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sexta-feira, 14 de junho de 2019

UM FATO INESQUECÍVEL - Sherney Pereira


           Inácio Mendonça chegara para fixar residência no arraial: era um cidadão muito gentil, e de repente passaria a conquistar a amizade de todos. Figura por demais simpática, apesar de ser um sexagenário notava-se que era um homem saudável, e com muita disposição para o trabalho.

            Tinha por companheira dona Laura, uma senhora muito bonita, ainda no esplendor da sua juventude. Em companhia do casal, moravam duas lindas mocinhas: a mais nova chamava-se Ana e era filha do casal; Ângela, a mais velha, embora gozasse do mesmo carinho de Inácio, viera para sua companhia, ainda pequena. Ao chegar ao arraial, ele solicitou de Antônio de Arcanjo, um terreno para construir uma casa, no que foi prontamente atendido, pois o caboclo jamais negara um pedaço de terra alguém.

            Num curto espaço de tempo, construiu uma casa tipo chalé, onde passou a viver, na mais absoluta tranquilidade, com a sua família. Mais tarde, vendo que a tendência natural da fazenda era tornar-se um povoado, sentiu a necessidade de implantar um armazém de secos e molhados, que atenderia aos moradores do lugar, tirando-os do incômodo de terem que fazer as compras em Ilhéus ou Itabuna. Inácio logo modificou o aspecto da sua casa: abriu três   portas de frente, e fez dali um grande ponto comercial.  A partir daquele instante, estava surgindo a primeira casa de negócios na Fazenda Boa Vista, realmente uma grande iniciativa.

            Havíamos chegado naquela localidade, não fazia muito tempo. O meu pai logo tornou-se um dos seus assíduos fregueses, ganhou a credibilidade de Inácio, e passou a comprar fiado no seu armazém. Confesso, saudoso, que eu era fã incondicional do negociante: aos sábados íamos fazer as compras. Eu fazia questão de acompanhar o meu irmão mais velho, porque na verdade eu gostava do seu jeito simples e prestativo; admirava-o pelo zelo com que ele tratava os seus clientes. Havia outro detalhe que me empolgava: era quando ele pegava a sua pena para fazer as devidas anotações. Cidadão assaz instruído, sabia contar e escrever muito bem, o que me deixava boquiaberto pela habilidade com que o fazia, mergulhando intermitentemente a velha pena no tinteiro.

            Tenho certeza de que Inácio também gostava de mim, e digo isso porque, quando eu ia a sua venda, saía de lá com os bolsos cheios de caramelos. Inácio jamais mereceu ser traído, no entanto, qualquer descuido era fatal: eu roubava-lhe as bananas, para comê-las com farinha no caminho de casa, e por sorte minha ele nunca desconfiou. Se porventura ele descobrisse as minhas artimanhas, a nossa amizade estaria rompida para sempre. Seria uma calamidade.

              Vale registrar aqui um episódio, que, se não tem algo de fascinante, no entanto marcou bastante a vida pura e imaculada do arraial, porque esse fato, - para muitos desagradável, - envolveu a família de Inácio Mendonça.

                Lá prás bandas do Japu, - distrito de Ilhéus, - havia um pequeno fazendeiro por nome de José Laudelino. Um jovem simpático, bastante educado, e de família tradicional que, a exemplo de outros posseiros daquela região, escoava o produto da sua fazenda no lombo dos animais, passando pelo arraial da Fazenda Boa Vista. Na época das “cheias”, a coisa tornava-se mais difícil e penosa, poiso o Rio Cachoeira dificultava o comércio dos fazendeiros, e, consequentemente, afetava diretamente os moradores do Salobrinho, que ficavam impedidos de usarem a farinha de mandioca e congêneres. Inácio comprava a farinha e o cacau de José Laudelino, e foi através das negociações, que se tornaram grandes amigos. Tamanhas eram as afinidades, que o rapaz de já tinha acesso livre à sua residência e paralelamente gozava do prestígio e confiança da família. A cada dia que passava, o relacionamento aumentava: eis que num lampejo, o jovem percebera que estava apaixonado pela mulher do amigo e, para maior ilusão, viu também que estava sendo correspondido na sua paixão desenfreada.

            Os dias passavam, e Inácio continuava indiferente àquele romance, porque sempre acreditou na fidelidade da sua mulher e jamais passaria por sua cabeça que a companheira de tantos anos lhe trocasse por outro homem de uma hora para outra.  Um dia, porém, desconfiado do tratamento delicado e excessivo que Laura dedicava José Laudelino, Inácio pôs-se a duvidar da sua fidelidade. Entre ambos existiria mais do que uma simples amizade, pensou ...

            Assim, depois de uma meticulosa investigação, usando a todo momento a discrição que lhe era peculiar, ele chegou à conclusão de que já não mais havia motivos para duvidar de nada.

            Era uma manhã de sábado. Sob um sol escaldante, José Laudelino chegava do Japu, sem dar demonstrações, mas cheio de saudade da mulher amada. Estava cansado da longa viagem. Fatigado do sol verão, apeou do cavalo, e depois de atrelar os animais ao mourão, subiu célere as escadas do armazém. Sempre sorridente, foi logo saudando os fregueses que ali estavam, e penetrou no lar de Inácio. Com toda serenidade disponível, Inácio atendeu tranquilamente aos seus clientes e, em seguida, foi ter com o “galã”, que àquela altura encontrava-se confortavelmente sentado na sala de espera conversando com Laura.

            Inácio, calmamente, sentou-se ao lado de José Laudelino, passou a mão ainda suja de pó de farinha pelos cabelos e, dando um tapinha amistoso na nas costas do mancebo, disse taxativo: “Zé, sei que estás apaixonado... Farei o teu casamento com Laura”. Surpreso, ante a atitude inusitada do comerciante, Zé ficou estático, fingindo não haver entendido nada que ele dissera. Procurou controlar-se, porque devido ao susto, sentira que havia perdido a fala e, só depois de alguns instantes, quando reunira condições de se pronunciar, foi aproximando-se da porta que dava acesso à rua e, um tanto desconcertado, perguntou em tom desesperador:

            - O que está acontecendo, sêo Inácio? Está ficando maluco?

            - Calma, companheiro! - disse Inácio procurando tranquilizá-lo, - não tenha receio, pois não vejo nisto nenhum absurdo: já estou velho, e seria para mim a maior felicidade, esta união.

            Laudelino, visivelmente nervoso, respirou mais aliviado, e agora, tentando fugir do assunto, aproximou-se do balcão e, esboçando um sorriso sem graça, foi perguntando: quantos sacos de farinha vai querer, ‘sêo’ Inácio? Entendendo o embaraço do Zé, ante tal situação, o velho resolveu deixá-lo à vontade, porque tinha a certeza de que aquela história não terminaria ali.

            Não demorou muito para o dia do casamento. O povo do arraial, ao tomar conhecimento do fato, passou a lançar críticas das mais contundentes em forma de repúdio à atitude daquele homem, e até teciam comentários sobre o seu excesso de calma, e mormente a maneira com que aceitava tamanho escândalo. Ninguém aprovou o comportamento de Inácio, ao entregar, sem nenhuma repulsa, sem qualquer resquício de violência, a sua mulher a um aventureiro qualquer. Aquele era um caso inédito na vida pacata do Salobrinho, e representava um desrespeito, um ato sórdido e covarde para as famílias puritanas dali.

            Foi dessa maneira que Laura deixou a companhia do seu marido, sem constrangimento e sem remorso de ambas as partes. Ele aceitara tudo aquilo com a maior naturalidade, e depois de ter participado do casamento da sua própria mulher, passou a viver sozinho, lutando pela sobrevivência, como se nada tivesse acontecido. Acossado pela doença, viria a falecer, depois de muitos anos, num dos hospitais de Ilhéus. De qualquer forma, Inácio foi uma figura importantíssima no desenvolvimento do Salobrinho, por ter sido um dos seus fundadores. A ele rendamos póstumas homenagens, pelos relevantes serviços prestados à comunidade. Quanto à José Laudelino e dona Laura, eles formaram um casal muito feliz, e atualmente residem no mesmo distrito. A casa que outrora pertenceu a Inácio Mendonça, ainda existe, como reminiscência de um passado que já vai distante. Ressalte-se que esta casa sofreu grande reforma e está atualmente transformada numa moderna residência.

(SALOBRINHO – ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO)
Sherney Pereira
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Sherney de Souza Pereira nasceu a 11 de outubro de 1948 no eixo Ilhéus/Itabuna, mais precisamente no município de Ilhéus. É cordelista, com vários trabalhos publicados e autor do Hino da Universidade de Santa Cruz, premiado em concurso público por ocasião do 4º aniversário da FESPI.
          
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AQUELE MEU BRASIL - Guilherme Félix de Sousa Martins


14 de junho de 2019
Profetas do Aleijadinho, em Congonhas do Campo [Foto: L.G. Arroyave]

Guilherme Félix de Sousa Martins

É possível sentir saudade de uma época na qual não se viveu?

Talvez os especialistas se aferrem à resposta negativa, mas certo mal-estar que por vezes tem me assaltado pode muito bem ser decorrente de saudade como essa. Devo esclarecer que não se trata de um mal-estar qualquer, é de fato um grande mal-estar. E não é só meu, como já tive oportunidade de comprovar fartamente, embora eu talvez possa considerar-me um dos poucos que ousa desabafar. Compartilho o problema com uma vasta multidão contaminada por verdadeira saudade epidêmica. Uma epidemia salutar — perdoe-me mais este paradoxo.

A grande mídia não pôde ignorar um brado constante nas manifestações multitudinárias de anos recentes: “Quero o meu Brasil de volta!” [foto abaixo] A voz altissonante de uma numerosa ala jovem se incorporava a esse coro efusivo, em protesto contra um estado de coisas esclerosado, indesejável, incômodo. No entanto, é bem verdade que a grande maioria desses jovens viveu boa parte da vida nesse estado de coisas. Põe-se então a pergunta: Querem a volta de qual Brasil, se não viveram em outro?

Que Brasil é esse que tanta falta lhes faz? Seria o Brasil dos governos imediatamente anteriores à vitória eleitoral da seita vermelha, cujos tentáculos o estrangularam até impor o desastre quase completo? Não, não pode ser aquele Brasil tão próximo do atual, pois durante esse período a hidra esquerdista parecia controlada, mas nas profundidades já caminhara e se estabelecera em grande medida.* Não apenas lhe haviam sido abertos os caminhos da política, mas em profundidade os valores tão caros aos brasileiros autênticos foram sendo persistentemente cerceados e vitimados por um constrangimento constante e avassalador.

Permita-me voltar ao meu desabafo. Por mais que me inspire grande esperança, o rumo novo que vem tomando o País (em boa medida, algo semelhante ocorre em todo o Ocidente) não tem o condão de me tranquilizar. Transformações políticas são um bom começo; mas o caminho é longo, e os males a debelar são de origem muito profunda.

Meu Brasil — o mesmo Brasil que a imensa maioria dos bons brasileiros deseja — não é o do tecnicismo sem barreiras, despreocupado da dignidade do próprio homem e destruidor de seus sentimentos. Também não é o império da extravagância, nem o da imitação de modas alienígenas. Não é de tais “libertações” que necessito. Meu Brasil não combina também com o gozo debochado, nem com orgias ostentadoras da luxúria, aliada agora ao satanismo.

De tanto desabafar, parece-me que vou conseguindo explicitar as causas da minha saudade nostálgica. Não sinto falta de planos econômicos bem-sucedidos, de sistemas de educação ou saúde eficientes. Necessito de segurança, é claro, mas não essa de cuja falta tanto se fala. Refiro-me à segurança trazida pela solidez das instituições, pelas relações humanas bem estabelecidas, pelo alto padrão da formação psicológica. O pressuposto óbvio, o elemento fundamental de tudo disso é a Fé — sim, com letra maiúscula, na sua integridade, sem respeito humano. Refiro-me a essa Fé que nos vem sendo roubada – por vezes até dentro do templo sagrado, dói dizê-lo – por aqueles que deveriam ser seus próprios guardiães. Única Fé capaz de moldar ou refundar toda uma civilização.

Civilização cristã! Palavras sonoras, fecundas, benditas. Só a conheço pelo estudo atento da História, mas inegavelmente é disso que sinto saudades… Um passado não vivido por mim, mas que renascerá ainda mais belo no Brasil do Imaculado Coração de Maria, depois do seu triunfo! O Brasil da Senhora Aparecida. O Brasil Terra de Santa Cruz!

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* Cf. Manifesto O Brasil em Histórica Encruzilhada, de 29 de março de 2016. Disponível em: https://ipco.org.br/wp-content/uploads/2016/03/IPCO-O-Brasil-em-hist%C3%B3rica-encruzilhada.pdf


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quinta-feira, 13 de junho de 2019

ITABUNA CENTENÁRIA PELA SUA SAÚDE: Naturopatas recomendam esta dieta


Limpa suas artérias e faz você perder até 4 quilos em apenas 5 dias!

Esta dieta é conhecida como "detox alcalino".
Ela dura cinco dias e, além de desintoxicar o corpo e alcalinizar o sangue, ela ajuda a emagrecer.
O resultado é, ao término dela, um organismo muito mais leve saudável.

Veja como é simples:

Ao levantar
Em jejum, tome suco de limão puro com um copo água e sem açúcar. Permaneça sem tomar ou comer nada durante meia hora.


Café da manhã
Sugestões: coalhada pura ou com mel; banana ou abacate amassados com aveia (ou linhaça dourada, ou pólen); vitamina de mamão de outra fruta, feita só com água e um pouco de mel; frutas, uma qualidade de cada vez; para quem faz trabalhos pesados, batata-doce ou cuscuz com coalhada ou com leite de coco ou um ovo cozido; vitamina com leite de girassol ou gergelim.
Uma hora depois de comer, fique tomando água ou água de alho de meia em meia hora (quem tiver pressão baixa, não pode tomar água de alho).
A propósito, é muito importante durante a dieta consumir muita água todos os dias (no mínimo, dois litros).
Se for água alcalina, melhor ainda.


Almoço
Coma verduras cruas (de preferência orgânicas), no mínimo três tipos de folha, como alface, acelga, broto de alfafa, coentro, couve, repolho, rúcula, folhas de batata-doce, de beterraba ou de cenoura; e raízes, como cebola, cenoura, beterraba, rabanete, nabo.
Use também quiabo, chuchu, pimentão, tomate, entre outras.
Rale as raízes; as folhas podem ser cortadas ou não.
Coloque o tempero na hora.
Tempere com limão, alho, óleo (extravirgem de coco, extravirgem de oliva, extravirgem de girassol ou extravirgem de linhaça) e complemente com gergelim torrado e moído; ou ainda com maionese caseira.

– Receita de maionese caseira:
2 batatas-inglesas grandes
2 cenouras grandes
Cozinhe as batatas e as cenouras no vapor.
Deixe esfriar um pouco e liquidifique com um pouco de água, óleo, cebola ou alho, tempero verde, sumo de limão e sal.
Está pronta para usar.
Em vez da batata-inglesa, você pode usar berinjela cozida; somente cenoura, sendo duas cozidas e meia crua; tomate e gergelim; abóbora cozida; feijão branco cozido; grão-de-bico cozido.

Prosseguindo com o cardápio do almoço, consuma também pratos cozidos, como arroz integral, feijão, abóbora, macaxeira.
A proteína é apenas uma pequena porção de filé de peixe ou de peito de frango caipira.
Coma primeiro os alimentos crus e depois os cozidos.
Evite sobremesa doce logo após o almoço.
Mastigue bem todos os alimentos, sobretudo os crus.


Lanche
Uma fruta como maçã, melão (apenas uma fatia) ou pera.


Jantar
Sugestões: verduras (como no almoço), sopa de legumes, banana amassada com aveia ou banana amassada com linhaça dourada moída.
Observação: A banana pode ser substituída por abacate.
Acrescente à banana ou ao abacate uma colher de sopa de pólen ou de linhaça triturada na hora.


À noite (uma hora depois do jantar)
Uma colher (sopa) de mel puro.


Antes de dormir
Uma xícara de chá.
Sugestões: alecrim, hortelã, erva-doce, artemísia, losna, alfazema, camomila, boldo, carqueja, eucalipto, feno-grego.
O chá pode ser puro ou misturado: alecrim com eucalipto, alecrim com alfazema, erva-doce com hortelã, camomila com erva-doce, camomila com hortelã, camomila com boldo, boldo com erva-doce, carqueja com camomila, losna com erva-doce, losna com camomila…
Se fizer com losna, use uma quantidade muito pequena da planta, para que o chá não fique muito amargo.

Esta dieta deve durar apenas cinco dias.
Tempo suficiente para você perder peso e reequilibrar o pH do sangue.


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TARSILA E A ANTROPOFAGIA - Arnaldo Niskier


Duas grandes surpresas marcaram a nossa visita ao MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), para assistir à exposição de Tarsila do Amaral. A primeira foi a alegre presença de dezenas de crianças de 6 a 7 anos na plateia, com professoras entusiasmadas explicando o significado da antropofagia. Nesse momento, fui tomado pelo sentimento da nostalgia, pois lembrei a minha passagem pela Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, de 1979 a 1983, quando pude desenvolver projetos que buscavam valorizar as artes plásticas nas escolas, para que a criançada começasse, desde cedo, a valorizar os nossos artistas.

Lançamos na época o Plano de Ação de Educação e Cultura (PAEC), relacionando diversas ações para os dois setores. O plano quadrienal conseguiu grandes avanços, incorporando e revitalizando o acervo cultural dos municípios, através das atividades curriculares. Em relação às artes plásticas, organizamos visitas orientadas e dinamizamos os nossos principais museus e também desenvolvemos projetos educativos de montagens de exposições (fixas e itinerantes), formando com isso novos públicos para as manifestações culturais e artísticas do Estado do Rio de Janeiro. Proporcionamos aos alunos contato com instituições como o Museu Nacional de Belas Artes, Museu Histórico, Museu da República, Museu de Arte Moderna e Museu Imperial. Essas são boas lembranças do Rio de Janeiro que me chegaram graças à imagem das crianças na exposição de Tarsila do Amaral, em São Paulo.

A segunda surpresa foi a presença do quadro “Abaporu” no local. Através de sua dimensão até certo ponto pequena (85 cm x 72 cm), essa pintura de óleo sobre tela nos mostra a grandeza da nossa artista, que a produziu nos anos 1920, no auge do chamado período antropofágico do movimento modernista.

Apesar de hoje ser o quadro brasileiro mais valioso no mercado mundial, à frente de obras de monstros sagrados como Guignard, Cândido Portinari, Lygia Clark, Milton Dacosta e Alfredo Volpi, infelizmente, o “Abaporu” não nos pertence mais. Em 1995, a tela foi adquirida por um colecionador argentino, por US$ 2,5 milhões, num concorrido leilão realizado na Christie’s, uma das empresas de arte mais importantes do mundo, localizada em Londres, no Reino Unido. Atualmente, em valores atualizados, está valendo mais de US$ 40 milhões. Observem a valorização da obra nesses 24 anos. A nova casa do quadro de Tarsila do Amaral é o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires (MALBA), que gentilmente a cedeu para a exposição “Tarsila Popular”.

Dizem que o quadro foi pintado por Tarsila do Amaral para ser ofertado como um presente de aniversário ao seu então marido, o escritor Oswald de Andrade. Outra história bonita está relacionada ao nome da obra. Oswald e o poeta Raul Bopp (autor do livro “Cobra Norato”) capricharam na hora de dar um título para a obra-prima do modernismo brasileiro. Tudo foi muito bem articulado, até chegar a “Abaporu”, que veio à tona com a união de três termos em tupi guarani: aba (homem), pora (gente) e ú (comer), que significa “homem que come gente”. Logo depois foi criado o movimento antropofágico, que se notabilizou por absorver os ingredientes da cultura estrangeira e depois fazer a devida adaptação para a realidade brasileira, “devorando” as más influências, quando necessário. Alguns especialistas também costumam fazer uma analogia da obra de Tarsila do Amaral com “O Pensador”, a famosa escultura de bronze do francês Auguste Rodin. Acho pouco provável, mas o que importa é que são duas grandes obras universais.

Tribuna do Sertão,10/06/2019


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Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

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quarta-feira, 12 de junho de 2019

CONTOS MÁGICOS – Cyro de Mattos

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Contos Mágicos
Cyro de Mattos

           Denise Emmer é compositora e violoncelista, ficcionista e poeta. Pensa o mundo pelo som quando usa a linguagem abstrata da música. Procede em instante mágico quando cria prosa de ficções breves. É ficcionista dotada de um caráter apurado do belo, que a faz possuidora de uma compulsão admirável para narrar o mundo. Escritora de linguagem fascinante, com a sua tendência em transfigurar, poetizar e gostar dos seres.  Escrever contos para essa autora de ritmo atraente é sua forma de “clarear o desalento, as angústias, os seres solitários”.  Construir inventos com os meios propícios à fatura harmoniosa de metáforas, ideias, cenas desconcertantes. Sua linguagem, que mora na asa do tempo, simboliza naufrágios, solidões, impulsos nas zonas suspensas do sonho.

        Em “O Primeiro Rei”, por exemplo, o personagem alude ao mundo como um resumo do sonho. Se tudo é essa ilusão, entre o viver e o morrer, saber sonhar é preciso. É o que deixa transparecer Denise Emmer, nas cenas que se inundam de poesia e música, de forças estranhas, configuradas em desencontros, ausente de explicação do inevitável, no lugar de um cenário humano com reflexo do todo ideal.

        Em “Escadaria de Pedras”, outro de seus contos com sabor de obra-prima, latejante  de dor e possibilidades difíceis,   à certa altura  o texto diz,  para  aliviar o conflito de que a mãe é portadora,  que se oferte  suas flores à noite, pois a ela restava encontrar “a velada beleza da morte.” Em “Sem Começo, Sem Meio, Sem Fim”, Ninguém é um ser de complexa forma e mente estranha. Um velho cansado dele mesmo, para ele “o dia não começa no dia. Se já é dia, com sol alto e galos vermelhos, também poderá ser noite.”

       Denise Emmer logra extrair fantasia da matéria obscura no mundo. Sua consciência lúcida sabe  que passam os invernos e os outonos como estações de solidão e mesmo as primaveras com flores pálidas e cantos pobres, “enquanto os verões afogam a criatura humana de tristeza.” Em “Ensaio Geral”, conto em que entra na tessitura da situação uma música feita de impetuosos sentimentos,  o  traje preto  iguala os componentes da orquestra a uma noite sem janelas. As melodias entrelaçam-se como contraponto de sonoridades ardorosas, e a grande música há de revelar as melhores criaturas, felizes, entre os acordes de ilusões. Em “O Cavalo Cantor”, tão lindo e raro, ele pode ser chamado por vários nomes, menos o de Morte.  Isso vai acontecer uma vez, assim que ele empinou bravio. Houve um voo súbito, com as estrelas puxadas para as suas patas. Livres, a viajante e seu cavalo estrelado galoparam para o eterno.


         No Brasil, o realismo mágico tem como valores maiores José J. Veiga e Murilo Rubião. Essa tendência ou estilo aparece agora nos contos de Denise Emmer.  O Cavalo Cantor e Outros Contos é um livro excelente. O seu realismo fantástico, de natureza poética, sobra na inventiva e narrativa belíssima. É puro brilho de criatividade, rico nas imaginações que encantam. Ergue-se da razão emotiva sem esforço, produz surpresas esplêndidas. Faz-se engenho e arte por boas mãos. 

*Cyro de Mattos é ficcionista, 
poeta e ensaísta.

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terça-feira, 11 de junho de 2019

HAROLDO COSTA FAZ PALESTRA NA ABL SOBRE O TEMA ‘VOZES D’ÁFRICA NA MÚSICA BRASILEIRA’



O ator, jornalista, escritor e produtor cultural Haroldo Costa faz, na Academia Brasileira de Letras, a segunda palestra do Ciclo “Vozes d’África na cultura brasileira”, coordenada pelo Acadêmico e professor Domício Proença Filho. O evento está programado para o dia 13 de junho, quinta-feira, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson, 203, Castelo.

Haroldo Costa comentou, sucintamente, do que tratará em sua conferência: “Na palestra que farei sob o título ‘Vozes d’África na cultura brasileira’, abordarei os primórdios da música brasileira desde os tempos coloniais e a participação efetiva do negro neste contexto histórico. Personagens e movimentos musicais, chegando até o século 21, serão focalizados por intermédio da dimensão de sua contribuição à arte musical brasileira.”

A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora geral dos Ciclos de Conferências de 2019.

Serão fornecidos certificados de frequência.


O CONFERENCISTA

Ator, jornalista, escritor e produtor cultural, Haroldo Costa protagonizou a peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes. Atuou, ainda, no “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna (Acadêmico da ABL de 1989 a 2014). Na TV Globo, dirigiu os programas “Musicalíssima”, “Oh, que delícia de show”, “Dercy espetacular”, “Discoteca do Chacrinha”, “Concertos para a juventude”, entre outros.

Haroldo Costa criou a Companhia de Danças Folclóricas e Populares Brasiliana, com a qual viajou por 125 países. Escreveu nos jornais Última Hora, O Globo, Para todos, Leitura. Dirigiu o espetáculo “Brasil canta e dança” produzido pela TV Globo. Haroldo Costa é autor de 15 livros, entre eles: Fala crioulo, 100 anos de Carnaval no Rio de Janeiro, Política e religiões no carnaval, Salgueiro: Academia de samba, Ernesto Nazareth – pianeiro do brasil. Participou no júri do Estandarte de Ouro do jornal O Globo.

06/06/2019


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PERDI O TEMOR – Agnaldo Guimarães



Perdi o temor à chuva. E assim ganhei o frescor da água. Perdi o temor do vento. E assim ganhei o seu cantar nos fios. Perdi o temor ao silêncio. E assim ganhei momentos de paz. Perdi o temor ao julgamento dos outros. E assim ganhei caminhos mais abertos de liberdade.

Perdi o temor de investir tempo em coisas sem importância. E assim ganhei entardeceres, estrelas, pedaços de luar, águas rebrilhando ao sol, retalhos de canções... Perdi o temor de dar-me integralmente, temendo sofrimentos e cicatrizes. E assim ganhei a bendita multiplicação do meu tempo. Perdi o temor de expor-me. E assim ganhei mais confiança no que sou e no que podem ser as pessoas. Perdi o apego às coisas materiais. E assim ganhei a alegria da simplicidade.

Perdi o temor à competição. E assim ganhei o sabor das vitórias e os ensinamentos das derrotas. Perdi o temor de desbravar caminhos conhecidos. E assim ganhei novas visões. E horizontes. E novos amigos. Perdi o temor de dizer minhas verdades frontalmente.. E assim ganhei aqueles que a mim eram sinceros e leais. Perdi o medo do dia de amanhã. E assim ganhei o hoje!

Perdi a segurança estúpida das minhas "verdades únicas". E assim aprendi a ouvir os outros. Liberei a força dos meus braços para os abraços fraternos e plenos de carinho. E assim senti multiplicado o imenso e doce poder do amor. Perdi o temor da morte. E assim... ganhei a Vida!


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