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sábado, 3 de julho de 2021

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Luiz Gonzaga Dias – Serenata

 


Serenata

Luiz Gonzaga Dias

 

Na paz da noite, aos pálidos lampejos,

Da luz é o meu astro um boêmio em farra,

Que põe notas de angústia nos solfejos,

E madrigais nas cordas da guitarra.

 

Em vibração de mágoas e desejos,

Corta o silêncio como cimitarra...

Cantando como uma ave ou a cigarra,

Beijo da lua os luminosos beijos.

 

Tangendo a lira em repetidos trenos,

Canto ao luar em devaneios plenos.

Minha canção apaixonada e mansa.

 

É que a lua foi sempre a minha amiga

Inspiradora e namorada antiga,

Desde os tempos longínquos de criança!

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“Um momento de arte e descanso, não faz mal ao corpo ou ao espírito exausto.

            Se o leitor não acha que ler poesia é perder tempo, leia um pouco estes versos.

            Ao contrário, desculpe, e passe adiante.

            De qualquer modo, queira aceitar os agradecimentos do autor.

 São Felix, Estado da Bahia, Julho de 1962.

Luiz Gonzaga Dias”

* * *

CREIO EM DEUS


Imagem de São Tomé venerada em San

Giovanni di Laterano (Roma). Obra do escultor

francês Pierre Legros (1666 -1719), pertenceu à

escola barroca de escultura [Foto PRC]


O mundo inteiro ficou suspenso ao dedo de São Tomé. Entretanto, muitos em nossos dias veem e não creem. Uma obstinada incredulidade!

 

Neste dia 3 de julho a Santa Igreja celebra o Apóstolo São Tomé. Segundo a tradição, ele pregou o Evangelho na Armênia, na Média, na Pérsia e na Índia, onde foi martirizado. Afirma também que esteve na América, inclusive no Brasil — onde os índios diziam que, antes da chegada dos portugueses, passou por aqui para lhes ensinar a Religião o “Pai Zumé”.

Por seu apostolado e sua morte, confessou a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, da qual duvidara por momentos.

O Apóstolo São Tomé não estava no Cenáculo quando Jesus apareceu aos discípulos. Quando voltou, eles lhe disseram: — Vimos o Mestre! Apareceu aqui e falou conosco.

Tomé sorriu e objetou: — Se eu não vir no seu lado aberto, não acreditarei.

São Tomé não quis crer. Tudo aquilo, em sua opinião, era uma ilusão.

Oito dias depois, os discípulos estavam novamente reunidos no Cenáculo. Tomé achava-se presente. Inesperadamente, envolvido numa luz misteriosa, Jesus apareceu no meio deles, dizendo: — A paz esteja convosco.

Os Apóstolos alegraram-se vendo Jesus. Tomé, pelo contrário, abaixou a cabeça. Jesus aproxima-se dele, dizendo severamente: — Tomé põe o teu dedo nas minhas feridas e coloca a tua mão sobre o meu lado, e não sejas mais incrédulo.

São Tomé, confundido, caiu de joelhos aos pés de Jesus e exclamou, entre lágrimas de comoção: — Senhor meu e meu Deus.

E Jesus erguendo-o disse: — Creste, ó Tomé, porque viste. Bem-aventurados os que não viram e creram.

A respeito desta passagem do Evangelho, Plinio Corrêa de Oliveira comentou em artigo no “O Legionário”, em 25-4-1943:



“Muito se tem falado… e sorrido a respeito da relutância de São Tomé em admitir a Ressurreição. Haverá talvez, nisto, certo exagero. Ou, ao menos, é certo que temos diante dos olhos exemplos de uma incredulidade incomparavelmente mais obstinada do que a do Apóstolo.Com efeito, São Tomé disse que precisaria tocar Nosso Senhor com suas mãos, para n’Ele crer. Mas, vendo-O, creu mesmo antes de O tocar.

Santo Agostinho vê na relutância inicial do Apóstolo uma disposição providencial. Diz o Santo Doutor de Hippona que o mundo inteiro ficou suspenso ao dedo de São Tomé, e que sua grande meticulosidade nos motivos de crer serve de garantia a todas as almas timoratas, em todos os séculos, de que realmente a Ressurreição foi um fato objetivo, e não o produto de imaginações em ebulição. Seja como for, o fato é que São Tomé creu assim que viu. E quantos são, em nossos dias, os que veem e não creem?

Temos um exemplo desta obstinada incredulidade no que diz respeito aos milagres verificados em Lourdes, e também com Teresa Neumann em Ronersreuth, em Fátima. Trata-se de milagres evidentes.

Em Lourdes, há um bureau de constatações médicas, em que só se registram as curas instantâneas de moléstias sem qualquer caráter nervoso, e incapazes de ser curadas por um processo sugestivo; as provas exigidas como autenticidade da moléstia são, em primeiro lugar um exame médico do paciente, feito antes de sua imersão na piscina; em segundo lugar, ainda antes dessa imersão, a apresentação dos documentos médicos referentes ao caso, das radiografias, análises de laboratório etc.

A todo esse processo preliminar podem estar presentes quaisquer médicos de passagem por Lourdes, ficando autorizados a exigir exame pessoal do doente, e das peças radiográficas ou de laboratório que traga consigo; finalmente, verificada a cura, deve esta ser observada pelo mesmo processo por que se verificou a doença, e só é considerada efetivamente miraculosa quando, durante muito tempo, o mal não reaparecer. Aí estão os fatos. Sugestão? Para eliminar qualquer dúvida a este respeito, aponta-se o caso de curas verificadas em crianças sem uso da razão por sua tenríssima idade, e que, por isto, não podem ser sugestionadas. A tudo isto, o que se responde? Quem tem a nobreza de fazer como São Tomé, e, diante da verdade segura, ajoelhar-se e proclamá-la sem rebuços?

Parece que Nosso Senhor multiplica os milagres à medida que cresce a impiedade. O caso de Teresa Neumann, Lourdes, Fátima, o que mais? Quanta gente sabe destes casos? E quem tem a coragem de proceder a um estudo sério, imparcial, seguro, antes de negar esses milagres?”

https://www.abim.inf.br/creio-em-deus/

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sexta-feira, 2 de julho de 2021

DE CIMA PARA BAIXO – Artur Azevedo

 


De Cima Para Baixo

Artur Azevedo

 

          Naquele dia o ministro chegou de mau humor ao seu gabinete, e imediatamente mandou chamar o diretor-geral da secretaria.

          Este, como se movido fosse por uma pilha elétrica, estava, poucos instantes depois, em presença de sua excelência, que o recebeu com duas pedras na mão.

          - Estou furioso! – exclamou o conselheiro. – Por sua causa passei por uma vergonha diante de sua majestade o imperador!

          - Por minha causa? – perguntou o diretor-geral, abrindo muito os olhos e batendo no peito.

          - O senhor mandou-me na pasta um decreto de nomeação sem o nome do funcionário nomeado!

          - Que me está dizendo, excelentíssimo...?

          E o diretor-geral, que era tão passivo e humilde com os superiores quão arrogante e autoritário com os subalternos, apanhou rapidamente no ar o decreto que o ministro lhe atirou, em risco de lhe bater na cara, e, depois de escanchar a luneta no nariz, confessou em voz sumida:

          É verdade! Passou-me! Não sei como isso foi...!

          - É imperdoável esta falta de cuidado! Deveriam merecer-lhe um pouco mais de atenção aos autos que têm de ser submetidos à assinatura de sua majestade, principalmente agora que, como sabe, está doente o meu oficial de gabinete!

          E, dando um murro sobre a mesa, o ministro prosseguiu:

          - Por sua causa esteve iminente uma crise ministerial; ouvi palavras tão desagradáveis proferidas pelos augustos lábios de sua majestade, que dei a minha demissão!...

          - Oh!...

          - Sua majestade não a aceitou...

          - Naturalmente; fez sua majestade muito bem.

          - Não aceitou porque me considera muito, e sabe que a um ministro ocupado como eu é fácil escapar um decreto mal copiado.

          - Peço mil perdões a vossa excelência – protestou o diretor-geral, terrivelmente impressionado pela palavra demissão. – O acúmulo de serviço fez com que me escapasse tão grave lacuna; mas afirmo a vossa excelência que de agora em diante hei de ter o maior cuidado em que se não reproduzam fatos desta natureza.

          O ministro deu-lhe as costas e encolheu os ombros, dizendo:

          - Bom! Mande reformar essa porcaria!

 

          O diretor-geral saiu, fazendo muitas mesuras, e chegando no seu gabinete, mandou chamar o chefe de 3ª seção que que o encontrou fulo de cólera.

          - Estou furioso! Por sua causa passei por uma vergonha diante do senhor ministro!

          - Por minha causa?

          - O senhor mandou-me na pasta um decreto sem nome do funcionário nomeado!

          -  E atirou-lhe o papel, que caiu no chão.

          O chefe da 3ª seção apanhou-o, atônito, e, depois de se certificar do erro, balbuciou:

          - Queira vossa senhoria desculpar, Sr. Diretor... são coisas que acontecem... havia tanto serviço... e todo tão urgente!...

          - O Sr.  Ministro ficou, e com razão, exasperado! Tratou-me com toda a consideração, com toda a afabilidade, mas notei que estava fora de si!

          - Não era o casa para tanto...

           - Não era caso para tanto? Pois olhe, sua excelência disse-me que eu devia suspender o chefe de seção que me mandou isso na pasta!

          - Eu... Vossa senhoria...

          Não o suspendo; limito-me a fazer-lhe uma simples advertência, de acordo com o regulamento.

          - Eu... vossa senhoria.

          Não me responda! Não faça a menor observação! Retire-se, e mande reformar essa porcaria!

 

          O chefe da 3ª seção retirou-se confundido, e foi ter à mesa um amanuense que tão mal copiara o decreto:

          - Estou furioso, Sr. Godinho por sua causa passei uma vergonha diante do Sr. Diretor Geral!

          - Por minha causa?

          - O senhor é um empregado inepto, desidioso, desmazelado, incorrigível!  Este decreto não tem o nome do funcionário nomeado! E atirou o papel, que bateu no peito do amanuense.

          - Eu devia propor a sua suspensão por quinze dias ou um mês: limito-me a repreende-lo na forma do regulamento! O que eu teria ouvido, se o Sr. Diretor-geral não me tratasse com tanto respeito e consideração!

          O expediente foi tanto, que não tive tempo de reler o que escrevi...

          - Ainda o confessa!

          - Fiei-me em que o senhor chefe passasse os olhos...

          - Cale-se!...  Quem sabe se o senhor pretende ensinar-me quais sejam as minhas atribuições?!...

          - Não, senhor, e peço-lhe que me perdoe essa falta...

          - Cale-se, já lhe disse, e trate de reformar essa porcaria!...

          O amanuense obedeceu.

          Acabado o serviço, tocou a campainha.

          Apareceu um contínuo.

          - Por sua causa passei por uma vergonha diante do chefe de seção!

          - Por minha causa?

          - Sim, por sua causa! Se você ontem não tivesse levado tanto tempo a trazer-me o caderno de papel imperial que lhe pedi, não teria eu passado a limpo este decreto com tanta pressa que comi o nome do nomeado!

          _ Foi porque...

          - Não se desculpe: você é um contínuo muito relaxado!

          Se o chefe não me considerasse tanto, eu estava suspenso, e a culpa seria sua! Retire-se!

          - Mas...

          Retire-se, já lhe disse! E deve dar-se por muito feliz: eu poderia queixar-me de você...

 

          O contínuo saiu dali, e foi vingar-se num servente preto, que cochilava num corredor da secretaria.

          - Estou furioso! Por tua causa passei pela vergonha de ser repreendido por um bigorrilhas!

          - Por minha causa?

          - Sim; quando te mandei ontem buscar na portaria aquele caderno de papel imperial, por que te demoraste tanto?

          Porque...

          - Cala a boca! Isto aqui é andar muito direitinho, entendes?  Porque no dia em que eu me queixar de ti ao porteiro, estás no olho da rua! Serventes não faltam!...

          O preto não redarguiu.

          O pobre diabo não tinha ninguém abaixo de si, em quem pudesse desforrar-se da agressão do contínuo; entretanto, quando depois de jantar, sem vontade, no frege-moscas, entrou no pardieiro em que morava, deu um tremendo pontapé no seu cão.

          O mísero animal que vinha, alegre, dar-lhe as boas-vindas, grunhiu, grunhiu, e voltou a lamber-lhe humildemente os pés.

          O cão pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor-geral e pelo ministro.

         

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Artur Azevedo (Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo), jornalista e teatrólogo, nasceu em São Luís, MA, em 7 de julho de 1855, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22 de outubro de 1908. Figurou, ao lado do irmão Aluísio Azevedo, no grupo fundador da Academia Brasileira de Letras, onde criou a cadeira nº 29, que tem como patrono Martins Pena.     

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GRANDE MOTOCIATA PRÓ BOLSONARO EM SALVADOR - BAHIA • 02/07/2021

quinta-feira, 1 de julho de 2021

BOCCACCIO - Marco Lucchesi



Boccaccio

Marco Lucchesi


Não falemos do Brasil. Falta oxigênio moral e político. Caminhamos entre as ruínas da pandemia, provocadas pela necropolítica. Penso nas novelas do grande leitor de Dante.

Decamerão de Boccaccio é capítulo essencial da História do Ocidente. E me refiro ao núcleo do Humanismo, aos prelúdios do Renascimento. Trata-se da reconquista da prosa, a narrativa do mundo e sua translação, em torno da palavra. Um gesto que ilumina parte de nossa herança: as formas simbólicas, o lugar da cultura e da ciência. Em outras palavras: o poder soberano da literatura. Um mundo novo, a divina mímesis, como disse Pier Paolo Pasolini.

Prosa aberta e onidirecional. Eis o dinamismo da obra de Boccaccio: cresce na frase o batimento cardíaco, a métrica estendida, a solidariedade narrativa, que ordena e distribui, dissolve e coagula, a experiência da sintaxe, enquanto paisagem verbal, como tessitura robusta e delicada.

A prosa doma o silêncio, empresta-lhe novo destino. O volume de silêncio nasce do contexto que o circunscreve. Irrompe como contracanto, na ironia, no contexto, de quanto se insinua, a arte de dizer o que não se diz, nos vários níveis do discurso.  Boccaccio – com um sorriso nos lábios, entre simpatia e compaixão – tece e destece a ambiguidade, as dobras do coração e da palavra, em diálogo ou solilóquio.  

Prosa de Boccaccio avança por terra e mar: como nunca dantes. Nostalgia do mais. Saudade do infinito. Novelas que movem o sol e as estrelas. O Céu agora passa para a Terra. A fome da totalidade é seu motor primeiro. A humana condição já não tem fim. Boccaccio aposta na inscrição do mundo, nas demandas semânticas, novas e ousadas. Parte da nomeação do universo inflacionário. Diríamos hoje, em chave metafórica, o desvio para o vermelho, a fuga das galáxias.

O Decamerão é fruto da polifonia. Intensa e bela, de que descendem Shakespeare, Balzac e Dostoievski. A potência da linguagem opera agora em seus limites: roça a pele vibrátil do mundo, alterno e vasto, poroso e descontínuo. E desafia sem piedade os inquilinos do tempo.

Boccaccio compara seu trabalho ao do pintor, na escolha e na fabricação dos pigmentos, na gradação da cor e no relativo campo de visão. A obra de arte adquire estatuto próprio, um fim em si mesmo, esse caráter autotélico da arte, consagrado nos tempos modernos.

Não se deve, contudo, perder de vista algo iluminador:  Boccaccio é o grande poeta que escreve em prosa. A força da poesia inaugura novas formas de apropriação, intensidade e sinergia da matéria narrada. Suas novelas guardam um frescor incomparável,  juventude que não passa, condensado de beleza e variação: nas cenas de erotismo ou misticismo, na burla impiedosa, na tristeza mais sublime, ou na vitória, afinal, da inteligência frente ao destino, antecipando algo da virtude e da fortuna, em Maquiavel.

A poesia de Boccaccio, ele mesmo artífice de águas claras, amigo epistolar de Petrarca, e leitor entusiasmado de Dante, apresenta suas melhores credenciais.

A primeira prosa dos tempos modernos respira a poesia secreta do mundo, que ele tanto amou, quando se dispôs a inscrevê-la num âmbito indelével: no eterno presente da leitura. É uma forma de saber que os brasileiros estamos vivos. Os sobreviventes. Até agora.

Jornal de Letras, Artes e Ideias (Lisboa), 01/06/2021

 

https://www.academia.org.br/artigos/boccaccio

 

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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - 29.06.1979

Academia Brasileira de Letras - 29.06.1979




quarta-feira, 30 de junho de 2021

MARIA CONGA – Cyro de Mattos


                                   Maria Conga

Cyro de Mattos

 

            Agora andam dizendo que ela deu para aparecer em cidades distantes, na mesma hora como se fosse mais de uma.  O padre fechou a cara, franziu a testa. Ficou com os olhos de raiva no domingo quando soube que o povo está acreditando nas aparições da preta velha. Foi a beata mais velha quem levou ao padre o que o povo tanto comenta.

            O mecânico afirma que a viu na plataforma da estação, vendendo mingau cedo quando o trem partiu. Horas depois, ao saltar do trem na estação da cidade de Água Preta, perdeu a fala. Lá estava ela, atendendo os fregueses. Toda bonita com pano da Costa, bata de renda, figa de Guiné, pulseira de prata. Ainda sorriu para ele, como se a sua aparição ali fosse a coisa mais natural deste mundo.

            O funcionário do correio ficou nervoso, quase que desmaiou ali mesmo na plataforma da estação, não querendo acreditar no que aconteceu com ele quando viajou naquele domingo para Itapira. Ia visitar um filho, que há dois anos não via, desde que casou e foi transferido do emprego no banco. Despediu-se dela na plataforma e, apressado, entrou no trem que acabava de dar três apitos fortes, anunciando que já ia partir. Da janela deu adeus e, em tom de brincadeira, pediu que ela guardasse o seu copo de mingau para quando voltasse. Quando chegou à Itapira, a primeira pessoa que viu na plataforma foi Vovó Maria Conga, que lhe estendeu a mão oferecendo o seu copo de mingau ainda quente.

             Nos últimos dias, professores e alunos estão comentando muito no colégio sobre as aparições de Vovó Maria Conga. Aqui e lá longe, sem viajar, no mesmo dia, ela aparece como se fosse mesmo encantada. O padre na missa do domingo passado cuspiu cobras e lagartos. No sermão citou trechos da Bíblia que falam dos infiéis ao Cristo, o único que andou em cima das águas, multiplicou os pães e os peixes. Ameaçou de excomungar os que se deixam enganar por todo tipo de crendice e boataria inconcebível.

            À pergunta ao diretor do colégio, se ele acreditava nessas aparições da preta velha, que andavam de boca em boca pelos cantos da cidade, respondeu o que achava sobre o assunto: não digo que sim, nem digo que não, ressaltando que nessas coisas esquisitas de preta velha nunca gostei de me intrometer.

          De minha parte, ao escrever o breve relatório dessas aparições, apenas adianto que sempre achei que Vovó Maria Conga é uma pessoa que conhece o segredo dos caminhos e o mistério das falas, coisas vindas do seu povo, que habitava as terras longes de África. De fato, ela é uma criatura que faz a gente pensar com suas estranhezas. E admirar por sua sabedoria, velha beleza tão dela.

 

Cyro de Mattos - Escritor e poeta. Membro Titular da Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz.

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