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quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

Poema de Roberto Dinamite

Cyro de Mattos


 

Cruz de malta no coração,

Dinamite certeira nos pés,

O goleiro queria se esconder,

Daquela vez podia morrer.

 

Até as redes tremiam

Com o maior goleador,

Cada chute uma explosão

Que assombrava o torcedor.

 

Artilheiro como Roberto

No vitorioso Vasco da Gama

Outro igual pode até haver,

Outro maior não pode ter.

               

O Vasco, gigante da colina,

Teve o Ademir Queixada,

Quanto mais fazia gol

Mais queria ser goleador.

 

Teve o japonês Vavá,

Bicampeão mundial,

Um artilheiro perfeito,

Fazer gol era seu defeito.

 

Teve o Edmundo Animal,

Que tinha técnica apurada, 

Mas sua fome de artilheiro

Fez do craque um matador. 

 

Somente ele foi inimitável, 

Agora joga com os anjos,

Seu petardo ultrapassa nuvens

Fazendo cair flores do céu. 

 


Cyro de Mattos
é ficcionista e poeta. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC.

* * *

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

O balão vermelho

Ignácio de Loyola Brandão

 


Passando pela Marginal Pinheiros, dei com a roda-gigante destinada a ser a maior da América Latina. Minúsculo pano vermelho (parecendo balãozi-nho) mostrava-se agarrado a uma das cabines. Estremeci, a memória me remeteu aos meus 22 anos. Em um domingo de 1958, eu voltava de um show, promovido pelo jornal Última Hora e dei carona para Marlene França, atriz baiana nascida em Uauá, descoberta aos 14 anos por Alex Viany em Rosa dos Ventos, lançado em 1957. Ela veio para São Paulo disposta a fazer carreira, e fez. Ao passarmos pelo Parque Shangai, no centro, vimos a roda-gigante. Ela arregalou os olhos: 'Lô' - assim me chamava -, 'vamos dar uma volta?'. Na entrada, outro pedido: 'Me dá um balão vermelho?'. O filme de Lamorisse, Le Ballon Ronge, tinha sido sucesso. Feliz, apertava tanto o balão junto ao corpo que tive medo de estourar. Demos uma volta, duas, três, ela pedia: vamos passar a noite girando? Não passamos, mas tempos depois começamos a namorar. Ela, que vinha de uma separação, queria desfrutar tudo, vivíamos pela noite, mas nosso ponto mesmo era o bar Porta do Sol, na Rua Sete de Abril. Marlene cresceu na carreira, acabamos nos distanciando e ela se casou com Andréa Matarazzo Ippolito, teve três filhos, fez carreira cinematográfica nas mãos de diretores como Walter Hugo Khouri, Jorge Ileli, Aurélio Teixeira, Luiz Sérgio Person, Carlos Coimbra, Fauzi Mansur, Ozualdo Candeias, Rubem Biáfora, Luiz Paulino, Roberto Santos. Viveu com intensidade os filmes da 'Boca do Lixo'. Muitas vezes, quando nos cruzávamos, ela dizia: 'Ah! Meu balão vermelho'.

Passamos décadas sem nos ver. Nesse período, a baiana que aos 12 anos vendia doces em Feira de Santana mostrou maturidade e pioneirismo ao dirigir quatro curtas-metragens. A mulher de sorriso esfziante ousou enfrentar a ditadura em 1983 com um documentário (assistência de Frei Betto) sobre Frei Tito, o dominicano que se suicidou sob pressão da ditadura. Em 1985, ela foi a primeira a olhar para a questão dos boias-frias no curta Mídheres da Terra. Dirigiu em seguida Meninos de Rua, em 1988, problema ainda atual. Em 1999, veio o último curta, O Vale das Mídheres.

Num momento em que a batalha das mulheres está em plena erupção, espero que se dê um lugar a Marlene. A escritora e videomaker Alexandra Roscoe, de Brasília, baseada nesse retalho de vida, fez poética animação, dez anos atrás. Em 2011, em uma tarde de setembro, Maria do Rosário Caetano me trouxe a biografia de Marlene por ela escrita e me deu o telefone, há muito por mim perdido. Liguei, ela morava em um sítio em Itatiba. Reconheceu minha voz. 'Lô, o balão vermelho?' A voz era débil. Duas frases e a linha foi cortada. No dia seguinte, li: Marlene tinha tido um enfarte.

O Estado de S. Paulo, 01/01/2023

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-balao-vermelho

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Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

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INDIGNAÇÃO

Por Brigadeiro Eduardo Camerini

  


Enviei o texto abaixo para o Sr. Ministro da Defesa hoje, pelo começo da tarde, para que ele pudesse fazer uma avaliação. 

Não obtive resposta ainda, mas julgo necessário divulgar entre outros colegas militares, dada a gravidade da situação.


AO MINISTRO DA DEFESA

Prezado General Paulo Sérgio.

Conforme lhe informei ontem, estou lhe mandando esse texto, de minha autoria, para sua apreciação.

Trata-se de uma cópia única, endereçada somente ao senhor, para sua avaliação.

Que as decisões sejam iluminadas!

 

                                                               ******

Texto Escrito Após a Fala do Sr. Presidente da República.

 

Nunca mais se diga que nossas Forças Armadas nunca perderam uma guerra!

Hoje perdemos a maior delas!

Perdemos nossa Coragem!

Perdemos nossa Honra!

Perdemos nossa Lealdade!

Não cumprimos com o nosso Dever!

Perdemos a nossa Pátria!

Eu estou com vergonha de ser militar!

Vergonha de ver que tudo aquilo pelo qual jurei, trabalhei e lutei, foi traído por militares fracos, desleais e covardes, que fugiram do combate, preferindo apoiar quem sempre nos agrediu, sempre nos desrespeitou, sempre nos humilhou e sempre se vangloriou disso, e que ainda brada por aí que não nos quer em sua escolta, por não confiar nos militares das Forças Armadas, e que estas devem ser “colocadas em seu devido lugar”.

Militares que traíram seu próprio povo, que clamou pela nossa ajuda e que não foi atendido, por estarem os militares da ativa preocupados somente com o seu umbigo, e não com o povo a quem juraram proteger!

Fomos reduzidos a pó. Viramos farelo.

Seremos atacados cruelmente e, se reagirmos somente depois disso, estaremos fazendo apenas em causa própria, o que só irá piorar ainda mais as coisas. 

Joguem todas as nossas canções no lixo!

A partir de hoje, só representam mentiras!

Como disse Churchill:

 “Entre a guerra e a vergonha, escolhemos a vergonha.”

E agora teremos a vergonha e a guerra que se seguirá inevitavelmente.

A guerra seguirá com o povo, com os indígenas, com os caminhoneiros, com o Agronegócio. Todos verão os militares como traidores. 

Segmentos militares certamente os apoiarão. Eu inclusive. 

Generais não serão mais representantes de suas tropas.

Perderão o respeito dos honestos.

As tropas se insubordinarão, e com toda razão.

Os generais pagarão caro por essa deslealdade.

Esconderam sua covardia, dizendo não ter havido fraude nas urnas. 

Oras! O Exército é que não conseguiu identificar a fraude!

Mas outros, civis, conseguiram!

A vaidade prevaleceu no Exército e no seu Centro de Guerra Cibernética. Não foram, mais uma vez, humildes o suficiente para reconhecer suas falhas. Prevaleceu o marketing e a defesa de sua imagem. Perderam, Manés! 

E o que dizer da parcialidade escancarada do TSE e do STF, que além de privilegiarem um candidato, acabam por prender inconstitucionalmente políticos, jornalistas, indígenas, humoristas e mesmo pessoas comuns, simplesmente por apoiar temas de direita, sem sequer lhes informar o crime cometido ou oportunidade de defesa? Isso não conta? Isso não aconteceu?

E a intromissão em assuntos do Executivo e do Legislativo?

Isso também não aconteceu?

Onde está a defesa dos poderes constitucionais?

Onde estão aqueles que bradaram que não bateriam continência a um ladrão?

Será que os generais são incapazes de enxergar que, validando esta eleição, mesmo com o descumprimento de ordem de entrega dos códigos-fonte, valida-se também esse mesmo método, não só para todas as próximas eleições, para o que quer que seja, perpetuando a bandidagem no poder, assim como corrompendo futuros plebiscitos e decisões populares para aprovar/reprovar qualquer grande projeto de interesse da criminalidade?

NÃO HAVERÁ MAIS ELEIÇÕES HONESTAS!

A bandidagem governará impune, e as Forças Armadas, assim como já ocorre com a Polícia Federal, serão vistas como cães de guarda que asseguram o governo ditatorial.

 

O povo nunca perdoou os traidores nem os burros. 

Não vai ser agora que irão.

Ah, sim, generais:

Entrarão para a História!

Pela mesma porta que entrou Calabar.

QUE VERGONHA!


Assina:

Brigadeiro Eduardo Serra Negra Camerini


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domingo, 1 de janeiro de 2023

O foguete e o teto

José Sarney



Quando eu era Governador, o Brigadeiro Délio Jardim de Matos deu-me uma notícia que aumentou a minha taquicardia e encheu de esperanças todo o Maranhão. A FAB estava escolhendo o local para erguer uma nova base capaz de lançar foguetes, para não termos somente uma - Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte -, pequena e limitada. Atendia também ao provérbio popular: 'Quem tem uma não tem nenhuma'. Entre os lugares em estudo estavam o Município de Amapá, no então Território do Amapá. Entre os outros sítios aparecia Alcântara, com grandes possibilidades. Coloquei então o meu esforço de lobista em ação e fiz tudo para que o Maranhão fosse escolhido. Verificados os dados técnicos, assim aconteceu. Íamos ter uma base com tecnologia capaz de competir com o mundo, por sua localização muito próxima da linha do Equador, no lançamento de foguetes e satélites. Disputaríamos todas as possibilidades da indústria espacial, inclusive a de participar da construção da rede mundial de comunicações. Nada de motivos bélicos.

Consolidada a escolha, dei todo o apoio para sua construção. Quando Presidente da República acompanhei ali o lançamento do pequeno foguete meteorológico que deu início às operações da Base de Alcântara. O Maranhão encheu-se de esperança de novas possibilidades de progresso. Em São José dos Campos iniciou-se o projeto ambicioso de um sistema autônomo, com base de lançamentos, vetores - foguetes - e satélites construídos no laboratório que tive a satisfação de construir nesse polo científico. Assinei também com a China um acordo de parceria na área.

Muitos anos depois acompanhei a tragédia da explosão do nosso foguete num acidente de lançamento, com a perda dos artefatos e dos melhores recursos humanos na área.

Agora, com uma nova janela de oportunidades aberta pela Base, a alugamos para que ali fosse lançado um foguete suborbital da Coréia do Sul. Estava marcada a empreitada para o dia 17 de dezembro, no solstício de verão, o mesmo dia em que a PEC do teto de gastos ia ser votada, resolvendo o problema do orçamento de dois governos inconciliáveis, o de Lula e o de Bolsonaro.

Levantei-me às cinco horas da manhã e às seis horas eu, minha mulher e os empregados estávamos na varanda de nosso apartamento, binóculos prontos, para ver o foguete subir. Soube depois que a orla mar estava também cheia de curiosos como nós. Às seis horas o coração batia forte e os olhos em Alcântara esperavam a contagem regressiva. Nada. Todos diziam 'Vamos esperar'. 'Será às seis e meia.' Nada. E o foguete não subiu. Eu quis compensar minha frustração esperando a votação da PEC com os 600 reais para o Bolsa Família, marcada para as nove horas. Esperei. Nada.

A Base de Alcântara avisou que o foguete não subiu por um defeito numa válvula. O Sr. Deputado Lyra avisou que a PEC não foi votada por um defeito de conversa em que faltou um diálogo de garganta, mas no dia seguinte seria votada. Fiz a ligação: o foguete vai subir.

Dia 18 repete-se o mesmo cerimonial. Levanto-me, espero que a válvula esteja up to date. Seis horas e nada. A Base avisa que houve um problema de ignição.

Estamos realmente numa fase de ignição. Os nervos à flor da pele, deputada mata marido, deputada corre pelas ruas de arma na mão e vai para o país das armas, enquanto nós ficamos com o foguete parado, e os nossos pobres do Bolsa Família colocam água no feijão.

Nem o Natal arrefece os ânimos. Amaral Eletrônico, um assessor de comunicação e inventor nas horas vagas me vem à memória. Ele fundou um 'instituto de física' e descobriu que a bomba atômica não foi desenvolvida em Los Alamos, mas no Brasil por um fogueteiro pernambucano, fabricante de foguetes de rabo de bambu, que soltou um que arrombou um bairro inteiro do Recife. Os americanos mandaram sequestrar o homem e daí resultaram as tragédias de Hiroshima e Nagasaki.

É assim que o mundo está funcionando: uma válvula e a chave de ignição do foguete da Coréia não sobe; os pobres do Bolsa Família tiveram que esperar até a última hora para que as válvulas das línguas que movimentam o Congresso entrassem em acordo.

Bom mesmo era o Severino Fogueteiro, morador do bairro de Santo Inácio, em Pinheiro, que tinha este slogan de seus foguetes de bambu e papel velho: 'Foguete? Só sobe no Inácio Fogueteiro.' Só chamando o Severino para resolver diálogo e foguete coreano.

Os Divergentes, 27/12/2022

 https://www.academia.org.br/artigos/o-foguete-e-o-teto

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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sábado, 31 de dezembro de 2022

Pelé, Pelé, Pelé

Cyro de Mattos              



O sonho no verde,  

um trunfo no tapete,

em solos da bola

de gênio a jogada.

                 

Em forma sonora

pelos pés antevê

o que é ser divino

no gol de placa.

 

Maracanã, Fonte Nova,

Mário Pessoa, os palcos

 em que me vi perplexo  

com a bola encantada.

 

Olhe o que ele apronta,

até o sol sorri, até a lua,

toda ela iluminada, vem

oferecer rosas de prata.

 

O piso apesar do buraco,

Pelé é Pelé, não importa,

a vida na bola que rola

tanto canta como baila,  

 

Os melhores sentidos

Quando há um rei mágico

Não têm incompletude,

A vida se faz de beleza rara.  

 


* Cyro de Mattos
é poeta e ficcionista. Detentor de prêmios literários importantes e, entre eles, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, Associação dos Críticos Literários de São Paulo, Nacional de Poesia Ribeiro Couto (UBE-RJ), Internacional Maestrale Marengo d’Oro, Itália, duas vezes, Menção Honrosa do Jabuti, Nacional Pen Clube do Brasil e Nacional Cidade de Manaus. Publicado em oito idiomas.

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Nélida

José Sarney


 

A morte de Nélida Piñón é para mim um golpe pessoal, tão estreita era a nossa amizade e tão profunda a admiração que lhe tinha. A conheci quando ainda estreávamos, eu tentando conciliar vocação e destino e ela com os passos largos que a fizeram rapidamente uma das maiores romancistas da língua portuguesa.

Não é preciso fazer um apanhado de sua obra colossal. Baste lembrar os reconhecimentos com nomes que dizem tudo: Juan Rulfo, Rosalía de Castro e Cervantes; ou que ganhou o maior prêmio da literatura espanhola. Sua obra expande-se do romance à memória, do conto ao ensaio, mas mantém-se vinculada a sua natureza de quase-migrante que a manteve brasileira, mas não a desfez galega, e ao seu profundo amor pela literatura.

Convivemos tantos anos… Sempre encarou a vida de frente, com suas circunstâncias, para citar Ortega y Gasset, sempre tirando delas as lições que sabiamente nos passava em sua obra.

Despedimo-nos dela, Marly e eu, com profunda tristeza, sabendo que deixa um imenso vazio na literatura hispano-americana — seu espaço era maior que o da literatura brasileira —, na Academia Brasileira de Letras e no nosso território afetivo. Saudade imensa!

Portal da ABL, 19/12/2022

 

https://www.academia.org.br/artigos/nelida

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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