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sábado, 16 de setembro de 2017

CHAMEGO: AFETO ANCESTRAL QUE CHEGOU COM OS POVOS BANTOS NO BRASIL

Por Davi Nunes

A transposição do sentimento africano para o Brasil ocorreu muito através das línguas que eles trouxeram para cá. A língua como revestimento sensível da nossa humanidade, transposição dos laços profundos do coração, da ancestralidade afetuosa que resistiu às atrocidades transatlânticas – absurdas ações que duraram séculos. Dois continentes e um mar tingido de sangue, não foram suficientes para destruir a beleza dos sentimentos originários dos diversos povos africanos que chegaram por essas terras.

Os povos bantos, assim, foram os primeiros a chegarem nesse país. De maneira que as línguas da raiz banto: Quimbundo, Quicongo, Umbundo, entre outras influíram de forma substancial na formação do  português brasileiro, conseguiram influenciar nas diversas estruturas do idioma e colocaram na vitrine da fala e escrita signos que nos religam a uma maneira de sentir e pensar africano, que permaneceu e permanece na nossa forma de demonstrar afeto e saber.

Assim, uma das palavras que está dentro dessa raiz estruturante na constituição do português, ou “pretoguês” brasileiro (a qual me atenho aqui) é a palavra “chamego”, ou mais africanamente escrita “xamego”.

O chamego é um sentimento de atração – repuxo civilizatório ancestral íntimo – de negrxs que veio com os povos bantos da África e ganhou campo fértil no Brasil. É lastro de afeto que compõe o ser, é o galanteio e o bem-querer que se bem feito se chega ao xodó para daí se construir o dengo.

Talvez pode se equiparar com a paixão, mas a paixão na cultura ocidental funciona mais como um desalinho dos sentidos, que pode pender para algo bom ou ruim. Entre a tragédia e a benevolência a linha é tênue. Diferente do chamego que é alinho manhoso dos sentidos. É sublimação positiva dos sentimentos. É alinhamento ancestral.

Estar de chamego com alguém é estar preocupado em encantar a pessoa do nosso desejo, há poesia e flerte libidinoso nisso, não é sentimento murcho, preenche a existência. O chamego é força propulsora de beleza, é o religamento dos continentes afastados, que se manifesta no frio que esquenta o espírito a eriçar os pelos.

Além disso, pensando de maneira mais macro, o chamego nas relações familiares e quilombolas é uma prática social de restabelecimento do ser. Se a escravidão e o racismo trouxeram e trazem o banzo – dor e resistência – o chamego cura, reestabelece, dar sentido onde tem desespero. Faz com que se vislumbre o dengo e resista às intempéries estruturais que nos assola no mundo.

Por isso, antes do dengo tem o chamego. Tem que saber “chamegar” para arar o terreno da afetividade na manha, assentar o xodó, fluir de peles, prazeres e fertilidades, entrelaçar corações para erguer de forma suprema o dengo.


Davi Nunes é colaborador do portal SoteroPreta, mestrando no Programa de Pós-graduação em Estudos de Linguagem- PPGEL/UNEB, poeta, contista e escritor de livro Infantil.    

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OS CEM SONETOS DE PILIGRA INSPIRADOS EM JORGE AMADO - Cyro de Mattos

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Os Cem Sonetos de Piligra 
Inspirados em Jorge Amado

                      Cyro de Mattos


          O soneto é uma forma fixa  de poema  com quatorze versos,  dispostos em dois quartetos e dois tercetos.   O último verso é tido como “chave de ouro”,  devendo surpreender e encantar  com a sua revelação no desfecho.  Nessa condição de fechar o soneto com chave de ouro,  o último verso  sustenta a  ideia conduzida nos anteriores.
     
          A paternidade de sua criação é atribuída a Pier  della  Vigna (1197-1249), poeta siciliano,  embora a  primazia da invenção  seja atribuída a outros nomes, segundo os estudiosos. O soneto foi  introduzido em Portugal pelo poeta  Sá de Miranda, no século XVI. Atravessou  anos  na península ibérica com a sua magia e poder.

          O primeiro grande poeta a cultivar o soneto foi Dante, mas coube a Petrarca dar-lhe forma e conteúdo,  imprimindo-lhe uma fisionomia própria, autônoma na estrutura modelar. Combatido pelos vanguardistas, sua febre imperceptível  permanece até hoje,  sendo cultivado com fidelidade por poetas modernos,   com vistas a atingir o nível superior da alma,  como resultado do  micro que logra o máximo  na criação expressiva do poema, que dessa maneira, em breve espaço operacional da criatividade,  sustenta o ser em estado súbito da comoção.
   
          Essa forma de construção poética breve possui duas linhagens: a de Petrarca, composta de estrofes com  dois quartetos e dois tercetos, e a inglesa,  com três quartetos e um dístico.  A língua portuguesa ganhou em beleza e modulações rítmicas,  através do verso decassílabo usado no soneto, considerado  como o mais melodioso e harmonioso. Mas  não se pode esquecer  que há uma variação silábica na confecção dessa criatura minúscula,  chegando ao ponto de ser encontrada até mesmo   com um só verso na poesia modernista de  Cassiano Ricardo, que alia virtuosismo experimental à beleza.
  
          Nascem poetas que se tornam famosos com suas motivações expressas em poemas de fôlego, mas que não deixam de cultivar o soneto. Lembremos de  Dante e Gôngora ontem, Pablo Neruda mais recente.   Outros vates duram pouco tempo no mundo da poesia, saindo de cena cedo  com o timbre peculiar de seu discurso, levando  como pontuação de sua obra os sonetos.
 
          Na língua portuguesa, o soneto tem sido cultivado por poetas que se tornaram referência obrigatória  na arte difícil e delicada de armar a boa poesia, para celebrar a vida e a morte. Em Portugal são exemplos:  Camões, Bocage, Antero de Quental e Florbela Espanca.   No Brasil: Cláudio Manoel da Costa, Gregório de Mattos,  Bilac, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Jorge de Lima,  Sosígenes Costa, Carlos Pena Filho, Vinicius de Moraes  e João Carlos Teixeira Gomes.

          Em  ensaio excelente,  que antecede aos não menos excelentes sonetos do livro O labirinto de Orfeu (2014), o  ensaísta e poeta João Carlos Teixeira Gomes refere-se aos dois epítetos   “sonetoso” e “sonetífero”, criados contra os sonetistas.  Registra uma série de expressões em desfavor das andanças do  rejeitado  poema de quatorze versos:  “refúgio da decadência”, “gaiola da inspiração”, “bestialógico acadêmico”, “muleta da má poesia”, “cabresto da criatividade”, “onanismo poético”, “barbitúrico para insônia”, “sucedâneo de palavras cruzadas”, “museu do bolor  formalista”, “chavão de segunda ordem”,  “formalismo oco e vazio”, “museu de velharias passadistas”.

          Não obstante o comportamento contundente dos que desfazem de  imbatível  criatura nanica,  sua garra  permite que continue de pé, ínfimo caminhante do  sol e da chuva   nos seus modestos quatorze versos,  buscando em sua peripécia métrica atingir o ponto máximo do prazer na alma. Segue  indiferente às acusações e atropelos da legião de fanáticos,  que não o aceitam, sob qualquer hipótese. Teima em habitar com seus lampejos líricos a floresta dos poemas maiores,  de  poetas célebres  com suas criações em versos longos,  vasta quantidade de  estrofes.

          É dado a formar uma sequência  quando  vários poemas são ligados entre si por um tema,  como se deu com os cento e cinquenta e quatro sonetos de Shakespeare. Outra de suas proezas quando escrito em sequência é formar a coroa de sonetos,  uma forma poética composta por 14 sonetos, que têm ligação entre si por um tema. Os  primeiros e últimos versos são versos de um outro (décimo quinto) soneto, denominado soneto-base, ou soneto-síntese.

          A proeza verbal dessa coisinha poética   chegou  agora ao Sul da Bahia através de  A odisséia de Jorge Amado (2015), de Piligra. Trata-se da  reunião de cem sonetos, que contam as veredas de vida percorridas pelo  grande romancista  e  falam dos seus livros  famosos. Retratando episódios de uma vida com maiúscula, incursionando pelos  livros do autor mais lido na língua portuguesa,  cheio de humanidade e  linguagem sensual, Piligra procura fixar  no encadeamento dos poemas, ao lado de sua fugacidade e beleza, momentos verdadeiros da alma do homem generoso e  consagrado romancista.
   
            Incorpora na estrutura da obra o ritmo de cordel, fácil de dizer,  fácil de ouvir, fácil de entender. Torna desenvolta a narrativa poética de seu estro derramado,  do qual    aos borbotões versos são dotados de  ênfase poética e terminações sonoras. Seus  cem sonetos,  encadeados  com incandescente ternura,   pulsam sentimentos e nervos   no discurso de  fôlego, que diz  à vontade  do amor e  dor, da alegria e  tristeza,  do sonho navegado  e ferimento do perseguido, da linguagem com cheiro de povo  e  pura emoção, enfim,  do encantamento no coração ardoroso, envolvido sempre por gestos  fraternos  na  aventura da vida.

            O eu do poeta Piligra  não está imune a essa mágica experiência do soneto com seus modos líricos,   que se manifestam em ritmo febricitante,  impulsionando o relato na linguagem específica para dizer, intenso, do mundo vivenciado pelo  renomado escritor Jorge Amado.  E, mesmo que críticos formalistas achem que o  poemário  que veicula os episódios e cenas de uma biografia não tem muita validade, tal a fragilidade na composição mista de sua estrutura,  na qual o autor fantasia  um discurso  informativo, que já encontrou antes  com o conteúdo pronto, resultando o objeto verbal da recriação da realidade em um produto híbrido, que não é nem biografia, nem poesia legítima;  como também acontece  na prosa com a biografia romanceada,  cujo discurso procura  fundamentar-se com motivações de um lastro encontrado perfeito e acabado, não se pode deixar de considerar que A odisseia de Jorge Amado reveste-se de uma base imaginativa  que transcende do texto, além do real circunstante.  Desgarra-se do produto híbrido literário, com seus clarões  atinge o que em si mesmo reverbera,  graças à competência e sensibilidade  do  autor da novidade, de sua habilidade para retirar os fatos  do real objetivo  e transfigurá-los como um outro mundo, trazido ao presente para junto dos nossos olhos.

            Vejamos esse exemplo na página 69:

           Lua vermelha, sangue bonito sobre a terra,
           Negro presságio se anuncia a toda gente,
           Quem busca glória e quer dinheiro, medo sente:
           Jagunço esperto o tiro certo jamais erra...
        Vem lá das “Terras do Sem Fim” cada semente
          D’ouro que mata, que maltrata e que desterra,
          Na noite escura o filho chora o pai que enterra:
         O coronel sabe da morte e ri contente...
         Na negra mata tudo é sombra, medo e dor,
        Desejo louco de abraçar toda a riqueza,
        Cega ambição no dedo frio do atirador,
        Bala sem alma produzindo a vil tristeza...
        - O velho Juca Badaró planta o terror
       Entre os “grileiros” que já vivem na pobreza...

            Ou nesse outro exemplo  da página 97:

          “Jardim de Inverno”  ganha forma e consistência,
           A dor do exílio toma conta do escritor,
          Zélia registra o tempo triste e a violência:
          Estar distante do País lhe causa dor...
          O mundo é visto pela voz da resistência
         De quem se mostra mais valente ou lutador;
         A velha Europa se transveste de aparência,
         Mulher da vida sem futuro promissor...
         “Cantos modernos de canhões surgem do nada;
         A terra treme, geme, sofre de agonia,
         A dor do mando sempre é coisa encomendada,
         Uma  outra guerra ganha espaço à luz dos dias...”
         - “Jardim de Inverno”, tradução desesperada,
        Texto que faz da dor sofrida,  poesia...”

            Os versos dos dois sonetos referidos mostram como  o poema pode surgir  da linguagem veemente, em sintonia com a figuração fácil,  e ser capaz  de fazer de tudo o acontecimento, inovando na própria índole do soneto com um ritmo ágil , que fornece  ao leitor os tons naturais  para uma boa escuta  e ao mesmo tempo um aprendizado útil sobre o que lhe é transmitido.  Não importa que seus elementos de composição emanem de  unidade poética com o feitio híbrido,  minimizado  pelos críticos e teóricos formalistas. Explicam tais versos que foi sonhando e acreditando que o poeta Piligra experimentou o soneto em vasto campo de celebração,  impregnando-o de sentimentos e emoções, sonoridades e sentidos, intuições e visibilidades,   numa curiosa extração de eventos e mensagens,  motivada  pelos gestos solidários de uma vida de criatura rara.

            O  poeta Piligra juntou assim os meios de diferentes composições poéticas,  mesclando  a forma fixa do soneto, de espaço operacional breve, com a manifestação rítmica  do cordel, sempre espontânea, agradável à escuta e leitura,  no intuito de  evidenciar  o trajeto notável  do escritor  que deu voz aos excluídos, quis a vida com mãos nas mãos para que se tornasse viável,  fosse acesa  com as chamas do amor e repercutisse perante a existência com as vozes da  liberdade.  E o poeta, que fundou a odisseia protagonizada pelo Ulisses nascido nas terras do cacau, amado cidadão do mundo,  tornou-se  prazeroso do verso com essa sacada.
 
            PILIGRA. Odisseia de Jorge Amado, EDITUS, Editora da UESC, Ilhéus, 2015.

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Cyro de Mattos é baiano de Itabuna. Escritor e poeta, Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Sul da Bahia). Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha,  Espanha e Dinamarca. Com Os Ventos Gemedores (EditoraLetraSelvagem),  ganhou o Prêmio Pen Clube do Brasil -2015.

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PRIMAVERA DO CACHOEIRA – Oscar Benício dos Santos

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PRIMAVERA DO CACHOEIRA
  

Um rio de flores

corre em seu leito
e exala odores 
d’amor-perfeito. 

Pinta de cores,

pra meu deleito,
águas humores
vindos do peito. 

Lagrimas enchem

e já preenchem
o rio de flores 

com seus olores

que corre em vão
pr’um coração.


Oscar Benício Dos Santos
Faz. Guanabara
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MAIS UMA TÁTICA CONTRA O SER HUMANO Vanderlei de Lima

Atenção Professores!


Para não causar constrangimentos, a professora, desde a pré-escola, só poderia chamar seus alunos e alunas, genericamente, de crianças.

Foi inserida na Base Nacional Curricular Comum (BNCC), do Ministério da Educação, a antinatural ideologia de gênero.

Essa ideologia visa apagar do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, as suas características naturais de ser homem ou mulher. Para os ideólogos de gênero viria à luz apenas um indivíduo que, independentemente de suas características biológicas dadas pela natureza, deveria seguir somente a sua sexualidade psicológica ou social: escolheria ser homem, mulher ou neutro (nem um nem outro).

Para não causar constrangimentos, a professora, desde a pré-escola, só poderia chamar seus alunos e alunas, genericamente, de crianças, pois eles são – para os ideólogos de gênero – seres ainda indefinidos. Afinal, sempre segundo tal ideologia, não escolheram o que virão a ser, de modo que se a professora começar a dizer que seus alunos são meninos ou meninas iria influenciá-los em sua “opção sexual” futura.

A mesma restrição valeria para os pais. Se disserem que têm um filho (homem) e uma filha (mulher), estarão, à moda de verdadeiros opressores (em linguagem comunista), se posicionando contra a “politicamente correta” ideologia de gênero e, com o tempo, poderão sofrer sanções por parte do Estado a vigiá-los quanto ao modo como devem ensinar seus próprios filhos e filhas.

Aquele sadio princípio cristão que sempre ensinou ser a educação, em todos os níveis, função especial dos pais ou dos responsáveis primeiros estaria derrubado: pais e professores seriam proibidos de “oprimir” a criança com uma educação segundo a lei natural moral. Caso o fizessem seriam punidos pelo – então, aqui sim, “grande opressor” – o Estado onipotente de índole totalitária.

Quanta contradição! Poderá exclamar o (a) leitor(a) atento(a). Infelizmente, temos de lhe responder, que esse absurdo só chama a atenção das pessoas de bom-senso, pois para os ideólogos de gênero não há absurdo algum em tudo isso, mas, sim, uma meta objetiva e bem definida a ser atingida. Com efeito, o ponto final dessa revolução é impor, sem argumentos científicos (que não têm), tudo o que contraria os planos de Deus para o ser humano.

Para tal, agem em várias frentes (legislativa, executiva ou judiciária). Contudo, o objetivo é único: instituir – do mesmo modo opressivo que tanto dizem combater – ao ser humano o antinatural.

Por fim, dando razão ampliada ao bioeticista australiano P. Singer, poderão pleitear a união entre um ser humano e um animal irracional ou dar razão aos defensores do edadismo ou etarismo que, especialmente nos Estados Unidos, dizem o seguinte: uma pessoa de 20, 30 ou mais anos poderia – sem ser acusada de pedofilia – manter relações sexuais com crianças de 3 ou 10 anos (cf. J. Scala. Ideologia de gênero. S. Paulo: Katechesis/Artpress, 2011, p. 65-67 – uma das fontes deste artigo).

Pois bem, essa é a realidade prenunciada, por ora, em doses homeopáticas, pela ideologia de gênero às escolas a partir de 2018, mas que pode ser, corajosamente, revertida, se o povo for, devidamente, alertado e cobrar de quem de direito – no campo civil e religioso – uma reação, ordeira e legal, junto ao Ministério da Educação.

Afinal, quem, em sã consciência, não se preocuparia com o próprio futuro e com o dos seus, de modo especial em idade escolar?



Vanderlei de Lima é eremita na Diocese de Amparo.

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quinta-feira, 14 de setembro de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA ONTEM: Tarde de Cultura

14/04/2010


ITABUNA CENTENÁRIA  passou esta tarde visitando o Centro de Documentação e Memória Regional- CEDOC, na Uesc.

Lá, fomos muito bem recebidos pela Stela Dalva Teixeira que fazendo jus ao nome que recebeu brilha mesmo sem querer. Ela interrompeu seu trabalho para nos mostrar o acervo, explicando cada detalhe com a impressionante segurança de quem sabe o que fala, não deixando pergunta alguma sem uma resposta completa. Fátima Barros fotografou cada detalhe.

O acervo está sendo organizado e acondicionado em caixas plásticas, em cores diversas, cada cor representando um assunto. Diferentes daquelas caixas de papelão, de difícil limpeza.

Visitamos e fotografamos a galeria de fotos de antigos professores e funcionários da Universidade. Destacamos Valdelice Soares Pinheiro, Raimundo Jerônimo Dias Uchoa, Amilton Inácio Costa, Manoel Simeão Silva, Flávio José Simões Costa, Antonio Fábio Dantas...

Stela Dalva falou-nos também da documentação da antiga USINA VITÓRIA de ilhéus que está sendo transferida de caixas de papelão para  caixas plásticas. Há montanhas de enormes livros  contendo toda as edições do Diário da Tarde de Ilhéus, do Jornal Oficial, do Diário de Itabuna, Tribuna do Cacau, O Intransigente, e outros  antigos jornais de Ilhéus e de  Itabuna. Stela Dalva contou da preocupação do CEDOC com documentos históricos em toda a região que não recebem tratamento adequado, citando exemplo da cidade de Itajuípe, onde, diz, não há nem energia elétrica, no local onde são guardados tais tesouros. Falou sobre o grande número de livros e papeis que não deverão permanecer no acervo e que, infelizmente terão como destino final o lixo já que não existe por enquanto meio de reciclar todo esse material.

Impressionante ouvir Stella discorrer sobre o assunto acervo, sobre todos aqueles documentos que a cercam. Ela vai falando tão naturalmente, interrompendo quando o seu ouvinte faz alguma pergunta ou comentário, momento em que pacientemente abre um parêntese, responde a pergunta, fecha o parêntese e recomeça a falar com voz  num tom ideal, com elegância e, principalmente, com a segurança de quem sabe, de quem é autoridade no assunto. ITABUNA CENTENÁRIA guardou uma frase dita por Stela e que serve para reflexão: “DOCUMENTOS ORGANIZADOS É ACERVO; DOCUMENTO NÃO ORGANIZADOS É DEPÓSITO DE PAPEL.”

ITABUNA CENTENÁRIA ganhou de presente do CEDOC a coleção “CADERNOS DO CEDOC – Publicação do Centro de Documentação e Memória Regional da UESC”, que enriqueceu a sua biblioteca. Também xerocou páginas da monografia História da  Educação:Trajetória do Colégio Estadual de Itabuna 1957 – 1970 de Edna Maria de Souza e Marta Tereza Souto Portella, para uma postagem em Blogs sobre o COLÉGIO ESTADUAL DE ITABUNA.
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Na  visita que fez ao CEDOC, Itabuna Centenária conversou também com o professor João Cordeiro de Andrade, que fez questão de abrir o nosso site e teceu comentários elogiosos sobre os temas postados, reclamou de que não gosta de ser fotografado, mostrou-nos  cadernos com lindas fotos e textos de alguns dos muitos trabalhos que realizou e deu-nos dicas com telefones e endereços de pessoas que são como arquivos vivos que poderão nos fornecer assuntos 100% seguros para postagens. Agradecemos muito a essa figura bela, o professor JOÃO CORDEIRO.
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Na sua visita ao CEDOC, Itabuna Centenária ouviu  o jovem Zidelmar Alves Santos, estudante do curso de História, na UESC que, no CEDOC, trabalha na Transcrição de Documentos da Primeira Metade do Século XIX,  Antigos Livros de Notas dos Cartórios de Ilhéus com  Escrituras de Compra e Venda – Hipotecas – Fiança...  Zidelmar  explicou que esse projeto faz parte do projeto maior que  é intitulado ESTRUTURAS ECONÔMICAS E SOCIAIS DA CAPITANIA DE ILHÉUS , liderado pelo professor Marcelo Henrique Dias. “quando a gente vê Ilhéus nos livros didáticos é como miserável. Porém havia em Ilhéus uma circulação monetária muito intensa”. Ilhéus só aparece depois do cacau. “Enquanto Salvador produzia, Ilhéus criava víveres, sustentava”.


Zidelmar foi convidado por ITABUNA CENTENÁRIA  para, juntamente com seus colegas de curso, se tornarem membros colaboradores e assim postarem  textos, fotos, vídeos falando  sobre o seu Curso de História e sobre o seu trabalho no CEDOC. Ele disse ‘sim’.

Foi uma proveitosa tarde de cultura. Itabuna  Centenária agradece...

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TODA HISTÓRIA TEM DOIS LADOS Por Drauzio Varella

10 setembro 2012

Ouvi e testemunhei tantas histórias de cadeia, carcereiros e presidiários, que um dia resolvi escrevê-las. A decisão foi tomada em 1996, depois de sete anos de trabalho voluntário no Carandiru.

No início, a intenção era publicá-las em algum jornal popular. Imaginei que uma coluna policial escrita por um médico poderia despertar interesse, mas esbarrei num obstáculo formal: como contar o que se passava num presídio daquele tamanho, sem que os leitores fizessem ideia das instalações e da cultura de cada pavilhão?

Para sair do impasse, achei que seria melhor preparar um texto no qual pegaria pela mão um visitante imaginário e o apresentaria à cadeia e a seus personagens. A escolha me obrigou a voltar aos pavilhões que eu supunha conhecer bem, para analisá-los com o olhar do escritor.

No decorrer desse processo, em que mergulhei mais fundo na intimidade da prisão, percebi que o material reunido poderia se transformar num livro.

Estação Carandiru foi lançado pela Companhia das Letras três anos mais tarde — em junho de 1999.

Na livraria em que aconteceu o lançamento, os amigos formaram uma longa fila para os autógrafos. Quando um senhor de fisionomia vagamente conhecida me estendeu um exemplar para receber a dedicatória, fui invadido por uma sensação de desconforto inexplicável. Antes que conseguisse reconhecê-lo, ele se identificou:

— Muito prazer, doutor, sou o coronel Ubiratan.

Fiquei gelado. Era o militar que comandara o massacre do pavilhão Nove, descrito no último capítulo do livro com base em depoimentos dos sobreviventes.

Só me tranquilizei quando ele me apresentou a moça que o acompanhava. Se fosse para me agredir, não viria com a filha nem teria sido simpático e respeitoso como foi.

No sábado seguinte, como de hábito, acordei cedo e fui tomar café com os três jornais que assinamos em casa, um dos poucos momentos de silêncio e calma na semana agitada. Levei um susto: o livro era destaque de primeira página nos três periódicos. Nos cadernos de cultura havia matérias extensas, fotos, resenhas literárias e reportagens sobre a Casa de Detenção.

Os 10 mil exemplares da primeira edição se esgotaram em poucos dias. Em dezembro daquele ano, recebi dois prêmios Jabuti de literatura (o de melhor livro na categoria não ficção e o de melhor livro do ano), que me fizeram sentir como quem acerta em cheio na loteria ao comprar seu primeiro bilhete.

De um dia para outro virei figura pública. Aturdido por tantas solicitações, foi difícil preservar a rotina de cancerologista com pacientes graves, sem tempo nem disponibilidade para aceitar os convites para palestras, debates e entrevistas que chegavam do país inteiro.

Estação Carandiru permaneceu quatro anos consecutivos em primeiro lugar na lista dos mais vendidos. Baseado no livro, um amigo querido que havia sido meu paciente, o cineasta Hector Babenco, fez um filme que levou mais de 4 milhões de pessoas ao cinema e foi visto por um número incalculável de telespectadores em exibições na tv. Carandiru foi selecionado pelo Festival de Cannes para disputar a Palma de Ouro.

Na época, minha experiência jornalística estava limitada a uma coluna médica na revista Carta Capital e a vinhetas educativas sobre saúde apresentadas nas rádios Jovem Pan, Trianon e 89FM, trabalho iniciado em 1985 a pedido e sob orientação do saudoso radialista Fernando Vieira de Melo.
Poucos meses depois do lançamento de Estação Carandiru, fui convidado para escrever uma coluna aos sábados na Folha de S.Paulo, hoje publicada também em outros jornais.

No mês seguinte, o jornalista Luiz Nascimento me convidou para apresentar uma série sobre o corpo humano no Fantástico, da tv Globo, com imagens filmadas pela bbc.
Foi a primeira de mais de vinte séries sobre saúde que eu faria na televisão, programas de conteúdo educativo que ganharam abrangência nacional.

Com disciplina, tenho conseguido organizar essas atividades sem deixar que interfiram no atendimento dos pacientes de quem cuido no Hospital Sírio-Libanês e na clínica, trabalho que consome pelo menos dois terços de meu tempo.

Nesses anos escrevi vários livros e continuei a coordenar o projeto de pesquisas da Unip (Universidade Paulista) sobre plantas medicinais, conduzido na região do rio Negro, na imensidão amazônica em que volta e meia me refugio e que tanto contrasta com a claustrofobia dos espaços nas prisões.

Sei que essa trajetória começou a ser trilhada lá atrás, quando eu era estudante e dava aula em salas com mais de trezentos alunos no Curso Objetivo, ou quando organizava campanhas nas rádios para alertar sobre os riscos da aids, mas foi no contato com a massa carcerária do Carandiru que amadureceram e tomaram forma duas habilidades que dificilmente se materializariam, não fosse a experiência ali vivida: a de educar pelos meios de comunicação e a de escrever histórias.

O trabalho despretensioso com os presos iniciado em 1989, para satisfazer a curiosidade que sempre tive pelo que acontece atrás das grades, abriu perspectivas de realização pessoal com as quais eu nem sonhava, tornou minha vida mais vibrante e produtiva, e mudou meu destino de maneira irreversível. Quando alguém me elogia pelos anos de trabalho voluntário nos presídios, fico até sem graça: recebi muito mais do que fui capaz de dar.

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Drauzio Varella nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em medicina pela USP, foi voluntário na Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru) por treze anos e hoje atende na Penitenciária Feminina da Capital.



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AMANHECER - Wagner Albertsson

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AMANHECER
   
ROMPE O DIA LÁ NA MATA.
ANTES DE SURGIR O SOL,
OS PÁSSAROS CANTAM MAIS UMA VEZ
A BELA MELODIA DA VIDA.
O RATO DO CAMPO PASSA CÉLERE
EM BUSCA DE ALIMENTO,
ENQUANTO A VELHA SERPENTE DORME
EMBRIAGADA PELO FRIO DA MANHÃ.
O CHEIRO GOSTOSO
DA NATUREZA,
DILUÍDO PELO ORVALHO,
ME DIZ QUE DEUS
É ESPERANÇA, ALEGRIA E RENOVAÇÃO.
NÃO HÁ PECADO NA NATUREZA.
SÓ... PERFEIÇÃO!

WAGNER ALBERTSSON

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