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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

PROPAROXÍTONAS – Eduardo Afonso


As proparoxítonas são mágicas, únicas, o máximo!

Falar sobre as proparoxítonas sempre me remete à "Construção", do Chico Buarque, letra que ele escreveu com maestria finalizando cada verso com uma proparoxítona.
Isso deu uma força incrível à produção!


"Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto.

As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico. 
Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais lúgubres. Das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.

Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica!

Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito.

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.

O inclinado e o íngreme.

O irregular e o áspero.

O grosso e o ríspido.

O brejo e o pântano.

O quieto e o tímido.


Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice.

Uma coisa é estar no topo – outra, no ápice.

Uma coisa é ser fedido – outra é ser fétido.


É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido.

Ser artesão não é nada, perto de ser artífice.

Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice.


(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da gramática.)


Quer causar um impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.

É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo.

O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo – mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.

Da mesma forma, errar é humano. Épico mesmo é cometer um equívoco.

Escapar sem maiores traumas é escapar ileso – tem que ter classe pra escapar incólume.

O que você não conhece é só desconhecido. O que você não tem a mínima ideia do que seja – aí já é uma incógnita.

Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago.

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo – e são chamados de oxítonos e paroxítonos. Não é o cúmulo?"



* * *

sexta-feira, 31 de março de 2017

A LISTA FECHADA DO CONGRESSO BRASILEIRO – Eduardo Affonso

(Como vai funcionar o voto em lista fechada na prática)



"- Garçom, me veja o cardápio, por favor.

- Nós não trabalhamos mais com cardápio, senhor.

- Vocês usam uma tabuleta, você me fala os pratos?

- Não, senhor, trabalhamos agora com lista fechada.

- Como assim, "lista fechada"?

- O senhor escolhe o restaurante (no caso, escolheu o nosso), e o nosso gerente escolhe o que o senhor vai comer.

- E o que é que eu ganho com isso?

- O senhor não precisa perder tempo escolhendo.

- Mas como vou saber o que vou comer?

- O senhor come o que o gerente achar que o senhor deve comer.

- Mas baseado em quê, se ele não sabe do que eu gosto.

- Baseado nos critérios dele.

- Que são...

- Ele pode querer que sejam os pratos mais caros. Ou os que usam ingredientes que estão com prazo de validade perto de vencer. Ou os que já estão prontos. Ou os que dão menos trabalho. Isso não cabe ao senhor decidir.

- Então eu me sento e...

- Senta, come o que o gerente quiser, e paga a conta.

- E se eu não gostar do prato?

- Nós não trabalhamos com essa possibilidade, senhor. Gostando ou não, vai pagar a conta do mesmo jeito.

- Bem, acho que vou então para outro restaurante...

- Todos agora trabalham assim, senhor.

- Mas quem decidiu isso?

- O Sindicato dos Donos dos Restaurantes.

- Pois então eu não vou mais comer fora. Vou comer em casa.

- Não tem problema, senhor. Posso trazer a conta?

- Que conta? Não vou comer nada...

- A do Fundo Suprapartidário dos Restaurantes. Comendo aqui ou em casa, o senhor tem que financiar os restaurantes.

- Por que é que eu tenho que financiar vocês?

- Porque se não financiar por bem, nós vamos conseguir o financiamento de outra forma, que é assaltando o senhor - um método também conhecido como Caixa Registradora Dois. O senhor pagar diretamente é muito mais civilizado, não acha?

- E quem me garante que eu pagando vocês não vão me assaltar do mesmo jeito?

- Ninguém, senhor. Ah, não aceitamos cartão. E os 10% são obrigatórios...”


Essa é uma das propostas da Reforma Política dos seus nobres representantes no congresso... A Lista Fechada.


Eduardo Affonso

* * *

quinta-feira, 30 de março de 2017

SOBRE AS MANIFESTAÇÕES DE 26/03/2017

Clique sobre a foto, para vê-la no tamanho original
A manifestação de hoje foi um fiasco


Havia milhares de pessoas.
Apenas não havia um milhão.

E juntar milhares de pessoas para se manifestar contra a corrupção, pela ética, pela justiça, pela moralidade na gestão da coisa pública, será um fracasso?
Penso que não.

Fiasco seria um milhão de pessoas defendendo a impunidade, o desvio de verbas, a violação à Constituição.

Fiasco seria ter ido tangido feito gado pelos sindicatos, em ato organizado com dinheiro tirado do trabalhador.

Fiasco seria tumultuar a vida das pessoas num dia útil, faltar às aulas, ao trabalho, usar máscara, soltar rojão.

Ninguém estava lá por privilégios.
Ninguém estava lá por se sentir acima da lei.

Talvez a manifestação de hoje tenha sido um fiasco para quem achava que tirar Dilma do poder era um fim em si mesmo.
(Era o começo. Ainda há muito o que drenar naquele abcesso).

Um fiasco para quem se contenta com Cunha e Cabral na prisão.

Um fiasco para quem acha que o Brasil não tem jeito.

É, pra esses foi um fiasco.



Eduardo Affonso

* * *