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domingo, 9 de janeiro de 2022

O ALIENISTA CAP. XIII (Final) – Machado de Assis


Plus Ultra!

 Era a vez da terapêutica. Simão Bacamarte, ativo e sagaz em descobrir enfermos, excedeu-se ainda na diligência e penetração com que principiou a tratá-los. Neste ponto todos os cronistas estão de pleno acordo: o ilustre alienista faz curas pasmosas, que excitaram a mais viva admiração em Itaguaí.

          Com efeito, era difícil imaginar mais racional sistema terapêutico. Estando os loucos divididos por classes, segundo a perfeição moral que em cada um deles excedia às outras, Simão Bacamarte cuidou em atacar de frente a qualidade predominante. Suponhamos um modesto. Ele aplicava a medicação que pudesse incutir-lhe o sentimento oposto; e não ia logo às doses máximas, —graduava-as, conforme o estado, a idade, o temperamento, a posição social do enfermo. Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo. Simão Bacamarte começava a desesperar da cura, quando teve a ideia de mandar correr matraca, para o fim de o apregoar como um rival de Garção e de Píndaro.

           — Foi um santo remédio, contava a mãe do infeliz a uma comadre; foi um santo remédio.

          Outro doente, também modesto, opôs a mesma rebeldia à medicação; mas, não sendo escritor (mal sabia assinar o nome), não se lhe podia aplicar o remédio da matraca. Simão Bacamarte lembrou-se de pedir para ele o lugar de secretário da Academia dos Encobertos estabelecida em Itaguaí. Os lugares de presidente e secretários eram de nomeação régia, por especial graça do finado Rei Dom João V, e implicavam o tratamento de Excelência e o uso de uma placa de ouro no chapéu. O governo de Lisboa recusou o diploma; mas, representando o alienista que o não pedia como prêmio honorífico ou distinção legitima, e somente como um meio terapêutico para um caso difícil, o governo cedeu excepcionalmente à súplica; e ainda assim não o fez sem extraordinário esforço do ministro da marinha e ultramar, que vinha a ser primo do alienado. Foi outro santo remédio.

          — Realmente, é admirável! dizia-se nas ruas, ao ver a expressão sadia e enfunada dos dois ex-dementes.

          Tal era o sistema. Imagina-se o resto. Cada beleza moral ou mental era atacada no ponto em que a perfeição parecia mais sólida; e o efeito era certo. Nem sempre era certo. Casos houve em que a qualidade predominante resistia a tudo; então o alienista atacava outra parte, aplicando à terapêutica o método da estratégia militar, que toma uma fortaleza por um ponto, se por outro o não pode conseguir.

          No fim de cinco meses e meio estava vazia a Casa Verde; todos curados! O vereador Galvão, tão cruelmente afligido de moderação e equidade, teve a felicidade de perder um tio; digo felicidade, porque o tio deixou um testamento ambíguo, e ele obteve uma boa interpretação corrompendo os juízes e embaçando os outros herdeiros. A sinceridade do alienista manifestou-se nesse lance; confessou ingenuamente que não teve parte na cura: foi a simples vis medicatrix da natureza. Não aconteceu o mesmo com o Padre Lopes. Sabendo o alienista que ele ignorava perfeitamente o hebraico e o grego, incumbiu-o de fazer uma análise crítica da versão dos Setenta; o padre aceitou a incumbência, e em boa hora o fez; ao cabo de dois meses possuía um livro e a liberdade. Quanto à senhora do boticário, não ficou muito tempo na célula que lhe coube, e onde aliás lhe não faltaram carinhos.

         — Por que é que o Crispim não vem visitar-me? Dizia ela todos os dias.

          Respondiam-lhe ora uma coisa, ora outra; afinal disseram-lhe a verdade inteira. A digna matrona não pôde conter a indignação e a vergonha. Nas explosões da cólera escaparam-lhe expressões soltas e vagas, como estas:

          —Tratante!... velhaco!... ingrato!... Um patife que tem feito casas à custa de unguentos falsificados e podres... Ah! tratante!...

          Simão Bacamarte advertiu que, ainda quando não fosse verdadeira a acusação contida nestas palavras, bastavam elas para mostrar que a excelente senhora estava enfim restituída ao perfeito desequilíbrio das faculdades; e prontamente lhe deu alta.

          Agora, se imaginais que o alienista ficou radiante ao ver sair o último hóspede da Casa Verde, mostrais com isso que ainda não conheceis o nosso homem. Plus ultra! era a sua divisa. Não lhe bastava ter descoberto a teoria verdadeira da loucura; não o contentava ter estabelecido em Itaguaí. o reinado da razão. Plus ultra! Não ficou alegre, ficou preocupado, cogitativo; alguma coisa lhe dizia que a teoria nova tinha, em si mesma, outra e novíssima teoria.

          — “Vejamos, pensava ele; vejamos se chego enfim à última verdade.”

          Dizia isto, passeando ao longo da vasta sala, onde fulgurava a mais rica biblioteca dos domínios ultramarinos de Sua Majestade. Um amplo chambre de damasco, preso à cintura por um cordão de seda, com borlas de ouro (presente de uma Universidade) envolvia o corpo majestoso e austero do ilustre alienista. A cabeleira cobria-lhe uma extensa e nobre calva adquirida nas cogitações quotidianas da ciência. Os pés, não delgados e femininos, não graúdos e mariolas, mas proporcionados ao vulto, eram resguardados por um par de sapatos cujas fivelas não passavam de simples e modesto latão. Vede a diferença:—só se lhe notava luxo naquilo que era de origem científica; o que propriamente vinha dele trazia a cor da moderação e da singeleza, virtudes tão ajustadas à pessoa de um sábio.

          Era assim que ele ia, o grande alienista, de um cabo a outro da vasta biblioteca, metido em si mesmo, estranho a todas as coisas que não fosse o tenebroso problema da patologia cerebral. Súbito, parou. Em pé, diante de uma janela, com o cotovelo esquerdo apoiado na mão direita, aberta, e o queixo na mão esquerda, fechada, perguntou ele a si:

          —Mas deveras estariam eles doidos, e foram curados por mim, —ou o que pareceu cura não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro?

          E cavando por aí abaixo, eis o resultado a que chegou: os cérebros bem-organizados que ele acabava de curar eram desequilibrados como os outros. Sim, dizia ele consigo, eu não posso ter a pretensão de haver-lhes incutido um sentimento ou uma faculdade nova; uma e outra coisa existiam no estado latente, mas existiam.

          Chegado a esta conclusão, o ilustre alienista teve duas sensações contrárias, uma de gozo, outra de abatimento. A de gozo foi por ver que, ao cabo de longas e pacientes investigações, constantes trabalhos, luta ingente com o povo, podia afirmar esta verdade:—não havia loucos em Itaguaí; Itaguaí não possuía um só mentecapto. Mas tão depressa esta ideia lhe refrescara a alma, outra apareceu que neutralizou o primeiro efeito; foi a ideia da dúvida. Pois quê! Itaguaí. não possuiria um único cérebro concertado? Esta conclusão tão absoluta não seria por isso mesmo errônea, e não vinha, portanto, destruir o largo e majestoso edifício da nova doutrina psicológica?

          A aflição do egrégio Simão Bacamarte é definida pelos cronistas itaguaienses como uma das mais medonhas tempestades morais que têm desabado sobre o homem. Mas as tempestades só aterram os fracos; os forres enrijam-se contra elas e fitam o trovão. Vinte minutos depois alumiou-se a fisionomia do alienista de uma suave claridade.

          — “Sim, há de ser isso,” pensou ele.

          Isso é isto. Simão Bacamarte achou em si os característicos do perfeito equilíbrio mental e moral; pareceu-lhe que possuía a sagacidade, a paciência, a perseverança, a tolerância, a veracidade, o vigor moral, a lealdade, todas as qualidades enfim que podem formar um acabado mentecapto. Duvidou logo, é certo, e chegou mesmo a concluir que era ilusão; mas, sendo homem prudente, resolveu convocar um conselho de amigos, a quem interrogou com franqueza. A opinião foi afirmativa.

          — Nenhum defeito?

          — Nenhum, disse em coro a assembleia.

          — Nenhum vício?

          — Nada.

          — Tudo perfeito?

          — Tudo.

          — Não, impossível, bradou o alienista. Digo que não sinto em mim essa superioridade que acabo de ver definir com tanta magnificência. A simpatia é que vos faz falar. Estudo-me e nada acho que justifique os excessos da vossa bondade.

          A assembleia insistiu; o alienista resistiu; finalmente o Padre Lopes. explicou tudo com este conceito digno de um observador:

          — Sabe a razão por que não vê as suas elevadas qualidades, que aliás todos nós admiramos? É porque tem ainda uma qualidade que realça as outras: —a modéstia.

          Era decisivo. Simão Bacamarte curvou a cabeça, juntamente alegre e triste, e ainda mais alegre do que triste. Ato continuo, recolheu-se à Casa Verde. Em vão a mulher e os amigos lhe disseram que ficasse, que estava perfeitamente são e equilibrado: nem rogos nem sugestões nem lágrimas o detiveram um só instante.

          — A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática.

          — Simão! Simão! meu amor! dizia-lhe a esposa com o rosto lavado em lágrimas.

           Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científica, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a repeliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezessete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido alcançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí, mas esta opinião, fundada em um boato que correu desde que o alienista expirou, não tem outra prova senão o boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao Padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade.

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Fonte: 

MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras.

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (251)



Festa do Batismo do Senhor | Domingo, 09/01/2022

 

Anúncio do Evangelho (Lc 3,15-16.21-22)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, o povo estava na expectativa e todos se perguntavam no seu íntimo se João não seria o Messias. Por isso, João declarou a todos: “Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia de suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo”.

Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu veio uma voz: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

http://liturgia.cancaonova.com/pb/

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Donizete Ferreira, Sacerdote da Comunidade Canção Nova:



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BATISMO: a experiência fundante da proximidade amorosa de Deus

 


“Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer” (Lc 3,22)

 

Começamos o tempo litúrgico conhecido como “Tempo Comum”. O batismo é o primeiro acontecimento público da vida de Jesus que os evangelhos nos narram. Sem contar os evangelhos da infância de Mateus e Lucas, carregados de significado teológico posterior, todos os evangelistas começam suas narrativas com o batismo de Jesus por João Batista. Os quatro evangelistas ressaltam a importância que teve para Jesus o encontro com João Batista e a descoberta de sua missão.

Além disso, o batismo é o evento mais significativo desde seu nascimento até sua morte. O importante não é o fato em si, mas a carga simbólica que o relato deixa transparecer.

João Batista se encontra no deserto, junto ao rio Jordão; ele leva o templo e o culto ao deserto, que evoca o Êxodo e a liberdade. Descobre-se e vive-se a relação com Deus não tanto nos ritos do templo, mas no caminho do deserto da vida, no caminho para a terra prometida, na liberdade.

Quando ouviu falar de João Batista, que batizava no rio Jordão, Jesus se uniu à multidão e foi também ver João e conhecer o que estava acontecendo ali. Com a multidão, Jesus entrou no Jordão; Aquele que não tinha pecado se faz solidário, compartilha as limitações e sofrimentos da humanidade.

Jesus desce ao profundo das águas de nossas fragilidades humanas; Ele compartilha conosco a densidade de nossa história e de nossas histórias pessoais.

Contrariamente ao que sempre nos foi dito, o batismo não é a prova da divindade de Jesus, mas a prova de uma verdadeira humanidade; Ele é o ser humano que assume sua condição e ora. 

Como todas as coisas, tudo tem um processo. Com Jesus não foi diferente; lentamente, Ele foi tomando consciência da proximidade de Deus, de acordo com sua idade, até irromper em plena consciência ao ser batizado no rio Jordão, na idade de 30 anos. Chegou o momento em que, junto com a multidão, e não Ele sozinho como mostram as pinturas, Jesus entrou na água. A um sinal do Batista, Ele se submergiu na água e assim se deixou batizar, como faziam todos. Foi então, testemunham os relatos, quando ocorreu uma grande transformação na vida do desconhecido Nazareno.

Depois de ser batizado, enquanto rezava, diz o texto de Lucas, Jesus sentiu uma tremenda comoção interior: “Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”.

Ao “descer às águas do Jordão”, junto com a multidão, Jesus sente que em suas entranhas estava o manancial do Amor, que recebia a água viva do Abbá. No batismo se entrelaçaram e confluíram mais ainda suas torrentes. 

Lucas não dá nenhum destaque ao fato do batismo em si; ele destaca os símbolos: céu aberto, descida do Espírito e voz do Pai. Imagens que no AT estão relacionadas com o Messias. Trata-se de uma teofania. Segundo aquela mentalidade, Deus está nos céus e tem que vir dali. Quando os céus se abrem é sinal de que Deus se aproxima dos homens. Esta vinda deve ser descrita de uma maneira sensível, para poder ser compreendida. O importante não é o que aconteceu fora, mas o que Jesus viveu dentro de si mesmo.

A linguagem bíblica expressa a experiência interior usando expressões pictóricas e simbólicas: o céu se abriu e viu-se o Espírito descer sobre Ele em forma de pomba. Trata-se de uma representação plástica para expressar uma radical e originalíssima experiência espiritual vivida por Jesus, impossível de ser expressa com palavras. A partir daí ocorreu uma verdadeira revolução em sua vida: sente-se Filho amado de Deus-Abba. É invadido por uma paixão de amor divino que revirou sua vida. Experimentou uma absoluta e direta proximidade de Deus. Já não é Ele quem busca a Deus, mas foi Deus que o buscou e o assumiu como seu Filho querido. Essa é a incrível revolução: a proximidade amorosa de Deus-Abbá. 

Aqui se encontra a grande singularidade relatada pelos evangelistas: dar testemunho da proximidade radical de Deus, do Deus que busca intimidade não só com Jesus de Nazaré, mas com todos os seres humanos, independentemente de sua condição moral, social, religiosa e de sua situação de vida. Trata-se do transbordamento do amor gratuito de Deus para seus filhos e filhas.

Com isto se inaugura um novo caminho, diferente daquele da observância da Lei e das distinções que se fazem entre bons e maus, justos e injustos. Não é esse o “modo de ser e agir” do Abbá de Jesus: Seu olhar e sua lógica é totalmente diferente, como se revelou e se visibilizou no batismo de Jesus, membro do grupo dos pobres de Javé. Neste, irrompe um amor divino ilimitado, oblativo, gratuito, começando por aquele de quem nunca falam, que nunca foi a uma escola de teologia, quando muito à escolinha bíblica da sinagoga. O Nazareno veio deste meio. Não pertence ao mundo dos letrados, dos juristas, da casta sacerdotal ou de algum status social. É um anônimo, mais acostumado ao trabalho manual que ao uso da palavra, um a mais que entra na fila dos pecadores para ser batizado, “descendo” às águas da humanidade. 

experiência de Deus que Jesus teve no batismo não foi uma faísca que aconteceu num instante. Antes, temos de pensar numa tomada de consciência progressiva que lhe fez experimentar essa proximidade do Abbá e que depois buscou transmitir aos seus discípulos. Para nós, isto é muito importante. Uma toma de consciência de nosso verdadeiro ser não pode acontecer da noite para o dia.

Os evangelistas nos repetem continuamente que Jesus, em diferentes momentos de sua vida, teve a experiência de ser Filho Amado. E ponto. O resto são envoltórios.

De repente tudo mudou: inundado da proximidade amorosa de Deus Jesus se pôs a pregar com tanto entusiasmo e sabedoria que os ouvintes comentavam: “De onde lhe vem essa sabedoria? Não é ele o filho do carpinteiro?” (Mt 13,54-55).

Andando com pessoas de má fama, Jesus ia lhes mostrando a proximidade amorosa de Deus.

Por que fazia isso? Porque quis levar a todos, especialmente aos socialmente desqualificados - os leprosos, os paralíticos, os cegos -, mas também aos pecadores públicos, aos desesperados, a novidade de que Deus está próximo de todos eles. Jesus, transbordando do amor de Deus-Abbá, sai do seu batismo com a nobre missão de anunciar essa novidade da proximidade incondicional de Deus que se faz para todos o “Abbá generoso”. 

A partir de então, o decisivo não é a prática minuciosa da Lei e das tradições cuidadosamente observadas, mas deixar ressoar no coração aquela voz que Deus-Abbá disse a Jesus e que agora repete para todos: “vós sois minhas filhas e filhos amados, em vós encontro meu regozijo”. Isto soa primeiramente como surpresa e depois como uma inaudita alegria e libertação. Esta é a boa notícia, este é o Evangelho.

Esta surpreendente proposta requeria e requer uma resposta. Exige mudança de mente e de coração.

Assim entendemos o que é ser comunidade cristã: antes de tudo, ela é um batistério, um lugar onde homens e mulheres podem nascer para uma vida mais alta e expansiva, de vinculação com Deus, de comunhão humana, ou seja, de batismo, de novo nascimento.

A Igreja existe na medida em que é capaz de oferecer um espaço de nascimento (de batismo) a todos. Neste contexto se situa a experiência cristã do batismo, como sacramento que expressa o nascimento em Deus, uma experiência de filiação celebrada e partilhada em comunhão com todos.

Texto bíblico:  Lc 3,15-16.21-22

Na oração: O sacramento do batismo é um dos muitos caminhos que podem nos ajudar a descobrir que somos filh@s amad@s. Mas, em nossa vida cotidiana, que conexão há entre ser batizado e sentir-nos amad@s, como Jesus?

- A experiência pessoal de ser e sentir-nos filh@s amad@s marca um antes e um depois em nossa vida? Até que ponto é a experiência fundante, a raiz de nossa vida cristã?

- Sentir-nos amad@s fundamenta nosso comportamento moral, social... S. Inácio entendeu isso muito bem: “O amor é a partilha do ser e do ter”. Descobrimos que a “proximidade amorosa” de Deus nos compromete a ser presença amorosa na relação com os outros?

- Rezar seu compromisso batismal: que implicações isso tem em sua vida? Faz diferença?...


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2489-batismo-a-experiencia-fundante-da-proximidade-amorosa-de-deus

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sábado, 8 de janeiro de 2022

BOM ANO NOVO - José Sarney

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Primum vivere, deinde philosophari' - 'Viver, depois filosofar', disse Hobbes no século 18 reformulando os versos antigos de Horácio: 'Dum loquimur, fugerit invida aetas: carpe diem quam mininum credula postero.' 'Enquanto falamos o tempo foge invejoso: aproveita o dia, confiando no amanhã o menos que puder.'

A longa lição de meus anos me ensinou que, se o mais importante é estar vivo - meu avô dizia que ruim é não fazer aniversário -, não é mal filosofar e confiar no amanhã como curativo dos males de hoje. É verdade que vivi muitos anos bons em que não podia pedir mais da bondade divina, mas também tive - tivemos - a cota de anos velhos que gostaria que tivessem sido diferentes, menos amargos e tristes.

O Ano Velho que acabamos de passar foi daqueles que serão lembrados como anos que devem ser esquecidos, tanta tristeza trouxe à Humanidade e ao Brasil. Só aqui foram mais de 600 mil mortos pela Covid-19, uma desolação. Temos que filosofar, isto é, saber que muitos poderiam ter sido salvos se tivéssemos mantido a tradição brasileira de vacinação expedita, como as tantas campanhas bem-sucedidas que fizemos no passado, quebrando recordes.

Ao contrário de outros países nossa população se habituou com as campanhas de vacinação, inclusive com a infantil, aliás há muitos anos obrigatória. Ser obrigatória não é contra os direitos constitucionais, mas resultado deles, pois a vacinação não é um processo individual, mas um instrumento coletivo em defesa do mais básico dos direitos, o direito à vida.

Se tenho um desejo para o Ano Novo é que seja um ano de transformação política. Teremos eleição, boa oportunidade de escolher quem nos representa melhor, mas não é disto que falo; já de garganta seca, insisto que é preciso corrigir alguns pontos da Constituição para fazê-la 'instrumento de um país moderno, em que o Legislativo legisle, o governo governe e o Judiciário controle', como escrevi numa virada de ano, há um quarto de século.

Lembrava eu então as mazelas orçamentárias, a dispersão legislativa, as agruras do Judiciário, cada Poder a sofrer percalços e interferências dos outros. A democracia vive de instituições fortes, e fortalecê-las é tornar os poderes harmônicos e independentes.

Precisaríamos que fosse verdade o velho ditado 'ano novo, vida nova', mas sabemos que, ao contrário, ano novo, vida velha, pois ela não se modifica com a simples passagem da meia-noite. Costumo citar o Padre Vieira - é boa certeza de não errar - e o faço mais uma vez. Dizia ele que 'o tempo tem duas medidas, uma na realidade, outra na apreensão'. É por isso que é fácil dizer 'bom ano', mas é difícil ter a certeza de que vamos ter um ano bom ou um ano melhor.

É sempre um mistério a virada do tempo e o que o futuro esconde. Se temos motivo ou motivos para apreensão, com mais razão, no entanto, devemos desejar para todos, para cada um de nós e para todos os outros, que o futuro se mostre com uma melhor face, com boas cores, boa sorte, bom tempo e uma felicidade real, uma dessas que se tem quando nasce uma criança ou se experimenta um bom ano.

Bons anos! - é o meu desejo, pois não quero limitar a graça que Deus pode nos dar.

Os Divergentes, 05/01/2022

https://www.academia.org.br/artigos/bom-ano-novo

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José Sarney - Sexto ocupante da Cadeira nº 38 da ABL, eleito em 17 de julho de 1980, na sucessão de José Américo de Almeida e recebido em 6 de novembro de 1980 pelo Acadêmico Josué Montello. Recebeu os Acadêmicos Marcos Vinicios Vilaça e Affonso Arinos de Mello Franco.

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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

VIVER - Cyro de Mattos


 

Viver

Cyro de Mattos


 

Como o passarinho

Que leva o graveto

Para o ninho

E nos ensina a fazer. 

 

No sonho ou tristonho,

Na ofensa das perdas,

No trânsito do luto,

Reconquistar com fé.

 

Na flor e no espinho,

Nos mudos mugidos,

No delírio das dores

Amadurecer para ser.

 

Entre o primeiro vagido

E o último suspiro

Com o amor e a fé 

Vale o que der e vier. 

 

Com a lágrima e o beijo,

A música e o vento,

E até no epitáfio

O sentido é viver.

 

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Cyro de Mattos é escritor e poeta. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Publicado em Portugal, Itália, Espanha, Alemanha, França, Dinamarca, Rússia e Estados Unidos. Premiado no Brasil e exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia e de Ilhéus. Comendador da Ordem do Mérito do Governo da Bahia.

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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO, ATRAVÉS DE DECRETO, APROVADO PELO CONGRESSO NACIONAL, AVISA AO MUNDO QUE NÃO VAI ATENDER A AGENDA DA ONU 2030.


 

Leiam com atenção e entendam o porquê de Bolsonaro estar reaparelhando as Forças Armadas tão rapidamente. Nosso Presidente sabe o que está acontecendo e o que está por vir

 

O Brasil se coloca praticamente sozinho contra a Nova Ordem. Nosso presidente é um visionário corajoso, mas ciente do que enfrenta. Os países mais ricos do mundo estão unificados sob um poder ainda maior, que tem uma agenda para conquistar o mundo todo sob sua ditadura genocida e eterna. Logo as posições estarão claras do mundo inteiro contra nós, o país mais rico do mundo, capaz de sustentar e enriquecer todos os outros, e desde o princípio usurpado.

Se quisermos ter a chance de um futuro (não apenas sobreviver, mas não sermos escravizados definitivamente a algo que será a pior tirania que já houve), devemos acordar como nação e como espíritos, pois a luta pela justiça purifica o espírito. Devemos enxergar que logo combateremos contra todos os poderes do planeta, que não guardam para nós espaço algum em suas preocupações e solidariedade...

Nosso tempo é curto para despertarmos em atitude enérgica de represália aos abutres internacionais, que estão aliados aos ratos da política nacional.

O país todo precisa assumir uma consciência e postura militar, aguardando algo brutal que certamente virá. Temos que estimular o patriotismo e a honra da nação contra a Nova Ordem, os corruptos, o socialismo, a Vacina, e seu passaporte da morte. Temos que enxergar com discernimento as manobras que sempre são encobertas pelo manto da _"segurança e amor à coletividade”. Temos que enxergar o mal nas falas que soam amorosas "como o azeite"... Temos que assumir uma postura irresoluta e assustadora aos inimigos internacionais, e expurgar com urgência os ratos traiçoeiros da política.

A religião não pode estimular a letargia no ímpeto de lutar pela justiça! Não haverá futuro aos frágeis a partir de agora!

O que se une contra nós são os maiores e mais negros poderes da Terra. Só uma atitude apaixonada, ininterrupta e honrosa vai conceder um futuro aos nossos filhos. O culto aos efêmeros prazeres materiais deve ser eliminado, ou NÓS seremos eliminados... Há uma abundância inimaginável na Amazônia, que os abutres mundiais se preparam para usurpar. E eles não hesitarão em nos executar em massa (por isso a vacina, a arma biológica...).  Busquem as medidas de anulação dessa arma biológica, pois vamos precisar de todos os braços e cérebros contra a tirania definitiva mundial.

Se o Brasil cair, o mundo todo cai, definitivamente! 


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(Recebi via WhatsApp. Autoria não mencionada)

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

POESIA COMO AFIRMAÇÃO ECOLÓGICA DO SUL PROFUNDO, CYRO DE MATTOS

 


Poesia como afirmação ecológica do sul profundo, Cyro de Mattos

Heloísa Prazeres

 

          Uma das vozes contundentes da literatura produzida na região sul baiana, o autor Cyro de Mattos impõe-se na literatura baiana/brasileira pela força de suas narrativas. Possui vasto acervo crítico favorável à sua obra, cuja fatura revela estilo impregnado de registros de fala. Bem assim, a sua poesia situada na Região Cacaueira − reduto que propõe respostas alusivas ao lugar geográfico de onde fala o escritor.

          Teluricamente, seu verso exalta o lócus, o território, e sua leitura (MATTOS, C. 2015) confirma o potencial poético, que em si carrega o escritor. Seu texto oferece mais do que o faria a escrita etnográfica. A paisagem do sul transforma-se miticamente na personificação de uma maneira de ver, vastidão solitária, atravessada por linguagens, que chegam cegamente de um lugar para outro − as línguas naturais faladas pelo homem a partir de seus próprios ofícios criados, e por meio da natureza líquida do rio (PRAZERES, 2015). O sentimento de pertencimento, em relação à terra, às pessoas e à vida mesma, reverbera,


 

Eu te agradeço meu rio

porque me ensinaste

pelas mãos do pescador,

lavadeira e areeiro

foste sempre uma dádiva

que suspensas as tropas

em suas trilhas aladas

se perderiam nas estradas,

pelas águas tão escuras

desceriam roupas brancas

sem que novas correntezas

pudessem remover as manchas

e na voz do aguadeiro

anunciando madrugadas

só de areia pura

o efêmero à margem

ante o eterno que passa

 

(MATTOS, C., 2015, “Ao rio”. p.102).                     

 

 

          Sua visão ideológica e poética encontra-se no controle de ambas as experiências que encarnam a fonte da imagem e o próprio ato poético. A voz impressiona sem efeitos de literatização; a dicção convence o leitor e o vínculo com o lugar revela moldes próprios, não autoritários,


 

Caminha na boca

por me saber cativo,

adoça o furto infantil,

engana no riso,

brilha no peito

jardim florido,

cores em que sonho,

da barba visgo,

roxo aroma

ébrio por dentro,

paixão e ilusão

quanto mais viajo

sinto o fruto em mim

ritmando o mito.

 

(MATTOS, C., 2015, “Elogio”, p.32).                                                       

 


          A experiência comunitária poetizada reside no passado e elegiacamente retorna, como memória cultural da diversidade da região; o presente subjetivo traduz-se pelo pressentimento de solidão e ruína,


 

 Encontro-me no verde de teus anos,

Como sonho menino nos outeiros,

Afoitas minhas mãos de cata-ventos

Desfraldando estandartes nessas ruas.

 

São meus todos esses frutos maduros:

Jaca, cacau, mamão, sapoti, manga.

E esta canção que trago na capanga

É o vento soprando nos quintais.

 

Quem me fez estilingue tão certeiro

Nos verões das caçadas ideais?

Quem nesse chão me plantou com raízes

 

Fundas até que me dispersem ventos

Da saudade e solidão? Ó poema!

Ó recantos! Ó águas do meu rio

 

(MATTOS, C., 2015, “Itabuna”, p.66).                                                    

 

 

          Na recepção de imagens míticas do lugar, comovem o leitor sentimentos ambivalentes de satisfação, luta, respeito e comprometimento com o espaço geográfico, que o enraíza, e com a tradução da ecologia, que a sua ecopoesia exalta. (Este texto integra o comunicado que a autora fez no Congresso dos 75 Anos da UFBA)

 

*Heloísa prazeres é itabunense, doutora em Letras, membro da Academia de Letras da Bahia. Ensaísta, tradutora e poeta.

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terça-feira, 4 de janeiro de 2022

SANTA ÂNGELA DE FOLIGNO – Plinio Maria Solimeo



“Mestra dos teólogos” e uma das primeiras místicas italianas, seus escritos sobre suas experiências místicas sempre foram vistos com grande respeito pela Igreja Católica.

Plinio Maria Solimeo

Ângela nasceu no ano de 1248 em Foligno, a 20 km de Assis, na província de Peruggia, numa família muito abastada, mas sem fé. Casou-se muito nova e teve vários filhos (seus biógrafos dizem “muitos”, sem especificar o número).

Esquecida de sua dignidade e deveres como esposa e mãe, caiu em pecado e levou uma vida muito desordenada, chegando a cometer sacrilégios.

Em seu admirável Livro de Visões e Instruções, que ditou ao seu confessor franciscano, ela relata a história de sua conversão. Esse frade terminou de escrevê-lo em 1298, e o submeteu ao Cardeal Tiago Colonna e a oito Frades Menores, que lhe deram sua aprovação ao escrito.

Certo dia Ângela decidiu se confessar, mas tantos haviam sido os pecados cometidos, que ficou com vergonha de acusá-los ao sacerdote. Apesar disso foi depois comungar, embora sabendo que essa comunhão seria sacrílega.

Aos 37 anos foi tocada por uma graça irresistível de Deus, que a levou a sentir profunda dor por seus pecados. Então, com lágrimas abundantes, rezou a São Francisco de Assis, a quem tinha grande devoção, pedindo-lhe que a ajudasse. O santo lhe apareceu em sonho, assegurando-lhe que ela conheceria em breve a misericórdia de Deus. Isso a levou a fazer desta vez uma confissão geral, e a paz voltou à sua alma.

Ângela tinha sido até então uma mulher mundana, mas não medíocre. Por isso, quando resolveu fazer penitência e rezar pelos seus pecados, foi radical. Recorreu à Santíssima Virgem Maria pedindo seu amparo, e pouco a pouco foi atingindo um alto grau na vida mística e no entendimento dos mais profundos mistérios de nossa fé.


Santa Ângela teve uma experiência mística avassaladora do Deus Uno e Trino, e da imensidade de seu amor pelos homens, especialmente para com ela.
[Santíssima Trindade – Abóbada da Igreja Altlerchenfelder, em Viena]

“Não foi para rir que te amei!”

Numa Sexta-feira Santa, depois de um silêncio de vários dias, ela ouviu Cristo Jesus pronunciar esta severa frase, que a transtornou: “Não foi para rir que te amei; não foi para fingir que me fiz servo; não foi de longe que toquei em ti”. Ao que ela, agora humilde e contrita, respondeu: “Pois bem, eu faço todo o contrário. O meu amor não passou de gracejo, mentira e afetação. Não quis nunca aproximar-me seriamente de Vós para tomar parte nos trabalhos que sofrestes e quisestes sofrer por mim; nunca Vos servi de verdade e na perfeição, mas na negligência e na ambiguidade”. Essa é a linguagem de uma penitente, que chegou ao conhecimento mais profundo do seu nada.

Orientada pelo exemplo de São Francisco de Assis, Ângela começou uma vida de austera penitência, concentrando suas energias na pobreza, em particular em três aspectos: pobreza das coisas, pobreza das afeições, pobreza de si mesma. Essa mudança tão radical de vida suscitou contra ela hostilidades, obstáculos e injúrias da família: do marido, dos filhos e da própria mãe. Mas Ângela continuou no caminho e na vida de pobreza que já haviam sido traçados.

Em 1288, quando tinha 40 anos, faleceram seus pais, seu marido, seguidos depois, um a um, de todos os filhos. Deixada então inteiramente só e livre, depois de uma peregrinação a Roma ela vendeu todos os seus bens e passou a ficar muito tempo ajoelhada aos pés do Crucifixo, pedindo perdão pelos seus pecados passados.

Experiência mística sobre Deus Uno e Trino

Um dia ela viu em sonhos São Francisco, que lhe recomendou fazer uma peregrinação à cidade de Assis. Ela obedeceu, e a partir daí entrou em cheio numa profunda vida mística, cujas manifestações não paravam mais. Era o ano de 1291, o sexto após sua conversão e decisivo para sua jornada espiritual. Como narrou ao seu confessor, em Assis ela teve uma longa visão do Espírito Santo e depois de Cristo, que a instruíram familiarmente. Teve depois uma experiência mística avassaladora do Deus Uno e Trino, e da imensidade de seu amor pelos homens, especialmente para com ela.

Entre as graças místicas que Santa Ângela recebeu em outras ocasiões, estava a de sentir todo o efeito da flagelação de Cristo em seus ossos e juntas. Ela o narra no Livro da experiência dos verdadeiros fiéis: “Eu, Ângela de Foligno, tive que atravessar muitas etapas no caminho da penitência e conversão. A primeira foi me convencer de como o pecado é grave e danoso. A segunda foi sentir arrependimento e vergonha por ter ofendido a bondade de Deus. A terceira foi me confessar de todos os meus pecados. A quarta, convencer-me da grande misericórdia que Deus tem para com os pecadores que desejam ser perdoados. A quinta, adquirir um grande amor e reconhecimento por tudo o que Cristo sofreu por todos nós. A sexta, sentir um profundo amor por Jesus Eucarístico. A sétima, aprender a orar, especialmente rezar com amor e atenção o Pai Nosso. A oitava, procurar e tratar de viver em contínua e afetuosa comunhão com Deus”.


Santuário da Santa, em Foligno

Diretora e guia espiritual de inúmeros discípulos

Como consequência, em 1291 ela doou todos os seus bens aos pobres e ingressou na Ordem Terceira de São Francisco.

A exemplo de Santa Catarina de Siena, sua fama de santidade aos poucos atraiu em torno de si grande número de Terciários, homens e mulheres, que procuravam adiantar-se na virtude sob a sua direção. Ângela era para eles uma verdadeira guia espiritual e mestra que lhes dava apoio para caminhar com decisão no caminho da cruz.

 Mais tarde ela estabeleceu em Foligno uma comunidade de irmãs, dotando-a da regra da Ordem Terceira de São Francisco, acrescida dos três votos de religião, para se dedicar às obras de misericórdia.

A beata Pasqualina de Foligno foi uma de suas filhas espirituais.

 


Restos mortais de Santa Ângela, na igreja de São Francisco, em Foligno

Morte edificante e tardia canonização

         No Natal de 1303, Ângela comunicou aos seus discípulos que morreria em breve. Alguns dias depois teve uma visão de Nosso Senhor Jesus Cristo, que lhe prometeu vir pessoalmente levá-la para o Céu. Seis anos depois, no dia 4 de janeiro de 1309, cercada por sua comunidade de discípulos, ela entregou sua alma a Deus.

Seus restos mortais foram depositados na igreja de São Francisco, em Foligno. Muitos milagres atribuídos à sua intercessão ocorreram em seu túmulo, e sua fama de santidade atravessou os séculos.

Entre as muitas místicas que a “conheceram”, está a grande Doutora da Igreja, Santa Teresa d’Ávila, e Isabel da Trindade, falecida em 1906 e beatificada em 1984. Apesar disso, o caminho para ser oficialmente reconhecida como Santa foi muito tortuoso. Já em 1547 o Papa Paulo III a citava como tal; igualmente o fez Inocêncio XII em 1693, mas nem um nem outro se ocuparam de sua beatificação, ocorrida somente em 1707, com Clemente XI. Em 1927, Pio XI também se referiu a ela como Santa, em carta datada de 1927. Mas ainda assim não a canonizou formalmente.

Finalmente, no dia 9 de outubro de 2013, acolhendo a relação do Prefeito da Congregação da Causa dos Santos, o Papa Francisco inscreveu Ângela de Foligno no catálogo dos santos através da canonização equipolente (sem executar o processo judicial ordinário), tendo em vista a validade da longa veneração de que ela gozava.

Santa Ângela como mestra da vida espiritual

O Pe. Mario Scudu, SDB, escreveu no site italiano Santi e Beati*: “Ângela mostrou compreender claramente que a comunhão profunda com Deus não é uma utopia, mas uma possibilidade oferecida que só é evitada pelo pecado: daí a necessidade da mortificação constante e severa para aderir ao amor de Deus, que é todo bem e alegria para a alma. Ângela também compreendeu que esta profunda união se realiza especialmente na Eucaristia, a mais elevada e misteriosa expressão do amor de Cristo por nós. Outra constante da sua vida foi a meditação dos mistérios de Cristo, em particular da sua Paixão e Morte (junto com Maria de Nazaré aos pés da Cruz), prática, segundo ela, muito fecunda para permanecer em comunhão com Deus e perseverar na doação a Deus e ao próximo”.

Continua ele: “Todos sabemos que não há verdadeira vida espiritual sem humildade e sem oração. Esta pode ser corporal (vocal), mental (quando não se pensa em nada além de Deus) e sobrenatural ou contemplativa. [Diz ela:] ‘Nessas três escolas a pessoa conhece a si mesma e a Deus; e porque ela sabe, ama; e porque ela ama, deseja ter o que ama. E este é o sinal do amor verdadeiro: quem ama não se transforma em parte de si, mas totalmente no Amado’”.

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Fontes consultadas:

* http://www.santiebeati.it/dettaglio/30700 – Blessed Angela of Foligno, The Catholic Encyclopedia, CD Room edition.

– https://fr.wikipedia.org/wiki/Ang%C3%A8le_de_Foligno

https://en.wikipedia.org/wiki/Angela_of_Foligno

 

https://www.abim.inf.br/santa-angela-de-foligno/

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