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quarta-feira, 8 de julho de 2020

EM CHIQUINQUIRÁ, A SANTÍSSIMA VIRGEM RESSALTA A LUZ PRIMORDIAL DA COLÔMBIA

8 de julho de 2020
O quadro milagroso de Nossa Senhora de Chiquinquirá

Neste dia 8 de julho celebra-se a festividade de Nossa Senhora de Chiquinquirá — sobretudo na Colômbia, que A tem como principal Padroeira. A seguir matéria a respeito d´Ela, e sobre os estupendos milagres que seu miraculoso quadro tem operado, que foi publicada na revista Catolicismo deste mês.

 Luis Fernando Escobar Duque

Na década de 1560, o espanhol Antonio de Santana encomendou a Alonso de Narváez, morador na pequena Villa de Tunja, uma pintura da Santíssima Virgem para ser venerada na residência dos Padres Dominicanos em Sutamarchán. Desse lugar os heroicos missionários partiam para todos os rincões do novo e vasto país. Com seus incansáveis esforços para ensinar a Fé católica aos aborígines, batizando-os a fim de torná-los dignos dos méritos alcançados pelo divino Redentor na Cruz, os missionários transmitiam as graças fundadoras de uma grande nação católica, com a promessa de um não menos grandioso futuro.

Era época da Conquista, cheia de adversidades, e isso fez com que o primeiro centro fosse abandonado, deixando tudo à mercê das intempéries. Consequentemente a tela com a imagem da Virgem se deteriorou, suas cores desapareceram. Em 1578 esse tecido foi levado para Chiquinquirá, onde foi deixado de lado. Maltratado a ponto de ser utilizado para secar o trigo, já não se percebia nele a face celestial de Nossa Senhora, cercada por Santo Antônio e Santo André.

Sabendo que a Mãe de Deus havia sido pintada naquele tecido esmaecido, uma espanhola de nome Maria Ramos o colocou com dificuldade sobre um altar rústico, e pôs-se a suplicar fervorosamente que a Mãe de Deus voltasse a mostrar sua face.

O quadro de Nossa Senhora no altar principal
No dia 26 de dezembro de 1586 a indígena Isabel atravessava a fazenda com seu filho Miguel, de cinco anos, quando perceberam um grande brilho, como de fogo em meio a faíscas e raios. Os habitantes do local acorreram para apagar o “incêndio”, mas se surpreenderam pelo fato de ele não queimar. Só deixaram o local após admirar a pintura renovada, que se manteve brilhante por um dia inteiro. A face da imagem permaneceu restaurada apenas parcialmente.

Movida por tal prodígio, a piedade popular foi se ampliando, sendo recompensada por grandes milagres que não cessaram até hoje. Brotou no local um jorro de água cristalina, e a Ordem de São Domingos decidiu construir ali um templo, a Igreja da Renovação, para promover a veneração da tela milagrosa. Este novo santuário foi consagrado em 1823, e seis anos depois, em 1829, a Santíssima Virgem era ali coroada Padroeira da Colômbia por ordem do Papa Pio VII.

Do alto de seu altar privilegiado, onde sempre nos espera acolhedora e misericordiosa, a Santíssima Virgem reina serenamente desde então sobre todo o povo colombiano, que ali promove jubileus muito concorridos. As multidões que visitam a milagrosa pintura ao longo dos séculos nunca saem decepcionadas: sempre atendidas com magnanimidade.

Na sua prodigiosa renovação, a Santíssima Virgem se manifestou em meio ao fogo e aos raios. Pode-se ver aí uma relação com o caráter ardente e apaixonado de seu povo, que vai delineando gradualmente a sua vocação, a sua luz primordial. O povo colombiano quer a afirmação da verdade: “Seja a tua palavra: Sim, sim; não, não; pois o que não for isso procede do mal” (Mt 5, 37).

Homenagem à Padroeira numa de suas festas anuais

Na contemplação amorosa de sua fisionomia, sempre fica a pergunta: por que, apesar de permanecer intacta, a Santíssima Virgem quer mostrar-se parcialmente restaurada? Parece haver nela uma promessa de restauração total, uma garantia de que a nação se mostrará plenamente em um futuro grandioso, se corresponder às graças da sua Rainha. Unido a Ela, o povo colombiano pode escrever sua própria história, definindo com fé o seu caráter e identidade.

Na próxima festividade de Nossa Senhora do Rosário de Chiquinquirá, a realizar-se no dia 9 de julho, suplicar-lhe-emos com confiança que se manifeste inteiramente à nação da qual é Rainha e Padroeira, e ponha fim à terrível crise de fé em que vivemos.



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terça-feira, 7 de julho de 2020

ANALISTA LITERÁRIA MAIÚSCULA, por Cyro de Mattos

Analista Literária Maiúscula
Cyro de Mattos*


            A linguagem literária é caminho importante para a compreensão do outro mais o mundo.  As obras literárias falam à imaginação e ao sentimento. As científicas, de preferência à razão. A soma da sabedoria humana não está apreendida por nenhuma linguagem. Nenhuma linguagem em particular é capaz de exprimir todas as formas e graus de compreensão humana. De todas as linguagens a que mais se aproxima dessa condição é a literária A literatura é a expressão mais completa do homem, como ente que pensa e sente. A linguagem literária é a mais completa para a leitura do mundo. Todas as outras expressões referem-se ao homem enquanto especialista de uma atividade.

            Só a literatura concebe e apreende o homem enquanto homem. Sem distinção nem qualificação alguma. É a via mais direta para que os povos se entendam e se encontrem como irmãos. Assim, ela devolve ao ser humano, o que de fato lhe pertence como aptidão e aderência:  a inteligência e a emoção.

            Essa crença nos sinais visíveis da escrita como expressão do pensamento mágico e do pensamento lógico é o que Nelly Novaes Coelho veio transmitindo em sua prática de docência universitária e exercício da crítica literária durante 50 anos.

           Portadora de uma didática admirável, pesquisadora exemplar, analista  lúcida.  Registra a voz de muitos autores que vêm dando seu testemunho de vida e ideais por meio da Palavra. Seus dicionários de escritoras brasileiras e da literatura infantil e juvenil brasileira são pontos elevados na valorização do corpo literário brasileiro.

           Ao colocar a cultura e a literatura  em tão rico  patamar, contribuindo decisivamente para a construção do patrimônio comum a todos os estudiosos e criadores literários, o seu trabalho de  intelectual maiúscula  é assombroso. A tarefa de pesquisa,  cara às universidades, à reflexão das mutações do mundo, historicidade e atualidade do homem, circunstanciado no ontem e no hoje,  encontra em Nelly Novaes Coelho  a dinâmica perfeita que emerge da vocação voltada para os campos investigativos e interpretativos, culturais e literários.

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*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia de Letras de Itabuna (ALITA).

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segunda-feira, 6 de julho de 2020

O POÇO DOS MARIDOS – Humberto de Campos


          Ferdinanda Sobreiro havia sido, até os vinte e três anos, uma das moças mais requestadas e formosa dos salões do Rio de Janeiro. Muito clara, cabelos castanhos, olhos suavemente azuis, porte mediano, nenhuma a sobrepujava nas maneiras, na elegância, na distinção e, principalmente, na graça de um sinalzinho petulante, que lhe dava ao rosto, na face esquerda, o retoque de uma brejeirice encantadora. Aquele sinalzinho era, podia-se dizer, o ponto final da formosura. Ao escrever o poema da beleza feminina, Deus havia posto, ali, a última palavra do derradeiro capítulo.

            Os anos foram-se, porém, sucedendo, uns aos outros, e como gotas da mesma clepsidra; e o certo é que, aos vinte e oito, a moça não havia encontrado marido. Amigas mais feias, ou, antes menos bonitas, iam, uma a uma, recebendo o seu noivo, constituindo o seu lar, multiplicando o seu sangue; e ela, somente ela, de tantas que eram, já se deixava ficar na casa de seu pai, cercada de admiradores, atordoada de lisonja, mas sem ver um homem que  a convidasse, leal e sincero, para constituição legal de um ninho em comum. A Belita Simpson, que não tinha os seus olhos nem o seu sorriso, havia encontrado o Dr. Mascarenhas, advogado estudioso e jovem, e lá andava pela Europa em passeio de núpcias, percorrendo as cidades, experimentando os climas, visitando os museus. A Alice Martins era, agora, mme. Lopes Taveira, arrastando pelo braço, nos salões e na Avenida, o grande médico seu marido. A Totinha se casara com um deputado, e dava empregos, e a Tecla Meireles com um capitalista, e dava recepções. Só ela, que fora a mais graciosa, a mais elegante, e mais cobiçada, ali estava sozinha no seu leito de solteira, sentindo aproximar-se, após uma alvorada chilreante de pássaros, uma tarde triste, lúgubre, amortalhada em cinza e silêncio. Onde andava com a sua matilha e com os seus pajens o seu Príncipe Encantado, que não vinha rápido, alarmando a floresta com as buzinas de caça, ao encontro da sua Princesa Adormecida?

            Sem irmãs nem irmãos, que lhe dessem o conforto de uns sobrinhos pequeninos, Fernandinha sentia-se oprimir, afogar, asfixiar, pelo instinto maternal do coração. O pai, alquebrado, não podia mais conduzi-la, com tanta frequência, como dantes, a festas, a passeios, a teatros. Uma primeira ruga riscou-lhe a fronte lisa, partindo, como um fio telegráfico sem destino, do canto dos olhos. Combatida à força de loções, de unguentos, de pomadas, multiplicou-se, dividiu-se, repartiu-se abrindo novos caminhos para as lágrimas. E foi nessa idade, com o sol da mocidade em franco declínio, que Fernandinha adormeceu e teve uma noite, um sonho, que a desiludiu.

            Ao fechar os olhos, humedecidos em torno por uma loção que lhe haviam receitado, sentiu-se, de repente, transportada a uma grande campina, no fim da qual ressoavam harpas e cítaras, que ela procurava e não via. Embevecida, olhava para o lado de onde lhe vinham aquelas vozes embaladoras, quando sentiu, de repente, que alguém lhe tocava o ombro. Voltou-se, assustada, e caiu de joelhos, gemendo:

            - Minha madrinha! Minha Madrinha! Amparai-me.

            Ao seu lado, radiosa e doce, mal pisando a terra, sorria a imagem de Santa Rosa de Lima, sua madrinha e protetora, à qual havia rezado contritamente, aflitamente, antes de adormecer, pedindo a graça de um marido. Sorriso nos lábios, aureola à cabeça, mãos sobre o peito, a Santa Rosa fitava-a com ternura, quando, carinhosa, ordenou:

            - Minha filha, vem...

            E puseram-se a andar pela campina, uma ao lado da outra, mas tão leves, tão brandas, tão ligeiras, as duas, que nem pesavam sobre o relvado orvalhado. Súbito, ouviram vozes. A planície havia desaparecido e Fernandinha estava, agora, diante de um grande poço, em torno do qual se aglomeravam, apertando-se, empurrando-se, disputando, dezenas, centenas, milhares de moças. Espremendo uma, afastando outra, a rapariga chegou à beira do abismo e viu: de dentro saía uma corda, puxada por um sacerdote, na qual vinha amarrado, de sete em sete palmos um homem, que as mulheres, em cima, recebiam debaixo de gritaria.

            - Que é isto? Indagou, tímida, Fernandinha, a uma desconhecida que lhe ficara ao lado.

            - Então você aqui e não sabe?

            E como percebesse a sinceridade daquela pergunta:

            - Isso aqui é o poço dos maridos, o lugar de onde eles vêm. Essas moças que aqui vê, estão esperando cada uma aquele que lhe é destinado.

            - E a senhora já encontrou o seu? – Indagou Fernandinha admirada.

            A outra baixou os olhos, e confessou:

            - Não, senhora. Estou aqui há doze anos. Felizmente ainda não perdi a esperança...

            A rapariga ia rir da sua vizinha quando seus olhos descobriram, do outro lado do poço, várias fisionomias amigas, debruçadas, todas, para o fundo insondável do abismo. Eram Abelita Simpson, Alice Martins, Dorinha Tavares, a Abgail Queiróz, a Ninita, a Maria da Penha, a Lúcia, a Cidinha, a Tude, a Graziela... E a medida que a corda subia, puxada incessantemente pelo sacerdote, desgarrava-se dela  um homem jovem, ou velho, feio, bonito, a cujo pescoço pulara logo um vulto feminino, que nunca o tinha visto, mas que o esperava ansiosamente à beira do poço. E assim viu ela sair o Dr. Mascarenhas, o Lopes Taveira, o comandante Maia Cunha, o Dr. Casemiro Alves, o Tenente Alberto Wellington, em cujos braços se atiraram  logo, a Belita, a Alice, a Tecla, a Totinha, a Maria da Graça, que lá se iam, felizes, pela campina com seus maridos..

            De repente, Fernandinha sentiu uma agitação íntima, um susto, uma inquietação deliciosa, uma espécie de pressentimento. Uma vontade de fugir, de esquivar-se, agitou-lhe os nervos, mas os pés a detiveram, autoritários, no mesmo lugar. Alguma coisa de grave, de inesperado, ia, necessariamente acontecer. E estava ela nessa angústia, nessa tortura, encantada, quando a Santa, sua madrinha, lhe apareceu, de novo, anunciando-lhe:

            - Minha filha, olha para o fundo do poço. Teu noivo, o homem que te é destinado para marido, está para chegar. É o oitavo, depois deste que saiu agora.

            O ímpeto de Fernandinha foi o de atirar-se à Santa, abraçando-a, apertando-a, cobrindo-a de beijos gulosos, de furiosa gratidão. Era preciso, porém, olhar para o fundo do poço, e receber com os olhos, de longe, o seu prometido; a ansiedade dominou-se, curvando-se sobre o abismo. Debruçada para dentro, contou os vultos que se divisavam agarrados à corda!

            - Um... dois... três... quatro... cinco... seis... sete... oito...

            Era aquele. De longe, na meia escuridão, não lhe podia divisar as feições, nem avaliar a idade. O coração batia-lhe, inquieto, sôfrego, descompassado. Um suor frio corria-lhe por todo o corpo, numa vertigem. As pernas tremiam-lhe, mal sustendo o peso do busto amparado ao muro do poço. A manivela continuava porém, a rodar, manejada pelo padre, e a corda a subir trazendo gente. Agora faltavam apenas quatro. Ele era o quinto.

            Apesar da penumbra, Fernandinha via-lhe, já, as feições. Era jovem, sim! Jovem e bonito. Na sua coquetearia instintiva a moça levou as duas mãos ao cabelo, afofando o penteado. Mais um movimento da manivela e a claridade exterior atingiu. Chicoteado pelo jato de luz o rapaz ergueu o rosto, e encontrando, em cima, os olhos dela, encarou-a e sorriu. Fernandinha quase desmaia de gozo, de prazer, de ventura. Toda ela era alvíssaras de carne, alvíssaras de nervo, alvíssaras de coração. Agora, ele era o segundo. Olhos nos olhos, embebidos um no outro, as suas mãos já se tocavam quase.

            Fernandinha sorria e chorava. Mais uma volta da manivela e estaria ele nos seus braços. Esperava, como se fosse um século, a passagem deste grão de areia na ampulheta da eternidade, quando um grito reboou alarmando a multidão.

            - Fujam! Fujam! – Avisou alguém.

            A massa recuou, espavorida, deixando Fernandinha, sozinha, à beira do poço.

            - A corda vai partir-se! – bradou a mesma voz com terror. Atordoada, a moça voltou-se, e viu. Um pouco acima de sua cabeça no ponto que passava pelo carretel, o cabo desfiava-se, rápido, ameaçando romper-se. Soltando um grito, a rapariga estendeu as mãos, aflita, louca, desesperada, para o fundo do poço. Era, porém, tarde. Rodopiando com o peso, o cabo se havia distorcido de repente, estalando num ruído seco, atirando, com um estrondo surdo, a sua carga humana, no fundo do abismo.

            Um grito de raiva, de angústia, de dor alucinante, alarmou, àquela hora da noite a família Sobreira. Pessoas da casa acorreram, em trajes de dormir.

            Curvada para fora do leito, os braços estendidos para o chão, o rosto lavado em lágrimas, Fernandinha chorava nervosamente, aflitamente, agoniadamente, no seu primeiro ataque de histeria.

(CONTOS DE ALCOVA - Dezembro de 1963)
Compilados por Yves Idílio

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HUMBERTO DE CAMPOS

          Sem sombra de dúvidas HUMBERTO DE CAMPOS VERAS foi quem, dentre os escritores brasileiros, dominou com maior mestria o ensaio e a novela.
           Atual, perene, possui aquele dom indescritível que faz as grandes obras permanecerem sempre atuais, sempre vivas...
            Natural do Maranhão impregnou suas páginas de uma nostalgia, de um humanismo pungente característico dos naturais daquela região.
            Neste “Poço de Maridos”, ele se revela sarcástico, mordaz, cruel mesmo, mas sem nunca fugir ao realismo tão seu e do qual foi um dos pioneiros no Brasil.

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Terceiro ocupante da Cadeira 20 da ABL, eleito em 30 de outubro de 1919, na sucessão de Emílio de Menezes e recebido pelo Acadêmico Luís Murat em 8 de maio de 1920. Humberto de Campos (H. de C. Veras), jornalista, crítico, contista e memorialista, nasceu em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de outubro de 1886, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de dezembro de 1934.

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domingo, 5 de julho de 2020

AMAI O AMOR QUE NÃO É AMADO – Marília Benício dos Santos

      
   
  4 de outubro, dia de São Francisco.

            Tenho grande admiração por São Francisco. Foi a primeira imagem que entrou em minha casa. Meu pai era espírita. E, como bom espírita, coerente com suas ideias, não possuía imagens em casa. Eu, quando despertei para a minha responsabilidade de católica, achei que deveria cuidar da conversão dele. E, como protetor escolhi São Francisco, pois o meu pai se chamava Francisco. Comprei uma pequenina imagem e coloquei no meu quarto. Rezava muito pedindo a São Francisco não só por meu pai, mas também pelos meus irmãos. Mas o melhor é que procurei conhecer a vida desse santo. Ninguém ama aquilo que não conhece. Através das leituras fiquei conhecendo Francisco e me apaixonando por ele. A sua vivência de pobreza e o seu amor pelo Cristo me empolgavam. Como invejava Santa Clara por ter conhecido São Francisco, por ter sido sua seguidora! Muitas vezes penso: “como gostaria de ter um Francisco em minha vida!” Como sinto falta! Às vezes, Afonso faz-me lembrar São Francisco. Converso muito com ele. Vamos até o arpoador conversando. Fazemos verdadeiras reflexões. Cada qual conta suas experiências com o Pai. É tão bom!

            Hoje, olhando o mar, o sol e os homens que correm para gozar destas delícias, mas não se lembram de seu Autor, daquele que não se cansa de manifestar o seu amor por eles, lembro-me de São Francisco. “Amai o Amor que não é amado”. Este amor que está dentro de cada um de nós precisando apenas de nossa disposição.

            Na minha juventude, queria fazer milhões de coisas ao mesmo tempo: visitava os pobres, ensinava o catecismo, tinha reuniões e mais reuniões. Vivia sufocada e mamãe, com muita razão dizia: “Menina, você quer abarcar o mundo sozinha”.

            Hoje, quero, sim, abraçar o mundo, mas como os meus braços são pequenos, quero uni-los aos de meus irmãos e formar uma grande cadeia por onde circule o Amor e assim realizar o que São Francisco pregou: “Amai o Amor que não é amado”.


(ARCO-ÍRIS)
Marília Benício dos Santos

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (191)

14º Domingo do Tempo Comum, 05/07/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 11,25-30)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.  Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

 — Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:

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“...porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós” (Mt 11,29) 

Inútil discutir e dar voltas: o distanciamento social veio e começou a fazer parte do nosso ritmo cotidiano; não nos resta outro remédio a não ser tomar medidas para aprender a manejá-lo e a incorporá-lo em nossa vida da maneira menos danosa possível.

De fato, seus perigos são evidentes: o distanciamento físico (“que só se aproximem até um metro”), pode gerar o distanciamento social (“que não me venham com mais problemas, porque já tenho os meus”) e desembocar no distanciamento emocional (“olho ao meu redor e sinto as pessoas como uma ameaça”).
O evangelho deste domingo pode nos oferecer uma inspiração neste momento dramático que vivemos.

Jesus nos revela que toda manifestação de distanciamento (sanitário, físico, social, religioso, cultural, político...) pode ser quebrado a partir do coração. Toda proximidade com o outro começa pelo coração. Nesse sentido, encontramos uma pérola de grande valor naquilo que o evangelista Mateus nos des-vela: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” .

Ao se apresentar como referência para os seus discípulos - “aprendam de mim!”- , Jesus frisou duas atitudes pelas quais pautava a sua vida: a mansidão e a humildade. Elas são o reflexo das bem-aventuranças que Ele sempre deixou transparecer no encontro com os outros.

É do coração que brotam a mansidão e a humildade, únicos remédios que substituem a expressão do afeto e a cordialidade manifestada por via táctil (dar as mãos, abraçar...). Mesmo quando a situação impede que mãos e braços se encontrem, os corações se abraçam. 

Este “tempo de confinamento” está nos fazendo tomar consciência de nossas debilidades, quebrando toda pretensão de auto-suficiência e de soberba; ao mesmo tempo, está nos fazendo experimentar que não somos donos de nossos estados de ânimo e que precisamos dedicar tempos ao descanso e à gratuidade.
Vivemos em meio à cultura da produtividade, da competição, da eficiência, e isso nos deixa cansados, raivosos, angustiados e tristes, sem um motivo aparente e sem poder encontrar uma solução para isso.  Constatamos que nossa fragilidade carrega em si a necessidade de sair, de passar tempos distendidos, de reaprender a estar com os outros, de oxigenar nossa vida em meio a tantos venenos que nos asfixiam...

humildade e a mansidão do coração nos trazem para o chão da vida e nos possibilitam viver com mais humanidade. E estas duas virtudes estão disponíveis, em abundância, no nosso interior. Basta abrir espaços para elas e o nosso cotidiano adquirirá novo sabor e calor.

É suave a condição humana quando, em vez de ocultar nossa debilidade, descobrimos com assombro que é ela que nos conduz pela mão a nos aproximar calorosamente dos demais. Quando vivemos a debilidade de forma agradecida, é mais fácil perdoar que condenar, compreender que murmurar, aceitar que julgar.

A debilidade humana descansa nas mãos de Deus. Talvez seja esta a aprendizagem principal de nossa vida, pois a temos saboreado internamente. Só assim poderemos oferecer, também nós, um lugar acessível de repouso para os cansaços e fragilidades dos outros.

“Descansar” não é a outra face da ação de trabalhar; é participar, ter parte, na vida mesma de Deus, onde ação e repouso coincidem numa única pulsação, num único movimento de segurança e de felicidade, de consentimento e de abandono, nessa Presença Humilde que flui dentro de nós, nos atrai e nos conduz com suavidade. O decisivo é ir ao seu encontro e deixar-nos aliviar, para aprender d’Ele a sermos mais humanos.

Se vivemos só em chave de mandamentos, de doutrinas, de normas..., comeremos pão de fadigas e sentimento de culpa; se vivemos em chave de bem-aventuranças, certamente poderemos caminhar aliviados, porque o peso e a fecundidade da vida estão apoiados em Outro e não dependem só de nós.

Nesse sentido, as bem-aventuranças da humildade e a mansidão são o terreno sólido sobre o qual podemos assentar nossa vida e ativar todas as potencialidades humanas que nos habitam.

“Humildade” vem de húmus, chão, barro. Ela está vinculada ao amor à verdade e a ele se submete.  Ser humilde é amar a verdade mais que a si mesmo. “Humildade é andar na verdade” (S. Teresa).

“Onde está a humildade, está também a caridade” (S. Agostinho). É que a humildade leva ao amor, e todo amor verdadeiro a supõe; sem a humildade, o ego ocupa o espaço disponível, e só vê o outro como objeto ou como inimigo. A humildade nos conduz à pura gratuidade do amor desinteressado.

Por outro lado, aqueles que vivem sob o impulso da mansidão, não rejeitam nada, não exigem nada. Estão abertos às surpresas da vida, vão interiorizando as contrariedades de cada dia e ampliando um espaço no próprio interior, onde acolher a realidade e reafirmá-la; revelam um coração que cria e alimenta proximidades com todos, porque pulsa no ritmo do coração do outro, fisicamente presente ou distante.

A mansidão se assemelha a um sentimento de não-violência ativa, a “essa capacidade passiva de recepção que se encontra no fundo da estrutura da pessoa” (Edith Stein).

Mansidão não é debilidade, mas força suavizada; ela não é a atitude medíocre daqueles que se sentem anulados pela presença violenta do outro. É força que não provém da violência externa, mas de uma transformação interna. Por isso, o manso pode realizar ações impossíveis a quem é violento e sentir-se bem-aventurado e feliz, uma vez que tem esperança de conquistar o coração dos outros e se encontra entre os que herdarão a “terra prometida” do coração de Deus.

A mansidão cristã, reflexo daquela de Jesus, é plena de força. Suavidade e força que recorda o modo “suave-forte” divino de agir. Trata-se daquela harmonia conquistada pelo ser humano que alcançou seu centro mais profundo e ali encontra o dom da liberdade. A mansidão é o estado interior a ser alcançado pelos corações dos homens e mulheres livres.

Nessa ótica, de fato, quando perdemos a mansidão, vemos nossa liberdade diminuída. Entramos na lógica do revide e a emoção indomada preside nossas ações. 

Vivemos em um mundo onde imperam a prepotência, a agressividade, a vingança, o ataque e o desafio preventivo, o amedrontamento, a extorsão e a imposição violenta como meios habituais para conseguir os fins que se pretendem. Esta mesma estratégia de morte é utilizada em diferentes ambientes, tanto civis como religiosos, políticos como econômicos, entre pessoas e entre grupos ou nações.

Com isso, a vida e as relações se convertem num campo de batalha contínua, como se fosse uma manada de lobos disputando o cordeiro.

Como seguidores(as) d’Aquele que é o humilde artífice da paz, testemunhamos e profetizamos que a mansidão é o verdadeiro rosto da Igreja.

Não é por acaso que muitas pessoas que lutaram em favor da justiça, pagando com a própria vida, tenham essa característica comum: a mansidão (Gandhi, Luther King, Dom Romero...). São descritos como indivíduos mansos e humildes, amáveis e de agir discreto, abertos ao diálogo e à acolhida do outro, pacientes e simples. E, exatamente por isso, dotados de uma força diferente e, sobretudo, muito eficaz.

Bem-aventurados os humildes e os mansos! Graças a eles o mal, na terra, pode se transformar em bem!


Texto bíblico:  Mt 11,25-30

Na oração: De onde brotam a mansidão e a humildade? Como ativá-las e fazê-las crescer? Ninguém pode improvisá-las. A raiz última da mansidão-humildade é contemplativa. Nasce em um clima de oração, numa proximidade íntima que faz o nosso coração pulsar no mesmo movimento do Coração com-passivo de Deus. Desse encontro, de coração a Coração, emergem das profundezas de nosso ser estes dinamismos mais humanos e mais divinos. A partir da fonte original, a mansidão e a humildade vão se expandindo na direção dos outros, alimentando novas relações, acolhendo o diferente, vibrando com o bem presente no outro...

- No ritmo de sua vida, o que mais se faz visível: mansidão e humildade? Ego inflado e soberba? Agradecimento assombrado ou ingratidão venenosa? Suavidade divina ou prepotência que petrifica?...

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 4 de julho de 2020

O DELÍRIO – Machado de Assis

Que me conste, ainda ninguém relatou o seu próprio delírio; faço-o eu, e a ciência mo agradecerá. Se o leitor não é dado à contemplação destes fenômenos mentais, pode saltar o capítulo; vá direito à narração. Mas, por menos curioso que seja, sempre lhe digo que é interessante saber o que se passou na minha cabeça durante uns vinte a trinta minutos.

Primeiramente, tomei a figura de um barbeiro chinês, bojudo, destro, escanhoando um mandarim, que me pagava o trabalho com beliscões e confeitos: caprichos de mandarim.

Logo depois, senti-me transformado na Suma Teológica de São Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; ideia esta que me deu ao corpo a mais completa imobilidade; e ainda agora me lembra que, sendo as minhas mãos os fechos do livro, e cruzando-as eu sobre o ventre, alguém as descruzava (Virgília decerto), porque a atitude lhe dava a imagem de um defunto.

Ultimamente, restituído à forma humana, vi chegar um hipopótamo, que me arrebatou. Deixei-me ir, calado, não sei se por medo ou confiança; mas, dentro em pouco, a carreira de tal modo se tornou vertiginosa, que me atrevi a interrogá-lo, e com alguma arte lhe disse que a viagem me parecia sem destino.

    — Engana-se, replicou o animal, nós vamos à origem dos séculos. Insinuei que deveria ser muitíssimo longe; mas o hipopótamo não me entendeu ou não me ouviu, se é que não fingiu uma dessas coisas; e, perguntando-lhe, visto que ele falava, se era descendente do cavalo de Aquiles ou da asna de Balaão, retorquiu-me com um gesto peculiar a estes dois quadrúpedes: abanou as orelhas. Pela minha parte fechei os olhos e deixei-me ir à ventura. Já agora não se me dá de confessar que sentia umas tais ou quais cócegas de curiosidade, por saber onde ficava a origem dos séculos, se era tão misteriosa como a origem do Nilo, e sobretudo se valia alguma coisa mais ou menos do que a consumação dos mesmos séculos: reflexões de cérebro enfermo. Como ia de olhos fechados, não via o caminho; lembra-me só que a sensação de frio aumentava com a jornada, e que chegou uma ocasião em que me pareceu entrar na região dos gelos eternos. Com efeito, abri os olhos e vi que o meu animal galopava numa planície branca de neve, e vários animais grandes e de neve. Tudo neve; chegava a gelar-nos um sol de neve. Tentei falar, mas apenas pude grunhir esta pergunta ansiosa:

    — Onde estamos?

    — Já passamos o Éden.

    — Bem; paremos na tenda de Abraão.

    — Mas se nós caminhamos para trás! redarguiu motejando a minha cavalgadura.

Fiquei vexado e aturdido. A jornada entrou e parecer-me enfadonha e extravagante, o frio incômodo, a condução violenta, e o resultado impalpável. E depois — cogitações do enfermo — dado que chegássemos ao fim indicado, não era impossível que os séculos, irritados com lhes devassarem a origem, me esmagassem entre as unhas, que deviam ser tão seculares como eles. Enquanto assim pensava, íamos devorando caminho, e a planície voava debaixo dos nossos pés, até que o animal estacou, e pude olhar mais tranquilamente em torno de mim. Olhar somente; nada vi, além da imensa brancura da neve, que desta vez invadira o próprio céu, até ali azul. Talvez, a espaços, me parecia uma ou outra planta, enorme, brutesca, meneando ao vento as suas largas folhas. O silêncio daquela região era igual ao do sepulcro: dissera-se que a vida das coisas ficara estúpida diante do homem.

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Tudo nessa figura tinha a vastidão das formas selváticas, e tudo escapava à compreensão do olhar humano, porque os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era muita vez diáfano. Estupefato, não disse nada, não cheguei sequer a soltar um grito; mas, ao cabo de algum tempo, que foi breve, perguntei quem era e como se chamava: curiosidade de delírio. 

    — Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga.

Ao ouvir esta última palavra, recuei um pouco, tomado de susto. A figura soltou uma gargalhada, que produziu em torno de nós o efeito de um tufão; as plantas torceram-se e um longo gemido quebrou a mudez das coisas externas.

    — Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives; não quero outro flagelo.

    — Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência.

    — Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver.

Dizendo isto, a visão estendeu o braço, segurou-me pelos cabelos e levantou-me ao ar, como se fora uma pluma. Só então pude ver-lhe de perto o rosto, que era enorme. Nada mais quieto; nenhuma contorção violenta, nenhuma expressão de ódio ou ferocidade; a feição única, geral, completa, era a da impassibilidade egoísta, a da eterna surdez, a da vontade imóvel. Raivas, se as tinha, ficavam encerradas no coração. Ao mesmo tempo, nesse rosto de expressão glacial, havia um ar de juventude, mescla de força e viço, diante do qual me sentia eu o mais débil e decrépito dos seres.

    — Entendeste-me? disse ela, no fim de algum tempo de mútua contemplação.

    — Não, respondi; nem quero entender-te; tu és absurda, tu és uma fábula. Estou sonhando, decerto, ou, se é verdade, que enlouqueci, tu não passas de uma concepção de alienado, isto é, uma coisa vã, que a razão ausente não pode reger nem palpar. Natureza, tu? a Natureza que eu conheço é só mãe e não inimiga; não faz da vida um flagelo, nem, como tu, traz esse rosto indiferente, como o sepulcro. E por que Pandora?

    — Porque levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?

    — Sim; o teu olhar fascina-me.

    — Creio; eu não sou somente a vida; sou também a morte, e tu estás prestes a devolver-me o que te emprestei. Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada.

Quando esta palavra ecoou, como um trovão, naquele imenso vale, afigurou-se-me que era o último som que chegava a meus ouvidos; pareceu-me sentir a decomposição súbita de mim mesmo. Então, encarei-a com olhos súplices, e pedi mais alguns anos.

    — Pobre minuto! exclamou. Para que queres tu mais alguns instantes de vida? Para devorar e seres devorado depois? Não estás farto do espetáculo e da luta? Conheces de sobejo tudo o que eu te deparei menos torpe ou menos aflitivo: o alvor do dia, a melancolia da tarde, a quietação da noite, os aspectos da Terra, o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos. Que mais queres tu, sublime idiota?

    — Viver somente, não te peço mais nada. Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu? e, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

    — Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jucundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste. Egoísmo, dizes tu? Sim, egoísmo, não tenho outra lei. Egoísmo, conservação. A onça mata o novilho porque o raciocínio da onça é que ela deve viver, e se o novilho é tenro tanto melhor: eis o estatuto universal. Sobe e olha.

Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos Impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim,— flagelos e delícias, — desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura, — nada menos que a quimera da felicidade, — ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de angústia, que Natureza ou Pandora escutou sem protestar nem rir; e não sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, — de um riso descompassado e idiota.

    — Tens razão, disse eu, a coisa é divertida e vale a pena, — talvez monótona — mas vale a pena. Quando Jó amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de ver cá de cima o espetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digere-me; a coisa é divertida, mas digere-me.

A resposta foi compelir-me fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às gerações, umas tristes, como os Hebreus do cativeiro, outras alegres, como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura. Quis fugir, mas uma força misteriosa me retinha os pés; então disse comigo: — “Bem, os séculos vão passando, chegará o meu, e passará também, até o último, que me dará a decifração da eternidade.” E fixei os olhos, e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranquilo e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; cada um deles rebentavam as verduras de uma primavera, e amareleciam depois, para remoçar mais tarde. Ao passo que a vida tinha assim uma regularidade de calendário, fazia-se a história e a civilização, e o homem, nu e desarmado, armava-se e vestia-se, construía o tugúrio e o palácio, a rude aldeia e Tebas de cem portas, criava a ciência, que perscruta, e a arte que enleva, fazia-se orador, mecânico, filósofo, corria a face do globo, descia ao ventre da Terra, subia à esfera das nuvens, colaborando assim na obra misteriosa, com que entretinha a necessidade da vida e a melancolia do desamparo. Meu olhar, enfarado e distraído, viu enfim chegar o século presente, e atrás deles os futuros. Aquele vinha ágil, destro, vibrante, cheio de si, um pouco difuso, audaz, sabedor, mas ao cabo tão miserável como os primeiros, e assim passou e assim passaram os outros, com a mesma rapidez e igual monotonia. Redobrei de atenção; fitei a vista; ia enfim ver o último, — o último!; mas então já a rapidez da marcha era tal, que escapava a toda a compreensão; ao pé dela o relâmpago seria um século. Talvez por isso entraram os objetos a trocarem-se; uns cresceram, outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo, — menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...

 (Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881)

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Fonte: ABL http://www.academia.org.br/academicos/machado-de-assis/textos-escolhidos

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sexta-feira, 3 de julho de 2020

O VÍRUS DA REVOLUÇÃO MATA O CORPO E A ALMA

2 de julho de 2020
Carlos Vitor Santos Valiense

Uma notícia muito chocante viralizou na internet: um homem, durante uma discussão, foi morto pelo gerente de um supermercado por ter-se negado a usar máscara.*

Não narrarei o fato em seus mínimos detalhes, mas apenas o foco principal: “a briga por causa de uma máscara resultou em uma morte”.

Apesar de essa notícia ainda ser considerada chocante para muita gente, a coisa está ficando diferente. Aquele rapaz, aquela mocinha que luta pela “democracia” publicou foto com os dizeres: “sou estudante e antifascista”; “sou mulher e antifascista”; “sou isso, aquilo, aquilo outro e sou antifascista”. Esses mesmos, por sua vez, dizem: “esse aí, sem mascara, mereceu morrer, ele ia contaminar o supermercado inteiro, colocou em risco a coletividade; fascista, merece morrer!
Atira nele, pouuu!”. Isso é sinistro.

Acredito que a Revolução conseguiu em três meses colocar literalmente o mundo em uma maca de hospital, na maior crise sanitária dos últimos tempos, a qual, ainda pior, afetou as almas, como veremos adiante.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, falando em uma reunião no dia 8 de novembro de 1971 sobre “Epidemias comunistas”, fez a seguinte suposição: “Se alguém conseguisse provar — o que, aliás, não é verdade, mas se houvesse uma prova disso — que o comunismo espalha epidemias, o partido comunista ficava reduzido a zero, porque toca num dos ídolos, que é a saúde.” Em tempos de coronavírus essa suposição é prenhe de verossimilhança.

A crise causada pelo Comunavírus não só colocou a população em uma prisão domiciliar, mas levou os sacramentos católicos de volta às catacumbas.

Presenciamos hoje, da pior forma possível, algo que nos seria dado conhecer somente através dos livros que narram a história dos mártires dos primeiros séculos. Os católicos que enfrentavam então as arenas, que eram mortos pelos leões, queimados vivos e esquartejados, ficariam hoje trancados em suas casas, porque o valor supremo passou a ser a vida.

O martírio, então, nem se diga. Segundo a esquerda dita católica, já existem muitos mártires: mártires sem-terra, mártires das favelas, mártires LGBT, mártires das calçadas etc. Esses seriam os verdadeiros mártires que importam nos tempos de fascismo.

Sacramentos? Para quê? “Somos uma igreja doméstica, o sonho do pontificado de João Paulo II está se realizando”, dirá uma freira comunista. Missa pela internet, catequese por live, comunhão na sacolinha, confissão por videoconferência ou no estilo protestante, “confesse-se diretamente com Deus”. Água benta? Nem pensar, álcool gel, já!

Quantos mortos sem os sacramentos? Já pararam para pensar? Quantos ficaram sem a assistência da Igreja no seu momento crucial, naquele momento para o qual rezamos na Ave Maria: “rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte”.

Já pararam para pensar? A crise não é somente sanitária, é um reflexo de uma crise muito maior, é uma crise de fé. Os ministros de Deus são impedidos de realizar o seu oficio sagrado não somente pelas autoridades civis; impedem-nos — por exemplo, de reabrir as igrejas — as próprias autoridades eclesiásticas… em nome da vida.

O Prof. Plinio também dizia: “Quando a cúpula de São Pedro balança, o mundo também balança”, ou seja, a crise na sociedade é um reflexo da crise na Igreja.

Esta pandemia do vírus chinês está mostrando ao mundo não apenas o poder e a protuberância da Revolução, mas também sua notória influência sobre a estrutura eclesiástica. Está mostrando que a Revolução mata não apenas o corpo, mas também a alma.

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