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terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A ESTANTE – CONTO DE FERREIRA GULLAR

A ESTANTE
 March 26, 2013


Naquele novo apartamento da Rua Visconde de Pirajá pela primeira vez teria um escritório para trabalhar. Não era um cômodo muito grande, mas dava para armar ali a minha tenda de reflexões e leitura: uma escrivaninha, um sofá e os livros. Na parede da esquerda ficaria a grande e sonhada estante que caberia todos os meus livros. Tratei de encomendá-la a seu Joaquim, um marceneiro que tinha oficina na Rua Garcia D’Avila com Barão da Torre.

O apartamento não ficava tão perto da oficina. Era quase em frente ao prédio onde morava Mário Pedrosa, entre a Farme de Amoedo e a antiga Montenegro, hoje Vinicius de Moraes. 

Estava ali há uma semana e nem decorara ainda o número do prédio. Tanto que, quando seu Joaquim, ao preencher a nota da encomenda, perguntou-me onde seria entregue a estante, tive um momento de hesitação. Mas foi só um momento.

Pensei rápido: “Se o prédio do Mário é 228, o meu, que fica quase em frente, deve ser 227. “Mas lembrei-me de que, ao ir ali pela primeira vez, observara que, apesar de ficar em frente ao do Mário, havia uma diferença na numeração.

— Visconde de Pirajá 127 — respondi, e seu Joaquim desenhou o endereço na nota.

— Tudo bem, seu Ferreira. Dentro de um mês estará lá sua estante.

— Um mês, seu Joaquim! Tudo isso? Veja se reduz esse prazo.

— A estante é grande, dá muito trabalho… Digamos, três semanas.

Contei as semanas. Não via chegar o momento de ter no escritório a estante sonhada, onde enfim poderia arrumar os livros por assunto e autores. E, mais que isso, sentir-me um escritor de verdade, um profissional, cercado de livros por todos os lados. No dia da entrega, voltei do trabalho apressado para ver minha estante.

— Como é, veio? — perguntei ao entrar.

— Veio o quê?

— Como o quê? A estante!

Não viera. Seu Joaquim não cumprira com a palavra empenhada, ah português filho de… Telefonei para ele sem dissimular, no tom da voz, minha irritação. E ele:

— Como não cumpri? Andei com dois homens de cima para baixo da rua e não encontrei o tal número que o senhor me indicou. Não existe na Rua Visconde de Pirajá o número 127, senhor Ferreira.

Fiquei sem ação. Dera a ele o número errado.

— Diga-me o número certo e sua estante estará em sua casa amanhã mesmo.

Fiquei sem palavra. Se não era 127, qual número seria? Não era 227, disso tinha certeza… E o Joaquim ao telefone:

— Qual o número, seu Ferreira?

— É 217, seu Joaquim… É isso, 217.

— Muito bem, 217. Já anotei. Amanhã terá sua estante.

Não tive. Ao chegar em casa e verificar que a estante não estava lá, conclui que havia dado de novo o número errado ao marceneiro. E corri para o telefone a fim de me desculpar.

— Seu Joaquim, é o senhor Ferreira… da estante.

— O senhor está querendo brincar comigo?
Fui tomado por um frouxo de riso, enquanto seu Joaquim, indignado, dizia que não ia mais entregar estante nenhuma, que eu fosse buscá-la, pois já era a segunda vez que subira e descera a Visconde de Pirajá, carregando aquela estante enorme, etc. etc…


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SEXTA SUPER MUSICAL APRESENTA MEMÉ SANTANA NA AABB

Memé Santana na Cabana do Tempo da AABB
Quem vai “sextar” 9/12 na AABB Itabuna é Memé Santana

 “Sextar” é se apresentar na Sexta Super Musical da Cabana do Tempo, o espaço da AABB que resgatou o prazer de sair à noite em Itabuna. E nesse dia 9/12, a partir das 8 da noite, quem vai “sextar” é Memé Santana, com direito a música internacional, música brasileira e hits que levam a uma sonora viagem por épocas inesquecíveis.
Memé é cantor e instrumentista dos mais requisitados do sul da Bahia. Sempre acompanhado pelo bom baterista Fabiano Sousa, desfila um repertório que agrada a muitos e bons gostos.
E por falar em gostos, os mais deliciosos tira-gostos e pratos, preparados por uma experiente equipe de cozinheiras, são servidos nas mesas da Cabana do Tempo. Sem falar das mais refrescantes bebidas, tanto prontas como preparadas na hora.
Maruse Dantas, presidente da AABB Itabuna, lembra que nem gorjeta (10%) nem couvert artístico são cobrados na nota. E Raul Vilas Boas, vice-presidente social, acrescenta: “O clube tem um parque bem equipado, colado na Cabana. É o único lugar da cidade que você pode sair à noite levando as crianças, com toda segurança”.
   
Serviço

Entrada no clube: liberada para sócios e não sócios sexta-feira à noite.
Estacionamento: dentro do clube, gratuito, também liberado no horário.
Gastronomia: pratos, tira-gostos, bebidas prontas e preparadas na hora, servidos por garçons nas mesas.
10% de gorjeta e couvert artístico: não são cobrados.
Equipamento disponível: parque (playground) para as crianças.
Endereço: Rua Espanha s/n – São Judas – Itabuna/BA
Telefones: (73) 3211-4843 / 2771 (Oi fixo)

 Contato – Raul Vilas Boas: (73) 9.9112-8444 (Tim) / 9.8888-8376 (Oi)

 Assessoria de Imprensa – Carlos Malluta: (73) 9.8877-7701 (Oi) / 9.9133-4523 (Tim)

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GARÇA TRISTE – Oscar Benício dos Santos

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Garça Triste
  

Olha, aquela garça que viste 
pousada num seco galho,
debandou sozinha e triste
das irmãs, por um atalho.


Agora só, subsiste 
qual gota seca de orvalho,
e solitária insiste
como um mudo chocalho;


Pois não canta essa ave,
que na sua mudez grave
vê morrer o Cachoeira,


hoje tênue d’água fio,
que já foi um rio bravio 
– perdeu ágil corredeira. 



Oscar Benício Dos Santos
Faz. Guanabara


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RENAN TORNOU SENADO UMA ALAGOAS HIPERTROFIADA - Josias de Souza

Renan tornou Senado uma Alagoas hipertrofiada
Josias de Souza
06/12/2016 

O réu Renan Calheiros transformou sua ruína judicial num processo de desmoralização do Senado da República. Com a cumplicidade da volante que faz as vezes de Mesa Diretora, Renan peitou Marco Aurélio Mello, o ministro da Suprema Corte que o havia expulsado da linha sucessória da Presidência da República. Ao se recusar a cumprir a ordem, Renan fabricou uma crise institucional a partir de um processo nascido no leito de um relacionamento extraconjugal. E o Senado virou uma espécie de Alagoas hipertrofiada.

Ou a banda muda do Senado faz barulho ou os cangaceiros da Mesa Diretora darão à maioria dos senadores uma péssima reputação. O processo que levou o Supremo Tribunal Federal a converter Renan em réu mistura o que há de mais nefasto na política brasileira. Renan teve uma filha fora do casamento. Até aí, problema dele e da patroa. Acusado de pagar a pensão da criança com dinheiro recebido da Mendes Júnior, enrolou-se nas explicações. E o problema passou a ser do contribuinte, que já não suporta fazer o papel de bobo.

Os senadores tiveram a oportunidade de se livrar de Renan em 2007, quando as pulsões do senador ganharam as manchetes. Em troca da renúncia à presidência do Senado, preservaram-lhe o mandato. Mais tarde, devolveram-lhe a poltrona de presidente mesmo sabendo que o caso resultara em denúncia da Procuradoria. Deitando-se ao lado de Renan na mesma cama pela terceira vez, o Senado levará seu desembaraço moral às fronteiras do paroxismo, humilhando-se de forma inédita. O Brasil não merece.

Com atraso de quase uma década, Renan vive o seu ocaso. Afora o caso em que virou réu, responde a outros 11 inquéritos, oito dos quais relacionados à Lava Jato. Cedo ou tarde, terá o mesmo destino de Eduardo Cunha, hoje um hóspede do PF’Inn de Curitiba. Já se sabia que o Congresso brasileiro tem um comportamento de alto risco. Mas não se imaginou que os senadores iriam para o suicídio abraçado ao cangaço.

Segundo a cultuada concepção de Churchill, a democracia é o pior regime com exceção de todos os outros. Pois o Senado parece decidido a dar razão a todos os que defendem as alternativas piores. Para usar as mesmas palavras de Renan: ''A democracia, mesmo no Brasil, não merece esse fim.'' Resta agora saber como reagirá o plenário do Supremo.




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segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

ROMPER COM O DISCURSO POÉTICO NÃO É COMO ROMPER COM O PROCESSO SOCIAL- Ferreira Gullar

Romper com o discurso poético não é como romper com o processo social

Mudar é próprio da existência. Tanto muda a natureza como mudamos nós, a sociedade e a cultura; e, se há o que muda independentemente da nossa vontade, há o que mudamos nós, por nossa própria determinação.

Naturalmente, dentre essas mudanças por nós mesmos realizadas, há as que decorrem de determinantes que mal controlamos e as que resultam de nossa opção consciente.

Fui levado a refletir sobre esses fenômenos ao me deparar com os problemas que enfrentamos, sobretudo na época moderna em face da necessidade de mudar a sociedade em que vivemos, que se impôs a partir da revolução industrial e do desenvolvimento do regime capitalista.

Em função disso, a partir da segunda metade do século 19, em praticamente todos os setores da sociedade, mudanças radicais se impuseram. Agravou-se uma visão crítica do modo de produção capitalista que iria culminar, em começos do século 20, com a revolução comunista de 1917.

É também no final do século 19 que, no terreno das artes, surge um movimento renovador que culminará com a eclosão cubista no início do século 20. Tais eclosões revolucionárias, tanto do campo de produção industrial quanto da criação artística, não são meras coincidências, mas, sim, resultantes das complexas relações que condicionam essas distintas manifestações da criatividade humana.

Um século depois de deflagradas, essas mudanças radicais, tanto no campo político-econômico como no plano estético, ambas, após as mudanças que provocaram, esgotaram-se.

No campo artístico, após uma série de movimentos realmente inovadores, chegou-se à desintegração das linguagens e, finalmente, a uma espécie de vale-tudo. Isso porque, quando se afirma que será arte "tudo o que se disser que é arte", é decretado o fim da arte.

No campo político não chegamos a esse niilismo, nem poderíamos chegar, pelo fato de que a política não lida apenas com metáforas, mas com a realidade concreta da vida.

E aqui chegamos ao ponto que me levou a estas considerações: se é verdade que a mudança é um fator decisivo da existência e, portanto, também da realidade social, inovar, neste campo, não é o mesmo que inovar no campo das artes, pelo fato de que este é um terreno particularmente complexo, pois envolve desde o pão de cada dia até o custo das aposentadorias e o índice de desemprego.

A Revolução Soviética de 1917 deu início a mudanças radicais na sociedade russa, mas também no processo político mundial, fomentando, sobretudo na intelectualidade e na juventude, a luta por uma sociedade anticapitalista, justa e revolucionária.

Essa utopia não se realiza plenamente em razão mesma da complexidade dos problemas nela implicados. Marx subestimou a importância decisiva da iniciativa privada no processo econômico e, com isso, perdeu a disputa com o regime capitalista.

Em consequência disso, aquela ideologia perdeu força, mas a luta pelas mudanças sociais ainda se mantém, seja na versão do populismo latino-americano, seja no projeto de alguns partidos que pregam um socialismo moderado em diversos países europeus.

Há, ainda, também na Europa, países que praticam um capitalismo sensato, em que a diferença de renda é compensada com a prestação, pelo Estado, de serviços eficientes no campo da saúde e da educação, sobretudo.

Em países como o nosso, esses serviços são muito mais precários não só porque os recursos são insuficientes, mas porque o número de pessoas carentes é muito maior.

Na América Latina surgiram alguns governos populistas que tentaram explorar politicamente essa desigualdade, implantando programas que excluíam a possibilidade real de colocá-los em prática. A consequência disso foi o agravamento da situação econômica geral e a estagnação do crescimento, que resultou no fracasso desse populismo nos países que tentaram implantá-lo.

Então, volto à tese que já expus aqui: uma coisa é romper com a lógica do discurso poético; outra coisa, muito diversa, é romper com a lógica do processo social. Dá em Venezuela, por exemplo. 

Folha de São Paulo, 20/11/2016




FERREIRA GULLAR 
Sétimo ocupante da cadeira nº 37 da ABL, eleito em 9 de outubro de 2014, na sucessão de Ivan Junqueira, e recebido em 5 de dezembro de 2014, pelo Acadêmico Antonio Carlos Secchin.
Ferreira Gullar nasceu em 10 de setembro de 1930, em São Luís do Maranhão – MA e faleceu  em 4 de dezembro de 2016, no Rio de Janeiro.

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NÍDIA COSTA REIS & EGLÊ S MACHADO: BRINCANDO COM AS EXPRESSÕES

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
Dueto: Nídia Costa Reis & Eglê S Machado


Nídia Maria da Costa Reis:
Peço licença para invadir sua página e enviar-lhe outra "brincadeira" que já publiquei no Facebook tempos atrás. Você pediu e aí vai:
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Há alguns anos, escrevi esta história empregando expressões populares muito conhecidas. Ela foi bastante comentada e apreciada, e tema de um programa na rádio São João del-Rei, do qual participei ao vivo, como convidada.

 Um rapaz nasceu onde Judas perdeu as botas e sempre andou de déu em déu. Sua vida foi difícil. Comeu o pão que o diabo amassou, mas nunca entregou a rapadura.
 Certa vez, arranjou um emprego, mas foi fogo de palha. O patrão despediu-o e ele saiu com uma mão na frente e outra atrás. O rapaz continuou seu caminho. Encontrou um homem assentado debaixo de uma árvore com cara de quem comeu e não gostou. Quis puxar conversa. O homem não estava disposto e, diante da insistência do rapaz, perdeu as estribeiras e partiu para a ignorância. O rapaz deu no pé
Ao longe, viu uma fazenda e resolveu pedir pousada. Ao chegar, achou que ia tirar a barriga da miséria porque a cozinha estava sortida. A dona da casa era uma unha de fome e dizia que as coisas estavam pela hora da morte. Deu-lhe uma xicrinha de café puro e mandou-o picar a mula. Ele não gostou e começou a xingar a dona que ouviu cobras e lagartos
Nesse instante, apareceu o dono da fazenda e resolveu mostrar ao rapaz com quantos paus se faz uma canoa. Olhou para ele e começou a rir de sua boca de chupar ovo. Disse-lhe que ganharia comida só no dia em que na galinha nascesse dente. A única coisa que poderia ganhar era um pouco de água que o passarinho não bebe. O rapaz respondeu que não era seu irmão de opa e que ele estava chorando de barriga cheia. O dono nem abanou o rabo e saiu
O rapaz pensou: “É, desse mato não sai coelho. Vou cantar em outra freguesia.
Chegou a uma cidade depois de uma longa caminhada. Ele tinha mesmo fôlego de sete gatos. Aproximou-se de um mercadinho e entrou. Começou a examinar as mercadorias porque não podia levar gato por lebre. Ele achou que as mercadorias estavam na bacia das almas e ficou com água na boca. Perguntou ao dono se podia comprar fiado. Alguém gritou de longe: “Não vende não porque ele não apaga nem fogo na roupa”. Era um leva-e-traz que ele conhecia e gostava de fazer tempestade num copo d'água. O dono do mercadinho era um água morna e deixou-o escolher alguma coisa para comer. Aí, caiu a sopa no mel. O rapaz pensou: “Vou aproveitar enquanto Braz é o tesoureiro”. Encheu a sacolinha e foi saindo. A moça do caixa disse-lhe que ele devia vinte reais. “Eu sei. Você quer ensinar o Pai Nosso ao seu vigário?”, respondeu ele. A moça disse: ”Vá pagando e vá saindo. Aqui é assim: tretou, relou, o pau cantou”. 
O dono chegou e pôs água na fervura. Dirigindo-se ao rapaz, disse: ”Você quer ir para a cidade dos pés juntos ou quer ficar para semente?” E continuou: ”Sabe de uma coisa? Dê-me esta sacola. Você é muito atrevido e vai ficar a ver navios. Se ficar cheio de nove horas, vou chamar a polícia e você vai ver o sol nascer quadrado.
O rapaz, que estava com a orelha pegando fogo, respondeu. “Não quer receber os vinte, não é? Sua alma, sua palma. Não vou me vender caro, nem meter os pés pelas mãos. Não adianta remar contra a corrente. Vou sair desta espelunca antes que esta história termine em pizza...”

Nídia costa Reis

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Eglê S Machado:

Amiga Nídia Costa Reis, esse rapaz é meu conhecido:

O ADEMAR! 

Eis que o caldo engrossou para o Ademar!
Porém já que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, ele,  teimoso igual uma mula acabou se arranjando. A sorte que não tá nem aí para os errados  lhe deu uma mãozinha. E ele conseguiu  se mancar e procurar fazer da natureza força  depois de concluir que santo de casa não faz milagre  e resolveu  sair de fininho  rumo a outra fazenda bem distante desta, com muita fartura de trabalho e alimento.
Como quem é do chão não quer colchão demorou para acostumar-se com a nova vida, para depois   passar a dar duro confiando que de grão em grão a galinha enche o papo.  Afoito, sempre agiu como seu pai, pois quem sai aos seus não degenera. A velha Benta vivia afirmando: tal pai, tal filho!
Conseguiu fazer boas amizades, é belo, veste-se bem e é admirado. 
Como  em  terra de cego quem tem um olho é rei, ele começou  um novo tempo. Chegou à conclusão de que águas passadas não movem moinhos, e começou a sonhar com uma companheira para formar família. Logo estaria enfeitiçado por alguma das muitas moças da fazenda e redondezas; o tempo inteiro observava as meninas pensando em fazer a melhor escolha, já que macaco velho não mete a mão em cumbuca. Detesta a solidão embora afirme que antes só do que mal acompanhado.
Nos vilarejos vizinhos sua intenção de casar-se deixou em polvorosa as mocinhas casadoiras, e os mancebos invejosos. Dom Juan do pedaço, Jaime, tropeiro de profissão nota a animação da Ritinha, sua fã que suspirava pela sua pessoa e agora nem lhe olha e vive em constantes cochichos com as amigas. Lembrando-se da sua avó que dizia cochilou, cachimbo cai tratou de ser mais delicado com a Ritinha e no seu coração ameaçava o intruso apelidava-o de tucano rico de pena e bico e não entendia o que sua apaixonada esperava do forasteiro, se nem ao menos o conhecia. Enfim, pensou, cada cabeça, uma sentença e decidiu que no final da semana falaria com os pais da menina, assumiria compromisso de noivado, já que mais vale um pássaro na mão do que dois voando
Sorriu   prometendo que na primeira oportunidade diria na cara do rival: quando você ia buscar os cajus, eu já vinha com as castanhas.
O nosso Ademar que conseguiu economizar alguns reais resolveu deixar a fazenda para montar um comércio de artigos femininos, ou um armarinho, a fim de melhor manter contato com as moças, saber sobre suas famílias e quem sabe encontrar sua cara metade.
Encontrou um pequeno ponto comercial na rua principal da vila de Mutuns, que, se o dono estivesse disposto a fazer uma pequena reforma e cobrar um aluguel justo, o alugaria até conseguir seu próprio imóvel. Qual não foi o seu espanto ao descobrir que Lucilo, seu amigo de adolescência e lupanares há cinco anos, era o proprietário do imóvel. 
Lucilo ficou contente por vê-lo, mas lamentou estar de viagem para  João Pessoa. Iria encontrar uma rica paraibana  que estava enrabichada por ele e lhe enviara uma passagem de avião exigindo sua presença. Como o costume do cachimbo é que põe a boca torta Lucilo estava de malas prontas, disposto a mais uma aventura, desta vez com uma mulher de cabelo nas ventas que lhe prometia chamego, diversão e tripa forra todos os dias; segredou ao amigo: mulher de bigode nem o diabo pode
Ademar ainda tentou dissuadi-lo: rapaz,  cuidado, em terra que eu não vou, feijão bota na raiz, lá é muito seco, terra que filho chora e mãe não vê...  No que o amigo, retrucou: ham, quem desdenha quer comprar... Não se avexe não   que vaso ruim não se quebra. Cê fica com minha casa, monta seu armarinho, não me paga nada e ainda assino documento de doação, tudo em nome dos nossos bons tempos.
Ademar  viu que teria de gastar algum dinheiro com a reforma, mas ficou contente e concluiu que de cavalo dado não se olha a muda
Lucilo partiu (a bem da verdade pesaroso por deixar a vila e os amores). Já no avião decolando deu um muxoxo e pensou: ora, vão-se os anéis ficam os dedos...
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Casa reformada, armarinho montado, freguesia conquistada, sem concorrente à altura, o Ademar já planejava adquirir o terreno baldio ao lado, onde construiria uma boa casa assim que escolhesse a mulher que se tornaria sua  cara metade. Já observara e se informara de vida pessoal, familiar e financeira da maioria das moças da vila, seu coração ora pendia para uma, ora para outra, mas permanecia ainda pulando de galho em galho.
. . . . 
O tropeiro Jaime já montara casa, a Ritinha já estava com o enxoval pronto, faltando alguns detalhes de acabamento. O noivo lhe pedira para acompanha-la quando fosse comprar algo para o enxoval e sempre a levava ao armarinho  de um amigo que um dia lhe ajudara e assim uma mão lavada lava a outra, explicava. 
Na Capelinha da Assunção corriam os proclamas, toda a Vila se engalanava para o evento.
Ademar não estranhava não ter sido convidado, pois há poucos  meses o noivo esteve no armarinho jogando conversa fora e falou do seu casamento próximo. Quando lhe foi oferecido crédito para alguma compra respondeu irônico palavras sem nexo sobre buscar cajus e trazer castanhas, deu-lhe as costas por resposta  e afastou-se dizendo que ri melhor quem ri por último.  Ademar não entendeu tal reação e comentou consigo mesmo: cada doido com a sua mania...
. . . .
Ritinha, meio desanimada estava diante da sua mãe que lhe tirava as medidas para a confecção do seu vestido de noiva. Dona Lara já escolhera o tecido branco e junto com a filha escolhiam o modelo com cauda não muito longa para economizar tecido, mangas compridas  e decote discreto, com enfeites que deveriam escolher  em um dos  armarinhos da Vila. 
Como  o noivo não pode tomar conhecimento de detalhes do vestido da noiva ou vê-lo antes do dia do casamento, dona Lara resolveu acompanhar a filha para as compras dos aviamentos e já a caminho optou pelo armarinho do Ademar por ser o seu estoque de qualidade sabidamente superior ao do concorrente. Ritinha lembrou à mãe que o Jaime sempre fez questão de comprar no armarinho do amigo, mas dona Lara pensou um pouco e disse à filha: aí é que a porca torce o rabo, quero o que há de melhor na vila para  seu vestido de noiva e várias vezes já fiz compras no armarinho do seu Ademar que é muito educado e sempre me dá um bom desconto.  Vamos para lá, pois quem muito dorme pouco aprende oxente!
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Três anos depois, a vila novamente em polvorosa, a Capelinha da Assunção  engalanada, proclamas já corridos, a casa construída vizinha ao armarinho do Ademar  pintada de branco com janelas verdes parecia cenário de contos de fadas, Lucilo e a sua Paraíba mais uma bela  pré-adolescente convidados  especiais.  Até a Bandinha da escola foi escolhida para tocar a marcha nupcial no casamento da Ritinha, a professora mais querida com Ademar, o maior comerciante da Vila.
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E os amigos do Jaime até hoje não entenderam como o tropeiro teve a coragem de picar a mula, abandonando a tropa na estrada, desistindo de um casamento praticamente aos pés do altar.
Alguém comentou que um estradeiro muito parecido com o Jaime  foi  visto na feira livre de uma cidade distante lendo suas histórias de Cordel. Uma boa plateia  às gargalhadas aplaudia o poeta, principalmente quando  ele repetia sem cansar que:  fogo ladeira acima, água ladeira abaixo e mulher quando quer, não tem quem segure!...


 Eglê S Machado



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domingo, 4 de dezembro de 2016

JANOT: "O PAÍS EM MARCHA A RÉ NO COMBATE À CORRUPÇÃO"

Rodrigo Janot acaba de divulgar nota sobre o AI-5 da ORCRIM:
Brasil 30.11.16 

"Foram mais de dois milhões de assinaturas. Um apoio maciço da sociedade brasileira, que também por outros meios se manifestou. Houve o apoio de organismos internacionais. Foram centenas de horas de discussão, de esclarecimento e de um debate sadio em prol da democracia brasileira. Foram apresentadas propostas visando a um Brasil melhor para as futuras gerações.
No entanto, isso não foi o suficiente para que os deputados se sensibilizassem da importância das 10 Medidas de Combate à Corrupção. O resultado da votação do PL 4850/2016, ontem, colocou o país em marcha a ré no combate à corrupção. O Plenário da Câmara dos Deputados desperdiçou uma chance histórica de promover um salto qualitativo no processo civilizatório da sociedade brasileira.
A Casa optou por excluir diversos pontos chancelados pela Comissão Especial que analisou as propostas com afinco. Além de retirar a possibilidade de aprimorar o combate à corrupção – como a tipificação do crime de enriquecimento ilícito, mudanças na prescrição de crimes e facilitação do confisco de bens oriundos de corrupção –, houve a inclusão de proposta que coloca em risco o funcionamento do Ministério Público e do Poder Judiciário, a saber, a emenda que sujeita promotores e juízes à punição por crime de responsabilidade.
Ministério Público e Judiciário nem de longe podem ser responsabilizados pela grave crise ética por que passa o país. Encareço aos membros do Ministério Público Brasileiro que se mantenham concentrados no trabalho de combate à corrupção e ao crime. Que isso não nos desanime; antes, que nos sirva de incentivo ao trabalho correto, profissional e desprovido de ideologias, como tem sido feito desde a Constituição de 1988. Esse ponto de inflexão e tensão institucional será ultrapassado pelo esforço de todos e pelo reconhecimento da sociedade em relação aos resultados alcançados.
Um sumário honesto da votação das 10 Medidas, na Câmara dos Deputados, deverá registrar que o que havia de melhor no projeto foi excluído e medidas claramente retaliatórias foram incluídas. Cabe esclarecer que a emenda aprovada, na verdade, objetiva intimidar e enfraquecer Ministério Público e Judiciário.
As 10 Medidas contra a Corrupção não existem mais. O Ministério Público Brasileiro não apoia o texto que restou, uma pálida sombra das propostas que nos aproximariam de boas práticas mundiais. O Ministério Público seguirá sua trajetória de serviço ao povo brasileiro, na perspectiva de luta contra o desvio de dinheiro público e o roubo das esperanças de um país melhor para todos nós.
Nesse debate, longe de qualquer compromisso de luta contra a corrupção, vimos uma rejeição violenta e irracional ao Ministério Público e ao Judiciário. A proposta aprovada na Câmara ainda vai para o Senado. A sociedade deve ficar atenta para que o retrocesso não seja concretizado; para que a marcha seja invertida novamente e possamos andar pra frente.
O conforto está na Constituição, que ainda nos guia e nos aponta o lugar do Brasil. Que seja melhor do que o que vimos hoje.

Rodrigo Janot
Procurador-Geral da República
Presidente do Conselho Nacional do Ministério Público"


http://www.oantagonista.com/posts/janot-o-pais-em-marcha-a-re-no-combate-a-corrupcao?utm_medium=email&utm_campaign=NL-Antagonista-2016-12-04&utm_content=NL-Antagonista-2016-12-04+CID_9fb405fd0cc0a5a6fbae2ff4a92cf8ac&utm_source=Email%20Antagonista&utm_term=Janot%20O%20pas%20em%20marcha%20a%20r%20no%20combate%20%20corrupo

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