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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

EDITORA DE SÃO PAULO PUBLICA NOVO LIVRO DE CYRO DE MATTOS



              A Editora Penalux, de São Paulo, acaba de publicar “Histórias de Encanto e Espanto”, livro que deu ao escritor baiano (de Itabuna) Cyro de Mattos o Prêmio Literário Nacional Cidade de Manaus, em 2018. A capa do livro é de Calasans Neto.

Nas dezesseis “Histórias de Encanto e Espanto”, encontram-se o dramático e o lírico, nos quais certas manifestações  do amor,  da tristeza,  do riso, da violência,    do  encanto e  do  espanto são  inventadas  graças a uma aguda compreensão da natureza humana.  Nestas narrativas de prosa prazerosa, percebe-se que Cyro de Mattos dá continuidade ao seu projeto de ficcionista genuinamente brasileiro.
 
As dezesseis histórias apresentam-se em sete blocos, conforme o assunto. Os blocos com as respectivas histórias são estes: 

1)  Histórias Enlaçadas no Amor - As Ligações do Padre com a Vizinha, Do Amor Desfeito e Outro Mais Que Perfeito;

2)  Histórias da Velha Cidade - Seu Bem Maior, Os Negros;

3)  Histórias dos Mais Vividos - Um Homem Muito Feliz, Uma Índia Chamada Kinani;

4)  Histórias do Riso - Fim de Carreira do Goleador, O Rufião Simão dos Prazeres Neto e Joaninha da Mata Virgem;

5)  Histórias de Encanto e Espanto - História de Vovó Maria da Guiné, Narrativa de Beda Cigano;

6)  Histórias do Calendário Triste - Restos da Mata, Pelas Águas, Menina de Rua;

7) Histórias Naquele Fim de Mundo - O Cavaleiro Vingador contra o mandão da Crueldade, Os Primitivos ou o Longo Curso da Violência, Nas Bandas de Tabocal.
                                                                          
Em artigo publicado no “Jornal de Letras” (Rio, 1980), Jorge Amado referiu-se à personalidade vigorosa e original de Cyro de Mattos, à  condição humana dos personagens que surgem do seu conhecimento e emoção,  sem qualquer espécie de  artificialismo. Essas particularidades fazem com que “o autor de Os brabos pise chão verdadeiro, toque a carne e o sangue dos homens, entre sombras e abismos.”  O crítico Alceu Amoroso Lima, relator do Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, concedido a Os brabos, revelou ter encontrado neste livro “narrativas dramáticas e brasileiríssimas, por seu tema e por sua linguagem.”  Completou o seu pensamento: ‘Escritor visceralmente nosso... admirável ficcionista.”

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domingo, 19 de janeiro de 2020

PALAVRA DA SALVAÇÃO (166)


Evangelho de Jesus Cristo, segundo João: Jo 1,29-34 – 19/01/2020

- O Senhor esteja convosco.
- Ele está no meio de nós.

- Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo † segundo João.
- Glória a vós, Senhor!  

- Naquele tempo, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim. Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel”. E João deu testemunho, dizendo: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele. Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo’.Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”

- Palavra da salvação.
- Glória a vós, Senhor!

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. André Teles:

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Eis o Cordeiro de Deus! (Jo 1,29-34)

Esta foi a imagem adotada por João para identificar Jesus Cristo diante dos olhos dos discípulos do Batizador: um “cordeiro”, isto é, uma vítima como aquelas que eram sacrificadas no Templo, a cada Páscoa. Segundo os historiadores, nada menos que 250.000 cordeiros chegavam a ser imolados em uma só festa em Jerusalém.

Em clima de Nova Aliança, o novo “cordeiro” vem substituir em definitivo todos os antigos sacrifícios. Com o seu próprio sangue (cf. Hb 9,12), Jesus nos propicia a redenção eterna. Na Última Ceia, ele apresentou a taça com o vinho, dizendo: “Este cálice é a nova aliança no meu Sangue, que é derramado por vós”. (Lc 22,20)

O biblista Louis Bouyer comenta: “A imagem do cordeiro aplicada a Jesus é uma das particularidades dos escritos joaninos. Nós a encontramos não somente no Evangelho, mas também no Apocalipse (cap. 5). Aliás, ela é suscetível de várias significações, complementares mas distintas, ligadas a duas imagens proféticas do Antigo Testamento. O cordeiro pascal imolado (cf. Ex 13) ou o cordeiro que sofre o suplício (Is 53).

A ideia da primeira imagem, que é a de uma oferenda total que vai até a morte consumada, de uma “oblação” que aceita a imolação necessária neste mundo para se perfeita, acha-se colocada em primeiro plano no Apocalipse. É neste sentido que a Carta aos Hebreus (11,28) recorda a Páscoa e que São Paulo se manifesta mais explicitamente em 1Cor 5,7.

O texto de Isaías, ao contrário, se refere ao cordeiro ainda vivo, mas sofredor, e sofrendo aquilo que outros deveriam sofrer legitimamente. Ali, a ideia é a de “substituição”. Pode-se dizer que o cordeiro de Isaías “carrega” os pecados do mundo, enquanto o cordeiro pascal “tira” os pecados do mundo.

Somente o cristianismo deveria operar a junção entre essas duas ideias, relacionando ambas a Jesus Cristo. O texto de São João, pelo verbo grego que ele emprega, por um processo frequente no 4º Evangelho, indica que o termo é suscetível dos dois significados, e que não devemos separar: carregar e tirar.

A ideia de um Messias imolado, fazendo de seu sangue a remissão de nossos pecados, era motivo de escândalo para os judeus no início da evangelização. Já os primeiros poetas da Igreja associaram Jesus à imagem do pelicano, que bica o próprio peito até sangrar para dar alimento aos filhotes.

Orai sem cessar: “Seu sangue será precioso aos olhos deles.” (Sl 72,14)

Antônio Carlos Santini, 
Comunidade Católica Nova Aliança.


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sábado, 18 de janeiro de 2020

O CURANDEIRO – Catulo da Paixão Cearense


           Antônio Cobra era, por esse tempo, o mais reputado curandeiro do sertão. Às vezes, mesmo de longe, se lhe era impossível vir à casa da vítima, de longe mesmo, com os seus processos cabalísticos, efetuava a maravilha da cura. Antônio Cobra, em se tratando do tóxico segregado pelas suas homônimas, era um semideus daquelas paragens. Quem deixaria de o respeitar e admirar, se ele representava para aqueles homens rudes o eminente Pasteur, imortalizado pelos seus trabalhos sobre a profilaxia da raiva e de outras Moléstias contagiosas?! Ninguém; e por uma simplíssima razão: - as provas irrefutáveis que a todo momento via com seus olhos. Milagre, Magia, feitiçaria? O caboclo, que já orçava pelos noventa, era digno de acurado estudo dos homens de ciência.

            O coronel Chico Francisco de São Francisco era o proprietário de uma Fazenda de gado do sertão da minha Terra natal. Homem rico, laborioso e fino cavalheiro, fazia-se estimado por todos os corações que auscultassem o de sua alma, sempre desejosa de fazer bem. Sua mulher, dona Chica Francisca de São Francisco, era o reflexo da individualidade moral de seu esposo. O coronel era um homem de uns setenta invernos primaveris e dona Francisca, de pouco menos. Tinham apenas uma filha de 15 anos, dona Violeta, tão formosa e modesta, como a sua irmã floral e era, por sua vez, o reflexo de sua progenitora. Dona Violeta era a estrela polar do coração daqueles dois velhos felizes.

            A pouca distância da Fazenda do Coronel, havia outra, cujo dono, o Capitão Vieira Martins, seu amigo e compadre, não lhe era inferior na riqueza nem na bondade. Casado também e quase da mesma idade do seu velho amigo, tinha um filho já formado em medicina, o qual chegara há um mês do Rio de Janeiro. O Dr. Bento Luiz, o filho do senhor Martins, vinha realizar um contrato feito entre os dois fazendeiros, no dia do seu natal. E qual fora este contrato? O doutor Bento faria os seus estudos de humanidades, completaria o seu curso acadêmico na Capital e voltaria ao sertão, para que se efetuasse o ideal dos dois compadres e de suas esposas, comadres também. Quando o jovem futuro doutor saiu do sertão, já não levava o coração, que pertencia a sua futura consorte - dona Violeta, que o adorava também com toda a formosura de sua alma.

            Dentro de um mês, o casamento seria celebrado pelo capelão da Fazenda do Coronel, e     segundo era corrente, com extraordinários deslumbramentos, para que permanecesse na memória de todos os coevos e, depois, na tradição, a majestade daquela festa nupcial. Neste comenos, deu-se uma catástrofe desoladora.

            Um dia, pela manhã, dona Violeta borboleteava pelos matos, a colher flores silvestres, quando foi surpreendida pela presença de uma terribilíssima Salamanta, que, avistando-a primeiro, formou-lhe o bote e cravou-lhe os dentes na perna direita. Dona violeta esvaia-se em sangue, quando, por felicidade, passava pela estrada um boiadeiro, recolhendo ao curral um boi tresmalhado. É desnecessário descrever ao leitor a revolução nas duas Fazendas com a notícia daquela desgraça. Prefiro deixar a sua imaginação, que, por menos fértil que seja, bem pode com vantagem dispensar-me desse trabalho.

            Que dizer da amargura do coronel, da aflição de sua esposa, do profundo abalo do outro casal e do desespero do noivo, o doutor Bento Luiz?! Quem, mesmo sem ser pai nem noivo, não sofreria com aqueles pais e aquele noivo, e, finalmente, com todos os corações que extremavam D. Violeta, diante daquela perspectiva funérea? Dona Violeta, a violeta de todas aquelas almas, estava com o pé no cairel do abismo da morte!!!

            O jovem recém formado , médico, e,  por isso, conhecendo o perigo como ninguém e confiado na terapêutica proveta de do seu colega o Dr. Fortunato Bocayuva, o velho clínico daquelas cercanias, sem perder um segundo, montou no seu Faísca, o cavalo mais corredor de todos as duas Fazendas, e rumou para a casa do antigo esculápio.

            Os episódios desta narrativa devem ser rápidos como os de uma representação na tela mágica do cinematógrafo. Poupemos a susceptibilidade do coração do leitor. Deixemos os pormenores e, assim, fitemos a estrada real e veremos dois cavalos fumaçando a todo galope, em direção da casa do Coronel. O Dr. Bento, galopando vertiginosamente, e mais e mais esporeando o seu Pégaso, esquecia-se, talvez, de que o seu velho colega, septuagenário como era, já não podia perpetrar aquelas bravuras. Mas o amor é violento nas ocasiões supremas da desesperação.

            Passemos, eu e o leitor, o rapidíssimo volver de olhos na chegada dos dois galopadores, na ansiedade de todos do lugar, no rebuliço labiríntico da casa, na amargura dos dois casais, na angústia do noivo, e no exame da enferma, feito pelo sapientíssimo Dr. Fortunato Bocayuva.

            Concluído o exame e receitados os medicamentos para o veneno da mordidela ofídica, retirou-se o Dr. Fortunato Bocayuva, comunicando ao seu colega que o caso era sério, mas muito longe de ser desesperador.

            A ciência já era possuidora de armas possantes para destruir a virulência do tóxico das salamantas e outros que tais. Que ficasse, pois, descansado e que no outro dia voltaria, pois não julgava que sobreviesse algum acidente que obrigasse a um chamado, antes do dia seguinte.

            Previno ao leitor, mais esta vez, que galopo nesta história, sem fazer caso das suas minudências, que, talvez, fosse o mais interessante. Além disso, insisto: - nunca poderia ser um conteur, porque fujo de toda a descrição, em que um sofrimento é o protagonista. continuemos, pois, a fazer vista grossa às particularidades que esta narrativa devia conter, se fosse traçada por pena de mestre.

            Conquanto os medicamentos do Dr. Bocayuva lhe houvessem atenuado as dores, o estado geral da enferma agravou-se ao anoitecer. Novo chamado ao Dr. Fortunato; novo exame; novas prescrições, nova despedida, e, infelizmente, (o que é pior!...) sem aquela frase: - “... longe de ser desesperador”.

            Quem fosse do sertão, já perceberia, àquela hora, que a natureza tinha ânsias de amanhecer. Eram três e meia da madrugada. As prescrições do esculápio tinham sido rigorosamente, e, mais, religiosamente observadas. Mas ... nada de melhoras! Bem ao contrário!....

            Novo chamado às 6 horas da manhã. Nova vinda. Novo exame.  Novas cerimônias, novas torturas de saber o estado da enferma e... (maldição!!...) o desengano!

            O Dr. Fortunato acabava de confessar, pesarosamente, Quem é a sua ciência tinha embotado as armas nas arestas impenetráveis do grande mal! Nada mais tinha a fazer! Dito isso, abraçou o seu jovem colega, montou na eguinha e com um - Paciência, meu amigo – volatizou-se na recurva do caminho, aureolado por uma tremenda nuvem de poeira.

            O Dr. Bento Luís vagava pelo terreiro, como um alucinado, quando foi solicitado para dar uma palavra à tia Sant’Anna, uma preta centenária, que tinha sido a sua ama de leite, e que era chamada a Vovó de todo aquele sertão. No auge do seu desvario, relutou; mas, assediado pelos rogos de seu pai, consentiu.

            Tia Sant’Anna, que acabava de vir do quarto da infeliz D. Violeta, varou a porteira e atirou-se súplice aos pés do moço, pedindo-lhe que mandasse chamar, sem perda de um minuto, o velho Totonho, a única pessoa que podia arrancar das gadanhas da morte aquela adorada criatura.

            A resposta foi um grito doloroso, que repercutiu pelas bocainas daquelas matarias enflorescidas. A tia, porém, não desanimou. Atirou-se de novo aos pés do seu filho de leite, chorando como uma criança de três anos. Ouvindo todo aquele berreiro, acudiram todos, na previsão da morte da filha do coronel.

            Pedidos, rogos, súplicas, implorações dos pais, dos futuros sogros, do capelão e, finalmente, de todos, fizeram com que ele consentisse no pedido da Tia Sant’Anna, dizendo, porém, que, além daquilo ser uma comédia, e, no seu caso – um desrespeito à ciência, retirava-se da Fazenda, indo para longe, para não presenciar aquela pataquada e esperar o golpe da fatalidade sobre o seu coração de amante e desgraçado.

            Meia hora depois da retirada do Dr. Bento Luiz para a outra Fazenda, chegava o portador do chamado ao Antônio Cobra, trazendo o paletó do curador, o qual, segundo as suas ordens infalíveis e imperiosas, tinha de ser, imediatamente envolvido em toda a perna, vitimada pela serpente. E, ao encaminhar-se para o quarto da enferma, ia afirmando a todos que o curandeiro lhe havia assegurado que as dores teriam de cessar dentro de poucos minutos, depois do que ordenara que fizessem com o paletó, enquanto ele, curandeiro, se ia preparar e se pôr em caminho da casa da sua nova cliente.

            E assim sucedeu. Em menos de vinte minutos, o alívio era considerável. Tinham desaparecido as dores cruciantes. A doente já sentia menos à adustão do esôfago e as dores do epigástrio, quando, pela tarde, chegou o Antônio Cobra na Fazenda do Coronel, tranquilo e calmo, trazendo sobre os ombros um grande saco, onde se aninhava misteriosamente uma multidão de cobras de várias  espécies. Antes de entrar no casarão , pousou o saco no empedrado do terreiro, descobriu-se, fez uma pequena prece a Virgem Maria, e foi tirando de dentro, primeiro - uma Jararacuçu , depois uma Cobra-Rainha, uma Malha de Fogo, uma Cobra de Oco, uma Corre-Campo, uma Surucucutinga e, por último, uma Salamanta.

            Depois de trocar língua com elas, dizendo lhes qualquer coisa apocalíptica, ordenou-lhes que se retirassem para o mato, o que todas fizeram, sem a menor vacilação. Uma para aqui; outra para ali; outra para lá; outra para acolá, cada uma tomava a direção que o curador lhe determinava.

            Daí a poucos momentos, saiu do matagal a primeira das que soltou. Vinha só. E ele, persignando-se, dizia baixinho: não é! Veio a 2ª, a 3ª e as outras, até que apareceu a Salamanta, acompanhada de outra salamanta.

            Então o curador, voltando-se para a multidão que presenciava aquele espetáculo, disse, vitoriosamente “Foi esta!”

            Mas, quando alguns homens, novos no sertão, levantaram os seus cacetes de Massaranduba para matar o horrendo réptil, Antônio Cobra, solenemente, gritou que, se o fizessem, com um pequeno gesto enfureceriam  todas aquelas inocentes criminosas, não se responsabilizando pela morte da filha do bravo Coronel Chico Francisco de S. Francisco e pelo resultado daquela imprudência.

            Obedecido, e pronunciado o nome de cada uma, ia ordenando o que, uma por uma, fossem as serpentes entrando no saco, que abria com as suas mãos. Todas entraram, ficando apenas a nova Salamanta, a ofensora de D. Violeta, esperando as ordens do curador.

            Antônio Cobra, penetrando no aposento da enferma por uma porta que dava para o terreiro, retirou o paletó da ferida, sobre ela verteu um líquido verdoso que trazia num frasquinho, rezou, depois fez a doente jurar que não mataria nem consentiria que outra pessoa matasse uma cobra, fosse qual fosse. Por fim, persignando-se outra vez, saiu do quarto, atravessou o terreiro, de extremo a extremo, proferindo, a todos que lhe perguntavam pelo estado da enferma, esta frase redentora: “Está salva “.

            E de fato. D. Violeta estava salva!

            A tarde caminhava com pressa de quem se quer ir embora.

            Como já havia partido um portador para comunicar ao Dr. Bento Luiz aquela notícia imprevista e decisiva, pois durante todo o dia não tinham cessado as viagens de vai e vem para levar-lhe novas de D. Violeta,  (naturalmente, como esperava o doutor, - a do seu falecimento), - naquele momento, no limiar da porteira da fazenda, encontraram-se os dois: - o jovem clínico , que vinha açodado, na impaciência de ver a realidade, - e Antônio Cobra, o Pasteur do sertão. O curandeiro, com o saco cheio de terríveis répteis sobre os ombros possantes, levava enrolada no pescoço a nova Salamanta, que, sem a sua terapêutica sibilina, teria vitimado, fatalmente, aquele anjo de candura.

            Agora é que eu juro ao leitor que nunca me afoitaria a descrever esta cena, porque seria debalde. Duas palavras apenas.

            Quando se enfrentaram os dois, lado a lado, ao transporem a primeira porteira da Fazenda, Antônio Cobra, o Hipócrates da natureza, tirou, respeitosamente, o seu chapéu encourado e, com a serpente anelada em seu pescoço, seguiu em caminho da sua guarapeira.

            O doutor Bento Luiz empalideceu e, não tendo ânimo de corresponder àquele cumprimento, tocou de leve com o chicote na anca do seu cavalo, prosseguindo, nervoso, pela ansiedade de ver o seu arcanjo, a sua Violeta reflorescida e pelo prenúncio da tempestade, que ia desabar.

            De há muito que a tarde plumbeava-se, na iminência do aguaceiro. A poucos metros do pátio da Fazenda, estrondou um furioso trovão e uma salamanta esbraseada, subindo do veludo de um cumulus, atirou-se nervosa pela vastidão do espaço, como se tivesse perdido o néctar precioso da sua crueldade, o veneno matador.

            O doutor Bento Luiz, porque trazia impressas na retina a imagem das duas serpentes: - a natural, que  o curador levava enrodilhada em seu pescoço, e a celeste, que acabava de riscar a nuvem do céu, - fitou a serpente de ouro que se quedava imóvel e inofensiva em seu anel simbólico, e, com um sorriso de descrença, galopou, em caminho do santuário dos seus amores.

            Pouco depois, surgia à noite, como se fosse um dilúvio de cobras pretas, se destorcendo do pelo espaço afora e envenenando, de negro, os últimos soluços da agonia luminar!...


(POEMAS BRAVIOS)  
Catulo da Paixão Cearense

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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O QUE MUDOU NO BRASIL? – Péricles Capanema


Publicado em 17 de janeiro de 2020

Péricles Capanema

Quase 60 anos atrás, 1961, Nelson Rodrigues escreveu: “Hoje em dia, chamar um brasileiro de reacionário, é pior do que xingar a mãe. Não há mais direita, nem centro — só há esquerda neste país. Perguntem ao professor Eugênio Gudin: — ‘Você é reacionário?’. Sua resposta será um tiro. Insisto: — o brasileiro só é direitista entre quatro paredes e de luz apagada. Ao contrário de setenta milhões de patrícios, eu me sinto capaz de trepar numa mesa e anunciar gloriosamente: — Sou o único reacionário do Brasil. E, com efeito, agrada-me ser xingado de reacionário. Por toda parte, olham-me, apalpam-me, farejam-me como uma exceção vergonhosa.”

Comenta ainda o dramaturgo, considerado o maior do Brasil: “Eu, com todo o meu reacionarismo, confesso e brutal, sou o único autor de teatro, o único que, até hoje, não mereceu jamais um mísero prêmio. Pois bem. O Dias Gomes, com o seu ‘Pagador de promessas’, fez um rapa de prêmios. O Flávio Rangel não dá um espirro sem que lhe caia um prêmio na cabeça. O meu amigo Augusto Boal, premiado. O Vianinha, premiadíssimo”. Dias Gomes e Vianinha foram do PCB, os dois outros são também autores de esquerda.

Em 2020, o brasileiro só se confessa direitista entre quatro paredes e de luz apagada? “Só há esquerda nesse país” continua válido? Vamos distinguir. Ponto capital: o Brasil de 1961, em boa parte, mantinha nível de moralidade privada e de moralidade pública que já não temos; melhor, moralidade e respeitabilidade, eram em larga medida penhor de futuro brilhante. Nesse sentido, sob o ponto de vista do que hoje se intitula revolução cultural, despencamos para a esquerda. Ficamos diferentes para pior, apareceram mais nítidas e mais pesadas nuvens negras no horizonte do futuro.

Faltam os prêmios. Continuam a jorrar só para a autores de esquerda? Por que naqueles anos de generalizada inibição e temor direitistas — de hegemonia cultural esquerdista na posse dos microfones —, ninguém premiava Nelson Rodrigues? Simples, os instrumentos pelos quais se exprimia na época a opinião que se publica (diferente da opinião pública) estavam a bem dizer todos na mão da esquerda, comitês, comissões, diretorias de associações, tanta coisa mais. E ela só premiava e premia gente da patota. E assim, na promoção de numerosos corifeus da esquerda por meio de ambientes eruditos e posições de destaque (as patotas prestigiam patotas), não mudou nada ou quase nada. Temos ainda atuante uma carapaça revolucionária, já bastante encarquilhada, asfixiando um miolo vivo em que existe muita coisa boa. Em resumo, o brasileiro comum em boa medida permanece refratário à pregação esquerdista.

Não nos iludamos, este mundo de letrados esquerdistas, insulado do público em redoma tóxica, representa realidade artificial, postiça, mas sedimentada. Infelizmente ainda hoje sua orientação predomina nas sacristias, na academia, nas redações, em muitos clubes grã-finos. E isso projeta visão deformada do que seja o Brasil.

Alguém, por exemplo, já ouviu falar que a CNBB, CIMI ou CPT tenham promovido para os galarins sacerdote conservador, mesmo que seja por distração? Não existe. Nos últimos anos algum autor de direita foi distinguido com prêmio literário de valor? Nas redações despontam jornalistas com traços direitistas e conservadores, é fato. Por quê? Motivo pouco enfatizado, para as direções das empresas é conveniente tê-los como colaboradores, pois atraem para suas publicações e programas leitores e ouvintes conservadores. O descolamento entre o público comum e docentes, fortíssimo na academia, aqui é bem menor.

Em um aspecto, o Brasil de nossos dias é muito diferente do Brasil de 1961, em que a patrulha ideológica marcava forte. Nas redes, com audiência, há sites direitistas e conservadores dos mais variados matizes e orientações. De alto a baixo da opinião brasileira, em especial na parte anônima, que não se publica, que tem poucos microfones à disposição, cresce um movimento de reação. Quem diz reação, diz gente que reage, reacionários. Repito, mudou o Brasil, o reacionário e o conservador se manifestam com decibéis cada vez maiores. Em numerosos setores, abrigando-se em numerosas correntes, existem conservadores e reacionários atuantes.

Falei acima de matizes e orientações diferentes. Com efeito, as discrepâncias tantas vezes eriçadas provocam choques, às vezes desagregadores e destrutivos. E aqui começo o mais importante de minhas considerações. Liberais na economia, contrários à estatização, são tantas vezes libertários em costumes. Temos conservadores nos costumes, mas com pendores estatizantes.

Vou tentar clarear parte da situação, o demônio pesca em águas turvas. Para isso olho quintal vizinho, a França. Por razões de tempo e espaço, trato do tema por cima. Lembro divisão conhecida da direita francesa (com muitas adaptações seu conhecimento ilumina a cena brasileira): legitimista, bonapartista, orleanista.

Entrada de Carlos X em Paris

A legitimista — um dia quis Luís XVIII, mais ainda, sonhou com Carlos X [foto], recusou Napoleão no trono — via de regra é tradicionalista, monárquica, católica. Valoriza elites enraizadas na História, não é estatizante, seu foco é a defesa da família, espera relativamente pouco da ação do Estado, dá mais importância ao costume que à lei. A mais, luta pelos direitos das sociedades intermediárias (princípio de subsidiariedade). Líderes com certa nota patriarcal; melhor, paternal.

A bonapartista recusa o Ancien Régime, em geral subestima quando não despreza as elites com raízes históricas, cria uma nova elite com base na burocracia estatal, em especial no elemento armado, coloca à frente de suas reivindicações não a família saudável e as sociedades intermediárias, mas a pátria (de outro modo, subestima quando não nega o princípio de subsidiariedade). Engrandecimento nacional (gigantismo), pendores centralizantes e autoritários, líderes carismáticos e populistas. Por vezes, jacobina.

A direita orleanista aceitou a Revolução Francesa, mas quer o Rei, limitado constitucionalmente, como fator de ordem e unidade. Economia liberal, moral liberal, Estado secular. Instituições nascidas dos princípios da Revolução Francesa, sociedade moldada por eles, tem algo de república coroada. Líderes pragmáticos e gestores, em geral de mentalidade girondina.

Termino. O curso da lógica traz a pergunta: para quem não é esquerdista, que tipo de direita preferir para o Brasil? Quais características o movimento conservador deveria privilegiar. Respondo. Sou católico, propugno a doutrina social da Igreja. Defendo o princípio de subsidiariedade e a ampliação da influência da família na sociedade. Recuso o estatismo, o populismo para mim é falsa solução para problemas reais. Convido-o, leitor, a alinhar as características de sua preferência. E os perigos que pretende evitar com elas. Tem motivo importante, o Brasil de hoje não é o de 1961, vergastado por Nelson Rodrigues; na sociedade começam a se generalizar sem timidez conservadores e reacionários. Os rótulos valem menos que os conteúdos. Que conteúdo terão tais correntes de opinião daqui a alguns anos?

(periclescapnema.blogspot.com)


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GINÁSIO DIVINA PROVIDÊNCIA - Cyro de Mattos


Ginásio Divina Providência
Cyro de Mattos


             O grande sonho dos estudantes de meu tempo era concluir o curso primário e, submetidos ao exame de admissão, ingressar no ginásio. Ser aluno do Ginásio Divina Providência era a maior glória. Significava pertencer a uma classe privilegiada de estudantes, motivo de orgulho dos pais, ser admirado por pessoas importantes.

            Ginásio de meninos e meninas como nuvens. Aquelas mesmas nuvens que acompanhavam a criatura em seus primeiros passos. Juntos queriam construir o futuro. Queriam melhorar de nível, atingir metas e entender tudo que é posto no mundo para ser alcançado.  Buscavam arma e bagagem para um dia tornar a vida rica de significados. Por isso suportavam o massacre diário, com exercícios aritméticos, lições de português, ciências naturais, geografia e história.

            Era um tempo de desafio constante povoado de sombras. Tempo que ia passando com uma pesada carga de estudos. Noites de expectativa, alegria e susto quando chegava o fim do ano com a notícia de que tinha sido aprovado.  Havia em nosso ginásio professores com a sua maneira de ser rigorosa, como Nivaldo Rebouças, que ensinava inglês, e Odete Midlej, português. Havia também os de coração de açúcar, como Helena Borborema, padre Nestor, Lode Hage e ‘’seu’’ Queirós. Professores responsáveis todos eles, que não faltavam aula durante o ano, deixando nas lições sem disfarce a palavra fluir com dedicação e competência. Professores que, na voz tolerante, rigorosa ou paciente, faziam que os alunos amassem ou respeitassem o ginásio.

            Ginásio dos meus verdes anos. Dos meninos Roland, Rafael e Nilton Gago. Das meninas Yeda, Ritinha e Mary Kalid. Dos futuros advogados Joel, Eraldo e Rui Fontes. Do engenheiro Dagô. Dos médicos Moacir, Euvaldo e José Orlando. Do escrivão Ronald Cravo, delegado Péricles e juíza Sônia Carvalho. Do deputado Jorginho Hage e prefeito Ubaldo Dantas. Do gringo Marcel Midlej. Das piadas inesquecíveis de Nilton Jega Preta. Dos namorados Carlos Euvaldo e Clotildes, Néviton e Marilene. Do goleiro Edsel e Chico, o craque. Do odontólogo Cleres Franco. Dos irmãos Ildo, Eudes, Uraci e Ovaci. Dos artistas plásticos Bebeto e Renart. Dos poetas, os lavradores do sonho, Valdelice e Florisvaldo. Dos que já não estão mais na sala, se foram cedo na viagem sem volta. João Berbert, Alberto Simões, Valter Delmondes, Vadinho. Valter Delmondes saltou da pequena ponte para as águas profundas. Aquela sombra que infunde medo instalou-se nas salas do ginásio. Pela primeira vez, solitário eu indagava pelos cantos sobre a escuridão daquelas águas.

            Setembro tinha sentido com a cor do desfile no ar verde e amarelo. Tambores uníssonos, compenetrados do toque, rufavam a pátria amada. Marcha cívica ou efervescente música na pele de adolescentes com a alma de girassóis flamantes? Nem o aguaceiro que despencou de repente conseguiu tirar o brilho de um escudo glorioso sob os passos encharcados de sonho.

            Ginásio de velhas brincadeiras em vozes tão novas.

            Dona Lindaura, a diretora, certa vez me disse que o Colégio Divina Providência foi fundado pela Sociedade São Vicente de Paula, em 1924. Anos depois, o ginásio começou a ser administrado pelas irmãs de caridade. Criatura de estatura pequena, cabelos brancos e ralos, a diretora do ginásio segue nos passos firmes todos os dias rumo ao antigo sobrado da Rua São Vicente de Paula. Da primeira lição que ela me ensinou, nunca esqueci. Disse que para alguém ser gente na vida precisava conviver com o hábito do estudo. Ser gente era munir de saber a ideia. A cidade pequena escorregava na lama do inverno. Os alunos passaram a saber no ginásio que as sementes boas do estudo para munir a ideia estavam no primeiro educandário da cidade. Colheitas desse saber haviam de ser feitas em pouco tempo. Com o passar dos anos, para orgulho dos pais, produziriam rimas ricas.

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Publicado por editoras europeias. Membro da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, México, Itália e Portugal.

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quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

CARTA ABERTA AO PAI QUE FOI ASSISTIR FROZEN 2 COM AS FILHAS


Serhii Bobyk | Shutterstock

Sarah Kroger | Jan 14, 2020

Espero que você tenha pessoas próximas que também reconheçam o trabalho incrível que você está fazendo


Prezado “Cara Durão” (estou falando do pai que usava uma camisa de futebol no cinema ontem à noite. Sim, você! O machão que cantou “Let it Go” com três pequenas filhas loiras que vestiam roupas azuis da Elsa…),

Você fez o meu ano. Você também me lembrou muito do meu pai – o gigante gentil que me olhou nos olhos quando criança e disse: “você é uma princesa”. Depois disso, nos últimos 40 anos, vivi para honrar cada palavra dele.

Mas não foi exatamente o que meu pai disse (embora isso tenha sido importante); foi o que ele fez. Como você, ele se interessou muito pelas coisas que eu amava, mesmo que elas não o interessassem. Ele abraçou meus hobbies como se fossem dele, tanto que acabou amando-os também. Um deles era andar de patins. Sinceramente, não me lembro quem foi fisgado primeiro – mas, olhando para trás, nenhum dos outros pais da cidade passeava pelo parque com as filhas quase todas as noites.

Então, “Cara Durão”, eu pensei em escrever uma carta para você saber que eu o aplaudo. Espero que você tenha pessoas próximas a você (talvez sua esposa) que também reconheçam o trabalho incrível que você está fazendo: a maneira como você ajeitou o cabelo de sua filha enquanto todos estávamos esperando na fila, o jeito que você mantinha a calma quando sua outra filha deixou cair o refrigerante…

Ao adotar o seu papel de pai carinhoso, ao aprender a fechar presilhas brilhantes, mesmo que suas mãos sejam do tamanho de luvas de apanhador, você está dando o tom para a vida inteira dessas garotinhas. Como meu pai, você está mostrando às suas preciosas filhas que elas são dignas de amor, dignas de ternura, dignas do mais alto respeito.

Mas essas não são palavras minhas. Estudos e estatísticas mostram repetidamente que os pais são importantes para todos os filhos, especialmente as meninas. Meg Meeker, em seu livro “Pais Fortes, Filhas Fortes”, lista os seguintes fatos:

– Crianças firmemente ligadas aos pais são melhores na solução de problemas;

– Os bebês de seis meses têm uma pontuação mais alta nos testes de desenvolvimento mental quando os pais estão presentes em suas vidas;

– Com os pais presentes em casa, as crianças gerenciam melhor o estresse da escola;

– Garotas cujos pais proporcionam calor e controle alcançam maior sucesso acadêmico;

– As meninas próximas dos pais exibem menos ansiedade e comportamentos retraídos.

O Instituto de Estudos da Família dos Estados Unidos também relata: “A mulher que teve o pai presente tem mais chances de ter relacionamentos amorosos emocionalmente íntimos e gratificantes (…). O que é surpreendente não é que os pais tenham tanto impacto no relacionamento de suas filhas com os homens, mas que eles geralmente têm mais impacto do que as mães.”

Além disso, o mesmo estudo constata: “Filhas cujos pais se envolveram ativamente durante a infância na promoção de suas realizações acadêmicas ou atléticas e no incentivo à autoconfiança e assertividade têm maior probabilidade de se formar na faculdade e de ingressar em empregos mais exigentes e com salários mais altos.”

“Cara Durão”, você poderia ter saído com seus amigos ontem à noite. Você poderia ter ficado em casa assistindo futebol – posso dizer pela sua camisa, que provavelmente é mais interessante do que Frozen II. Mas você passou a noite dividindo a pipoca com suas filhas, cantando as músicas delas e moldando o futuro do mundo. Deus o abençoe!


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Ligue o vídeo e veja o trailer do filme Frozen 2:


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quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: A arte de ser feliz - Cecília Meireles


A Arte de ser Feliz
Cecília Meireles


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.

E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.

Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Fonte:



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Cecília Meireles - (1901-964) foi uma poetisa, jornalista e professora brasileira, considerada umas das mais importantes escritoras do país, com mais de 50 obras publicadas.

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