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domingo, 6 de março de 2022

PALAVRA DA SALVAÇÃO (257)


1º Domingo da Quaresma – 06/09/2022


Anúncio do Evangelho (Lc 4,1-13)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e, depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem’”

O diabo levou Jesus para o alto, mostrou-lhe por um instante todos os reinos do mundo e lhe disse: “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória, porque tudo isto foi entregue a mim e posso dá-lo a quem quiser. Portanto, se te prostrares diante de mim em adoração, tudo isso será teu”.

Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás’”.

Depois o diabo levou Jesus a Jerusalém, colocou-o sobre a parte mais alta do Templo e lhe disse: “Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo! Porque a Escritura diz: ‘Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado!’ E mais ainda: ‘Eles te levarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra’”.

Jesus, porém, respondeu: “A Escritura diz: ‘Não tentarás o Senhor teu Deus’”.

Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Donizete Ferreira – Comunidade Canção Nova:


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Deserto, escola para ordenar os afetos

 


Imagem: pixels.com

“Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito” (Lc 4,1)

O primeiro domingo da Quaresma sempre apresenta o relato das tentações de Jesus no deserto, que ajuda a desvelar o sentido de sua missão, seu caminho, seu destino. É relevante o fato de que se vincule a ida de Jesus ao deserto após o batismo, sendo conduzido pelo Espírito.

O deslocamento de Jesus ao deserto está em profunda sintonia com a experiência vivida pelo povo judeu.

Foi no deserto que Israel aprendeu a descobrir e a confiar em Deus. Longe da segurança do Egito, emergiu o que havia no fundo do seu coração. Os profetas cantaram o tempo do deserto como tempo das obras maravilhosas de Deus. Foi no deserto que o povo de Israel sentiu profundamente sua pequenez e total dependência de Deus.

Não existiam caminhos prontos. Era preciso discutir, planejar, rezar, lutar e sonhar para fortalecer a caminhada. No fundo, o Êxodo foi um profundo tempo de discernimento coletivo, que desembocou numa radical opção pela liberdade, porque um povo só é livre quando pode decidir o rumo de seu caminhar: 

Deserto: lugar da Aliança, escola da intimidade com o Senhor; expressão que, mais do que um determinado lugar, indica uma experiência forte de Deus.

Jesus, como todos os profetas, antes de assumir sua missão, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Frequentemente Ele recorria a esta experiência em meio à sua vida ativa: afastava-se para lugares solitários, confrontava a sua missão com a Vontade do Pai.

Todos os personagens bíblicos, todos os(as) santos(as) passaram pela experiência de deserto: peregrinação interior, confronto com a própria vida, comunhão com o Senhor, descoberta da própria missão...

        “Eu o(a) levarei ao deserto e falar-lhe-ei ao coração” (Os. 2,16).

Segundo os evangelhos, as tentações experimentadas por Jesus no deserto não são propriamente de ordem moral. Não se trata de uma eleição entre o bem e o mal. São tentações que apresentam maneiras falsas de entender e viver sua missão. O tempo do deserto foi, para Jesus, um tempo de discernimento sobre os melhores “meios” para viver seu messianismo. As tentações não diziam respeito ao “ser Messias” de Jesus; isto estava claro e fora confirmado pela experiência do seu batismo: “Tu és o meu filho amado”.

As tentações de Jesus aconteceram no campo das mediações: entre pensar em seu próprio interesse ou deixar-se conduzir pela vontade do Pai; entre impor seu poder como Messias ou colocar-se a serviço daqueles que mais precisam; entre buscar a própria glória e prestígio ou manifestar a compaixão de Deus para com aqueles que sofrem; entre evitar riscos para fugir da perseguição ou entregar-se fielmente à sua missão, confiando somente no Pai.

De fato, os meios apresentados pelo “tentador”, humanamente falando, são os meios mais eficazes que ninguém poderia imaginar: possibilidade de transformar as pedras em pão, o prestígio indiscutível de quem salta do alto do templo, sustentado pelos anjos e, para culminar, todo o mundo a seus pés.

Quem resiste a um homem com tais meios?

Todos seriam atraídos porque, em definitiva, teria entre suas mãos o poder total e o domínio absoluto.

Eis aqui a intuição e a genial proposta do tentador: salvar e libertar toda a humanidade, mas mediante o poder, o prestígio e a dominação. O tentador não pretende que Jesus se afaste de seu fim, senão que procure atingir esse fim, usando os meios que são exatamente o oposto da solidariedade. 

Para a Liturgia, parece ser de uma evidência fundamental que a pedagogia quaresmal devesse começar por des-velar (tirar o véu) a desordem na afetividade. No caminho da vivência cristã, percebemos uma “aderência afetiva” (fixação afetiva) a coisas, posses, pessoas, ideias, cargos, poder, prestígio, status, ídolos, dependências.... que somada a outras, passa a constituir uma estrutura de “maus afetos” (“afetos desordena-dos”), esvaziando ou atrofiando o seguimento de Jesus

A Quaresma, nesse sentido, apresenta-se como uma pedagogia para aprender a ordenar nossos afetos”, libertar-nos dos afetos desordenados e assim percorrer o caminho do desejo mais profundo: estratégia centrada em Deus, leve e cheia de graça, uma aventura...

O desejo de poder, de possuir, de ser o centro (ego inflado) confunde nossa vida. E já não se trata mais de uma lição moral sobre o vício ou a virtude, mas do impacto psicológico e espiritual que se dá em nós pelo fato de nos sentirmos apegados a algo ou a alguém, com a consequente perda de liberdade e o perigo da dependência que esse apego causa. O apego às coisas e às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o “fluxo” da vida, o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”.

            “Diga-me o tamanho dos seus apegos, e eu lhe direi o tamanho do seu sofrimento”.

É necessário introduzir um princípio “ordenador” em nossa vida, que inspire todo o nosso ser e o nosso agir, até que a “afeição” se converta em identificação existencial com Jesus Cristo.

Esse novo objeto deve ter uma repercussão decisiva na configuração da vida. Isto é, somos chamados a modificar profundamente o mundo de valores, pensamentos, condutas...

É necessário, ao iniciar o percurso quaresmal, detectar os condicionamentos afetivos (amarras) que de fato limitam a nossa liberdade, bloqueando-nos diante da proposta de vida que Jesus nos apresenta.

O que está em jogo no “deserto quaresmal” é chegar a conhecer-se profundamente, encontrando a raiz do próprio ser nos afetos desordenados.

Esse conhecimento interior, profundo, é condição indispensável para poder dispor de si, em maturidade de liberdade. Sem ordenar os afetos o ser humano não é verdadeiramente livre. A “desordem” nos afetos produz em sua liberdade uma essencial falsificação: faz tomar como absolutos o que são coisas relativas.

Só ordenando os afetos a pessoa se situa diante de Deus, reconhecendo-O como Absoluto.

Há afetos organizados negativamente por acúmulo de “experiências negativas”. Para atingi-los, a pedagogia quaresmal coloca “cargas afetivas opostas” (pessoa de Jesus, sua missão, o Reino, ...)

Sabemos que não se pode suprimir (matar) os afetos; o que se pode fazer é mudar a orientação (“ordenar”) dos afetos, ou seja, reorientar as “aderências afetivas” de certos objetos ou pessoas para um horizonte de sentido: amor a Jesus Cristo e a seu Reino. 

Nesse sentido, nossa quaresma torna-se um “estar com Jesus” no deserto, para, como Ele, dar a Deus o lugar central de nossa vida.

A quaresma é um tempo em que damos maior liberdade a Deus para agir em nós; é abrir espaço, alargar o coração para a ação de Deus. É tempo de reconstrução de nós mesmos (conversão), de retomada da opção fundamental por Deus e pelo seu Reino (maior serviço, mais compaixão, mais solidariedade...).

Nossos “apegos” se assemelham às construções à beira do rio que nos fixam num determinado lugar que nos parece confortável, desejável e seguro. Mas, se assim agirmos, afastamo-nos da correnteza da vida e não vai fluir em nós nem crescimento e nem progresso rumo à liberdade dos filhos de Deus.

A experiência de deserto passa a ser “tempo e lugar” de decisão, de orientação decisiva da vida, de enraizamento de nossos valores, de consciência maior da nossa identidade pessoal e da nossa missão... O mestre do deserto é o silêncio; o deserto tem valor porque revela o silêncio, e o silêncio tem valor porque nos revela Deus e a nós mesmos.

O deserto é o grande auditório para ouvir Deus; “solidão” cheia de presença. Ainda que sozinhos, sentimo-nos solidários, em comunhão com todos. O decisivo é “deixar-nos conduzir” pelo Espírito. Aqui não há engano.

Texto bíblico:  Lc 4,1-13 

Na oração: Temos muitas atitudes, posses, ideias, cargos, posições, bens... que consideramos ser Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos medos, de nossa insegurança...

O desafio permanente é este: examinar as “coisas” que estão ocupando por completo nossa existência e “tomando conta de nós” a ponto de bloquear o fluxo da graça e da vida.

- Quais “tentações” estão travando sua vida, impedindo-o de seguir a Jesus mais livremente?

- Rezar suas “pulsões desordenadas” que atrofiam sua sintonia com Deus e sua abertura aos outros.

 


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2521-deserto-escola-para-ordenar-os-afetos

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sexta-feira, 4 de março de 2022

 

Poesia de Cyro de Mattos

Inspirada em Terras da Espanha

É Publicada pela Espelho d’Alma

 


A editora Espelho d’Alma, de São Paulo, acaba de publicar o livro Guitarra de Salamanca, de Cyro de Mattos, em edição português-espanhol, reunindo poemas inspirados em terras da Espanha, em especial Salamanca. O livro traz capa do desenhista baiano Ângelo Roberto, ilustrações internas de Miguel Elias, conhecido como o pintor espanhol dos poetas, tradução e prefácio da professora Doutora Raquel da Silva Ortega, da Universidade Estadual de Santa Cruz.  

 

         Salamanca Cantante

             Por Raquel da Silva Ortega

 

Paisagens, cores, sons, fragrâncias, sabores, memórias, afetos... são alguns elementos, sentidos e emoções que podem surgir quando visitamos outros lugares e conhecemos outros ambientes e outras pessoas. Viajar, percorrer novos caminhos, conhecer outras histórias são experiências que inspiram artistas e são transformadas em arte e poesia. A coletânea de poemas Guitarra de Salamanca, do prestigioso escritor itabunense Cyro de Mattos, tem duas protagonistas: a cidade de Salamanca (Espanha) e a sinestesia.

Na literatura, temos uma longa tradição de cidades como fonte de inspiração e de matéria narrativa. O exemplo mais conhecido talvez seja a obra As cidades invisíveis (1972), escrita por Ítalo Calvino. Neste livro, o autor cria um relato ficcional no qual Marco Polo descreve ao imperador Kublai Khan suas impressões das cidades que ele teria visitado. No entanto, essa descrição não é objetiva, pelo contrário, os diálogos entre Kublai Khan e Marco Polo poderiam ser classificados como uma narrativa afetiva, recuperada a partir da memória e de reflexões íntimas. No mesmo sentido, Cyro de Mattos traz um diálogo intimista com a cidade de Salamanca, em forma de poesia.

Como recurso expressivo, o poeta recorre à sinestesia. Como já indica o título — Guitarra de Salamanca — o autor nos transporta para o ambiente andaluz através da sonoridade dos poemas. O livro apresenta vinte e um poemas, divididos em quatro partes: Tocata com Alfredo Pérez Alencart, Andamento com seis atos, Fuga com três atos e Fechamento com três atos. A escolha dos títulos das divisões demonstra a busca pela sonoridade, uma vez que remetem às partes integrantes de uma peça musical.    

 Nos poemas Jaqueline de Alfredo e Um Poeta Peruano-Espanhol vemos a celebração da amizade de Cyro de Mattos com Alfredo Pérez Alencart e sua esposa, Jaqueline. Pérez Alencart, poeta peruano-espanhol radicado há anos em Salamanca, é um dos principais nomes da poesia espanhola atual e a presença dos poemas que evocam esta amizade familiar coloca Guitarra de Salamanca em diálogo com a literatura espanhola.  Os poemas da segunda e da terceira parte exaltam grandes escritores que nasceram ou passaram por Salamanca/Toledo, partindo de nomes do Siglo de Oro como Góngora, Quevedo, Calderón de La Barca e Miguel de Cervantes, passando pela Generación del 98 com Miguel de Unamuno e adentrando no século XX com Rafael Alberti e Federico García Lorca. Ao mesmo tempo, Salamanca surge em toda sua magnitude: na evocação do ambiente acadêmico, nas suas paisagens, na arquitetura, nos seus caminhos. Aqui novamente percebemos a sinestesia: além da sonoridade, o sentido visual é amplamente provocado nestes poemas, em imagens reconstruídas a partir da memória afetiva do poeta.

Guitarra de Salamanca reafirma a importância da obra do escritor Cyro de Mattos, uma vez que seus poemas estabelecem o diálogo com a tradição das cidades como matéria literária, despertam diversas sensações e se aproximam de grandes escritores da literatura espanhola.

 

*Profa. Dra. Raquel da Silva Ortega,

 Universidade Estadual de Santa Cruz

— UESC (Ilhéus, BA, Brasil)

 

 


 

Ó Tu Salamanca

Cyro de Mattos

 

Na fachada de casas

e igrejas e edifícios

basta para entender

que se está na história.

Caminhar é a forma

 de descobrir segredos

de quem também sabe ser

contemporânea e jovem

com estudantes tantos

misturados na face agitada.

Quando a noite cai, luzes

Enchem a parte noturna,

Lugares em que o coração

Aprende que o amor

Se faz amando o mito 

Que se apodera da alma.


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quinta-feira, 3 de março de 2022

 


G U E R R A

Antonio Baracho

 

Ó, povo russo,

Não faça guerra. 

Junte seus fuzis e metralhadoras

E cuspa lírios e rosas perfumadas.

Quero adormecer inquieto

Ao som de suas bandas.

Quero uma estátua da liberdade

E não uma estátua de sal. 

Tremule a bandeira da paz 

E não a do ódio.

Jogue flores sobre as crianças 

Que dormem ao anoitecer,

Como anjos, balbuciando o pai-nosso.

Não enterrem corações inocentes.

Não jogue bomba,

Faça canção.

 

Antonio Baracho

Academia Grapiúna de Letras - Agral

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terça-feira, 1 de março de 2022

DOBRA DE LEITURAS 

Peter O' Sagae

 

Abro hoje O QUE EU VI POR AÍ, sim de Cyro de Mattos, com ilustrações da polonesa Marta Ignerska e o projeto gráfico de Monique Sena (Biruta, 2014), e sinto-me um pouco mais em paz. A voz do texto é igualmente mansa e soa como um convite às horas de contemplação, assim que o sol acorda, com seu olho enorme, onde o céu faz uma curva e vai empurrando as sombras, inventando leões rugindo nas ondas com suas jubas brancas... Sim, respinga, no rendilhado dessa prosa poética, um olhar de criança que, como o sol, pode se admirar no espelho que ele mesmo espalha na imensidão do mar.


Sim, a descrição do amanhecer não é um objeto novo na estante de meus livros. Nem a apreciação das nuvens que rolam acima, transformando-se. Mas existe, no entanto, uma necessidade de aprender a observar a natureza de uma maneira descompromissada, sem o agito do cotidiano. E talvez a lição comece durante a infância, ou no amanhecer de um dia.


Cyro de Mattos passeia do horizonte à mata, à chuva da tarde, às figuras da noite. Formas e formigas enfileiram-se em seu texto que soa, enfim, como uma oração que exalta a vida, incansável, de flores e insetos, cores e aves, água e pedras em uma correnteza de imagens. Olhar as belezas do mundo faz lembrar outros textos, como O MENINO MAIS BONITO DO MUNDO, de Ziraldo (1983). Porém aqui a narrativa mítica cede lugar às cenas engraçadas, quando o olhar contemplativo de menino assume a proposição de imagens imaginadas e lembranças: um jogador anão no meio do campo fazendo um gol no goleiro grandão, uma velhinha (que não assobia) mas chupa cana com um dente só, palhaços, presepadas, uma macaca (que não é caixeira de uma venda) mas faz toda a família dormir...


Desde a capa do livro, já se anunciava a posição de expectador de um grande cinema. O que há de diferente é a sugestão da criança narrar e também editar seu próprio filme, após a aprendizagem das coisas simples, leves e engraçadas. Tudo isso explica as ilustrações de Ignerska, as figuras de muitos braços e olhos que povoam as páginas do livro, sempre em movimento. Apenas o projeto gráfico poderia ser mais suave, claro e aberto à intervenção dos leitores. Os mais novos, não eu. Sempre em movimento.


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*Peter O’Sagae  reside em São Paulo, é autor de “uma noite para João  e outros poemas” e “2 no telhado”, entre outros. Doutor em literatura infantil, crítico e tradutor. Editor do blogue Dobras de Leitura.

**O que eu vi por aí, de Cyro de Mattos,  infantojuvenil, Editora Biruta, São Paulo, 2014. 

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O JAÓ – Artur Azevedo

 


        Numa noite em que estávamos quatro ou cinco amigos reunidos em casa do Novais, vieram à baila os meus contos e não houve na assistência quem se não gabasse de saber casos que forneceriam magníficos assuntos para este gênero de literatura amena.

          - Pode ser – disse eu – mas devo confessar-lhes que até hoje não pude aproveitar para os meus trabalhos um único assunto oferecido nessas condições. Os contos inventaram-se, o que não quer dizer que não sejam também o produto do que se vê e observa na vida real, ou no renovamento de qualquer anedota que corra mundo desde tempos imemoriais.

          - Ora! Eu sei a história de um jaó, que te poderia servir, disse-me o Novais, e vou conta-la enquanto minha mulher apronta o chá!

          - Conta, que ele há de gostar – disse dona Emília, desaparecendo da sala.

          - Vamos à história do jaó! Exclamei, fingindo-me entusiasmado, para dar ânimo ao dono da casa.

          A cena passa-se em Cataguases, no estado de Minas, ainda nos ominosos tempos da monarquia, começou o Novais, acomodando-se numa poltrona.

          Houve um movimento geral de atenção, e todos nós aproximamos as nossas cadeiras.

          - A um quarto de légua da localidade, havia “um situante”, como lá dizem, homem já maduro, honrado e trabalhador, que, tendo perdido a mulher, morava sozinho com a filha.

          Esta chamava-se Mimi, e era um encanto, uma perfeição; morena, esbelta, cabelos negros e ondeados, olhos de fogo, lábios rubros e magníficos dentes. De mais não era estúpida nem de todo ignorante: fazia as quatro operações; cosia admiravelmente e no governo da casa mostrava-se expedita e asseada.

          Era agente da estação da estrada de ferro um bonito rapaz de 25 anos, que tinha a paixão da caça, e, nos lazeres do seu emprego, não fazia outra coisa senão caçar.

          Um dia em que as suas diligências cinegéticas o levaram lá às bandas do sítio do velho Serrano, que assim se chamava o pai da moça, ele encontrou Mimi numa volta de estrada, e ficou impressionadíssimo por aquela surpreendente formosura do campo.

          Pelos modos, o efeito foi recíproco: eles cumprimentaram-se, o que era muito natural, porque na roça não se encontram duas pessoas que não se cumprimentem, embora não se conheçam; mas sorriam um para o outro, e isso já não estava nos usos e costumes indígenas.

          Durante três dias a fio houve novos encontros e novos sorrisos. O moço nunca mais caçou noutro lugar.

          Afinal, chegaram à fala, e ele que talvez levasse más intenções, foi desarmado pela candura e pela ingenuidade de Mimi.

          Amaram-se, amaram-se deveras; entretanto, aquelas entrevistas na estrada eram perigosas; podia passar alguém...

          - Ficaremos à vontade – disse ela com uma adorável confiança no seu amado – à sombra de uma caneleira que há nos fundos lá de casa. Entra-se por aquele atalho e vai-se dar mesmo lá.

          - E teu pai?

          - Meu pai está da outra banda, fazendo o roçado; só vai pros lados da caneleira uma vez na vida e outra na morte. Estou sozinha em casa. Você dá um sinal, e eu vou ter com você.

          Qual há de ser o sinal?

          - Você é caçador; deve saber piar.

          - Naturalmente! Pio macuco, inhambu, jaó...

          - Jaó, prefiro jaó, é triste, mas é bonito.

          O namorado piou, para dar uma amostra da sua habilidade; o pio não podia ser mais perfeito.

         No dia seguinte o velho Serrano sentiu-se um tanto indisposto e não quis sair de casa, o que bastante contrariou Mimi.

          - Hoje nada de sol! – disse ele; - tenho a cabeça pesada, e nesta idade o sangue sobe com facilidade. Ontem se não me engano, ouvi cantar um jaó, e tomei a coisa como agouro, porque há muito tempo esse pássaro não aparecia por cá.

          - Ora papai, isso agora é tolice!

          - Será, mas não vou ao roçado. Nada, que teu avô não faz outro!

          E, dirigindo-se a um alpendrado, que ficava na parte superior da casa, o velho Serrano tirou a parede a sua espingarda, dizendo:

          - Pra não ficar com as mãos vadias, vou limpar esta sujeira que está criando ferrugem.

          E, depois de descarregar a espingarda para o ar, o velho sentou-se num banco e começou a limpá-la.

          O tiro foi um alívio para Mimi – em primeiro lugar, porque ouvindo-o, o rapaz saberia que o velho estava em casa, e em segundo lugar, porque uma arma carregada na mão do pai era um perigo iminente para o namorado.

          Mas – Oh! Contrariedade! – concluindo o trabalho, o velho foi buscar o polvarinho e carregou de novo a espingarda.

         No momento de pendurá-la, ouviu o pio do jaó.

          - Ouviste, Mimi? – perguntou Serrano empalidecendo de súbito, com a arma ainda na mão; ouviste?

          - Não, senhor; que foi?

          - O jaó!

          - Não ouvi nada; vocem’cê enganou-se.

          - Não! Estes ouvidos de velho caçador não se enganam... E aquilo é agouro!...

          - Que agouro, que nada!

          - Há dois anos piou um jaó no sítio do João Bernardo... Lembras-te?!... e três dias depois o João Bernardo esticou a canela...

          - Coincidência.

          - Eu nunca te quis dizer nada, mas quando tua mãe morreu, tinha piado um jaó na véspera, ali mesmo, do lado da caneleira. É um pássaro da morte, pior que a coruja!

          Palavras não eram ditas, ouviu-se e novo o jaó.

          Serrano estremeceu dos pés à cabeça:

          - Ouviste agora? Vê, minha filha, vê como tenho as mãos frias! Vou matar aquele diabo!

          - Ora, papai, deixe o pobre jaó! Ele não é o que vocem’cê pensa!

          Pois sim! Aquele não há de cá voltar! Vá agourar lá pro inferno.

          O velho ia sair, mas a filha, desesperada agarrou-o pelo braço:

          - Não! Não faça isso, papai! Pelo bem que me quer!

          E vendo que o velho forcejava para desvencilhar-se, Mimi pôs-se a gritar com toda força dos seus pulmões:

          - Jaó! Jaó! Vai te embora, que papai quer te matar!

          - Espera que ele te entenda?

          E, com um arremesso, o velho saltou para o terreiro e encaminhou-se para o lado da caneleira.

          Mimi continuou a gritar:

          - Jaó! Meu jaózinho! Foge, foge que papai lá vai à tua procura para matar-te!...

          O velho voltou ao cabo de meia hora sem ter encontrado o pássaro.

          - Que diabo, menina! Parece que ele te entendeu...

          E pendurou tranquilamente a espingarda.

         

          O Novais calou-se.

          - Está terminado o conto? – perguntei depois de uma pausa.

          - Está; não o achas interessante?

          - Não é mau, mas falta-lhe a conclusão. Que fim levou o jaó?

          - Aqui o tens na tua presença, meu amigo; o jaó era eu.

          - E a Mimi, esta sua criada – acrescentou dona Emília, que voltava com a bandeja do chá.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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