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sexta-feira, 7 de maio de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Madalena – Dom Aquino Corrêa



                                         Madalena

 

Aos pés do Mestre, que ela beija e lava,

Dos seus olhos na límpida corrente,

Enxugando-os depois, na coma flava,

Como em toalha de seda refulgente!

 

Ao partir o alabastro, que levava,

E cujo aroma que a envolve inteiramente,

O coração a estuar, como uma lava,

Transfigurada, extática, imponente!

 

A Madalena encarna, nesse instante,

A alma humana, que ao fim do voo errante

Pelas quimeras dos ideais risonhos,

 

Despedaça, sem dó, chorando embora,

Ante o olhar da Verdade Redentora,

A ânfora azul dos seus mais lindos sonhos!

 

(DOM AQUINO CORRÊA)

Nova et Vetera

 

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DOM AQUINO CORRÊA

Distinto e dedicado poeta mato-grossense, natural de Cuiabá, nascido em 02/04/1885, faleceu em São Paulo em 22/03/1956. Ingressou na Congregação Salesiana, tendo-se ordenado presbítero, em Roma, em 17/01/1909. Eleito bispo em 1914, chegou, em 1921, a Arcebispo de Cuiabá. Foi governador do seu estado em 1918. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras (cadeira nº 34, cujo patrono é Sousa Caldas), onde foi recebido em 1926. Seus primorosos Discursos foram reunidos em uma grande maioria, em três volumes, aparecidos respectivamente em 1927, 1945 e 1952. Estreou na poesia com 2 volumes de Odes, editados em 1917. Publicou ainda em verso : Terra Natal (1922) E Nova et Vetera em 1947. Sua figura empolgante de sacerdote, de literato e de homem acaba de ser magistralmente traçada pelo Prof. Arlindo Drumond Costa na obra de sabor clássico a que deu por título – A Nobreza espiritual de Dom Aquino Corrêa (São Paulo, 1962).

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quinta-feira, 6 de maio de 2021

MORENINHA – Ariston Caldas


          Moreninha perdeu a mãe logo cedo. Ela foi o último sobrevivente de uma ninhada de doze pintos saídos das cascas numa manhã chuvosa de um mês de junho; distinguiu-se dos irmãos pela cor pedrês, pintada como guiné. Os outros, cor de telha, foram morrendo um a um, como castigo. Dona Lídia, proprietária da ninhada, ia enterrando os bichinhos embaixo de uma mangueira no fundo do quintal. Ela saía resmungando, os sobrinhos atrás, curiosos, achando tudo muito importante.

          Moreninha cresceu rápido e em pouco tempo aprendeu a bater as asas pelo terreiro, ciscar ao pé de cercas e sumir pelos becos, pelos quintais da vizinhança. Em casa de dona Lídia ela descarou que só vendo, não fazia a menor cerimônia, perambulava pelas mesas, sobre o fogão, por cima do armário de tela verde; subia para o caritó onde dona Lídia guardava temperos e coisas miúdas.

          A orfandade precoce de Moreninha rendeu-lhe algumas vantagens, como bicar milho nas mãos dos meninos, perambular pelo quarto de dona Lídia e aninhar-se pelas camas onde deixava marcas indeléveis. Para dona Lídia, Moreninha era o vivente mais importante do terreiro. “Entende tudo que a gente fala”, dizia. Dava conta das origens da galinha – pai, mãe e até de parentes mais distantes, afirmando que um avô da galinha foi um galo valente, de penacho cor de ouro e de boas esporas.

          Quando lhe gritavam pelo nome, Moreninha levantava a cabeça, posuda, superior, abaixava-se manhosa e arrastava uma asa. Dona Lídia enchia-se de contentamentos e pedantismo.

          Depois que Moreninha enxeriu-se com um galo metido a porreta, do quintal vizinho, deu para sumir do terreiro. Era um galo de canto rouco e curto; quando ele avistava a galinha, entortava o pescoço, arriava uma asa e punha-se a fazer cabriolas, metido a besta. Eufrosina, dona do galo, ufanava-se da cria e falava, toda exaltada: “É um macho de verdade!”. Esfregava as mãos acotovelada na janela da cozinha, expondo orgulho, apreciando o galo disparado atrás de Moreninha, saltando garranchos, dando piados escandalosos; logo na primeira tentativa o galo alcançava seu objetivo. Dona Lídia, quando via a cena, ficava acabrunhada; uma vez panhou uma vassoura de cabe comprido e fincou o pé atrás do galo que se meteu assustado embaixo do assoalho da varanda. Foi nesse esconderijo que ele conhecera Moreninha, numa tarde chuvosa que lhe impedira ciscar pelo terreiro ou deitar-se à sombra da romãzeira, pelas barrocas poeirentas do quintal.

          Moreninha dava-se pouco à mistura com outras galinhas da redondeza, dengosa, cacarejando miúdo, cheia de outras manias; preferia os carinhos de dona Lídia, a atenção dos meninos da casa. Ostentava um pimpão suntuoso, cor de cinza prateado; tinha uma crista vistosa, sangue vivo, de peito saliente, pisava de supetão, metida a besta. Quando espantava, emitia piados estridentes com o se o mundo estivesse acabando, assustando todo o terreiro. Às vezes dava uma de valente, mas nem sempre garantia as pompas, tanto que se acovardava quando avistava uma galinha preta de pés cinzentos e esparrachados que aparecia vez em quando pelo quintal de dona Lídia. Era uma galinha mixuruca, parecendo ter parentesco com urubu; andada de quintal em quintal perambulando à toa, escorraçada, vilipendiada pelos meninos e até por outras galinhas. O galo de Moreninha era discreto para a galinha preta, nunca avançava. Peito a peito, Moreninha caiu na besteira de enfrentá-la um dia, trocaram bicadas, esporadas e, com menos de cinco minutos, Moreninha deu no pé. Ficou com a crista sangrando, um olho inchado. Depois da façanha, a galinha preta teve que correr também, mas das vassouradas de dona Lídia que ainda tentou, furiosa, alcançá-la antes do portão do fundo do quintal.

          Seu Veloso, cunhado de dona Lídia, nem tomava conhecimento de Moreninha, muito menos desses acontecimentos. Certa vez ele quase estrangulava a cria de dona Lídia; a galinha fazia estrepolias sobre a mesa de jantar e derrubou um jarro que se espatifou pelo chão. Seu Veloso, num ímpeto, pegou uma bandeja de aço e mandou brasa na galinha; perdeu a pontaria e Moreninha escapuliu pela porta do lado. Dona Lídia nem soube dessa ocorrência. “Ora essa, galinha só é importante na panela”, dizia seu Veloso. Dona Lídia ouvia, olhava de banda, dava um muxoxo e retirava-se com a cara enfarruscada.

          Por causa de um pontapé que nem atingiu Moreninha, dona Lídia atirou uma panela de água quente em Serapião, moleque que vivia perambulando pelas portas. Apesar da agilidade dele, a ducha atingiu-lhe parte do rosto. Serapião saiu disparado, cheio de agonia, apertando-se e gritando, “sinhá puta!”. Dona Lídia, desapontada, bateu a porta e sumiu casa à dentro.

          No aniversário de Moreninha, dona Lídia fez um bolo confeitado, com uma fita entrelaçada numa velinha; ao redor do bolo ela espalhou caroços de milho e pétalas de rosas. Fez uma roupa para Moreninha, em forma de túnica e um chapéu azul embarbelado; uns sapatos de lã e uma calcinha encobrindo o oveiro para evitar sujeira pela mesa, pelos móveis, como a galinha fazia pela sala e outros lugares. Os meninos em torno da mesa cantaram os parabéns, batendo palmas.

          Quando Moreninha conheceu o galo de Eufrozina, era ainda bem nova, mas já ciscava pelas cercas, catando pedrinhas; dona Lídia nem imaginara, na época, as manhas futuras da galinha, considerando-a muito novinha, longe da experiência de uma galinha adulta. Dona Lídia parecia admitir que galinha tem juízo.

          No dia do aniversário os convidados eram levados por dona Lídia até Moreninha empoleirada numa cadeira entre dois jarros com flores, sob os cuidados da empregada, como se a galinha fosse gente. “Esta é Moreninha. Bonita, não é?”, dizia dona Lídia. Numa dessas apresentações, uma moça ao lado falou, com ar de riso: “gordinha, boa de panela”. Dona Lídia chegou a tomar choque, fechou a cara e deu as costas para a visita imprudente.

          Depois que Moreninha meteu-se com o galo da vizinha, dona Lídia pressentiu-lhe mudança nos hábitos. Ora, dizer que Moreninha desprezou a casa é exagero, mas deixou isso em segundo plano. Manhã cedinho dava no pé e em alguns momentos ninguém era capaz de saber seu paradeiro. Era na paquera o dia inteiro, junto à cerca, o galo do outro lado, chegando, arrastando uma asa pelo chão, soltando vez em quando canto rouco; depois ele enfiava-se por qualquer abertura e fincava pé nos tampos de Moreninha disparada, soltando piados, escandalosa, pouco adiante ela abaixava-se, descarada, tremendo de fingimento, o galo concluía tudo aí. Quando se levantava, Moreninha arrepiava-se, sacudia-se e voltava a ciscar despreocupada; o galo, fagueiro, soltava o canto rouco, entortava uma asa, cabriolando para um lado, para outro. A cena repetia-se muitas vezes durante o dia.

          “Cadê Moreninha!”, era a fala de dona Lídia andando na cozinha, nos quartos, pela varanda do quintal. Perguntava aos vizinhos, aos meninos; a galinha, na dela, malandra, satisfeita com a nova vida, exibindo-se com pimpão e tudo, cacarejando por baixo do assoalho da varanda, de olho no galho espichando o pescoço, arrastando uma asa, posudo.

          Em pouco empo Moreninha começou a pôr. Dona Lídia juntou dezesseis ovos. No início da postura dona Lídia andou encabulada, sem aceitar o que acontecia com Moreninha. “Perdeu o jeito de virgem”, pensava. Para ela, Moreninha tornara-se igual às outras galinhas. “Abaixa-se, sem vergonha, à toa para o galo vagabundo”, dizia para si mesma. Achava, porém, que o galo da vizinha era bonito e que o canto rouco era coisa da idade, “ainda um frangote”.

          Dona Lídia não havia casado, “se eu fosse bonita como Moreninha, teria sido fácil arrumar um marido”, pensava. Lembrava de alguns namorados antigos, “malandros que não queriam nada”. Certamente as pernas finas e o cabelo ralo contribuíram para o desencanto. “Moreninha tem as pernas finas, nem por isso falta pretendente para ela”, pensava lembrando o galo de Eufrosina.

          De um dia para outro Moreninha deu para cacarejar meio rouca, eriçando as pernas. Estava choca. Dona Lídia fez um ninho com penas e retalhos de pano a um canto de um quartinho do fundo. Três semanas depois nasceu uma pintaiada de dar gosto. Nos primeiros momentos, quando os pintos saíam das cascas, eram pescoçudos, pelados, os olhos inchados. Depois foram mudando, nasceram penas bonitas, os piados enchiam a casa. Ninguém os diria filhos do galo de Eufrosina castanho-escuro brilhante. Os pintos eram amarelos como laranja madura.

          Ninguém na casa de dona Lídia esqueceu de Moreninha. Era como se fosse pessoa da família. Quando desaparecia do quintal, dona Lídia abria a boca no mundo, “Moreninha, Moreninha!”. Os sobrinhos dela saíam buscando a galinha pelos becos, por todos os cantos, pelos quintais da vizinhança.

          Naquele tempo as pragas vinham dizimando os terreiros; Moreninha foi uma das vítimas. Acometida de uma doença, deu para perder as forças, para gogar, passando depois a ter desmaios, com piados sufocantes. Foi piorando e em poucos dias morreu. Dona Lídia tentara, antes, umas doses de sulfato de sódio em colherinhas, nem adiantou. Moreninha foi enterrada embaixo da mangueira, junto a seus irmãos.

          Em casa de dona Lídia, depois da morte de Moreninha, a tristeza alastrou-se por muito tempo. Toda noite ela desfiava um rosário inteiro orando pela “alma” da galinha; enquanto rezava, as lágrimas lhe escorriam lentas pelo rosto enrugado; amanhecia de cara fechada, arredia às pessoas. Constantemente sonhava com Moreninha empoleirada, passeando pelos móveis, cacarejando à toa; da janela da cozinha via o galo de Eufrosina ciscando no pé da cerca, entortando o pescoço, fincando pé atrás de Moreninha, todo metido a importante. Num desses sonhos de dona Lídia, Moreninha aparecia aureolada por uma luz azulada emitindo raios fulgurantes. “Ela está no reino dos céus!”, pensava postando as mãos. Lembrava que Moreninha não era virgem, mas bem-comportada e mãe de dezesseis filhos. “Deus sabe disso, certamente lhe deu bom lugar na vida eterna”. Concluía seus pensamentos vislumbrando a galinha de corpo inteiro, tudo lhe passando como fita de cinema; lembrava do aniversário de Moreninha, de suas correrias pelas camas, por outros móveis; se pudesse teria matado a galinha preta que deixou Moreninha com um olho inchado, a crista sangrando, “a infeliz parecia um urubu”. Mas vingou-se do moleque Serapião, lhe borrifando a cara com uma ducha de água quente.

 

(LINHAS INTERCALADAS)

Ariston Caldas

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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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quarta-feira, 5 de maio de 2021

NA COVA DA IRIA, A FONTE DE ÁGUAS MILAGROSAS QUE FOI ESQUECIDA


O antigo fontanário de Fátima foi um manancial de incontáveis graças e milagres, de benefícios físicos e conversões até de pecadores empedernidos, a tal ponto que foi considerada como sendo a “Lourdes portuguesa”. Por que se ocultou essa abençoada fonte que fascinava todas as almas, cativava todos os corações?

Transcrição do editorial da revista Catolicismo*, Nº 845, maio/2021

 

Um enorme e dolorido calo no ombro, criado pelas cestas de peixe, depois de algum tempo se ulcerou e tornou-se canceroso. Era esta uma grave enfermidade para o peixeiro lisboeta Joaquim Neto. Contudo, não era o pior. Sua doença mais grave era moral: vivia com uma mulher com quem não era casado, tiveram três filhas, e para nenhuma delas pedira o batismo.

Apesar de tudo, Maria Filomena Macieira, a mulher, residente na Avenida 5 de Outubro, n° 201 (Lisboa), era devota de Nossa Senhora. Compadecida das dores de Joaquim, recebeu uma inspiração sobrenatural e aplicou em seu ombro canceroso algumas gotas da ‘água da fonte de Fátima’, rezando por sua cura.

Na manhã seguinte Joaquim estava completamente curado; e, carregando ao ombro o cesto de peixe, disse à mulher: “Estou doido de alegria. Desde que me pôs a água, não mais senti dores”. Derramando copiosas lágrimas, ambos ficaram sem saber como agradecer o milagre operado pela ‘água de Nossa Senhora’. A Sabedoria divina os iluminou, e decidiram realizar logo o matrimônio religioso segundo a Lei de Deus e batizar as três meninas. O que ocorreu no dia 9 de janeiro de 1927, festa da Sagrada Família.

Neste caso, foram dois os milagres — um físico e outro espiritual — sendo o mais prodigioso a conversão a Deus. A matéria de capa desta edição reproduz outros milagres ocorridos ao se fazer uso das águas da fonte de Fátima — a ‘Lourdes de Portugal’.


Milhares de milagres como este, todos comprovados, aconteceram pelo simples fato de os doentes beberem das ‘águas de Fátima’ ou nelas se molharem. Só o boletim Voz da Fátima (que já em 1937 contava com a excepcional tiragem de 380 mil exemplares) registrou mais de mil curas prodigiosas, que surpreenderam médicos e cientistas.

Cabe aqui uma pergunta: quem ouviu falar ou tem algum conhecimento desses milagres, muitos deles comprovados por médicos e autoridades? Tão geral desconhecimento faz pensar em um ‘tema proibido’. Por que ocultar tanta bondade maternal de Nossa Senhora, manifestada também desse modo a seus devotos em Fátima? Por que foram soterradas as abençoadas fontes?

De posse de documentos idôneos, a revista Catolicismo deste mês [capa acima] expõe pela primeira vez a seus leitores a história das ‘fontes de Fátima’. Uma história comovedora e maravilhosa de curas corpóreas, mas sobretudo de graças espirituais e curas morais, como a de empedernidos pecadores e libertinos que inesperadamente se converteram, fazendo uso das águas da Cova da Iria.

Supliquemos à Senhora de Fátima, Salus Infirmorum, que opere o grande milagre universal da conversão de toda a humanidade neopagã, mesmo que se tenha de passar antes pelos merecidos castigos. E também, como outra graça prometida por Ela, o advento de seu reinado na Terra.


* Para fazer uma assinatura da revista Catolicismo envie um e-mail para catolicismo@terra.com.br

 

https://www.abim.inf.br/na-cova-da-iria-a-fonte-de-aguas-milagrosas-que-foi-esquecida/

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terça-feira, 4 de maio de 2021

A LIBERDADE – Gibran Khalil Gibran

      


A Liberdade

 

E um tribuno disse: “Fala-nos da Liberdade”.

E ele respondeu:

          “Às portas da cidade e em vossos lares, eu vos vi prosternar-vos e adorar vossa própria liberdade.

          Como escravos que se humilham perante um tirano e glorificam-no embora ele os destrua.

          Sim, na alameda do templo e à sombra da cidadela, tenho visto os mais livres entre vós carregar sua liberdade como um jugo e um grilhão.

          E meu coração sangrou dentro de mim; pois só podereis libertar-vos quando até mesmo o desejo de procurar a liberdade se tornar um jugo para vós, e quando cessardes de falar da liberdade como de uma meta e de um fim.

          Sereis, na verdade, livres, não quando vossos dias estiver sem preocupação e vossas noites sem necessidades e sem aflição.

          Mas, antes, quando essas coisas apertarem vossa vida e, entretanto, conseguirdes elevar-vos acima delas, desnudos e desatados.

          E como vos elevareis acima de vossos dias e de vossas noites se não quebrardes as cadeias com que, na madrugada de vosso entendimento, prendestes vossa hora meridiana?

          Na verdade, o que chamais liberdade é a mais forte destas cadeias, embora seus anéis cintilem ao sol e vos deslumbrem.

 

          E que é que quereis rejeitar para serdes livres, senão fragmentos de vós próprios?

          Se é uma lei injusta que pretendeis abolir, lembrai-vos de que esta lei foi escrita por vossa própria mão em vossa própria testa.

          Não conseguireis extingui-la, queimando vossos códigos nem lavando as faces de vossos juízes, embora despejeis o mar por cima delas.

          E se é um déspota que quereis destronar, verificai primeiro se seu trono erigido dentro de vós está destruído.

          Pois, como pode um tirano dominar os livres e os altivos, se não houver tirania na sua própria liberdade e vergonha na sua própria altivez?

          E se é uma preocupação que quereis rejeitar, essa preocupação foi escolhida por vós mais do que a vós imposta.

          E se é um temor que precisais dissipar, o centro desse temor está em vosso coração e não na mão do temido.

          Na verdade, todas as coisas movem-se dentro de vós em constante meio aperto, as desejadas e as receadas, aquelas que vos repugnam e aquelas que vos atraem, aquelas de que fugis e aquelas que procurais.

          Essas coisas movem-se dentro de vós como luzes e sombras em pares estritamente unidos.

          E quando a sombra desvanece e se dissipa, a luz que se demora torna-se a sombra de uma outra luz.

          E dessa forma, quando vossa liberdade perde seus entraves, torna-se um entrave para uma liberdade maior.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran


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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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VIDA E OBRA DE GIBRAN (5)

1910 Volta a Boston e, no mesmo ano, muda-se para Nova Iorque, onde permanecerá até o fim da vida. Mora só, num apartamento modesto ao qual ele e seus amigos chamam As-Saumaa (O Eremitério). Mariana, sua irmã, continua em Boston. Em Nova Iorque, Gibran reúne em volta de si uma plêiade de escritores libaneses e sírios que, embora estabelecidos nos Estados Unidos, escrevem em árabe com idênticos anseios de renovação. O grupo forma uma Academia Literária que se intitula Ar-Rabita Al-Kalamia (A Liga Literária), e que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Seus porta- vozes foram, sucessivamente, duas revistas árabes editadas em Nova Iorque: Al- funun (As Artes) e As-Saieh (O Errante).

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sexta-feira, 30 de abril de 2021

SAUDADES DE NOTRE-DAME IMPULSIONAM SUA RESTAURAÇÃO



Já foram escolhidos os oito majestosos carvalhos de dois séculos [foto], cuja preciosa madeira sustentará a nova agulha da catedral de Notre-Dame de Paris.

A estrutura de 300 toneladas será feita com instrumentos medievais, seguindo os planos do arquiteto Eugène Viollet-Le-Duc, que restaurou a catedral no século XIX.

Ao todo, 1.000 carvalhos seletos foram oferecidos gratuitamente para o telhado da catedral. Eles provêm de várias regiões francesas e até do exterior, inclusive de 150 florestas particulares. As mil árvores utilizadas representam apenas 0,1% do corte anual de carvalho na França.

O caos que assalta o país reacendeu a saudade da ordem, hierarquia e beleza, conferindo um impulso espontâneo à restauração da catedral de Nossa Senhora, Rainha da Cidade Luz, de acordo com o modelo medieval.

https://www.abim.inf.br/saudades-de-notre-dame-impulsionam-sua-restauracao/

 

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O MENINO E O MAR / EL NIÑO Y EL MAR - Cyro de Mattos / Alfredo Pérez Alencart

 


O Menino e o Mar*

 Cyro de Mattos

 

Era a primeira vez

Que tinha ido ver o mar.

Todo alegre, de calção.

Peito nu e pé no chão.

 

Quando viu tanta água

Fazendo barulho

Sem parar, disse:

 

— Pai, me dê sua mão.

 

 

*  Este poema foi um dos vencedores do Quinto Concurso Poético do Cancioneiro Infanto-Juvenil para a Língua Portuguesa, do Instituto Piaget de Almada, Portugal.


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El Niño  y el Mar*

Versão de Alfredo Pérez Alencart

  

Era la primera vez

Que había ido a ver el mar.

Todo alegre, de pantalón corto.

Pecho desnudo y pie en el suelo.

 

Cuando vio tanta agua

Haciendo ruido

Sin parar, dijo:

 

— Padre, déme su mano.

 

*  Este poema fue uno de los ganadores del Quinto Concurso Poético del Cancionero Infantil-Juvenil para la Lengua Portuguesa, del Instituto Piaget de Almada, Portugal.

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CÉU NOTURNO – Marco Lucchesi


Céu Noturno

Marco Lucchesi


Espanto e maravilha, irrompe a fresca madrugada nos domínios da insônia.

A descoberta da escala me pareceu assombrosa. Não sofro de insensibilidade numérica. A estrela Ícaro, na constelação do Leão, dista nove bilhões de anos-luz da Terra! A fome da distância produz vertigem e delírio. Impossível morrer por falta de ar.

Poincaré: a astronomia é útil porque nos eleva acima de nós, útil porque é bela. Faz ver quanto o homem é pequeno no corpo e no espírito, pois essa imensidão resplandece onde seu corpo não passa de um ponto obscuro, e pode abarcar a sua inteligência e dela fruir a silenciosa harmonia.

O céu noturno clama o sentimento do infinito. Ou de operar em vastas, sublimes escalas. E de obrigar-se para o mais, não para o menos. Apelo de angústia ou de paz. A luz das nebulosas, estrelas e quasares. Leio Paul Coudrec: “os poetas não terão mais, sozinhos, o privilégio de celebrar a luz: toda a ciência tornou-se um hino à luz”

 Também assim, para Farias Brito, mas por motivos outros, ao declarar que dentro da luz agimos e estamos.

 As não pequenas dificuldades do campo unificado. O primeiro livro que me abordou foi o de Abdus Salam. A mecânica celeste e os sóis incontáveis. 

 Betelgeuse e Bellatrix. Les belles dames sans merci. Amo as nebulosas de Órion e Cabeça de Cavalo. Assim na Cruz o Saco de Carvão. Mais belas entre Escorpião e Sagitário, as nebulosas da Lagoa, a Trífida e a Messier 55.

Comprei alguns livros de radioastronomia. Mas inutilmente. Olhar de poesia, artesanal. Vou mais longe com a matemática. Reclamo sempre o corpo razoavelmente tangível.

Minhas estrelas: Antares e Aldebarã. E a Mira Coeli – em vez de Mira Coeti para dizer como Jorge de Lima.

Passaram-se muitos anos. Meu telescópio ainda vive. É preciso colimar as lentes. Eu também vivo. Quando o mundo é mais hostil, não falta céu.

 

Humanitas, 01/04/2021


Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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