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quinta-feira, 18 de julho de 2019

1º Ciclo | O lugar de Machado de Assis na literatura brasileira

O VISITANTE – Helena Borborema


         
 Tarde abafada aquela. Sentada num banco meio frouxo à porta da casa, Bastiana buscava na sombra que se espalhava no terreiro um pouco de ar. De quando em quando, sacodia de um ombro a outro, à guisa de abanador, um pedaço de pano , resto de uma blusa velha, para enxotar os mosquitos e amenizar o calor. Também de quando em quando enchia a mão de grãos de milho tirados do bojo da saia e atiçava-os às galinhas que, ciscando e cacarejando, juntavam-se com suas ninhadas ao seu redor; mas, seus olhos cansados estavam atentos à estrada adiante , buscando avistar alguém. Quantos anos tinha dona Bastiana, essa preta velha, nem ela mesmo sabia ao certo. Pelos seus cálculos, tomando por base o ano da abolição do cativeiro, estava na casa dos oitenta, mas ninguém dizia. Lúcida, forte, ainda tinha bastante energia para cuidar da casa e se fazer obedecida pelos três netos órfãos que acabara de criar, herança de sua filha única há muito largada do marido que sumiu no mundo, e há anos já falecida. Agora eram todos três adultos. Quando o marido morreu há dez anos, dona Bastiana ficara com aquela fazenda com casa de tijolos e telhas, à porta dá qual se abanava àquela hora da tarde, cercada de suas criações. Os netos, rapazes trabalhadores, e que estavam à frente dos trabalhos na roça, tinham ido a Itabuna conversar com o advogado; voltariam naquela mesma tarde; que notícias trariam? Ansiosa, buscou mais uma vez com os olhos a estrada, enquanto o coração se apertava numa angústia enorme.

            Naquele instante, sozinha com seus pensamentos, dona Basti, como era também chamada, passou a relembrar os tempos idos. Quando chegou com o marido para aquelas terras, há sessenta anos, tudo aquilo era mato. Nenhum vizinho havia por perto. Os dois deram duro, trabalharam muito, soaram no cabo do machado e da enxada, até as mãos se abrirem em calos e depois se transformarem em grossas lixas. A roça prosperou. Não era grande, mas o cacau que produzia dava o suficiente para a família viver sem preocupações com o futuro. Depois veio o progresso no Município e a vida melhorou nas suas terras; onde havia apenas uma trilha como caminho, passava agora uma estrada de rodagem. Quantas vezes já não acordou assustada com o ronco dos caminhões, passando perto, na estrada! Quem diria! Chegou a murmurar alto dona Bastiana. Além de caminhões carregados de cacau, até uma marinete passava diariamente fazendo a linha Itabuna-Palestina.

            Aquela fazenda era o seu mundo. Pouco sabia do que se passava fora dele. Ali, tudo lhe contava uma história ou falava ao seu coração, como o frondoso sapotizeiro que o marido plantou para ela ao lado da casa; a jaqueira perto da barcaça tinha tantos anos quanto o seu neto caçula; foi plantada no dia em que ele nasceu. Quantas e quantas vezes tinha olhado aquelas serras lá longe, aquele por de sol. Quantas vezes tinha palmilhado aquele chão ao longo de sessenta anos, no seu-dia-a-dia de labutas. E a velha casa cujas paredes eram testemunhas dos seus risos nos dias de alegria e de suas lágrimas nos dias tristes, como na morte da filha e, por último, seu marido. Ali estava a sua vida e ali queria findar os seus dias.

            Agora, quando pouco tempo lhe resta, depois de anos e anos de trabalho e penúrias, surge essa questão que vem lhe amargurar a vida. E se perder na Justiça? O que será dela e dos netos? Estarão todos na miséria. Foi num dia assim, calorento, nesse mesmo lugar, que tudo começou. Era uma tarde de sábado e os netos tinham ido fazer feira em Palestina, distante dali poucas léguas. Ela estava a dar comida a suas criações, como costumava, quando um moço sorridente e de boa aparência apeou à sua porta. Quem era, não sabia, mas o diálogo foi amável:

            - Boa tarde, minha tia.

            - Boa tarde. Vá se chegando pra frente.

            - Como vai vosmecê nesse conforto?       

            - Conforto num banco véio, duro como esse, meu filho? Quem sou eu para merecê conforto.

            - Não diga isso!

            Enquanto tomava assento num tamborete que lhe foi oferecido, continuou o recém-chegado:
  
            - Vosmecê está até parecendo a mãe de Ganga Zumba sentada num trono.

            - Ganga o quê?

            - Ganga Zumba. Sabe quem foi ele? Um negro valente, tio de Zumbi.

           - Hum!

            - Pois é. Vosmecê tá parecendo uma rainha daqueles tempos de Palmares.

            - Minha mãe falava muito em Zumbi. Quando menina, ouvi as histórias dele.

            À sombra do terreiro, o sorridente visitante enxugou o suor do rosto com um lenço de cambraia puxado do bolso do paletó.

            - E a fazenda, como vai?

            - Mais ou menos. Com a “mela” perdemos um bocado de cacau, mas é tudo como Deus quer. E eu estou aqui conversando sem nem conhecer vosmecê. Se tá procurando meus netos, estão todos três fazendo feira em Palestina.

            - Só vim fazer uma visitinha a vosmecê. Tenho fazenda aqui perto, isto é, a minha sogra, mas como eu agora estou à frente dos negócios depois da morte do velho, ando sempre aqui.

            - Vosmecê é genro de dona Marocas? Conheci sua mulher pequenininha. Seu sogro era um homem de bem. Foi um bom vizinho.

            - Como ia dizendo, passei por aqui para lhe fazer uma visitinha e lhe oferecer uma pechincha, um rádio que resolvi vender. Enquanto falava, ia retirando de um saco de couro pendurado no cabeçote da sela o objeto da venda.

            - Para que eu quero rádio, meu filho! Na minha idade só penso em morrer.

            - Vosmecê ainda vai comer muita farinha e ouvir muitas notícias com esse rádio, minha tia. Olhe aqui. Novo, bom. Só quero me desfazer dele para substituir por outro ao gosto de minha mulher. Ela quer um grande, pra botar na sala.

            - Só se o José se interessar, porque o dele andou aí dando uns defeitos, meio arruinado.

            - Pois então! A Senhora fica com este, mostra ao José, depois resolve.

            - Não, seu moço! Só com ele. Eu não me meto nesses negócios.

            - Ora, minha tia. Que mal há em vosmecê ficar com o rádio para mostrar a seu neto? rádio grande, bom.

            Enquanto falava, foi retirando de uma pequena pasta que trazia à mão um bloco de papel e a caneta.

            - Está aqui o seu rádio. A senhora precisa ouvir as notícias que se passam por aí, ouvir música sertaneja. Uma beleza!

            - Eu por mim não quero. Só se meus netos quiserem.

            - Então! Depois eu passo aqui, um dia desses, para saber a resposta. Sou seu vizinho, a minha fazenda, isto é, de minha sogra, é logo ali adiante.

            - E se meu neto não quiser?

            - Não tem importância. Levo o rádio de volta. Agora, tia, basta a senhora assinar nesta folha de papel. E só um sinal de que recebeu. É só a assinatura.

            - Não tô comprando, né?

            - É que a gente é da vida e da morte. Isto é só pra saber que vosmecê recebeu.

            - Eu mal esgarrancho meu nome. Nunca tive escola. Só aprendi assinar pra não fazer feio no dia do casamento, na hora de assinar no livro. Taí!

            - Pronto, tia. Que letra bonita! Já vou chegando, antes que a tarde caia.

            Depois de mais alguns minutos de conversa fiada, sempre sobre a fazenda de dona Bastiana, o visitante se despediu.

            Deus o acompanhe, meu filho.

            - Vosmecê vai gostar do rádio. Até à vista!

            O cavaleiro deu de rédea e partiu sorridente, com uma folha de papel assinada em branco metida no bolso. Continuando a enxugar o suor da testa com o lenço de cambraia, pegou a estrada e seguiu para casa contente da vida.

            Dona Bastiana deu um longo suspiro. Os olhos se embaçaram de lágrimas. Agora aquela cobrança na Justiça de um dinheiro que ela nunca tomou emprestado, nunca viu. Quantia tão grande que a obrigaria a vender a roça para pagar.

            Como iria viver se perdesse a sua roça, a casa onde nasceram a filha e os netos e onde desejava morrer? O seu mundo  estava ameaçado e longe dele não aguentaria, assim falava o seu coração.

            Que notícias lhe trariam os netos? Estavam lutando na justiça para desfazer o “caxixi” miserável, armado pelo moço sorridente. Lutavam para salvar a fazenda. Conseguiriam? O advogado dava esperanças.

            Dona Basti olhou mais uma vez a estrada, buscando ansiosa a chegada dos netos, enquanto enxugava com a manga da blusa as lágrimas grossas e quentes que lhe desciam pelo rosto cansado.


(TERRAS DO SUL)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA - Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município.

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quarta-feira, 17 de julho de 2019

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Guilherme de Almeida - Soneto


Soneto 
  
Hoje – voltas-me o rosto se a teu lado passo; 
E eu baixo os meus olhos se te avisto;
E assim fazemos, como se com isto
Pudéssemos varrer nosso passado.

Passo, esquecido de ter de te olhar, coitado!
Vais – coitada! esquecida de que existo,
Como se nunca tu me houvesses visto,
Como se eu sempre não te houvesse amado!

Se acaso sem querer nos entrevemos,
Se, quando passo, teu olhar me alcança,
Se os meus olhos te alcançam quando vais ...

Ah! só Deus sabe e só nós dois sabemos!
Resta-nos sempre a pálida lembrança
Daqueles tempos que não voltam mais!


(GUILHERME DE ALMEIDA)
Messidor, XXVII

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GUILHERME DE ALMEIDA

            Poeta da moderna geração, nascido em Campinas em  24/7/1890, membro da Academia Brasileira de Letras (Cadeira 
nº 15). Publicou diversos livros de poesias, dentre os quais: Nós (1929), Livro das horas (1929), Messidor (1919), Livro das horas de Soror Dolores (1920), Era uma vez (1922), A frauta que eu perdi (1924), Natalika (1924), Poesias escolhidas (1931), Você (1931).

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ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO: SÃO JORGE – Nelson Gallo


           Aconteceu há muito tempo. Montado no seu cavalo de estimação, o homem trotava pela estrada de Itajuípe para Itabuna quando encontrou um amigo andando a pé em sentido inverso. Cumprimentaram-se, depois o homem que seguia a pé indagou do outro para onde se jogava.

             - Vou à Ilhéus.

             - E ainda espera chegar hoje?

             - Com esse cavalinho não preciso nem que São Jorge me ajude prá chegar antes das sete da noite - respondeu o cavaleiro.

            Cumprimentaram-se e cada qual seguiu o seu caminho. Menos de cem metros depois o cavalo caiu, jogando o cavaleiro no chão. O homem levantou-se, sacudiu a roupa e, esfregou a perna contundida, depois se ajoelhou na estrada e rezou:

            Meu São Jorge, eu só tava pilheriando. Será que vosmincê é assim tão mardoso que se zanga com quarqué pilherinha boba que a gente faz?

            Montou novamente e, durante o resto da viagem, a todos que lhe perguntavam para onde ia ele respondia:

            Pra Ilhéus, se São Jorge quiser...


(O SORRISO DO CACAU)
Nelson Gallo

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terça-feira, 16 de julho de 2019

NOITE DE CHUVA – Ariston Caldas


  
        
Escorou-se à janela na esperança que o tempo melhorasse. Era uma noite feia, sem estrelas, entremeada por uma chuva fina, incessante, empoçando as ruas, dificultando o trânsito das pessoas; tudo deserto, as biqueiras num trós-trós, às vezes cadenciado, outras sem ritmo, assustando; lâmpadas opacas entre os chuviscos, por trás das vidraças, penduradas pelos postes, ornamentando a torre de uma igrejinha no centro da praça principal. “Parecendo início de Semana Santa”, pensou, chateado, acendendo um cigarro; ajustou pelo corpo uma capa preta, ajeitou o chapéu, decidindo enfrentar o temporal miúdo e incessante que o impacientava. Saiu cauteloso, desviando-se das poças; a capa preta, de oleado, emitia um brilho semelhante à pele de sanguessuga, ante os reflexos das lâmpadas mortiças, entre a penumbra orvalhada pela garoa que ele parecia infinita.

            Enquanto caminhava, lembrou com desgosto da vida militar, onde passou cerca de um ano, contrariado, obedecendo ordens de superiores hierárquicos, cumprindo tarefas insuportáveis; lembrou das fardas mal lavadas , cheirando a sujo, dos alojamentos abafados, das camas enfileiradas parecendo de enfermaria; da ordem-unida, da física, manhã cedinho, quando  camaradas cheirando a suor escanchavam em seus ombros; da petulância e do pedantismo de alguns graduados aos gritos, orgulhosos até às batatas das pernas. Via-se às voltas com o cabo Evaristo, baixinho de pernas tortas, bruto, enfarruscado: “Você aí, seu cara de sergipano!”

            O tenente Costa, de cavanhaque louro e óculos com aros finos dourados, bigode com pontas viradas, montado num cavalo esquipador, desfilando nas folgas pela avenida beira-mar. Em compensação, quando deixou a farda, era dono de uma carteira de primeira categoria. No dia do licenciamento, mesmo sem dinheiro, passou a noite badernando pela rua, em companhia de alguns companheiros também licenciados.

            A chuva trazia-lhe essas recordações súbitas. Tentou esquecê-las dando um muxoxo. Veio-lhe à memória a morte do tio Eusébio com uma úlcera no estômago. Parecia ver o cenário em seu redor, a sala humilde onde se dera o passamento, a chegada do tio numa rede enforquilhada conduzidas por dois homens com as camisas atadas a cintura, suados; dia chuvoso, à tardinha, o tio soltou o último suspiro. Ao redor da cama, a mulher e dois filhos, ela chorando, calada, vez em quando enxugando o rosto com um lenço branco, encardido; os dois meninos, assustados, sem afastarem os olhos do pai espichado, feições fundas, barba crescida. Fora, caía uma chuva fina, incessante, com rajadas de vento frio. No dia seguinte, acompanhou o enterro e assistiu, de olho duro, descerem o tio dentro de um caixão preto sustentado por cordas, para o fundo de um buraco; um negro musculoso e careca enchia uma pá de terra e ia entulhando a cova, barulho fofo ruía no fundo a cada batida do barro sobre o caixão; pessoas presentes falavam coisas que se repetem nessas ocasiões, “Deus lhe abra as portas do céu”. “Coitado, finalmente descansou”. Parecia ver, naquele instante, o pequeno grupo de pessoas cabisbaixas saindo pela porta da frente do cemitério onde o tio ficaram para sempre.

            De súbito, levou um escorrego, mas não caiu. A lembrança do enterro afastou-se, a chuva fina insistia. As goteiras pingavam, as lâmpadas pelos postes de madeira, embaciadas, a capa preta de oleado esfriava. O dia seguinte seria domingo, dia de descanso; iria, como de costume, arrumar o quarto, ajeitar as roupas, separar as que iam para a lavadeira; lustrar os sapatos, assistir a algum programa de televisão, aguardar outra segunda-feira chata, entre as mesmas caras, repetindo contas, arrumando coisas no escritório cheio de livros, computadores, o gerente no compartimento ao lado, de óculos brancos, gravata, bem penteado.

            Lembrou do salário pequeno, dos preços das coisas aumentando a cada dia. Olhou para o céu sem estrelas, nem nos confins dos horizontes turvos, sem paisagem. Uma amendoeira próxima atinou-lhe que estava chegando à casa de Juanice, moça que conhecera havia pouco tempo. Desabotoou a capa de oleado, escorreu por ela as mãos frias, espanando os chuviscos impregnados na superfície. Arrancou a ponta de cigarro dentre os beiços e atirou-a numa poça d'água próxima a um poste da rede elétrica; tirou o chapéu. Subiu para o passeio, três passos e bateu com veemência à porta da namorada: “Sou eu, Juanice!”.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)
Ariston Caldas

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UNIVERSIDADES PÚBLICAS - Reforma Administrativa


Os Reitores receberam convocação para uma reunião com o Ministro da Educação na próxima semana, a fim de tomarem conhecimento da Reforma Administrativa que será implementada pelo atual governo. Com relação às Universidades Públicas, estas deixarão de ser Autarquias. Ou seja, não estarão mais subordinadas ao regime jurídico de direito público.  Com isso, uma política de cobrança de mensalidades será implantada, e as contratações passarão a ocorrer pelo regime celetista ou de contratos temporários.

"Governo anunciará programa para autonomia financeira de universidades

O governo federal lançará na quinta-feira da próxima semana um novo programa voltado ao ensino superior, chamado de Future-se, disse ao Valor o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Arnaldo Barbosa de Lima Júnior.

O programa terá como objetivo o ‘fortalecimento da autonomia financeira das universidades e dos institutos federais’, afirmou nesta quarta-feira o secretário, durante participação na Conferência Internacional sobre Financiamento Vinculado à Renda. O evento é promovido em parceria entre o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Universidade Nacional Australiana (ANU) e a Embaixada da Austrália no Brasil.

Em curta apresentação, ao mencionar o programa pela primeira vez, o secretário afirmou apenas que um dos eixos será a ‘internacionalização’ do ensino superior. ‘Então, vamos ter muitas conferências como essa’, disse.

O tema central do evento é um programa implantado pelo governo australiano no fim dos anos 80, quando o modelo de ensino superior do país deixou de ser totalmente gratuito para se tornar híbrido, com o estudante arcando por parte dos custos de sua formação ao longo da vida.

Lima Júnior mostrou simpatia pela ideia durante o discurso. ‘Não há cursos gratuitos, os pagadores de impostos pagam por esses cursos’, afirmou".

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segunda-feira, 15 de julho de 2019

A PERDA DO REI SALOMÃO - Arnaldo Niskier

Salomão Schvartzman foi uma das maiores figuras do jornalismo brasileiro.  Nascido em Niterói (de que muito se orgulhava), filho do seu Jaime, que era dono de uma loja de móveis no Engenho Novo, entrou para o jornalismo pelas portas de O Globo, onde começou como repórter.

Conheceu Adolpho Bloch numa feira de indústria gráfica, na Alemanha, quando recebeu o convite para trabalhar na Manchete, o que aconteceu por mais de 30 anos.  Anos felizes, podemos garantir sem qualquer dúvida. Salomão dirigiu a sucursal de São Paulo, com muita competência. Nos seus discursos, Adolpho costumava homenagear o consagrado jornalista com o título de “rei Salomão”. Todos riam dessa brincadeira.

Sempre tive por ele grande amizade e até uma dosagem elevada de confidencialidade.  Falávamos praticamente todos os dias, para além dos temas meramente profissionais. Por isso é fácil imaginar o quanto senti o seu falecimento, no último dia 6, no Hospital Albert Einstein.  Apagou-se uma inteligência fulgurante, que nos últimos anos trabalhava na Rede Band de Rádio. Era também um amante de música, tocando piano como se fosse um profissional. A sua falta será sentida particularmente pela Ana, pelo filho Marcelo, pelos irmãos Nathan e Belinha, e por todos os seus incontáveis amigos.

Ainda há pouco, o governador João Dória foi homenageado com um bonito jantar, no Rio de Janeiro.  Ao me ver, a primeira coisa que disse foi: “Como vai o nosso Salomão?” Tinha por ele também uma grande estima.

Lembro de um evento que promovi na Academia Brasileira de Letras, quando no exercício da presidência da Casa de Machado de Assis.  Entre os convidados para falar estava o Salomão. O tema era “A contribuição dos judeus ao desenvolvimento brasileiro”. A palestra do meu amigo, formado em Direito e Sociologia, foi como sempre brilhante, arrancando do público demorados aplausos.  Seu tema: “A aventura de Gaspar da Gama” foi desenvolvido com a competência de sempre:

“A história dos judeus na Península Ibérica se confunde com a história dos descobrimentos… Sabemos que entre 1492 e 1496 os judeus peninsulares são perseguidos, expulsos ou forçados a se converter ao cristianismo… Apesar de tudo eles resistiram e Gaspar da Gama ou Gaspar das Índias foi uma figura de contornos épicos… Ele descendia de uma família de judeus poloneses, originários da cidade de Posna, de onde fugiram da conversão obrigatória e da Inquisição. Homem de ação e não de pensamentos, Gaspar da Gama tornou-se um dos principais nomes da história das expansões portuguesas, chegando a ser decisivo, por exemplo, na descoberta do Brasil.  Com ele se iniciou a história do Brasil português, o que foi muito bem descrito nos estudos pioneiros de Elias Lipiner.”

Salomão Schvartzman, excepcional ser humano, foi um grande jornalista e também um estudioso das questões judaicas, de preciosa contribuição à nossa cultura.  Desejo que ele, onde estiver, seja feliz, como sempre terminava suas crônicas.

Tribuna do Agreste, 15/07/2019


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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