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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

“FRANQUEZA APOSTÓLICA” DE SÃO FRANCISCO XAVIER

 3 de dezembro de 2020


São Francisco Xavier (1506 – 1552) tem sua festividade litúrgica celebrada neste dia 3 de dezembro. Em memória desta grande data, segue um comentário de Plinio Corrêa de Oliveira, proferido numa conferência no dia 2 de dezembro de 1966.

Na biografia de São Francisco Xavier de Daurignac, encontra-se o seguinte trecho de uma carta a D. João III, rei de Portugal, escrita pelo santo:


“S
enhor, deveis temer que quando Deus citar Vossa Alteza a comparecer perante Si, o que acontecerá infalivelmente e talvez em um momento em que menos espereis, e quando não haja razões ou esperança de declinar aquele tribunal, deveis temer, grande príncipe, que aquele Juiz, irritado, vos dirija essas terríveis palavras de acusação: Por que não tendes procedido com rigor contra vossos ministros, contra os vossos vassalos que nas Índias conspiravam contra Mim, e não receavam declarar-se em estado de rebelião? Por que razão a vossa severidade não pode feri-los senão quando eles eram negligentes na arrecadação dos impostos e na administração das vossas finanças?

“Senhor, ignoro que valor poderão ter as vossas escusas quando responderdes: Senhor, eu escrevia todos os anos para aqueles países e todos os anos recomendava o maior zelo, os maiores trabalhos pela Vossa glória e pelo literal cumprimento de Vossos preceitos. Não vos responderá então Deus: Pois bem, mas vós deixáveis impunes todos aqueles que se mostravam indiferentes a essas ordens”.

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Observem com que liberdade um grande santo se dirige a um grande rei — um dos potentados da Terra naquele tempo — e como o desempenho do mandato apostólico leva a pessoa a ter uma franqueza e um denodo, que antigamente tinha um lindo nome: “franqueza apostólica”.

É a franqueza do apóstolo, a franqueza de quem representa a Deus e tem o direito de falar desse modo. E, portanto, tem o direito de dizer as coisas mais desagradáveis e tem o direito de ser ouvido. E fazendo uso desse direito, São Francisco Xavier falava ao rei e obtinha provavelmente ao menos alguma inflexão na linha de conduta real. Mas ainda que não obtivesse, não vem ao caso. As brasas estavam acesas sobre a cabeça do rei e quando ele morresse, teria que prestar contas a Deus.

Notem como tudo isso é lógico e belo… e como tudo isso está envelhecido! Envelhecido não por uma senectude, por uma velhice intrínseca, não porque em si mesmas essas coisas tenham envelhecido. Mas porque os homens decaíram de tal maneira que não aceitam esses princípios e não querem mais ouvir essa linguagem. E afirmam caluniosamente que é uma linguagem de um desalmado, sem caridade, sem espírito católico.

Ora, aqui está a linguagem de um dos maiores santos da Igreja Católica: São Francisco Xavier. Esta era a linguagem dos santos e não a atual linguagem adocicada de ecumenismo falso, de irenismo, de quantas outras coisas que assim haja.

https://www.abim.inf.br/franqueza-apostolica-de-sao-francisco-xavier/

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

MARICAS É QUEM ME XINGA – Ignácio de Loyola Brandão



Quando criança, lá em minha terra, um dos piores xingamentos era o de maricas. Significava que você era covarde, fraco, desprezível. O maricas – ou mariquinha – era ninguém, via-se isolado, fora do grupo. Naquela época ainda não existia o politicamente correto, os machões dominavam, ser macho era ser mandão, prepotente, dono do território, do falar e pensar, líder, chefe. Quanto mais arrogante alguém era, mais admirado. Ninguém queria ser maricas, homem-mulher. 

Para um menino, ser chamado de mariquinha era um terror. Carimbava. Fosse hoje seria demolido pela rede social, imaginem um efeminado, bicha, pederasta, guaxeba, boneca, jiló, gobira, viado, 3x8. O 24 era o viado no jogo de bicho. Todos tinham pavor de ser o 24 na lista de chamada da escola, virava motivo para bullying, era pior do que ter tuberculose, lepra ou gonorreia. Era ser humilhado com o riso das jovens, levava surra dos pais, ouvia o choro das mães. Fosse religioso, não obtinha a absolvição na confissão, não podia comungar. Ser maricas era um pecado.

Ser maricas ou mariquinha era tormento, a vida tornava-se um inferno. Tive vários amigos assim rotulados. Alguns deixaram a cidade, formaram-se, fizeram carreira. Outros foram destruídos, “carimbados” que estavam. O mundo masculino era implacável. Entre os machões estava um de apelido Chola. Nunca soube seu nome. O pai tinha abandonado a mãe, ele fora expulso da escola. Sua avó comandava o jogo do bicho no bairro. Feroz, mandão, humilhava o tempo inteiro. Ele tinha determinado dezenas de garotos como maricas, dizia que não servem para nada, não enfrentam uma briguinha de fim de aula, se pegam sarampo ou resfriadinho se apavoram com medo de morrer. Certo dia, quando a situação chegou ao insuportável, uniram-se os maricas e os supostamente mariquinhas, porque muitos dos não maricas assim tinham sido rotulados em algum momento de suas curtas vidas. A quadrilha do ódio era ativa. O grupo se armou com pedras, estilingues, cabos de vassoura com pregos e folhas serrilhadas de abacaxi, que cortam dolorosamente. Cercaram Chola no jardim. Intimidado, ele “pulou” para trás, deu o falado por não falado. Chola era conhecido, dizia sim, depois dizia não. Falava pau e depois dizia que era pedra, galo virava galinha. Dizia e desdizia. Atemorizado, ele negou:

“Vocês maricas? Que isso? São machos pra valer. Não! Nessa turma ninguém é maricas. Quem disse que eu disse isso?”. 

“Você disse, xingou. Escorraçou tanto que a gente nem podia sair na rua.”

Atemorizado com a folha de abacaxi ameaçadora diante do rosto, Chola saltou de banda, como se dizia, tirou da seringa.

“Vocês sabem! Me conhecem! Sabem até o que minha mãe diz? Que eu falar e um burro cagar é a mesma coisa. É assim mesmo, sou mentiroso.”

“Mas hoje você apanha ou ...”

“Ou o quê?”

“Vai tomar um vidro de sal amargo.

“Ou uma concha de óleo de rícino”, sugeriu Josué, de todos o mais tímido.

Para quem nunca ouviu falar, sal amargo e óleo de rícino eram os piores purgantes. Gosto horroroso, resultados tenebrosos. Era tomar, esperar um pouco, correr para o banheiro. Às vezes, vergonha, nem dava tempo de tirar a calça.

“Um vidro? Não, um vidro, não. Uma colherinha! Só uma. Uma, uma...”

“Uma para cada um que você xingou.”

E assim aconteceu. Nem calculam. Foram três dias passados na casinha. Depois Chola foi transferido para a Santa Casa onde o bondoso doutor Koury, santo homem, conseguiu estancar a cachoeira malcheirosa e nos garantiu:

“Como médico gástrico, em meus 87 anos, tenho visto que todos aqueles que posam de valentes, corajosos, machões, prepotentes, no fundo não passam de maricões camuflados, enrustidos, envergonhados. Na hora H se borram. Borram e negam tudo”. 

O Estado de S. Paulo, 20/11/2020

 

https://www.academia.org.br/artigos/maricas-e-quem-me-xinga

 

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.


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domingo, 29 de novembro de 2020

ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA E ELETROGÓES CONCEDEM PRÊMIO AO ESCRITOR CYRO DE MATTOS

 


              Academia de Letras da Bahia

e Eletrogóes concedem Prêmio

ao Escritor Cyro de Mattos

 

A Academia de Letras da Bahia e a Eletrogóes  concederam o Prêmio Conjunto de Obra deste ano ao escritor Cyro de Mattos, autor baiano (de Itabuna), com cerca de 50 livros pessoais publicados, de diversos gêneros,  organizador de dez antologias, também editado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Dinamarca e Estados Unidos, além de participar de dezenas antologias no Brasil e exterior. Neste ano, Cyro de Mattos publicou os livros Prosa e Poesia no Sul da Bahia, ensaios, Infância com Bicho e Pesadelo, contos, na Coleção Mestres da Literatura Baiana, e O Discurso do Rio, poesia, em Portugal.

 O Prêmio Conjunto de Obra Academia de Letras da Bahia e Eletrogóes consiste em uma placa alusiva à obra do escritor homenageado e valor em espécie, que serão entregues ao agraciado em sessão online, na festa de confraternização natalina da Academia de Letras da Bahia, em data a ser designada neste mês de dezembro. Este prêmio é o mais elevado da Academia de Letras da Bahia e já foi conquistado nas edições anteriores pela poeta Myriam Fraga, escritor Hélio Pólvora, educador Edvaldo Boaventura, historiador João José Reis e romancista Gláucia Lemos.


https://costadocacau.blog.br/academia-de-letras-da-bahia-e-eletrogoes-concedem-premio-ao-escritor-cyro-de-mattos/


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (211)


1º Domingo do Advento – 29/11/2020

Anúncio do Evangelho (Mc 13,33-37)

 

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Marcos.

— Glória a vós, Senhor.

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento. É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando. 

Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!”. 

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


https://www.youtube.com/watch?v=C-Q-KKLxEJw&feature=emb_logo

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ADVENTO: "sentir o tempo"

 

 

Imagem: Bigstok.com

“Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento” (Mc 13,33) 

 

Com o Advento, iniciamos mais um novo “tempo litúrgico”. Qual o sentido dos tempos litúrgicos?

Podemos representá-los graficamente, visualizando um círculo onde começamos com o Advento, percorremos os “tempos” da vida de Jesus, com suas celebrações mais importantes, e o “tempo comum”, que culmina com a festa de Cristo Rei.

Acaso não é assim o grande círculo da vida? Tempos para gestar a vida, para trazê-la à luz, para alimentá-la e cuidá-la, “tempos comuns” para descobrir a inspiração do viver cotidiano, buscando o sentido de tudo o que fazemos e o que acontece ao nosso redor; às vezes, estes tempos são áridos e cinzentos, outras vezes, iluminantes e coloridos; tempos com a marca da solidão e da perda e tempos de primavera em que a vida brota de novo... Podemos dizer que nós, como num espelho, nos vemos no tempo litúrgico, para compreender e inspirar nossa vida a partir de “Jesus” e da “comunidade cristã”. 

Vivemos hoje tempos conturbados, tensos...; partilhamos um momento de grande inquietação social, de aridez espiritual, de drama sanitário, de distúrbios existenciais, de profundos dilemas morais...

No entanto, resistimos! Em meio às sombras, perplexidades, contradições, provocações e promessas, que constituem o atual momento histórico, queremos expressar a fé no futuro da nossa vida.

Ainda que soframos ventos contrários e as nuvens se adensem no horizonte, sabemos e confessamos com o profeta Jeremias, e pela graça do Espírito, que “há esperança de um futuro” (31,17).

Para cada momento histórico sempre foi válido o alerta de Guimarães Rosa: “Viver é muito perigoso”. A liturgia deste primeiro domingo de Advento se atreve a proclamar de novo sua esperança, como uma grande trombeta, que não chama para a morte, mas para a vida.

esperança é um princípio vital, expresso na sábia constatação de que “enquanto há vida, há esperança”. Mesmo diante de desafios quase intransponíveis, consideramos possível ser de outro modo, inventamos e reinventamos opções, criamos novas saídas... e, sem cessar, sonhamos com o “mais” e o “melhor”. A esperança cristã destrói os “germes de resignação” da sociedade moderna e combate a “atrofia espiritual” dos satisfeitos. Por isso, a esperança cristã tem os pés plantados no “hoje” da nossa história, inspirando o esforço de transformação deste mundo marcado por muitos sinais de morte.

É ela que introduz na sociedade a sede de justiça e o compromisso de humanização.

Aquele que vive com esperança se sente impulsionado a fazer o que espera.

Nesse sentido, o futuro esperado se converte em projeto de ação e compromisso.  

Ao adentrarmos, mais uma vez, no tempo do Advento, sentimos ressoar, no mais íntimo, a voz do Mestre da Galiléia, que nos convida a estar vigilantes e atentos, a viver despertos...

E temos muitas frentes abertas: superar o medo que nos paralisa, renovar a esperança no sentido da vida, avançar com a comunidade para uma nova Igreja em saída, ser as mãos de Jesus no mundo para curar, consolar, repartir o pão... Tempo para despertar e cuidar da “casa” que foi confiada à nossa responsabilidade.

“vigilância”, de que fala o evangelho, é o outro nome para a atitude de “atenção”.

Para Simone Weil “a atenção é uma prece”, pois ela nos mobiliza para uma aliança com o “hoje” da vida; se não formos prudentes e generosos para manter os olhos bem abertos sobre o presente, perderemos a possibilidade do encontro com o surpreendente. Viver tem a marca da simplicidade, que precisamos redescobrir, despojando-nos de todas as cataratas existenciais que bloqueiam a visão, para deixar-nos conduzir pelo fluir contemplativo. Estamos muitas vezes alienados da vida, separados dela por uma muralha de discursos, de ideias vazias, de esperanças confusas...  Com o olhar contemplativo, podemos perfurar esse muro e deixar-nos impactar pelo novo que se revela do outro lado. 

Somos seres “desejantes”. O instigante tempo do Advento ativa em nós os desejos mais nobres e oblativos, nos fazem ultrapassar a barreira do imediato e entrar no movimento que nos impulsiona a ir além, a entrar em sintonia com Aquele que vem e, ao mesmo tempo, já está presente. Desejar o encontro com “Aquele que vem” nos sensibiliza a perceber presente “Aquele que é”.

Por isso, o evangelho de hoje nos apresenta uma imagem sugestiva, que reúne no desejo duas atitudes importantes: o tempo da espera e o permanecer em vigília, ambas vivido no “estar despertos”.

A espera e a vigília da vinda plena do Senhor não nos afastam da realidade presente. Pelo contrário, faz-nos encarnar mais lucidamente nela. Nesse novo tempo litúrgico, a comunidade cristã permanece à escuta dos passos de Deus, em nosso mundo, em nossa vida. Porque o novo, não vem de fora, mas o sentimos e o tocamos por dentro.

Aquele que espera o encontro com o Senhor começa a ler a história como história redentora; descobre os momentos de inovação; é capaz de ver as libertações sendo gestadas no silêncio; conecta com as promessas ainda abertas e pendentes: a nova aliança, o novo povo, o novo êxodo, o Messias...

A atitude de vigília nos faz descobrir os sinais da chegada do Reino no tempo: não nos contentamos com o tempo vazio, “normótico” e sempre igual a si mesmo; descobrimos o tempo de salvação no qual há revelação e realização do novo, da justiça e da graça.

Os “esperantes” cristãos precisam aprender a “ressignificar” o tempo, pois o tempo de Deus e do Reino é o tempo da decisão em favor da vida (kairós). O reino tem seu tempo e seu ritmo. Não é questão de pressas, não é questão de datas e lugares, não é questão de cálculos. Tentar acelerar sua vinda seria como esticar o talo da planta para que cresça mais rápido. O importante é ter a paciência de quem sabe que a semente do Reino está semeada em nossa história e ninguém poderá deter seu desenvolvimento. 

Nesta tremenda e instigante história, da qual fazemos parte, precisamos nos situar bem. Não só com a cabeça, pois aí já temos as coisas mais ou menos claras, mas com nossa sensibilidade, com compaixão, com nossos modos de falar e de olhar, com aquilo que deixamos que toque e afete às nossas vidas. Trata-se da sabedoria de “sentir o tempo”.

Diante do tempo dramático que vivemos, nossa tentação é querer saltá-lo, fugindo de suas exigências.

Advento vem ser, então, um tempo para voltarmos para o interior em meio à agitação, olhar para dentro e deixar-nos perguntar: presto atenção à história que todos vivemos, às suas dores e à sua beleza? Reconheço seus poderes (augustos, herodes, quirinos) e a vida vulnerável de Deus iluminando-se nela, apesar de tudo?

Somos iniciados a “sentir o tempo” de um modo novo, a fazer-nos amigos dele, a nomear e acompanhar o tempo que nos toca viver, a habitar com intensidade todas as etapas de nossa existência. Cada momento esconde sua pérola, e é muito emocionante poder chegar a descobri-la. Precisamos recuperar a força do “hoje” de Deus fazendo “memória” dos grandes personagens do passado:  Isaías, Jeremias, Elias, João Batista, Isabel, Maria de Nazaré, José... Eles continuam falando, continuam desvelando sinais de vida plena na história presente. Só uma sensibilidade marcada pelo tempo do Advento é capaz de entrar em sintonia com as surpresas de Deus; e a história é o rumor dos Seus passos. 

Texto bíblico:  Mc 13,33-37 

Na oração: Caminhamos para Deus quanto mais nos adentramos no profundo de nós mesmos e da realidade. O maior enraizamento no tempo que nos toca viver desperta maior sensibilidade para sermos surpreendidos pelo novo que brota nos lugares menos esperados; é precisamente ali onde a vida renasce e amadurece.

- Como você se situa diante deste “tempo pandêmico”? Desespero? Medo? Desejo de saltá-lo?...

- Qual é o “novo” que você vislumbra no meio deste tempo? Você percebe algum sentido nele? Para onde ele aponta? É revelador de algo diferente?...


Pe. Adroaldo Palaoro sj

 

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2199-advento-sentir-o-tempo


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quarta-feira, 25 de novembro de 2020

RESISTÊNCIA SANTA DE FIRMINO ROCHA – Cyro de Mattos


Resistência Santa  de Firmino Rocha

Cyro de Mattos

                                        

                O épico apresenta, o lírico lembra, o dramático articula mundos interiores que resultam de atritos e conflitos na cadência crítica da vida. O lirismo e o sentimento do amor andam juntos, como  podem ser vistos na tradição da poesia ibérica. Na sua maneira íntima, de permanente emotividade, o lírico procede como quem recorda ou irrompe dos estados puros da paixão. O ouvido está atento para captar situações, auscultar seres e coisas, pulsações e frêmitos que correm no rio da vida. A mensagem é endereçada em muitos casos mais  aos ouvidos do que aos olhos. Não pretende deixar nada na escuridão e frieza. Seu estro murmura  nos acordes da  tristeza, adeus, agonia, lamento e grito.  Passado e  presente são auscultados  no presente para a sugestão r muitas vezes de um sentimento único: o amor.

                Em Firmino Rocha, poeta de expressão fácil,  verso de tonalidades leves,  um canto de amor emerge do eu lírico, ingênuo no modo de sentir o mundo. Ao fugir do real circundante, recheado de horas doloridas,  que os olhos não chegam a compreender, o transe imposto ao poeta  o impele para  outra paisagem, de aflição que atua como  âncora. Provoca uma poesia que,  mesmo dolorida na captura da vida,  flui com ternura. Acontece com forte apelo naqueles  poemas em que o fluxo lírico traduz   a angústia de ser  ante o mundo: os pesares permanecem em companhia  dos recônditos  por quem se vê ilha  em seu estar no mundo.

                De tendência intimista, no seu verso  tão somente pulsa a emoção, que acontece pelas arestas do  coração, ofendido pelo mundo áspero que fere. Os olhos tentam  colocá-lo distante, mas não conseguem. A  dor e  a saudade, no seu banimento impossível,    irrompem num facho de luz repentino para externar  a solidão, tornada queixa  no gesto que é uma profusão enorme  entre o dramático,  com seus delírios, e o lirismo,  com a  sua pureza incrementada na verdade.

                O  som como elemento necessário forma o ritmo, que emana suave e flui do verso com espontaneidade. Associada  ao som,  sua poesia tem assim  entonação musical, embora nem sempre a intuição compareça no texto verbal com  bons resultados. É ausente de síntese na reflexão crítica,  sem  tendência  conceitual, emotiva por excelência submete-se aos instantes do  eu profundo. É como o ar  que o próprio poeta respira, nesses encontros  inevitáveis  da solidão de quem, perturbado na alma,  sofre e sente, resiste e chora.

                A poesia tomada  nessa latitude não deixa de ser comoção, tornada   em linguagem condensada,  intensa e plural no seu significado.  Há quem afirme que nessa postura do sensível, com suas formas  calcadas no eu lírico,  a poesia obedeça  ao  ritual  simbólico da escrita para revelar uma ideia. Argumente  contra os que acham  que  é a razão  que faz o outro se sentir bem, conhecer o inexplicável, esclarecendo  que a poesia  através de emotiva  pulsação interior  traduz  murmúrios que estremecem,  encantam e comovem. Consegue demonstrar,  em sua linguagem aparentemente prosaica,  que um  poeta nem sempre se apoia em formas frias, não é um operador  de modelos reflexivos que buscam unir o ser humano, contraditório, finito,  a momentos  da palavra tomada  emprestada à razão para pronunciar os indícios históricos da existência.

                Poeta que marca a palavra com o abraço da paz e a lágrima do amor, Firmino  Rocha é mais um caso de resistência da poesia. Do homem que, ilhado na cidade do interior, de ambiência literária incipiente à sua época, assume em sua feição heroica e santa o lado do sonho, da loucura iluminada. Expressa  por meio de intuições  e emoções a  solidão solidária  que encontrou como maneira de exercer a  dialética do silêncio para não sucumbir ante a opressiva lei da vida.

                Para esse poeta de Itabuna, o poema é sangue e ar, calvário e canto que redime, pilastra  que sustenta a dor de si e de muitos, ponte de inquietudes que se estende  “prenhe das águas encobertas e das ramagens emudecidas.” Dostoiewsky disse que a Arte salvaria os homens, o poeta Firmino Rocha acredita que só o poema pode trazer-lhe o sonho da amada e salvá-lo, como numa prece, das paragens cegas da noite sem beijos e canções.

 Era sua crença:

 

Só um poema pode

esta angústia afugentar

esta tristeza exilar

esta escuridão espantar

 

                Defensor dos valores eternos, como a liberdade e a paz, em versos que se vestem com auroras e vertem estrelas, tem como um de seus temas preferidos o da inocência que se escondeu  com a infância. A sua lira, que sobe “o manto azul da lua cheia” e se desperta na janela pela voz de três baladas, canta a saudade, o amor, a  infância, o mistério que cerca seres e coisas nesse velho mundo impossível de ser elucidado nas  propostas íntimas de  uma canção constante. Firmino Rocha canta os mares pressentidos de angústia e pranto, o eu lírico livre e sereno aparece no verso espontâneo  “colhendo do amanhecer os  seus milagres.” Canta a morte do desesperado negro Stanley, que na terra de Tio Sam cometeu o pecado de amar uma mulher branca.

                Ânsia, lágrima, o beijo perdido para sempre, paixão, lembrança, tudo isso está na poesia de Firmino Rocha, com seus vícios  e virtudes.  Nela há sempre a necessidade de  amparar a solidão na companhia de sons e na magia de sonhos. Poesia feita de recados, desejos impossíveis, indagações sem resposta, pranto e distância. Filho do chão cacaueiro baiano, descendente de família pioneira na conquista da terra, sua poesia não  tem o som épico e dramático que impõe o tema urdido  num contexto que  ao longo do tempo implantou  uma civilização singular, portadora de valores materiais, tipos e costumes com bases na lavra dos frutos cor de ouro.    

                O poema “Deram um fuzil ao menino”, pungente canto  de ternura feito  como protesto contra a  guerra (1939-1945), tem arrebatado o brilho de toda a  poesia do autor de O canto do dia novo (1968). Há forte versão  entre os conterrâneos de  que  esse poema  encontra-se gravado, em bronze, na sede da ONU, em Nova Iorque. Figura  em antologia de poetas do mundo todo, editada pela Organização das Nações Unidas. Mas não existem  provas de que tais fatos sejam verdadeiros. Pode ser uma lenda, criada pelos seus conterrâneos e admiradores,  para  que o mito ganhe circulação internacional nos  ares locais,  com meros propósitos ufanistas.

                A poesia reunida de Firmino Rocha foi publicada numa co-edição da Editus, editora da Universidade Estadual de Santa Cruz,  e Fundação Itabunense de Cultura, na gestão do professor Flávio Simões. Iniciativa louvável porque até aquele momento, inclusive entre seus conterrâneos,  o poeta continuava inédito. Falava-se mais de Firmino Rocha  como autor do poema “Deram  um fuzil ao menino” e pouco se tinha  conhecimento  do seu legado poético.

                Certamente a publicação de sua obra, reunindo diversos poemas esparsos por  jornais e oferecidos a amigos em mesa de bar, é uma forma de perpetuar esse poeta sul baiano,  resgatar e  preservar  a memória cultural do sul  da Bahia  Poderia ser  uma boa oportunidade para inserir documentos e iconografia pertinente  no livro Firmino Rocha – Poemas escolhidos e inéditos (2008) e fazer a comprovação  em definitivo  que o poema “ Deram Um Fuzil ao Menino” encontra-se realmente   gravado na ONU, em  bronze, além de participar  de antologia importante no exterior.

                Os comentários continuarão em torno do assunto informando que  os fatos que envolvem o poema famoso com possível  repercussão na ONU são verdadeiros.   Pelo sim, pelo não, com a palavra os estudiosos de literatura, pesquisadores  e historiadores da terra do poeta.

               Um adendo. Solicitei ao meu tradutor nos Estados Unidos, Fred Ellison, professor emérito da Universidade de Austin, no Texas, para  verificar se o poema “Deram um fuzil ao menino” achava-se gravado em bronze na ONU. E se pertencia a uma antologia da paz publicada pela ONU com poetas do mundo. A busca exaustiva foi realizada por um parente de Fred Ellison, funcionário da ONU. E nada foi encontrado que comprovasse estar gravado na ONU o célebre poema do poeta itabunense. Nem antologia nem nada. Até que prove o contrário, para mim é lenda este assunto que os aligeirados gostam de propagar como verdade. 

 

Leitura Sugerida 

ROCHA, Firmino. Poemas escolhidos e inéditos, Via Litterarum Editora, Itabuna, Bahia, 2008.

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Cyro de Mattos é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).  Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.

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