Total de visualizações de página

sábado, 28 de março de 2020

MÉDICO ITALIANO DEIXA DE SER ATEU E PASSA A CRER EM DEUS



Dr. Julian Urban ficou impressionado com exemplo de paciente, que era pastor

 Ana Luiza Menezes - em 27/03/2020 22h19

Hospital na Itália Foto: EFE/EPA/MAURIZIO BRAMBATTI


Na Itália, o Dr. Julian Urban, de 38 anos, era ateu, mas decidiu abandonar seu antigo modo de pensar para se conectar com Deus. Segundo o jornalista Marco Tosatti, o médico trabalha em um hospital na Lombardia, região mais afetada pelo coronavírus no país.

Entre os italianos, já foram contabilizadas mais de 9 mil mortes. Dr. Julian disse que começou a pedir ajuda a Deus em função da luta contra a doença Covid-19.

– Nunca, nos meus pesadelos mais sombrios, imaginei ver e experimentar o que estava acontecendo na Itália em nosso hospital nas últimas três semanas. (…) Agora, não somos mais médicos, mas classificadores que decidem quem deve viver e quem deve ser enviado para casa para morrer. (…) Até duas semanas atrás, meus colegas e eu éramos ateus. Era normal porque somos médicos. Tínhamos aprendido que a ciência exclui a presença de Deus – relatou.

EXEMPLO
Em meio ao caos, o médico ficou impressionado com a atitude de um paciente. Foi a postura de um pastor, infectado pelo vírus, que ajudou Julian a rever seus conceitos. O médico chegou a admitir que, no passado, chegou a criticar a fé dos pais, que iam para a igreja, mas o exemplo que viu recentemente no hospital, mudou tudo.

– Nove dias atrás, um pastor de 75 anos foi internado no hospital. Ele era um homem gentil. Ele tinha sérios problemas respiratórios. Ele tinha uma Bíblia e nos impressionou como lia para os moribundos enquanto segurava a mão deles. Nós, médicos, estávamos todos cansados, desanimados, psicologicamente e fisicamente acabados. Quando tivemos tempo, ouvimos ele. Tínhamos atingido nosso limite. Não podíamos fazer mais nada. Pessoas estão morrendo todos os dias. Estamos exaustos. Dois colegas morreram e outros foram infectados. Precisávamos começar a pedir a ajuda de Deus – declarou Urban.

O médico contou ainda que o pastor faleceu. Porém, a fé continuou no hospital.

– Quando conversamos um com o outro, não podemos acreditar que, embora já tenhamos sido ateus ferozes, agora estamos diariamente em busca da paz, pedindo ao Senhor que nos ajude a continuar para que possamos cuidar dos enfermos. Apesar de ter tido mais de 120 mortes aqui em 3 semanas, não fomos destruídos. Ele [o pastor] conseguiu, apesar de sua condição e nossas dificuldades, trazer-nos uma paz que não esperávamos encontrar – falou.

Apesar de todas as dificuldades, ele disse também que está grato pelo encontro com Deus.

– Não estou em casa há 6 dias. Não sei quando comi pela última vez. (…) Estou feliz por ter me voltado a Deus enquanto estou cercado pelo sofrimento e pela morte de meus semelhantes – concluiu.



* * *

sexta-feira, 27 de março de 2020

RIO CACHOEIRA – Cyro de Mattos


Rio Cachoeira

Cyro de Mattos
           

           Cada cidade ou região tem o seu rio, com sua gente, águas, bichos e lendas. Escorrendo sentimentos líquidos, cada pessoa carrega no coração o rio de sua cidade. Cachoeira é como se chama o rio que atravessa a minha cidade. Divide-a em duas partes. Já teve lavadeiras, aguadeiros, pescadores e tiradores de areia quando ainda não existia a represa próxima à Ponte Velha. Baronesas não ficavam entulhadas entre as pedras pretas, espalhadas em vários trechos do rio. A Ilha do Jegue era comprida e nela nunca se viu uma garça. Bocas de vômito não despejavam detritos nas águas claras.
  
              Lavadeiras estendiam roupas que coloriam as inúmeras pedras pretas. O rio lavava suas águas com o canto das lavadeiras. Cores e cantos davam um belo visual ao velho rio. Pequenas correntezas conversavam entre as pedras. O leito era límpido, dava para se ver a areia com pedrinhas lisas e redondas.  Borboletas pousavam nas margaridas silvestres que cobriam os barrancos. Andorinhas trissavam acima do rio quando acontecia o entardecer.
  
           O rio Cachoeira perdeu muito de seu encanto, sem as lavadeiras, os pescadores, os aguadeiros e os tiradores de areia. De sol a sol, homens e meninos buscavam com suas pás no fundo do rio a areia, que servia para as construções na cidade. Os jumentos transportavam em latas as cargas de areia. Tempo bom para o areeiro retirar a areia do fundo do rio era nos meses de verão. A cidade toda sabia, pelas mãos do areeiro, que o rio era uma dádiva e a argamassa da casa feita de fibra específica: calo, suor e areia. O homem passava pelas ruas, tangendo com a taca os jumentos carregados de areia nas latas. As casas cochichavam. Areia sem a pá não seria dádiva. Nada seria a pá sem a areia. Ajoelhando as fachadas, as casas tomavam a velha bênção ao rio. Ao tirador de areia agradeciam comovidas.
            
          Para quem não sabe, o velho Cachoeira já forneceu à cidade água boa no bebedouro da vida. Esse tempo já vai longe, muito longe. Um tempo de fontes puríssimas do nosso rio. Foi na infância da cidade quando ela tinha poucas ruas calçadas, três ou quatro bairros. Tropeçava nas pernas quando era chegado o inverno. Caminhava alegre batida pelos raios de sol quando era tempo de estio, o verão temperado de ardências por entre verdes e azuis das safras.  Tempo melhor não havia para tomar banho com os queridos amigos nas águas do nosso rio.
  
         O nosso rio Cachoeira ficava brabo nas cheias, descia feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo a avenida do comércio, a principal da cidade. Descia feito um bicho do outro mundo, levando no lombo toro de pau, bicho morto, porta e janela. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo de minha cidade. Um poeta popular chegou a fotografar em versos a zanga do pequeno rio. Leia um trecho do que o poeta popular dizia.
                                              
                                   
As casas comerciais,
Assim que o dono chegava,
A que tinha ainda porta,
Quando ele a destrancava,
A sua mercadoria
Coberta de lama achava.

Tinha gente que acordava
Naquele grande alvoroço,
A água levando tudo
Fazendo o maior destroço,
O pobre salvava a vida
Com água pelo pescoço.


Cyro de Mattos é escritor de contos, crônicas, romance, poemas, literatura infantojuvenil, ensaio e memorialista. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Possui prêmios literários importantes. Também é editado no exterior.

* * *

quinta-feira, 26 de março de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA PELA SUA SAÚDE - Chá de maçã com alho aumenta a imunidade e limpa as artérias




O chá de maçã com alho é uma ótima bebida para fortalecer o sistema imunológico.
Chás de plantas medicinais são excelentes para cuidar da saúde.
O chá de maçã com alho é uma ótima bebida para fortalecer o sistema imunológico, pois possui ação anti-inflamatória, antibiótica antimicrobiana.
Além disso, devido às propriedades individuais dos dois ingredientes, favorece todo o organismo.

Benefícios da maçã

As propriedades benéficas da maçã estão em toda a fruta, inclusive na casca e sementes, que também possuem vitaminas essenciais à saúde
A maçã é rica em vitamina C e nutrientes capazes de estimular o sistema imunológico.
Elas possuem fibras que ajudam a transportar resíduos para fora do corpo. Desse modo, contribui para que o organismo desenvolva resistência, prevenindo contra gripes, resfriados e outras doenças respiratórias.
Além disso, segundo estudo publicado pela California State University, mulheres que comeram mais maçãs diminuíram os riscos de contrair asma. Isso se dá pela quercetina, presente na casca da fruta, e antioxidantes que protegem os pulmões dos danos oxidativos e reduz a inflamação.

Ajuda a reduzir o colesterol ruim
A maçã é rica em pectina, uma fibra solúvel presente na casca da fruta. Essa substância auxilia na redução do colesterol ruim (LDL).
No entanto, para obter o benefício, você não pode retirar a casca, caso contrário, não terá efeito.
Segundo estudo da Universidade Estadual da Flórida, Estados Unidos, o consumo de duas maçãs por dia também diminuiu o colesterol em mulheres após a menopausa.

Previne o diabetes
A fibra das maçãs ajuda a retardar a absorção de açúcares no corpo.
O destaque é a pectina, que atua no controle da glicemia e também na redução do colesterol ruim.

Faz bem ao coração
Devido às fibras solúveis que reduzem os níveis de colesterol no sangue, os polifenóis e antioxidantes, a maçã ajuda a diminuir a pressão arterial.
Segundo estudo da Medical University of Warsaw, os flavonoides da maçã afastam as doenças cardíacas.

Faz bem ao cérebro
A maçã é fonte de fisetina, um fitoquímico que favorece as células nervosas e estimula mecanismos cerebrais associados à memória.
Além disso, a quercetina presente na fruta atua como um antioxidante, prevenindo doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer.

Previne doenças oculares
Pelo fato de ser rica em flavonoides e antioxidantes, a maçã ajuda a prevenir os olhos contra os danos dos radicais livres.
Seu consumo regular previne doenças oculares como a degeneração macular, catarata, glaucoma e contribui para o tratamento da cegueira noturna.

Evita dores de garganta
Entre os benefícios da maçã, destaca-se o fato de ela ser considerada um bálsamo para a garganta.
Aliás, o consumo da fruta crua ou até mesmo em chá é recomendado para pessoas que fazem uso intenso da voz, como vendedores, artistas e radialistas.

Retarda o envelhecimento precoce
Devido à grande quantidade de antioxidantes presentes na maçã, a fruta ajuda a inibir os efeitos provocados pelo envelhecimento.
Ou seja, ajuda a retardar o aparecimento de rugas, manchas na pele, ressecamento, queda de cabelo e unhas quebradiças.

Benefícios do alho

O alho possui uma substância chamada alicina, que elimina bactérias e ataca vírus e parasitas. Junto com o ajoeno, outro nutriente do alho, ajuda a bloquear microrganismos causadores de doenças.
Porém, os benefícios vão muito além disso.
Confira!

Fortalece a imunidade
O alho contém vitaminas A e C, nutrientes essenciais para o bom funcionamento do sistema imunológico. Ele é considerado um excelente aliado na prevenção de gripes e resfriados. Além disso, o alho contém antioxidantes como selênio, alicina e quercetina, que ajudam na proteção dos danos causados pelos radicais livres.
O alho atua como descongestionante, eliminando tosse e catarro.
Melhora a circulação sanguínea
Devido ao seu alto teor de vitamina B, o alho ajuda evitar a coagulação do sangue. Ele diminui os níveis da homocisteína, um aminoácido relacionado ao endurecimento dos vasos sanguíneos e problemas cardiovasculares. Níveis elevados de homocisteína tornam o sangue mais espesso, provocando coágulos.
Importante: pelo fato de ser anticoagulante, o alho não deve ser consumido em excesso por gestantes, pessoas que já sofrem com problemas de coagulação ou por quem passará por cirurgia.

Faz bem ao fígado
O alho é rico em vitaminas A, B e C, que fazem bem ao fígado.
Além disso, possui ação anti-inflamatória, sendo recomendado para pacientes com gordura no fígado.Também ajuda a desintoxicar o organismo, elimina parasitas e toxinas, e até mesmo metais pesados.

Reduz o colesterol
Pelo fato de ser rico em alicina, o alho ajuda a diminuir os níveis de colesterol ruim, além de atuar como remédio depurativo, antisséptico e antibacteriano.

Ajuda na digestão
O alho estimula o ácido gástrico, ajudando a processá-los de maneira adequada. Porém, pessoas com tendência a refluxo, gastrite, úlceras, azia e outros problemas estomacais devem consumi-lo moderadamente.


Chá de maçã com alho
Ingredientes:
2 maçãs
2 dentes de alho
500 ml de água

Como fazer:
Lave bem as maçãs, corte em cubos pequenos – mantenha a casca e as sementes -coloque em uma panela, acrescente o alho cortado em fatias, a água e deixe ferver. Quando levantar fervura, desligue o fogo, tampe a panela e deixe em infusão por dez minutos.
Após esse tempo, coe o chá, adoce com mel e tome em seguida.
Faça esse chá com frequência, para poder aproveitar todos os seus benefícios.





* * *

quarta-feira, 25 de março de 2020

OS IDIOTAS – Marilia Perim


Os idiotas vão tomar conta do mundo; Não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos - de Nelson Rodrigues


Na Itália, diante da pandemia, a população confinada chega nas janelas para cantar unidos.

Na Espanha, os vizinhos se unem para ajudar aqueles que não podem sair de casa.

Em Portugal, as pessoas chegam até suas janelas para aplaudir os médicos que se arriscam salvando vidas.

E, no Brasil, diante dessa tragédia, ainda tem gente que sai às janelas para bater em panelas, só aumentando o sentimento de caos que está se instalando.

Triste demais viver em um país repleto de egoístas e ignorantes, que nem em um momento assim conseguem tirar os olhos dos próprios umbigos.

A mídia, que deveria informar, desinforma. Joga álcool no fogo da guerra Direita x Esquerda, com matérias tendenciosas e, quase sempre, mentirosas.

Lamentável ver a Globo convocando “especialistas” para, em longo tempo, insinuar que presidente e ministros de Estado não sabem usar uma máscara, os levando ao ridículo, debochando de uma equipe técnica que está trabalhando, sem dormir, sofrendo críticas e pressão, sem contar com alguns deles infectados ou na iminência do contágio do vírus que tanto está ferindo o mundo.

Tudo isso me fez lembrar uma frase de Nelson Rodrigues: “Os idiotas vão tomar conta do mundo; Não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos".

Que a bondade dos brasileiros de bom coração (independentemente de partido) se sobreponha aos interesses pessoais e políticos de outros.


Amém”.

Marilia Perim

(Recebi via WhatsApp)

* * *

terça-feira, 24 de março de 2020

CARTA DE UM MÉDICO PARA NAÇÃO! – Roberto Cacciari Filho



"Queridos brasileiros e brasileiras, acalmem-se! 

Quero dizer-lhes do fundo do meu coração e com toda força que vem da minha alma nesse momento: Vocês não estão a sós! Nós, profissionais da saúde, estamos a postos! Vamos enfrentar o que for preciso e acreditem, iremos vencer! 

Nós, brasileiros, somos mais fortes! Nosso país é grandioso e o Covid-19 não terá forças para apagar a nossa luz. Aqui o sol brilha mais! Temos o calor do clima e da solidariedade que agora se aflora. Tudo que é preciso estamos fazendo e nessa batalha sairemos mais fortes, valorizando muito mais a vida, as relações e nossos entes queridos. 

Ah querida Nação, como é bom ser brasileiro! Produzimos alimento para o mundo todo e com certeza nada faltará para nós, acalmem-se... Aproveitem para cuidar melhor do nosso maior patrimônio: Nosso Corpo! Procurem alimentos, se possível, com mais qualidade. Evite açúcares, conservantes, refrigerantes, bebidas alcoólicas, gorduras trans, carboidratos em excesso. Nossa alimentação está diretamente relacionada a imunidade. Evite excessos! 

Aproveite o Sol da manhã, energize-se e com isso irá elevar seus níveis de Vitamina D. Higienize seu corpo e sua mente. Pense positivamente, escute músicas que tranquilizam, lembre-se do nosso pai criador. Refaça seus planos, reorganize suas prioridades e logo tudo vai passar...

Caso tenham condições de praticar exercícios ao ar livre, façam isso! Em casa também é possível, temos ferramentas na internet que nos ensinam como fazer. Nesse momento, ativar nosso metabolismo é fundamental para otimizar nossa imunidade! 

Acreditem, nação brasileira: O amor irá vencer a Pandemia do medo! A Fraternidade é o antídoto para todos os males e nós, médicos, somos o instrumento de Deus para combater o sofrimento. 

A Felicidade irá prevalecer! A Esperança e a Fé nos alimentam nesse momento! Precisamos de vocês nação Brasileira! Aquietem-se em seus lares e transmitam em pensamento energias positivas para o reestabelecimento dos que precisam. 

Repito, estamos a Postos! 

Oremos! Que Deus nos Guarde!"

 Roberto Cacciari Filho - Catanduva-SP - Brasil




* * *

INVERSÃO – Ignácio de Loyola Brandão


Inversão


 Me chamam:
-  Pai, você por favor não saia. Por nada deste mundo.

-  Vô, cuidado, não ponha os pés na rua

-  Pai, nem chegue ao elevador.

-  Vô, nem passe de porta.

-  Pai, lave as mãos o máximo que puder.

-  Vô use álcool-gel e sabonete e água.

-  Tio, não ponha a mão na boca nem nos olhos.



Começamos a rir, Marcia e eu, lembrando aquelas recomendações que fazíamos aos filhos:

-  Voltem até à meia-noite.

(Na minha juventude, 18 anos, o limite era dez da noite)

-  Cuidado com as companhias! 

-  Não fiquem de madrugada namorando no portão.

-  Não bebam.

-  Não dirijam se beberem.



E às crianças recomendávamos: tire a mão suja da boca. Eles odiavam as precauções nossas.  Hoje amamos as precauções deles. Algo está mudando.

Mas precisava ser assim?


Portal da ABL, 23/03/2020

......
Ignácio de Loyola Brandão - Décimo ocupante da Cadeira 11 da ABL, eleito em 14 de março de 2019 na sucessão do Acadêmico Helio Jaguaribe.

* * *

segunda-feira, 23 de março de 2020

NOVOS CENÁRIOS NA ERA DO CORONAVÍRUS – Roberto de Mattei


22 de março de 2020

O coronavírus é um castigo divino? Considerações políticas, históricas e teológicas

Roberto de Mattei

O tema da minha palestra é Os novos cenários na Itália e na Europa com e após o coronavírus.

Não falarei sobre esse tópico do ponto de vista médico ou científico, pois não tenho competência nesses campos.

Em vez disso, tratarei do assunto sob outros três pontos de vista: do estudioso das ciências políticas e sociais; do historiador; e do ponto de vista do filósofo da História.

O estudo das ciências sociais

As ciências políticas e sociais são aquelas que estudam o comportamento do homem em seu contexto social, político e geopolítico. Desse ponto de vista, não me pergunto sobre as origens do coronavírus e sua natureza, mas sobre as consequências sociais que ele está tendo e terá.

Uma epidemia é a disseminação em escala nacional ou mundial (neste caso, é chamada de pandemia) de uma doença infecciosa que afeta um grande número de indivíduos de uma determinada população em um período muito curto de tempo.

O coronavírus, renomeado Covid-19 pela OMS, é uma doença infecciosa que começou a se espalhar a partir da China. A Itália é aparentemente o país ocidental mais afetado.

Por que a Itália está em quarentena hoje? Porque, como os analistas entenderam desde o primeiro momento, o problema do coronavírus não é tanto a taxa de letalidade da doença, mas a rapidez da infecção na população. Todos concordam que a letalidade da doença em si não é muito alta. Um paciente pode se recuperar se for assistido por pessoal especializado em unidades de saúde bem equipadas. Mas se, devido à rapidez da infecção, que pode afetar milhões de pessoas simultaneamente, o número de pacientes for galopante, faltarão instalações e funcionários: nesse caso os pacientes morrem porque são privados dos cuidados necessários. Para tratar casos graves, são necessários cuidados intensivos para ventilar os pulmões. Se esse suporte estiver ausente, os pacientes morrem. Se o número de pessoas infectadas aumentar os hospitais não poderão mais oferecer tratamento intensivo a todos e um número crescente de pacientes sucumbirá.

As projeções epidemiológicas são inexoráveis​​e justificam as precauções tomadas. “Se ficar descontrolado, o coronavírus pode afetar toda a população italiana; mas suponhamos que no final apenas 30% sejam infectados, cerca de 20 milhões. Se desses — contando por baixo — uns 10% entrar em crise, isso significa que, sem cuidados intensivos, eles estarão destinados a sucumbir. Seriam dois milhões de mortes diretas, além de todas as mortes indiretas resultantes do colapso do sistema de saúde e da ordem social e econômica resultante”[1].

O colapso do sistema de saúde também tem outras consequências. O primeiro é o colapso do sistema de produção do país.

As crises econômicas geralmente surgem da falta de demanda ou de oferta. Mas se aqueles que desejam consumir devem permanecer em casa e as lojas estão fechadas e aqueles que poderiam oferecer não podem levar seus produtos aos clientes porque as operações de logística, o transporte de mercadorias e os pontos de venda estão em crise, as cadeias de suprimentos–as supply chains colapsam. Os bancos centrais não conseguem salvar a situação: “A crise pós-coronavírus não tem solução monetária“, escreve Maurizio Ricci em La Repubblica, em 28 de fevereiro. Stefano Feltri, por sua vez, observa: “Receitas tipicamente keynesianas — criação de empregos e demanda artificial com dinheiro público — não são viáveis ​​quando os trabalhadores não saem de casa, os caminhões não circulam, os estádios estão fechados e as pessoas não reservam viagens de férias ou de negócios porque em casa há doentes ou temem infecções. Além de evitar crises de liquidez para as empresas, suspendendo os pagamentos de impostos e de juros aos bancos, a política é impotente. Um decreto do governo não é suficiente para reorganizar a cadeia de suprimentos”[2].

A expressão “tempestade perfeita” foi criada há vários anos pelo economista Nouriel Roubini para indicar uma mistura de condições financeiras que poderiam levar a um colapso do mercado. “Haverá uma recessão global devido ao coronavírus”, diz Nouriel Roubini, acrescentando: “A crise explodirá e resultará em um desastre”[3]. As previsões de Roubini foram confirmadas pela queda nos preços do petróleo após o fracasso de um acordo na OPEP, com a Arábia Saudita desafiando a Rússia e decidindo aumentar a produção e baixar os preços. Provavelmente serão ratificadas pelo desdobramento de eventos.

O ponto fraco da globalização é a “interconexão”, a palavra talismã do nosso tempo, da economia à religião. A Querida Amazônia do Papa Francisco é um hino à interconexão. Mas o sistema global é frágil precisamente porque está muito interconectado. E o sistema de distribuição de produtos é uma das cadeias dessa interconexão econômica.

Não se trata de mercados, mas da economia real. Não apenas as finanças, mas também a indústria, o comércio e a agricultura — ou seja, os pilares da economia de um país — podem entrar em colapso se o sistema de produção e distribuição estiver em crise.

Mas há outro ponto que começa a ser vislumbrado: não é apenas o colapso do sistema de saúde, não é só a possibilidade de uma rachadura econômica, mas também pode haver um colapso do Estado e da autoridade pública; em uma palavra, a anarquia social. As prisões em revolta na Itália indicam uma direção,

As epidemias têm consequências psicológicas e sociais pelo pânico que podem causar. A Psicologia Social nasceu entre o final do século XIX e o início do século XX. Um de seus primeiros expoentes é Gustave Le Bon (1841-1931), autor de um famoso livro intitulado Psicologia das Massas (1895).

Analisando o comportamento coletivo, Le Bon explica como no meio da multidão o indivíduo passa por uma mudança psicológica pela qual sentimentos e paixões são transmitidos de um indivíduo para outro “por contágio”, como nas doenças infecciosas. A moderna teoria do contágio social, inspirada em Le Bon, explica como, protegido no anonimato da massa, até o indivíduo mais pacífico pode se tornar agressivo, agindo por imitação ou sugestão. O pânico é um daqueles sentimentos transmitidos por contágio social, como aconteceu durante a Revolução Francesa no período chamado de “Grande Medo”[4].

Se à crise econômica se soma a crise da saúde, uma onda descontrolada de pânico pode desencadear impulsos violentos na multidão. O Estado é substituído por tribos, gangues, especialmente nos subúrbios de grandes centros urbanos. A anarquia tem seus agentes, e a guerra social, que foi teorizada pelo Fórum de São Paulo (uma confederação de organizações ultraesquerdistas latino-americanas), já é praticada na Bolívia e no Chile, Venezuela e Equador, e pode em breve expandir-se para a Europa.

Esse processo revolucionário certamente corresponde ao projeto dos lobbies globalistas, os “mestres do caos”, como os defineo professor Renato Cristin[5]. Mas, se isso é verdade, também é verdade que quem sai derrotado por essa crise é precisamente a utopia da globalização, apresentada como o principal caminho para levar à unificação da humanidade. De fato, a globalização destrói o espaço e pulveriza as distâncias: hoje, pelo contrário, a regra para escapar da epidemia é a distância social, o isolamento do indivíduo. A quarentena se opõe diametralmente à “Sociedade Aberta” defendida por George Soros. A concepção do homem como um relacionamento, típica de certo personalismo filosófico, entra em ocaso.

O Papa Francisco, após o fracasso da Querida Amazônia, concentrou-se fortemente na conferência dedicada ao Pacto Global, agendada no Vaticano para 14 de maio. A conferência, no entanto, foi adiada e ela não apenas se afasta no tempo, mas suas premissas ideológicas se dissolvem. O coronavírus nos traz de volta à realidade. Não é o fim das fronteiras, anunciado após a queda do Muro de Berlim, é o fim do mundo sem fronteiras. Não é o triunfo da nova ordem mundial, é o triunfo da nova desordem mundial. O cenário político e social é o de uma sociedade que se desintegra e se decompõe. Foi tudo planejado? É possível. Mas a História não é uma sucessão determinística de eventos. O Mestre da História é Deus, não os mestres do caos. É o fim da “aldeia global”. O assassino da globalização é um vírus global chamado coronavírus.

O historiador

Um hospital nos Estados Unidos, em 1918, lotado de vítimas da gripe espanhola.

A esta altura, o historiador se substitui ao observador político e tenta ver as coisas em uma perspectiva de longa distância. As epidemias acompanharam a história da humanidade desde seu início até o século XX e sempre se entrelaçaram com outros dois flagelos: guerras e crises econômicas. A última grande epidemia — a gripe espanhola da década de 1920 [foto] — estava intimamente ligada à Primeira Guerra Mundial e à Grande Depressão de 1929, também conhecida como the Great Crashuma crise econômica e financeira que abalou a economia mundial no final da década de 1920, com sérias repercussões também na década seguinte. Esses eventos foram seguidos pela Segunda Guerra Mundial.

Laura Spinnay é uma jornalista científica inglesa que escreveu um livro intitulado Pale Rider: The Spanish Flu of 1918 and How It Changed the World, traduzido como: 1918. A gripe espanhola, a pandemia que mudou o mundo. Seu livro nos informa que entre 1918 e 1920 o vírus espanhol infectou aproximadamente 500 milhões de pessoas, atingindo até habitantes de ilhas remotas do Oceano Pacífico e do Oceano Ártico, causando a morte de 50 a 100 milhões de pessoas, dez vezes mais que a Primeira Guerra Mundial. A Grande Guerra ajudou a espalhar o vírus pelo mundo. Laura Spinnay escreve: “É difícil imaginar um mecanismo de contágio mais eficaz do que a mobilização de grandes quantidades de tropas no auge da onda epidémica do outono, que chegaram aos quatro cantos do planeta, onde foram recebidos por multidões festivas. Basicamente, o que a gripe espanhola nos ensinou é que outra pandemia de gripe é inevitável, mas se causará dez ou cem milhões de vítimas depende apenas de como será o mundo no qual ela se desencadeará.”[6]

No mundo interconectado da globalização, a facilidade de contágio é certamente maior do que cem anos atrás. Quem poderia negar isso?

Mas o olhar do historiador remonta mais atrás no tempo.

O século XX foi o século mais terrível da História, mas houve outro século terrível, aquele que a historiadora Barbara Tuchman em seu livro A Distant Mirror chama de “O calamitoso século XIV” [7].

Quero focalizar esse período histórico, que marca o fim da Idade Média e o início da Era Moderna. Faço isso com base nos trabalhos de historiadores– não católicos, mas sérios e objetivos em suas pesquisas.

As Rogações são procissões convocadas pela Igreja para implorar a ajuda do Céu contra as calamidades. Nas Rogações, rezamos A fame, peste et bello libera nos, Domine: “da fome, da peste e da guerra, livrai-nos, Senhor”. A fome, a peste e a guerra sempre foram consideradas pelo povo cristão como castigos de Deus. A invocação litúrgica presente na cerimônia das Rogações — escreve o historiador Roberto Lopez — “retomou toda a sua dramática relevância durante o século XIV”.[8] “Entre os séculos X e XII — observa López — nenhum dos grandes flagelos que ceifam a humanidade parece ter-se espalhado em grande proporção; nem a peste, da qual não ouvimos falar neste período, nem a penúria, nem a guerra, que causou um número muito pequeno de vítimas. Além disso, as potencialidades da agricultura foram ampliadas por uma melhoria gradual do clima. Temos provas disso no recuo das geleiras nas montanhas e dos icebergs nos mares do Norte, na extensão da viticultura em regiões como a Inglaterra, onde hoje não é mais praticável, na abundância de água em territórios do Saara depois recuperados pelo deserto”[9].

Muito diferente foi a imagem do século XIV, que assistiu à convergência de catástrofes naturais e de sérias convulsões religiosas e políticas.

O século XIV foi um século de profunda crise religiosa: começou com a bofetada de Anagni (1303), uma das maiores humilhações do Papado na História; depois viu a mudança dos Papas, durante setenta anos, para a cidade de Avignon, na França (1308-1378), e terminou entre 1378 e 1417, com os quarenta anos do Cisma do Ocidente, no qual a Europa católica se dividiu entre dois e depois três papas opostos entre si. Um século depois, em 1517, a Revolução Protestante rasgou a unidade de fé do Cristianismo.

Se o século XIII havia sido um período de paz na Europa, o século XIV foi uma era de guerra permanente. Basta pensar na “Guerra dos Cem Anos” entre a França e a Inglaterra (1339-1452) e a invasão dos turcos ao Império Bizantino, com a conquista de Adrianópolis em 1362.

 Nesse século, a Europa experimentou uma crise econômica devido às mudanças climáticas causadas não pelo homem, mas pelo esfriamento. O clima da Idade Média era ameno e doce, como seus costumes. O século XIV, pelo contrário, experimentou um forte enrijecimento das condições climáticas.
As chuvas e inundações da primavera de 1315 resultaram em uma fome geral que assolou a Europa inteira, especialmente as regiões septentrionais, causando a morte de milhões de pessoas. A fome se espalhou por toda parte. Os idosos recusavam voluntariamente a comida na esperança de que os jovens sobrevivessem e os cronistas da época escreveram sobre muitos casos de canibalismo.

Uma das principais consequências da fome foi a desestruturação agrícola. Durante esse período, houve grandes movimentos de despovoamento agrícola, caracterizados pela fuga da terra e o abandono das aldeias; a floresta invadiu campos e vinhedos. Como consequência do abandono do campo, houve uma redução acentuada na produtividade do solo e um depauperamento dos rebanhos.

Se o mau tempo causa fome, isso enfraquece o corpo das populações, abre o caminho às doenças. Os historiadores Ruggero Romano e Alberto Tenenti mostram como no século XIV se intensificou o círculo vicioso entre penúrias e epidemias[10]. A última grande peste havia eclodido entre 747 e 750; reapareceu quase seiscentos anos depois, repetindo-se quatro vezes no curso de uma década.

A peste veio do Oriente e chegou a Constantinopla no outono de 1347. Nos três anos seguintes, infectou toda a Europa até a Escandinávia e a Polônia. É a Peste Negra [quadro ao lado] de que fala Boccaccio no Decamerão. A Itália perdeu cerca da metade de seus habitantes. Agnolo di Tura, cronista de Siena, reclamou que não encontrava mais ninguém para enterrar os mortos e que ele teve que enterrar seus cinco filhos com as próprias mãos. Giovanni Villani, um cronista florentino, foi atingido pela peste de forma tão repentina que sua crônica parou no meio de uma frase.

A população europeia, que no início de 1300 atingira mais de 70 milhões de habitantes, após um século de guerras, epidemias e fomes desceu para 40 milhões; portanto, diminuiu mais de um terço.

A fome, a peste e as guerras do século XIV foram interpretadas pelo povo cristão como sinais do castigo de Deus.

Tria sunt flagella quibus dominus castigat: três são os flagelos com os quais Deus castiga os povos: guerra, peste e fome, advertiu São Bernardino de Siena (1380-1444)[11]. São Bernardino de Siena pertence a esse número de santos — como Catarina de Siena, Brígida da Suécia, Vicente Ferrer, Luís Maria Grignion de Montfort — que explicaram como, ao longo da História, os desastres naturais sempre acompanharam as infidelidades e apostasias das nações.

Isso que aconteceu no final da Idade Média cristã parece acontecer com as calamidades de hoje. Santos como Bernardino de Siena não atribuíram esses eventos à atuação dos agentes do mal, mas aos pecados dos homens, tão mais graves se forem pecados coletivos e ainda mais graves se forem tolerados ou promovidos pelos governantes dos povos e pelas autoridades da Igreja.

O filósofo da História

Essas considerações nos introduzem no terceiro ponto de vista sob o qual considerarei os eventos, não como sociólogo ou historiador, mas como filósofo da História.

A Teologia e a Filosofia da História são campos de especulação intelectual que aplicam os princípios da teologia e da filosofia a eventos históricos. O teólogo da História é como uma águia que julga dos cimos os eventos humanos. Grandes teólogos da História foram Santo Agostinho (3054-430), Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704), que foi chamado de águia de Meaux, do nome da diocese da qual foi bispo, o conde Joseph de Maistre (1753-1821), o marquês Juan Donoso Cortés (1809-1853), o abade de Solesmes, Dom Guéranger (1805-1875), o professor Plinio Corrêa de Oliveira (1908-1995) e muitos outros.

Há uma expressão bíblica que diz: Judicia Dei abyssus multa (Salmos 35, 7): os juízos de Deus são um grande abismo. O teólogo da História se submete a esses juízos e tenta entender-lhes a razão.

São Gregório Magno [quadro ao lado], convidando-nos a investigar as razões da obra divina, declara: “Quem, nas obras de Deus, não descobre a razão pela qual Deus as faz, encontrará em sua maldade e baixeza motivos suficientes para explicar por que suas indagações são em vão”[12].

A filosofia e a teologia modernas, sob a influênciasobretudo de Hegel, substituíram os juízos de Deus pelos da História. O princípio de que a Igreja julga a História é invertido. De acordo com a Nouvelle théologie, não é a Igreja que julga a História, mas a História que julga a Igreja, porque a Igreja não transcende a História, mas é imanente, interna a ela.

Quando o cardeal Carlo Maria Martini, em sua última entrevista, afirmou que “a Igreja está 200 anos atrasada” em relação à História, ele tomou a História como critério de julgamento da Igreja. Quando o Papa Francisco, em sua saudação de Natal de 21 de dezembro de 2019, faz suas as palavras do cardeal Martini, ele julga a Igreja em nome da História, revertendo o que deveria ser o critério católico de julgamento.

A História é realmente uma criatura de Deus, como a natureza, como tudo o que existe, porque nada do que existe é subtraído de Deus. Tudo o que acontece na História é previsto, regrado e ordenado por Deus desde toda a eternidade.

Portanto, para o filósofo da História, todo discurso só pode começar com Deus e terminar com Deus: Deus não apenas existe, mas toma conta das criaturas e recompensa ou castiga os seres racionais de acordo com os méritos e as falhas de cada um. O Catecismo de São Pio X ensina: “Deus recompensa o bem e castiga o mal porque é justiça infinita”.

A justiça — explicam os teólogos — é uma das infinitas perfeições de Deus[13]. A misericórdia infinita de Deus pressupõe sua justiça infinita.

Entre os católicos, a ideia de justiça, como a do juízo divino, é frequentemente repelida. No entanto, a doutrina da Igreja ensina a existência de um juízo particular que se segue à morte de cada um, com a retribuição imediata às almas e um julgamento universal em que anjos e homens serão julgados por pensamentos, palavras, obras, omissões.

A Teologia da História afirma que Deus recompensa e pune não apenas os homens, mas coletividades e grupos sociais: famílias, nações, civilizações. Mas enquanto os homens têm sua recompensa ou seu castigo, às vezes na Terra, mas sempre na eternidade, as nações, sem vida eterna, são punidas ou recompensadas apenas na Terra.

Deus é justo e recompensador, e dá a cada qual o que lhe corresponde: não castiga apenas as pessoas individuais como também atribula famílias, cidades, nações, pelos pecados que são cometidos lá. Terremotos, fome, epidemias, guerras, revoluções sempre foram considerados punições divinas. Como escreve o padre Pedro de Ribadaneira (1527-1611), “guerras e pragas, secas e fomes, incêndios e todas as outras calamidades desastrosas são punições pelos pecados do povo”[14].

Em 5 de março, o bispo de uma importante diocese italiana cujo nome não menciono, disse: “Uma coisa é certa: esse vírus não foi enviado por Deus para punir a humanidade pecadora. É um efeito da natureza em sua característica de madrasta. Mas Deus enfrenta esse fenômeno conosco e provavelmente nos fará entender, no fim, que a humanidade é uma aldeia global”.

Esse bispo italiano não renuncia ao mito da “aldeia global” nem à religião da natureza de Pachamama e de Greta Thurnberg, mesmo que para ele a “Grande Mãe” possa se tornar “madrasta”. Mas, acima de tudo, rejeita fortemente a ideia de que a epidemia de coronavírus ou qualquer outro desastre coletivo possa ser uma punição para a humanidade. O vírus, segundo o bispo, é apenas um efeito da natureza. Mas quem criou, regula e dirige a natureza? Deus é o Autor da natureza, com suas forças e suas leis e tem o poder de organizar o mecanismo das forças e leis da natureza para produzir um fenômeno de acordo com as exigências de sua justiça ou de sua misericórdia. Deus, que é a causa primeira de tudo que existe, sempre usa causas segundas para realizar seus planos. Quem tem espírito sobrenatural não se detém na superfície, mas tenta entender o plano de Deus escondido sob a força aparentemente cega da natureza.

O grande pecado contemporâneo é a perda da fé dos homens da Igreja: não deste ou daquele homem da Igreja, mas dos homens da Igreja como um todo, com algumas exceções graças às quais a Igreja não perde a sua visibilidade. Essa infidelidade produz a cegueira da mente e o endurecimento do coração, a indiferença diante da violação da ordem divina do universo.

É uma indiferença que esconde o ódio contra Deus. Como ela se manifesta? Não diretamente. Esses clérigos são covardes demais para desafiar diretamente a Deus. Eles preferem expressar seu ódio para com aqueles que ousam falar de Deus, e aqueles que ousam falar de castigo de Deus são apedrejados, um rio de ódio se derrama contra eles.

Esses homens da Igreja, apesar de professarem verbalmente acreditar em Deus, na verdade vivem imersos no ateísmo prático. Eles despojam Deus de todos os seus atributos, reduzindo-O a puro “ser”, isto é, a nada. Tudo o que acontece é para eles fruto da natureza emancipadade seu Autor, e somente a ciência, e não a Igreja é capaz de decifrar suas leis.

Contudo, não apenas a sã teologia, mas o próprio sensus fidei ensina que todos os males físicos e materiais que não provêm do homem dependem da vontade de Deus. “Tudo o que acontece aqui contra a nossa vontade — escreve Santo Afonso de Ligório —, sabei que isso não acontece senão pela vontade de Deus, como diz Santo Agostinho”[15].

Em 19 de julho, a liturgia da Igreja comemora o bispo de São Lopo de Troyes (383-478). Ele era irmão de São Vicente de Lérins, cunhado de São Hilário de Arles, pertencente a uma família de antiga nobreza senatorial, mas acima de tudo de grande santidade.

Durante seu longo episcopado — 52 anos — a Gália foi invadida pelos hunos. Átila, à frente de um exército de quatro mil homens, atravessou o Reno, devastando tudo o que encontrava em seu caminho. Quando ele chegou diante da cidade de Troyes, o bispo Lopo, revestido das roupas pontifícias e seguido pelo clero em procissão, encontrou Átila e perguntou: “Quem és tu que ameaças esta cidade?”. A resposta foi: “Não sabeis quem sou? Eu sou Átila, rei dos hunos, chamado o flagelo de Deus ”. “E então seja o flagelo bem-vindo de Deus, porque merecemos os flagelos divinos, por causa de nossos pecados. Mas, se for possível, desfira seus golpes apenas na minha pessoa, e não em toda a cidade.”

Os hunos entraram na cidade de Troyes, mas por vontade divina foram cegados e a atravessaram sem dar-se conta nem ferir ninguém.

Hoje, os bispos não somente não falam de flagelos divinos, mas também não convidam os fiéis a rezar a Deus para libertá-los da epidemia. Há uma coerência nisso. Quem reza pede de fato a Deus para intervir em sua própria vida e, portanto, nas coisas do mundo, para ser protegido do mal e obter bens espirituais e materiais. Mas por que Deus ouviria nossas orações se Ele não está interessado no universo que criou?

Se, pelo contrário, Deus pode com milagres mudar as leis da natureza, evitando o sofrimento e a morte de um homem, ou a hecatombe de uma cidade, Ele também pode decidir o castigo de uma cidade ou de um povo, porque pecados coletivos atraem punições coletivas. “Pelos pecados — diz São Carlos Borromeu – Deus permitiu que o incêndio da peste se difundisse em cada setor em Milão.“[16]. E São Tomás de Aquino explica: “Quando todo o povo peca, deve–se tirar vingança dele, ou totalmente, como no caso dos egípcios que, perseguindo os filhos de Israel, ficaram submersos no Mar Vermelho; e também no dos sodomitas, que pereceram todos — o que se lê na Escritura. Ou em grande parte do povo, como no caso dos que adoraram o bezerro.“[17]

Na véspera da segunda sessão do Concílio Vaticano I, em 6 de janeiro de 1870, São João Bosco teve uma visão na qual lhe foi revelado que “a guerra, a praga, a fome são os flagelos com os quais o orgulho e a malícia dos homens serão atingidos”. Assim disse o Senhor: “Vós, sacerdotes, por que não correis chorando entre o vestíbulo e o altar, invocando a suspensão dos flagelos? Por que não pegais o escudo da fé e caminhais por cima dos telhados, nas casas, nas ruas, nas praças, em todo lugar, até inacessível, para levar a semente da minha palavra? Vós ignorais que esta é a terrível espada de dois gumes que derruba meus inimigos e que quebra a ira de Deus e dos homens?”[18].

Hoje os sacerdotes estão calados, os bispos estão calados, o Papa está calado.

Praça de São Pedro inteiramente vazia…

Estamos nos aproximando da Semana Santa e da Páscoa. E, pela primeira vez, talvez em muitos séculos na Itália, as igrejas estarão fechadas, as missas suspensas, até a Basílica de São Pedro estará fechada. As cerimônias pascais urbe et orbi não reunirão peregrinos de todo o mundo. Deus também pune por “subtração”, diz São Bernardino de Siena, e hoje Deus parece ter quase subtraído as igrejas da Mãe de todas as igrejas, da mão do supremo Pastor, enquanto o povo católico tateia confuso no escuro, desprovido daquela verdade clara que da Basílica de São Pedro deve iluminar o mundo. Como não ver no que o coronavírus está produzindo um resultado simbólico da autodemolição da Igreja?

Judicia Dei abyssus multa. Devemos ter certeza de que o que acontece não prefigura o sucesso dos filhos das trevas, mas a sua derrota, porque, como explica o Padre Carlo Ambrogio Cattaneo, da Companhia de Jesus (1645-1705), o número de pecados, de um homem ou de um povo, é contado[19]Venit dies iniquitate praefinita, diz o profeta Ezequiel (21, 2): Deus é misericordioso, mas há um último pecado que Deus não tolera e que provoca seu castigo.

Além disso, de acordo com um princípio da Teologia da História cristã, o centro da História não são os inimigos da Igreja, mas os santos. Omnia sustineo propter electos (II Tim. 2, 10), diz São Paulo. A História gira em torno dos eleitos. E a História depende dos desígnios impenetráveis ​​da Divina Providência.

Na História, atuam homens, grupos, sociedades organizadas, públicas ou secretas, que se opõem à Lei de Deus, que se esforçam para destruir tudo o que é ordenado a Deus. Eles podem obter sucessos aparentes, mas sempre serão derrotados.

O cenário que temos diante de nós é apocalíptico, mas Pio XII nos recorda que no Apocalipse (6, 2) São João, “não olhou apenas as ruínas causadas pelo pecado, guerra, fome e morte; Ele também viu pela primeira vez a vitória de Cristo. E, de fato, o caminho da Igreja através dos séculos é, sim, uma via sacra, mas também é em cada momento uma marcha triunfal. A Igreja de Cristo, os homens de fé e de amor cristão são sempre aqueles que, a uma humanidade sem esperança, trazem a luz, a redenção e a paz. Iesus Christus heri et hodie, ipse et in saecula (Hebr. 13, 8). Cristo é vosso guia, de vitória em vitória. Segui-O.”[20]

Nossa Senhora de Fátima profetizou o cenário de nosso tempo e garantiu seu triunfo. Com a humildade de quem é ciente de que nada pode com suas próprias forças, mas também com a confiança de quem sabe que tudo pode com a ajuda de Deus, não retrocedamos e nos consagremos a Maria na trágica hora dos acontecimentos anunciados pela Mensagem de Fátima.

[1] Francesco Sisci,Il Sussidiario.net,9 marzo 2020.
[2]Stefano Feltri,Il Fatto quotidiano, 4 marzo 2020.
[4]Pierre Gaxotte,La Révolution française,Complexe, Paris 1988, pp. 93-128.
[5]Renato Cristin,I padroni del caos,Liberlibri, Macerata 2017.
[6]Laura Spinney,1918. L’influenza spagnola. La pandemia che cambiò il mondo,Marsilio, Venezia 1918, p. 187.
[7]Barbara Tuchman,A distant Mirror. The Calamitous Fourteenth Century,Macmillan Publishers, Londra 1995.
[8]Roberto S. Lopez,La nascita dell’Europa. Secoli V-XIV, Einaudi, Torino 1966, p. 427.
[9] Ivi, p. 133.
[10]Ruggero Romano-Alberto Tenenti,Alle origini del mondo moderno 1350-1550, Feltrinelli, Milano 1967, pp. 16-26.
[11]San Bernardino,Opera omnia, Sermo 46, Feria quinta post dominicam de Passione, vol. II, pp. 84-85.
[12]S. Gregorio Magno,Moralia,Lib. IX, cap. I.
[13]Réginald Garrigou-Lagrange,Dieu, son existence et sa nature, Beauchesne, Paris 1950, pp. 440-463.
[14]Pietro Ribadaneira, La tribolazione e i suoi conforti, Civiltà Cattolica, Roma 1914, p. 207.
[15]S. Alfonso Maria de’Liguori,Uniformità alla volontà di Dio, Francavilla, Paoline 1968, p. 33.
[16]S. Carlo Borromeo,Memoriale al suo diletto popolo della città di Milano, Stamperia Michele Tini, Roma 1579, p. 44.
[17]S. Tommaso d’Aquino,Summa Theologica,IIª-IIae q. 108 a. 1 ad 5.
[18] Cfr. Memorie biografiche del venerabile don Giovanni Bosco. Raccolte del sac. Salesiano Giovanni Battista Lemoyne, edizione extra commerciale, vol. IX, Tipografia S.A.I.D. “Buona Stampa”, Torino 1917, p. 782.
[19]Carlo Ambrogio Cattaneo s.j., L’esercizio della buona morte, in Opere, vol. II, Boniardi, Milano 1867, pp. 169-170.
[20]Pio XII, Discorso del 12 settembre 1948 in Discorsi e Radiomessaggi, X (1948-1949), p. 212.



* * *