Total de visualizações de página

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

O BRASILEIRO MITO EM HOLLYWOOD - Ignácio de Loyola Brandão


Estava passando um final de semana com o casal Sueli e Ivo Szterling e ela me deu o livro Meu Pecado, de Javier Moro, jornalista que escreve best-sellers curiosos. Não consegui largar. Em um dia e meio devorei a biografia de Conchita Montenegro, espanhola belíssima que triunfou em Hollywood nos anos 1930. O ambiente é o do cinema, mas também o da guerra civil espanhola. No livro surge o brasileiro Raoul Roulien em um episódio trágico. Quando cheguei às páginas sobre Raoul, me vi transportado para uma tarde do início dos anos 1960. 

Jô Soares e eu estávamos a conversar junto à imensa mesa que servia para reuniões na redação do jornal Última Hora. Nesta mesa, Jô às vezes dava um show de sapateado, adorávamos. Devia ser quatro da tarde, Jô me cutucou: “Olha, olha! Veja quem está entrando”. Era um homem alto, bem-apessoado, leve início de calvície, sorriso enorme. Carismático. “Quem é a figura?” Jô ironizou: “Você escreve sobre cinema e não sabe? Raoul Roulien”. Dei um salto, fui ver, Raoul chegara à mesa do Ibiapaba Martins, escritor que editava Variedades. Ouvi-o dizendo: “Trouxe minha primeira coluna”

Ibiapaba apanhou e chamou o Jô. Nós três ali, ele comunicou: “Roulien, a partir de hoje, escreve uma coluna sobre teatro”. Roulien na nossa UH? Fiquei paralisado, era a primeira vez que eu me via diante de um astro, no sentido total da palavra. Ele foi o Rodolfo Valentino brasileiro em Hollywood. Galã, cantor, bailarino, sedutor. Corremos ao arquivo, dona Alzira, setentona – achava eu – com seu cigarro em uma piteirazinha de prata, quando soube que Roulien estava na redação, nos atirou a pasta e desceu voando. Eles eram da mesma época. Falei para o Jô: “O cara vem trabalhar aqui com a gente? Vamos aproveitar, saber um mundo de histórias”.

Nós dois, Jô e eu, com 20 e poucos anos, éramos unidos na paixão pelo cinema. De coisas sérias a trivialidades. Descobrimos juntos o Zé do Caixão. Líamos A Cena Muda, a Filmelândia, Cinelândia, a Carioca, que traziam Dulce Damasceno de Brito, Zenaide Andrea, Lyba Fridman. Líamos Paulo Emílio, Alex Viany, Moniz Vianna, Almeida Salles. O Jô, que lia inglês muito bem e cujos pais viajavam, tinha em casa Movieland, Movie Screen e Confidential, esta com seus escândalos. Líamos Louella Parsons, fofoqueira, chantagista e sua rival Hedda Hopper, que dominaram Hollywood por anos. Temidas, uma notícia ruim delas destruía uma carreira.

Assim, sabíamos que Roulien tinha sido criança prodígio no Brasil, na juventude era um “estouro”, galã adorado pelas normalistas, a palavra fã fora criada para ele. Mudara-se para Hollywood na década de 1930, tornara-se astro disputado pelas mulheres, cantava e dançava.     Aquele homem ali na redação da UH, que todos desconheciam, frequentava as festas de Greta Garbo, contracenou com Carmem Miranda, Spencer Tracy, John Barrymore – um mito –, Joan Bennet e Leslie Howard. Foi ele quem indicou Ginger Rogers e Fred Astaire para uma cena de dança em Voando Para o Rio (Flying Down to Rio) e dali em diante Astaire se tornou o que todos sabem, o maior bailarino do cinema em todos os tempos. Ator, cantor, dançarino, produtor, diretor, Roulien foi escolhido por George Gershwin para interpretar a canção Delicious no filme de mesmo título. Lançou dois foxtrotes de Irving Berlin com versões suas: Mente por Favor e Se Eu Perdesse Você. Chegou a ser dirigido por John Ford em 1934, no filme The World Moves on, com Madeleine Carroll, superstar. Há indícios de que teria também descoberto Rita Hayworth. Quando voltou ao Brasil, em 1932, foi carregado nos ombros pela multidão. 

Em 1933, uma tragédia. Raul era casado com uma mulher belíssima, Diva Tosca, que morreu atropelada por um bêbado de nome John Huston, futuro diretor. Raul processou, porém os Hustons eram poderosos, ele perdeu a causa e foi banido de Hollywood. Um latino processando a elite? Sua carreira terminou, ele voltou ao Brasil, fez teatro, jornalismo, planejou superproduções. Fez televisão e era adorado pelos colegas, deu aulas de interpretação. Quando o conhecemos devia estar com 56 anos, sempre disposto e sorridente. Todas as vezes que tentamos saber do passado, ele se calou. Nunca tocou no assunto Hollywood. Que histórias perdemos? O que nunca foi contado que poderíamos ter sabido? Por que ele nunca escreveu uma autobiografia? Também nunca ouvimos uma só palavra de autopiedade, nostalgia, lamento. Morreu em São Paulo em 2000, aos 95 anos. Esquecido.

Raul publicou em 1933, pela Freitas Bastos, um livro, A Verdadeira Hollywood, esgotadíssimo. Haverá nele um desabafo ou sua indignação?

O Estado de S. Paulo, 11/11/2020

 

https://www.academia.org.br/artigos/o-brasileiro-mito-em-hollywood

------

Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *

 

 

domingo, 15 de novembro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM POEMA: Verso Delirante - Bernardo Linhares



Verso Delirante

Bernardo Linhares 



                                                  Psique no vento... Hipnose... 

Rastro da cauda do cometa, 

trajando gala a lua cose 

a fantasia do planeta. 


Sol que emoldura a apoteose, 

dândi no espelho do profeta, 

qual paranoia em neurose, 

delírio é pena de poeta. 


Delineando em overdose, 

poeta rima com caneta 

 quando no verso há simbiose. 


E o soneto se completa 

como se fosse a borboleta 

que no casulo se diz pétala. 

 

Bernardo Linhares

* * *

PALAVRA DA SALVAÇÃO (210)


33º Domingo do Tempo Comum – 15/11/2020


Anúncio do Evangelho (Mt 25,14-30)

— O Senhor esteja convosco.

— Ele está no meio de nós.

— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.

— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou.

O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles e lucrou outros cinco. Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu patrão. Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados. O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo: ‘Senhor, tu me entregaste cinco talentos. Aqui estão mais cinco que lucrei’. O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’

Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse: ‘Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei’. O patrão lhe disse: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais. Vem participar da minha alegria!’

Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: ‘Senhor, sei que és um homem severo, pois colhes onde não plantaste e ceifas onde não semeaste. Por isso, fiquei com medo e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence’.

O patrão lhe respondeu: ‘Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde não plantei e ceifo onde não semeei? Então, devias ter depositado meu dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me pertence’. Em seguida, o patrão ordenou: ‘Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez! Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado. Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Aí haverá choro e ranger de dentes!’”

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

https://liturgia.cancaonova.com/pb/

---

Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger Araújo:


https://www.youtube.com/watch?v=08LLsavOWb8&feature=emb_logo

---

Talentos: nosso "ser essencial"

 


“A um deu cinco talentos, a outro dois, a outro um; a cada um de acordo com a sua capacidade” 

Neste 33º. Dom. do Tempo Comum, a liturgia nos propõe uma parábola não só complexa, mas difícil de incorporar à nossa habitual interpretação das parábolas dos evangelhos. A história relata um episódio que um homem rico, ao sair em viagem, reparte seus bens entre seus servos com a intenção de que os façam render para que, no seu retorno, possa ver incrementado seu patrimônio. No seu regresso, premia àqueles que tiveram êxito no negócio e castiga duramente aquele que, por medo, enterrou o dinheiro recebido e não gerou lucros para o seu patrão.

Geralmente, ao interpretar ingenuamente a parábola, consideramos que este homem rico está representando a Deus e que os servos representam as diferentes respostas diante dos “talentos” recebidos do mesmo Deus. No entanto, a partir desta compreensão, torna-se difícil entender como Jesus pode apresentar o Deus do Reino atuando de forma tão dura e sem misericórdia com quem não fez crescer o “talento”. O modo com que frequentemente resolvemos a dificuldade é responsabilizar o servo que enterrou seu “talento”. Consideramos que este servo agiu com negligência e covardia e, portanto, mereceu ser castigado. 

Sempre corremos o risco de uma interpretação literal e moralista da parábola. Isso dá margem a alimentar uma falsa imagem de Deus. Mas, o Deus de Jesus não atua a partir do critério de prêmio e castigo. A atitude do senhor da parábola não pode ser exemplo do modo de agir de Deus. Jesus nunca acreditou nem nos apresentou a Deus como o senhor desta parábola, que funciona por interesses e rentabilidade. O Deus de Jesus, nosso Deus, é bondade, acolhida, compaixão e misericórdia. Tampouco o Deus de Jesus é um senhor duro e rancoroso, que recolhe onde não semeia, que arranca até o último centavo e que ameaça jogar o ser humano na “geena”, onde haverá choro e ranger de dentes.

Não, Jesus não quer que rendamos lucros para o patrão egoísta e austero, que causa pavor no terceiro servo da parábola. Deus não é austero nem egoísta. Deus é “dom” que se oferece, se compartilha... A presença de Deus nos inspira para que sejamos e ativemos a vida, pelo prazer de ser e de partilhar... E pelo prazer de partilhar com os outros o que temos recebido.

Por isso, a parábola dos talentos é muito mais um protesto contra uma estrutura social e religiosa centrada na cultura do prêmio/castigo, inclusão/exclusão, competente/incompetente...

Pensemos na parábola do filho pródigo, que é tratado pelo Pai de uma maneira completamente diferente. Tirar o pouco que tem daquele que tem menos para dá-lo ao que tem mais, tomado ao “pé da letra”, seria impróprio do Deus de Jesus. Através da parábola, Jesus denuncia o “deus da religião”, manipulado pelos encarregados do Templo (sacerdotes, escribas, fariseus...) para exercer o poder religioso sobre as consciências das pessoas e, assim, mantê-las sob seu controle.

Em “chave de interioridade”, alimentamos em nós a imagem de um “deus” que é fruto de nossas projeções, muitas vezes carregadas de feridas, traumas, medos, autoexigências, busca da perfeição... Uns projetam a imagem do “deus do mérito”, que recompensa aqueles que se esforçam em “multiplicar talentos”; é a imagem do “deus” dos dois primeiros servos. Numa cultura na qual tudo se valoriza pelos resultados, é muito difícil compreender isto. Em um ambiente social onde ninguém se move a não ser por um pagamento, onde tudo o que é feito deve trazer algum benefício, é quase impossível compreender a gratuidade que o evangelho nos pede. Se buscamos prêmios é que não entendemos nada do evangelho.

Outros projetam a imagem do “deus do medo”, duro, intransigente, que cobra até o último centavo, que castiga... É o “deus” do terceiro servo.

Estas falsas imagens de Deus, no entanto, causam danos e afetam a vida em todas as suas dimensões (pessoal, familiar, social, espiritual). Por detrás destas imagens se encontram crenças religiosas às quais chamamos crenças tóxicas.

Estas crenças tóxicas podem gerar personalidades dependentes e submissas, neuróticas e ansiosas, medrosas e passivas, moralistas e perfeccionistas; ou talvez personalidades agressivas, dominantes, vingativas, controladoras. São o reflexo de uma imagem distorcida de Deus e “chegamos a nos parecer com o Deus que projetamos”. Esta distorção é o resultado, muitas vezes, de uma educação rigorosa e moralista, produto de uma espiritualidade dualista que coloca a perfeição como o ideal de todo cristão e o menosprezo de tudo o que não é “espiritual”. Estas crenças religiosas geram uma fé tóxica ou insana porque nos afastam do Deus de Jesus e podem favorecer a dependência religiosa e o abuso espiritual.

Também é insuficiente interpretar “talentos” como qualidades da pessoa. Esta interpretação é a mais comum e está sancionada em nossa linguagem. Quê significa “ter talento”? Também não é esta a verdadeira questão da parábola. Em relação às qualidades pessoais, somos instigados a ativar todas as possibilidades, mas sempre pensando no bem de todos e não para acumular mais e “depenar” os menos capacitados, dando graças a Deus por sermos mais espertos que os outros.

Se permanecermos na ordem das qualidades pessoais, poderíamos concluir que Deus é injusto. A parábola não julga as qualidades, mas o uso que fazemos delas. Quer tenhamos mais ou quer tenhamos menos, o que nos é pedido é que coloquemos a serviço de nosso autêntico ser, a serviço de todos.

Na dimensão da essência, todos somos iguais. Se percebemos diferenças é que estamos valorizando o acidental. No essencial, todos temos o mesmo talento. As bem-aventuranças deixam isso muito claro: por mais carências que tenhamos, podemos alcançar a plenitude humana.

Como seres humanos temos algo essencial, e muita coisa que é acidental. O importante é a essência que nos constitui como seres humanos. Esse é o verdadeiro talento: o que há de mais humano em nós. Ter ou não ter (o acidental) não constitui a principal preocupação. Os talentos, de que fala a parábola, não podem fazer referência a realidades secundárias, mas às realidades que fazem cada pessoa ser mais humana. E já sabemos que ser mais humano significa ser capaz de amar mais. E amar quer dizer servir aos outros.

Os talentos são os bens essenciais que devemos descobrir, pois estão presentes em nosso interior. A parábola do tesouro escondido é a melhor pista. Somos um tesouro de valor incalculável. A primeira obrigação de um ser humano é descobrir essa realidade; devemos estar voltados para o nosso interior e poder ativar todas as nossas possibilidades. A “boa nova” é que todos coloquemos esse tesouro a serviço de todos. Nisso consiste o Reino anunciado por Jesus. 

O grande “pecado” dos(as) seguidores(as) de Jesus é a de não arriscarem a segui-Lo de maneira criativa. O tesouro (os talentos verdadeiros da vida) não é algo que se mede em termos pecuniários. O valor do ser humano, seu talento, é a vida como tal, a capacidade de receber e partilhar amor. Neste sentido, “lucrar” é simplesmente ser, deixar-se amar, “lucrar” é simplesmente viver no amor. Não se trata de “lucrar” talentos em dinheiro, mas o talento mais profundo da vida, o “tesouro” que está presente nas profundezas de nossa existência, esperando a oportunidade para “render” mais compaixão, bondade, sensibilidade solidária...

Temos o grande talento, a Vida de Deus, que nos atravessa e se visibiliza no coração compassivo, nos olhos contemplativos, nos pés que quebram distâncias, nas mãos servidoras... Que vivamos sem medo: é isso que a parábola revela. Passar dos “talentos” ao Talento, e em especial ao Talento do Coração (talento do Reino), a serviço da humanidade. 

Texto Bíblico:  Mt 25,14-30 

Na oração: dar nomes aos medos que estão paralisando sua vida, impedindo-o de viver com mais ousadia e criatividade.

- Quem é o “Deus” em quem você crê? É o “deus da lei”, o “deus do mérito”, o “deus” que cobra até o último centavo... ou o “Deus de Jesus”: Pai e Mãe, fonte de misericórdia e compaixão?

- A fé e a confiança em Deus possibilitam ter acesso às suas riquezas interiores e expandi-las?


Pe. Adroaldo Palaoro sj

https://centroloyola.org.br/revista/outras-palavras/espiritualidade/2193-talentos-nosso-ser-essencial

* * *

sábado, 14 de novembro de 2020

A FALA DO SANTO EM MUNIZ SODRÉ por Cyro de Mattos


A Fala do Santo em Muniz Sodré

Cyro de Mattos

 

  


         
Muniz Sodré reúne em A Lei do Santo (2000) quinze contos, que têm como tema o mundo do negro afrodescendente e do brasileiro negro.  Esse universo rico de saber e mistério é revelado numa prosa fácil de ser captada através das seguintes histórias: “Purificação”, “Água de rio”, “A lei do santo”, “Oluô”,  “À moda da Bahia: Tengo Lemba”, “Al dente”,  “Vermelho Havana”, “O cágado na cartola”, “Diferença”, “Metafísica do galo”,  “Uma filha de Obá”,  “Chuva”,  “O despejo”, “Batatundê” e “A partida”.

              O autor desses contos, que escorrem no texto com uma linguagem clara, sutilezas no dizer fácil para revelar o mistério que se ata imperceptível ao mundo real, é sociólogo e Obá Aressá Nilé Axé Opô Afonjá. Formado em capoeira pela Escola de Capoeira Regional de Mestre Bimba, sediada em Salvador. Dessa maneira, dotado do atributo erudito e do saber popular  percebe-se de logo que o autor  movimenta-se  à vontade para falar do Oculto, do Destino, do Fundamento, do Preceito,  do Rito, da Comida, do Som e da Cor, de tudo que emerge da lei do santo na qual seus mitos e crendices resvalam-se pelo mundo cotidiano do negro. Na escritura pontuada de saber e mistério ocorre um ritmo cativante, que interliga o divino ao real, circunscreve autor e leitor num círculo que ao mesmo tempo reflete o escritor, o ensaísta, o pensador e o artista da palavra, íntimo do assunto, e o negro da Bahia ou de outro lugar.  

            São contos bem escritos, de imaginário simbólico que atrai, torna cúmplice o leitor de um mundo que responde à sua cosmogonia com as marcas da magia, oriunda de verdades míticas, sentimentos e belezas além do tempo. Saberes que em sintonia com o mistério vêm das raízes, dizem de um modo particular de ser negro e seu mundo com bases na fé, que é capaz de iluminar a parte noturna do ser com vistas à compreensão dos seres e as coisas.  É assim que, nesses textos de ficção breve, vozes emanadas das fissuras e aberturas tênues fazem com que se enxergue de maneira saudável uma cultura que tem sua história milenar, transcendências povoadas de deuses trazidos da África.

       O negro é mostrado aqui com o seu universo feito de histórias, sintonia com sonhos, símbolos de costumes, crenças, saberes e ritos. Evidenciado como protagonista de situações encobertas de mistério, flagrado e deflagrado através de sua vida corriqueira, tantas vezes importante no palco da existência, na trama que o envolve e quer suplantar a ideologia, para assim alcançar com o seu entendimento herdado dos antepassados as dimensões da utopia.  O plano dessa utopia é feito de saberes provindos de profundas camadas míticas, de ressonâncias que chegam a provocar o efeito do estranhamento. Auxiliado pelo orixá na demanda armada  pelo difícil gesto do viver, esse negro, consequência de virtudes e defeitos no contexto que é indiferente ao seu destino,  mostra-se  de corpo e alma como consegue encarar a situação desigual, superar os ditames da dura lei da vida, em geral imposta pelo não preto, e também como não pode  se desvencilhar de crenças e costumes tão dele. 

             O imaginário desse negro pulsa com sombras herdadas de outros tempos, cada uma à espera de ser desvendada. Quando uma delas aflora com luzes das camadas ocultas do mistério mostra-se ligada a uma cosmogonia que se reflete no mundo e vibra em cada destino. Não é difícil perceber que o inexplicável que cerca por todos os lados esse negro procede de fímbrias e vislumbres, que se projetam além do tempo.  Na escrita fluente, a narrativa segura de Muniz Sodré costura personagens que infundem com o seu caráter um jeito de ser negro, que parece não ser deste mundo, embora pise o chão do cotidiano em rotação contínua. É que em Fala do Santo o tempo do cotidiano posto em cada personagem movimenta-se sob o enlace do saber guardado como tesouro em segredo. O lugar onde os personagens definem-se está sempre nos limites do acontecimento impossível, que prende até o desfecho. Este, se não é do nosso mundo, surpreende com o susto provocado na surpresa que ilumina, abrange a beleza e a poesia, retiradas do divino para o encontro perfeito com o real externo. A natureza de cada personagem com seus feitos impregnados de voos impossíveis, percalços difíceis, possibilita a história dotada de sugestões, auscultações, questões na medida que é necessária para dar a entender que o mundo do negro é de profunda magia, belo, adensado de saberes, cantos e falares respeitáveis. Suas surpresas que instigam na trama atraente decorrem de crença inexplicável através da razão lógica, ao contrário se sustenta com os fios duma magia que esconde um tesouro guardado no segredo.     

            Uma das marcas do autor na execução da história consiste no humor, que às vezes aparece com a roupagem da ironia, capaz de suscitar em pouco instante o riso que a vida oferece no trecho envolvente da prosa espontânea.  O conto “Al vento” é exemplo da boa qualidade expressiva do narrador, que sabe prender com o enleio da intriga.  É vivido por Mirinho, homem baixo e atarracado, que tem dentes fortes, fizeram sua fama desde pequeno quando torava cana, descascava e chupava com “presteza de máquina”. Quando topava com osso de boi, não se intimidava. Suas presas rasgavam e estraçalhavam com prazer tudo que encontrassem de duro pela frente, chegando rápido ao tutano. Carne-seca fosse como pedra era logo triturada, virava uma coisa macia, degustada  como uma pasta saborosa.

           Recebera de presente do padrinho Anacleto um violão antigo, de grande valor.  Como o padrinho era tocador de cavaquinho, formou-se a dupla, bastante admirada quando se apresentava no bar ou botequim. Anacleto, o padrinho, era um homem corajoso e violento, todos o temiam. Vivia na lei do santo, dado a comer carne de cachorro, daí ser considerado como filho de Ogum. Achava que o afilhado tinha também a cabeça comandada pelo santo.

           Mirinho foi morar em Niterói, levando o violão como instrumento necessário para atenuar as saudades quando batessem no peito com as cenas do interior. Fez-se   conhecido nas serestas, rodas de choro e onde quer que se exibisse um conjunto musical. Trecho desse conto admirável diz que “desgraça às vezes se acumula para o pobre como dinheiro em mãos de gente rica: o sujeito não precisa fazer nada, cresce o montão, como uma pedra que role e, contrariando o provérbio, com limo’.

Mirinho já havia passado momento infeliz pela perda da mãe, do pai, um irmão e até mesmo um filho, mas sentiu um forte aperto no coração quando tomou conhecimento que o padrinho fora morto pelas costas. Certa vez, nessa maré de tristeza, um assaltante investiu contra o rapaz para tomar o violão. Resistiu. Na briga, desigual para ele, prestes a ser vencido por golpes sucessivos do agressor feroz, ouviu uma voz a dizer-lhe: “use os dentes”. Era aviso do padrinho em hora vexatória. Agarrou-se ao homem, alto e forte, que lhe desfechara vários murros durante a luta. Enfiou a dentada no peito, rasgando o mamilo e os músculos do ladrão. Tudo poderia ter terminado com a fuga do ladrão ensanguentado, não aparecesse a voz do padrinho, dizendo que queria receber seu agrado pela ajuda. Queria comer carne de cachorro gordo. A iguaria era para ser preparada com as carnes de Tarzan, o cachorro de estimação de Mirinho. A exigência não foi aceita, mas o espírito de seu França continuou aparecendo nos sonhos do afilhado, fazendo caretas e exigindo que fosse cumprido o que pedia como recompensa de sua ajuda na refrega acirrada que Mirinho teve com o assaltante.

O espírito do padrinho ficou ofendido com a recusa do afilhado. Não havia outra explicação para o que passou a acontecer com os dentes de Mirinho e de Tarzan. Foram caindo um após outro, de maneira incontornável. E ficaram expostos como troféus da desgraça na vaza de tijolos que lhes serviam de prateleira. Difícil era saber, aos olhos de quem visse, o que era de gente e de cachorro.

 “Al vento” é um primor de conto que aborda o negro ligado no seu plano mágico ao palco da vida, podendo figurar em qualquer antologia do gênero, como também outras histórias que integram A Fala do Santo.  E esse é o melhor elogio que se pode fazer à arte de contar a história do negro com o jeito de Muniz Sodré, autor que usa  linguagem simples por conta do santo, sabe informar, nas passagens da escrita saborosa, e bem, as intervenções do que está oculto. Como este acontece no enredo que prende e forma um diálogo harmonioso com o leitor, em muitas situações chegando a hipnotizar. 

 

Referência

SODRÉ, Muniz. A Fala do Santo, Editora do Livro Técnico, Rio de Janeiro, 2000.

-------------


Cyro de Mattos
é ficcionista, poeta, cronista, ensaísta e autor de literatura infantojuvenil. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da UESC (Bahia).  Possui prêmios importantes. Publicado no exterior.

* * *


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

FRATELLI TUTTI - José Antonio Ureta

 11 de novembro de 2020

 


Na nova encíclica, o Papa Francisco propõe uma fraternidade universal naturalista, condenada por São Pio X

  • José Antonio Ureta*

 

Fratelli Tutti não parece uma encíclica, e sim a continuação do diálogo que desde o início de seu pontificado o Papa Francisco vem mantendo com agnósticos como Eugenio Scalfari, Dominique Wolton ou Carlo Petrini, na tentativa de levá-los a crer que a modernidade ateia é compatível com a doutrina católica.

As encíclicas dos pontífices anteriores recolhiam nas verdades eternas, contidas na Revelação divina, os ensinamentos aplicáveis ​​à situação concreta da conjuntura eclesial ou temporal. Pelo contrário, a nova encíclica se apresenta como um “espaço de reflexão sobre a fraternidade universal” (nº 286) e propõe uma infinidade de análises exclusivamente humanas como denominador comum aceitável por todos, apesar das divergências religiosas ou filosóficas. Não por acaso ela é “dirigida a todas as pessoas de boa vontade, portanto muito além das suas convicções religiosas” (nº 56).

Essa procura do denominador comum com o agnosticismo é evidente na passagem da encíclica sobre “o consenso e a verdade”, onde sublinha ser a dignidade inalienável de toda criatura humana “uma verdade que corresponde à natureza humana, independentemente de qualquer transformação cultural” (nº 213). E acrescenta: “Aos agnósticos este fundamento poder-lhes-á aparecer como suficiente para conferir aos princípios éticos basilares e não negociáveis uma validade universal de tal forma firme e estável que consiga impedir novas catástrofes. Para os crentes, a natureza humana, fonte de princípios éticos, foi criada por Deus, que em última análise confere um fundamento sólido a estes princípios”. Talvez para evitar qualquer suspeita de proselitismo religioso, esclarece que “isto não estabelece um fixismo ético nem abre a estrada à imposição dum sistema moral, uma vez que os princípios morais fundamentais e universalmente válidos podem dar lugar a várias normativas práticas. Por isso, fica sempre um espaço para o diálogo” (nº 214). [os destaques em negrito, acima e abaixo, são meus].

Nessa busca de um denominador comum com o agnosticismo, o Papa Francisco — nesta encíclica, com 170 citações a si mesmo, 43 citações de seus antecessores, e apenas 20 de padres e doutores da Igreja — omite completamente pressupostos e mesmo conceitos de natureza sobrenatural; e, de modo particular, considerações religiosas especificamente cristãs. A encíclica Fratelli Tutti (“Todos Irmãos”) adota uma linguagem naturalista e inter-religiosa. Praticamente foram nela omitidos pressupostos básicos das exortações dos papas anteriores a respeito das questões sociais: a vocação sobrenatural do homem, a ferida introduzida pelo pecado no mundo, a necessidade da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo, além da omissão do papel salvífico da Igreja, da graça divina como requisito para o aperfeiçoamento individual e o progresso social, e da lei natural como fundamento da ordem internacional.

O naturalismo e o interconfessionalismo estão particularmente evidentes na ideia fundamental da encíclica, que é o “novo sonho de fraternidade e amizade social” (nº 6) e o consequente “anseio mundial de fraternidade” (nº 8), que Francisco quer fazer renascer a partir do reconhecimento por todos da dignidade de cada pessoa humana, sem nenhuma referência a Deus, salvo numa passagem que é quase um pedido de perdão por fazê-la: “Como crentes pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não pode haver razões sólidas e estáveis ​​para o apelo à fraternidade (nº 272). Como crentes, aliás, não apenas “pensamos que”, mas “cremos”; ou seja, damos firme adesão a uma verdade revelada!

 A parábola do Bom Samaritano é interpretada em clave puramente humanista [O Bom Samaritano – Domenico Fetti (1622). Museu Nacional Thyssen-Bornemisza, Madri].


Mesmo a parábola do Bom Samaritano é interpretada em clave puramente humanista. Segundo o Papa, ela “revela-nos uma característica essencial do ser humano, frequentemente esquecida: fomos criados para a plenitude, que só se alcança no amor” (nº 68). Jesus “confia na parte melhor do espírito humano e, com a parábola, anima-o a aderir ao amor, reintegrar o ferido e construir uma sociedade digna de tal nome” (nº 71)O caráter laico desse amor é acentuado pela consideração de que uma pessoa de fé pode “sentir-se perto de Deus e julgar-se com mais dignidade do que os outros”, enquanto paradoxalmente “às vezes, quantos dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que os crentes” (nº 74).

Este amor ao próximo não procede necessariamente do amor a Deus. A palavra “caridade” é utilizada 33 vezes na encíclica, mas nunca está associada à “amizade do homem para com Deus”, no que essencialmente ela consiste (São Tomás de Aquino, Summa, II-II, q.23, a.1, resp.); de onde segue-se que “a razão para amar o próximo é Deus” (Ibid. q.25, a.1, resp.). O menoscabo desse caráter principalmente vertical da caridade chega ao ponto de se afirmar que aquilo que orienta os atos das virtudes morais (como a fortaleza, a sobriedade, a operosidade etc.) é “a medida em que eles realizam um dinamismo de abertura e união para com outras pessoas” (nº 91), fazendo silêncio sobre o amor a Deus.


Devido ao seu naturalismo interconfessional, Fratelli Tutti parece enquadrar-se amplamente no julgamento crítico dos escritos do Le Sillon pelo Papa São Pio X, na encíclica Notre charge apostolique, na qual mostrou que esse movimento promoveu um conceito de fraternidade não católica:

“Esta mesma doutrina católica nos ensina também que a fonte do amor do próximo se acha no amor de Deus, pai comum e fim comum de toda a família humana, e no amor de Jesus Cristo, do qual nós somos membros, a ponto de que consolar um infeliz é fazer o bem ao próprio Jesus Cristo. Qualquer outro amor é ilusão ou sentimento estéril e passageiro. Certamente, a experiência humana aí está nas sociedades pagãs ou leigas de todos os tempos, para provar que, em certos momentos, a consideração dos interesses comuns ou da semelhança de natureza pesa muito pouco diante das paixões e das concupiscências do coração. Não, Veneráveis Irmãos, não existe verdadeira fraternidade fora da caridade cristã, que, pelo amor de Deus e de seu Filho Jesus Cristo nosso Salvador, abrange todos os homens, para os consolar a todos, e para os conduzir todos à mesma fé e à mesma felicidade do Céu. Separando a fraternidade da caridade cristã assim entendida, a democracia [promovida por Le Sillon], longe de ser um progresso, constituiria um desastroso recuo para a civilização” (§ 24, destaque nosso).

A mesma encíclica de São Pio X fornece a luz necessária para salientar outro aspecto condenável da Fratelli Tutti: a promoção de uma síntese relativista da coexistência dos contrários; que, por meio do diálogo, deve servir de apoio à fraternidade universal e à amizade social. O modelo de uma “cultura do encontro” (mencionada seis vezes no texto) e do “diálogo” (mencionado 46 vezes) seria São Francisco, que “não fazia guerra dialética impondo doutrinas”, mas era sim um verdadeiro pai na medida em que “aceita[va] aproximar-se das outras pessoas com o seu próprio movimento, não para retê-las no que é seu, mas para ajudá-las a serem mais elas mesmas” (nº 4).

Hoje, ao contrário, “predomina o costume de denegrir rapidamente o adversário, aplicando-lhe atributos humilhantes, em vez de se enfrentarem num diálogo aberto e respeitoso, onde se procure alcançar uma síntese que vá mais além” (nº 201). Com efeito, devemos pensar que “as diferenças são criativas, criam tensão e, na resolução duma tensão, está o progresso da humanidade” (nº 203).

O relativismo filosófico e o interconfessionalismo religioso de Fratelli Tutti se estendem igualmente às relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Na foto o Papa Francisco com a líder da igreja luterana sueca, na sua visita a esse país.


Para o Papa Francisco, isto não seria relativismo, pois permanece válida uma verdade objetiva: que todo ser humano é sagrado (nº 207), e que os direitos humanos são invioláveis (nº 209) e um valor permanente, transcendente e não negociável (nº 211 e nº 273). Quanto ao resto, o que chamamos de “verdade” (as aspas são da encíclica!) é “antes de mais nada, a busca dos fundamentos mais sólidos que estão na base das nossas opções e também das nossas leis” (nº 208). Por isso, “numa sociedade pluralista, o diálogo é o caminho mais adequado para se chegar a reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o consenso ocasional” (nº 211). Daí nasce uma cultura do encontro que é “um estilo de vida que tende a formar aquele poliedro que tem muitas faces, muitos lados, mas todos compõem uma unidade rica de matizes […] uma sociedade onde as diferenças convivem integrando-se, enriquecendo-se e iluminando-se reciprocamente” (nº 215). Isto implica, de um lado, “o hábito de reconhecer, ao outro, o direito de ser ele próprio e de ser diferente” (nº 218); e, do outro lado, “um pacto cultural” que “implica também aceitar a possibilidade de ceder algo para o bem comum”, já que “ninguém será capaz de possuir toda a verdade nem satisfazer a totalidade dos seus desejos, porque uma tal pretensão levaria a querer destruir o outro, negando-lhe os seus direitos” (nº 221). Trata-se do realismo dialogante “por parte de quem pensa que deve ser fiel aos seus princípios, mas reconhecendo que o outro também tem o direito de procurar ser fiel aos dele” (idem); e permite sonhar juntos “como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos” (nº 8).

Para Francisco, isso não é sincretismo nem absorção de um pelo outro, mas uma aposta “na resolução num plano superior que preserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste” (nº 245), que parece uma forma particular de dialética hegeliana em que a síntese permanece como horizonte inatingível.

É fácil perceber que tudo isso não se coaduna com o ensinamento com que São Pio X condenou o movimento Le Sillon, por ter-se distanciado da doutrina católica: “O mesmo acontece com a noção da fraternidade, cuja base eles colocam no amor dos interesses comuns, ou, além de todas as filosofias e de todas as religiões, na simples noção de humanidade, englobando assim no mesmo amor e numa igual tolerância todos os homens com todas as suas misérias, tanto as intelectuais e morais quanto as físicas e temporais. Ora, a doutrina católica nos ensina que o primeiro dever da caridade não está na tolerância das convicções errôneas, por sinceras que sejam, nem na indiferença teórica ou prática pelo erro ou o vício em que vemos mergulhados nossos irmãos, mas no zelo pela sua restauração intelectual e moral, não menos que pelo seu bem-estar material” (§ 23).

O relativismo filosófico e o interconfessionalismo religioso de Fratelli Tutti se estendem igualmente às relações entre a Igreja Católica e as outras religiões. Visto que consideram “cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus”, as várias religiões “oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade” (nº 271). Neste aspecto, todas as religiões seriam iguais: “A partir da nossa experiência de fé e da sabedoria que se vem acumulando ao longo dos séculos e aprendendo também das nossas inúmeras fraquezas e quedas, como crentes das diversas religiões sabemos que tornar Deus presente é um bem para as nossas sociedades” (nº 274).

Também a Bíblia se enquadra nesta equiparação, porque para Francisco todos os “textos religiosos clássicos podem oferecer um significado para todas as épocas, possuem uma força motivadora” (nº 275)E mais adiante acrescenta: “Outros bebem doutras fontes. Para nós, este manancial de dignidade humana e fraternidade está no Evangelho de Jesus Cristo” (nº 277).

Ademais, Deus não tem opção preferencial pelos batizados em geral (que são os únicos verdadeiros filhos de Deus), nem pelos fiéis católicos, membros do seu Corpo místico, em particular, mas antes “o amor de Deus é o mesmo para cada pessoa, seja qual for a religião. E se é um ateu, é o mesmo amor” (nº 281).

Desses pressupostos religiosos e filosóficos — que seriam um denominador comum aceitável por todos os homens — a encíclica Fratelli Tutti extrai principalmente duas consequências práticas, que darão origem a um mal-estar que alargará ainda mais a brecha entre o Papa Francisco e uma grande parte dos fiéis católicos. Trata-se de: 1) a promoção da imigração como condição para uma sociedade aberta; 2) um governo mundial para a solução dos problemas globais.

Para Francisco, “o amor que se estende para além das fronteiras está na base daquilo que chamamos “amizade social” em cada cidade ou em cada país”, condição para “uma verdadeira abertura universal” (nº 99)Tal universalismo não se confunde com a globalização desses últimos anos, que promove “o domínio homogêneo, uniforme e padronizado duma única forma cultural imperante” (nº 144)mas ele constrói uma sociedade poliédrica “onde ao mesmo tempo que cada um é respeitado no seu valor, ‘o todo é mais que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas’” (nº 145)Como no caso do diálogo, para o Papa “uma sã abertura nunca ameaça a identidade, porque, ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades segundo modalidades próprias. Isto provoca o nascimento duma nova síntese que, em última análise, beneficia a todos” (nº 148).

Imigrantes derrubam uma barreira para
entrar na Grécia.
A encíclica condiciona a soberania das nações
sobre seu próprio território: “cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar”
.


Para isso é preciso “pensar e gerar um mundo aberto” (é o título do capítulo 3 da encíclica), onde vigorem “direitos sem fronteiras” (é o subtítulo de uma seção), pois “ninguém pode ser excluído; não importa onde tenha nascido, e menos ainda contam os privilégios que outros possam ter porque nasceram em lugares com maiores possibilidades. Os confins e as fronteiras dos Estados não podem impedir que isto se cumpra” (nº 121)Visto que a destinação universal dos bens da terra não só transforma a propriedade privada numa mera função social — “quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos” (nº 122) —mas também condiciona a soberania das nações sobre seu próprio território, pela qual “cada país é também do estrangeiro, já que os bens dum território não devem ser negados a uma pessoa necessitada que provenha doutro lugar” (nº 124).

Na realidade, os bens de qualquer país devem estar à disposição não só dos estrangeiros que sofrem extrema necessidade, mas também dos que querem apenas melhorar sua situação. Porque “é nosso dever respeitar o direito que tem todo o ser humano de encontrar um lugar onde possa não apenas satisfazer as necessidades básicas dele e da sua família, mas também realizar-se plenamente como pessoa” (nº 129). Isso significaria que qualquer pessoa que se considere um novo Picasso ou um novo Einstein teria o direito de exigir sua mudança para Paris ou Massachusetts, a fim de desenvolver plenamente os seus talentos artísticos ou científicos na Écôle des Beaux Arts ou no MIT!

Hoje muitíssimos emigram apenas para buscar um futuro melhor nos países ricos. Nesta nova encíclica — ao contrário do que alhures já disse de passagem — o Papa Francisco não se preocupa com o trauma que isso provoca no país de acolhida, nem com o direito de cada país em regular o fenômeno migratório de acordo com as suas respectivas possibilidades. Ele se limita a dizer que “a chegada de pessoas diferentes, que provêm dum contexto vital e cultural distinto, transforma-se num dom” e “numa oportunidade de enriquecimento e desenvolvimento humano integral para todos” (nº 133). E insiste: “Se forem ajudados a integrar-se, os imigrantes são uma bênção, uma riqueza e um novo dom, que convida a sociedade a crescer” (nº 135).

Não há referência ao risco de imigração massiva e desestabilizadora, como é o caso atualmente na Europa, onde um forte componente muçulmano rejeita integrar-se, a tal ponto que o presidente Macron teve de lançar uma iniciativa contra o “separatismo islâmico” nas periferias urbanas, onde nem mesmo a polícia pode entrar…

Para Francisco, ao contrário, é necessário destacar o risco dos “narcisismos bairristas”, que “escondem um espírito fechado que, devido a uma certa insegurança e medo do outro, prefere criar muralhas defensivas para sua salvaguarda” e “encerra-se obsessivamente numas poucas ideias, costumes e seguranças” (nº 146). A vida local “torna-se estática e adoece” (idem), pois “os outros são, constitutivamente, necessários para a construção duma vida plena” (nº 150).

Resultado da resposta histérica da OMS e dos governos aos desafios da covid-19, surge o espectro de uma ditadura mundial, primeiro sanitária e depois política.


Portanto, as migrações não são apenas boas em si mesmas, mas “constituirão uma pedra angular do futuro do mundo” (nº 40). A crise de saúde da covid-19 é a grande oportunidade de sair da “autoproteção egoísta”“oxalá já não existam ‘os outros’, mas apenas um ‘nós’”, para que “a humanidade renasça com todos os rostos, todas as mãos e todas as vozes, livre das fronteiras que criamos” (nº 35), pois “a verdadeira qualidade dos diferentes países do mundo mede-se por esta capacidade de pensar não só como país, mas também como família humana” (nº 141).

Mas “para se tornar possível o desenvolvimento duma comunidade mundial capaz de realizar a fraternidade a partir de povos e nações que vivam a amizade social” (nº 154), é necessário “fazer crescer não só uma espiritualidade da fraternidade, mas também e ao mesmo tempo uma organização mundial mais eficiente” (nº 165). Neste contexto, torna-se indispensável “a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre governos nacionais e dotadas de poder de sancionar”. Não uma “autoridade mundial” pessoal, mas instituições “dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial” (nº 172). Visto que o parágrafo seguinte é dedicado à necessidade de uma reforma da ONU, deve-se entender que, no espírito de Francisco, seja esta organização a responsável para exercer esse papel. Daí ser necessário “evitar que esta Organização seja deslegitimada” (nº 173).

Numa situação em que crises econômicas e sociais gravíssimas emergem no horizonte, resultado da resposta histérica da OMS e dos governos aos desafios da covid-19, surge o espectro de uma ditadura mundial, primeiro sanitária e depois política. Esta não é uma perspectiva imaginária, produto de uma mente “conspiratória”, mas a realização do sonho iluminista de uma República Universal, incubada nas lojas maçônicas já antes da Revolução Francesa, indiretamente evocada na encíclica por meio da reprodução da trilogia “liberdade, igualdade, fraternidade” em um de seus subtítulos (nº 103).


Não é sem propósito evocar a maçonaria no final desta visão sintética da encíclica Fratelli Tutti. A edição de janeiro da revista New Hiram, órgão trimestral do Grande Oriente da Itália, publicou um artigo de Pierluigi Cascioli com um comentário elogioso do documento Fraternidade humana para a paz mundial e convivência comum, assinado em Abu Dhabi pelo Papa Francisco e pelo Imam Ahmed el-Tayeb. Esse documento foi, aliás, a principal fonte de inspiração para a elaboração da nova encíclica (nº 5), que incorporou várias passagens dessa declaração conjunta.

Segundo Cascioli, os valores da fraternidade universal contidos no documento “podem ser perfeitamente compartilhados por outros, sobre a base de um ‘mínimo denominador comum’ constituído pela razão”, já que “cada ser humano tem uma infinita dignidade”. E insiste no fato de que “os maçons, que têm o centro de gravidade na fraternidade, não poderão eximir-se de lidar com este documento”.

A Grande Loja da Espanha não se eximiu desse desafio em relação à encíclica Fratelli Tutti, e publicou a seguinte declaração, que não pode deixar de surpreender os fiéis:

“Há 300 anos se deu o nascimento da Maçonaria moderna. O grande princípio desta escola iniciática não mudou em três séculos: a construção de uma fraternidade universal onde os seres humanos se chamem irmãos uns dos outros, para além de seus credos concretos, de suas ideologias, de sua cor de pele, sua classe social, língua, cultura ou nacionalidade. Este sonho fraterno se chocou com o integrismo religioso que, no caso da Igreja Católica, propiciou duríssimos textos de condenação à [doutrina da] tolerância da Maçonaria no século XIX. A última encíclica do Papa Francisco demonstra quão distante está a atual Igreja Católica de suas antigas posições. Em ‘Fratelli tutti’, o Papa abraça a Fraternidade Universal, o grande princípio da Maçonaria moderna.

Dom Gilberto Pastana, bispo de Crato; Dom Roberto Ferrería, bispo diocesano de Campos; Dom Canísio Klaus, bispo de Sinop; ou Dom Denis Lara, bispo emérito de Itabira e assessor jurídico da CNBB, podem ser novamente convidados por alguma loja maçônica para palestrarem numa Magna Branca (é como os maçons denominam suas sessões abertas para não iniciados). Neste caso, poderão limitar-se a uma leitura extensa da Fratelli Tutti, e terão garantida uma ovação unânime.

Nosso Senhor, junto com a entrega das chaves da Igreja a São Pedro, também prometeu a preservação d’Ela até o fim dos tempos.


Na igreja, no entanto, os fiéis verterão lágrimas diante do Crucificado, pensando quão verdadeiras foram as palavras de Paulo VI quando disse que a fumaça de Satanás penetrou na Igreja.

Penetrou no templo sagrado, mas não o destruirá, pois temos a certeza da promessa divina: “as portas do inferno não prevalecerão” (Mt 16, 18). A vitória final será da Santa Igreja Católica Apostólica Romana e da verdadeira fraternidade cristã fundada no amor de Deus e de Jesus Cristo, sob o olhar maternal de Maria Santíssima.

____________

Fonte: Revista Catolicismo, Nº 839, Novembro/2020.

https://www.abim.inf.br/fratelli-tutti/

* * *

quarta-feira, 11 de novembro de 2020

ODE À POESIA - Marco Lucchesi


                                                              Ode à Poesia

Marco Lucchesi


Não fosse a poesia, 

seria impossível respirar na quadra atual.

Um tempo inimigo dos poetas.

Não é pequena coisa rebelar-se.

Imaginar o avesso do presente.

E emprestar ao sonho cidadania.

Um estatuto de emancipação.

Caminho solidário.

A poesia é núcleo de inquietação e liberdade.

Comunhão de vida e pensamento, 

pedra e nuvem: o que podia ter sido e o que será.

A poesia reclama o direito de sonhar.

Traduz a forma de saber que estamos vivos, 

se já não desistimos do futuro.

A poesia é máquina do tempo: 

de Homero ao poeta de 2080.

A poesia é irmã gêmea do saber.

E sonda o que não sabe.

Generosa e ecumênica.

Ignora as leis de mercado.

Altiva e mercurial.

Passam os bárbaros.

Morrem os impérios.

Mas a poesia não perde sua antiga juventude.

 

https://www.academia.org.br/artigos/ode-poesia

.....................

Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila, foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

* * *

terça-feira, 10 de novembro de 2020

COLEÇÃO MESTRES DA LITERATURA BAIANA INCLUI CYRO DE MATTOS


Coleção Mestres da Literatura

Baiana Inclui Cyro de Mattos

 

              As Edições da Assembleia Legislativa da Bahia – ALBA acabam de publicar o livro Infância com Bicho e Pesadelo, do baiano Cyro de Mattos, uma reunião de contos e novelas, incluindo a obra na Coleção Mestres da Literatura Baiana,  da qual fazem parte livros dos autores Hildegardes Viana, Vasconcelos Maia, Hélio Pólvora, Wilson Lins, Afonso Manta, Ruy Espinheira Filho, Guido Guerra, Osório Alves de Castro, Gláucia Lemos e outros.  

             A Coleção Mestres da Literatura Baiana representa um esforço conjunto da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia e da Academia de Letras da Bahia para publicar obras fundamentais da literatura baiana, e dessa forma contribuir para o maior conhecimento e a preservação do valioso trabalho dos mestres das nossas letras.  Obras de grande valor literário e de enorme importância para a cultura baiana e brasileira tiveram público limitado e hoje se encontram esgotadas.

          Escritor premiado, publicado em oito idiomas,  membro da Academia de Letras da Bahia, Cyro de Mattos reúne no livro Infância com Bicho e Pesadelo as histórias seguintes: Infância com Bicho e  Pesadelo, Ladainha nas Pedras, Inocentes e Selvagens, Coronel, Cacaueiro e Travessia, O  Cavaleiro Vingador contra o Mandão da Crueldade, Restos da Mata, Pelas Águas, Os Recuados, Pai, Filha, Berro de  Fogo, As Ligações do Padre com a Vizinha e Todo o Peso Terrestre.


* * *