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terça-feira, 28 de julho de 2020

FERNANDO RIELA: UM MITO NA PONTA-ESQUERDA – Cyro de Mattos


Fernando Riela: um mito na ponta-esquerda
                                        Cyro de Mattos

           
             Divorciado, pai de três filhas, o ponta-esquerda Fernando Riela tornou-se um mito na história do futebol amador de Itabuna. Foi disparado o melhor ponta-esquerda que jogou no Campo da Desportiva. Para muitos que conheciam o futebol do Rio e de São Paulo, com seus grandes times, Fernando Riela foi o melhor ponta-esquerda do futebol brasileiro. Pode a afirmação soar como exagero, mas é que naquela época os meios de comunicação eram outros, sem as condições de hoje, não havia televisão, os jornais como O Globo e Estado de São Paulo, bem como A Tarde, de Salvador, não chegavam a Itabuna. As rádios da capital não eram ouvidas também na cidade. Escutava-se apenas a rádio Nacional, do Rio, um pouco a Tupi e Tamoio.

            Essa ausência de comunicação, entre uma cidade do interior da Bahia e os centros mais desenvolvidos do país, fazia com que vários craques do futebol de Itabuna fossem desconhecidos pela imprensa do Rio de Janeiro, São Paulo e até certo ponto de Salvador. Se fosse hoje, tempos de globalização do planeta, não há dúvida que Fernando Riela estaria vestindo a camisa de um grande clube do Brasil e até mesmo da Europa. Futebol de craque aquele inesquecível ponta-esquerda tinha de sobra para isso. É sempre lembrado com admiração e carinho pelos companheiros de geração e torcedores.

            Começou muito cedo, aos 14 anos de idade já jogava no time principal do Fluminense. Jogou também  no Flamengo, mas ao retornar para o Fluminense, de onde nunca mais saiu, sagrou-se campeão em várias temporadas, inclusive invicto em 1960. Para Fernando Riela, o melhor jogador de seu tempo foi Santinho. Um jogador completo. Tombinha, Carlos Riela, Santinho e o goleiro Luís Carlos, qualquer um deles poderia fazer carreira no futebol profissional de hoje, em grandes clubes do Rio ou São Paulo, se tivesse sorte, observou o craque. Fernando contou que Santinho, muito mais do que um amigo, era um de seus ídolos. “Foi ele que me ensinou muita coisa, inclusive a ser uma pessoa correta dentro e fora do campo.” Foi também a Santinho que o pai de Fernando confiou quando ele passou a jogar pelo Fluminense, em sua primeira partida, em Ipiaú, aos 14 anos de idade.

            O time amador daquele tempo treinava na semana, com um programa que devia ser seguido rigorosamente. Mas sempre tinha um ou outro jogador que não se interessava em seguir as regras para que tivesse bom desempenho no campo. Uma coisa era certa, ninguém bebia na semana que ia ter no jogo de domingo. O próprio Fernando contou que ele mesmo só experimentou cerveja pela primeira vez aos 18 anos de idade. “Um exemplo que o atleta de hoje deveria seguir”, declarou, acrescentando que essa disciplina que o jogador mantinha contribuiu para que a seleção do Itabuna fosse campeã do Intermunicipal por seis anos consecutivos.

           Ficou comovido quando se lembrou da seleção de Itabuna e dos bons tempos do futebol amador. Com jogadores como Francisquinho, Zé Maria, Nininho, Santinho e o goleiro Carlito, homens de ouro de um futebol igualmente brilhante, nos anos de 1957 e 1958. Houve um período em que o campeonato amador ficou parado no Campo da Desportiva. Fortes chuvas cortadas por relâmpagos e trovoadas causaram grandes danos no estádio. Derrubaram a parte da arquibancada, o muro e fizeram do campo um grosso lamaçal.

           Durante anos, a cidade ia ficando com ares sombrios pela tarde, sem os jogos de futebol que aconteciam aos domingos no velho Campo da Desportiva. Até que o empresário  Veloso e o pecuarista Rebouças decidiram recuperar o Campo da Desportiva, contando com a ajuda de alguns desportistas, comerciantes e fazendeiros de cacau. A velha Desportiva voltou a funcionar como o palco de grandes partidas de futebol pelo campeonato amador. Para soerguer o interesse pelo futebol, times do Rio eram contratados para jogar na Desportiva contra o Bahia de Salvador. Numa dessas partidas amistosas, o Bahia venceu de dois a um o Flamengo. Veio primeiro o Fluminense, depois o Flamengo,  América,  Bangu,  Vasco e  Botafogo.

            Fernando criticou a construção do Centro de Cultura Adonias Filho no terreno onde existia o Campo da Desportiva. A ideia do prefeito Ubaldo Dantas foi boa quando quis dotar a cidade de um centro cultural, mas que deveria ser construído em outro lugar. E o pior de tudo foi que prometeu construir um novo estádio para times amadores e nunca isso aconteceu.  Fernando ressaltou que o América, um time tradicional de Minas Gerais, tem um estádio no centro de Belo Horizonte, um pouco maior do que era a Desportiva, mas nem por isso foi demolido para dar lugar a um prédio com finalidade cultural ou pública. Continuava até hoje no mesmo lugar, servindo para jogos do campeonato juvenil mineiro, sendo preservado como patrimônio esportivo da cidade.

           Em sua época, Itabuna contava com mais de dez campos de várzea. Ele citou, entre eles,  os campos no bairro Banco Raso, Fátima, Fuminho, Borboleta, o de Melquiades e o da Rua de Palha, no distrito de Ferradas. Tinha campo até no cemitério. A garotada fazia suas peladas nos terrenos baldios espalhados pela cidade, na beira do rio e na praça Camacã, antes que se tornasse um jardim com o nome de Otávio Mangabeira. Nessa época, as cidades de Ibicaraí, Buerarema, Camacã, Coaraci, Uruçuca e Itajuípe não tinham o campeonato local. Ubaitaba, Ilhéus e Itabuna eram as praças esportivas onde se praticava o futebol amador mais animado da região cacaueira. Os jogadores que se revelavam como bons naquelas cidades circunvizinhas sonhavam jogar um dia no futebol de Itabuna.

            Fernando também foi um dos fundadores do time profissional do Itabuna. Ele contou que, quando a Federação Baiana de Futebol acabou com o Intermunicipal para descentralizar o campeonato profissional, realizado somente com times de Salvador, o futebol amador ficou meio sem graça. Perdeu o brilho e o espírito competitivo entre os clubes da cidade. Ilhéus decidiu participar do campeonato baiano de futebol profissional com três clubes: Flamengo, Colo-Colo e Vitória. Foi aí que um grupo de desportistas locais reuniu-se na Cooperativa Rural e fundou o Itabuna Esporte Clube como um time profissional,  aproveitando a maioria dos jogadores da seleção amadora.

            Ele participou desse grupo de fundadores, que teve o pecuarista Zelito Fontes como uma figura importante para que a iniciativa se tornasse realidade. Esse dirigente de futebol deu três mil cruzeiros para cobrir as despesas da inscrição do time na federação baiana, em Salvador. Nove amadores da seleção amadora de Itabuna foram jogar no Itabuna profissional A primeira partida foi contra o São Cristóvão, vencida por um a zero. A segunda lotou o Campo da Desportiva. O Itabuna empatou de dois a dois com o Galícia. A renda alcançou doze mil cruzeiros, uma enorme soma de dinheiro na época.

            Muitas pessoas passam na vida e deixam boas lembranças nos outros, que jamais se apagam. Algumas dessas pessoas permanecem em cada um de nós pela sua humildade ou dedicação ao que fazem. Como esquecer Arnaldo, o roupeiro da seleção; Alfredo, o enfermeiro, Gil Néri, o técnico, o médico John Leahy e Gerson Souza, o Marechal da Vitória? – ele perguntou e ficou sem saber como responder sobre a razão de que tudo na vida é uma passagem sem retorno.

             Ele, o craque inesquecível do futebol amador sul baiano, com suas investidas fulminantes, dribles rápidos e desconcertantes, deixou-nos e sua querida Itabuna no último dia 22, quarta-feira, e foi jogar futebol nos campos do eterno. Quem o viu jogar, sente-se um torcedor privilegiado, nunca é demais lembrar.


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Cyro de Mattos, escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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segunda-feira, 27 de julho de 2020

FUGINDO DO ÓBVIO – Péricles Capanema

27 de julho de 2020


 Péricles Capanema

O ministro José Luís Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tocou em ponto delicado, silenciado e óbvio: “Temos preocupação que a facultatividade [do voto] possa produzir a deslegitimação dos eleitos na possibilidade de um elevadíssimo índice de abstenção”. Depois, aludiu a questão circunstancial: “Embora ache que deva se considerar, sim, uma eventual anistia de multa, ou considerar uma justificação dos que não compareceram por fundado temor de contração do vírus por se sentir grupo de risco.” Em resumo, seria bom deixar de multar quem não apertar os botões na urna em 15 e 29 de novembro próximos.

Vou tratar do óbvio silenciado, levantado para surpresa minha por José Luís Barroso: o temor de o voto facultativo deslegitimar no Brasil as eleições e os eleitos. De outro modo, que o povo, soberano reverenciado na mitologia revolucionária, dê as costas para o processo eleitoral, desvalorizando o mandato dos escolhidos. “Tô nem aí”, diria um jovem. Repetindo o ministro para fazer de clareza solar a afirmação dele — existe generalizado temor de que o voto facultativo possa deslegitimar os eleitos pela possibilidade de elevadíssimo índice de abstenção.

Qual seria o índice de abstenção no Brasil com o fim do voto obrigatório? Ninguém sabe. Meu palpite, 70-75% de abstenção em média, considerando todas as eleições. Um pouco menor nas votações para presidente e governadores, quem sabe prefeitos de grandes cidades, subiria a abstenção nas legislativas.

Já tratei do assunto em vários artigos: não acho que o voto facultativo deslegitime a eleição e desvalorize os eleitos entre nós — todo mundo está cansado de saber que o voto vale pouco. À vera, expulsaria a fraude política silenciada e puxaria para o proscênio a realidade, mesmo desagradável, e a transparência. O voto obrigatório perpetua o embuste que cobre a representação, faz aparentar interesse onde não há, tange para a urna sob pena de punição ou distribuição de pequenos prêmios, multidões desinteressadas; todo mundo fica obrigado a votar debaixo de vara; se não o fizer, multa, proibição de praticar atos normais da vida civil. O soberano (o povo) é quase tratado como marginal perigoso, que precisa de vigilância minuciosa. Veja o que acontece ao desvalido eleitor se deixar de votar, exercício de um direito, transmutado em dever penoso, e não justificar (alguns exemplos, não é tudo): não pode se inscrever em concurso público; não receberá vencimentos, remuneração em emprego público, autárquico ou de paraestatal, de empresa ligada ao Estado; proibição de participar em concorrências públicas; proibição de tirar passaporte, carteira de identidade, renovar matrícula em instituição fiscalizada pelo Estado; proibição de empréstimo na Caixa Econômica Federal; proibição de participar em ato para o qual se exija quitação do serviço militar ou do imposto de renda. Em suma, amolação e atraso de vida para o pobre cidadão desamparado. Retrocesso.

A maioria dos países adota o voto facultativo. Entre eles, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Japão, Alemanha, Espanha, Portugal. Ninguém lá teme deslegitimar eleições nem desvalorizar eleitos por causa da abstenção. Entre a minoria que adota o voto obrigatório, além do Brasil, figuram Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e Egito.

Entre nós, o voto facultativo baratearia as eleições (o custo proibitivo das campanhas é o maior fator de corrupção na política), melhoraria a representação, traria maior proximidade entre eleitores e eleitos. Apesar da evidência, o político brasileiro, direita, centro e esquerda, no caso, deputados federais e senadores, em geral foge da aprovação do voto facultativo como o diabo da cruz. Tem pavor de tratar do assunto. Quando pressionado, dá evasivas; poucas vezes se diz pronto a aprovar qualquer PEC a respeito. Há poucas exceções, às quais aqui homenageio. Não custa lembrar, voto obrigatório (determinado pelo artigo 14, § 1º, I da Constituição) não é cláusula pétrea. São elas: a forma federativa de Estado; o voto direto, secreto, universal e periódico; a separação dos Poderes; e os direitos e garantias individuais.

Sem dúvida, o voto facultativo traria eleitos com votações pequenas, acabaria com muitos candidatos folclóricos, forçaria atitudes de sobriedade e modéstia nas casas legislativas, silenciaria blá-blá-blás de participação popular (inautêntica). Enfim, sanearia muita coisa. Mas é pregar no deserto, para desgraça nossa existe sólida maioria na Câmara dos Deputados e no Senado contrária à sua adoção, unida na preservação do entulho autoritário. Panaceia? De modo nenhum, melhoraria algum tanto a representação política, já é ganho ponderável, um avanço civilizatório, de que nos privam os eleitos (por nós).

Viro a página. O ministro Barroso levantou tema de enorme importância: a legitimidade. Deixou evidente que a legitimidade, mesmo em situações perfeitamente legais, pode ser ofendida e é dever dos homens de bem evitar a ofensa. Com o voto facultativo, opina o ministro, as eleições teriam igual força constitucional e legal, mas faltaria legitimidade aos eleitos, pouco sufragados. Para ele, situação grave a evitar. Ele tem razão num ponto essencial, a legitimidade não se assenta exclusivamente na lei. Assenta-se também, completo, em outras realidades; se olharmos para o Direito Natural, negado por tantos, tem ali raízes. Concretamente, o que é legitimidade? Vai aqui conceito caseiro, sujeito a bombardeios, é a conformidade com a ordem. Ordem via de regra nascida da natureza, da História, do fato moralmente justo. Qualquer situação, brotando da desordem, irrompe ilegítima. É útil recordar, existem a legitimidade e a ilegitimidade da ordem social, das leis, das condições sociais, das dinastias e não apenas das reais. Viver dentro da legitimidade é das mais importantes condições para a consecução do bem comum. E, por ricochete, dos bens individuais. É, contudo, assunto para outra ocasião.

Volto ao fulcro, não fujamos do óbvio. É notório, o eleitor brasileiro, desinteressado de política e eleições, sem apetência pelos pratos oferecidos, em sua boa maioria, não votaria se não fosse tangido, debaixo de vara, para a urna. É inafastável a pouca representatividade dos eleitos, a mais do claro fracasso democrático, fatos em nada ofuscados pela tentativa de tentar tapar o sol com a peneira mediante a adoção do voto obrigatório. Haveria mais legitimidade em nossos processos eleitorais com a adoção do voto facultativo; a verdade e a transparência, hoje evitadas, iluminariam melhor o processo eleitoral.


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domingo, 26 de julho de 2020

CANTIGA DE ESPONSAIS – Machado de Assis

Imagine a leitora que está em 1813, na igreja do Carmo, ouvindo uma daquelas boas festas antigas, que eram todo o recreio público e toda a arte musical. Sabem que é uma missa cantada; podem imaginar o que seria uma missa cantada daqueles anos remotos. Não lhe chamo a atenção para os padres e os sacristães, nem para o sermão, nem para os olhos das moças cariocas, que já eram bonitos nesse tempo, nem para as mantilhas das senhoras graves, os calções, as cabeleiras, as sanefas, as luzes, os incensos, nada Não falo sequer da orquestra, que é excelente; limito-me a mostrar-lhes uma cabeça branca, a cabeça desse velho que rege a orquestra com alma e devoção.

Chama-se Romão Pires; terá sessenta anos, não menos, nasceu no Valongo, ou por esses lados. É bom músico e bom homem; todos os músicos gostam dele. Mestre Romão é o nome familiar; e dizer familiar e público era a mesma coisa em tal matéria e naquele tempo. “Quem rege a missa é mestre Romão” — equivalia a esta outra forma de anúncio, anos depois: “Entra em cena o ator João Caetano”; — ou então: “O ator Martinho cantará uma de suas melhores árias”. Era o tempero certo, o chamariz delicado e popular. Mestre Romão rege a festa! Quem não conhecia mestre Romão, com o seu ar circunspecto, olhos no chão, riso triste, e passo demorado? Tudo isso desaparecia à frente da orquestra; então a vida derramava-se por todo o corpo e todos os gestos do mestre; o olhar acendia-se, o riso iluminava-se: era outro. Não que a missa fosse dele; esta, por exemplo, que ele rege agora no Carmo é de José Maurício; mas ele rege-a com o mesmo amor que empregaria, se a missa fosse sua.

Acabou a festa; é como se acabasse um clarão intenso, e deixasse o rosto apenas alumiado da luz ordinária. Ei-lo que desce do coro, apoiado na bengala; vai à sacristia beijar a mão aos padres e aceita um lugar à mesa do jantar. Tudo isso indiferente e calado. Jantou, saiu, caminhou para a Rua da Mãe dos Homens, onde reside, com um preto velho, pai José, que é a sua verdadeira mãe, e que neste momento conversa com uma vizinha.

     — Mestre Romão lá vem, pai José — disse a vizinha.

     -   Eh! eh! adeus, sinhá, até logo.

Pai José deu um salto, entrou em casa, e esperou o senhor, que daí a pouco entrava com o mesmo ar do costume. A casa não era rica naturalmente; nem alegre. Não tinha o menor vestígio de mulher, velha ou moça, nem passarinhos que cantassem, nem flores, nem cores vivas ou jucundas. Casa sombria e nua. O mais alegre era um cravo, onde o mestre Romão tocava algumas vezes, estudando. Sobre uma cadeira, ao pé, alguns papéis de música; nenhuma dele...

Ah! se mestre Romão pudesse seria um grande compositor. Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas. Tinha a vocação íntima da música; trazia dentro de si muitas óperas e missas, um mundo de harmonias novas e originais, que não alcançava exprimir e pôr no papel. Esta era a causa única de tristeza de mestre Romão. Naturalmente o vulgo não atinava com ela; uns diziam isto, outros aquilo: doença, falta de dinheiro, algum desgosto antigo; mas a verdade é esta: - a causa da melancolia de mestre Romão era não poder compor, não possuir o meio de traduzir o que sentia. Não é que não rabiscasse muito papel e não interrogasse o cravo, durante horas; mas tudo lhe saía informe, sem ideia nem harmonia. Nos últimos tempos tinha até vergonha da vizinhança, e não tentava mais nada.

E, entretanto, se pudesse, acabaria ao menos uma certa peça, um canto esponsalício, começado três dias depois de casado, em 1779. A mulher, que tinha então vinte e um anos, e morreu com vinte e três, não era muito bonita, nem pouco, mas extremamente simpática, e amava-o tanto como ele a ela. Três dias depois de casado, mestre Romão sentiu em si alguma coisa parecida com inspiração. Ideou então o canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração não pôde sair. Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada. Algumas notas chegaram a ligar-se; ele escreveu-as; obra de uma folha de papel, não mais. Teimou no dia seguinte, dez dias depois, vinte vezes durante o tempo de casado. Quando a mulher morreu, ele releu essas primeiras notas conjugais, e ficou ainda mais triste, por não ter podido fixar no papel a sensação de felicidade extinta.

    — Pai José — disse ele ao entrar —, sinto-me hoje adoentado.

    — Sinhô comeu alguma coisa que fez mal...

    — Não; já de manhã não estava bom. Vai à botica...

O boticário mandou alguma coisa, que ele tomou à noite; no dia seguinte mestre Romão não se sentia melhor. E preciso dizer que ele padecia do coração: — moléstia grave e crônica. Pai José ficou aterrado, quando viu que o incômodo não cedera ao remédio, nem ao repouso, e quis chamar o médico.

    — Para quê? - disse o mestre. — Isto passa.

O dia não acabou pior; e a noite suportou-a ele bem, não assim o preto, que mal pôde dormir duas horas. A vizinhança, apenas soube do incômodo, não quis outro motivo de palestra; os que entretinham relações com o mestre foram visitá-lo. E diziam-lhe que não era nada, que eram macacoas do tempo; um acrescentava graciosamente que era manha, para fugir aos capotes que o boticário lhe dava no gamão — outro que eram amores. Mestre Romão sorria, mas consigo mesmo dizia que era o final.

“Está acabado”, pensava ele.

Um dia de manhã, cinco depois da festa, o médico achou-o realmente mal; e foi isso o que ele lhe viu na fisionomia por trás das palavras enganadoras:

    — Isto não é nada; é preciso não pensar em músicas...

Em músicas! justamente esta palavra do médico deu ao mestre um pensamento. Logo que ficou só, com o escravo, abriu a gaveta onde guardava desde 1779 o canto esponsalício começado. Releu essas notas arrancadas a custo, e não concluídas. E então teve uma idéia singular: — rematar a obra agora, fosse como fosse; qualquer coisa servia, uma vez que deixasse um pouco de alma na terra.

    — Quem sabe? Em 1880, talvez se toque isto, e se conte que um mestre Romão...

O princípio do canto rematava em um certo lá; este lá, que lhe caía bem no lugar, era a nota derradeiramente escrita. Mestre Romão ordenou que lhe levassem o cravo para a sala do fundo, que dava para o quintal: era-lhe preciso ar. Pela janela viu na janela dos fundos de outra casa dois casadinhos de oito dias, debruçados, com os braços por cima dos ombros, e duas mãos presas. Mestre Romão sorriu com tristeza.

    — Aqueles chegam — disse ele —, eu saio. Comporei ao menos este canto que eles poderão tocar...

Sentou-se ao cravo; reproduziu as notas e chegou ao lá...

    — Lá, lá, lá...

Nada, não passava adiante. E contudo, ele sabia música como gente.

Lá, dó... lá, mi... lá, si, dó, ré... ré... ré...

Impossível! nenhuma inspiração. Não exigia uma peça profundamente original, mas enfim alguma coisa, que não fosse de outro e se ligasse ao pensamento começado. Voltava ao princípio, repetia as notas, buscava reaver um retalho da sensação extinta, lembrava-se da mulher, dos primeiros tempos. Para completar a ilusão, deitava os olhos pela janela para o lados casadinhos. Estes continuavam ali, com as mãos presas e os braços passados nos ombros um do outro; a diferença é que se miravam agora, em vez de olhar para baixo: Mestre Romão, ofegante da moléstia e de impaciência, tornava ao cravo; mas a vista do casal não lhe suprira a inspiração, e as notas seguintes não soavam.

    — Lá... lá... lá...

    Desesperado, deixou o cravo, pegou do papel escrito e rasgou-o. Nesse momento, a moça embebida no olhar do marido, começou a cantarolar à toa, inconscientemente, uma coisa nunca antes cantada nem sabida, na qual coisa um certo lá trazia após si uma linda frase musical, justamente a que mestre Romão procurara durante anos sem achar nunca. O mestre ouviu-a com tristeza, abanou a cabeça, e à noite expirou.

(Histórias sem data, 1884)

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Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis), jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 21 de junho de 1839, e faleceu também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. É o fundador da cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras. Velho amigo e admirador de José de Alencar, que morrera cerca de vinte anos antes da fundação da ABL, era natural que Machado escolhesse o nome do autor de O Guarani para seu patrono. Ocupou por mais de dez anos a presidência da Academia, que passou a ser chamada também de Casa de Machado de Assis.

Fonte: ABL 

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (194)


17º Domingo do Tempo Comum – 26/07/202


Anúncio do Evangelho (Mt 13,44-52)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola. O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam.
Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí haverá choro e ranger de dentes.
Compreendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”.
Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo o mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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 “Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo” (Mt 13,44)

As parábolas são uma expressão de surpresa diante da vida, que nos ultrapassa sempre, fazendo-nos capazes de pensar de um modo diferente, captar o outro lado da realidade concreta e abrir-nos à dimensão da transcendência. Dessa forma, elas recolhem e desvelam a vida real dos homens e mulheres de cada tempo, movendo-os a assumir uma atitude mais aberta e mais comprometida com a situação onde estão envolvidos. Isso significa acolher o dom e a missão do Reino.

Em geral, as parábolas evocam experiências desconcertantes e em quase todas elas se revela um dinamismo que rompe os esquemas “normais” da vida, conduzindo o ouvinte (ou leitor) a um outro patamar, mais inspirador e desafiante. Elas removem a vida, arrancando-a da “normose” (normalidade doentia) e despertando outros recursos internos, que não foram ainda mobilizados. Assim, esta mesma vida, começa a adquirir um outro sabor e um outro sentido.

O Evangelho deste domingo recolhe duas pequenas parábolas fulgurantes de Jesus: uma do tesouro e outra da pérola. São relatos de uma enorme eficácia. Elas nos situam frente a uma experiência desencadeante de vida, frente à surpresa de Deus, e assim expõem e põem em marcha o caminho do Reino. Elas também nos situam diante da máxima riqueza e exigem, ao mesmo tempo, o maior desprendimento.

São imagens que pedem radicalidade, ou seja, “vender tudo” para adquirir o tesouro ou a pérola
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Mas, quase não percebemos que há um passo prévio: a descoberta, a iluminação interior, o ver clara-mente. Tanto o caminhante pelos campos como o comerciante de pérolas, vendem tudo porque se convenceram de que o investimento valia a pena. 

Nestas duas pequenas parábolas, são apresentadas duas opções para que cada qual possa identificar-se: ou é aquele que encontra inesperadamente o tesouro e compra o campo, ou é aquele que tem a vocação de comerciante e percorre o mundo procurando pérolas preciosas.

Uns serão aqueles que vão passear, deixando-se surpreender pela vida e pelos acontecimentos, sem perder a capacidade de assombro, de entusiasmo, de admiração. A pessoa de nossa parábola, ao ser encontrada pelo tesouro, “sai” de si para vender quanto tem, procura o proprietário e compra aquele campo. Mas também percebemos que faz tudo isso a partir de dentro, como se houvesse conectado com algo pessoal e íntimo, que lhe permite “sair” do mais profundo de si mesmo. E esse duplo movimento é carregado de uma plenificante alegria.

Outros serão de mentalidade “comercial”: encantam-lhes a aventura, a busca, a estratégia. Não nasceram para estar quietos, nem para se conformar com boas e bonitas pérolas. O específico seu é continuar viajando e buscando sempre a pérola maior até encontrá-la. E quando a encontram, compram-na, e continuam buscando sempre. Porque isso é próprio de um comerciante: apostar, comprar, vender, às vezes ganhar, outras vezes perder... A pérola também sai ao encontro daquele que busca.

A decisão e o risco que assumiram, tanto o comerciante de pérolas quanto o nosso caminhante pelos campos, mudaram suas vidas. O tesouro e a pérola continuarão sendo valiosos, quer eles vivam com fidelidade e paixão ou não. O que os transforma não é o tesouro ou a pérola em si, mas a atitude e a decisão que tomam, atraídos por eles. É um tesouro e uma pérola que exigem uma transformação do antigo e conhecido passado para um novo e desconhecido futuro.

Quando a pessoa se fecha às surpresas da vida, ou quando deixa de esperar algo bom e precioso, ela se invalida para ser descobridora de tesouros ou buscadora de pérolas.

Para deixar-nos encontrar pelo tesouro e pela pérola é preciso deslumbrar-nos, fascinar-nos, encantar-nos, apaixonar-nos. Parece simples, mas é muito aberto e evocador. “Aquilo pelo qual nos encantamos mobiliza nossa imaginação e acaba por deixar sua marca em tudo”, dizia Pe. Pedro Arrupe.

E como encantar-nos? Não é só questão de vontade, mas de viver com os olhos abertos, atento à realidade, externa e interna, ser poroso para que nos deixemos encontrar pela pérola preciosa e pelo tesouro escondido; diante deste surpresa, não poderemos deixar de ficar fascinados.

E então, sim, estaremos dispostos a queimar barcos, vender tudo, dar o salto. Talvez nosso maior problema é que, na realidade, o que nos interessa são nossas posses, poder, objetos, apegos à auto-imagem e não descobrimos ainda o tesouro escondido e a pérola fina, que não estão distantes de nós; pelo contrário, encontram-se no mais profundo de nós mesmos.

“Descer” ao chão de nossa interioridade é a oportunidade para descobrir regiões novas e novos horizontes, para conhecer o reino interior, para encontrar a riqueza interior e assim experimentar a transformação. O caminho para uma nova qualidade de vida passa pela “descida” aos campos de nosso coração. Isso requer coragem para passar por todas as regiões, mesmo as sombrias, e chegar ao mais profundo. Mas essa descida nos possibilita descobrir um mundo diferente que não conhecíamos, ou que havíamos perdido. Lá no fundo, encontra-se um bem precioso que podemos levar conosco, que nos ajuda em nosso caminho e que nos faz totalmente originais e criativos.

É preciso “descer” até o fundo para descobrirmos uma nova riqueza para a nossa vida; é “descendo” que poderemos revitalizar a vida que se tornara vazia e ressequida.

Trata-se de despertarmos, de escavarmos, de avançarmos em direção ao “veio de ouro” e de sabermos que este não é nossa propriedade; ele nos é oferecido como dom. Não basta falar de “pedra preciosa”, é também necessário “escavar” nosso “chão interior”, alargar nosso coração, garimpar em direção às riquezas que estão no eu mais profundo, assim como o “fio de ouro” no meio dos cascalhos.

Cada um de nós possui uma fonte inesgotável de qualidades-habilidades; podemos dizer: “somos um presente”, um valor para os outros. A vida sempre está oculta nas profundezas. A pessoa superficial é aquela que se confunde com suas ideias, coisas... A pessoa do “eu profundo” é aquela que vive a partir da raiz, da fonte mesma da vida, e deixa vir à tona todas as suas riquezas, dons, capacidades...

É no coração que existem, em abundância, os aspectos positivos de nossa personalidade, os talentos naturais e as boas tendências. Aí se aninham imensas riquezas que se exprimem de maneira diferente, dando a cada um, uma fisionomia própria, um caráter único.

Esta região profunda coincide com o mundo das certezas, dos valores, das ideias-força... que formam o eixo da nossa existência, o melhor de nós, o lugar de nossa recuperação e de nossa realização, o positivo que nos solicita continuamente a nos tornar o que devemos ser. 

A força da transformação, portanto, nós não a encontramos na superfície ou distante de nós, mas sim, nas profundezas. Para ter acesso à riqueza no interior de nós mesmos, podemos imitar, simbolicamente, os hábitos dos pescadores de certo atol do Pacífico. Eles vivem pauperrimamente sobre uma terra desprovida de vegetação e açoitada pelos ventos; mas o fundo do seu mar é muito rico em pérolas.

Desenvolveram aí aptidões excepcionais para o mergulho; descem sem qualquer aparelho, ao fundo do mar, localizam as pérolas, arrancam-nas, trazem-nas para a superfície, atiram-nas no barco, para depois mergulharem de novo.

Este é o caminho da verdadeira espiritualidade: “descer” até o fundo, mergulhar no oceano interior onde estão escondidas as pérolas que dão significado e sentido às nossas vidas.

Encantados com a descoberta, trazê-las à tona e colocá-las a serviço dos outros, multiplicando-as.

Textos bíblicos:  Mt. 13,44-52    
Na oração:  Para realizar-te e desenvolver toda a tua potencialidade, busca, na oração, cavar mais profundamente, até atingir as raízes de teu ser, o núcleo original de tua personalidade.
- Olha no profundo de teu coração, olha no íntimo de ti mesmo, e pergunta: “tenho um coração que deseja o maior (“magis”) ou um coração adormecido pelas coisas? Meu coração conserva a inquietude da busca ou deixa-se sufocar pelos apegos, que acabam por atrofiar-me?”

Pe. Adroaldo Palaoro sj



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sábado, 25 de julho de 2020

DEUS DESEJA SER AMADO NÃO APENAS PELA SUA MISERICÓRDIA, MAS TAMBÉM NA SUA JUSTIÇA E NA SUA SEVERIDADE

20 de julho de 2020
Neste dia 20 de julho a Santa Igreja celebra a festa litúrgica do Profeta Elias. Em sua memória segue a transcrição de um comentário feito por Plinio Corrêa de Oliveira em conferência realizada em 14-11-1969. Esse texto não passou pela revisão do autor.


O Rei Ocozias mandou um capitão com cinquenta homens prender o Profeta Elias. Disse-lhe então o capitão: “Ó tu que te tens por homem de Deus, o rei mandou que venhas. Respondendo Elias, disse ao capitão de 50 homens: Se eu sou homem de Deus, desça fogo do céu e te devore, a ti e a teus 50 homens”. (2 Reis, 1, 1). O capitão e todos os soldados foram liquidados.

A primeira reação que este fato poderia produzir em um católico piegas seria a seguinte: Coitados! Afinal de contas, que culpa eles tinham para morrerem dessa maneira?

O fato é relatado como um castigo, e para que esse castigo se explique, devemos considerar que os profetas davam provas de sua missão profética, e os que não queriam reconhecer essa missão profética incorriam no castigo de Deus. Aqueles homens tinham aceitado a incumbência do rei, de prender o profeta Elias, daí concluirmos que eles não reconheciam o profeta; ou se reconheciam, temiam mais o rei do que o profeta. Portanto, nessas condições, mereciam ser duramente castigados.

Qual o sentido desse castigo? Deus não é só justo nem só severo, é também infinitamente misericordioso. Ele não seria Deus se não fosse justo e misericordioso. Mostra-nos todas as suas perfeições, entre elas sua justiça e severidade infinitas.

Nós temos que amá-lo em todas as suas manifestações, inclusive quando a manifestação é de sua justiça. Quando Deus nos mostra sua justiça, Ele o faz para nos atemorizar. É claro que o temor é um dos frutos da manifestação da justiça de Deus, mas não é o único fruto, pois outro fruto é o amor a Deus. Ele quer ser amado na sua justiça e na sua severidade. A severidade para com o mal deve despertar o amor. Esta é a lição que devemos tirar nas tomadas de atitude severas.

Quais são as coisas que a Revolução nega nesse sentido? Prestando atenção, vemos que a Revolução vai cada vez mais dando a ideia de que o homem que detém autoridade só é digno de amor se nunca for severo. Isso se nota em todas as escalas da autoridade. Segundo tal ideia, o pai que jamais é severo é o pai bom e digno de amor, e a autoridade policial que tem pena do ladrão e o deixa escapar é a autoridade policial boa e digna de amor. Está subjacente nisso a ideia de que é preciso não ser severo com o criminoso. E a autoridade que não pune, não castiga, não faz sofrer, essa é a autoridade boa, que deve ser objeto de simpatia.

Ora, essa é uma ideia falsa! Para um homem de coração reto, a severidade atrai o amor. A severidade não é brutalidade, nem vulgaridade. A alguém que nos censure com severidade, com respeito e com a força dos Mandamentos, nós devemos ficar agradecidos. É um sinal de que somos humildes, e que as portas do Céu estão abertas para nós. Caso contrário, seria sinal de que não somos humildes, nem de que as portas do Céu estão abertas para nós. Portanto, devemos amar em Deus também a sua severidade.

Antigamente o pai, dentro de sua casa, apresentava-se sempre um tanto distante, enigmático e majestoso em relação aos filhos. Nem por isso os filhos deixavam de amá-lo. Pai indigno de amor é o que se orienta por uma fórmula como esta: “Eu sou o melhor amigo do meu filho; não temos relações de pai e filho, mas de amigos”. Um pai assim profana sua própria autoridade, pois o pai é muito mais do que amigo. Compreende-se então por que Deus manifesta de vez em quando sua severidade, e a manifesta de modo terrível.

Um bispo antigo de São Paulo escreveu esta frase numa carta pastoral: “A misericórdia de Deus tem mandado mais gente ao inferno do que a sua justiça”. A frase é um pouco desconcertante, mas significa que vão para o inferno mais almas por terem abusado da misericórdia de Deus do que por terem temido demais a justiça de d´Ele. Os abusos da misericórdia são mais frequentes do que defeitos morais por temor excessivo da justiça.

Alguém poderia objetar: Mas onde é que o senhor coloca a bondade? Dou minha resposta com base na figura de Santa Teresinha do Menino Jesus, que tinha amor profundo à bondade de Deus, mas também uma noção profunda da justiça d´Ele. A tal ponto que estremecia ao ouvir falar dela, mesmo sabendo que ela é adorável. Tal era nela o senso da justiça de Deus, que fazia como os anjos no Céu: velava a face diante dela. Por assim dizer, desviava os olhos da justiça, cuja grandeza tremenda, no entanto, a enchia de admiração.

Não é esta a atitude do relaxado que tem o hábito de pecar, despreza a justiça de Deus, zomba dela, não a teme. Para o relaxado, a meditação sobre a justiça tem um efeito bem diferente do que produzia na alma insondavelmente sensível e delicada de Santa Teresinha. Se temos motivos para achar que não somos tão sensíveis quanto Santa Teresinha em relação à justiça de Deus, nem tão inocentes quanto essa santa carmelita, faremos muito bem em meditar sobre o inferno.

Mais uma objeção que alguém poderia fazer: Eu sou de uma contextura espiritual especial, e lucro mais meditando sobre a bondade de Deus do que sobre o inferno. Respondo que considero esta uma via espiritual legítima, e a respeito inteiramente. Mas tantas vezes o homem é levado a pôr um sofisma assim diante dos olhos, para evitar olhar a justiça de Deus, que o meu conselho é examinar-se muito atentamente antes de admitir essa conclusão.


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sexta-feira, 24 de julho de 2020

EDITORA LANÇA LIVRO COMEMORATIVO AO ANIVERSÁRIO DE 12 ANOS DO JORNAL DIREITOS

Em homenagem ao aniversário de 12 anos do jornal, a Editora Direitos lança o livro JORNAL DIREITOS, 12 ANOS DE HISTÓRIA...ENTREVISTAS.

A obra que é de autoria do advogado Vercil Rodrigues, que também é jornalista e editor do jornal Direitos, tem a apresentação do jornalista e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Ilhéus, Zé Carlinhos Silva, que declarou: “Percebo que o autor ergue um brinde à comunidade regional, de forma inédita, ao compilar as principais entrevistas publicadas para comemorar o “jubileu de ônix” deste seu primeiro veículo de comunicação lançado. E que se trata de um trabalho no contexto do jornalismo informativo e opinativo em que o autor talvez pretenda imortalizar os entrevistados, ao tempo que retrata o pensamento da região em determinado período da história, e cumpre com fidelidade o respeito às datas e ao conteúdo das entrevistas”.

Disse ainda o jornalista e assessor de comunicação: “No elenco de entrevistados, estão operadores do direito, autoridades do Poder Legislativo, presidentes de academias de letras e de letras maçônicas, veneráveis e autoridades maçônicas, magistrados, professores, psicólogo, psicanalista, colunista social, escritor, jornalista, presidentes de seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil, coordenadores e diretores de cursos e colégios particulares e públicos, dentre outros.

O jornalista Daniel Thame, a quem coube o prefácio do livro: Direitos, 12 Anos de História...Entrevistas, declarou: “O Jornal Direitos, voltado a uma área essencial da vida brasileira, é fruto da abnegação e do espírito empreendedor de Vercil Rodrigues, um homem de múltiplas atividades, todas elas exercidas com competência, profissionalismo e ética”.

O diretor regional Sul do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado da Bahia – SINJORBA, continuou: “É sabido, em tempos de mídias virtuais, a dificuldade de se manter um veículo impresso, com circulação regular. E são 12 anos de Jornal Direitos, um tempo respeitável em termos de mídia impressa. 12 anos que devem e merecem ser celebrados”.

No Prefácio, disse ainda: “Vale destacar o ineditismo de se publicar um livro com entrevistas imprescindíveis para comemorar o aniversário de um jornal (impresso e on line), o que reforça essa capacidade de Vercil Rodrigues, de surpreender e inovar. E será também uma referência para as gerações futuras de pessoas que construíram uma região que nos orgulha pela sua capacidade de se reinventar”.

Esse livro não é apenas homenagem a pessoas que se destacam na comunidade grapiúna, mas principalmente a celebração justíssima dessa conquista que é fazer do jornal Direitos um veículo de comunicação indispensável à sociedade regional.
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quinta-feira, 23 de julho de 2020

ITABUNA VIVA COM POESIA – Cyro de Mattos

                  Itabuna Viva com Poesia
Cyro de Mattos

Apesar desses tempos difíceis que vivemos com o impiedoso coronavírus, parabenizo Itabuna, meu berço, por mais um aniversário de sua emancipação política, em 28 de julho de 2020, dedicando-lhe os dois poemas que transcrevo abaixo.  Acredito que bons tempos voltarão, breve.
      
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Soneto de Itabuna
                                           
Encontro-me no verde de teus anos,
Como sonho menino nos outeiros,
Afoitas minhas mãos de cata-vento
Desfraldando estandartes nessas ruas.

São meus todos esses frutos maduros:
Jaca, cacau, mamão, sapoti, manga.
E esta canção que trago na capanga
É o vento soprando nos quintais.

Quem me fez estilingue tão certeiro
Nos verões das caçadas ideais?
Quem nesse chão me plantou com raízes

Fundas até que me dispersem ventos
Da saudade e solidão? Ó poema!
Ó recantos! Ó águas do meu rio!

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Canção de Itabuna

Uma canção de Itabuna
Nessa estrada ressoa,
A essa altura comprida,
Vem de dentro da infância,
Nesses ventos da aventura.

Pelejando nos campinhos,
Festejando nos quintais,
São meninos como sonho,
Cada um quer ser herói,
Nesses ventos da esperança.

Todos eles um rio conhece
Nos mergulhos do verão,
Nos acenos da aurora,
Que desponta radiante
Nesses ventos da ilusão.


Cyro de Mattos - escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.

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