congresso e o enorme custo para financiar os acordos com as FARC.
Esta é a consequência inevitável da rendição do Estado. As
FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o ELN (Exército de
Libertação Nacional), os terroristas, os cartéis de drogas, os movimentos
indígenas, os infiltrados chavistas venezuelanos e os políticos que lideram
essas hordas subversivas do Congresso da República articulam um golpe para
derrubar a ordem institucional.
Enquanto isso, apesar de ter passado uma semana no meio
desse “bogotazo”, o presidente Duque está trancado em seu gabinete, não faz
nenhuma declaração pública, não decreta a comoção interna, não dá nenhuma
ordem, nem estabelece diretrizes vigorosas para a Polícia e o Exército. Mas,
acima de tudo, não põe a cara diante do País, para que os 50 milhões de seus
compatriotas sintam que alguém está à frente nos defendendo, sabendo o que está
fazendo, e, com mão firme e determinada, comandando de uma nação que enfrenta
uma das maiores tempestades de sua história.
Mas não é assim. O presidente tem estado na televisão todos
os dias em seu programa diário sobre a pandemia, dizendo-nos para sermos
vacinados e usarmos máscara. Sua preocupação é a nomeação de novos ministros e
a elaboração de uma nova reforma tributária, como se fosse o mais urgente no
momento. Enquanto isso, o País está pegando fogo!
Cali não é protegida pelo governo
Ele nem sequer se referiu à situação angustiante de Cali, a
cidade mais afetada pelos acontecimentos. A responsabilidade por grande parte
deles recai sobre o prefeito Jorge Ivan Ospina que, como Chefe da Polícia, tem
sido o patrocinador do vandalismo, trazendo milhares de indígenas de Cauca para
aumentar o caos e impedindo a Polícia e o Exército de atuar diante da extrema
gravidade da situação. Mas isso também não incomoda o governo, que não diz ou
faz nada, nem mesmo quando os senadores comunistas Wilson Arias, Alexander
López e Gustavo Petro estimulam os protestos com sua presença em meio ao
vandalismo e à destruição. Enquanto isso, Cali e toda a Colômbia estão
mergulhadas no caos.
Empresários e sindicatos colombianos divulgam tímidos
comunicados à imprensa, demonstrando total desconhecimento da realidade dos
fatos. Todos eles começam por defender o “direito de protestar”, como se
quisessem cair nas boas graças dos responsáveis pela destruição. Nenhum exige
do Governo as respostas elementares que deveriam ter sido dadas desde o
primeiro dia. As Câmaras de Comércio, que representam os milhares de
comerciantes e empresários falidos, também não dizem absolutamente nada. As
universidades, que treinam seus alunos nos postulados do protesto, silenciam.
As autoridades eclesiásticas, tão loquazes na defesa dos direitos do povo e tão
hábeis em se reunir com as FARC e o ELN, tampouco se manifestaram.
Enquanto isso, o País está sangrando. Estamos à deriva.
Sequer foi cogitado nenhum dos instrumentos previstos na Constituição para
enfrentar uma crise de extrema gravidade, como a declaração de comoção interna.
Se o que está acontecendo não justifica a tomada dessas medidas
extraordinárias, por favor, alguém do governo nos explique em que consiste a
extrema perturbação da ordem pública.
Fraqueza, fonte de grandes tragédias
Estamos vivendo um daqueles momentos trágicos da História,
em que os governantes não estiveram à altura de sua tarefa, permitindo assim
que as maiores tragédias acontecessem. Luís XVI divertia-se consertando
relógios e fechaduras, enquanto os inimigos da França preparavam um dos maiores
matadouros da História, liquidando a monarquia e levando-o para a guilhotina.
Nicolau II, Czar de todas as Rússias, deixou que as decisões do governo fossem
tomadas por um demônio que se fazia passar por “santo”, chamado Rasputin,
enquanto os comunistas radicais preparavam outro banho de sangue, que se
espalhou pelo mundo até agora. A inexplicável fraqueza do Czar levou à sua
execução, junto com toda sua família.
Presidente Duque: Ainda dá tempo de salvar a
Colômbia! Mas lhe cabe assumir seu papel de Chefe de Estado, o que não
se faz abrindo diálogos inúteis com terroristas. Eles querem destruí-lo e toda
a Colômbia. Incumbe-lhe enfrentá-los, com o apoio de todos os colombianos!
____________
* Diretor da Sociedad Colombiana Tradición y Acción
https://www.abim.inf.br/governo-de-isopor/
* * *
PALAVRA DA SALVAÇÃO (230)
6º Domingo da Páscoa – 09/05/2021
Anúncio do Evangelho (Jo 15,9-17)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós!
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “Como meu
Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se
guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu
guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos disse
isso, para que minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena.
Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como
eu vos amei. Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos
amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando.
Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o
seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de
meu Pai.
Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos
escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto
permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá.
Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.
— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.
https://liturgia.cancaonova.com/pb/
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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
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MÃE – Cláudio Zumaeta
Mãe
Subitamente vi-me sufocado
Imerso numa Pandemia
Que insistia e ainda insiste
Em me isolar, acuar
Como se a vida
Não mais valesse a pena
Aturdido, angustiado, ferido
Perguntei aos Céus: e agora
Quem pode, quem poderá nos salvar?
E na escuridão do tempo entorpecido
Senti meu peito vazio distante
Cabisbaixo entristecido
Então outra vez
Na angustia daquela hora
Voltei a perguntar: e agora, e agora
Quem nos poderá salvar
desta maldita sombra?
De repente, ante o silêncio
Que decaiu em volta
Ouvi a resposta:
Recolhe-te ao colo de sua Mãe, e acalma-te...
Pois nenhuma escuridão resiste à Luz sublime
do coração de uma Mãe!
Abra teus braços e se abrace com ela
E não esqueça: a Mãe, nossa Mãe
É ela, será sempre ela, a grande Estrela
Que nos guiará para fora das tristezas
E para dentro de renovadas belezas!
[Zumaeta]
Cláudio Zumaeta - Historiador graduado pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC, Ilhéus – BA) Administrador de Empresas graduado pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL, Salvador-BA. Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL
* * *
sexta-feira, 7 de maio de 2021
ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Madalena – Dom Aquino Corrêa
Madalena
Aos pés do Mestre, que ela beija e lava,
Dos seus olhos na límpida corrente,
Enxugando-os depois, na coma flava,
Como em toalha de seda refulgente!
Ao partir o alabastro, que levava,
E cujo aroma que a envolve inteiramente,
O coração a estuar, como uma lava,
Transfigurada, extática, imponente!
A Madalena encarna, nesse instante,
A alma humana, que ao fim do voo errante
Pelas quimeras dos ideais risonhos,
Despedaça, sem dó, chorando embora,
Ante o olhar da Verdade Redentora,
A ânfora azul dos seus mais lindos sonhos!
(DOM AQUINO CORRÊA)
Nova et Vetera
DOM AQUINO CORRÊA
Distinto e dedicado poeta mato-grossense, natural de Cuiabá, nascido em 02/04/1885, faleceu em São Paulo em 22/03/1956. Ingressou na Congregação Salesiana, tendo-se ordenado presbítero, em Roma, em 17/01/1909. Eleito bispo em 1914, chegou, em 1921, a Arcebispo de Cuiabá. Foi governador do seu estado em 1918. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras (cadeira nº 34, cujo patrono é Sousa Caldas), onde foi recebido em 1926. Seus primorosos Discursos foram reunidos em uma grande maioria, em três volumes, aparecidos respectivamente em 1927, 1945 e 1952. Estreou na poesia com 2 volumes de Odes, editados em 1917. Publicou ainda em verso : Terra Natal (1922) E Nova et Vetera em 1947. Sua figura empolgante de sacerdote, de literato e de homem acaba de ser magistralmente traçada pelo Prof. Arlindo Drumond Costa na obra de sabor clássico a que deu por título – A Nobreza espiritual de Dom Aquino Corrêa (São Paulo, 1962).
* * *
quinta-feira, 6 de maio de 2021
MORENINHA – Ariston Caldas
Moreninha perdeu a mãe logo cedo. Ela foi o último sobrevivente de uma ninhada de doze pintos saídos das cascas numa manhã chuvosa de um mês de junho; distinguiu-se dos irmãos pela cor pedrês, pintada como guiné. Os outros, cor de telha, foram morrendo um a um, como castigo. Dona Lídia, proprietária da ninhada, ia enterrando os bichinhos embaixo de uma mangueira no fundo do quintal. Ela saía resmungando, os sobrinhos atrás, curiosos, achando tudo muito importante.
Moreninha
cresceu rápido e em pouco tempo aprendeu a bater as asas pelo terreiro, ciscar
ao pé de cercas e sumir pelos becos, pelos quintais da vizinhança. Em casa de
dona Lídia ela descarou que só vendo, não fazia a menor cerimônia, perambulava
pelas mesas, sobre o fogão, por cima do armário de tela verde; subia para o
caritó onde dona Lídia guardava temperos e coisas miúdas.
A orfandade precoce de Moreninha
rendeu-lhe algumas vantagens, como bicar milho nas mãos dos meninos, perambular
pelo quarto de dona Lídia e aninhar-se pelas camas onde deixava marcas
indeléveis. Para dona Lídia, Moreninha era o vivente mais importante do
terreiro. “Entende tudo que a gente fala”, dizia. Dava conta das origens da
galinha – pai, mãe e até de parentes mais distantes, afirmando que um avô da
galinha foi um galo valente, de penacho cor de ouro e de boas esporas.
Quando lhe
gritavam pelo nome, Moreninha levantava a cabeça, posuda, superior, abaixava-se
manhosa e arrastava uma asa. Dona Lídia enchia-se de contentamentos e
pedantismo.
Depois que
Moreninha enxeriu-se com um galo metido a porreta, do quintal vizinho, deu para
sumir do terreiro. Era um galo de canto rouco e curto; quando ele avistava a
galinha, entortava o pescoço, arriava uma asa e punha-se a fazer cabriolas,
metido a besta. Eufrosina, dona do galo, ufanava-se da cria e falava, toda
exaltada: “É um macho de verdade!”. Esfregava as mãos acotovelada na janela da
cozinha, expondo orgulho, apreciando o galo disparado atrás de Moreninha,
saltando garranchos, dando piados escandalosos; logo na primeira tentativa o
galo alcançava seu objetivo. Dona Lídia, quando via a cena, ficava acabrunhada;
uma vez panhou uma vassoura de cabe comprido e fincou o pé atrás do galo que se
meteu assustado embaixo do assoalho da varanda. Foi nesse esconderijo que ele
conhecera Moreninha, numa tarde chuvosa que lhe impedira ciscar pelo terreiro
ou deitar-se à sombra da romãzeira, pelas barrocas poeirentas do quintal.
Moreninha
dava-se pouco à mistura com outras galinhas da redondeza, dengosa, cacarejando
miúdo, cheia de outras manias; preferia os carinhos de dona Lídia, a atenção
dos meninos da casa. Ostentava um pimpão suntuoso, cor de cinza prateado; tinha
uma crista vistosa, sangue vivo, de peito saliente, pisava de supetão, metida a
besta. Quando espantava, emitia piados estridentes com o se o mundo estivesse
acabando, assustando todo o terreiro. Às vezes dava uma de valente, mas nem
sempre garantia as pompas, tanto que se acovardava quando avistava uma galinha
preta de pés cinzentos e esparrachados que aparecia vez em quando pelo quintal
de dona Lídia. Era uma galinha mixuruca, parecendo ter parentesco com urubu;
andada de quintal em quintal perambulando à toa, escorraçada, vilipendiada
pelos meninos e até por outras galinhas. O galo de Moreninha era discreto para
a galinha preta, nunca avançava. Peito a peito, Moreninha caiu na besteira de
enfrentá-la um dia, trocaram bicadas, esporadas e, com menos de cinco minutos,
Moreninha deu no pé. Ficou com a crista sangrando, um olho inchado. Depois da
façanha, a galinha preta teve que correr também, mas das vassouradas de dona
Lídia que ainda tentou, furiosa, alcançá-la antes do portão do fundo do
quintal.
Seu Veloso,
cunhado de dona Lídia, nem tomava conhecimento de Moreninha, muito menos desses
acontecimentos. Certa vez ele quase estrangulava a cria de dona Lídia; a galinha
fazia estrepolias sobre a mesa de jantar e derrubou um jarro que se espatifou
pelo chão. Seu Veloso, num ímpeto, pegou uma bandeja de aço e mandou brasa na
galinha; perdeu a pontaria e Moreninha escapuliu pela porta do lado. Dona Lídia
nem soube dessa ocorrência. “Ora essa, galinha só é importante na panela”,
dizia seu Veloso. Dona Lídia ouvia, olhava de banda, dava um muxoxo e
retirava-se com a cara enfarruscada.
Por causa de
um pontapé que nem atingiu Moreninha, dona Lídia atirou uma panela de água
quente em Serapião, moleque que vivia perambulando pelas portas. Apesar da
agilidade dele, a ducha atingiu-lhe parte do rosto. Serapião saiu disparado,
cheio de agonia, apertando-se e gritando, “sinhá puta!”. Dona Lídia,
desapontada, bateu a porta e sumiu casa à dentro.
No
aniversário de Moreninha, dona Lídia fez um bolo confeitado, com uma fita
entrelaçada numa velinha; ao redor do bolo ela espalhou caroços de milho e
pétalas de rosas. Fez uma roupa para Moreninha, em forma de túnica e um chapéu
azul embarbelado; uns sapatos de lã e uma calcinha encobrindo o oveiro para
evitar sujeira pela mesa, pelos móveis, como a galinha fazia pela sala e outros
lugares. Os meninos em torno da mesa cantaram os parabéns, batendo palmas.
Quando
Moreninha conheceu o galo de Eufrozina, era ainda bem nova, mas já ciscava
pelas cercas, catando pedrinhas; dona Lídia nem imaginara, na época, as manhas
futuras da galinha, considerando-a muito novinha, longe da experiência de uma
galinha adulta. Dona Lídia parecia admitir que galinha tem juízo.
No dia do
aniversário os convidados eram levados por dona Lídia até Moreninha empoleirada
numa cadeira entre dois jarros com flores, sob os cuidados da empregada, como
se a galinha fosse gente. “Esta é Moreninha. Bonita, não é?”, dizia dona Lídia.
Numa dessas apresentações, uma moça ao lado falou, com ar de riso: “gordinha,
boa de panela”. Dona Lídia chegou a tomar choque, fechou a cara e deu as costas
para a visita imprudente.
Depois que
Moreninha meteu-se com o galo da vizinha, dona Lídia pressentiu-lhe mudança nos
hábitos. Ora, dizer que Moreninha desprezou a casa é exagero, mas deixou isso
em segundo plano. Manhã cedinho dava no pé e em alguns momentos ninguém era
capaz de saber seu paradeiro. Era na paquera o dia inteiro, junto à cerca, o
galo do outro lado, chegando, arrastando uma asa pelo chão, soltando vez em
quando canto rouco; depois ele enfiava-se por qualquer abertura e fincava pé
nos tampos de Moreninha disparada, soltando piados, escandalosa, pouco adiante
ela abaixava-se, descarada, tremendo de fingimento, o galo concluía tudo aí.
Quando se levantava, Moreninha arrepiava-se, sacudia-se e voltava a ciscar
despreocupada; o galo, fagueiro, soltava o canto rouco, entortava uma asa, cabriolando
para um lado, para outro. A cena repetia-se muitas vezes durante o dia.
“Cadê
Moreninha!”, era a fala de dona Lídia andando na cozinha, nos quartos, pela
varanda do quintal. Perguntava aos vizinhos, aos meninos; a galinha, na dela,
malandra, satisfeita com a nova vida, exibindo-se com pimpão e tudo,
cacarejando por baixo do assoalho da varanda, de olho no galho espichando o
pescoço, arrastando uma asa, posudo.
Em pouco
empo Moreninha começou a pôr. Dona Lídia juntou dezesseis ovos. No início da
postura dona Lídia andou encabulada, sem aceitar o que acontecia com Moreninha.
“Perdeu o jeito de virgem”, pensava. Para ela, Moreninha tornara-se igual às
outras galinhas. “Abaixa-se, sem vergonha, à toa para o galo vagabundo”, dizia
para si mesma. Achava, porém, que o galo da vizinha era bonito e que o canto
rouco era coisa da idade, “ainda um frangote”.
Dona Lídia
não havia casado, “se eu fosse bonita como Moreninha, teria sido fácil arrumar
um marido”, pensava. Lembrava de alguns namorados antigos, “malandros que não
queriam nada”. Certamente as pernas finas e o cabelo ralo contribuíram para o
desencanto. “Moreninha tem as pernas finas, nem por isso falta pretendente para
ela”, pensava lembrando o galo de Eufrosina.
De um dia para outro Moreninha deu para
cacarejar meio rouca, eriçando as pernas. Estava choca. Dona Lídia fez um ninho
com penas e retalhos de pano a um canto de um quartinho do fundo. Três semanas
depois nasceu uma pintaiada de dar gosto. Nos primeiros momentos, quando os
pintos saíam das cascas, eram pescoçudos, pelados, os olhos inchados. Depois
foram mudando, nasceram penas bonitas, os piados enchiam a casa. Ninguém os
diria filhos do galo de Eufrosina castanho-escuro brilhante. Os pintos eram
amarelos como laranja madura.
Ninguém na
casa de dona Lídia esqueceu de Moreninha. Era como se fosse pessoa da família.
Quando desaparecia do quintal, dona Lídia abria a boca no mundo, “Moreninha,
Moreninha!”. Os sobrinhos dela saíam buscando a galinha pelos becos, por todos
os cantos, pelos quintais da vizinhança.
Naquele
tempo as pragas vinham dizimando os terreiros; Moreninha foi uma das vítimas.
Acometida de uma doença, deu para perder as forças, para gogar, passando depois
a ter desmaios, com piados sufocantes. Foi piorando e em poucos dias morreu.
Dona Lídia tentara, antes, umas doses de sulfato de sódio em colherinhas, nem
adiantou. Moreninha foi enterrada embaixo da mangueira, junto a seus irmãos.
Em casa de
dona Lídia, depois da morte de Moreninha, a tristeza alastrou-se por muito
tempo. Toda noite ela desfiava um rosário inteiro orando pela “alma” da
galinha; enquanto rezava, as lágrimas lhe escorriam lentas pelo rosto enrugado;
amanhecia de cara fechada, arredia às pessoas. Constantemente sonhava com
Moreninha empoleirada, passeando pelos móveis, cacarejando à toa; da janela da
cozinha via o galo de Eufrosina ciscando no pé da cerca, entortando o pescoço,
fincando pé atrás de Moreninha, todo metido a importante. Num desses sonhos de
dona Lídia, Moreninha aparecia aureolada por uma luz azulada emitindo raios
fulgurantes. “Ela está no reino dos céus!”, pensava postando as mãos. Lembrava
que Moreninha não era virgem, mas bem-comportada e mãe de dezesseis filhos.
“Deus sabe disso, certamente lhe deu bom lugar na vida eterna”. Concluía seus
pensamentos vislumbrando a galinha de corpo inteiro, tudo lhe passando como
fita de cinema; lembrava do aniversário de Moreninha, de suas correrias pelas
camas, por outros móveis; se pudesse teria matado a galinha preta que deixou
Moreninha com um olho inchado, a crista sangrando, “a infeliz parecia um
urubu”. Mas vingou-se do moleque Serapião, lhe borrifando a cara com uma ducha
de água quente.
(LINHAS INTERCALADAS)
Ariston Caldas
.................
Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da
Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado,
primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu
por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A
Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra
Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em
Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de
Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.
* * *







