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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

CARÊNCIA DE AFETO - Zuenir Ventura


Só espero que não se repita mais o que aconteceu este ano, quando, por causa da pandemia, não pude abraçar meu netos Alice e Eric nos seus aniversários. Beijar, então, nem pensar. Até o parabéns teve que ser cantado com máscara. É fácil imaginar o que foi para um beijoqueiro que, como diz minha mulher, beija até cachorro na rua.

Realmente, afeto para mim se confunde com afago, se traduz em gesto, é tátil. Quando recebo um telefonema ou e-mail de uma amiga ou amigo, a sensação de falta, ou seja, a saudade aumenta. Entendo o que Gilberto Gil disse uma vez — que só sentia saudade das pessoas quando as encontrava. Aliás, vocês se lembram do resultado da pesquisa que Ancelmo publicou? Mais de 80% responderam que o abraço dos parentes e amigos era do que mais sentiam falta. O que talvez vocês não saibam (eu não sabia) é que existe a “síndrome da cabana”, um estresse que pode acometer as pessoas que estão voltando ao trabalho, ao “normal”, depois, por exemplo, de sete meses confinados em casa.

O fenômeno foi descrito pela primeira vez em 1900 nos EUA, referindo-se aos caçadores que no inverno ficavam muito tempo trancados em suas cabanas e que em seguida retomavam o convívio social. Não é uma boa notícia para todos nós que passamos sete meses isolados e sonhando em retornar à velha rotina. Será que vamos sentir falta do confinamento? Acho que não. Embora pessoal e diretamente não tenhamos sido atingidos pela pandemia, é impossível não ser afetado pelo desfile mórbido que aumenta a cada dia. No momento em que escrevo são mais de 150 mil pessoas, que serão mais quando vocês estiverem lendo.

Acaba de sair o livro “A bailarina da morte”, de Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, sobre a gripe espanhola, que, entre 1918-19, matou mais do que a Primeira Guerra, cerca de 50 milhões de pessoas no mundo, e, só no Brasil, entre 35 mil e 50 mil. É de imprescindível leitura não só porque é um admirável trabalho de pesquisa sobre o que aconteceu naquele período tão mal estudado como porque mostra que o país teve um século para aprender e aprendeu pouco.

 O Globo, 21/10/2020

 https://www.academia.org.br/artigos/carencia-de-afeto

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2020

UMA BONECA LOURA - Ariston Caldas

Uma boneca loura

(Ariston Caldas)

 

            Era véspera de Natal, chegou em frente a uma vitrine e fascinou-se com uma boneca loura em exposição, de olhos verdes, vestido azul celeste, sapatinhos prateados. Se tivesse dinheiro, a compraria para Verinha, a filha mais nova. “Para presente?”, perguntaria a balconista. “Sim, quero o papel mais bonito que você tiver”, responderia ele, entusiasmado, como se estivesse vendo a caixa com a boneca, num papel bonito, cruzada com uma fitinha vermelha, um adesivo em forma de coração. Chegou a sentir a emoção da menina recebendo o presente.

            Enquanto vislumbrava essas coisas, não tirava os olhos da boneca que parecia gente viva, cabelo dourado cheios de reflexos, uma etiqueta com o preço – 40 Reais. Uma dinheirama para ele. Se fosse trapaceiro e estivesse sozinho, a rua deserta, sem nenhuma pessoa passando, poderia, num lance rápido, apanhar a boneca, saindo depois rua afora, a boneca em baixo do braço, a polícia atrás, pessoas gritando: “Ladrão, ladrão!”. Sentiu um calafrio, mudou de pensamento, mas continuou de olho duro para a boneca de cabelo louro em cachos. Em todo caso, havia conseguido o medicamento para a filha, há três dias queimando de febre. Apalpou a caixa do remédio num bolso traseiro da calça. “Doutor Renato é um sujeito humanitário”, pensou. Na mesma vitrine havia um macaquinho peludo, cor-de-chocolate, de olhos miúdos, bem mais barato que a boneca de sapatinhos prateados.

            Que adiantava o preço menor do macaco se ele se encontrava sem um centavo? Além disso, a filha teria preferência indiscutível pela boneca de olhos verdes, nem tinha dúvidas. Assim, se tivesse que apanhar escondido, seria a boneca.

            Olhou para trás, quase assustado, dois soldados de polícia passavam emparelhados, sisudos, calados, lembrou novamente de Verinha ardendo em febre, o remédio no bolso da calça. Saiu apressado. A momento esquecera a boneca, os dois soldados.

            Pela frente, a avenida extensa, iluminada, cheia de vitrinas enfeitadas, árvores de Natal artificiais entremeadas de lâmpadas multicolores, gente passando com sacolas, com pacotes bem-feitos, atados com fitas, certamente levando muitas bonecas louras, macaquinhos marrons mais baratos, de olhos redondos. “Trouxe meu presente?”. Tinha certeza de que Verinha lhe perguntaria assim, quando ele chegasse, sentada num banquinho de madeira, ao lado da cama, embrulhada numa coberta de tacos. “Quando eu ia comprar uma boneca, um grupo de ladrões roubou meu dinheiro”, ele responderia assim, constrangido por mentir e por não haver levado um presente para a filha. Olharia para ela que não iria entender a explicação, tornando-se mais triste, a carinha aureolada pela coberta de tacos. Agora, muita gente passando apressada, buzinas de carros, sinos badalando e a noite cheia de estrelas. A boneca loura continuaria na vitrine? Ou já teria sido vendida? Se não, estaria exposta, de olhos verdes, sapatos prateados. Não tinha nem um tostão, só uma caixa de remédio num bolso da calça. Lembrava do doutor Renato: “Um comprimido pela manhã e outro á noite”. Dois soldados de polícia passando sisudos, um macaquinho peludo bem mais barato, pessoas gritando: “Ladrão, ladrão!”.

            E foi caminhando, ideias difusas chegando e sumindo, arrodeado de sombras, badaladas de sinos anunciando a missa do galo. Aumentou os passos, chegou em casa, bateu na porta assustado. “Como está Verinha? Eu trouxe o remédio”, falou para a mulher, voz meio embargada. “Parece que a febre baixou um pouco. Ela tomou um chá e agora está dormindo”, disse-lhe a mulher ajeitando a popa do cabelo, entrando para o quarto onde a menina se encontrava com febre.


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Ariston Caldas nasceu em Inhambupe, norte da Bahia, em 15 de dezembro de 1923. Ainda menino, veio para o Sul do estado, primeiro Uruçuca, depois Itabuna. Em 1970 se mudou para Salvador onde residiu por 12 anos. Jornalista de profissão, Ariston trabalhou nos jornais A Tarde, Tribuna da Bahia e Jornal da Bahia e fundou o periódico Terra Nossa, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado da Bahia; em Itabuna foi redator da Folha do Cacau, Tribuna do Cacau, Diário de Itabuna, dentre outros. Foi também diretor da Rádio Jornal.

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terça-feira, 20 de outubro de 2020

GERSON BARACHO, por Antônio Baracho

 


Gerson Baracho

  (In memoriam)

 

As lágrimas silentes

foram-se todas já.

Baixa o silêncio

nessa hora de despedida!

 

Venho de longe

com o olhar nevado

para trazer-te o pranto derradeiro.

 

Não trago flores,

venho sufocado nas lágrimas

que derramaram pelo caminho.

 

Trago-te o meu último beijo

na mística do crente;

revejo aqueles passos taciturnos,

sob o peso imortal da enciclopédia.

 

Além, a mocidade pressurosa,

sugando o mel que brota dos teus lábios.

Retorno a Itapitanga,

onde os teus filhos perpetuam

a tua imagem heroica e permanente,

enaltecendo os teus lindos sonetos.

 

A tua casa,

oh paladino augusto,

lembra o fastígio

de uma Academia!

 

 

Antônio Baracho, Poeta Psicólogo.

Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL e do Clube do Poeta Sul da Bahia.

Tel. (73) 98801-1224 / 99102-7937

E-mail: antoniobaracho@hotmail.com

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segunda-feira, 19 de outubro de 2020

AS ROUPAS – Gibran Khalil Gibran


As Roupas

 

            E um tecelão disse: “Fala-nos das Roupas”.

            E ele respondeu:

            “Vossos trajes ocultam muito de vossa beleza, porém não escondem o que não é belo.

            Embora procureis nos trajes a proteção libertadora de vossa intimidade, neles podeis encontrar arreios e cadeias.

            Pudésseis enfrentar o sol e o vento com mais epiderme e menos roupa;

            Pois o sopro da vida está na luz do sol e a mão da vida está no vento.

 

            Alguns dentre vós dizeis: O vento do norte foi quem teceu os trajes que vestimos.

            Eu, porém, vos digo: Sim, foi o vento do Norte.

            Mas a desonra foi o seu tear e o relaxamento dos nervos, o seu fio.

            E quando completou seu trabalho, riu na floresta.

            Não esqueçais que a modéstia é um escudo contra o olhar do impuro.

            E quando o impuro desaparecer, que será a decência senão um obstáculo e uma mancha na alma?

            E não esqueçais que a terra se rejubila de sentir vossos pés desnudos e que os ventos anseiam por brincar com vosso cabelo.”

 

(O PROFETA)

Gibran Khalil Gibran

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Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.

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PARA OS QUE TÊM SAUDADE DA PRIMAVERA

 


          O que o presente livro oferece ao leitor?

          Um enriquecimento espiritual e uma visão de beleza raramente igualados.  A sabedoria oriental, produto daquela terra onde nasceram os profetas e as religiões, sempre fascinou as almas sensíveis.

          Este livro contém a essência dessa sabedoria, aplicada não a problemas transcendentais, mas à nossa vida cotidiana, e expressada num dos estilos mais fascinantes de toda a literatura contemporânea.

          As edições anteriores desta tradução têm-se esgotado com excepcional rapidez. E raros são aqueles que, após ler o seu exemplar, não voltam, à livraria comprar outros exemplares para seus amigos.

          Pois a leitura deste livro é mais do que uma leitura: é uma deliciosa renovação da alma.

          Quando uma pessoa está fisicamente esgotada, vai respirar o ar vivificante das montanhas. Espiritualmente também, as pessoas se esgotam: o egoísmo, a concorrência feroz, o automatismo, a solidão moral, a insensibilidade que caracterizam os tempos modernos afetam nossas almas mais ainda do que a exaustão afeta nossos corpos. E livros como O Profeta são as alturas vivificantes de que a alma precisa.

          Comece a ler este livro hoje mesmo. Sua leitura não lhe tomará mais de duas horas. Mas a beleza de suas parábolas, a melodia de seu estilo, o estímulo de seus pensamentos, a profundidade dos seus conceitos o acompanharão durante meses.

          O Profeta, escrito originalmente em árabe e, depois, em inglês, por um dos escritores mais extraordinários do século XX, já foi traduzido para mais de 30 idiomas. E em toda parte, das agitadas metrópoles às aldeias sonolentas, centenas de milhares de pessoas fazem dele o seu livro de cabeceira e para ele se voltam cada vez que sentem saudade das alturas e da primavera. Aproveite também este livro, e deixe que o leve sobre as asas da poesia ao mundo maravilhoso da sabedoria e da beleza.

 

MANSUOR CHALLITA

(Tradutor e Apresentador)

 

Editora Vozes Ltda.

BRASIL 1974

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domingo, 18 de outubro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Adormecida – Castro Alves


Adormecida

(Castro Alves)



Uma noite, eu me lembro, ela dormia

Numa rede encostada molemente...

Quase aberto o roupão, solto o cabelo

E o pé descalço no tapete rente.

 

Estava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina,

E ao longe, num pedaço do horizonte,

Via-se a noite plácida e divina.

 

De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E, de leve oscilando ao tom das auras,

Iam na face trêmulos – beijá-la.

 

Era um quadro celeste!... A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia...

Quando ela serenava, a flor beijava-a,

Quando ela ia beijá-la, a flor fugia...

 

Dir-se-ia que naquele doce instante

Brincavam duas cândidas crianças...

A brisa, que agitava as folhas verdes,

Fazia-lhe ondear as negras tranças!

 

E o ramo ora chegava, ora afastava-se,

Mas quando a via despertada a meio,

Pra não zangá-la sacudia alegre

Uma chuva de pérolas no seio.

 

Eu, fitando esta cena, repetia

Naquela noite lânguida e sentida:

“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!

Virgem! – tu és a flor da minha vida!...”

 

                                        S. Paulo, novembro de 1868


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PALAVRA DA SALVAÇÃO (206)


29º Domingo do Tempo Comum – 18/10/2020


Anúncio do Evangelho (Mt 22,15-21)

 

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, os fariseus fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. Então mandaram os seus discípulos, junto com alguns do partido de Herodes, para dizerem a Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e que, de fato, ensinas o caminho de Deus. Não te deixas influenciar pela opinião dos outros, pois não julgas um homem pelas aparências. Dize-nos, pois, o que pensas: É lícito ou não pagar imposto a César?”

Jesus percebeu a maldade deles e disse: “Hipócritas! Por que me preparais uma armadilha? Mostrai-me a moeda do imposto!” Levaram-lhe então a moeda.

E Jesus disse: “De quem é a figura e a inscrição desta moeda?” Eles responderam: “De César”. Jesus então lhes disse: “Dai pois a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

 

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

 

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:



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Quem é o Senhor que move nosso coração?

 


“De quem é a imagem e a inscrição desta moeda?” (Mt 22,20) 

 

Sempre é importante estar atento ao contexto em que se situa o evangelho de cada domingo. Hoje, os chefes religiosos compreenderam que as parábolas polêmicas (os dois irmãos convidados pelo pai a trabalhar na vinha, os vinhateiros homicidas, o banquete de casamento) se referiam a eles; por isso, contra-atacam a Jesus com três perguntas capciosas que são como que armadilhas para ter de quê acusá-lo (pagar ou não o imposto a César, a ressurreição dos mortos e qual é o primeiro mandamento).

Hoje, perguntam a Jesus sobre o imposto a ser pago aos romanos. Era um assunto polêmico que dividia a opinião pública. Os adversários de Jesus querem a todo custo acusá-lo e, assim, diminuir a sua influência junto do povo. Muitas vezes, pessoas ou grupos, inimigos entre si, se unem para defender seus privilégios contra aqueles que os incomodam com o anúncio da verdade e da justiça. As perguntas dirigidas a Jesus, mesmo aquelas que revelavam uma intenção de incriminá-lo, são para Ele ocasião privilegiada para ir além das mesmas perguntas e acabam gerando respostas surpreendentes, que ninguém esperava.

No evangelho deste domingo (29o Tempo Comum), Jesus responde ao que não lhe haviam perguntado, indicando uma atitude vital que vai além da alternativa que lhe foi proposta: a licitude de pagar ou não o imposto a César. Em primeiro lugar, Jesus denuncia a submissão dos fariseus e herodianos que carregavam consigo moedas com a imagem do imperador romano: viviam como escravos submissos a um poder que desumanizava e humilhava a todos com pesados impostos e com violência extrema. Na prática, eles já reconheciam a autoridade de César. Já estavam dando a César o que era de César, pois usavam as moedas dele para comprar e vender e até para pagar o imposto ao Templo!

Em segundo lugar, Jesus, ao perguntar – “de quem é essa imagem e essa inscrição” – está fazendo clara referência ao Gênesis, onde se diz que o ser humano foi criado à imagem de Deus. Se o ser humano é imagem de Deus, é preciso dar a Deus o que lhe fora tirado, ou seja, o próprio ser humano. O ser humano é “imagem” de Deus e só a Ele pertence. O único absoluto é Deus. Trata-se de uma “submissão amorosa” que não se impõe (imposto), pois o convida a entrar em sintonia com Ele, numa comunhão de vida e compromisso com os outros.

Alguns biblistas traduzem a expressão “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” por “retirai de César o que é de Deus”, ou “não dai a César o que é de Deus”, ou ainda, “dai a César o que é de César, mas não lhe deis o que é de Deus”. O que interessa a Jesus é que “deem a Deus o que é de Deus!”, isto é, pratiquem a justiça e a misericórdia, para entrar em sintonia com o coração do Pai, pois a hipocrisia dos fariseus e herodianos negava a Deus o que lhe era devido.

Em outras palavras: não entregueis a nenhum “césar” o que é de Deus: os pobres e os pequenos que são os prediletos do Pai; o Reino de Deus pertence aos últimos. Não se pode sacrificar a vida e a dignidade dos indefesos a nenhum poder político, financeiro, econômico ou religioso. Os humilhados pelos poderosos são de Deus e de ninguém mais. Que nenhum poder abuse deles; que nenhum “césar” se imponha sobre eles. 

Com sua resposta, Jesus propõe um princípio de validade permanente: rejeitar, de maneira absoluta, qualquer tipo de poder. César se impõe (imposto) pelo poder, que oprime e exclui; Deus não se impõe (não é imposto); faz-se dom, esvazia-se de todo poder e se aproxima de cada um de nós, se faz comunhão.

O relacionamento entre o ser humano e Deus dá-se na esfera da mais pura liberdade, lá onde as decisões são ditadas pelo amor. O Deus que Jesus nos revelou é o Deus que se faz presente no pequeno, no simples, naqueles que não tem voz e nem vez neste mundo. Não é o Deus do poder absoluto, nem o Deus que exige obediência e submissão àqueles que se apresentam como representantes do divino.

Esta identificação de Deus com cada ser humano não vai na linha do poder que se impõe, mas na direção do amor que se faz oferta. Deus revela sua transcendência não no poder que tanto buscamos, mas na humanidade da qual queremos constantemente escapar.

A afirmação lapidar de Jesus vai da imagem impressa na moeda à imagem que trazemos impressa em nossas vidas, ou seja, a imagem de Deus. O dinheiro traz impressa a imagem dos poderosos; o ser humano traz impressa a imagem de Deus; o dinheiro vale o que vale o poderoso que o imprimiu; o ser humano vale o que vale Aquele que o criou à sua própria imagem. O denário traz impressa a imagem de César; por isso, vale o que vale o César.

O ser humano traz impressa a imagem de Deus; por isso, tem valor absoluto. Com o denário, pode-se pagar os impostos, mas o ser humano não é moeda de circulação, que se compra ou se vende. O ser humano é a única “moeda” que vale a vida mesma de Deus. Por isso, o ser humano não pode ser “produto” que é vendido aos interesses humanos.

Jesus desencadeou um movimento de vida, centrada na comunhão de bens, sem um dinheiro divinizado em forma de capital autônomo, valioso em si mesmo. Estritamente falando, seu projeto se opunha (em um nível diferente) à ordem imperial de Roma, que mantinha seu poder, assentado sobre fundamentos de dinheiro.

Nesse contexto se situa e deve ser entendida esta passagem sobre o tributo a César, que os adversários apresentam a Jesus para pegá-lo em algum tipo de contradição e assim poder acusá-lo diante do povo (se defendesse o tributo) ou diante da administração romana (se rejeitasse o tributo).

A partir deste cenário de fundo as comunidades cristãs apresentam o tema da relação entre a “economia do Reino”, ou seja, a comunhão gratuita de bens, e a “economia de César”, que se fundamenta e se expressa nos tributos a serviço da administração militar do império e do sustento de um tipo de política, que se expressava em domínio dos poderosos.

Vivemos em um contexto social e econômico onde o “deus dinheiro” determina todas as relações humanas, inclusive no campo religioso. O neoliberalismo (“césar” pós moderno) endeusou o “poder monetário”, destruindo aquela “imagem” divina impressa no coração de cada um. E o ser humano passou a ter “valor de mercado”, e toda pessoa que não produz ou não é rentável (doentes, idosos, pobres...) é descartado.

São os “césares” que se infiltram nas profundezas de nosso ser, conduzindo-nos a um profundo processo de desumanização.

Texto bíblico: Mt 22,15-21 

Na oração: Alimentamos diferentes “césares” em nosso coração, aos quais nos fazemos submissos: instinto de posse, busca de poder e prestígio, consumismo, obsessão por um bem-estar material sempre maior, o espírito de competição... Quando é “césar’ que determina nossa vida, sua influência envenena nossa relação com Deus, deforma nossa verdadeira identidade e rompe nossa comunhão com os outros e nos desumanizamos...

Como seguidores de Jesus, devemos buscar nele a inspiração e o alento para viver de maneira livre e solidária.

- Dar nomes aos “césares” que comandam seu coração e que exigem pesados impostos.

O evangelho de hoje faz emergir a seguinte pregunta: sinto-me “denário de césar”? sinto-me imagem de Deus?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2162-quem-e-o-senhor-que-move-nosso-coracao

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sábado, 17 de outubro de 2020

PARA REFRESCAR A MEMÓRIA DOS BISPOS ESQUERDISTAS


152 arcebispos e bispos da CNBB assinaram uma carta com duras críticas ao Presidente Bolsonaro. O que tais prelados fizeram contra os descalabros dos governos petistas que arruinaram o País?

Plinio Maria Solimeo

A esquerda tem memória curta. E a tem também grande parte dos bispos que fazem parte da CNBB e que, seguindo a linha da famigerada Teologia da Libertação, não poupam críticas ao governo e à situação em que se encontra nosso País.

Esquecem-se eles que, há apenas alguns anos, o Partido dos Trabalhadores (PT), bafejado e incentivado por tais bispos, levou o Brasil à bancarrota com toda sorte de corrupção, que eles assistiam passiva e confortavelmente.

Por isso é bom relembrar-lhes que, naquela época, houve dois corajosos prelados que, destoando do resto da CNBB, fizeram duras críticas ao governo petista e à situação que vigorava no Brasil.

Foram eles Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares, no Pernambuco, e Dom Antônio Carlos Rossi Keller, bispo de Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul.

É-nos grato rememorar aqui as palavras desses destemidos antistites, pronunciadas no início do ano de 2016, em pleno reino petista, para refrescar a memória tão seletiva dos nossos bispos e clero esquerdistas.

O valoroso bispo de Palmares afirmou com todas as letras:

“A situação do nosso País é gravíssima: crise econômica; crise política; crise institucional; crise moral!

A democracia brasileira corre perigo!

O País foi roubado dos brasileiros!

Os que governam se sentem dispensados de dar satisfações ao Povo; não respeitam as instituições, zombam da justiça!

A sordidez, a desfaçatez e o escárnio tornaram-se método de governar e fazer política!

O Congresso Nacional trai e abandona o Povo brasileiro!

Cargos, comissões, sinecuras: é tudo quanto nossos parlamentares procuram!

Congresso indigno, Congresso omisso, eivado pela tortuosidade!

É preciso dar um basta a tudo isto!

O Povo brasileiro deve retomar o seu País, deve recobrar a sua Pátria, a sua dignidade, a sua honradez!

O Brasil está desonrado,

o Povo brasileiro está ferido em sua dignidade!

É o futuro da Pátria que está em jogo!

É preciso cobrar com convicção e firmeza um posicionamento claro do Congresso Nacional! Mas, como, com os líderes que estão ali?

Enquanto isto, crise, desemprego, tensão, desânimo, total falta de esperança!

O Brasil não tem líderes!

Estão destruindo a jovem democracia brasileira, estão colocando em risco o que se construiu com tanto sacrifício!

Que o Povo não o permita!

Que o Povo fale! Que o Povo brade!

O Brasil é dos brasileiros!”

Essas palavras tão duras, pronunciadas em 2016, contra o governo petista, são as que, mais ou menos, agora as de que acusam o atual governo.

Dom Keller não deixa a situação por menos:          

“De início, quero deixar claro que esta postagem não tem direcionamento partidário. Vivemos hoje, no Brasil, uma situação constrangedora: em todas as agremiações partidárias, o mal da corrupção apresenta-se como uma sombra vergonhosa.

O Brasil para os brasileiros! Fomos roubados: roubaram nossa esperança, nosso futuro, nossa dignidade, muito mais do que o nosso dinheiro. Somos um povo doente, sem horizontes. Prevaleceram-se de nosso comodismo, de nossa incapacidade de reação. Compraram nossa consciência cidadã com bolsas, programas, “pacs”, copas e olimpíadas.

Mudaram o rumo de nossa história, impingindo-nos ideologias inaceitáveis. Venderam nosso país a lobbies, que despejam aqui rios de dinheiro, para mudar os rumos de nossa vocação cristã-católica.

Perdemos quase tudo. Agora, querem nos fazer acreditar que tantos escândalos, desvendados a duras penas, não são verdadeiros, nada mais são do que disputa política. É preciso dar um basta a tanta pouca vergonha. É preciso, antes de tudo, resgatar o Brasil e a nacionalidade. Este país precisa ressurgir dos escombros a que foi reduzido. Mais do que nunca, é preciso recomeçar a ser brasileiro. O Brasil e os brasileiros não merecemos tanta humilhação e tanta vergonha”.

Felizmente essas palavras não foram pronunciadas em vão, como demonstraram as gigantescas manifestações populares contra o governo corrupto do partido dito dos trabalhadores.

Citamos essas declarações como publicadas no site católico “Aleteia”, em português, no dia 18 de março de 2016.


http://pt.aleteia.org/2016/03/18/bispo-tambem-e-cidadao-a-indignacao-de-dois-prelados-com-a-crise-moral-do-brasil/?utm_campaign=NL_pt&utm_source=daily_newsletter&utm_medium=mail&utm_content=NL_pt-Mar%2021,%202016%2007:01%20am

 

https://www.abim.inf.br/para-refrescar-a-memoria-dos-bispos-esquerdistas/


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