O entrevistado dessa edição do DIREITOS, é o presidente da
Academia Grapiúna de Letras (Agral), Ramiro Soares de Aquino.
“Nova diretoria promete reestruturar entidade”
A nova
diretoria da Academia Grapiúna de Letras (AGRAL), empossada em 14 de março
passado, promete reestruturar a academia cultural, segundo informa, em
entrevista concedida ao Jornal DIREITOS, o presidente eleito, Ramiro Soares de
Aquino, um dos fundadores da entidade e o segundo no cargo. O novo presidente é
democrático, costuma dizer que “fica rouco de ouvir” e não toma decisões que
não sejam por consenso.
Experimentado jornalista, com vivência de cinquenta e
quatro anos no ramo, completados neste mês de abril, Aquino fez algumas
exigências para aceitar o cargo:
1- Respeitar todas as decisões do seu
antecessor, Ivann Krebs Montenegro, que dirigiu a entidade nos cinco primeiros
anos; 2- Submeter à diretoria, sob consulta aos interessados, a destituição de
todos os membros que não frequentam as reuniões, alguns somente comparecendo às
suas posses;
3- Admitir novos sócios exigindo um rígido controle de frequência e
propondo a estes a possibilidade de assumir cargos diretivos, inclusive a
presidência;
4- Criar a categoria de Sócios Honorários Fundadores e
5- Manter
relacionamento de alto nível com as entidades similares. Eis a íntegra da
entrevista:
DIREITOS - O que o levou a aceitar essa incumbência, que
para muitos é tão espinhosa?
Ramiro Aquino - O comprometimento do grupo. Perguntei a cada
um se aceitava o cargo na diretoria, se topava trabalhar e demonstrei minhas
exigências dizendo que o não atendimento a elas me dava o direito de renunciar.
Todos foram unânimes em me apoiar, tudo isso de forma democrática. Isso me deu
a segurança necessária para aceitar a presidência.
DIREITOS - Quando você fala de reestruturação isso significa
que, mesmo fazendo parte da diretoria, não estava satisfeito com os rumos que a
AGRAL estava tomando?
Ramiro Aquino - Pelo contrário. Aprendi muito com os
companheiros que compõem a AGRAL, especialmente com Ivann Montenegro, um líder
inconteste, ficando inclusive com a recém-criada Presidência de Honra. O que eu
não me conformava era com a tese da imortalidade, que nos tornava vitalícios na
entidade. Ora, ninguém foi forçado a aceitar o seu ingresso. Sempre quisemos a
contribuição que todos poderiam oferecer. Se tomou posse e não frequenta ou
pede para sair ou será afastado. Estou propondo a saída de oito confrades e o
que é curioso, quatro desses foram indicação minha. Isso não quer dizer que
todos eles poderão ser afastados. Se resolverem se enquadrar, serão mantidos.
Se reincidirem nas faltas cumpriremos os estatutos.
DIREITOS - Quais as suas propostas?
Ramiro Aquino – Além das exigências fundamentais, a
frequência às reuniões, a programação em cima de um calendário de eventos
consistente, a participação ou o apoio da entidade a todas as atividades
artístico-culturais da cidade, admissão de novos sócios (já temos 5 em vista) e
nos tornarmos, não só a primeira, mas a mais ativa Academia de Letras da
região.
DIREITOS - E a sede não se inclui em seus planos?
Ramiro Aquino - Não considero a sede social, no momento,
como uma prioridade. O Ivann Montenegro já colocou a casa dele à nossa
disposição, o Lions Grapiúna também, estamos em entendimentos com a FICC para
reocupar a Sala Zélia Lessa, se quisermos construir a Confreira Eglê Santos
Machado nos doou um terreno. A falta de teto ainda não é um problema para a
AGRAL.
DIREITOS - E como sobrevive uma Academia?
Ramiro Aquino - Toda instituição dessa natureza tem que
sobreviver com a contribuição dos seus confrades e confreiras. É um valor
mínimo de apenas R$ 30,00, que multiplicados por 39 (quadro atual depois do
falecimento da Confreira Jasmínea Benicio Midlej) representam uma receita
mensal de R$ 1.170,00. Sem considerar uma pequena inadimplência de 15%, temos
considerável saldo mensal em caixa. Avalie bem: na nossa posse fizemos uma festa
com despesas mínimas, onde só pagamos a filmagem, apenas um dos quatro
fotógrafos, só os ingredientes do buffet (o Saborearte doou o serviço) e o
vigilante. O local foi cedido pela Loja 28 de Julho, a MM Studios forneceu o
som e o Coral Cantores de Orfeu nos brindou com a música.
Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Nascimento de Tabocas
Já dizia
Mares de Sousa no seu almanaque de 1911: “Ponto algum do Estado, nesses últimos
anos, há tido maior desenvolvimento em comércio, lavoura, aumento de população,
de construções, de que Itabuna, que há quatro anos e dois meses era um simples
arraial. Daí bem se pode calcular a ascensão que esta localidade tem feito ao
progresso, ficando, portanto, sem razão de ser o mau juízo que porventura ainda
façam aqueles que de longe somente a conhecem pelas correspondências políticas
ou pelos telegramas e notícias alarmantes transmitidas à imprensa”.
O seu
primeiro nome foi Tabocas. Muitas vezes Carlos Sousa contou a sua história ao
Tourinho da farmácia, que era bom para escrever desaforos, mas não possuía as
letras do outro farmacêutico Artur Nilo de Santana, que fazia uns discursos
bonitos nas reuniões da filarmônica e ainda o público recordava o discurso que
pronunciou no dia da instalação do termo da vila e comarca em 8 de novembro de
1906.
Tabocas
começou propriamente a nascer no ano de 1860. Alguns ranchos, toscos casebres,
colocados ao lado da estrada, à margem direita do rio, habitados, uns por
posseiros das matas próximas, outros por pequenos comerciantes que vendiam aos
boiadeiros, que desciam, ou subiam ao sertão da vila de Conquista, cinquenta
léguas distante, no poente.
Moravam no
local, conhecido hoje pelo nome de Marimbeta, Félix Severino do Amor Divino,
Militão Francisco de Oliveira, José Severino de Oliveira, Faustino Jovita de
Santa Fé, José Alves da Silva, João Antônio do Nascimento, Maximiano de
Oliveira, Manuel Apolinário Batista, João Pinheiro do Nascimento e Anacleto
Alves da Silva.
Por muitos
anos esses homens trabalharam, anonimamente, humildemente, bravamente,
derrubando matas, fazendo roças, plantando cacau, acumulando riquezas.
Verdadeiros heróis das selvas, isolados do mundo, da civilização
adoeciam e morriam sem remédio, sem conforto, sem assistência.
Entravam nas matas para trabalhar e muitas
vezes, delas não saíam senão mortos por picadas de serpentes venenosas.
É a
história daquele velho que disse à mulher: “vou à roça buscar uns temperos para
o feijão”. Foi e não voltou. A mulher também foi e não voltou. Os filhos
começaram a chorar. Choraram o dia todo, os pais não apareceram, o fogo
apagou-se a comida não cozinhou. Já à tardinha chegou um vizinho, perguntou aos
meninos que choravam, pelos pais, e lá se foi com os meninos ao roçado, onde
encontraram, caídos e mortos, o homem e a mulher, um quase por cima do outro.
Ficaram
surpresos, ficaram espantados, não ficaram com medo, porque nas matas do cacau
o homem perde o medo, cria coragem e se torna indiferente.
De repente ouviram qualquer coisa batendo no
chão, e viram qualquer coisa se movimentando, uma coisa roliça, como uma corda
grossa, e gritaram: Uma cobra, duas cobras! Realmente, duas cobras enormes de
remexiam, irritadas, assanhadas, agressivas. Os meninos correram, o homem
atirou numa cobra e depois na outra, com uma pistola de dois canos, calibre 44.
Os dois tiros ecoaram forte na mata e os seus estampidos foram de quebrada em
quebrada desaparecendo. O homem aproximou-se cauteloso. Havia matado dois “surucucus
pico de jaca” cobra venenosa e terrível, que cresce dois metros e mora nas
selvas. Um naturalista as classificou de cascavel da terra do cacau. Sua
dentada é mortífera, não tem remédio, nem a reza cura...
Assim como
aqueles, se findavam muitos desbravadores, muitos fazendeiros de roça de cacau.
E o
paludismo, o tifo, a umidade das matas, os assaltos dos índios, mas tocaias
traiçoeiras?
Carlos
Sousa sabia de tudo, isso contado pelos velhos moradores da terra. Tinha assim
a noção de como a riqueza daquela terra, que Mares de Sousa falava no seu
almanaque, se havia construído, com sacrifício, com martírio de uma geração,
com trabalho audacioso e luta sem quartel.
Hoje tudo
se apresentava diferente.
Até um
médico vindo de Minas, de nome Coriolando Antunes, fazia consultas a prestação,
recebendo de cada cliente, para assisti-lo e à família vinte cruzeiros por mês.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se
encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja
convosco”.
Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então
os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai
me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles
e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes
serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com
eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o
Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos,
se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado,
não acreditarei”.
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente
reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus
entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.
Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas
mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas
fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Acreditaste,
porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”
Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos,
que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que
acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais
a vida em seu nome.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a encenação do evangelho:
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Sinais da presença do Ressuscitado
“Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o
lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (Jo 20,20).
As Aparições são a maneira mais convincente de transmitir a
vivência daquilo que Jesus Cristo significou para os(as) primeiros(as)
seguidores(as), depois da desoladora experiência de Sua paixão e morte. O que a
primitiva comunidade quis transmitir foi a experiência de que Jesus Vive e,
além disso, continua comunicando-lhes aquela mesma Vida da qual tantas vezes
Ele lhes havia falado. E, ao tomarem consciência de que possuíam a verdadeira
Vida, o medo da morte não lhes preocupava mais. A Vida que o Cristo
Ressuscitado lhes comunicou, permanece. Esta é a mensagem de Páscoa.
Com o conceito de Ressurreição quer-se expressar, então, a
mensagem de que a morte de Jesus não foi o final. Sua morte não foi a meta,
senão que sua meta foi a Vida, uma Vida em Deus, a mesma Vida de Deus, como nos
diz João: “O Pai que vive me enviou e eu vivo pelo Pai”.
Jesus não volta à vida. Está já na vida. Por isso os relatos
pascais insistem em que Jesus não é uma recordação do passado, mas que está
vivo e ativo entre os seus.
João usa o verbo “soprar sobre eles” para expressar a
comunicação do dom da Vida, através do Espírito do Ressuscitado. É o mesmo
verbo que aparece em Gen. 2,7: com aquele sopro o ser humano de barro se
transformou em ser vivente. Agora Jesus lhes transmite o Espírito que dá
verdadeira Vida. Trata-se de uma nova criação do ser humano. Sem essa Vida que
vai mais além da vida, nada daquilo que diz o Evangelho teria sentido.
O Espírito recebido é o critério para discernir as atitudes
e as ações que derivam dessa Vida. Essa nova Vida é capacidade de amar como
Jesus amou; é “passar pela vida fazendo o bem” (At. 10,38); é força que arranca
de tudo aquilo que desumaniza e oprime; é impulso para “estar entre os seus como
aquele que serve” (Lc. 22,27).
Dando seu Espírito, Jesus quer que seu Projeto seja também
realizado por todos os seus(suas) seguidores(as). Ele desvela no ser humano
todas as suas possibilidades: transcender-se a si mesmo e ativar todas as
potencialidades de vida ainda latentes.
“Viver como ressuscitados” implica esvaziar-nos do “ego”,
para deixar transparecer o que há de mais divino em nosso interior. É preciso
destravar portas e janelas de nossos estreitos lugares para que o novo Sopro do
Ressuscitado areje nossa interioridade, ainda envolvida na sombra e no
medo. Todos nós temos de passar e superar o mesmo processo vivido pelos
discípulos e discípulas, se quisermos entrar na dinâmica da experiência Pascal.
A fé no Ressuscitado não significa nada se nós mesmos continuamos vivendo uma
vida atrofiada e sem horizontes.
Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa
“ressuscitada”. Nós vivemos já ressuscitados porque o Ressuscitado está em
nosso meio, através do seu Espírito que dá a Vida. A Vida definitiva já está
alentando nossa vida.
A Ressurreição de Jesus nos convida e nos convoca a um
sentido maior de nossa existência e uma maior qualidade de vida em nossas
relações. Há “sinais” de Ressurreição perpassando todas as experiências
humanas. Da mesma forma como há sinais de morte, também há inúmeros sinais de
vida saltando por todos os lados. Cabe a nós, portanto, prestar atenção a esses
“sinais” para deixar-nos impactar por eles.
Os sinais da Ressurreição não são diferentes daqueles da
Paixão, mas os mesmos: os cravos e a lança. Não nos enganemos, trata-se do
Crucificado; Ele é o Ressuscitado. Não há outro modo de encontrá-lo e
verificá-lo a não ser tocando a marca dos cravos e o seu lado traspassado. Só
que agora quem o vê e o toca, sente a força que o Crucificado/Ressuscitado tem
para libertar e curar, para sanar e levantar, para dar vida e vencer a morte.
Suas cicatrizes são curativas e sanam aqueles que O contemplam e O descobrem no
cotidiano da história. “Tocar” no Ressuscitado é “tocar” a carne dos feridos e
excluídos de nosso meio.
Jesus Ressuscitado continua carregando em suas mãos, pés e
lado, a ferida da história; não só as chagas dos cravos e o corte da lança em
seu próprio corpo, mas a chaga dos enfermos e expulsos, dos famintos e
oprimidos... e de todos aqueles que continuam sofrendo ao nosso lado.
Experimentamos a Ressurreição quando somos capazes de
acreditar que a boa semente precisa morrer para dar frutos, isto é, que a vida
bem vivida é aquela que está a serviço e que deve ser bem cuidada. A
Ressurreição acontece quando alimentamos a pequena chama que ainda fumega nos
corações desanimados, mas esperançosos; quando acreditamos no ser humano e em
suas possibilidades de mudança; quando transformamos escuridão em luz, choro em
dança, sofrimento em crescimento.
Vivemos a Ressurreição quando ajudamos os outros a encontrar
razões para viver e alimentamos os sonhos por dias melhores, com pão na mesa de
todos e com dignidade garantida. A Ressurreição acontece nos pequenos e
simples gestos de partilha, de perdão sincero e de confiança alegre. Ela está
presente nos corações que mantêm viva a novidade da vida. E se revela na
capacidade de ver o mundo e as pessoas com olhar de misericórdia, que
reconstrói a existência fragmentada.
Eis por que é fundamental o exercício do olhar transparente,
da escuta atenta, da sensibilidade antenada... Importa contemplar o amor entre
as pessoas, o cuidado do planeta, o sorriso das crianças, o sofrimento e as
limitações humanas, a festa e a alegria, os rostos marcados pelo desgaste do
caminho, bem como as lutas e as conquistas cotidianas. Tudo é mensagem, tudo se
reveste de sentido.
A Ressurreição de Jesus toca nossa existência e nos
possibilita experimentar o céu enquanto caminhamos pela terra, viver o divino
misturado com o humano. Assim, o bem, a bondade e a solidariedade nos
colocam na perspectiva do paraíso. A Ressurreição nos eleva e nos orienta
para o Transcendente e para os valores mais altos, sem perder a simplicidade e
complexidade de cada dia.
Ao entrarmos no mistério das coisas, pessoas e
acontecimentos, somos banhados pela onda vital que emana de Deus. Dessa
maneira, a vida nova resplandece e ilumina a escuridão da humanidade. A
perspectiva da Ressurreição nos permite, portanto, dar um salto em direção à
vida plena, ainda que marcada pela dor, pela cruz e pelos sinais de derrota.
Para os semeadores do bem, a vida é recompensa e fruto. E
tem a última palavra...
Texto bíblico: Jo 20,19-31
Na oração:
* Preste atenção aos sinais de vida ao seu redor:
gestos simples, iniciativas de pessoas e comunidades, posturas éticas e
coerentes na política e na Igreja, solidariedade, perdão, acolhimento,
voluntariado, cuidado de pessoas e do meio ambiente, etc...
* Faça, diariamente, uma “leitura orante” dos acontecimentos
pessoais, sociais, ecle-siais...
Me conte o que você faria para que o amor da sua vida
voltasse
A amiga me contou, em tom dramático, que pegou uma
coqueluche tão forte que achou que morreria. Foram semanas tossindo sem parar,
com dores e mal-estar terríveis. A coisa foi tão grave, ela disse, que o
ex-marido, de quem estava separada havia mais de um ano, voltou para cuidar
dela. Depois que a doença passou, reconciliados, eles resolveram tentar de
novo.
“Como se faz para contrair coqueluche?” eu perguntei, afoito
e esperançoso, assim que ela terminou de contar. Na hora, me pareceu uma boa
ideia. Depois, calculei que tossiria sozinho, ou na companhia de um amigo que
roncaria como urso na poltrona e discutiria comigo se era mesmo preciso que ele
fumasse fora do quarto.
Vocês estão rindo, mas conheço gente que faria qualquer
coisa para atrair de volta o ex-marido ou a ex-mulher extraviados.
Entre os homens, ataque cardíaco é um clássico. Estive no
hospital há duas semanas com dores no peito, mas os médicos me dispensaram como
se eu fosse um velocista olímpico. “Rivotril”, receitou o jovem plantonista
lacônico, me olhando com cara de enfado, profundamente desinteressado da minha
complexa situação existencial.
Eu vinha sonhando havia dias com um post no Facebook dizendo
assim: “Foi só infarto. Os médicos dizem que está tudo bem”. O comentário seria
acompanhado por um selfie na cama do hospital, com aquele sorriso abatido, mas
cheio de coragem. Se ela não voltasse correndo, seria um monstro.
Mulheres – eu já tive a chance de testemunhar – preferem o
colapso emocional. As amigas vão ligar para o sujeito e informar: “Fulana está
péssima. Se você gosta um pouquinho dela, melhor vê-la”. O cara vai, se
sentindo culpadíssimo, e encontra uma ex que parece ter saído de uma colônia de
férias do Estado Islâmico. Magra, pálida, distante. Ele tenta segurar as mãos
dela, mas ela as retira, assustada, como se ele fosse o bastardo malvado de Game
of Thrones. Se o sujeito não tiver coração de pedra, ficará e cuidará dela,
talvez por dez anos.
Depois de ver o sofrimento humano de perto (o meu,
sobretudo) parei de julgar os manipuladores de sentimentos alheios. Eles são
apenas psicopatas apaixonados. O resto de nós se preocupa com ética,
integridade, verdade. Queremos ser amados espontaneamente. Temos escrúpulos,
princípios, limites. Eles só querem a fulana ou o sicrano de volta na cama
deles, ponto final. Outras considerações são secundárias.
Tenho certeza de que no longo prazo as chantagens e os
truques não funcionam, mas alguém já observou corretamente que no longo prazo
estaremos todos mortos. Logo, por que não tentar ser amado a qualquer preço?
Uma vez, conversei com um amigo cuja ex-mulher insistia em
se manter longe da casa e da vida dele. O cara estava desesperado. Saímos para
beber e ele me contou, animadíssimo, que acabara de saber que a ex tinha
engordado 10 quilos. "Por que você está feliz com isso?", eu
perguntei. “Porque ela vai ficar feia, ninguém mais vai querê-la e ela vai
voltar para mim”, ele respondeu, com um sorriso lunático no rosto. Algum tempo
depois, ela voltou.
Lembrei dessa história nas últimas insônias, mas com mínimas
esperanças. Uma mulher que corre, faz ioga, pratica musculação e come como um
coelho vegano não vai ganhar 10 quilos. Nem cinco. A possibilidade de que ela
fique feia nos próximos anos equivale à de que eu fique mais jovem. Não vai
acontecer nesta encarnação.
Não adianta dizer isso aos amigos, claro. Todos têm uma
ideia infalível para trazer de volta o amor da vida dos outros. “Esqueça as
palavras, você precisa criar situações emocionais incontornáveis”, diz um
deles. Exemplo? “Compre para ela uma banca inteira de pimenta da feira. As
mulheres são loucas por pimenta.” OK, próxima. “Prometa o que ela quiser,
ofereça o que ela mais desejar, depois as coisas se arranjam”, diz outro. Se
bem me lembro, foi assim que começaram os caras presos pela Lava Jato em
Curitiba. “Você já fez reservas para Paris”? perguntou uma amiga. “Chegue com
as passagens na mão e ela não vai resistir.” Problema: se ela cair por um
clichê desses eu não vou querê-la de volta.
Essas ideias rocambolescas reforçam minha convicção de que
em caso de abandono não há nada a fazer além de respirar, esperar e torcer.
Aqueles anúncios do poste que prometem trazer seu amor de volta não funcionam.
Eu sei. Tentei três deles e eles não devolvem o dinheiro.
As coisas no terreno afetivo se resolvem com simplicidade,
ou não se resolvem. Se a moça gostar de você, virá naturalmente. Se o sujeito
ainda ama você, ele voltará de livre e espontânea vontade – e isso exclui seu
amigo delegado ligar para ele ameaçando prendê-lo.
Gente que sofre vive sob a tentação de um gesto heroico,
capaz de atordoar e seduzir o outro, mas é bobagem. Passado o efeito dos fogos
de artifício – ou das garrafas de vinho no restaurante mais caro da cidade,
cujos efeitos ficarão no seu cartão de crédito para sempre – os
sentimentos voltarão ao normal, e você terá a seu lado uma pessoa entediada. Ou
ressentida, porque deixou-se iludir.
Eu sei que todo mundo conta uma exceção notável a essa
regra. Há sempre uma história de jantar, presente, viagem ou gesto inesperado
que reverteu os sentimentos do outro e fez tudo mudar, mas eu simplesmente não
acredito nelas. Quando a gente olha de perto, percebe que não foi bem assim. A
pessoa voltou por um mês – ou ficou para sempre porque nunca havia saído. Quem
realmente vai voltar dispensa os malabarismos. Quem partiu de coração torna-se
imune a pirotecnias. Sobretudo as mulheres.
Na vida real, é importante abrir seu coração, falar do seu
amor com todas as letras e deixar que o outro decida por si mesmo. Fazer com
que ele ou ela ria da situação ajuda. Lágrimas sinceras também, sobretudo no
rosto dos homens. É uma pena que muitos de nós não saibam chorar.
Sabem de uma certa erva, que desdenha a terra para
enroscar-se, identificar-se com as altas árvores? É a parasita.
Ora, a sociedade, que tem mais de uma afinidade com as
florestas, não podia deixar de ter em si uma porção, ainda que pequena de
parasitas. Pois tem, e tão perfeita, tão igual, que nem mesmo mudou de nome.
É uma longa e curiosa família, a dos parasitas sociais; e
fora difícil assinalar na estreita esfera das aquarelas — uma relação sinótica
das diferentes variedades do tipo. Antes sobre a torre, agarro apenas na
passagem as mais salientes e não vou mergulhar-me no fundo e em todos os
recantos do oceano social.
Há, como disse, diferentes espécies de parasitas.
O mais vulgar e o mais conhecido é o da mesa; mas há-os
também em literatura, em política e na igreja. É praga antiga, e raça cuja
origem se prende à noite dos tempos, como diria qualquer historiador en herbe.
Da Índia, essa avó das nações, como diz um escritor moderno, são poucas as
noções a respeito; e não posso marcar aqui com precisão o desenvolvimento dessa
casta curiosa no velho país. Em Roma, onde lemos como num livro, já Horácio
comia as sopas de Mecenas, e banqueteava alegremente no triclinium. É verdade
que lhe pagava em longa poesia; mas, nesse tempo, como ainda hoje, a poesia não
era ouro em pó, e este é grande estrofe de todos os tempos.
Mas, tréguas à historia.
Tenho aqui como alvo esboçar em traços ligeiros as formas
mais proeminentes da individualidade; entremos pois no estudo — sem mais
preâmbulo.
Devo começar pelo parasita da mesa, o mais vulgar? Há talvez
pouco a dizer — mas esse pouco mesmo revela altamente os traços arrojados desta
fisionomia social.
Debalde se procuraria conhecer as regiões mais adaptadas à
economia vital deste animal perigoso. Inútil. Ele vive por toda parte em que há
ambiente de porco assado.
Também é aí onde ele desenvolve melhor todas as suas faculdades;
— onde se sente a son aise, como diria qualquer label encadernado em paletó de
inverno.
Perfeito parasita deve ser perfeito gastrônomo; mesmo quando
não goze esta faculdade por vocação do berço, é um resultado da prática, pela
razão de que o uso do cachimbo faz a boca torta.
Assim, o parasita jubilado, o bom parasita, está muito acima
dos outros animais. Olfato delicado, adivinha a duas léguas de distância a
qualidade de um bom prato; paladar suscetível, — sabe absorver com todas as
regras de arte — e não educa o seu estômago como qualquer aldeão.
E como não ser assim, se ele não tem outro cuidado nesta
vida? E se os limites da mesa redonda são os horizontes das suas aspirações?
É curioso vê-lo na mesa, mas não menos curioso é vê-lo nas
horas que precedem às seções gastronômicas. Entra em uma casa ou por costume ou
per accidens, o que aqui quer dizer intenção formada com todas as
circunstâncias agravantes da premeditação, e superioridade das armas. Mas
suponhamos que vai a uma casa por costume.
Ei-lo que entra, riso nos lábios, chapéu na mão, o vácuo no
estômago. O dono da casa, a quem já fatiga aquela visita diária, saúda-o
constrangido e com um riso amarelo. Mas isso não é decepção; tão pouco não
desarma um bravo daquela ordem. Senta-se e começa a relatar notícias do dia,
entremeadas de algumas da própria lavra, e curiosas — a atrair a feição
vacilante do hóspede. Daqui um criado que vem dar o sinal de combate. É o alvo
a que visava o alarme, e ei-lo que vai imediatamente pagar-se de uma tarefa de
almanaque, tão custosamente exercida.
Se porém ele entra per accidens, não é menos curiosa a cena.
Começa por um pretexto que deve lisonjear as pessoas da casa conforme os seus
fracos. Assim, se há aí um autor dramático, o pretexto é dar um parabéns sobre
a última peça representada dias antes. Sobre este molde, tudo o mais.
Se às vezes não há um pretexto sério, não trepida ainda o
parasita; há sempre um de lado, como substantivo: saber da saúde do amigo.
Mas, entra ele; dado o pretexto, senta-se e começa a
desenrolar toda a retórica que pode inspirar um estômago vazio, um Jeremias
interno. Segue-se depois, pouco mais ou menos, a mesma cena. No fim está sempre
como orla de horizonte uma mesa mais ou menos apetitosa, onde a reação se opera
largamente.
Há, porém, pequenas desgraças, acidentes inesperados na vida
do parasita da mesa. Entra ele em uma casa onde espera almoçar folgado; — faz
as primeiras saudações e vai corar a pílula ao seu caro hóspede. Um certo
ranger de dentes, porém, começa a agitá-lo, um ranger particular que indica um
estado mais calmo aos estômagos da casa.
— Então como vai? Sinto que chegasse agora; se mais cedo
viesse, almoçava comigo.
O parasita fica de cara à banda; mas não há remédio; é
necessário sair com decência e não dar a entender o fim que o levou ali.
Estas eventualidades, estas pequenas misérias, longe de
serem decepções, são como o cheiro da pólvora inimiga para os soldados, um
incentivo na ação. É uma índole miserável a desse corpo leviano em que só há
animalidade e estômago; mas, entretanto, é necessário aceitar essas criaturas
tais como são — para aceitarmos a sociedade tal como ela é. A sociedade não é
um grupo de que uma parte devora a outra? Eterno antagonismo das condições
humanas.
O parasita da mesa uniformiza o exterior com a importância
do hóspede; um cargo elevado pede uma luva de pelica, e uma botina de
polimento. À mesa não há ninguém mais atencioso; — e como um conviva alegre,
aduba os guisados com punhados de sal mais ou menos saborosos.
É uma retribuição razoável — dar de comer ao espírito de
quem dá de comer ao corpo.
Aqui não há desaire, há uma troca recíproca que prova que o
parasita tem suscetibilidades em alto grau.
Estes traços, mais ou menos exatos, mais ou menos distintos,
dão aqui uma pequena ideia do parasita da mesa; mas esta variedade do tipo é
absorvida por outras de uma importância mais alta. Aqui é o parasita do corpo,
os outros são os do espírito e da consciência; — aqui são os epicuristas à
custa alheia, os outros são as nulidades intelectuais que se agarram à primeira
tela de propriedades suculentas que lhe vai ao encontro.
São imperceptíveis talvez estes lineamentos — e acusam a
aceleração do pincel; passemos às outras variedades do tipo onde achamos formas
mais amplas e proeminências mais distintas...
... o Parasita II
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Machado de Assis - (Joaquim Maria Machado de Assis),
jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio
de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em
29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira
de Letras.
Torre de TV vai receber programação especial para os 57 anos
do aniversário de Brasília
Elza Fiúza/Agência Brasil
Heloisa Cristaldo - Repórter da Agência Brasil
A capital federal completa 57 anos nesta sexta-feira (21) e
as atividades em comemoração ao aniversário da cidade começam hoje e acontecem
por todo fim de semana. A programação também celebra os 30 anos de Brasília
como Patrimônio Mundial e os dez anos do Museu Nacional.
A programação inclui nove artistas da cidade e três atrações
nacionais, além da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro. Os
eventos têm entrada franca, classificação livre e custaram R$ 1,8 milhão ao
governo local.
A cantora Elba Ramalho é a atração principal nesta
sexta-feira, às 22h. A festa começa com a apresentação de Dona Gracinha da
Sanfona, que abre o evento na Torre de TV, às 18h. A banda Ciclone na
Muringa, que mistura ritmos populares, como maracatu, coco e baião à
sonoridades do rock e do reggae sobe ao palco às 19h. A banda paulista
convidada Dê um Rolê faz homenagem aos Novos Baianos, a partir das 20h. Pela
manhã, das 11h às 15h, o grupo Kilombrasília promoverá um aulão de capoeira
aberto ao público.
No sábado (22), a atração principal é o grupo de pagode Raça
Negra, que sobe ao palco às 22h. A festa tem início mais cedo com a
apresentação do tradicional grupo Boi de Seu Teodoro às 18h20. Na sequência, às
19h30, o Trio Siridó anima o público com forró. A sambista Cris Pereira canta
às 20h40. Entre uma atração e outra, os Djs Nagô e Barata garantem o som no
sábado e no domingo (23), respectivamente.
No domingo, a programação ficará a cargo da Orquestra
Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, que inicia às 17h30 o concerto
especial para os 57 anos de Brasília. Os músicos estarão acompanhados de jovens
participantes de projetos socioeducativos musicais.
Esplanada dos Ministérios
Além dos shows na Torre de TV, a programação do aniversário
de Brasília inclui atividades na Esplanada dos Ministérios. No domingo, o
violeiro Cacai Nunes toca às 19h, seguido pelo grupo de choro Fernando César e
Regional, às 20h. As atrações do fim de semana se encerram às 21h, com a
apresentação do violeiro Renato Teixeira, de São Paulo. As apresentações serão no
Museu Nacional do Conjunto Cultural da República.
A cidade recebe ainda exposição que celebra os 10 anos do
Museu Nacional, com obras de expoentes da arte brasileira como Anita Malfatti e
Tarsila do Amaral, além de artistas contemporâneos, principalmente do grafite
brasiliense. A visitação vai até 4 de junho, de terça a domingo, das 9h às
18h30.