Como alguém, em sã consciência, pode ter saudades de um
governo que tinha, apenas, 12 ministérios? Prova, inequívoca, que o país não
era bem administrado.
Como confiar em presidentes que morreram pobres? Um homem
que ocupa o cargo máximo de uma nação, sem fazer fortuna, prova que não sabe
aproveitar oportunidades, nem gerir o patrimônio próprio. Um incapaz.
Como ser saudoso de uma época de ditadura, onde todos os
cidadãos tinham direito ao livre acesso às armas de fogo? E pior, a repressão
era tão violenta que, mesmo armados, os cidadãos não se matavam. Isso demonstra
o medo da população contra aquele governo bárbaro.
Como respeitar um regime que criou o INSS, o PIS, o PASEP,
regulamentou o 13º, instituiu a correção monetária, criou o Banco Nacional da
Habitação, o FUNRURAL, construiu mais de 4 milhões de moradias e abriu 13
milhões de vagas de emprego?
Melhor nem falar de infraestrutura. Em 21 anos, conseguiram,
apenas, asfaltar 43.000Km de estradas, construir 4 portos, reformar outros 20,
instalar as maiores hidrelétricas do mundo, decuplicar a produção da Petrobrás,
criar a Embratel e a Telebras, implementar dois polos petroquímicos, entre
outras coisinhas sem importância.
A educação era ridícula. Pegaram o país com 100 mil
estudantes secundaristas e transformaram em 1.3 milhões. Criaram o Mobral, o
CESEC, a CNPQ e o programa de Merenda Escolar.
Nestes vergonhosos anos de chumbo, onde o PIB cresceu 14%,
as exportações saltaram de 1.5 para 37 bilhões, atingimos a 7ª economia mundial
e nos tornamos o 2º maior produtor de navios do planeta. Uma catástrofe!
Realmente, durante essa página negra da história nacional,
pelo visto, apenas os presídios funcionavam. Esses, sim, um exemplo. Neles
entraram terroristas, assassinos, assaltantes, guerrilheiros, sequestradores, e
saíram deputados, ministros, governadores e, até, dois presidentes. Isso que é
recuperação.
A pessoa de fé reconhece os perigos, procura precaver-se e
evitá-los, mas não se deixa dominar por eles
Aameaça de uma nova pandemia (epidemia de abrangência
mundial), causada pelo coronavírus Covid-19, vindo da China, tem gerado
apreensão e medo em todos nós. Esse sentimento foi até batizado de “ansiedade
pandêmica”. Existe um aspecto realista nesse medo.
As pandemias decorrem da proliferação de novos agentes
infecciosos, frutos de mutações em microrganismos que existem há milhares de
anos, mas vem ganhando a capacidade de se proliferar rapidamente na população
humana, causando doenças com índices de mortalidade relativamente altos. A
evolução do Covid-19 é incerta, assim como de outros semelhantes, não sabemos como
se comportará no futuro. Pode ser que fique restrito às áreas já atingidas e/ou
que perca a letalidade, se tornando facilmente administrável pelos serviços de
saúde pública. Pode ser que se alastre por todo o mundo, mantendo sua
letalidade.
O vírus ebola, por exemplo, matou, desde 1976, quando foi
identificada, até hoje, mais de 11 mil pessoas, a grande maioria concentrada em
países africanos. Toda pessoa que morre é uma grande perda e esse número não
deixa de ser grande, mas fica pequeno quando comparado com a letalidade da
gripo espanhola, que entre 1918 e 1919 matou cerca de 50 a 100 milhões de
pessoas em todo o globo – enquanto a Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e
1918, matou aproximadamente 8 milhões de pessoas. Sob esse ângulo, portanto, os
cuidados das agências de saúde e de toda a população com novos vírus são mais
que justificáveis.
Por outro lado, existe um alarmismo irracional nesse medo. O
sarampo, por exemplo, em 2018, vitimou 142 mil pessoas (mais de 11 mil por mês,
em média), enquanto o Covid-19 matou, nos últimos dois meses, pouco mais de 3
mil pessoas. Então porque as escolas não são fechadas com medo do sarampo, as
bolsas não caem, nem os eventos públicos são cancelados? Em parte, porque as
populações afetadas estão principalmente nos países pobres e em bolsões de
pobreza, mas principalmente porque já conhecemos o sarampo, sabemos como lidar
com ele, não tememos uma explosão pandêmica inesperada, como temos em relação
ao Covid-19. Um temor em parte racional, como vimos acima, mas por outra parte
totalmente irracional.
A confiança contra o pânico
Temer o desconhecido é um instinto necessário à
sobrevivência das espécies, inclusive da nossa. Uma criança temerosa tem muito
menos chance de se acidentar que uma outra arrojada. Mas, por outro lado, um
adulto apavorado tem muito menos chance de fazer escolhas adequadas que um
outro sereno. Por isso, o medo irracional e instintivo deve amadurecer, em
nosso desenvolvimento, para se tornar uma prudência responsável e racional, que
avalia as situações e evita riscos desnecessários.
Aleteia já relembrou, a respeito da atual epidemia de
coronavírus, as exortações do
Papa Francisco para que não sejamos dominados pelo medo, em qualquer situação.
Podemos também relembrar a exclamação de São João Paulo II, no início de seu pontificado: “Não tenhais medo de
acolher Cristo e de aceitar o Seu poder!”. Medo de acolher a Cristo? Mas nosso
medo é das pandemias… Na verdade, para o cristão, todos os medos são uma
consequência de não nos entregarmos totalmente a Cristo. A pessoa de fé
reconhece os perigos, procura precaver-se e evitá-los, mas não se deixa dominar
por eles. Quem vive com medo das coisas tem, no fundo, medo de se entregar a
Cristo, de fazer a experiência de que Ele pode nos salvar, ainda que de forma
impensável para nós.
Por isso, a forma pela qual enfrentamos a ameaça do
Covid-19, ou qualquer outra possível pandemia dos nossos tempos, é um indicador
(não o único, evidentemente) do quanto a nossa fé ultrapassa os limites das
celebrações e dos gestos religiosos, para se tornar realmente um critério de
orientação diante dos desafios da vida. Nessa perspectiva, nossa capacidade de
lidar com situações como essa, da atual crise do coronavírus implica em:
Serenidade diante dos muitos desafios e ameaças da vida, que
– para o cristão – nasce da confiança no amor e na providência divinas, que nos
permite reconhecer os perigos, sem nos deixar definir por eles.
Estar bem informado sobre o que está acontecendo, evitando
fake news e procurando sempre as indicações de especialistas e dos órgãos de
saúde. Esta é a forma de praticar o realismo cristão nesse momento.
Atitudes responsáveis e condizentes com a gravidade da
situação, sem alarmismos, mas também evitando riscos desnecessários.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João,
seu irmão, e os levou a um lugar à parte, sobre uma alta montanha. E foi
transfigurado diante deles; o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas
ficaram brancas como a luz. Nisto apareceram-lhe Moisés e Elias,
conversando com Jesus. Então Pedro tomou a palavra e disse: “Senhor, é bom
ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para ti, outra para
Moisés e outra para Elias”.
Pedro ainda estava falando, quando uma nuvem luminosa os
cobriu com sua sombra. E da nuvem uma voz dizia: “Este é o meu Filho amado, no
qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!”
Quando ouviram isto, os discípulos ficaram muito assustados
e caíram com o rosto em terra. Jesus se aproximou, tocou neles e disse:
“Levantai-vos e não tenhais medo”.
Os discípulos ergueram os olhos e não viram mais ninguém, a
não ser somente Jesus. Quando desciam da montanha, Jesus ordenou-lhes:
“Não conteis a ninguém esta visão até que o Filho do Homem tenha ressuscitado
dos mortos”.
“O seu rosto brilhou como o sol e as suas vestes ficaram
brancas como a luz” (Mt 17,2)
“Saí de vossas trevas! Deixai para trás a segurança do vale
e empreendei, sem medo, a subida ao monte, porque lá no alto a luz vos
espera!”. Este poderia ser o apelo do evangelho da Transfiguração, que pede de
nós mobilidade para sair das falsas seguranças de uma vida sem horizontes. De
fato, há em nós uma força atrofiadora que nos faz preferir a acomodação,
permanecendo tranquilos, perdidos no imediato e alheios à capacidade de
transfiguração que se esconde por detrás da aparente normalidade das pessoas e
das coisas.
“O mundo está cheio de esplendor espiritual e de segredos
maravilhosos, mas basta um pequeno cisco sobre nossos olhos para que tudo fique
escondido”(Baal Sem Tov). Por isso, no Evangelho de hoje, e com diferentes
graus de intensidade, o evangelista sai da esfera plana das descrições precisas
e exatas e se expressa na linguagem do excessivo, do simbólico, do totalizante:
“seu rosto brilhou como o sol”, “suas roupas ficaram brilhantes como a luz”,
“uma nuvem luminosa os cobriu”... E como contraste escuro frente a tanta luz,
três pobres homens assustados que balbuciam disparates, que preferiam
permanecer junto a esta situação tão surpreendente.
A Transfiguração está nos dizendo quem era realmente Jesus e
quem somos realmente cada um de nós. Essa cena que Mateus relata é um símbolo
das muitas “experiências de transfiguração” que todos experimentamos. A vida
diária tende a fazer-se cinza, monótona, cansada, e a deixar-nos desanimados,
sem forças para caminhar. Mas, eis que surgem momentos especiais, com
frequência inesperados, em que uma luz atravessa nosso coração, e os olhos de
nossa interioridade nos permitem ver muito mais longe e muito mais fundo
daquilo que estávamos acostumados a olhar até esse momento.
A realidade é a mesma, mas nos aparece transfigurada, com
outra figura, revelando sua dimensão interior, essa na qual tínhamos
acreditado, mas que com o cansaço do caminhar tínhamos esquecido. Essas
experiências, verdadeiramente espirituais, nos permitem renovar nossas energias
e, inclusive, entusiasmar-nos para continuar caminhando, com o sentimento de
“como se víssemos o Invisível”.
Aquele Monte (Tabor) foi um espaço instigante para Jesus,
lugar alto de sua experiência radical, de onde Ele podia ver os problemas da
humanidade, para senti-los, para assumi-los e mudar... O mesmo Jesus nos faz
subir à grande montanha para que vejamos as coisas de outra forma, de outra
perspectiva...
É preciso, de vez em quando, tomar distância e nos afastar
do cotidiano rotineiro e atrofiado, para ampliar nossa visão e contemplar o drama
humano; é decisivo nos situar diante do calor de Deus (sarça ardente) para
desvelar nossa verdadeira identidade. Somente assim a Montanha nos
transfigurará para que nos empenhemos no serviço em favor dos “desfigurados” do
mundo.
Todos nós aspiramos por experiências como a dos discípulos
de Jesus no alto do Tabor. Mas nós não podemos nos encontrar com Jesus no Tabor
da Galileia. Necessitamos buscar nosso Tabor particular, os rincões de nossa
morada interior, onde estão as fontes que mais forças nos dão, as luzes com as
quais nos sintonizamos para iluminar e dar um novo significado ao nosso
compromisso primeiro. Todos nós somos portadores de uma luz que procede de
dentro, uma iluminação interior, que só aquele que vive a partir de sua própria
interioridade consegue ter acesso a ela.
Ao relatar suas experiências espirituais, muitos místicos
fazem referência a uma luz que ilumina com força seu interior. É uma graça que
não se revela rara, pois temos consciência que “Deus é luz” e que o mesmo Jesus
se definiu como a “Luz do mundo”. Somos envolvidos providencialmente por esta
expansiva Luz. Todas as pessoas que fizeram esta experiência de encontro com o
“Deus da Luz”, puseram os meios para fazer a viagem interior e ativar a “faísca
da luz divina” ali presente. Na medida em que se deixaram invadir por essa Luz,
aproximaram-se cada vez mais dela para vivê-la com mais intensidade e para
deixá-la refletir em seus rostos e ações. Por isso, foram pessoas de presenças
originais e iluminantes em seu meio.
No ritmo do cotidiano, o dom imenso da luz passa
desapercebido. Que o digam aqueles que não podem ver; que o digam aqueles que
nunca puderam estremecer-se diante de um pôr-do-sol ou diante das cores vivas
de uma pintura; que o digam aqueles que nunca puderam ver o brilho de uns olhos
cheios de amor... Na costumeira cotidianidade, o perigo de não valorizar a luz
é evidente; no entanto, para quem contempla sua cotidianidade, a formosura da
luz que se derrama sobre nós que vivemos neste planeta sem luz própria é a
prova da generosidade de Deus para conosco.
Por isso mesmo, há vidas luminosas e vidas obscuras. Há
pessoas cuja luz interior transfigura suas vidas: vivem na transparência da
luz, seus gestos e atos são luminosos, admiram-se com o brilho da vida e
desejam que tudo tenha esse brilho, iluminam com sensata positividade tudo o
que acontece ao seu redor, colocam-se sempre na perspectiva de quem desfruta da
cor e do amor no encontro com os outros...
O resplendor da Transfiguração brilha no interior de cada um
de nós; não nos vemos vazios por dentro porque no mais profundo de nós, na
morada mais interior, está o “sol de onde procede uma grande luz” (Santa Teresa
de Jesus). Deixar-nos transfigurar. Somos seres de luz e nossa verdadeira
transformação nasce de nosso interior.
Na Transfiguração, Jesus nos faz descobrir nosso verdadeiro
ser, que vemos refletido n’Ele. A transfiguração não é condição de um
“iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio
amor, querer e interesse” (S. Inácio). Deixar-se transfigurar é descentrar-se e
expandir sua luz, para realizar aquele chamado único de Jesus dirigido a todos:
“Vós sois a luz do mundo”.
Transfiguração é festa da luz: Jesus é a Luz e no encontro
com Sua Luz podemos ativar a tímida luz presente no nosso interior. Só assim
podemos ampliar os espaços de luz em nossas vidas, para contagiar-nos de luz e
para comunicar uma mística de luz em nosso entorno. Não se trata de falsas
iluminações, mas de alcançar outra perspectiva de vida, mais luminosa, mais positiva,
mais esperançada.
Para transitar na noite de nosso tempo precisamos buscar, na
Transfiguração, a Luz que a ilumine e nos indique a direção e o sentido de
nossa existência. A “noite de nosso mundo”- carregada de tanta corrupção,
violência, preconceito e intolerância - pede pessoas marcadas pela experiência
da Transfiguração, capazes de ver a presença d’Aquele que é a Luz no meio das
realidades simples e cotidianas, no profundo do coração de cada ser humano, de
cada realidade vivente, de cada palmo de nossa terra, no mistério insondável do
universo grávido de graça.
Precisamos cultivar não só olhos que vejam a realidade,
senão que sejam capazes de contemplar, no meio da noite, a presença da Luz: uma
luz que brota das profundezas da realidade, do profundo do ser, onde o Deus,
Fonte de vida, sustenta tudo; uma Luz que nos faz descobrir nosso ser
essencial: filhos e filhas amados(as) e irmanados(as) com todos e com
tudo.
Texto bíblico: Mt. 17, 1-9
Na oração: Na nossa vida cristã, não faltam momentos de
claridade e certeza, de alegria de luz.
E tudo depende de nossa visão, ou seja, se nosso olhar só
capta o imediato e rasteiro que nos rodeia, ou se é capaz de descobrir o
profundo e o luminoso em tudo...
- Como é seu olhar? Você é capaz de transfigurar o olhar
para captar a presença da Luz, da profundidade de sentido, da presença de
Deus... que há por detrás de cada circunstância?
- Sua presença cotidiana, é oportunidade para deixar
transfigurar sua luz interior, que se visibiliza na bondade, na compaixão, no
compromisso com a vida...?
Um homem
nascido às 06:30h da tarde do dia seis de maio de 1856, em Freiberg, na
Moravia, que hoje pertence à Tchecoslováquia, modificou profundamente a nossa
visão do mundo e a consciência que tomamos de nós mesmos.
É certo
que o neurologista Sigmund Freud não descobriu inconsciente, cuja existência
foi bem conhecida pelos filósofos, de PIatão a Leibniz. Mas descobriu as intervenções
do inconsciente nos setores da vida orgânica e da vida consciente que se julgava
preservados da sua influência: descobriu a natureza do tal inconsciente: foi o
primeiro a perceber a importância dele.
Ateu
convicto desde os tempos de estudante, dizia-se não-identificado nem com a
religião judaica nem com qualquer outra, e o que mais caracterizou a sua
personalidade foi o seu ímpeto, honestidade e firmeza de caráter, contestando
os velhos tabus e preconceitos da sociedade de sua época. No entanto o seu
espírito de cientista influenciou a trajetória de outras estrelas, como o
antropólogo francês Claude Levi-Strause, o crítico literário também francês
Roland Barthes e toda a geração de artistas do movimento surrealista, de André
Breton a Salvador Dali.
A
psicanálise chegou ao domínio público, sem dúvida que há razões extracientífica
para esse sucesso. Mas, no plano próprio da ciência psicológica, é lícito
afirmar que a psicanálise foi o grande acontecimento do século passado.
A crítica
não trai nem menospreza o pensamento de Freud, ao contrário, realça e valoriza,
na sua definitiva e excepcional moldura, a bagagem imensa das suas criações,
das suas contribuições aos vários ramos da ciência, suas antevisões, as
corajosas assertivas que, combatidas ferrenhamente na época, desabrocharam,
décadas depois, em frutos sazonados de conhecimentos novos, em cuja tessitura
se faz, dia a dia, mais
clara a dimensão do comportamento humano.
A morte de
Freud (23/09/1939), culminando os padecimentos cruéis de um câncer, durante 16
anos e 33 cirurgias, encerra também a viagem de um prodigioso epistológrafo;
escreveu nada menos de 20 mil cartas pela vida: A psicanálise foi a resposta a
mais longa que não conseguiu concluir.
Enquanto
não podemos afirmar se todos continuaremos vivos, é fácil atestar que ele
alcançou a imortalidade.
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ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.
Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da
cadeira nº 11.
Era uma trempe
arranjada com três pedras meio-angulares. Acocorado ao lado dela, Aparecido ia
retirando com uma colher a borra do café aljofrando da chaleira de flandres
fumaçada. A mulher dele, num banquinho ao lado, tentava desmachucar o testo da
panela grande de cozinhar feijão. Na cozinha ela só não se responsabilizava
pelo café. Aparecido entendia que somente ele era competente para o fazer “supimpa”.
- É, Lainha, aprendi coar café assim
supimpa desde menino. – Ele falou, afastando-se da fumaça que subia da trempe. No
momento em que olhou para a mulher, refletiu a vida difícil que levava para
manter-se, a ela e aos três filhos. A família vivia mal alimentada e malvestida;
os meninos sem escola e todos sem casa para morar, pelas fazendas dos outros, a
cada dia mais necessitados. Aí lembrou de Lainha ainda robusta e bonita:
- Era uma
morena de abafar! Hoje, tadinha, taí com a pele enferrujada e cheia de rugas; o
cabelo alinhavado de fios brancos, olhar quebrando. E ainda não tem trinta anos!
Pensando assim, panhou uma brasa com um pegador feito de faxina, jogando-a
dentro da chaleira fumegando:
- Aí é que
está o segredo para se fazer um café bom. – resmungou, esfregando com os dedos
os olhos que ardiam cheios de fumaça. Pensou depois que "assim ou assado, fiz o
curso primário completo. Nem era para viver assim perambulando pelas roças dos
outros e ainda sem carteira assinada”. Concluiu seus pensamentos. Fora, a noite
chegava empretecendo os cacaueiros em redor entre uma chuva fina e fria e um
vento rumorejando pela folhagem. Por isso os dois meninos mais velhos
recolheram-se mais cedo, acomodando-se a um canto da sala estreita junto à
cozinha, como dois vultos entre a turvação, onde ficaram conversando coisas de
menino. A momentos Lainha impacientava-se:
- Cala a
boca, troços! – Gritava para os dois meninos barulhando. O mais novo dos três,
ainda nos cueiros, dormia na cama do casal, embrulhado com uma coberta de
tacos.
Era uma
noite de quinta-feira e a casa se encontrava quase pura, os mantimentos se
acabando. Havia um resto de feijão, um pouco de farinha e um pedaço de carne
seca; o querosene daria até o outro dia e um pouco de açúcar dava para o
momento e para o café da manhã seguinte. Só no sábado Aparecido teria dinheiro
para novas provisões.
- Carestia
medonha! Dinheiro não dá mais pra nada... – pensou, enquanto adoçava o café na
chaleira. Depois, despejou um pouco numa caneca e o saboreou, estalando os
beiços.
- Experimente,
Lainha. Veja como está gostoso! – disse, dirigindo-se para a mulher.
Às sete da
manhã do outro dia, Aparecido entrou para o depósito ao lado da casa, portando
uma mochila com carne afarofada; panhou a vara de podão, um facão e saiu pela
porteira da frente, rumo à Roça da Onça, onde faziam as primeiras colheitas do
temporão.
Aproximava-se
o São João, e Aparecido lembrou que precisava comprar algumas coisas para a
mulher e para os filhos. O que achava mais necessário era um par de sapatos para
Lainha. No momento ele não necessitava de sapatos, pois ainda possuía as
botinas compradas no ano passado. Para os meninos compraria roupas e uma caixa
de traques. No percurso até à roça pensou nessas coisas e na situação; fez
cálculos mas não viu meio que lhe garantisse as compras. Pensou arriscar um
adiantamento com o patrão, mas sem acreditar que isso desse certo. Só esqueceu
do assunto ao embaraçar-se com um jararacuçu-pico-de-jaca junto a uma bandeira
de cacau à margem do caminho:
- Sai,
peste! – Exclamou, pulando para um lado, batendo-se de supetão a um cacaueiro
apinhado de frutos amarelos.