Total de visualizações de página

quinta-feira, 16 de março de 2023

NOTA DE UTILIDADE PÚBLICA  


Depois dos 60 anos, pode-se experimentar muitos tipos de doenças.

- Mas, o que mais me preocupa é a doença de Alzheimer.

- Não apenas porque eu não poderia cuidar de mim mesmo, mas,  porque isso causaria muitos inconvenientes para os membros da minha família.

- Um amigo médico ensinou a outro amigo, um exercício com a língua que é eficaz para reduzir o aparecimento da doença de Alzheimer, e esse exercício também é útil para reduzir e melhorar:

1 - Peso corporal

2 - Hipertensão

3 - Coágulo sanguíneo no cérebro

4 - Asma

5 - Miopia

6 - Zumbido no ouvido

7 - Infecção na garganta

8 - Infecção do ombro / pescoço

9 - Insônia

 

Os movimentos são muito simples e fáceis de aprender. Todas as manhãs, quando você lavar o rosto, na frente de um espelho, faça o seguinte exercício:

- Estique a língua e mova-a para a direita e depois para a esquerda por 10 vezes seguidas.

- Desde que ele começou a exercitar sua língua diariamente, houve uma melhora na retenção de seu cérebro.

- Sua mente ficou clara e produtiva, e outras melhorias aconteceram

- 1 Ver melhor de longe

- 2 Sem tonturas

- 3 Maior bem-estar geral

- 4 Melhor digestão

- 5 Pouca gripe 

- 6 Ele se sente mais forte e mais ágil.

 Notas:

- O exercício da língua ajuda a controlar e prevenir a doença de Alzheimer.

A pesquisa médica descobriu que o exercício tem uma conexão com o grande cérebro.

Quando nosso corpo se torna velho e fraco, o primeiro sinal que aparece é que a nossa língua fica rígida, por isso tendemos a mordê-la.

- Ao exercitar a sua língua, você estimulará o seu cérebro.

Cada pessoa que recebe este boletim informativo deve repassar, para  ajudar a combater a doença de Alzheimer e melhorar qualidade de vida das pessoas e acabar com tremores nas mãos e pernas.

 

Vivendo e aprendendo. Compartilhe!

(Recebi via WhatsApp, sem menção de autoria)

* * *

O espelho biseautê

Ignácio de Loyola Brandão

 


Para Paulo Caruso, amigo de uma vida. Abri o e-mail de Raquel Naveira, escritora mato-grossense, veio uma poética crônica. Ela, assim que publica na sua terra, envia aos amigos. Fui atraído pela frase: 'Restaurou a antiga penteadeira, com o espelho de cristal bisotado e a banqueta de couro, que ficava no quarto dela, a sua mãe'. Bisotado. Há quanto, quanto tempo não lia, sentia, esta palavra?

Vi dona Maria do Rosário, diante da penteadeira - também se dizia psyché - com espelho bisotado, às vezes chamado de bisotê. Depois, Fanny Marracini ensinaria que em francês é biseauté. O que significava? Por mais que olhasse para o espelho, não entendia, só via mamãe feliz. Papai me dizia, 'não sei o que é, mas sua mãe quando se senta na penteadeira, fica tão bonita'. Seria o biseautê? Mas o que era aquilo?

Perguntava, não respondiam. Desconfiei que não soubessem, ou fosse coisa que criança não podia saber. Quantas vezes eu entrava na sala, todos murmuravam 'tem criança' e se calavam.

Custava me explicarem o que era biseautê? Ou bisotado? Essa coisa que fazia mamãe bonita, feliz quando saía para o cinema, para a reza na matriz, para uma festa? Mal ela saía, eu ia para o quarto e ficava a olhar para o espelho, para meu rosto, a fim de saber se eu estava mudado, era mais bonito. Não, não estava, era feio. Esquisito, me condenavam.

Um dia, percebi que na margem do espelho havia um pequena região diferente. Um mínimo rebaixo. Chanfrado, disse vovô Vital. Quando me olhei nele, me vi bonito. Somente naquela moldura. Assim descobri o que era biseautê. Beleza. Cada vez que entrava no quarto, me olhava naquele estreito território, onde eu era bonito. Seria o mesmo com mamãe?

Um dia, vi mamãe pentear o cabelo, passar ruge, apanhar uma bola de vidro com quatro letras, Coty, passar o perfume, meu pai entrou: 'Você está mais linda do que nunca!'. Seria também aquele perfume?

Um dia, dia mais horrível, a funcionária que ajudava na faxina deixou cair o cabo do escovão que dava brilho no assoalho, e o espelho partiu-se em mil. A dor de mamãe. 'Meu espelho, me fazia tão linda.' Ajudei a pegar os cacos, encontrei pedaços do bisotado. E se eu guardasse um pedacinho dele, poderia mudar minha cara quando estivesse sozinho? Mudando a cara, as meninas da classe sorririam para mim, afilhado dono do bar me daria um naco do lanche dela, tão apetitoso. Um dia, a professora leu minha redação, chamava-se composição, e disse: 'Nota cem. A melhor redação do ano. Quero que todo mundo leia para saber como se faz'. Tirei meu espelho do bolso, olhei, ouvi: 'Você é o menino mais bonito da classe', dito pela Neuce, irmã da professora Lourdes.


É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE 'ZERO' E 'NÃO VERÁS PAÍS NENHUM'.

O Estado de S. Paulo, 12/03/2023

 

https://www.academia.org.br/academicos/ignacio-de-loyola-brandao

---------------

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *

terça-feira, 14 de março de 2023

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: 14 DE MARÇO - DIA DE CASTRO ALVES

NAVIO NEGREIRO

Tragédia no mar



I

’Estamos em pleno mar. Doido no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm, cansam
Como turba de infantes inquieta.

’Estamos em pleno mar. Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro.

’Estamos em pleno mar. Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
Qual dos dois é o céu? qual o oceano?

’Estamos em pleno mar. Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas.

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode Nesta hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar, em cima — o firmamento!
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…
………………………………………………….

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doido cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviatã do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
Às vagas que deixa após.

Do espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga iônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu,
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!

III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais, não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí? Que quadro de amarguras!
Que canto funeral!  Que tétricas figuras!
Que cena infame e vil! Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros, estalar de açoite,
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar.

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos, o chicote estala.
E voam mais e mais.

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que de martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doidas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!

V

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão…

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lágrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus …
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte,
… Adeus, amores, adeus!

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai pra não mais se erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas da amplidão!
Hoje… o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúmulo de maldade,
Nem são livres pra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite… Irrisão!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

VI

E existe um povo que a bandeira empresta
Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu na vaga,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! … Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

Antonio de Castro Alves, natural de Cabaceiras, Estado da Bahia, nasceu em 14/03/1847 e faleceu aos 24 anos em 06/07/1871. Suas poesias, quase todas elas do mais espontâneo lirismo, foram enfeixadas num volume que denominou Espumas Flutuantes, cuja primeira edição saiu em 1870. Deixou ainda A Cachoeira de Paulo Afonso em 1876. Deste mesmo ano é o drama histórico Gonzaga ou a Revolução de Minas. Suas obras completas foram editadas em 1921 e contam inúmera reedições, sendo possivelmente o mais lido dos nossos poetas Juntamente com Tobias Barreto inaugurou uma nova fase na poesia brasileira – o condoreirismo.

* * *

quinta-feira, 9 de março de 2023

O brilho de Proust

Arnaldo Niskier



Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'?

Estive no pampa gaúcho, soprado pelos ventos de Gilberto Schwartsmann, diretor da Biblioteca Pública Estadual de Porto Alegre, um notável colecionador literário, autor do livro 'A Amante de Proust' e membro da Academia Nacional de Medicina, para dizer algumas palavras sobre esse incrível escritor que foi Marcel Proust (1871-1922). Na capital do Rio Grande do Sul, não pude deixar de me lembrar do meu saudoso colega acadêmico Moacyr Scliar, autor de mais de 80 livros, falecido em 2011.

A harmonia da ascendência comum, o judaísmo, explica muita coisa das nossas crenças espirituais e literárias. Membro há 35 anos da Academia Brasileira de Letras, da qual hoje sou vice-decano, sempre me interessei, particularmente, pela cultura francesa. Talvez por isso seja natural que tenha recebido a 'Légion d´Honneur' e a Ordem das Letras e das Artes do governo francês.

Educação e Judaísmo são atividades que sempre estiveram entrelaçadas, como se pode observar no livro 'Ensaios Judaicos', do professor Jaques Ribenboim, experiente membro da comunidade judaica do Recife, que assinala: 'Existe uma tradição de letras no povo de Israel. O livro mais lido do mundo (a Bíblia) foi escrito por seus descendentes.'

O escritor judeu produz uma escrita judaica, embora não trate especificamente de temas judaicos. Marcel Proust teve um brilho especial na história do romance francês do século XX, particularmente em virtude do sucesso de 'Em busca do tempo perdido', obra publicada em sete partes, de 1913 a 1927. Nela está a ideia de que a obra literária tem por objeto voltar a encontrar, além do escoamento estéril da vida cotidiana e mundana, o universo espelhado pelo espírito e considerado, sob o aspecto da eternidade, que é também o da arte.

Com a saúde fragilizada desde a infância por conta da asma, a vida de Proust é, sem dúvida, o testemunho do permanente esforço para adaptação à doença, para a resistência ao sofrimento. Chegou até a dizer que 'a ideia da morte o acompanhava com a mesma constância quanto a da própria identidade'.

George Cattaui (1896-1974), escritor francês de origem egício-judaica, que publicou vários ensaios e biografias, analisou que o prazer na dor e na atribulação deveria, em parte, ser creditado ao sangue judeu de Proust, que o levava a considerar com desprezo ''o mundo inumano do prazer', e a defender o princípio de que 'toda a criação tem que exigir ascese e sacrifícios'. Para ele, a arte traduzia um valor absoluto. E a própria obra literária mostra muito bem a relação que existiu entre o romancista e o mundo que procurou apresentar ao leitor. Já se disse que a doença está para o romance de Proust, como o dinheiro na estrutura da Comédie Humaine . Há estudiosos que afirmam que ele foi 'o Balzac do fim da alta burguesia', que teria escrito 'o epitáfio da aristocracia francesa'.

Chumbo Gordo, 27/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-brilho-de-proust

-------------

Arnaldo Niskier - Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e 1999.

* * *

  

terça-feira, 7 de março de 2023

Poemas de denúncia sobre

o rio Cachoeira motivam

novo livro de Cyro de Mattos



 

          Águas de meu rio é o novo livro de poesia de Cyro de Mattos, que acaba de ser publicado pela editora Ibis Libris, do Rio, com prefácio de Denise Emmer, poeta premiada em concursos expressivos nacionais, musicista, e um dos nomes importantes da poesia contemporânea brasileira. O livro é um poema longo dividido em vinte partes em que o poeta aponta com tristeza, em versos de lirismo agudo, a situação doentia do Cachoeira, outrora de águas límpidas e peixe em abundância, fonte de sustento para muitos e lugar de alegrias para meninos e gente grande. 

        Autor de 64 livros pessoais, entre o romance, conto, crônica, poema, ensaio e literatura infantojuvenil, o baiano de Itabuna Cyro de Mattos (cyropm@bol.com.br) já publicou vinte e dois livros de poesia para o leitor adulto, três deles com o tema inspirado no Cachoeira, formando uma trilogia do rio com esse Águas e meu rio. Os outros dois livros da trilogia são Vinte poemas do rio/Twenty River Poems, tradução de Manuel Portela, e O discurso do rio, constituído de trinta sonetos, ambos publicados pela EDITUS, editora da UESC. Esses dois livros foram também editados em Portugal, pela Palimage, de Coimbra, na coleção Palavra e Imagem, dirigida pelo poeta Jorge Fragoso. 

           Vinte Poemas do rio foi adotado por três anos para o vestibular da Universidade Estadual de Santa Cruz. Pequeno livro de versos cativantes, vem sendo estudado em escolas e universidades. Seus poemas foram declamados pelos alunos da Escola São Jorge de Ilhéus no Teatro de Ilhéus para um público que lotou as dependências do auditório.   

           Do livro Águas de meu rio é o poema VIII em que o poeta revela as suas relações afetivas com o rio de sua infância, quando o  cenário era de pureza e alegria.   

Leiam abaixo o poema.

 

VIII

aprendi a nadar em tuas águas

aprendi a mergulhar em tuas águas

aprendi a pescar em tuas águas

 

aprendi a sorrir em tuas águas

aprendi a cantar em tuas águas

aprendi a saltar em tuas águas

 

aprendi a flutuar em tuas águas

aprendi a dormir em tuas águas

aprendi a sonhar em tuas águas

 

enquanto as nuvens passavam

as borboletas voavam em bando

não querias que eu esquecesse tuas águas

 

  O Poeta e o Rio

   Afonso Manta

 

E vendo as águas do rio

e outras águas renhidas

o poeta Cyro reinventa

o mistério de nossas vidas.

 



Cyro de Mattos observa as lavadeiras quando

antigamente lavavam as roupas e estendiam 

nas pedras, que ficavam coloridas. 


* * *

 


 

quinta-feira, 2 de março de 2023

O que devo a Raquel Welch

Ignácio de Loyola Brandão


 

Raquel Welch se foi. A mulher mais sexy do mundo era mortal, porque imortalidade não existe. Existisse, seria insuportável. O que teria sido de mim sem aquela atriz? Teria feito que carreira? Thomaz Souto Correa era diretor da Claudia em 1966 e me chamou: 'Quer deixar o jornal diário e vir para uma revista mensal?'. Fiquei siderado. Claudia era a revista feminina mais importante do Brasil. Moderna, trazia Carmen (com N) da Silva, que hoje estaria à frente do #MeToo.

Ela desafiava convenções e a censura da ditadura falando de sexo antes do casamento, divórcio, drogas, virgindade, anticoncepcionais, mercado de trabalho para a mulher. Precursora, acenou para o futuro das mulheres em época careta e conservadora. Mudou a história de futuras gerações. Ajudou a moldar minha cabeça nas conversas na redação e nos almoços no Hotel Cambridge, na Avenida Nove de Julho, ao lado de Glória Kalil, Isabel Montero, Guaracy Mirgalovska, Thomaz Souto Corrêa, Edith Eisler, Lu Rodrigues, Attilio Baschera, Walther Negrão. Trabalhar naquela revista mudou minha carreira da li em diante. O jornal Última Hora, onde me formei, foi comprado por uma empresa que o massacrou. Estivesse lá, o que teria feito depois?

Nervoso, fui para o teste. Na sala de Thomaz, vina parede um quadrinho do Peanuts emoldurado, com a frase 'A vida é cheia de rudes despertares'. Thomaz: 'Sei que você ama, entende de cinema, de estrelas de todos os tempos. Faça um texto fluente, sensual, sobre essa mulher'.

O filme era Mil Séculos Antes de Cristo e na foto, em lugar de Cristo, havia Raquel Welch de biquíni, sex symbol. A expressão hoje está banida, mas na época atraía. Raquel era morena, rosto entre ingênuo e malicioso, sensual. Tinha de me sair bem. Recorri aos telegramas internacionais, fui buscar minhas revistas sobre cinema, meus livros sobre Hollywood. O prazo não era o de jornal, tinha dias para isso.

Essa foi a primeira liberdade que aprendi com a revista, nada de pressa, do escreva agora, para daqui a dez minutos. Redigi, entre nervoso e ansioso (e se Thomaz não gostar?), 'enchi linguiça' (como se dizia) com historietas. Thomaz aprovou, fiquei anos na redação. Em 1967, fizemos uma Claudia em Hollywood, tentei entrevistar Raquel, não consegui, filmava em alguma parte. Na minha cabeça, eu iria dizer: 'Muito obrigado por existir, você deu impulso â minha vida'. Ela nada entenderia, me acharia esquisito. E daí? Até hoje muita gente acha. O que penso agora é: onde estão equem são os dois filhos dela? O que foi a vida deles tendo a mãe mais sexy do cinema? Uma semana atrás, escrevi esta crônica e fui almoçar com Glória e Thomaz. Raquel tinha morrido no dia anterior, aos 82 anos.

Jornal O Estado de S. Paulo, 26/02/2023

https://www.academia.org.br/artigos/o-que-devo-raquel-welch

-------------

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

AS VÍTIMAS INOCENTES QUE ESTÃO PERSEGUIDAS E PRESAS PELO ESTADO BRASILEIRO.


Atenção

Se você está ou esteve preso no domingo ou segunda-feira (08 ou 09 de janeiro de 2023), próximo das invasões da Praça dos Três Poderes em Brasília/DF, saindo dos campi do QG, induzido ou orientado a entrar num ônibus (idosos e crianças, ou não) que o levaria, de forma enganosa, preso, para a sede da PF em Brasília/DF, contra a sua vontade (sem voz de prisão em flagrante), ou seja, sem motivo, você foi sequestrado pelo próprio Estado Brasileiro! Nem por um segundo poderia ter sido submetido a tal humilhação. Sem motivo algum, ser preso sem crime, sem flagrante, sem análise de um juiz, sem julgamento. 

Você e os demais brasileiros presos são vítimas, repito, vocês são vítimas.

Virem o jogo: usem o veneno deles contra eles (o Governo). Arrumem advogados que peguem essa causa coletiva ou individual, ou a OAB, ou a Câmara Internacional Interamericana de Direitos Humanos e peçam reparação/indenização/punição contra quem expediu a ordem de prisão/sequestro, a quem os levaram presos para a sede da PF indevidamente como terroristas.

O Estado Brasileiro  precisa saber que o povo brasileiro não é  idiota, não é  ignorante Os responsáveis por esse desmando precisam saber que, ao rasgarem a lei, ferindo a dignidade dos brasileiros de bem, não ficarão impunes.

Pessoas de bem, Srs. Advogados, Srs. Juristas: vocês têm as provas, vocês têm como demonstrar como crianças, mulheres, idosos, adultos com ficha limpa e endereço fixo, que estavam nos manifestos pedindo socorro às Forças Armadas, não podem ser tratados como bandidos. Bandidos fogem do Exército e não ao contrário. O que lá faziam era pedir socorro!

Vocês que passaram por isso têm o direito de virar o jogo, têm o direito de processar o Estado.

Depois de tantos pensarem no que vocês (pessoas de bem, mulheres, idosos, crianças) estão passando, de tanto sofrermos também por vocês,  mesmo que distante  e  longe de Brasília, decidi pensar na solução e fui iluminado por esta Luz,  por este  "insight". Vocês  são vítimas sequestradas que têm o direito de mover uma ação, que o Mundo inteiro veja que são cidadãos e cidadãs brasileiros dignos encarcerados injustamente, e que exigem que se faça Justiça.

Instituições e  sociedades civis sérias que restaram, apelo para que acionem seus advogados, acionem a OAB. Temos de ajudar essas pessoas que, apenas com um olhar, vê-se que não teriam a mínima possibilidade ou indício de provocar os estragos que ocorreram na Praça dos Três Poderes naquele 08 de janeiro.

Ajude-as a resgatar suas dignidades,  ajude-as a organizar as provas e fazerem Justiça. 

Essa foi a forma que, mesmo aqui distante, vendo as imagens imparciais nas redes, pude esfriar a cabeça e contribuir na luta junto com essas pessoas.  

As pessoas que continuam presas de forma arbitrária pelo Estado Brasileiro precisam da ajuda de todos, que sabem que seus direitos foram sumariamente revogados. 

Advogados de todo o Brasil e do Mundo, vocês têm uma causa ganha contra o Estado Brasileiro, que cometeu crime ao prender pessoas que,   segundo relatos, foram presas nos Quarteis Generais do Exército, ou seja, nem no local do quebra-quebra estavam. E mesmo que estivessem, já que havia milhares de manifestantes na Praça dos Três Poderes, os mais fracos, indefesos, foram induzidos e ingenuamente (na pura boa-fé) a entrar no ônibus que os levariam a passar os piores pesadelos de suas vidas.

Esses brasileiros merecem Ter suas vidas de volta. Querem de volta sua Liberdade, vítimas que são do Estado Brasileiro. Merecem ser indenizadas, e os culpados, punidos.

 

(Recebi via WhatsApp sem menção de autoria)

* * *