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domingo, 18 de outubro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Adormecida – Castro Alves


Adormecida

(Castro Alves)



Uma noite, eu me lembro, ela dormia

Numa rede encostada molemente...

Quase aberto o roupão, solto o cabelo

E o pé descalço no tapete rente.

 

Estava aberta a janela. Um cheiro agreste

Exalavam as silvas da campina,

E ao longe, num pedaço do horizonte,

Via-se a noite plácida e divina.

 

De um jasmineiro os galhos encurvados,

Indiscretos entravam pela sala,

E, de leve oscilando ao tom das auras,

Iam na face trêmulos – beijá-la.

 

Era um quadro celeste!... A cada afago

Mesmo em sonhos a moça estremecia...

Quando ela serenava, a flor beijava-a,

Quando ela ia beijá-la, a flor fugia...

 

Dir-se-ia que naquele doce instante

Brincavam duas cândidas crianças...

A brisa, que agitava as folhas verdes,

Fazia-lhe ondear as negras tranças!

 

E o ramo ora chegava, ora afastava-se,

Mas quando a via despertada a meio,

Pra não zangá-la sacudia alegre

Uma chuva de pérolas no seio.

 

Eu, fitando esta cena, repetia

Naquela noite lânguida e sentida:

“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!

Virgem! – tu és a flor da minha vida!...”

 

                                        S. Paulo, novembro de 1868


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