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terça-feira, 1 de março de 2022

O JAÓ – Artur Azevedo

 


        Numa noite em que estávamos quatro ou cinco amigos reunidos em casa do Novais, vieram à baila os meus contos e não houve na assistência quem se não gabasse de saber casos que forneceriam magníficos assuntos para este gênero de literatura amena.

          - Pode ser – disse eu – mas devo confessar-lhes que até hoje não pude aproveitar para os meus trabalhos um único assunto oferecido nessas condições. Os contos inventaram-se, o que não quer dizer que não sejam também o produto do que se vê e observa na vida real, ou no renovamento de qualquer anedota que corra mundo desde tempos imemoriais.

          - Ora! Eu sei a história de um jaó, que te poderia servir, disse-me o Novais, e vou conta-la enquanto minha mulher apronta o chá!

          - Conta, que ele há de gostar – disse dona Emília, desaparecendo da sala.

          - Vamos à história do jaó! Exclamei, fingindo-me entusiasmado, para dar ânimo ao dono da casa.

          A cena passa-se em Cataguases, no estado de Minas, ainda nos ominosos tempos da monarquia, começou o Novais, acomodando-se numa poltrona.

          Houve um movimento geral de atenção, e todos nós aproximamos as nossas cadeiras.

          - A um quarto de légua da localidade, havia “um situante”, como lá dizem, homem já maduro, honrado e trabalhador, que, tendo perdido a mulher, morava sozinho com a filha.

          Esta chamava-se Mimi, e era um encanto, uma perfeição; morena, esbelta, cabelos negros e ondeados, olhos de fogo, lábios rubros e magníficos dentes. De mais não era estúpida nem de todo ignorante: fazia as quatro operações; cosia admiravelmente e no governo da casa mostrava-se expedita e asseada.

          Era agente da estação da estrada de ferro um bonito rapaz de 25 anos, que tinha a paixão da caça, e, nos lazeres do seu emprego, não fazia outra coisa senão caçar.

          Um dia em que as suas diligências cinegéticas o levaram lá às bandas do sítio do velho Serrano, que assim se chamava o pai da moça, ele encontrou Mimi numa volta de estrada, e ficou impressionadíssimo por aquela surpreendente formosura do campo.

          Pelos modos, o efeito foi recíproco: eles cumprimentaram-se, o que era muito natural, porque na roça não se encontram duas pessoas que não se cumprimentem, embora não se conheçam; mas sorriam um para o outro, e isso já não estava nos usos e costumes indígenas.

          Durante três dias a fio houve novos encontros e novos sorrisos. O moço nunca mais caçou noutro lugar.

          Afinal, chegaram à fala, e ele que talvez levasse más intenções, foi desarmado pela candura e pela ingenuidade de Mimi.

          Amaram-se, amaram-se deveras; entretanto, aquelas entrevistas na estrada eram perigosas; podia passar alguém...

          - Ficaremos à vontade – disse ela com uma adorável confiança no seu amado – à sombra de uma caneleira que há nos fundos lá de casa. Entra-se por aquele atalho e vai-se dar mesmo lá.

          - E teu pai?

          - Meu pai está da outra banda, fazendo o roçado; só vai pros lados da caneleira uma vez na vida e outra na morte. Estou sozinha em casa. Você dá um sinal, e eu vou ter com você.

          Qual há de ser o sinal?

          - Você é caçador; deve saber piar.

          - Naturalmente! Pio macuco, inhambu, jaó...

          - Jaó, prefiro jaó, é triste, mas é bonito.

          O namorado piou, para dar uma amostra da sua habilidade; o pio não podia ser mais perfeito.

         No dia seguinte o velho Serrano sentiu-se um tanto indisposto e não quis sair de casa, o que bastante contrariou Mimi.

          - Hoje nada de sol! – disse ele; - tenho a cabeça pesada, e nesta idade o sangue sobe com facilidade. Ontem se não me engano, ouvi cantar um jaó, e tomei a coisa como agouro, porque há muito tempo esse pássaro não aparecia por cá.

          - Ora papai, isso agora é tolice!

          - Será, mas não vou ao roçado. Nada, que teu avô não faz outro!

          E, dirigindo-se a um alpendrado, que ficava na parte superior da casa, o velho Serrano tirou a parede a sua espingarda, dizendo:

          - Pra não ficar com as mãos vadias, vou limpar esta sujeira que está criando ferrugem.

          E, depois de descarregar a espingarda para o ar, o velho sentou-se num banco e começou a limpá-la.

          O tiro foi um alívio para Mimi – em primeiro lugar, porque ouvindo-o, o rapaz saberia que o velho estava em casa, e em segundo lugar, porque uma arma carregada na mão do pai era um perigo iminente para o namorado.

          Mas – Oh! Contrariedade! – concluindo o trabalho, o velho foi buscar o polvarinho e carregou de novo a espingarda.

         No momento de pendurá-la, ouviu o pio do jaó.

          - Ouviste, Mimi? – perguntou Serrano empalidecendo de súbito, com a arma ainda na mão; ouviste?

          - Não, senhor; que foi?

          - O jaó!

          - Não ouvi nada; vocem’cê enganou-se.

          - Não! Estes ouvidos de velho caçador não se enganam... E aquilo é agouro!...

          - Que agouro, que nada!

          - Há dois anos piou um jaó no sítio do João Bernardo... Lembras-te?!... e três dias depois o João Bernardo esticou a canela...

          - Coincidência.

          - Eu nunca te quis dizer nada, mas quando tua mãe morreu, tinha piado um jaó na véspera, ali mesmo, do lado da caneleira. É um pássaro da morte, pior que a coruja!

          Palavras não eram ditas, ouviu-se e novo o jaó.

          Serrano estremeceu dos pés à cabeça:

          - Ouviste agora? Vê, minha filha, vê como tenho as mãos frias! Vou matar aquele diabo!

          - Ora, papai, deixe o pobre jaó! Ele não é o que vocem’cê pensa!

          Pois sim! Aquele não há de cá voltar! Vá agourar lá pro inferno.

          O velho ia sair, mas a filha, desesperada agarrou-o pelo braço:

          - Não! Não faça isso, papai! Pelo bem que me quer!

          E vendo que o velho forcejava para desvencilhar-se, Mimi pôs-se a gritar com toda força dos seus pulmões:

          - Jaó! Jaó! Vai te embora, que papai quer te matar!

          - Espera que ele te entenda?

          E, com um arremesso, o velho saltou para o terreiro e encaminhou-se para o lado da caneleira.

          Mimi continuou a gritar:

          - Jaó! Meu jaózinho! Foge, foge que papai lá vai à tua procura para matar-te!...

          O velho voltou ao cabo de meia hora sem ter encontrado o pássaro.

          - Que diabo, menina! Parece que ele te entendeu...

          E pendurou tranquilamente a espingarda.

         

          O Novais calou-se.

          - Está terminado o conto? – perguntei depois de uma pausa.

          - Está; não o achas interessante?

          - Não é mau, mas falta-lhe a conclusão. Que fim levou o jaó?

          - Aqui o tens na tua presença, meu amigo; o jaó era eu.

          - E a Mimi, esta sua criada – acrescentou dona Emília, que voltava com a bandeja do chá.

 

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Ô VLADIMIR PUTIN – Cyro de Mattos



Ô Vladimir Putin

Cyro de Mattos

 

Não escutas o passarinho em dia

De bemóis, ao contrário das fronteiras?

Nessa terra que é nossa casa, abrigo 

De lágrima na passagem dos anos?

 

No prazer de estar nela, onde moramos.

Nesse mistério dos que vêm e vão 

Com os saberes da grande mãe que dá

Seus filhos à luz, deitando-os no berço

 

Uterino, após a morte. Decerto

 De paz o final perfeito. Assim fomos

 Feitos, enfim juntos, adormecemos.

 

Deixe que nos leve a trama da vida, 

Revele-se no esplendor da mãe terra.

No lado azul de versos com sentido.  

 

 

Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Publicado em Portugal, Itália, França, Espanha, Alemanha, Estados Unidos, Rússia, Suíça e Dinamarca.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A CONSTITUIÇÃO DE PERNAS QUEBRADAS - José Sarney

 

Luís Maklouf, que escreveu um dos melhores livros para se entender a Constituição e explicar como ela teve uma vida até agora completamente híbrida e incoerente, começa o seu livro 1988: Segredos da Constituinte dizendo que é difícil e quase impossível contar uma história tantas vezes contada.

Seu livro é um conjunto de depoimentos dos constituintes mais importantes, daqueles que a fizeram, escreveram e receberam a chuva de lobistas e de seus interesses corporativos. Esse fato dá a noção de como foi desorganizado o trabalho da Assembleia e como faltou a ela a capacidade de ter uma visão de conjunto da Constituição.

O livro abre com as declarações do grande Afonso Arinos, um dos maiores pensadores do Brasil, que afirmou: 'Nós estamos navegando na bruma, estamos criando nosso próprio caminho no meio da névoa. Não temos aqueles aparelhos que indicam que a névoa está para se dissipar ou que ela pode ser vencida, como os aeronautas. Estamos sendo aeronautas a pé.' Afonso presidira a Comissão de Estudos Constitucionais que Tancredo Neves prometera criar para fazer um anteprojeto de constituição -, repetindo o papel de seu pai na famosa Comissão do Itamaraty, que fez o anteprojeto da Carta de 1934.

Tudo isso pela relutância de Ulysses em aceitar oficialmente o anteprojeto, a que afinal recorreram plagiando em momentos de escuridão. Mas não só grandes nomes, como Afonso Arinos, constataram as dificuldades da ausência de um anteprojeto. Gastone Righi, no momento da partida, constatou: 'Somos a figura do navio que zarpa de um porto sem ter plotada sua rota, sem rumo estabelecido e sequer destino escolhido.' (Depoimento a Maklouf.)

Sem ideal nem rumo partiram para discutir do princípio ao fim dos trabalhos o tempo do meu mandato, que era de seis anos e eu, ingenuamente, achando que o efeito seria o mesmo da Constituição de 1946, quando o Presidente Dutra, que tinha um mandato, como o meu, de seis anos, abdicou de um e foi recebido como um gesto de grandeza. O meu gesto de abrir mão de um ano de mandato foi considerado ambição, por uma Constituinte cheia de candidatos à Presidência da República, a começar pelo Presidente Ulysses. E criou-se a maior fake news de nossa História: de que meu mandato era de quatro e eu consegui aumentar para cinco anos!?

Assim, os problemas que vivemos em mais de trinta anos de existência da Constituição decorrem de sua falta de unidade e hibridez, parlamentarista e presidencialista, de seu detalhismo e da ausência de um objetivo comum, um foco de coerência. Perdemos uma oportunidade única: fazer uma nova Carta que assegurasse novos tempos, inovadora e moderna, com o objetivo de ver um grande futuro e não fosse uma lanterna na popa, olhando para o passado.

A consequência é esta Constituição que já ensejou dois processos de impeachment - quase três, pois o de Michel Temer chegou a ser votado na Câmara dos Deputados - e é vista como de pernas quebradas.

Jornal O Estado do Maranhão, 26/09/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/constituicao-de-pernas-quebradas

 

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

BICHOS – Cyro de Mattos *


 

Bichos

Cyro de Mattos


 

Isca

 

Quando vem à tona

como se arrisca.

 

Gambá

 

Com o seu spray

fedorento

afugenta o inimigo.

 

Leão

 

O elétrico no ar

até o vento corre.

 

Hiena

 

Gargalhada da fome

amedronta até a morte.

 

Procurado

 

Procura-se cão pequinês,

é algo fenomenal,

nunca fez pipi

na cama do casal.

 

Papagaio

 

De cadeia ao pé

Humanamente bêbado.

 

Paixão

 

Com tanta saudade

da bailarina foca,

o solitário camelo

foi morar no gelo.

 

Caranguejo

 

Falou tanto dos outros

que perdeu o pescoço

e caiu dentro do poço.


 

*Cyro de Mattos é ficcionista, poeta e ensaísta


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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Gui Canta para Lou - Guillaume Apollinaire


 

GUI CANTA PARA LOU

Guillaume Apollinaire

 

Louzinha querida queria morrer num dia em que tivesses me amado.

Queria ser bonito para que me amasses,

Queria ser forte para que me amasses,

Queria ser jovem jovem para que me amasses,

Queria que a guerra começasse outra vez para que me amasses,

Queria te agarrar para que me amasses,

Queria te dar palmadas no traseiro para que me amasses,

Queria te pisar para que me amasses,

Queria que ficássemos sós num quarto de hotel em Grasse para
que me amasses,

Queria que fosses minha irmã para eu te amar incestuosamente,

Queria que fosses minha prima que nos amássemos desde criança,

Queria que fosses o meu cavalo para eu te montar muito muito tempo,

Queria que fosses meu coração para eu te sentir sempre em mim,

Queria que fosses o paraíso ou o inferno de acordo com o lugar
onde eu vá,

Queria que fosses um menino e eu o teu preceptor,

Queria que fosses a noite para nos amarmos no escuro,

Queria que fosses a minha vida para eu existir só por ti,

Queria que fosses um obus boche para me matar de súbito amor.

 

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Guillaume Apollinaire

Escritor

Guillaume Apollinaire foi um escritor e crítico de arte francês, possivelmente o mais importante ativista cultural das vanguardas do início do século XX, conhecido particularmente por sua poesia ... 

Nascimento: 26 de agosto de 1880, Roma, Itália

Falecimento: 9 de novembro de 1918, Paris, França


(Wikipédia)

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A LITURGIA “NO ALTAR DA HIPOCRISIA”? – Luiz Sérgio Solimeo


O Papa João XXIII celebra Missa Solene na Basílica de São Pedro, no início dos anos 60

 

Luiz Sérgio Solimeo

 

No voo de volta a Roma após sua viagem ao Chipre e à Grécia, em 6 de dezembro passado, respondendo a uma pergunta de jornalistas sobre a renúncia do arcebispo de Paris, Dom Michel Aupetit, o Papa Francisco explicou:

“Eu aceitei a renúncia de Aupetit, não sobre o altar da verdade, mas sobre o altar da hipocrisia. Era isto que eu queria dizer.”1

O Papa parece ter tomado a mesma atitude em relação à liturgia tradicional da Igreja. De fato, apesar dos flagrantes absurdos litúrgicos vistos nas celebrações do novo rito imposto à Igreja em 1969, tanto ele quanto o Arcebispo Arthur Roche — o primeiro com o ‘Motu Proprio’ Traditiones Custodes e o segundo com a Responsa ad dubia — restringiram drasticamente a celebração da Missa tradicional.2

As razões dadas para tais medidas se resumem em “restaurar a unidade litúrgica” e impor a aceitação das doutrinas do Concílio Vaticano II.

Abandono do “Altar da Verdade”

Ao deixar de reconhecer que a divisão entre os fiéis em relação à liturgia se deu precisamente por causa da renúncia ao rito de tradição apostólica e da imposição de um novo rito romano da Missa, sob a égide do Concílio, abandonou-se “o altar da verdade”.

Antes dessa mudança, um católico podia viajar para quase qualquer lugar do mundo e assistir à mesma Missa, na mesma língua universal da Igreja, com as mesmas orações, paramentos e, sobretudo, com recolhimento.


O Papa Paulo VI celebra missa no Ritus Modernus imposto por ele. A “venerável tradição secular” do rito litúrgico da tradição apostólica estava abolida.

‘Ritus Modernus’ substitui ‘Ritus Romanus’

O liturgista alemão Monsenhor Klaus Gamber prefere referir-se ao rito tradicional da Missa como Ritus Romanus, e chama o novo rito do Papa Paulo VI de Ritus Modernus. Ele explica que é impreciso e até incorreto chamar o rito romano tradicional de “Missa de São Pio V” ou “Missa tridentina”. Escreve ele: “No sentido estrito, não há ‘Missa Tridentina’, pois, pelo menos na conclusão do Concílio de Trento, não houve criação de um novo ordinário da Missa; e o ‘Missal de São Pio V’ nada mais é do que o Missal da Cúria Romana, que havia visto a luz em Roma séculos antes.”3

Paulo VI anuncia um “novo rito” da Missa

Em seu discurso de 26 de novembro de 1969, anunciando a entrada em vigor na Itália (e, mais tarde, no mundo inteiro) da “Nova Missa”, o Papa Paulo VI deixou claro que essa “novidade litúrgica” não consistia em modificações litúrgicas superficiais, mas em uma mudança completa no rito da Missa, à qual ele se referiu repetidamente com expressões como o “novo rito da Missa,” ou simplesmente o “novo rito”:

“Mais uma vez queremos convidar suas almas a se voltarem para a novidade litúrgica do novo rito da Missa, que será estabelecido em nossas celebrações do Santo Sacrifício, a partir do próximo domingo, primeiro domingo do Advento, 30 de novembro.” 4

Rompendo com a tradição da Igreja

Paulo VI reconhecia que, ao impor o seu “novo rito”, estava rompendo com a tradição litúrgica da Igreja:

Novo rito da Missa: é uma mudança em uma venerável tradição secular e por isso toca no nosso patrimônio religioso hereditário, que parecia ter de gozar de uma fixidez intangível e dever trazer aos nossos lábios a oração de nossos antepassados ​​e nossos santos e nos dar o conforto de uma fidelidade ao nosso passado espiritual, que tornamos atual para transmiti-lo às gerações futuras. Compreendemos melhor nesta contingência o valor da tradição histórica e da comunhão dos santos.

Gravidade da ruptura

Essas afirmações de Paulo VI são tanto mais graves quanto o Rito Romano (a “Missa Tridentina”) é de tradição apostólica. Agora, romper com a tradição apostólica acarreta problemas teológicos extremamente graves.

Mons. Klaus Gamber escreve: “Os papas observaram repetidamente que o rito [da Missa] é fundado na tradição apostólica”. Em nota, ele cita cartas dos papas Santo Inocêncio I (402-417) e Vigílio (538-555), que fazem essa afirmação. E continua comentando as opiniões de grandes teólogos do passado, como o Cardeal Caetano (+1534) e Suárez (+1617), de que “um papa seria cismático ‘[…] se ele mudasse todos os ritos litúrgicos da da Igreja que foram confirmados pela tradição apostólica’.” 5


Monges cantando gregoriano (Iluminura medieval) – Girolamo da Milano chamado Maestro Olivetano, séc. XV.

Sacrificando o latim, o canto gregoriano e outros tesouros

Tudo na Missa agora será diferente, acrescenta Paulo VI:

“Esta mudança toca na conduta cerimonial da missa; e notaremos, talvez com algum desconforto, que as coisas no altar não acontecem mais com aquela identidade de palavras e gestos a que estávamos tão acostumados, que quase não prestávamos mais atenção neles.”

Paulo VI tinha bem ciência de que estava sacrificando o latim, essa insubstituível “língua angélica” e outros preciosos valores espirituais da Igreja:

“Aqui, é claro, será sentida a maior novidade: a da língua. O latim não será mais a língua principal da missa, mas a língua falada. Para quem conhece a beleza, o poder, a expressiva sacralidade do latim, certamente a substituição pela língua vulgar é um grande sacrifício: perdemos a linguagem dos séculos cristãos, nos tornamos quase intrusos e profanos no recinto literário da expressão sagrada, e assim perderemos grande parte desse maravilhoso e incomparável fato artístico e espiritual, que é o canto gregoriano.” E prossegue:

“Temos, de fato, motivos para lamentar, quase nos sentirmos perdidos. O que podemos colocar no lugar dessa língua angélica? Estamos abrindo mão de algo de valor inestimável.”

Resposta humana banal e prosaica

O Pontífice faz esta pergunta óbvia:

“E por que razão? Que coisa vale mais do que esses altíssimos valores da nossa Igreja?”

E responde:

“A resposta parece banal e prosaica, mas é válida, porque é humana, porque é apostólica. O entendimento da oração vale mais do que as roupas sedosas e vetustas com as quais ela foi regiamente vestida; a participação do povo vale mais, deste povo moderno saturado de palavras claras e inteligíveis, traduzíveis em sua conversa profana. Se a divina língua latina mantivesse a infância, a juventude, o mundo do trabalho e dos negócios segregados de nós, se ela fosse um diafragma opaco em vez de um cristal transparente, nós, os pescadores de almas, faríamos bem em preservar para ela o domínio exclusivo da oração e da conversação religiosa?”

Valeu a pena?

         Passado meio século, cabe perguntar: valeu a pena?

“grande sacrifício” de abandonar “a divina língua latina” e substituí-la pela “língua usada na conversa profana” aproximou da Igreja as crianças, os jovens, “o mundo do trabalho e dos negócios”?

Não. Aconteceu o contrário: as igrejas esvaziaram-se e poucos católicos agora vão à missa.

As igrejas que se enchem aos domingos e dias santos de guarda são precisamente aquelas onde se celebra a Missa segundo o Vetus Ordo, em latim, e ressoa o canto gregoriano.

Na realidade, foram a banalidade e o prosaismo introduzidos por Paulo VI na celebração da Missa que, em grande parte, afastaram os fiéis.

Conclui-se a obra demolidora iniciada por Paulo VI?


Em seu motu proprio Traditionis Custodes, de 16 de julho de 2021, e sua carta explicativa aos bispos, o Papa Francisco restringiu brutalmente e o máximo possível (com vistas a extinguir) a celebração da Santa Missa no rito tradicional, embora este seja de origem apostólica, como vimos.

Responsa ad dubia da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, assinada pelo Arcebispo Arthur Roche em 4 de dezembro de 2021, endureceu ainda mais as disposições já draconianas do Motu Proprio Traditionis Custodes.

Ao travar sua guerra total contra a liturgia tradicional da Missa, para destruir este monumento da piedade cristã, o Papa Francisco está completando o trabalho de autodemolição da “venerável tradição secular” do rito litúrgico da tradição apostólica.

Apelos foram inúteis

Na época, a notícia do abandono da liturgia tradicional latina teve um impacto profundo não apenas nos católicos praticantes, mas também nos não-católicos.

Em 1971, cinquenta intelectuais e artistas, entre católicos, não-católicos e até judeus, enviaram ao Papa Paulo VI e tornaram público um apelo implorando a manutenção da liturgia tradicional, como patrimônio da humanidade.

Entre outras coisas, a Declaração de Acadêmicos, Intelectuais e Artistas Vivendo na Inglaterra dizia:

“Se algum decreto sem sentido ordenasse a destruição total ou parcial de basílicas ou catedrais, então obviamente seriam as pessoas cultas — quaisquer que fossem suas crenças pessoais — que se levantariam horrorizadas para se opor a tal possibilidade.

“Ora, o fato é que as basílicas e as catedrais foram construídas para celebrar um rito que, até poucos meses atrás, constituía uma tradição viva. Estamos nos referindo à Missa Católica Romana. No entanto, de acordo com as últimas informações em Roma, há um plano para fazer desaparecer essa Missa até o final do ano em curso…

“Não estamos neste momento considerando a experiência religiosa ou espiritual de milhões de indivíduos. O rito em questão, em seu magnífico texto latino, também inspirou uma série de realizações inestimáveis ​​nas artes — não apenas obras místicas, mas obras de poetas, filósofos, músicos, arquitetos, pintores e escultores em todos os países e épocas. Assim, pertence à cultura universal, bem como aos clérigos e cristãos formais.”6

Apelo dos cardeais

Ainda mais críticos do que esse apelo de intelectuais e artistas, que entenderam bem o vínculo entre beleza e verdade, são os trabalhos de teólogos, padres e leigos que mostram como a nova Missa se afastou do Concílio de Trento e se aproximou do protestantismo.

Em junho de 1969, os cardeais Alfredo Ottaviani e Antonio Bacci enviaram ao Papa Paulo VI uma carta de apresentação de um estudo intitulado Breve exame crítico do Novus Ordo Missae. Sua carta contém esta afirmação muito séria:

“O Novo Ordinário representa, tanto em seu todo como nos detalhes, uma nova orientação teológica da Missa, diferente daquela que foi formulada na Sessão XXII do Concílio de Trento. Os ‘Canons’ do rito, definitivamente fixados naquele tempo, proporcionavam uma intransponível barreira contra qualquer heresia dirigida contra a integridade do Mistério”.7



Exemplo da falta de sacralidade da missa no “novo rito”: na paróquia da Natividade de Maria, em Aschaffenburg, Alemanha, no passado dia 3 de outubro. O pároco Markus Krauth celebrava oficialmente o Erntedankfest alemão, a festa anual de ação de graças a Deus pela colheita. Mas decidiu comemorá-la como Erdedankfest, substituindo a palavra “colheita” (Ernte) pela palavra “terra” (Erde). O altar foi simbolicamente um monte de terra…

Missa sem sacralidade

O novo rito perdeu aquela sacralidade e mistério que o latim lhe dava, a reverência do sacerdote diante de Deus no altar, rezando em voz baixa, como se aniquilado diante da grandeza de servir como instrumento de Nosso Senhor Jesus Cristo para consagrar e imolar a Vítima divina em forma sacramental, renovando assim o Sacrifício do Calvário.

No “novo rito” de Paulo VI, a Missa tornou-se uma tagarelice contínua, um diálogo constante e banal entre o celebrante e a assembleia, sugerindo que os fiéis concelebram com o sacerdote. Ele põe tanta ênfase na assembleia, que o Pe. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D., observou que “ao absolutizar esse aspecto comunitário”, a nova Missa “levou ao antropocentrismo, [com] a assembleia celebrando-se a si mesma”.8

Não é de admirar, então, que tenha havido tantas aberrações e absurdos na celebração da Missa de acordo com o Novus Ordo Missae ao longo desses cinquenta anos.

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Notas:

  1. Viagem Apostólica do Papa Francisco ao Chipre e à Grécia (2-6 de dezembro de 2021). Coletiva de Imprensa durante o voo de retorno a Roma (6-12-21). https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2021/december/documents/20211206-grecia-volodiritorno.html. Acessado em 27-12-21.
  2. Ver: Lettera Apostolica in forma di Motu «Proprio» del Sommo Pontefice Francesco «Traditionis Custodes» Sull’uso della Liturgia Romana anteriore alla Riforma del 1970. (16-7-21). https://www.vatican.va/content/francesco/it/motu_proprio/documents/20210716-motu-proprio-traditionis-custodes.html; Lettera del Santo Padre Francesco ai Vescovi di tutto il Mondo per presentare il Motu Proprio «Traditionis Custodes» Sull’uso Della Liturgia RomanaAnteriore Alla Riforma Del 1970. Roma, 16-7-21; Congregazione per il Culto Divino e la Disciplina dei Sacramenti. Responsa Ad Dubia su alcune disposizioni della Lettera Apostolica in forma di «Motu Proprio»Traditionis Custodes del Sommo PonteficeFrancesco ai Presidenti delle Conferenze dei Vescovi. https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/ccdds/documents/rc_con_ccdds_doc_20211204_responsa-ad-dubia-tradizionis-custodes_it.html. Acessados em 27-12-21.
  3.  Monsenhor Klaus Gamber, The Reform of the Roman Liturgy: Its problems and Background, (San Juan Capistrano, Califórnia: Una Voce Press; Harrison, N.Y.: The Foundation for Catholic Reform, 1993), p. 23.
  4. Paolo VI. Udienza Generale. Mercoledì, 26 novembre 1969. “Effusione degli animi nella Assemblea Comunitaria, ricchezza del nuovo rito della Santa Messa”. https://www.vatican.va/content/paul-vi/it/audiences/1969/documents/hf_p-vi_aud_19691126.html, acessado em 22-12-21 (Tradução nossa).
  5. Monsenhor Klaus Gamber, op. cit., pp. 34-36 (grifo nosso), e nota 26. Ver também Arnaldo Xavier da Silveira, Theological and Moral Implication of the “Novus Ordo Missae”, (Cleveland, Ohio: Lumem Mariae Publications), p. 258ss.
  6. “1971 Statement by Scholars, Intellectuals, and Artists Living in England,” https://web.archive.org/web/20161020002716/http:/www.institute-christ-king.org/uploads/main/pdf/england– statement.pdf, acessado em 29-12-21.
  7.  Carta dos Cardeais Ottaviani e Bacci à Sua Santidade Papa Paulo VI. Roma, 25 de setembro, 1969. https://pelafecatolica.com/2016/05/25/breve-exame-carta-cardeais-ottaviani-bacci/ (grifo nosso), acessado em 12-01-22. O fato, sobre o qual há muita confusão, de que o Cardeal Ottaviani tenha retirado seu nome dessa iniciativa não altera a veracidade da afirmação. A crítica é comprovada pelo estudo que os Cardeais encaminharam, e também por publicações de inúmeros autores como, por exemplo, a de Arnaldo Xavier da Silveira, citada acima.
  8. P. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D., L’Eucharistie Salut du Monde, Ed. Dominique Martin Morin (Paris: Les Éditions du Cèdre, 1982), p. 134. (Tradução nossa).

 

https://www.abim.inf.br/a-liturgia-no-altar-da-hipocrisia/

 

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