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segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

MEU ÚNICO E VERDADEIRO AMOR - Albert Di Bartolomeo


Ela não me enlouquecia,
mas me completava



Minha mulher e eu seguíamos para a praia – um fim de semana prolongado, de quatro dias, em Stone Harbor, com uma parada em Atlantic City.

            Nunca viajei naquela estrada sem me transportar aos verões que passei em Atlantic City nos tempos de faculdade, em princípios dos anos 70. Tenho fotos daquela época, mas não preciso delas a fim de evocar o passado. Para isso basta o cenário conhecido.

            Uma hora depois estávamos no local em que eu passara aqueles verões, trabalhando como ajudante de garçom num restaurante da cidade vizinha, ao sul. era um prédio branco com estrutura de madeira, 3 andares que rangiam e uma escada de incêndio de ferro batido presa na lateral da construção, como um adendo de última hora. Meu quarto ficava no terceiro andar.

            A casa se fora, bem como outras na rua.

            - É como se tivesse desaparecido no ar – comentei.

            Olhei para o vazio profundo diante de mim e os espectros do meu passado que passavam por ele. Imaginei-me sentado na varanda, lendo romances, e espreguiçando-me na praia sob o céu azul e indo de bicicleta para o trabalho, pelo puro prazer de sentir o vigor de meu corpo jovem.

            Então Jayne, meu primeiro amor, me veio à mente.

            - Em que está pensando? - perguntou minha mulher.

            - Nada de mais. Só nos tempos que passei aqui.

            Vi Jayne pela primeira vez num dia de julho, bem cedo. Eu tinha começado a limpar as janelas da frente do restaurante quando uma garota se aproximou da entrada. Fiquei olhando enquanto ela passava pela porta. Quando nossos olhares se encontraram, ela sorriu e murmurei um olá.
 
            - Sou o novo ajudante de garçom - disse, sentindo o rosto queimar.

            - Sou a garçonete que já está aqui há tempo demais.

            - Mas a temporada só começou há uma semana.

            - Exatamente.

            Jayne riu e foi se preparar para as suas tarefas.

            Durante o dia, eu queria parar no meio da confusão dos fregueses para falar com ela. Sempre que a avistava meu olhar a seguia, às vezes tão fixamente que teria ficado constrangido se alguém reparasse. Nos dias seguintes começamos a conversar durante a pausa do meio da tarde. A princípio encabulado, com a língua presa, logo passei a falar com uma paixão quase incontrolável, que para mim era desconhecida.

            Pouco depois nos encontramos na praia. naquela tarde ficamos deitados numa toalha, eu num estado de quase delírio, minha respiração ofegante com a visão de sua pele lisa, brilhando ao sol.

            Depois disso, passamos a caminhar ao longo da praia ou ficar em minha casa, ouvindo canções sobre desejos e perdas que pareciam nos falar diretamente. Não me lembro mais de nossas conversas, mas não eram tão importantes quanto a simples presença dela.

            Eu já conhecera outras garotas, tivera até uma namorada no 2º Grau, mas o que sentira por elas agora parecia insignificante. Esse novo sentimento me consumia por completo, como é natural no primeiro amor, uma sensação que vem do próprio sangue, como uma intoxicação ou doença.

            Cerca de um mês após ter conhecido Jayne , levei-a para casa depois de uma festa. No meio do caminho caiu uma tempestade. Seguimos devagar pelas ruas alagadas, na escuridão das três da madrugada. Parei o carro diante da casa dela e ficamos ali sentados, conversando.

            - Meu coração às vezes dá um salto quando penso em você -eu lhe disse.

            Ela sorriu.

            - É verdade.

            Certas noites, deitado na cama ouvindo o murmúrio do oceano, pensar em Jayne podia realmente fazer meu coração falhar uma batida.

            O que mais poderia provocar essa reação senão o amor? Quase disse isso a ela, mas me pareceu desnecessário, na doçura daquele casulo que então nos envolvia, protegendo-nos da chuva.

            Deixei Jayne nessa noite imaginando os longos dias que passaria com ela no futuro.

            Aquela, porém, foi a última vez que nos vimos fora do trabalho. Uma semana depois Jayne foi sentar-se comigo à “nossa” mesa, nos fundos do restaurante, com ar sério.

            - Algum problema?

            Ela hesitou.

            - Meu namorado e eu fizemos as pazes.

            Foi como se eu tivesse levado um soco no estômago.

            - Pensei que estava tudo acabado.

            - Ele diz que me ama e acho que também o amo.

            Não encontrei nada para dizer.

            - Sinto muito.

            Passei o restante dá tarde num atordoamento que pouco diminuiu nas três semanas que restavam para o fim do verão. Nunca na vida me sentira tão magoado, e pensei que jamais poderia me refazer disso. Sentia-me amargurado e zangado.

            A ferida se recusava a sarar. Passaram-se muitos meses, mas dentro de mim o lugar antes ocupado por Jayne me fazia estremecer sempre que eu o tocava.

            Então, num sábado de primavera, dois anos depois, entrei numa livraria da na Filadélfia e perguntei à garota no alto de uma escada onde poderia encontrar os sonetos de Shakespeare de que precisava para uma aula de inglês.

            Ela olhou para baixo e me indicou onde era a seção de poesia. Agradeci, encontrei o livro e logo saí da loja.

            No fim de minha aula de inglês, algumas semanas depois, cheguei ao saguão e vi a moça da livraria saindo de uma sala próxima. Lembrei-me de seus cabelos cor de trigo, da voz calorosa, dos olhos verdes inteligentes.

            Ela me viu e sorriu reconhecendo-me.

            - A garota da escada - disse eu, quando nos aproximamos.

            - Os sonetos de Shakespeare.

            - Você sempre se lembra dos livros que as pessoas procuram?

            - Quando vale a pena lembrar das pessoas.

            A resposta me fez sorrir.

            Ambos estávamos indo para outras aulas, mas fizemos as apresentações antes de nos despedir.

            Depois disso encontrei Susan várias vezes, sim em geral nos cumprimentávamos ou fazíamos alguma brincadeira e seguíamos nossos caminhos. Às vezes nos encontrávamos nos fundos da biblioteca do campus e nos sentávamos à sombra dos plátanos, conversando. Se ela não aparecesse, tudo bem. Éramos apenas amigos, sem compromisso, e eu preferia assim. Depois da angústia que vivera com Jayne, tornara-me desconfiado e não me abria com ninguém.

            Entretanto, uma tarde o assunto da conversa chegou a nossos pais.

            - Acho que você gostaria de minha mãe - disse eu -, mas meu pai morreu quando eu tinha 11 anos.

            Não tivera a intenção de mencionar algo que raramente contava, mesmo a amigos íntimos, e quase desejei ter ficado calado.

            Susan tocou meu braço.

            - Já faz algum tempo – eu disse.

            - Mesmo assim, sinto muito. – Uma sombra passou por seus olhos, em geral tão brilhantes. – Perdi o meu no fim do 2º Grau.

            Foi minha vez de lamentar.

            Ficamos ali sentados por algum tempo na tarde preguiçosa, emudecidos por aqueles pensamentos. Mas, como percebi na época, uma das virtudes de Susan era não permitir que as mágoas da vida sufocassem as alegrias, e logo passamos a falar de assuntos mais animados. Algumas semanas depois começamos a namorar.

            Naquele verão fui para Atlantic City pela última vez como universitário. Sentia-me mais velho, mais sábio e certamente menos ingênuo. E havia uma sensação de algo terminando – a juventude, e tudo que ela traz e que temos de abandonar para levar uma vida estável e responsável. Aquela viagem também foi diferente porque Susan de vez em quando ia me visitar, nos fins de semana.

            Como eu trabalhava de dia, só tínhamos as noites para estarmos juntos. As horas eram preciosas, e muitas vezes as passávamos à beira-mar, apenas conversando, como se tivéssemos guardado para o outro tudo que não podíamos expressar aos demais.

            Em algumas noites o luar formava um caminho sobre a água, ligando a praia ao horizonte.

          - É como se pudéssemos caminhar sobre ele – comentei, certa vez.

          - Aonde nos levaria?

          - Aonde quiséssemos, é o que gosto de pensar.

            - E aonde você iria?

           - Não sei, mas gostaria que você fosse comigo.

            - Com prazer.

            Ficamos abraçados, enquanto a noite avançava e esfriava. Foi ali, com as ondas quebrando no escuro, que deixei Susan penetrar nos recessos secretos que eu guardara minhas feridas. Ela os tocou com delicadeza e, quando me revelou os próprios receios e desejos, descobri o que era o amor verdadeiro.

            Depois que Susan tomava o ônibus de volta à Filadélfia e eu ficava só, muitas vezes lhe escrevia. Ela guardou essas cartas, amareladas, numa bolsa de seda rosa no fundo de uma cômoda há muito tempo com a família, que ganhamos de sua mãe quando nos casamos. Eu também tenho as cartas de Susan. Quando as leio, lembro-me do motivo por que quis passar a vida ao lado dela.

            Susan e eu nos levantamos cedo na manhã seguinte e fomos à praia para “cumprimentar o oceano”, como ela costuma dizer. Atravessamos os vários quarteirões no ar ainda fresco, no silêncio típico das manhãs no litoral.

            - É tão lindo – disse Susan, apertando minha mão, e concordei.

            No alto as gaivotas voluteavam e gritavam enquanto caminhávamos descalços na areia fresca e úmida. Depois paramos, sentei-me junto de uma duna, e Susan ficou na beira d’água, olhando o mar ou procurando conchas e pedras interessantes. De vez em quando se voltava para mim, emoldurada pelo sol brilhante do início da manhã.

            O primeiro amor, pensei, pode marcar profundamente, mas quando o amor perdura e cresce é porque une e alimenta o que há de mais caro, belo e nobre em duas pessoas. E porque compreende e perdoa o que é menos do que isso.

            O primeiro amor pode invadir nosso sangue com um efeito estonteante, mas o amor duradouro toma conta da alma. Assim, o amor se torna algo muito mais poderoso do que carne e osso. Ele nos completa, dando-nos a integridade de que precisamos para navegar em segurança pela vida.

            Eu poderia passar horas observando minha mulher, as ondas se quebrando e avançando sobre seus pés descalços.

            Num mundo por vezes desfigurado pelo sofrimento e pela angústia, senti uma gratidão profunda por ter o sol surgido para mim num amor como aquele. Eu o sentia naquele momento, fluindo sem parar entre nós dois, inteiramente unidos e completos como os mares – um porto contra todas as tormentas.


(Reader’s Digest SELEÇÕES - Março 2000)

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domingo, 26 de janeiro de 2020

O ROMANCE - Ariston Caldas


            Teve a ideia de escrever um conto ou romance. Em vista dos assuntos abordados envolvendo uma família de quatro pessoas e algumas personagens eventuais que deviam aparecer na história, definiu-se por um romance. Verdade que nunca havia escrito nada em sua vida, a não ser cartas para familiares e amigos, bilhetes para namoradas. Mas sentia vontade de ser um escritor, certamente o primeiro entre sua parentela numerosa. Por seus cálculos o romance alcançaria umas trezentas páginas.

            O livro seria uma obra realista, baseada no viver de uma família que residia em frente. Daí a facilidade para observar o vai-e-vem de cada um, gestos e atitudes, certas ocorrências curiosas, como as brigas entre o casal, os modos da sogra do sujeito, mulato corpulento, mecânico exercitado em lutas de boxe.

            A vida dele com a mulher era tumultuada entre ciúmes e outras encrencas. Tinha o filho oito anos, malcriado, cheio de vontades, por isso apanhava quase todo dia. No mesmo elenco incluiria um quitandeiro de rua, na esquina, especialista em vendas de bebidas fortes misturadas com raízes, e ainda uma sessentona gorda, habituada a sentar-se no passeio, toda tarde, para espionar a vida dos outros, cochichando, apontando com o dedo, franzindo o nariz, apertando um olho. Começaria anotando suas observações aproveitando os assuntos mais importantes, iniciando pelo cenário, a rua esburacada, poeirenta; o tipo de casa onde residia a dita família, com biqueiras, sem platibanda, passeio estragado, sem numeração na porta, baixa, telhado arqueado, janelas sem nivelamento, sem vidraças; em vista do telhado curvo, podia-se ver,  olhando por cima da cumeeira,  as palmas de um coqueiro tremulando no quintal  onde bandos de pássaros revoavam quando era estio.

            Anotaria manias e costumes das personagens, o perfil dessas pessoas e algumas peculiaridades de cada uma, como do homem da venda que tinha o polegar esquerdo deformado por uma cicatriz na junta; ressaltaria os risos debochados da mulher do pugilista, o hábito dela coçar a virilha no meio da gente , alheia, descalça, cabelo formando duas tranças caída pelos ombros, pisando pelas casas vizinhas, tagarelando; das advertências da mãe dela: “...isto tá certo, moça? Toma jeito de gente!”.

            Daria destaque às malcriações do menino, seu comportamento agitado, cheio de diabruras que lhe rendiam surras e castigos, puxões de orelhas; lembraria, também, o agradável dessas pessoas, destacando o corpo bem feito da mulher do boxeador, seus olhos brilhantes, sorriso aberto; a boa vontade do marido desencrencando uma fechadura do vizinho, consertando uma biqueira; a fala mansa da sogra, contando a história do seu tempo de mocinha, brincando de roda pelo terreiro, namoricando meninos da vizinhança, agora adivertindo a filha de tranças com o vício de coçar as virilhas indiferente.

            As particularidades que não podiam ser comprovadas, da privacidade de cada um, seriam mostradas por deduções, como o que se passava na cama entre o boxeur e a companheira dele; com a sessentona tomando banho numa bacia cheia de água morna; com o menino se escondendo para não escovar os dentes. Concluídas essas ideias, cuidaria agora meter mãos à obra, começando pela aquisição de acessórios indispensáveis à tarefa. Compraria um caderno grosso, páginas pautadas e numeradas, com abecedário; uma caneta preta e outra vermelha, esta para observações especiais: borracha de apagar, goma para papel, clipes, borrachinhas para prender almaços, lápis comum para revisão às margens, lapiseira, uma pasta de couro, alguns centos de papel-ofício.

            Sabendo de seus embaraços com a língua portuguesa, providenciaria um dicionário bom, uma gramática atualizada, assim não temeria trocar  S por Z, por Ç, um X por CH, entre outras dificuldades piores, como tempo do verbo, concordância, pronomes e suas colocações. Lembrou que não sabia ainda o nome dos vizinhos que seriam suas personagens, havia pouco chegados; pensou, porém, que de qualquer forma, os nomes utilizados no romance não seriam os verdadeiros, como se dá em todo o livro de história. No final de semana iria ao comércio comprar o material já relacionando.

            Depois dessas providências e pronta toda a redação, procuraria uma editora de conceito, e entrosamento com os meios de comunicação mais conceituados na região, no estado, no país.

            O sábado por ele designado para as compras amanheceu chuvoso e frio, sem nenhum pássaro revoando pelas palmas do coqueiro no quintal de suas personagens; em frente à casa sem platibanda e de janelas sem vidraças, viu um caminhão velho estacionado com as laterais da carroceria arriadas; o pugilista e dois ajudantes carregavam para o carro uns móveis velhos, outros utensílios, trouxas de roupas; o menino, pelo meio, perturbando. Em duas horas a mudança estava arrumada. A das tranças e a mãe dela subiram para a cabine, o mecânico com o filho para a carroceria, onde ficaram em pé protegendo um guarda-roupa.

            Depois de uma buzinada estridente o carro saiu roncando, banzeiro, pela rua esburacada, sumindo depois pela esquina onde ficava a quitanda do sujeito que tinha um polegar deformado, com uma cicatriz. Da janela viu o caminhão sumindo vagarosamente, levando as principais personagens do livro que escreveria. Desencantado, nem chegou ir à rua onde compraria o material já relacionado em sua imaginação.

            O romance morreu por aí, mudou de ideia e nunca mais pensou no assunto.


(LINHAS INTERCALADAS – 2ª Edição 2004)

Ariston Caldas

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (167)

3º Domingo do tempo Comum -26/01/2020


Anúncio do Evangelho (Mt 4,12-23)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia.Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia,no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: ”Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos!O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. Daí em diante Jesus começou a pregar dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”.
Quando Jesus andava à beira do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam lançando a rede ao mar, pois eram pescadores.Jesus disse a eles: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”. Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram. Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com seu pai Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou.Eles imediatamente deixaram a barca e o pai, e o seguiram. Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Padre Roger Araújo:

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“Jesus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia” (Mt 4,13)

Galileia foi a primeira decisão importante que Jesus tomou no início de sua vida pública. Ele começa sua atividade longe da Judeia, de Jerusalém, do templo, das autoridades religiosas. Jesus, na Galileia, encontrou o seu lugar: junto ao mar, nas estradas poeirentas, nas margens... Um “lugar sagrado” que nasceu do seu coração, carregado de afeto, de inspiração, de vitalidade... 

Ali, Ele teve suas preferências e elegeu o seu “lugar” entre os mais pobres e excluídos, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares; ali revelou a presença d’Aquele que se faz presente e santifica todos os lugares: o Pai.

Jesus se fez presente nos lugares onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e os convidou a caminhar para um novo lugar: lugar de vida, de comunhão... Sua missão foi a de reconstruir a identidade das pessoas, devolvendo a elas o seu “lugar”.

Seu ensinamento, cheio de “autoridade”, introduziu uma perspectiva nunca ouvida antes; apresentou uma alternativa que as pessoas mais simples do povo entendiam como revelação do Pai aos pequeninos. A partir das periferias do mundo, surgiu um canto de vida nova, a sabedoria oculta a muitos sábios e expertos; uma sabedoria que vinha de Deus, desconcertando a sabedoria exibida a partir do centro. Jesus desconcertou a “sabedoria” do centro a partir da “loucura” da periferia.

Podemos, então, afirmar que Jesus descentralizou o mundo a partir da periferia. O fato surpreendente é que, em Jesus, Deus não só se fez homem, mas também se fez “margem”. O próprio Jesus foi “margem”. Belém e Calvário são os dois extremos periféricos – início e fim – de toda uma vida, despojada e pobre.

Todos tinham os olhos voltados para o centro. No templo de Jerusalém era elaborado o saber que ia se expandindo até chegar à menor das sinagogas. No entanto, em Jesus, o Reino de Deus anunciado movimentou-se em direção contrária: subiu, a partir da mais baixa periferia, para o centro. Ele começou a falar a partir da margem geográfica, cultural, religiosa e econômica.

Nesse sentido, a vida de Jesus foi “excêntrica”, porque não combinava nem se ajustava com a construção social de todos aqueles que controlavam o mundo a partir do centro. No entanto, Jesus fez o “centro” da história. Nele, o Pai “nos escolheu antes da criação do mundo”. Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”. Portanto, Jesus descentralizou a história para sempre e situou o surgimento da salvação nas terras excluídas. A ação de Jesus provocou um deslocamento geográfico-social-religioso. 

O centro da história já não se encontra mais em Roma, nem em Jerusalém, e sim na “margem”. Todo aquele que, a partir de então, pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar a cabeça e peregrinar em direção às margens, onde estão os prediletos do Pai. 

Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” do mundo, porque desejou assumir toda a história a partir daí, também nós, seguidores(as), temos de dirigir constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua nos questionando. 

“Êxodo para as periferias”: terra privilegiada, de onde podemos contemplar a história e a própria humanidade. A razão mais importante de todo este caminho é a união ao movimento de encarnação de Jesus, decidido pelo Pai como caminho privilegiado para a realização de seu Projeto.

Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que nos chama de “baixo” e de “fora”.  “O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é Jesus Cristo que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais. A posição do discípulo-missionário não é a de centro, mas de periferias: vive em tensão para as periferias” (Papa Francisco) 
Quê significa “fronteiras geográficas e existenciais”? É preciso sair dos limites conhecidos; sair de nossas seguranças para adentrar-nos no terreno do incerto; sair dos espaços onde nos sentimos fortes para arriscar-nos a transitar por lugares onde somos frágeis; sair do inquestionável para assumir o novo... É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novos encontros, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer... 

A vida está cheia de possibilidades e surpresas; inumeráveis caminhos que podemos percorrer; pessoas instigantes que aparecem em nossas vidas; desafios, encontros, aprendizagens, motivos para celebrar, lições que aprenderemos e nos farão um pouco mais lúcidos, mais humanos e mais simples... A periferia passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”, por obra do Espírito. Ali aparece o broto original do “nunca visto”, que em sua pequenez de fermento profético torna-se um desafio ao imobilismo petrificado e um questionamento à ordem estabelecida.

Jesus começou sua vida pública com um novo ensinamento, rompendo esquemas e modos de viver ditados pelo Templo. Diariamente ouvimos, lemos e nos deparamos com esta palavra que está tão em moda: inovação; expressão presente em todas as instâncias humanas: empresarial, educativo, social...

Partindo do evangelho deste domingo, podemos também fazer esta pergunta: qual é a “inovação do Evangelho”? Que há de inovador, na vida de Jesus, que pode nos inspirar? Com certeza, há uma inovação acima de todas: a paixão de Jesus pela vida, pelo Reino, pelas pessoas, de maneira especial pelas mais excluídas e feridas. Por isso, Jesus inicia sua missão fora dos “espaços sagrados” do Templo; é nas “margens” que Ele, com sua presença inspiradora, ativa um movimento inovador e, ao mesmo tempo, humanizador. 

Essa paixão de Jesus se revela em cada passagem do Evangelho, em cada palavra que sai de sua boca, em cada gesto que faz tremer todas as instituições, em cada ação que visa levantar, curar e devolver a dignidade a todo ser humano com quem se encontra. Não há um indício sequer de dogma, de doutrina, de regras, de leis..., a não ser isso: tudo o que façamos, vivamos e desejemos, seja em prol das pessoas, para seu bem e sua felicidade.

A inovação de Jesus está em eliminar da vida todo o peso do legalismo, do moralismo, da culpa..., para fazer emergir o que há de mais humano e divino presente em cada pessoa. A expressão “pescador do humano” deixa transparecer essa inovação mobilizada por Jesus, a partir do mais profundo de cada um. Seguindo Jesus e deixando-nos impactar por sua inovação em favor da vida, estaremos, também nós, inovando, quando deixaremos transparecer uma paixão pelas pessoas, que se manifesta em nossa acolhida, em nossos gestos, no nosso olhar contemplativo, nas nossas palavras mobilizadoras...; trata-se de investir a vida em favor da vida e fazendo os outros se sentirem mais irmãos e mais filhos de um mesmo Pai.

Nesse sentido, Mateus também situa, no início da vida pública de Jesus, o chamado dos quatro primeiros discípulos. Detrás disso, há uma intencionalidade teológica, que busca mostrar Jesus e seus discípulos compartilhando a mesma missão: aliviar o sofrimento humano, com a certeza de que o Reino de Deus tinha chegado. Assim, inicia-se um grande “movimento humanizador”, a partir de baixo, das margens...

Nesse entorno da Galileia está o futuro do Evangelho; Galileia é a terra do chamado e, a partir desse lugar, inicia-se também novo caminho do seguimento. Por isso, os(as) discípulos(as) devem entrar em sintonia com o modo original de ser e de viver de Jesus na Galileia. É ali que se devem encontrar todos os seus(suas) seguidores(as), para também ali prolongar o movimento iniciado pelo Mestre de Nazaré.

Texto bíblico:  Mt 4,12-23

Na oração:  Aquele Desconhecido se aproxima, ainda hoje, do nosso mar da Galileia, que representa os lugares, os afetos, os segredos, os costumes da nossa vida cotidiana... ; Ele fixa seu olhar em cada um de nós e, com sua Palavra inspiradora, nos desafia a transgredir os nossos lugares estreitos e entrar em outro mar. 
O Evangelho deste domingo faz emergir algumas perguntas que são significativas para a vida cristã:
- você vive em processo de mudanças ou continua sempre igual? Seu modo de viver o seguimento de Jesus é sempre criativo ou continua “normótico” (norma-lidade doentia, sem inspiração, sem afeto...)?
- você é um peregrino ou está ancorado no de sempre? Você está se convertendo constantemente para uma vida nova e melhor, ou se contenta com uma mera repetição? 

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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sábado, 25 de janeiro de 2020

1554-2020 — 466 ANOS DA FUNDAÇÃO DE SÃO PAULO – Paulo Roberto Campos


25 de janeiro de 2020

Pátio do Colégio, em 1824, pintura de Jean Baptiste Debret

Paulo Roberto Campos

Neste dia 25 de janeiro, em memória da comemoração do 466º aniversário de fundação da capital paulista, oferecemos aos leitores trecho (transcrito abaixo) de memorável discurso de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em 21-7-1935 no jornal “O Legionário”, então órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo.

Enquanto líder católico, o ilustre orador que então contava com 27 anos, proferiu uma saudação ao prefeito Fábio da Silva Prado (no quadriênio 1934 a 1938). Essa histórica saudação foi uma homenagem à cidade em nome dos 15.000 jovens Congregados Marianos concentrados na área externa da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

Na ocasião, Plinio Corrêa de Oliveira — descendente, pelo lado materno, dos paulistas denominados “de quatrocentos anos”, isto é, originários dos fundadores ou dos primeiros habitantes da “Vila de São Paulo” — exalta os extraordinários talentos que a Divina Providência prodigalizou ao povo paulista e tece profundas considerações sobre a grandeza e glória da Pauliceia, fundada pelos jesuítas Nóbrega e Anchieta no Pátio do Colégio e desenvolvida pelos heroicos desbravadores bandeirantes.

Diversos Bandeirantes

“Excelentíssimo Senhor Prefeito Municipal

Incumbiu-me a mocidade que aqui se congrega, de homenagear, na pessoa de V. Exa., a gloriosa capital paulista.

Nada de mais grato para nossos corações do que celebrar, na festiva data de hoje, a grandeza e a glória da nossa Pauliceia, tão digna de todas as homenagens, pela sólida catolicida de que a distingue e pelo valor de sua atuação na vida nacional.

Há 466 anos, em 25 de janeiro de 1554, foi realizada, diante da construção feita de taipa de pilão erguida no Pátio do Colégio, a missa pela fundação da cidade de São Paulo do Piratininga

Em 25 de janeiro de 1554, foi realizada, diante da construção feita de taipa de pilão erguida no Pátio do Colégio, a missa pela fundação da cidade de São Paulo do Piratininga

Consagrando ao Apóstolo das Gentes a cidade que acabava de fundar, Anchieta implorou e obteve, para a raça que dela brotasse, o idealismo abrasador, a energia inexaurível, a combatividade invencível, a audácia viril e realizadora que Paulo de Tarso soube pôr a serviço da maior das causas, a causa de Cristo e da sua Igreja. […]

Não é apenas no idealismo candente e no vigor da ação, que os filhos desta cidade se têm mostrado dignos do Patrono que lhes deu Anchieta. É também pela universalidade de sua ação.

São Paulo, o Apóstolo das Gentes, não concebia limites para a sua doutrinação. O mundo inteiro era pequeno para a grandeza de seu ardor apostólico.

Representação da cabana do cacique Tibiriça, na qual sacerdotes jesuítas se abrigaram no dia da fundação de São Paulo, 25 de janeiro de 1554

Assim também a ação vigorosa e fecunda dos paulistanos se destaca pela sua universalidade. Nem a distância dos lugares, nem a dificuldade das comunicações foram diques capazes de conter a ação da gente bandeirante, que se tem derramado em influxos benéficos sobre o Brasil inteiro. E desde as bandeiras até à reconstitucionalização do País, todos os episódios de nossa história têm sido um transbordamento do coração e da energia de São Paulo, para além de nossas fronteiras em benefício de nosso grande Brasil. […]

São Paulo não é grande por ser rica. Mas São Paulo é rica, porque o paulista é grande. Nossa riqueza foi arrancada ao solo virgem de nossa terra depois de uma luta titânica contra a natureza bravia. Nossa capital não se construiu em fértil e luminosa planície, embelezada por todas as graças da natureza. Foi edificada em terreno montanhoso e sob um céu cheio de brumas, em que tudo no ambiente nos lembra, constantemente, a vocação do paulista; porque as brumas nos dizem lutar e o solo acidentado nos brada subir.

Se nosso Estado é próspero e nossa capital é bela, não o devemos nós, portanto, senão à mercê de Deus e à fibra de nossa gente. Porque foram sempre a mercê de Deus e o valor de nossa fibra a maior riqueza com que contamos”.




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TEM UMA PEDRA NO CAMINHO - Péricles Capanema


22 de janeiro de 2020
Péricles Capanema

Tem uma pedra no meio do caminho. Drummond — que aliás qualificou o verso famoso de “texto insignificante, um jogo monótono” — na verdade escreveu “tinha uma pedra no meio do caminho”. Podia ser que já não mais lá estivesse. Eu, por meu lado, não estou tratando do passado, refiro-me a presente candente, agora tem uma pedra grande no meio do caminho. Trata-se de tirá-la da frente.

Vamos aos fatos. O Dr. Salim Mattar, secretário-especial de Desestatização e Desinvestimento, em 14 de janeiro afirmou, ao longo de 2020 o governo pretende arrecadar com privatizações, vendendo uns 300 ativos, em torno de R$150 bilhões. Aplausos, o caminho para a prosperidade passa pela desestatização; de outro modo, pela privatização.

Informou a mais o dirigente, a Caixa, o Banco do Brasil e a Petrobrás não serão tocados. Os Correios ficaram para fins de 2021. Anunciou ainda, a maior parte do dinheiro arrecadado virá de desinvestimento (vendas) no sistema Eletrobrás. Em suma, enorme programa de privatização em curso; para torná-lo mais ágil serão encaminhados projetos de lei à Câmara dos Deputados, asseverou o Dr. Salim.

Repito o que escrevi, para mim, em princípio, quanto mais ampla a privatização, melhor. O particular tem mais eficácia que o burocrata quando o assunto é contratar, comprar, vender e produzir. No fim, com a economia na mão de particulares e não do Estado, teremos produtividade maior; enfim, mais emprego e renda, o que favorece o bem comum. E que o Estado execute bem o que lhe é próprio, regulações, defesa, segurança, proteção da moeda, atenção especial aos mais carentes, alguma coisa mais, tem valioso e insubstituível papel. É a aplicação do princípio da subsidiariedade nas relações entre a sociedade e o Estado, entre o particular e o estatal. Paro, e até peço desculpas, estou me sentido um pouco o conselheiro Acácio.

Agora, com licença do Eça, dou as costas ao conselheiro, e trato de assuntos que não são (ou não parecem) óbvios, ênfase em matéria constitucional.

Ao longo de 2020, aposta minha, o leitor escutará até o fastio as seguintes expressões: empresários chineses, empresas chinesas, investimentos chineses, investidores chineses. Não acredite. É mentira deslavada. Melhor, fraude escandalosa para esconder a realidade (conhecida, aliás, do Brasil inteiro, mas misteriosamente silenciada). Vou explicar.

Dizia Talleyrand, “boutade” dele, uma a mais, a palavra nos foi dada para dissimular o pensamento (há variadas versões do que ele teria de fato afirmado, todas em torno da ideia de que a palavra mais serviu para disfarçar do que para exprimi-lo). É o nosso caso, a dissimulação. Mais no ponto, dissimular para ocultar a verdade inteira.

Volto ao que dizia e explico. À vera, as empresas chinesas que investem no Brasil são na maioria esmagadora dos casos, para ser prudente, estatais chinesas — dirigidas dos pés à cabeça, por dentro e por fora — pelo governo chinês, o qual, por sua vez, não nos esqueçamos temos lá governo de partido único, é dirigido pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Os empresários chineses que transitam no Brasil (conto da carochinha) são na verdade burocratas, membros bem vistos e bem vestidos do PCC, com cargos de direção nas estatais. Os tais investidores chineses que aplicam no Brasil, outro recurso ardiloso, na verdade não existem; é dinheiro posto aqui pelo governo chinês, dono das estatais.

Então, a bem da transparência, fica aqui a errata. Quando você ler empresas chinesas, leia empresas estatais chinesas. Quando ler, empresários chineses, leia burocratas chineses. Quando ler investidores chineses, leia aplicações do governo comunista chinês via estatais. Quando ler investimentos chineses, leia aplicações do governo chinês, dirigido pelo PCC. Não vai errar em, por baixo, 99,9% dos casos.

O que estou bradando em cima dos tetos — proclamai-o do alto dos telhados, obrigação evangélica (Mt 10, 27) — é proibido divulgar desse jeito (mas todo mundo sabe que é assim). Todo mundo vai continuar a falar de empresários chineses, de investidores chineses, de capitais chineses, de empresas chinesas. Você, minha dica, aplique a errata, pois na prática está proibido mudar tal linguagem. De onde vem a proibição, que apunhala a realidade? Não sei. Mais, pedaço grande do programa de privatização brasileiro corre o risco de cair nas mãos de estatais chinesas (parte já caiu). Um exemplo entre dezenas, a imprensa nos últimos dias noticiou que a SABESP, 28 milhões de clientes, onde o governo tem 50,3% do capital votante, poderá ser vendida. A quem? Repito o que li: a empresários chineses, a empresas chinesas, a grupos chineses. Dissimulação. Qual a empresa interessada num negócio que pode chegar a R$40 bilhões ou mais? Só um nome, China Railway Construction Corporation, estatal chinesa. Privatização à brasileira.

Não sou constitucionalista e, por isso, solicito auxílio deles. Mas me surpreenderia se não estivéssemos diante da maior agressão à Constituição da história brasileira — monstruosa, aberrante, silenciada e silenciosa.

Adiante, escrevendo preto sobre o branco. Comanda o artigo 173 da Constituição:

“Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta da atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei”.

A exploração direta da atividade econômica pelo Estado se dá por meio de empresas públicas e empresas de economia mista (estatais). O Estado brasileiro está proibido de agir diretamente na esfera econômica salvo nos dois casos acima. Logo, seria aberrantemente ilegal que o Banco do Brasil, a Caixa, a Petrobrás, entre outros agentes econômicos, via de regra (sempre se pode pensar em pequenas exceções), participassem do processo de privatização. Seriam atos inconstitucionais, nulos.

Se ao Estado brasileiro é vedado participar do processo de privatização no Brasil, a fortiori os Estados estrangeiros estão impedidos de fazê-lo por meio de suas estatais. É absurdo, de fato, entre nós, muitas vezes, para privatizar, a propriedade sai das mãos do Estado brasileiro e vai para as mãos de Estado estrangeiro. Na prática, contudo, estamos tendo a presença gigantesca de estatais de outros países no processo de privatização do Brasil. E não só de estatais chinesas. Tais atos não foram nulos por inconstitucionais?

Quando você ler fundo soberano de tal país, entenda estatal de tal país, outra expressão para a errata. Vários fundos soberanos (estatais) estão ativos no Brasil, tentando aproveitar as oportunidades do processo de privatização. Um exemplo, poucos dias arás, foi feita a concessão (uma forma de entrega à iniciativa privada) do trecho Piracicaba-Panorama. O consórcio vencedor, Consórcio Infraestrutura Brasil, é formado pelo fundo Pátria e pelo fundo soberano GIC (fundo soberano de Singapura). Foi a maior concessão até hoje feita. O GIC é uma estatal de Singapura. Vedado ao Estado brasileiro, mas permitido a Singapura, um Estado soberano? Pode?

Aqui está, tudo o indica, o argumento falacioso por trás dos investimentos de governos estrangeiros no Brasil: todas essas aplicações de capitais estão sendo abrigadas, por desídia e velhacaria (é impostura, e ela continua intacta) no artigo 172 da Constituição:

“A lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos de capital estrangeiro, incentivará os reinvestimentos”.

Capital estrangeiro, o ponto. Mas não estamos diante apenas de capital estrangeiro, não estamos tratando apenas de investimentos estrangeiros. É falsidade ululante parar por aí. Vamos colar nos fatos. Estamos diante de capital estrangeiro estatal, óbvio ululante, para uma vez mais lembrar Nelson Rodrigues. São governos os seus proprietários. E nesse caso, vale o artigo 173: se há vedação constitucional para o Estado brasileiro estar presente, muito menos poderá o Estado estrangeiro investir por meio de empresas públicas, sociedades de economia mista ou fundos soberanos. Claro como água de pote.

Se assim não fosse, o Estado brasileiro na obediência ao artigo 172 não poderia ser proprietário por vedação constitucional, mas, por absurdo, a Constituição estimularia que, nas mesmas circunstâncias, Estados estrangeiros abocanhassem tais propriedades.

Não adianta chiar, estamos diante de problema constitucional grave, nulidade de atos há anos sucedendo no ordenamento jurídico nacional. Martelo, não estamos tratando de investimentos estrangeiros, é falsa a afirmação, estamos falando de investimentos estatais de Estados estrangeiros. Aqui está o problema.

O problema está aqui, mas não está só aqui. Vai mais longe. A atividade econômica no Brasil obedece a princípios, comanda o artigo 172, o primeiro dos quais (inciso I) é que não pode lesar a soberania nacional. Nem real, nem potencialmente. Pergunto, os investimentos maciços de estatais chinesas no Brasil que em nada, só por chacota, poderiam ser “imperativos de nossa segurança nacional” não ameaçam a segurança nacional? A presença crescente deles na infraestrutura tem “relevante interesse coletivo”? Ligarmos nossa economia, que passará a ter um de seus pontos nevrálgicos em Pequim, na sede do PCC, tão íntima e fortemente a um poder mundial imperialista e ditatorial em nada arranha a soberania? Poder que hoje, visto com simpatia pela esquerda interna entreguista, apoia ditaduras como Irã, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba. É nosso futuro, sem dúvida de retrocesso e atraso, adversário dos direitos humanos?

Um último ponto, a Constituição determina, artigo 172, a lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos de capital estrangeiro. Fala em capitais privados, é claro; refere-se também a capitais públicos. É do interesse nacional termos gigantescas presenças na economia de Estados estrangeiros, em especial da China comunista?

Paro por aqui e faço convites cordiais. Os constitucionalistas precisam se pronunciar, também é imprescindível que falem os setores que por missão institucional ou presença na vida pública estão especialmente ligados à preservação e defesa da independência nacional, assim como de nossos interesses estratégicos. Tem uma pedra no meio do caminho. Uma, não; várias, grandes e cortantes.


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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

ATITUDES EM FACE DA MORTE - Plinio Maria Solimeo


24 de janeiro de 2020
Plinio Maria Solimeo


            Nosso mundo hedonista e gozador da vida de nada tem maior temor do que da morte. Só o pensar nela aterroriza-o, estraga todos seus prazeres. Entretanto, dela ninguém escapa.

            Este é o tema que Peter Kwasniewski — escritor católico, autor, palestrante, editor, publicista e compositor — desenvolve em seu interessante artigo publicado no Life Site News sob o sugestivo título: Monges católicos revelam como se preparam para a morte em um mosteiro.

Kwasniewski [foto ao lado] começa falando com muita propriedade de uma das pragas de nosso tempo, a tão propalada eutanásia: “Uma prática antes considerada abominável — na verdade, simplesmente uma forma de assassinato a sangue frio daqueles que são mais vulneráveis ​​e mais merecedores de nossa atenção e carinho amorosos — está sendo promovida como a melhor maneira de ‘tirar alguém de sua miséria’, assim como um cavalo manco ou um animal de estimação frágil é ‘abatido’ pelo veterinário […]. Em vez de enfrentarmos a morte como sendo uma passagem purificadora para a vida eterna, tentamos mercantilizá-la como uma forma final de paliativo”.

         Ele concorda que o medo da morte é natural, pois o próprio Filho de Deus o teve. Entretanto, escondê-la ou ignorá-la não adianta, além de ir contra o que diz a Sagrada Escritura: “Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente” (Ecl. 7, 40). Sabemos que os “novíssimos” são as últimas coisas que irremediavelmente nos acontecerão: a morte, à qual sucederão o juízo particular e — conforme nós tivermos vivido — o inferno ou o paraíso para sempre.

         Mesmo quando é irremediável encarar a morte, procura-se tirar dela todo o aspecto religioso. A eutanásia, por exemplo, é baseada em considerações puramente materialistas e ateias. A explicação para isso no-la dá o ilustre escritor: “Sem Deus, a morte não pode ter sentido; sem Cristo, a morte não pode ter benefício; sem o Espírito Santo, a morte não pode ser encarada com amor e esperança. Torna-se o grande absurdo, e não a passagem da vida mortal para a imortal”.


        Kwasniewski passa então a falar de um livro que foi publicado há pouco nos Estados Unidos, escrito pelo jornalista francês Nicolas Diat e intitulado Hora de morrer: monges no limiar da vida eterna [capa ao lado], no qual o autor relata sua experiência nas visitas que fez a oito mosteiros na França com o objetivo de conversar com os monges sobre seus pontos de vista sobre a morte, como eles se preparam para ela e como os afeta verem seus irmãos de hábito passar desta vida para a eterna.

         Entre os monges entrevistados, Dom David, da Abadia de En-Calcat, considerou que o homem construiu um mundo tão tecnológico, que esse mesmo mundo agora o humilha e o faz sentir vergonha, numa espécie de complexo de inferioridade. Aduziu que para a antropologia clássicao homem era o rei e o cume do reino animal, mas que nos últimos 50 anos ele se tornou insignificante num mundo dominado por ídolos tecnológicos. Afirma o jornalista: “Dom David diz que a nossa tecnologia médica se desenvolveu a tal ponto, que prolonga a nossa agonia e nos deixa em frangalhos. Podemos acabar vendo a nós mesmos e uns aos outros de uma maneira despersonalizada, como se fôssemos máquinas com partes funcionais ou não funcionais, em vez de ver a imagem de Deus, que é infinitamente mais preciosa que a própria vida corporal e qualquer tecnologia que possamos reunir”. Comenta Diat: “Os leitores podem se surpreender ao saber (embora seja lógico) que os mosteiros enfrentam os mesmos desafios que os leigos enfrentam no mundo: cuidados com o fim da vida, remédios para dor, quando levar alguém do hospital para casa a fim de morrer em sua própria cama” etc.

         Como a morte é o momento mais importante de nossa vida porque sela o nosso destino eterno, ela o é sobretudo na vida de um monge. Assim, o enfermeiro da conhecida Abadia de Solesmes disse que aprendeu a “desacelerar” para prestar atenção nos detalhes no cuidado dos doentes: “Existe o risco de mercantilização do doente. Devo rezar para manter acordada a força do meu desejo de servir. [O irmão doente] é Cristo. Quando chegarmos diante de Deus, seremos responsáveis ​​por nossa caridade para com os mais fracos. Preciso saber como ‘perder meu tempo’ com os doentes. Na vida, dar livremente é essencial. Cristo disse que o homem que perde a vida a ganha”.


        Por sua vez, comenta o Irmão Teofano, da Abadia de Sept-Fons [foto]“Nunca estou tão consciente da presença de Deus como no momento da morte de meus irmãos. Há uma pausa, um antes e depois. Estamos no ponto da mais perfeita intersecção entre Deus e os vivos”.

            Dom Olivier, monge da Abadia de Cîteaux, fala filosoficamente sobre a preparação diária para a morte: “A morte mais difícil é a pequena morte diária, quando estamos perfeitamente saudáveis. Na vida, passamos de uma morte para outra; elas nos preparam para o fim último. Poucas mortes do ego se tornam grandes e permitem uma boa morte”.

            Diat comenta que na abadia de Mondayes e conta a história de um velho soldado da Segunda Guerra Mundial que se tornou monge ali. Quando ele estava muito doente no hospital, o abade de seu mosteiro foi ministrar-lhe os últimos ritos a fim de prepará-lo para a morte. Quando terminou a cerimônia, o Superior inusitadamente abriu uma garrafa de champanhe, e ambos beberam um brinde à morte. Dois dias depois, o veterano soldado e monge, trazido de volta ao seu mosteiro, entregava em paz sua alma a Deus. Conclui Diat: “Uma comunidade completa se compõe de vivos e mortos”.

         Um monge da Abadia de Fontgombault, mosteiro beneditino de observância totalmente tradicional, afirmou o que se pode aplicar a todo mundo, e não só aos religiosos: “Quanto mais forte a vida sobrenatural, maior a familiaridade com a vida após a morte, e mais simples a morte”. “A tradição católica enfatizou há muito esse mesmo ponto: se desejamos ter uma morte santa, devemos construir os hábitos em nossas vidas que entrarão em jogo em nossa hora de maior necessidade. A morte, nesse sentido, não passa de um momento final de um processo que a antecede e se prepara por muito tempo. Aqueles que acham ‘injusto’ que o destino eterno de uma pessoa dependa unicamente do estado da alma no momento da morte, não estão pensando corretamente: não veem a verdade de que ‘como um homem vive, ele morre’”.

         Também monge de Fontgombault, Dom Pateau, afirma que “a tecnologia nos domina até os momentos finais”“Deus deve nos forçar a aproveitar esse tempo: Ele diz: ‘Basta’, quando o homem moderno responderia prontamente: ‘Não tenho tempo’. Estaríamos prontos para perder o ponto alto desta vida. O homem se tornou escravo. Do mesmo modo, ele não tem mais tempo para si e para Deus. A falta é cruel. Ele não tem tempo para morrer porque não tem tempo para viver. Por sua parte, o monge concorda em perder todo o seu tempo para Deus. A vida monástica é feliz; a morte monástica também é”.

         O autor conclui considerando como a morte é vista pelos cartuxos, os mais austeros e inacessíveis de todos os religiosos. Um deles lhe diz: “Passo metade da minha vida pensando na vida eterna. Ela é o pano de fundo constante que reveste toda a minha existência […]. Devemos amar esta porta que nos permitirá conhecer o Pai”. Depois acrescenta: “Não é a porta que eu estou esperando, mas o que está do outro lado dela. Não estou esperando pela morte, mas pela Vida”.

            Diat comenta que se diz correntemente dos cartuxos que eles “fazem santos”, “mas não promovem suas causas”, porque todos devem tender à santidade. E narra o caso de um irmão leigo cartuxo que em meados do século XVII começou a praticar muitos milagres em sua sepultura, ameaçando tornar o mosteiro um lugar de peregrinação, com todos os inconvenientes inerentes a isso. O prior então, para cortar o mal pela raiz, dirigiu-se ao falecido monge e lhe disse: “Em nome da santa obediência, eu vos proíbo de fazer milagres”. A partir de então os fenômenos extraordinários cessaram.

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PROPAROXÍTONAS – Eduardo Afonso


As proparoxítonas são mágicas, únicas, o máximo!

Falar sobre as proparoxítonas sempre me remete à "Construção", do Chico Buarque, letra que ele escreveu com maestria finalizando cada verso com uma proparoxítona.
Isso deu uma força incrível à produção!


"Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto.

As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico. 
Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais lúgubres. Das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.

Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica!

Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito.

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.

O inclinado e o íngreme.

O irregular e o áspero.

O grosso e o ríspido.

O brejo e o pântano.

O quieto e o tímido.


Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice.

Uma coisa é estar no topo – outra, no ápice.

Uma coisa é ser fedido – outra é ser fétido.


É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido.

Ser artesão não é nada, perto de ser artífice.

Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice.


(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da gramática.)


Quer causar um impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.

É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo.

O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo – mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.

Da mesma forma, errar é humano. Épico mesmo é cometer um equívoco.

Escapar sem maiores traumas é escapar ileso – tem que ter classe pra escapar incólume.

O que você não conhece é só desconhecido. O que você não tem a mínima ideia do que seja – aí já é uma incógnita.

Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago.

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo – e são chamados de oxítonos e paroxítonos. Não é o cúmulo?"



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