Nem Sebastian Brant, advogado alemão que viveu nos anos
1500, autor da sátira “A Nau dos Insensatos”, seria capaz de imaginar o cenário
de horror que começamos a viver no Brasil nestes tempos de Pandemia.
A exagerada ambição de alguns pelo poder e o caráter deletério
de todos começam a arrastar o país para uma guerra civil ou para uma situação
de total descontrole social e de falência das instituições democráticas.
Não, não exagero. É o cenário que enxergo com clareza caso o
presidente da República seja afastado do cargo ou impedido de governar pelo que
já é chamado de “Parlamentarismo Branco” ou algo que o valha.
RACIOCINEM, POR FAVOR
Ainda dá tempo de reverter esse processo, mas é preciso que
os agentes dessa insensatez comecem logo a raciocinar:
- O Bolsonarismo é, caso queiram admitir ou não, a única
força política viva, participativa, energizada, da Nação.
- Nada do que o presidente fez – ou deixou de fazer – desde
que o Virus de Wuhan entrou no radar da Nação, abalou a base bolsonarista que
tem crescido bastante com a recente adesão dos micro e pequenos empresários
(mais de 30 milhões, ao todo) maltratados pelo confinamento irracional.
- A base de apoio ao presidente é bastante concentrada no
Estado de São Paulo, no sul do Brasil, no Rio de Janeiro, Minas Gerais e têm-se
expandido fortemente no Centro-Oeste, Norte e Nordeste do País, bastando ver as
multidões que o tem cercado aos gritos de “Mito! Mito! Mito!” nas visitas que
tem feito às regiões mais remotas do país.
NAU DA INSENSATEZ
Os governadores que assinaram a carta de protesto contra o
presidente da República, por influência do ambicioso João Dória, embarcaram
assim na Nau da Insensatez.
O exemplo mais gritante desses embarcados insanos é o
neófito governador de Santa Catarina, Carlos Moises da Silva (PSL), um ilustre
desconhecido até a campanha de 2018: só foi eleito por ter desfraldado a
bandeira do bolsonarismo num estado em que nada menos de 75% dos eleitores
votaram em Jair Bolsonaro.
Sua assinatura na carta de governadores contra o presidente
corresponde a um salto do topo da Serra do Rio do Rastro sem paraquedas ou asa
delta.
No Estado de São Paulo, onde em pleno confinamento tem-se
repetido carreatas portentosas contra João Dória, a #ForaDoriajá adquiriu duplo sentido: como numa democracia um governador democraticamente
eleito não pode ser deposto, será com certeza impedido de governar caso se
consume algum tipo de golpe contra o presidente da República.
A democracia morreu no Brasil – se é que chegou a viver
algum dia, pois qualquer exame clínico um pouco mais atento mostra que ela já
nasceu morta em 22 de setembro de 1988, dia em que começou a valer a
Constituição Federal que está em vigor e que é, em geral, considerado como seu
marco zero.
Nasceu morta porque quem a escreveu pensou numa coisa só,
com obsessão exemplar, desde a redação de sua primeira sílaba: como montar no
Brasil um sistema de governo em que um grupo limitado de pessoas fica com 100%
do direito legal de tomar decisões — sem ter de pagar jamais pelas
consequências do que decide, é claro — e o resto da população fica sem
influência prática nenhuma.
É exatamente o que vem acontecendo há quase 32 anos.
No papel, e nos tratados de ciência política, é o governo
comandado pela vontade da maioria — e os votos da maioria podem perfeitamente
colocar no governo, ou seja lá onde as decisões são tomadas, gente que não tem
interesse algum em saber quanto você é livre ou não é.
Seu papel é unicamente obedecer às leis e regras que os
donos do poder escrevem em benefício próprio, ou dos grupos a quem servem.
No Brasil de hoje não há uma coisa nem outra.
Não há democracia porque quem manda em tudo, faz mais de
trinta anos, é uma minoria — a população só é chamada, de dois em dois anos,
para votar em eleições nas quais um sistema viciado elege sempre os mesmos, com
uma ou outra exceção que não muda nada.
Fechadas as urnas às 5 horas da tarde, todos são mandados de
volta para casa e só voltam a abrir a boca dali a dois anos, para fazer a mesma
coisa.
No meio-tempo, não mandam em absolutamente nada — sem crachá
e autorização dos seguranças, não podem nem entrar nos lugares onde estão os
que resolvem tudo.
Não há liberdade porque o cidadão só tem a opção de
obedecer, esteja ou não de acordo com o que lhe mandam fazer.
O momento que o Brasil atravessa agora, com grande parte da
população apavorada pelo medo de morrer por causa da covid-19, é exemplar dessa
democracia que não vale nada.
Vamos aos testes práticos.
Passa pela cabeça de alguém, por exemplo, que as pessoas estejam
de acordo que o Senado alugue por 350 mil reais por mês, sem concorrência, uma
“sala VIP” no aeroporto de Brasília, para os senadores não correrem nenhum
risco de ficar perto dos cidadãos?
É claro que ninguém está de acordo.
É claro, também, que ninguém pode fazer nada a respeito.
É tudo legal, porque eles escreveram leis dizendo que é
legal — inclusive essa falta tão conveniente de concorrência pública, pois
estamos num momento de “emergência” na saúde pública.
O que a maioria tem a dizer da recusa do Congresso em abrir
mão de um centavo sequer dos bilhões que tem estocados nos fundos “Partidário e
Eleitoral”, que roubaram legalmente dos impostos — através de leis que eles
mesmos aprovaram?
E a liberdade, aí, como é que fica: alguém é livre, de
verdade, para defender seu direito de opor-se a essa aberração?
Não se trata apenas de deputados e senadores.
Como pode haver democracia numa sociedade em que uma
comunidade de talvez 25.000 indivíduos, os membros do Poder Judiciário em suas
diversas camadas, tem direitos que os demais 200 milhões de brasileiros não têm
— e se mantém, na vida real, acima das leis e da obrigação de cumpri-las?
É impossível, também, pensar em “estado de direito” quando a
Justiça funciona como cúmplice integral em atos de delinquência do submundo
político.
No caso dos “fundos”, é óbvio, deu razão ao Congresso — e
proibiu seu uso em favor do combate à epidemia.
O país inteiro tem assistido, todos os dias, a demonstrações
brutais de tirania por parte de 27 governadores, 5.500 prefeitos, suas polícias
e seus fiscais.
Com o súbito poder que lhes foi conferido pela epidemia, e
com a cumplicidade quase absoluta de juízes e integrantes do Ministério
Público, puseram para fora todas as suas neuras ditatoriais.
É a lei que lhes permite isso — a lei que eles próprios, ou
a classe política em geral, escreveram.
Os exemplos não acabam mais.
Todas as edições de Oeste (noticiário), até o fim dos
tempos, não serão suficientes para mostrar a soma de desastres que está
acontecendo com as liberdades neste país.
Todo o poder de decisão foi dado a grupos muito bem
definidos, pela malícia e esperteza de uma Constituição na qual há um número
ilimitado de boas intenções e nenhum meio de realizá-las na prática.
Ali o cidadão tem direito a tudo — menos o de influir na
própria vida e controlar, mesmo por alguns minutos, os que mandam nele.
Todos sabem quem são esses grupos.
Os altos servidores do Estado, as corporações, os grupos de
interesse privado, os sindicatos, os criminosos ricos, os saqueadores do
Erário, os que desfrutam de direitos que os demais não têm, os políticos — e
por aí afora.
As leis são escritas para eles.
Você só paga.
“Eu prefiro um ladrão a um deputado”, diz Walter E.
Williams, o economista conservador americano que há décadas devasta a hipocrisia
da vida política mundial.
“O ladrão, em geral, o rouba uma vez só e vai embora.”
Os políticos, porém, estão aí para sempre.
É esse, justamente, nosso problema: enquanto quem mandar no
Brasil for o condomínio descrito acima, não haverá nem liberdade real nem
democracia efetiva.
O que vale é a manipulação periódica da multidão em eleições
que já estão decididas, pelos vícios deliberados do sistema eleitoral, antes de
o primeiro voto ser colocado na primeira urna.
O resultado concreto disso tudo aparece nas decisões
alucinadas que são tomadas aqui como resultado do “funcionamento normal” das
chamadas instituições democráticas.
“Como alguma coisa que é imoral, quando feita em particular,
se torna moral quando feita coletivamente?”, pergunta Williams.
“Por acaso a legalidade confere moralidade a alguma coisa? A
escravidão era legal. O apartheid era legal. Os massacres feitos por Hitler,
Stalin e Mao foram legais.”
No Brasil o Congresso é legal.
O STF é legal.
O aparelho do Estado é legal.
O que foi para o diabo é o senso moral — junto com a
liberdade e a verdadeira democracia.
Bairro napolitano de Santa Lucia.PAOLO MANZO / EL PAÍS
Um assassinato em Agrigento (Sicília).
Um barco na Calábria com 600 quilos de coca. Um fugitivo capturado
depois de uma longa fuga quando ia fazer compras usando máscara e luvas.
Ninharias em comparação com o ritmo normal. Mas a principal atividade dos clãs
mafiosos na Itália hoje em dia é se reposicionar, ganhar apoio e
buscar novas formas de usar seu dinheiro, que retornará em abundância quando a
crise sanitária acabar. Na Calábria e na Sicília, a polícia já surpreendeu
mafiosos distribuindo sacolas de compras para alguns moradores. Enquanto não
chegar a ajuda anunciada pelo Governo de Giuseppe
Conte, as máfias se infiltrarão no tecido social, concordam as fontes
judiciais e policiais consultadas. Também são abundantes os empréstimos a
empresários com a corda no pescoço que precisam de dinheiro vivo. “Agora são só
facilidades”, assinala um comandante dos carabinieri em Trapani. Os clãs têm
liquidez. Quando a crise passar, vão cobrar a conta.
O confinamento tem alguns mestres que o praticavam muito
antes que o mundo soubesse o que é um coronavírus.
Nicola Gratteri, procurador-chefe de Catanzaro e provavelmente o maior especialista
do mundo na ‘Ndrangheta − a máfia mais poderosa da Itália, com
mais de 30.000 filiados só na Calábria e capaz de faturar 43 bilhões de euros
(245 bilhões de reais) anuais −, teme o pior: “O objetivo da elite da
‘Ndrangheta não é só enriquecer, mas exercer o poder. No sul há milhares de
pessoas que sempre trabalharam na informalidade e ganhavam no máximo 40 euros
[228 reais] por dia. Esse dinheiro evaporou. O Estado está preparando uma
injeção que chegará em poucos dias, mas muitas pessoas necessitadas aceitam
encantadas as compras pagas pelo chefão da vez. Aceitam também ajudas de 300 ou
400 euros [1.710 ou 2.280 reais]. Para eles não é nada, para o pobre é tudo.
Daí surge o modelo do homem poderoso, que poderá pedir que votem em seu
candidato quando houver eleições”. É hora de semear.
As recessões são oportunidades perfeitas para as máfias,
alertam o chefe da polícia nacional da Itália, Franco Gabrielli, e o
procurador-geral antimáfia do país, Federico Cafiero de Raho. A crise acaba com o dinheiro em espécie, algo que
organizações como a ‘Ndrangheta, cuja principal fonte de renda é o tráfico
de drogas, têm em abundância, lembra Gratteri. “[Essas organizações]
buscarão emprestar dinheiro com usura a empresários. A juros baixos, para
competir com os bancos. As pessoas − hoteleiros, donos de restaurante − vão
procurá-las. O objetivo do agiota mafioso é se apoderar dessa atividade
comercial quando, pouco a pouco, forem aumentando os juros até o empresário não
conseguir pagar. Depois que o negócio for roubado, o mafioso o usará para lavar
dinheiro. É assim que funciona. Este período servirá para isso”, acrescenta o
procurador.
Isso acontece na Calábria. Mas também na Sicília e nas
vielas do centro de Nápoles. Quando o Estado dá um passo atrás, os clãs devoram
o território. As três regiões estão no topo das estatísticas de pobreza e de
economia informal, com cifras em torno de 20% de sua riqueza, segundo o
Instituto de Estatística Italiano (Istat). São milhares de famílias sem nenhuma
provisão neste momento. O Governo prometeu 400 milhões de euros (2,3 bilhões de
reais) aos municípios para a concessão de vouchers, mas o sistema é lento e a
burocracia, fatal para o tecido social. Em Palermo e Nápoles, multiplicam-se as
denúncias de assaltos a supermercados.
Na moto, Vincenzo e Antonio, voluntários da ONG San Gennaro,
distribuem alimentos aos necessitados no bairro de Sanità, em Nápoles.PAOLO
MANZO / EL PAÍS
Alguns moradores, liderados pela associação Liberi di
Volare (Livres para voar)e pela Fundação San Gennaro, organizaram-se para
distribuir alimentos a famílias necessitadas em Nápoles. É outra forma de
evitar a infiltração de clãs mafiosos. Davide Marotta faz parte do esquadrão
que distribui 350 pacotes de comida semanais e vales-compra no bairro
napolitano de Sanità. “Quem recebe ajuda, muitas vezes, não pensa se vem de
alguém que mata ou vende drogas.
Fome é fome. Nápoles já estava cheia de problemas antes do coronavírus. O
Estado está ausente nessas áreas, e muitas vezes a Camorra o
substitui. O único mercado que não para é o ilegal. E é usado o velho método do
clientelismo político. O que nós fazemos é ocupar esse espaço”, diz Marotta,
por telefone, no único dia de descanso dos voluntários.
O prefeito de Palermo, Leoluca Orlando, um dos primeiros a
alertar sobre o incêndio social que estava chegando às ruas de sua cidade,
resume assim: “Quando você está doente e o médico não chega, acaba indo ao
curandeiro. Devemos evitar que esses falsos médicos batam à porta. Os mafiosos
estão alimentando o mal-estar social para transformar aos novos pobres em
transportadores de drogas, escravos. Só o dinheiro público é a alternativa ao
dinheiro mafioso. E isso vale em toda a Itália, também no norte”. E hoje tudo
acontece às escuras.
A pandemia complica o trabalho de investigação, explica um
dos procuradores mais importantes da luta contra a máfia em Palermo, que
pede anonimato. “Neste momento, os pontos de escuta, os lugares onde foram
instalados microfones [pela polícia], os esconderijos, já não estão dando
muitos frutos, porque não são frequentados. Os carros estão parados, e nas
residências, estando em família, nem sempre é possível obter informações,
porque há mais barulho e as conversas são de outro tipo. Quanto menor o
movimento, menos visíveis são os encontros e menos informações obtemos”, diz
ele. Um comandante policial especialista no combate à Cosa
Nostra assinala: “É mais difícil para todos: para eles, que dão
cobertura e logística para a distribuição de drogas, e para nós, que devemos
segui-los e não podemos nos camuflar entre os carros e as pessoas”.
A Covid-19, no entanto, corrói a parte fraca da máfia. A que
precisa do barulho para viver em silêncio. Para grandes fugitivos, como o chefe
da Cosa Nostra Matteo Messina Denaro, foragido há 26 anos, hoje é mais difícil
se esconder. “São como baleias. Vivem submersos e de vez em quando têm de vir à
superfície para respirar. Vamos caçá-los quando fizerem isso… ou morrerão
afogados.”
No Brasil o crime organizado se divide. Segundo o jornal O
Globo, as milícias fluminenses pressionam comerciantes para que continuem
trabalhando, uma vez que sem receita eles não tem como pagar os grupos
criminosos que vivem da cobrança de taxas e extorsão. Por outro lado,
traficantes de facções como Comando
Vermelho e Amigo dos Amigos tem colocado faixas em algumas comunidades
pedindo que todos fiquem em casa.
A importância das relações familiares pode também, entre
diversas razões, ser constada nos benefícios para a saúde que advêm de laços
afetivos entre parentes.
Em um estudo realizado nos anos cinquenta, a um grupo de
estudantes da Universidade Harvard (na cidade de Cambridge – EUA), escolhidos
aleatoriamente, foi solicitado aos alunos que descrevessem o nível de calor de
seus relacionamentos com os pais. Cerca de 35 anos depois, foi feita uma
verificação de seus registros médicos.
O psicólogo britânico Prof. David Halpern** [foto ao lado]
destacou que: “Entre aqueles que classificaram os relacionamentos com os
pais como calorosos e estreitos, um pouco menos da metade (47%) teve
doenças graves diagnosticadas na meia-idade; mas entre aqueles que descreveram
os relacionamentos com os pais como tensos e frios, todos (100%) tinham
doenças graves diagnosticadas na meia-idade”.
___________
Fonte: David Halpern, Social Capital, Polity Press:
Cambridge, 2005, p. 81).
* John Horvat II, é vice-presidente da TFP norte-americana,
autor do best-seller “Return to Order”.
** David Halpern foi professor de ciências sociais humanas
na Universidade de Cambridge. Atualmente ele supervisiona a resposta do governo
do Reino Unido à pandemia de coronavírus como parte do Grupo Consultivo
Científico para Emergências, concentrando-se em mudanças comportamentais.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
João.
— Glória a vós, Senhor.
Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando
fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se
encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja
convosco”.
Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então
os discípulos se alegraram por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai
me enviou, também eu vos envio”. E, depois de ter dito isso, soprou sobre
eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados,
eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”.
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com
eles quando Jesus veio. Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o
Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos,
se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não
acreditarei”.
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente
reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus
entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.
Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas
mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas
fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse:
“Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!”
Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos,
que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em
seu nome.
No segundo domingo de Páscoa de cada ano, a liturgia nos
apresenta o belíssimo relato que só se encontra no evangelho de João. Esta
dupla aparição do Ressuscitado aos discípulos, primeiro na ausência de Tomé, e
depois na sua presença, nos diz algo sobre a comunidade cristã primitiva, mas
também traz luz sobre as nossas comunidades hoje.
Aí está constituída a nova comunidade pascal; uma comunidade
em torno à presença de Jesus; uma comunidade chamada a viver da experiência do
encontro com Aquele que consumou sua vida em favor da vida de todos; suas
chagas serão, de agora em diante, a melhor expressão da identidade entre o
Crucificado e o Ressuscitado. Uma comunidade animada pelo mesmo Espírito de
Jesus; uma comunidade não fechada sobre si mesma, alienada das chagas da
humanidade, mas aberta, como Ele, ao amor universal para com todas as pessoas.
Uma comunidade de amor, capaz de viver o perdão e ser presença misericordiosa.
Somos já “seres ressuscitados” quando vivemos estes dons do
Ressuscitado, comprometidos com o Seu projeto carregado de vida, para aliviar
as dores e as feridas da humanidade.
A CF deste ano, com o tema “Vida: dom e missão”, nos faz
tomar consciência que, aquele(a) que se experimenta a si mesmo como “Vida” é já
uma pessoa “ressuscitada”. Pois a vida autêntica é a vida movida, iluminada,
impulsionada pelo amor.
Quando acolhemos a presença do Ressuscitado, nossa vida se
destrava e torna-se potencial de inovação criadora, expressão permanente de
liberdade, consciência, amor, arte, alegria, compaixão.... É vida em movimento,
gesto de ir além de nós mesmos; vida fecunda, potencial humano. Vida com fome e
sede de significado, que busca o sentido... Vida que é encontro, interação,
comunhão, solidariedade. Vida que é seduzida pelo amor, pela ternura. Vida que
desperta o olhar para o vasto mundo e move à missão.
Chama-nos a atenção (sobretudo nos evangelhos de Lucas e de
João) que Jesus ressuscitado tenha tanto interesse em mostrar a seus discípulos
as chagas de suas mãos, seus pés e de seu lado aberto. Quê significa isto, um
ressuscitado com chagas? Diante de um martirizado ressuscitado, qualquer um
esperaria ver um corpo totalmente renovado, rejuvenescido, limpo, sem feridas e
marcas do martírio.
E, no entanto, Jesus ressuscitado toma a iniciativa,
deixa-se ver, faz-se presença, provoca um encontro. Os discípulos e discípulas
buscam um cadáver, para lhe manifestar respeito e carinho. Jesus ressuscitado,
como bom pedagogo, busca aqueles e aquelas que o tinham seguido desde a
Galileia e, respeitando a liberdade e os tempos de cada um(a), os ressuscita
também, reconstruindo-os em sua identidade ferida.
As chagas de Jesus ressuscitado são algo mais que um modo de
dizer “sou eu mesmo”. Elas são expressão de identidade, ou seja, pertencem a
seu novo ser de ressuscitado. Dito de outro modo: Jesus, vencedor da morte, não
abandona o que é caduco e frágil da existência mortal. A fragilidade da carne
foi assumida na glória do Corpo ressuscitado. Por isso, suas chagas são
terapêuticas, pois curam as nossas chagas do fracasso, do medo, da tristeza, da
solidão, da dor... São feridas que curam feridas
A ressurreição afeta todo o nosso ser: tudo é iluminado,
re-significado, tudo adquire novo sentido.
Em meio à comunidade dos discípulos reunida, o evangelho de
João destaca a figura de Tomé, elaborando em torno a ele um relado de muita
densidade e com muita inspiração. Tomé é a expressão do ser humano a quem lhe
custa crer na ressurreição do Jesus Histórico, do Jesus das chagas nas mãos e
no lado, do Jesus da carne, do Jesus do povo crucificado.
Provavelmente, ele acreditava em Jesus, mas em um “Jesus
espiritual”, puramente interior, sem necessidade de compromisso comunitário,
sem chagas no seu corpo. Talvez, ele estivesse mais centrado no Cristo
glorioso, desligado da história de Jesus, das mãos que tocaram os pobres e
curaram os doentes, do coração que amou os excluídos da sociedade, dos pés que
romperam barreiras e fronteiras...
Por meio de outros testemunhos da literatura cristã antiga,
sabemos que Tomé queria tocar em Jesus só de um modo espiritual, criando um
tipo de comunidade de feição “quase angelical”, distanciando-se da humanidade
de Jesus e vivendo uma religião desumanizadora, centrada só em ritos,
doutrinas, leis...
Contra isso, a comunidade lhe diz que é preciso “tocar nas
chagas de Jesus”, que o Ressuscitado é o mesmo Jesus da História, Aquele que
foi chagado pela violência e pela rejeição. O Senhor Ressuscitado continua
sendo aquele que carrega em suas mãos e lado as feridas de sua entrega, os
sinais de seu amor crucificado em favor de todos. Este Jesus pascal, continua
estando presente nas chagas dos homens e mulheres de mãos quebradas, na ferida
do lado dos homens e mulheres que sofrem.
As chagas de Jesus, em seu lado e em suas mãos, são as
chagas de um perseguido e condenado pela “justiça” do mundo. Isso significa que
o Jesus ressuscitado não é um “fantasma”, mas o mesmo Jesus que foi
crucificado.
Ao mostrar suas chagas, Jesus ressuscitado revela que as
chagas da humanidade continuam abertas, esperando que seus(suas) seguidores(as)
prolonguem os gestos de cura e cuidado do mesmo Jesus. São estes e estas que
hoje atestam a vitalidade do Ressuscitado.
No entanto, não há mais o Cristo visível para tocar. Os
únicos traços para ver e tocar, que confirmam a realidade de sua presença, são
as pessoas de cada tempo que lutam por uma terra onde os pobres e os excluídos
terão seu lugar, onde o ódio não rege as relações, onde a bondade predomina
sobre o desprezo, onde o respeito impede a violência capaz dos piores
instintos, onde a acolhida impede o fechamento em si mesmo.
Portanto, crer na Ressurreição não é simples adesão a um
dogma de fé, é compromisso com a vida.
O “toque pascal” de Tomé (“coloque tua mão em minha
ferida...”) é o “toque das chagas”, é a experiência dos crucificados do mundo.
Só podemos “tocar” em Jesus de verdade, e confessar sua Páscoa, “tocando”
(ajudando) os enfermos e crucificados da história.
Não há experiência pascal se não descobrimos Jesus
ressuscitado nas chagas dos pobres, doentes e excluídos de nosso mundo; “tocar”
estas chagas vai além de um gesto físico; implica ser presença solidária,
acompanhar, ajudar, alimentar uma sintonia e comunhão com aqueles(as) que
clamam por uma presença consoladora, carregada de ternura.
Enfim, o evangelho deste domingo nos pede:
- Que abramos as portas e as janelas das comunidades
cristãos, para que todos possam ver o quanto de vida há dentro dela, para que
vejam quem somos, como vivemos..., de maneira que possamos oferecer e
compartilhar espaço de perdão, de acolhida sem preconceitos, de amor
oblativo...; é preciso afastar a pedra do dogmatismo, do legalismo, do
ritualismo... que nos mantém sufocados ou respirando o ar fétido dos túmulos;
- Que vivamos em comunhão, que permitamos que Tomé retorne à
comunidade. A transformação de Tomé implica também uma mudança da Igreja, que o
acolhe e lhe oferece um lugar a partir do Jesus crucificado; que ela seja
espaço aberto, integrador, acolhedor do diferente.
- Que sonhemos também com uma Igreja que rompa os túmulos do
conservadorismo, do legalismo, da apatia, e se abra à desafiante situação de
nosso mundo, “vivendo em saída” para “tocar” os chagados e lhes oferecer o dom
da unção e do consolo.
Texto bíblico: Jo 20,19-31
Na oração:Nos Exercícios Espirituais, S. Inácio
nos convida a considerar como o Ressuscitado exerce o “ofício de
consolar”.
Somos, pois, consolados em nossas tribulações e dores para
poder consolar os outros nas suas. Trata-se de uma experiência transbordante,
expansiva, que nos impulsiona em direção aos outros.
Como seguidores(as) do Vivente, somos chamados(as) a exercer
este “ofício de consolar”; a experiência da Ressurreição nos move a “descer”
junto à realidade do outro (seus dramas, fracassos, enfermidades, perda de
sentido da vida...) e exercer este ministério humanizador. “Ser vida
ressuscitada que desperta outras vidas”: vida plenificada, iluminada,
integrada... pela experiência de encontro com o Ressuscitado e que flui em
direção às vidas bloqueadas, necrosadas... Assim como a consolação é o canal
privilegiado pelo qual o Deus da Vida se comunica e atua em nós, o ofício do
consolo é o canal por onde flui a vida.
- Como ser presença consoladora nestes tempos de pandemia?
E ele ergueu a
fronte e olhou para a multidão, e um silêncio caiu sobre todos, e com uma voz
forte, ele disse:
“Quando o amor
vos chamar, segui-o.
Embora seus
caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos
envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada
oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos
falar, acreditai nele,
Embora sua voz
possa despedaçar vossos sonhos como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma
forma que o amor vos coroa, assim ele vos crucifica. E da mesma forma que ele
contribui para vosso crescimento, trabalha para vossa poda.
E da mesma forma
que ele sobe à vossa altura e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam
ao sol,
Assim também
desce até vossas raízes a as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de
trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha
para expor a vossa nudez.
Ele vos peneira
para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até
a extrema brancura.
Ele vos amassa
até que vos torneis maleável.
Então, ele vos
leva ao fogo sagrado e vos transforma no pão místico do banquete divino.
Todas essas
coisas, o amor operará em vós para que conheçais os segredos de vossos corações
e, com esse conhecimento, vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor, procurardes
somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria
melhor para vós que cobrísseis vossa nudez e abandonásseis a eira do amor,
Para entrar no
mundo sem estações, onde rireis, mas não todos os vossos risos, e chorareis,
mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá
senão de si próprio e nada recebe senão de si próprio.
O amor não
possui e não se deixa possuir.
Pois o amor
basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘Eu estou no coração de Deus’.
E não imagineis
que possais dirigir o curso do amor, pois o amor, se vos achar dignos, determinará
ele próprio o vosso curso.
O amor não tem
outro desejo, senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo,
amardes e precisardes ter desejos, sejam estes vossos desejos:
‘De vos
diluirdes no amor e serdes como um riacho que canta a sua melodia para a noite;
De conhecerdes a
dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria
compreensão do amor;
E de sangrardes
de boa vontade e com alegria;
De acordardes na
aurora com o coração alado e agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes
ao meio-dia e meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes
para casa à noite com gratidão;
E de
adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado, e nos lábios uma canção
de bem-aventurança’.”
(O PROFETA)
Gibran Khalil Gibran
..................
Gibran Khalil Gibran - Poeta libanês, viveu na França e nos EUA. Também foi
um aclamado pintor. Seus textos apresentam a beleza da alma humana e da
Natureza, num estilo belo, místico, conseguindo com simplicidade explicar os
segredos da vida, da alegria, da justiça, do amor, da verdade.
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VIDA E OBRA DE GIBRAN (1)
Seu nome
completo é Gibran Khalil Gibran. Assim assinava em árabe. Em inglês, preferiu a
forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. É mais comumente
conhecido sob o simples nome de Gibran.
Nasceu em 6 de dezembro de 1883, de pais pobres, em
Bicharre, na montanha do Líbano, a uma pequena distância dos Cedros milenares.
Tinha oito anos quando, um dia um vendaval passa por sua cidade. Gibran olha,
fascinado, para a natureza em fúria e, estando sua mãe ocupada, abre a porta e
sai a correr com os ventos. Quando a mãe, apavorada, o alcança e repreende, ele
lhe responde com todo o ardor de suas paixões nascentes: “Mas, mamãe, eu gosto
das tempestades. Gosto delas. Gosto!” (Seu melhor livro em árabe será
intitulado Temporais).