Total de visualizações de página

sexta-feira, 26 de junho de 2020

DESEJO DO SUBLIME RECONDUZ A ALMA AO CRIADOR - João Carlos Leal da Costa

26 de junho de 2020

João Carlos Leal da Costa


Sempre foi razão de conflito entre os homens a perpétua luta entre o desejo de liberdade individual e as normas religiosas, que parecem circunscrever essa liberdade. Esse conflito nasce do aparente desejo de transformar o ser humano num joguete sem livre iniciativa, o que seria contrário à natureza humana racional. Na aparência, o homem se transformaria assim num boneco nas mãos de um “deus” déspota e inacessível. Mas a realidade é bem outra, pois Deus criou o Universo como uma imagem de Si mesmo, e o homem, síntese dessa imagem, une o espiritual e o material. Ao mesmo tempo Deus colocou no fundo da alma humana as regras fundamentais da lógica e a noção da diferença entre o bem e o mal.

A fundamental noção de diferença entre o bem e o mal pôde ser comprovada cientificamente alguns anos atrás, pela doutora Karen Wynn, especialista em psicologia infantil da Universidade de Denver, no Colorado (EUA). Ela fez experiências com crianças de apenas três a oito meses, tentando verificar se elas reconheciam, num puppet show (teatrinho de bonecos), qual era o personagem bom e qual era o mau. Surpreendentemente, mais de 80% das crianças acertaram na escolha.

A carruagem de ouro do príncipe Joseph Wenzel I de Liechtenstein (Salão térreo do Museu Liechtenstein)

Isso confirma a teoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, de que todo ser humano nasce com o que ele chamou de “inocência”, isto é, uma aptidão inata para reconhecer os reflexos de Deus na criação, e de modo especial naquilo que o cerca: “No espírito humano as regras básicas da lógica são subconscientes. A lógica, enquanto disciplina, apenas explicita essas regras para o homem. Se ele não tivesse essas regras invisceradas, como coisas conaturais a seu espírito, seria um louco”.

A “inocência” da pessoa leva-a a perceber aos poucos que o universo é ordenado, e que essa ordem universal se coaduna com sua ordem interna. Na Epístola aos Romanos, São Paulo ensina que as perfeições invisíveis de Deus se tornaram visíveis após a criação do mundo, pela compreensão das coisas criadas (cfr. Rom. 1, 20). Eis um ensinamento extremamente importante, porque o comportamento humano reto, racional, tem que corresponder a essa ordem universal e à sua própria ordem interna.

Uma tradição de mais de mil anos na Mongólia: 
criação de águias reais

São Tomás de Aquino explica que o homem está situado em um nível entre o reino angélico e o reino animal, isto é, entre a esfera espiritual e a esfera física. Em outras palavras, Deus concebeu o ser humano como um microcosmo que contém em si, ao mesmo tempo, espiritualidade e materialidade. Existe portanto um macrocosmo (o universo) e um microcosmo (o homem). Macrocosmo e microcosmo são palavras de origem grega, onde macro e micro significam grande e pequeno, respectivamente, e kósmos significa o mundo ordenado. Não significa apenas que é ordenada a totalidade do universo, mas também que este é ordenado com harmonia e equilíbrio.

Portanto, aproximando as palavras macrocosmo e microcosmo entendemos que há uma semelhança de padrão, natureza ou estrutura entre os seres humanos e o universo. Essa similitude entre o macrocosmo e o microcosmo mostra que, para sobreviver, a sociedade humana não somente deve se reger por certas normas pré-estabelecidas por Deus no Universo, mas que esta é a única forma de se obter, depois do pecado original, o grau possível de felicidade nesta vida, uma vez que o homem nasce com essas normas dentro de si.

Muitos se desencaminham por achar que a liberdade humana está acima das normas morais que regem a ordem do Universo. Mas essa correlação foi posta por Deus, que premia já nesta Terra, e depois no Céu, a obediência a esses princípios.

Menino extasiado com a Coroa imperial inglesa. Feita de ouro, platina e prata, ela é ornada com diamantes, rubis, esmeraldas, safiras, espinélio, pérolas, veludo e arminho

No livro Revolução e Contra-Revolução, Plinio Corrêa de Oliveira mostra que o demônio não poderia deixar as coisas como Deus as quer, e engendrou então um processo de corrosão da sociedade estabelecida com base nos princípios católicos. Esse processo vem, desde o final da Idade Média, tentando evitar que se realize na sociedade o reconhecimento da correspondência entre o macrocosmo e o microcosmo. Com isso ele procura impedir que o homem conheça e admire o seu microcosmo, e que admire também o macrocosmo, ambos criados por Deus. Pois se ele o faz, aproxima-se de Deus, preparando sua alma para o Céu, e isso o demônio não quer.

Muitos aspectos da sociedade moderna encaminham os homens ao contrário disso. Por exemplo, a mentalidade pragmática do “vale quem produz” afastou a ideia de um Ser criador, interessado em devolver-lhes o “controle sobre si mesmos”; e assim minguou neles a capacidade de considerar a sua existência segundo a perspectiva do macrocosmo.

John Horvat, vice-presidente da TFP norte-americana, escreveu sobre este assunto o livro Return to Order (Retorno à Ordem), no qual mostra como escapar das garras dessa sociedade baseada apenas no materialismo produtivista e na intemperança frenética do ganhar, ganhar, ganhar, que é oposta aos altos ideais medievais.

Segundo Horvat, uma nova visão da vida se torna necessária. Isso pode ser feito se nos voltarmos para a fonte de cultura cristã, da qual a civilização ocidental nasceu. Nessa fonte a sociedade tem uma perspectiva vertical. As pessoas são atraídas para cima, para um único ponto, do mesmo modo como as linhas de uma torre de catedral medieval conduzem os olhares para cima, para o cume da agulha onde está a Cruz.

Essa fonte acende no homem um desejo espontâneo de plenitude, voltado ao sublime, que a sociedade bafejada pelo demônio não pode satisfazer. O sublime consiste exatamente naquelas coisas de excelência transcendente, que constituíram a base da civilização medieval inspirada pela Igreja. Uma sociedade baseada no desejo do sublime será muito melhor, espiritual e materialmente, e só numa sociedade assim se pode encontrar a solução para a crise moderna.



  * * *

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O SILÊNCIO É A VOZ DAS DITADURAS - Percival Puggina

23.06.2020

Quer dizer, senhores ministros, senhores congressistas, senhores da imprensa, que democrático, no seu ponto de vista, é o mal nascido e mal criado “Inquérito do fim do mundo”, ilimitado nos objetivos e raivoso na condução, sem limites, sem borda e sem tampa?

Quer dizer que democrático é o explosivo coquetel ideológico dos grupos Antifa, só porque proclamam, contra os fatos e a história, ser “pela democracia”, apesar de justificarem a violência que habitualmente praticam?

Quer dizer que democrático é o senador Davi Alcolumbre, com conivência da Casa que preside, sentar-se sobre os insistentes pedidos de impeachment contra ministros do STF? Será por democrática simetria que um terço dos senadores é investigado ou responde ação penal no STF em processos que se arrastam a passos de jabuti, enquanto o inquérito das fake news, que interessa particularmente ao STF, anda a galope?

Quer dizer que usar a mão pesada do Judiciário para inibir as manifestações populares de desagrado com a conduta belicosa do STF é conduta democrática?

Quer dizer que o ministro Celso de Mello se credencia como magistrado guardião da democracia e do equilíbrio quando compara o Brasil à Alemanha de Hitler e afirma que bolsonaristas “odeiam a democracia" e pretendem instaurar uma "desprezível e abjeta ditadura"?

Quer dizer que democrático é o silêncio das ruas bloqueadas para evitar manifestações populares diante de um Congresso Nacional omisso, surdo aos legítimos anseios expressos nas urnas de 2018?

Quer dizer que é antidemocrático apontar a chantagem com que parlamentares de má fama constrangem o governo?

Quer dizer que é antidemocrática a inconformidade popular com o fato de o Congresso, em um ano e meio, não haver votado a PEC que permite a prisão após a condenação em segunda instância? Será, então, democrático desatender a esse clamor pelo fim da impunidade determinada por uma preceito que só agrada bandidos e seus advogados?

Será democrático o STF quando, em eloquentes votos, rejeita o ideário conservador e liberal que venceu a eleição presidencial?

Será democrático o STF preservar a mentalidade política e as posições ideológicas próprias da era Lula, quando a maioria da nação já lhe disse não nas urnas?

Serão democráticos, por fim, o doce e dolente sossego dos poderosos, o monótono papaguear da grande imprensa, embalados pelo silêncio da sociedade? Mas não é esse desejado silêncio a própria voz das ditaduras?

_______________________________
* Percival Puggina (75), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+.


* * *

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O MAGNIFICAT E O ÍCONE DO PERPÉTUO SOCORRO POR PE. JOSÉ GRZYWACZ, C.SS.R.

 EM ARTIGOS 22 JUN 2020 - 16H00
 Thiago Leon

No contexto do XVIII Congresso Eucarístico Nacional 2020, com o tema: “Pão em todas as mesas” e do Jubileu dos 100 anos da Novena Perpétua, apresento essa contribuição: “A centralidade do Filho e a importância da Mãe”: Meditações comparativas entre o Magnificat de Maria e o ícone de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (NSPS).

 (I) Comparação geral

O Magnificat e o ícone do Perpétuo Socorro

O Magnificat é chamado de perfume do Evangelho, prelúdio das Bem Aventuranças, modelo de catequese, exemplo da oração, resumo das Sagrada Escritura, cântico revolucionário, o hino de Maria, cântico da Virgem de Nazaré, o salmo novo, o poema de Maria, o cântico profético, o cântico sagrado. O ícone do Perpétuo Socorro é chamado de venerável, sacrossanto, venerado, sagrado, dourado, belo, ícone do amor, ícone da Redenção, ícone do Magnificat, o resumo da Mariologia.

LEIA MAIS

O ícone é o Evangelho pintado,
O ícone é uma teologia visual,
O ícone “respira” oração,
O ícone é uma sarça ardente.

2. O trecho bíblico mariano mais longo e mais conhecido é o Magnificat - o cântico de Maria. A invocação e o quadro (ícone) mariano mais conhecido do mundo é o de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

3. O Magnificat é um mosaico feito de retalhos das citações bíblicas. É um modelo de oração cristã e de catequese. O ícone do Perpétuo Socorro é uma pintura oriental feita de cores, gestos, letras e símbolos cheios de significado tornando-se uma catequese da redenção e o resumo de Mariologia. O ícone é uma representação de um mistério, e uma forma pedagógica, uma pregação, não por palavras, mas pelo uso da imagem.

4. O Magnificat é um exemplo da relação adequada da criatura para com o Criador. A Bem-Aventurada, a serva do Senhor reconhece as grandes coisas que o Senhor fez. O ícone do Perpétuo Socorro é uma síntese dos maiores mistérios da fé: a Encarnação; a Redenção e a Ressurreição. A relação entre o filho, a Mãe e os arcanjos.

5. No centro do Magnificat não está Maria, mas Deus Todo poderoso, o Salvador. No centro do ícone do Perpétuo Socorro não está Maria, mas Jesus, o nosso perpétuo Socorro, o Redentor. Maria contempla tudo com o olhar divino.

6. No MagnificatMaria canta as maravilhas de Deus, enche-se de júbilo e louvor. No belo ícone do Perpétuo Socorro, vemos Maria em silêncio, seus lábios estão cerrados.

7. No Magnificat, Maria é obediente à voz do arcanjo“Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” No ícone, Maria nos fala, mas por meio de sinais evidentes e bem expressivos e nos entrega o seu Filho.


LEIA MAIS

Nós devemos passar:
da "mariologia doutrinal” para a 
“mariologia do coração”
e para a “mariologia da ação e da 
missão”.

Thiago Leon


(II) Comparação parte por parte

1. “Minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito exulta em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46-47). Frente ao insondável mistério da sua maternidade divina, Maria prorrompe num canto de alegria e de vitória, de esperança e de amor, de gratidão e de reconhecimento. A alegria envolve todo o ícone de NSPS. Este é o significado do dourado que envolve a imagem da Virgem e do seu Divino Filho. Maria traz em seu seio o Céu, o Messias, o Esperado de Israel, aquele que é a luz e a esperança das nações, o Amado, o Esposo da Humanidade, eis o motivo de sua alegria, e ela é infinita.

2. “Deus olhou para a humilhação de sua serva”, e fez de Maria a Mãe do Salvador (Lc 1,48). A serva do Senhor, agora na Glória, olha e acompanha a todos que a olham. O gesto de tirar as sandálias é a expressão da humildade.

3. “Doravante as gerações todas me chamarão de bem-aventurada” (Lc 1, 48). A profecia de Maria como o fundamento do culto mariano. O ícone do Perpétuo Socorro obedece à profecia do Magnificat apresenta as maravilhas feitas por Deus na vida da jovem virgem de Nazaré. O culto mariano presente durante os séculos: especialmente através da Novena Perpétua.

LEIA MAIS

4. “O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo e sua misericórdia perdura de geração em geração para aqueles que o temem” (Lc 1, 49-50). Jesus, Deus salva (este é o significado do seu nome) o seu povo, “socorre Israel, seu servo, lembrado de sua misericórdia”.

A misericórdia de Deus que é simbolizada no ícone por meio dos sinais da Paixão apresentados pelos arcanjos Miguel e Gabriel ao Menino-Deus, posicionados à esquerda e à direita do quadro, respectivamente. Por meio do seu sofrimento redentor, Jesus manifesta a misericórdia divina cantada por Maria no seu hino profético.

5. “Demostrou o poder de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso” (Lc 1, 51). No ícone, vemos Maria segurar a mão direita do Menino Jesus. Na Bíblia, a destra de Deus manifesta o seu poder e a sua justiça. Ao sustentar a mão direita de Deus, Maria apresenta-se como a Mãe da Misericórdia, a Medianeira de todas as graças, a serva humilde que é capaz de interceder por todos os homens. “Derrubou os poderosos de seus tronos, e a humildes exaltou. Cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias” (Lc 1, 52-53). No ícone, vemos ambas as mãos de Jesus apoiadas nas mãos de Maria, manifestando confiança total em sua Mãe. Também as mãos de Maria estão ocupadas em amparar seu Divino Filho. No ícone de NSPS, vemos Maria cumulada de todos os bens porque em suas mãos traz Aquele que é o Sumo Bem.

6. "Socorreu a Israel seu servidor como prometera a Abraão e seus filhos para sempre". (Lc 1, 54-55). É o cântico dos séculos. Deus Pai com o coração de mãe cumpre as suas promessas. O Proto-evangelho - Gn 3,15 - se cumpre Naquele que é o mesmo: ontem, hoje e será para sempre. Deus é Pai das misericórdias e rico em misericórdia. Maria imita a misericórdia do Pai.

* Esse texto faz parte do livro “Magnificat: o cântico revolucionário de Maria, a mãe de Jesus” a ser editado pela editora Paulus. Mais em www.mariologiapopular.blogspot.com


Fonte: Província Redentorista de Varsóvia (Polônia)



* * * 
   

terça-feira, 23 de junho de 2020

SIMPLICIDADE – Péricles Capanema

22 de junho de 2020

Péricles Capanema

oje passo ao lado do coronavírus, sem lhe virar as costas. Não subestimo a pandemia, pelo contrário; perdi amigos, de momento são dele vítimas, alguns com gravidade, gente que me é próxima, parentes; a vacina continua esperança, incógnita envolta nas brumas do futuro. O próximo vulnerado bem poderá ser eu, estou de cheio no grupo de risco, chances menores de escapar, chances maiores de ir a óbito ou de recuperação com sequelas. Como não se alarmar?

À vera desde semanas tenho reflexões sobre pontos da situação — política, moral, psicológica — criada pela pandemia; e quando as escrever, tentarei não divulgar meras repetições do que outros mais capacitados estão espalhando aqui e lá fora. Oferecer pratos requentados, mesmo nutritivos, nunca foi o mais atraente.

Preocupa-me ponto em especial, ainda hipótese chã, que poderia vir a ter relevância; até agora não li nenhuma alusão a ele. Fica para próximo artigo. Já advirto, conjeturas, uns poderão gostar, outros terão reservas. Paciência, ainda serão meras conjeturas, nada mais corriqueiro do que aceitá-las ou recusá-las. Por outro lado, despreocupa-me a possibilidade de levar chumbo, mesmo fogo amigo, de há muito virei boi do couro grosso.

O artigo de hoje, passando longe do vírus, repito, por surpreendente que possa parecer, surge da arrumação de gaveta bagunçada. Foi preciso jogar muita coisa fora, e a seguir ordenar com paciência, pelo menos minimamente, o que ficou. Na papelada encontrei esquecida preciosidade, pela foto e pelo texto: o cartão de Natal do Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, de 2013. Palavras de afeto e irresignação.

Dom Luiz é o Chefe da Casa Imperial do Brasil, todos sabem. O cartão comenta a foto da avó, a Princesa D. Maria Pia (foto acima), clicada aos 19 anos — ela nasceu em 1878. Natural, a figura saída da História evocou de plano a constatação, aquela moça poderia ter sido por longos anos a Imperatriz do Brasil. Como teria se desempenhado? Que marcas deixaria na sociedade e no governo? Na história do País?

Candura, esmero, elevação, foram impressões primeiras despertadas pela foto de uma quase menina vestida de branco, olhar penetrante, um leque pendente da mão direita. Fui invadido por outras impressões: seriedade, leveza, delicadeza, bom tom, simplicidade, qualidades que nobilitavam o ar aristocrático.

Borbotou incontenível o confronto. Explico-me. A vida pública do Brasil, não é de hoje, está empanzinada de cenas sórdidas, entulhada de gente desbotada (na mais benévola e parcial das qualificações), da qual boa parte a corrompe e avilta, estadeando arrogância, imoralidade e primarismo. Aí o senso patriótico gritou forte. Amargurou-me o contraste entre a chusma desordeira que observo entristecido e a figura serena de uma moça despretensiosa, a figura indicava, provavelmente com enorme capacidade de influir e formar pelo bom exemplo.

A simplicidade de D. Maria Pia, ar modesto e tão senhora, contrastava no meu espírito com o que vejo todos os dias, no mundo oficial e na vida privada: cabotinismo, pedantismo, deboche, petulância, grã-finismo. Em vez de tanto retrocesso e obscurantismo, poderíamos ter experimentado avanços civilizatórios, com grande benefício social, impossibilitados, dói a constatação, pela subserviência irrefletida a preconceitos deformantes.

Volto à Princesa. Não custa lembrar, a grande arte de governar está na exemplaridade; acessível a todos (e, sob outro ângulo, paradoxalmente, com grande impacto, a poucos; vale muito o que hoje em geral se denomina carisma). “Verba movent, exempla trahunt”, bons exemplos cintilam e arrastam. Maus exemplos afundam. Os “role models”, cujo estudo ocupa a tantos pesquisadores, têm enorme papel formativo, potencial para promover inclusão social e impedir dilacerações nacionais.

E então, de um lado, longe, lá no século XIX, esplendia na foto o conteúdo nobre expresso na postura fidalga, tudo bem preparado para vida pública altamente favorecedora do bem comum; de outro, junto a nós, pleno século XXI, entenebrecedor o fundo cavernoso manifestado nos esgares contrafeitos de um sem-número de figuras caricatas do Brasil contemporâneo, cada vez mais debilitado e manchado por nota de abjeção em sua vida pública. Pensei cá comigo, pobres de nós, merecemos esta (má) sorte? Terá Deus se esquecido de nós? Afastei o pensamento, o débito deve cair na nossa conta.

Adiante. O nome Maria Pia, familiar, em nada rescende ao postiço e rebuscado. A postura ereta e a mirada segura mostram afavelmente o que ela é. No texto enaltecedor de Dom Luiz (foto ao lado), elegante e simples, mareja a admiração pela avó, com quem conviveu, falecida 40 anos antes, em 1973. Evola das palavras a irresignação do neto, não aceita que vá se apagando injustamente a memória da avó, tão necessária à família e até à História. “Eu e meus irmãos tivemos o privilégio de estreito contato com Vovó. […] Em extensas caminhadas ou em longos serões, ela nos comunicava seu grande afeto, transmitindo a visão do mundo e os valores”. Educação pela palavra e pelo exemplo.

Recorda Dom Luiz: “Buscou ela identificar-se com o Brasil. Aqui esteve em 1922, por ocasião do centenário da Independência, acompanhada do filho mais velho, meu pai D. Pedro Henrique […]. Sua presença foi muito solicitada então, chegando a participar do lançamento da pedra fundamental do Cristo do Corcovado, monumento cuja edificação teve origem em um pedido da Princesa Isabel”.

Deixo, por fim, ainda algumas palavras de dom Luiz: “D. Maria Pia teve a honra de avistar-se pessoalmente com o Papa São Pio X, e conservou do encontro, com profunda veneração, uma foto dedicada do Pontífice, hoje em minhas mãos”. Bonita atitude filial de dois católicos, o neto e a avó, merece registro. Com esteio em ensinamentos de São Pio X, Dom Luiz, muito oportunamente, termina a saudação de Natal reiterando sua fidelidade à civilização cristã, que deseja ver fulgurando no Brasil.

Por que o título simples deste artigo, só com a palavra simplicidade? Reconheço, pode parecer estranho, pois haveria multidão de títulos a escolher. Fiquei com simplicidade, chamou-me a atenção na foto, mas teve ainda razão mais ampla, o conceito expressa a união harmônica de virtudes. Evoco o ensinamento do Doutor Angélico. Na Suma escreveu São Tomás de Aquino: “Em sentido contrário, Agostinho [santo] afirma: ‘Deus é verdadeira e sumamente simples’. […] Para nós, os compostos são melhores do que os simples, porque a perfeição da bondade da criatura não se encontra em um único simples, mas em muitos; ao passo que a perfeição da bondade divina se encontra em um único simples, como se verá (q. 4, a.2).”

Faz falta enorme para o progresso social (para o de cada um de nós também) o tipo de personalidade da qual D. Maria Pia foi grande exemplo. Dom Luiz tem razão: a avó não deve ser esquecida.




 * * *

segunda-feira, 22 de junho de 2020

O MATRIMÔNIO // OS FILHOS – Gibran Khalil Gibran



O Matrimônio 



           Então Amitra falou novamente e disse: “E que nos dizes do Matrimônio, mestre?”

            E ele respondeu, dizendo:

            “Vós nascestes juntos, e juntos permanecereis para todo o sempre.
            Juntos estareis quando as brancas asas da morte dissiparem vossos dias.
            Sim, juntos estareis até na memória silenciosa de Deus.
            Mas que haja espaços na vossa junção.
            E que os ventos do céu dancem entre vós.
            Amai-vos um ao outro, mas não façais do amor um grilhão:
            Que haja, antes, um mar ondulante entre as praias de vossa alma.
            Enchei a taça um do outro, mas não bebais na mesma taça.
            Dai do vosso pão um ao outro, mas não comais do mesmo pedaço.
            Cantai e dançai juntos, e sede alegres; mas deixai cada um de vós estar sozinho.
            Assim como as cordas da lira são separadas e, no entanto, vibram na mesma harmonia.


            Dai vossos corações, mas não os confieis à guarda um do outro.
            Pois somente a mão da Vida pode conter vossos corações.
            E vivei juntos, mas não vos aconchegueis demasiadamente;
            Pois as colunas do templo erguem-se separadamente,
            E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

                 -------------- 



Os Filhos 


            E uma mulher que carregava seu filho nos braços disse: “Fala-nos dos Filhos”.

            E ele disse:

            “Vossos filhos não são vossos filhos.
            São os filhos e as filhas da Ânsia da Vida por si mesma.
            Vêm através de vós, mas não de vós.
            E embora vivam convosco, não vos pertencem.

            Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
            Porque eles têm seus próprios pensamentos.
            Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
            Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
            Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós;
            Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
            Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
            O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda Sua força, para que Suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
            Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:
            Pois assim como Ele ama a flecha que voa, também ama o arco que  permanece estável.”
           
           
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran




--------------------

UM LIVRO QUE INSPIRA E RECONFORTA NUMA ÉPOCA DE PERPLEXIDADE

            Poucos livros têm alcançado o sucesso de O Profeta.
            No ano de sua publicação, em Nova Iorque, em 1923, venderam-se dele apenas 1.100 exemplares. E o editor, Alfred A. Knopf, considerou esgotadas as possibilidades de um livro estranhamente místico no ambiente pragmático e mecanizado dos Estados Unidos.
            Mas, para sua admiração, as vendas começaram a aumentar. Alcançaram 8.500 exemplares em 1926; 60.000 em 1944; e, enquanto outras obras, lançadas com êxito estrondoso, se fanavam em alguns meses, apesar dos esforços da propaganda. O Profeta continuava sua marcha triunfal sem qualquer propaganda. Dele se vendem atualmente, tão somente nos Estados Unidos, uns 5.000 exemplares por semana. No Brasil integra regularmente a lista dos “best-sellers”. E centenas de milhares de pessoas, incluindo a rainha da Grécia e muitas outra celebridades em todos os cantos do mundo, o adotaram como seu livro de cabeceira.
            Até mesmo os escritos medíocres de Gibran estão sendo traduzidos e reeditados, graças à fórmula mágica que lhes orna a capa: “Pelo autor do O Profeta”.

(APRESENTAÇÃO)
Mansour Challita
....
Editora Vozes Ltda.
BRASIL 1974


* * * 

domingo, 21 de junho de 2020

PODEMOS SIM SAIR DAS TREVAS - Ignácio de Loyola Brandão


Caro Sidarta Ribeiro, nem imagina como foi bom participar de uma live com você. Há instantes em nossa vida em que, se estivermos abertos, descobrimos que algo se passou e continuamos a viver um pouco diferentes. Ao longo da vida, criamos cracas, assim como as antigas caravelas viviam cheias delas agarradas ao casco e que diminuem a velocidade na navegação. É preciso limpeza de tempos em tempos. Você, de cara, me conquistou ao contar que meu romance Não Verás País Nenhum te abalou aos 12 anos. Pronto, me entreguei. Conversar contigo durante hora e meia, na live promovida pelo Fernando Quintino e pelo Daniel Brandão, meu filho, foi um upgrade para mim.

Sabia quem você era quando me convidaram, te vi no Roda Viva, um dos melhores dos últimos anos. Minha falha foi ainda não ter lido seu livro O Oráculo da Noite, mas já encomendei. Mas veja que curioso. Tenho 83 anos e você 49. Portanto 34 anos nos separam, o que é bastante nestes tempos em que tudo gira em velocidade. Durante nossa conversa deveria ter dito uma coisa, não disse. Mas teríamos tido mais assunto. Quando você nasceu em 1971 eu tinha 35 anos e começava a preparar a edição brasileira da revista Planeta, cujos direitos Luis Carta tinha comprado da França. A Planète foi criação de Louis Pauwels e Jacques Bergier, que criaram o realismo fantástico em um livro que viralizou no mundo, O Despertar dos Mágicos.

Do que se ocupava a revista? O poder da mente dos povos primitivos, a transmissão pelo pensamento, a neurociência, o movimento do pensamento alquímico, as civilizações desaparecidas, o universo paralelo, o poder dos raios, os extraterrestres, a existência das fadas, alucinógenos, LSD, o poder da plantas, xamãs, religiões orientais, as medicinas alternativas, a mescalina, as portas da percepção (Huxley), a expansão da consciência, câmeras que fotografavam o passado, a vida artificial, mistérios da água. Durante sete anos editei a revista que foi um assombro, porque tratava de assuntos insólitos, alguns proibidos. Lembre-se, era plena ditadura Médici.

Nunca me esqueço do artigo O Homem Vai Sobreviver?, de José Maria Domènech, publicado em 1973, quando você tinha 2 anos. Ele indagava: O homem vai conseguir chegar ao terceiro milênio? Respondia que sim, com a ciência, a expansão dos microscópios e telescópios cada vez mais potentes, a descoberta das chaves dos códigos genéticos, as ondas sonoras nas frequências de hiperciclagem, as futuras descobertas científicas e as tecnológicas trazidas pelas pesquisas cada vez mais amplas com recursos colossais poderão mudar o panorama. Quase 50 anos depois, as perguntas continuam a ser feitas. A live da qual participamos ligou uma chave entre passado e futuro para mim. E me fez perguntar: e agora, Ignácio?

Este fui eu, Sidarta. E veja você. O primeiro Sidarta – ou Buda – que me fez a cabeça foi o do Herman Hesse. Éramos muito jovens quando lemos Hesse, Sidarta, Demian, O Lobo da Estepe. Depois, parece que fiquei meio parado, quando devia ter continuado. Agora nos encontramos e você me dá uma sacudida semelhante à que tive quando fiz Planeta e li Hesse, Krishnamurti, Blavatsky e descobri planetas novos no conhecimento. Aquela pergunta de 1973 na Planeta está sendo respondida. E o meu descrédito no futuro do homem me deixou constrangido. Pessimista não sou. Mas tinha pouca fé. Também lembro de uma frase de Curt-Meyer Clason, meu tradutor para o alemão, quando me dizia que o “pessimista é um otimista com experiência”.

Passo rápido pela velha discussão sobre acasos ou coincidências – ou conectividades – sempre levantados. Neste momento, terminei de escrever um longuíssimo depoimento que me fez refletir sobre nosso tempo e a vida que levamos. É biografia de Hiroshi Ushikusa, psicoterapeuta que foi cirurgião gastro e descobriu que mais eficaz do que o seu bisturi eram as conversas e o entendimento de que as doenças de seus pacientes não eram físicas e, sim, estavam no íntimo, na profundidade do espírito. Hiroshi é o quê? Um espiritualista, praticante da Mahikari.

Na pergunta de nossos âncoras no final da live, você me alertou, ou ensinou, que há novas ciências, novos processos de pesquisas, novas mentalidades e possibilidades ao nosso alcance, com elementos tirados da natureza, destinados à expansão do conhecimento e da consciência. Uma ciência natural que pode afastar o homem dos caminhos a que ele está sendo conduzido até agora, um tempo de depressões, traumas, aflições, medo, pesadelos, martírios. Ciências e técnicas que nos afastarão do torpor a que estamos sendo conduzidos por drogas sintéticas que nos escravizam, anestesiam e nada resolvem. Sem falar dos sistemas políticos. Você me deu um grito: acorde. Você vem dando esse grito: acordemos todos. 

PS: Você percebeu que nem um minuto, um segundo, falamos de política?

O Estado de S. Paulo, 19/06/2020


................
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (189)


2º Domingo do Tempo Comum

Imaculado Coração da Virgem Maria – Sábado, 21/06/2020

Evangelho (Lc 2,41-51)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas. 
— Glória a vós, Senhor.

Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, para a festa da Páscoa. Quando ele completou doze anos, subiram para a festa, como de costume. Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta, mas o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais o notassem. Pensando que ele estivesse na caravana, caminharam um dia inteiro. Depois começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos. Não o tendo encontrado, voltaram para Jerusalém à sua procura. Três dias depois, o encontraram no Templo. Estava sentado no meio dos mestres, escutando e fazendo perguntas.
Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados com sua inteligência e suas respostas. Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados e sua mãe lhe disse: “Meu filho, por que agiste assim conosco? Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados, à tua procura”. Jesus respondeu: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de meu Pai?” Eles, porém, não compreenderam as palavras que lhes dissera. Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

---
Ligue o vídeo abaixo e acompanha a reflexão do Padre Roger Araújo:

---

“Não tenhais medo!”(Mt 10,31)

O ser humano amadurece no confronto entre desejo e medo. Não há medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um medo. O desejo e o medo estão profundamente ligados.

É constitutivo, na natureza humana, a tendência natural de tentar ultrapassar o imediato, de arriscar novos horizontes, de enfrentar perigos, de buscar, de criar, de se aventurar; mas, em seu interior, está também presente a tendência oposta, ou seja, poupar-se e acautelar-se, a necessidade inata de evitar o perigo, de se afastar dos obstáculos, de se acomodar no passado, no conhecido, no que dá segurança...

Há, em todos nós, um desejo de plenitude e o medo do fracasso. No nosso processo de crescimento humano, o medo não superado e o desejo bloqueado vão gerar frustrações; de outro lado, o medo superado e o desejo desbloqueado vão permitir que sejamos mais ousados e criativos.

O evangelho deste domingo nos revela que Jesus é um profundo conhecedor do coração humano; ele sabe de quê somos feitos e o que se passa no mais profundo de cada um de nós. Ele conhece profundamente as inseguranças e os medos que nos habitam.

Por isso, do seu humano coração, marcado com as fibras da coragem, brota este apelo: “Não tenhais medo!” Esta expressão está situada no contexto do envio dos discípulos em missão. Jesus acaba de dizer a seus seguidores que eles serão perseguidos e encarcerados.

Se Jesus nos convida a não ter medo, não é porque nos prometa um caminho de rosas. Não se trata de confiar em que não nos acontecerá nada desagradável, ou, se algo mal nos acontece, alguém nos livrará do perigo. Trata-se de uma segurança que permanece intacta em meio às dificuldades, sabendo que os contratempos não podem atrofiar nosso ser essencial. Deus não é a garantia de que tudo irá bem, mas a segurança de que Ele estará aí presente, em qualquer situação que estivermos envolvidos. 

O apelo de Jesus também pode ser aplicado a todas as situações de medo paralisante que podemos encontrar na vida. Por detrás de numerosos comportamentos destrutivos – o consumo compulsivo, a dependência, o ódio, o racismo, a intolerância, a indiferença, a suspeita, a violência, a competição, a exclusão, a prepotência, o abuso de poder ... -  se oculta o medo. O medo continua enchendo nosso planeta de vítimas anônimas, impedindo que a humanização e a harmonia, nossa vocação última, se expressem.

No atual momento, toda a humanidade está atravessada por um terrível medo: a contaminação pelo convid-19. Mas, os grandes medos não aparecem com freqüência; são os pequenos medos, que surgem dos encontros diários com a realidade, que roubam da pessoa sua vitalidade e dinamismo. O medo inibe o pensamento, impede a concentração e é, portanto, muito responsável por se fazer as coisas de modo medíocre, sem valor, abaixo das possibilidades e contra as próprias expectativas.

O medo não é um ato moral nem uma omissão. Sem ser convidado, ele cresce no coração humano. Em tal atmosfera de medo, a imaginação e todas as energias criativas se atrofiam.

O medo é um câncer que ameaça a fé, o amor e a esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. Sua intensidade pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo.

Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor e seca as fontes da esperança; ele nos acovarda e nos enterra na acomodação mesquinha.

No evangelho, que acabamos de escutar, Jesus faz referência ao medo que pode vir de fora, provocado por aqueles que se fecham e resistem frente à novidade do anúncio do Reino. Mas, também podemos considerar o apelo de Jesus – “Não tenhais medo!” – em chave de interioridade; esta expressão se refere a um acontecimento interior, pois o medo é o inimigo de nosso eu original.

Quando o inimigo é uma força externa, nem sempre há motivos para alimentar o medo. Mas quando os inimigos se encontram no nosso próprio interior (traumas, recalques, frustrações, fracassos...), provocando medos paralisantes, é preciso ter a coragem para desvelá-los, conhecer a raiz de onde brotam, entrar em diálogo e reconciliar-nos com tudo aquilo que foi rejeitado e que continua envenenando nossa vida.

Podemos ser presa fácil de um medo que foi introjetado pelas experiências de insegurança e frustração do passado, e que impede deslanchar todas as nossas potencialidades humanas. Tal medo nos aniquila, pois mina toda possibilidade de alimentar a fé-confiança em nós mesmos, nos outros, e sobretudo n’Aquele que nunca provoca medo, com ameaças de inferno, julgamentos...

No fundo, o medo é a ignorância com respeito a nós mesmos; vivemos a cultura da superficialidade e esquecemos o caminho que dá acesso ao nosso coração. Se conhecêssemos nosso verdadeiro ser, não ha-veria lugar para o medo, que nos mantém confinados na prisão de nossa interioridade doentia. Se experimentássemos, por nós mesmos, a realidade que nos fundamenta, estaríamos sempre tranquilos e em paz. 

Uma sadia interioridade supõe mobilizar o coração para a imprevisível revelação de um Deus Outro, que faz de nosso ser sua morada.  Isso implica adentrar-nos com os pés descalços, despojando-nos de nosso afã de domínio, de controle, “deixando Deus ser Deus”: amor, mistério, surpresa, desconcerto, noite...

Todos nós já tivemos a oportunidade de perceber as consequências funestas quando levamos uma vida dispersa, agitada, ansiosa, evasiva, inquieta...; e, ao contrário, o que sentimos e saboreamos quando entramos no espaço interior, mesmo que seja por poucos instantes: a paz do coração, a serenidade prazerosa, a percepção do sussurro amável, a brisa que nos envolve quando permanecemos submergidos na certeza de saber que somos amados, sem dependência e nem fragmentação.

Alguns testemunhos confirmam e dão crédito a esta experiência interior: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está nosso coração até que descanse em ti” (S. Agostinho). “Nada te perturbe, nada te espante, quem a Deus tem, nada lhe falta, só Deus basta” (S. Teresa de Jesus)

Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.

Nada de medo nesta terra sobre a qual Jesus pisou e nos corações que Ele visita diariamente.

O velho medo não vigora onde os olhos se abrem para a suprema realidade do mundo como criação de Deus, e da vida como um presente d’Ele.

Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos(as), criativos(as) e audazes seguidores(as) de Jesus.

     “Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz. 7,3). 

Texto bíblico:  Mt. 10,26-33 
* Jesus conhece a necessidade de intervir no mais escondido de cada um dos seus discípulos; ali estão alojados os mais diferentes medos,  que minam a força e a coragem do seguimento.
* Dar nomes aos medos pessoais: são reais? Imaginários?
* Quê desejos alimentam e sustentam sua vida?

Pe. Adroaldo Palaoro sj

* * *