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sábado, 25 de janeiro de 2020

1554-2020 — 466 ANOS DA FUNDAÇÃO DE SÃO PAULO – Paulo Roberto Campos


25 de janeiro de 2020

Pátio do Colégio, em 1824, pintura de Jean Baptiste Debret

Paulo Roberto Campos

Neste dia 25 de janeiro, em memória da comemoração do 466º aniversário de fundação da capital paulista, oferecemos aos leitores trecho (transcrito abaixo) de memorável discurso de Plinio Corrêa de Oliveira, publicado em 21-7-1935 no jornal “O Legionário”, então órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo.

Enquanto líder católico, o ilustre orador que então contava com 27 anos, proferiu uma saudação ao prefeito Fábio da Silva Prado (no quadriênio 1934 a 1938). Essa histórica saudação foi uma homenagem à cidade em nome dos 15.000 jovens Congregados Marianos concentrados na área externa da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.

Na ocasião, Plinio Corrêa de Oliveira — descendente, pelo lado materno, dos paulistas denominados “de quatrocentos anos”, isto é, originários dos fundadores ou dos primeiros habitantes da “Vila de São Paulo” — exalta os extraordinários talentos que a Divina Providência prodigalizou ao povo paulista e tece profundas considerações sobre a grandeza e glória da Pauliceia, fundada pelos jesuítas Nóbrega e Anchieta no Pátio do Colégio e desenvolvida pelos heroicos desbravadores bandeirantes.

Diversos Bandeirantes

“Excelentíssimo Senhor Prefeito Municipal

Incumbiu-me a mocidade que aqui se congrega, de homenagear, na pessoa de V. Exa., a gloriosa capital paulista.

Nada de mais grato para nossos corações do que celebrar, na festiva data de hoje, a grandeza e a glória da nossa Pauliceia, tão digna de todas as homenagens, pela sólida catolicida de que a distingue e pelo valor de sua atuação na vida nacional.

Há 466 anos, em 25 de janeiro de 1554, foi realizada, diante da construção feita de taipa de pilão erguida no Pátio do Colégio, a missa pela fundação da cidade de São Paulo do Piratininga

Em 25 de janeiro de 1554, foi realizada, diante da construção feita de taipa de pilão erguida no Pátio do Colégio, a missa pela fundação da cidade de São Paulo do Piratininga

Consagrando ao Apóstolo das Gentes a cidade que acabava de fundar, Anchieta implorou e obteve, para a raça que dela brotasse, o idealismo abrasador, a energia inexaurível, a combatividade invencível, a audácia viril e realizadora que Paulo de Tarso soube pôr a serviço da maior das causas, a causa de Cristo e da sua Igreja. […]

Não é apenas no idealismo candente e no vigor da ação, que os filhos desta cidade se têm mostrado dignos do Patrono que lhes deu Anchieta. É também pela universalidade de sua ação.

São Paulo, o Apóstolo das Gentes, não concebia limites para a sua doutrinação. O mundo inteiro era pequeno para a grandeza de seu ardor apostólico.

Representação da cabana do cacique Tibiriça, na qual sacerdotes jesuítas se abrigaram no dia da fundação de São Paulo, 25 de janeiro de 1554

Assim também a ação vigorosa e fecunda dos paulistanos se destaca pela sua universalidade. Nem a distância dos lugares, nem a dificuldade das comunicações foram diques capazes de conter a ação da gente bandeirante, que se tem derramado em influxos benéficos sobre o Brasil inteiro. E desde as bandeiras até à reconstitucionalização do País, todos os episódios de nossa história têm sido um transbordamento do coração e da energia de São Paulo, para além de nossas fronteiras em benefício de nosso grande Brasil. […]

São Paulo não é grande por ser rica. Mas São Paulo é rica, porque o paulista é grande. Nossa riqueza foi arrancada ao solo virgem de nossa terra depois de uma luta titânica contra a natureza bravia. Nossa capital não se construiu em fértil e luminosa planície, embelezada por todas as graças da natureza. Foi edificada em terreno montanhoso e sob um céu cheio de brumas, em que tudo no ambiente nos lembra, constantemente, a vocação do paulista; porque as brumas nos dizem lutar e o solo acidentado nos brada subir.

Se nosso Estado é próspero e nossa capital é bela, não o devemos nós, portanto, senão à mercê de Deus e à fibra de nossa gente. Porque foram sempre a mercê de Deus e o valor de nossa fibra a maior riqueza com que contamos”.




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TEM UMA PEDRA NO CAMINHO - Péricles Capanema


22 de janeiro de 2020
Péricles Capanema

Tem uma pedra no meio do caminho. Drummond — que aliás qualificou o verso famoso de “texto insignificante, um jogo monótono” — na verdade escreveu “tinha uma pedra no meio do caminho”. Podia ser que já não mais lá estivesse. Eu, por meu lado, não estou tratando do passado, refiro-me a presente candente, agora tem uma pedra grande no meio do caminho. Trata-se de tirá-la da frente.

Vamos aos fatos. O Dr. Salim Mattar, secretário-especial de Desestatização e Desinvestimento, em 14 de janeiro afirmou, ao longo de 2020 o governo pretende arrecadar com privatizações, vendendo uns 300 ativos, em torno de R$150 bilhões. Aplausos, o caminho para a prosperidade passa pela desestatização; de outro modo, pela privatização.

Informou a mais o dirigente, a Caixa, o Banco do Brasil e a Petrobrás não serão tocados. Os Correios ficaram para fins de 2021. Anunciou ainda, a maior parte do dinheiro arrecadado virá de desinvestimento (vendas) no sistema Eletrobrás. Em suma, enorme programa de privatização em curso; para torná-lo mais ágil serão encaminhados projetos de lei à Câmara dos Deputados, asseverou o Dr. Salim.

Repito o que escrevi, para mim, em princípio, quanto mais ampla a privatização, melhor. O particular tem mais eficácia que o burocrata quando o assunto é contratar, comprar, vender e produzir. No fim, com a economia na mão de particulares e não do Estado, teremos produtividade maior; enfim, mais emprego e renda, o que favorece o bem comum. E que o Estado execute bem o que lhe é próprio, regulações, defesa, segurança, proteção da moeda, atenção especial aos mais carentes, alguma coisa mais, tem valioso e insubstituível papel. É a aplicação do princípio da subsidiariedade nas relações entre a sociedade e o Estado, entre o particular e o estatal. Paro, e até peço desculpas, estou me sentido um pouco o conselheiro Acácio.

Agora, com licença do Eça, dou as costas ao conselheiro, e trato de assuntos que não são (ou não parecem) óbvios, ênfase em matéria constitucional.

Ao longo de 2020, aposta minha, o leitor escutará até o fastio as seguintes expressões: empresários chineses, empresas chinesas, investimentos chineses, investidores chineses. Não acredite. É mentira deslavada. Melhor, fraude escandalosa para esconder a realidade (conhecida, aliás, do Brasil inteiro, mas misteriosamente silenciada). Vou explicar.

Dizia Talleyrand, “boutade” dele, uma a mais, a palavra nos foi dada para dissimular o pensamento (há variadas versões do que ele teria de fato afirmado, todas em torno da ideia de que a palavra mais serviu para disfarçar do que para exprimi-lo). É o nosso caso, a dissimulação. Mais no ponto, dissimular para ocultar a verdade inteira.

Volto ao que dizia e explico. À vera, as empresas chinesas que investem no Brasil são na maioria esmagadora dos casos, para ser prudente, estatais chinesas — dirigidas dos pés à cabeça, por dentro e por fora — pelo governo chinês, o qual, por sua vez, não nos esqueçamos temos lá governo de partido único, é dirigido pelo Partido Comunista Chinês (PCC). Os empresários chineses que transitam no Brasil (conto da carochinha) são na verdade burocratas, membros bem vistos e bem vestidos do PCC, com cargos de direção nas estatais. Os tais investidores chineses que aplicam no Brasil, outro recurso ardiloso, na verdade não existem; é dinheiro posto aqui pelo governo chinês, dono das estatais.

Então, a bem da transparência, fica aqui a errata. Quando você ler empresas chinesas, leia empresas estatais chinesas. Quando ler, empresários chineses, leia burocratas chineses. Quando ler investidores chineses, leia aplicações do governo comunista chinês via estatais. Quando ler investimentos chineses, leia aplicações do governo chinês, dirigido pelo PCC. Não vai errar em, por baixo, 99,9% dos casos.

O que estou bradando em cima dos tetos — proclamai-o do alto dos telhados, obrigação evangélica (Mt 10, 27) — é proibido divulgar desse jeito (mas todo mundo sabe que é assim). Todo mundo vai continuar a falar de empresários chineses, de investidores chineses, de capitais chineses, de empresas chinesas. Você, minha dica, aplique a errata, pois na prática está proibido mudar tal linguagem. De onde vem a proibição, que apunhala a realidade? Não sei. Mais, pedaço grande do programa de privatização brasileiro corre o risco de cair nas mãos de estatais chinesas (parte já caiu). Um exemplo entre dezenas, a imprensa nos últimos dias noticiou que a SABESP, 28 milhões de clientes, onde o governo tem 50,3% do capital votante, poderá ser vendida. A quem? Repito o que li: a empresários chineses, a empresas chinesas, a grupos chineses. Dissimulação. Qual a empresa interessada num negócio que pode chegar a R$40 bilhões ou mais? Só um nome, China Railway Construction Corporation, estatal chinesa. Privatização à brasileira.

Não sou constitucionalista e, por isso, solicito auxílio deles. Mas me surpreenderia se não estivéssemos diante da maior agressão à Constituição da história brasileira — monstruosa, aberrante, silenciada e silenciosa.

Adiante, escrevendo preto sobre o branco. Comanda o artigo 173 da Constituição:

“Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta da atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei”.

A exploração direta da atividade econômica pelo Estado se dá por meio de empresas públicas e empresas de economia mista (estatais). O Estado brasileiro está proibido de agir diretamente na esfera econômica salvo nos dois casos acima. Logo, seria aberrantemente ilegal que o Banco do Brasil, a Caixa, a Petrobrás, entre outros agentes econômicos, via de regra (sempre se pode pensar em pequenas exceções), participassem do processo de privatização. Seriam atos inconstitucionais, nulos.

Se ao Estado brasileiro é vedado participar do processo de privatização no Brasil, a fortiori os Estados estrangeiros estão impedidos de fazê-lo por meio de suas estatais. É absurdo, de fato, entre nós, muitas vezes, para privatizar, a propriedade sai das mãos do Estado brasileiro e vai para as mãos de Estado estrangeiro. Na prática, contudo, estamos tendo a presença gigantesca de estatais de outros países no processo de privatização do Brasil. E não só de estatais chinesas. Tais atos não foram nulos por inconstitucionais?

Quando você ler fundo soberano de tal país, entenda estatal de tal país, outra expressão para a errata. Vários fundos soberanos (estatais) estão ativos no Brasil, tentando aproveitar as oportunidades do processo de privatização. Um exemplo, poucos dias arás, foi feita a concessão (uma forma de entrega à iniciativa privada) do trecho Piracicaba-Panorama. O consórcio vencedor, Consórcio Infraestrutura Brasil, é formado pelo fundo Pátria e pelo fundo soberano GIC (fundo soberano de Singapura). Foi a maior concessão até hoje feita. O GIC é uma estatal de Singapura. Vedado ao Estado brasileiro, mas permitido a Singapura, um Estado soberano? Pode?

Aqui está, tudo o indica, o argumento falacioso por trás dos investimentos de governos estrangeiros no Brasil: todas essas aplicações de capitais estão sendo abrigadas, por desídia e velhacaria (é impostura, e ela continua intacta) no artigo 172 da Constituição:

“A lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos de capital estrangeiro, incentivará os reinvestimentos”.

Capital estrangeiro, o ponto. Mas não estamos diante apenas de capital estrangeiro, não estamos tratando apenas de investimentos estrangeiros. É falsidade ululante parar por aí. Vamos colar nos fatos. Estamos diante de capital estrangeiro estatal, óbvio ululante, para uma vez mais lembrar Nelson Rodrigues. São governos os seus proprietários. E nesse caso, vale o artigo 173: se há vedação constitucional para o Estado brasileiro estar presente, muito menos poderá o Estado estrangeiro investir por meio de empresas públicas, sociedades de economia mista ou fundos soberanos. Claro como água de pote.

Se assim não fosse, o Estado brasileiro na obediência ao artigo 172 não poderia ser proprietário por vedação constitucional, mas, por absurdo, a Constituição estimularia que, nas mesmas circunstâncias, Estados estrangeiros abocanhassem tais propriedades.

Não adianta chiar, estamos diante de problema constitucional grave, nulidade de atos há anos sucedendo no ordenamento jurídico nacional. Martelo, não estamos tratando de investimentos estrangeiros, é falsa a afirmação, estamos falando de investimentos estatais de Estados estrangeiros. Aqui está o problema.

O problema está aqui, mas não está só aqui. Vai mais longe. A atividade econômica no Brasil obedece a princípios, comanda o artigo 172, o primeiro dos quais (inciso I) é que não pode lesar a soberania nacional. Nem real, nem potencialmente. Pergunto, os investimentos maciços de estatais chinesas no Brasil que em nada, só por chacota, poderiam ser “imperativos de nossa segurança nacional” não ameaçam a segurança nacional? A presença crescente deles na infraestrutura tem “relevante interesse coletivo”? Ligarmos nossa economia, que passará a ter um de seus pontos nevrálgicos em Pequim, na sede do PCC, tão íntima e fortemente a um poder mundial imperialista e ditatorial em nada arranha a soberania? Poder que hoje, visto com simpatia pela esquerda interna entreguista, apoia ditaduras como Irã, Coreia do Norte, Venezuela, Cuba. É nosso futuro, sem dúvida de retrocesso e atraso, adversário dos direitos humanos?

Um último ponto, a Constituição determina, artigo 172, a lei disciplinará, com base no interesse nacional, os investimentos de capital estrangeiro. Fala em capitais privados, é claro; refere-se também a capitais públicos. É do interesse nacional termos gigantescas presenças na economia de Estados estrangeiros, em especial da China comunista?

Paro por aqui e faço convites cordiais. Os constitucionalistas precisam se pronunciar, também é imprescindível que falem os setores que por missão institucional ou presença na vida pública estão especialmente ligados à preservação e defesa da independência nacional, assim como de nossos interesses estratégicos. Tem uma pedra no meio do caminho. Uma, não; várias, grandes e cortantes.


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sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

ATITUDES EM FACE DA MORTE - Plinio Maria Solimeo


24 de janeiro de 2020
Plinio Maria Solimeo


            Nosso mundo hedonista e gozador da vida de nada tem maior temor do que da morte. Só o pensar nela aterroriza-o, estraga todos seus prazeres. Entretanto, dela ninguém escapa.

            Este é o tema que Peter Kwasniewski — escritor católico, autor, palestrante, editor, publicista e compositor — desenvolve em seu interessante artigo publicado no Life Site News sob o sugestivo título: Monges católicos revelam como se preparam para a morte em um mosteiro.

Kwasniewski [foto ao lado] começa falando com muita propriedade de uma das pragas de nosso tempo, a tão propalada eutanásia: “Uma prática antes considerada abominável — na verdade, simplesmente uma forma de assassinato a sangue frio daqueles que são mais vulneráveis ​​e mais merecedores de nossa atenção e carinho amorosos — está sendo promovida como a melhor maneira de ‘tirar alguém de sua miséria’, assim como um cavalo manco ou um animal de estimação frágil é ‘abatido’ pelo veterinário […]. Em vez de enfrentarmos a morte como sendo uma passagem purificadora para a vida eterna, tentamos mercantilizá-la como uma forma final de paliativo”.

         Ele concorda que o medo da morte é natural, pois o próprio Filho de Deus o teve. Entretanto, escondê-la ou ignorá-la não adianta, além de ir contra o que diz a Sagrada Escritura: “Pensa nos teus novíssimos e não pecarás eternamente” (Ecl. 7, 40). Sabemos que os “novíssimos” são as últimas coisas que irremediavelmente nos acontecerão: a morte, à qual sucederão o juízo particular e — conforme nós tivermos vivido — o inferno ou o paraíso para sempre.

         Mesmo quando é irremediável encarar a morte, procura-se tirar dela todo o aspecto religioso. A eutanásia, por exemplo, é baseada em considerações puramente materialistas e ateias. A explicação para isso no-la dá o ilustre escritor: “Sem Deus, a morte não pode ter sentido; sem Cristo, a morte não pode ter benefício; sem o Espírito Santo, a morte não pode ser encarada com amor e esperança. Torna-se o grande absurdo, e não a passagem da vida mortal para a imortal”.


        Kwasniewski passa então a falar de um livro que foi publicado há pouco nos Estados Unidos, escrito pelo jornalista francês Nicolas Diat e intitulado Hora de morrer: monges no limiar da vida eterna [capa ao lado], no qual o autor relata sua experiência nas visitas que fez a oito mosteiros na França com o objetivo de conversar com os monges sobre seus pontos de vista sobre a morte, como eles se preparam para ela e como os afeta verem seus irmãos de hábito passar desta vida para a eterna.

         Entre os monges entrevistados, Dom David, da Abadia de En-Calcat, considerou que o homem construiu um mundo tão tecnológico, que esse mesmo mundo agora o humilha e o faz sentir vergonha, numa espécie de complexo de inferioridade. Aduziu que para a antropologia clássicao homem era o rei e o cume do reino animal, mas que nos últimos 50 anos ele se tornou insignificante num mundo dominado por ídolos tecnológicos. Afirma o jornalista: “Dom David diz que a nossa tecnologia médica se desenvolveu a tal ponto, que prolonga a nossa agonia e nos deixa em frangalhos. Podemos acabar vendo a nós mesmos e uns aos outros de uma maneira despersonalizada, como se fôssemos máquinas com partes funcionais ou não funcionais, em vez de ver a imagem de Deus, que é infinitamente mais preciosa que a própria vida corporal e qualquer tecnologia que possamos reunir”. Comenta Diat: “Os leitores podem se surpreender ao saber (embora seja lógico) que os mosteiros enfrentam os mesmos desafios que os leigos enfrentam no mundo: cuidados com o fim da vida, remédios para dor, quando levar alguém do hospital para casa a fim de morrer em sua própria cama” etc.

         Como a morte é o momento mais importante de nossa vida porque sela o nosso destino eterno, ela o é sobretudo na vida de um monge. Assim, o enfermeiro da conhecida Abadia de Solesmes disse que aprendeu a “desacelerar” para prestar atenção nos detalhes no cuidado dos doentes: “Existe o risco de mercantilização do doente. Devo rezar para manter acordada a força do meu desejo de servir. [O irmão doente] é Cristo. Quando chegarmos diante de Deus, seremos responsáveis ​​por nossa caridade para com os mais fracos. Preciso saber como ‘perder meu tempo’ com os doentes. Na vida, dar livremente é essencial. Cristo disse que o homem que perde a vida a ganha”.


        Por sua vez, comenta o Irmão Teofano, da Abadia de Sept-Fons [foto]“Nunca estou tão consciente da presença de Deus como no momento da morte de meus irmãos. Há uma pausa, um antes e depois. Estamos no ponto da mais perfeita intersecção entre Deus e os vivos”.

            Dom Olivier, monge da Abadia de Cîteaux, fala filosoficamente sobre a preparação diária para a morte: “A morte mais difícil é a pequena morte diária, quando estamos perfeitamente saudáveis. Na vida, passamos de uma morte para outra; elas nos preparam para o fim último. Poucas mortes do ego se tornam grandes e permitem uma boa morte”.

            Diat comenta que na abadia de Mondayes e conta a história de um velho soldado da Segunda Guerra Mundial que se tornou monge ali. Quando ele estava muito doente no hospital, o abade de seu mosteiro foi ministrar-lhe os últimos ritos a fim de prepará-lo para a morte. Quando terminou a cerimônia, o Superior inusitadamente abriu uma garrafa de champanhe, e ambos beberam um brinde à morte. Dois dias depois, o veterano soldado e monge, trazido de volta ao seu mosteiro, entregava em paz sua alma a Deus. Conclui Diat: “Uma comunidade completa se compõe de vivos e mortos”.

         Um monge da Abadia de Fontgombault, mosteiro beneditino de observância totalmente tradicional, afirmou o que se pode aplicar a todo mundo, e não só aos religiosos: “Quanto mais forte a vida sobrenatural, maior a familiaridade com a vida após a morte, e mais simples a morte”. “A tradição católica enfatizou há muito esse mesmo ponto: se desejamos ter uma morte santa, devemos construir os hábitos em nossas vidas que entrarão em jogo em nossa hora de maior necessidade. A morte, nesse sentido, não passa de um momento final de um processo que a antecede e se prepara por muito tempo. Aqueles que acham ‘injusto’ que o destino eterno de uma pessoa dependa unicamente do estado da alma no momento da morte, não estão pensando corretamente: não veem a verdade de que ‘como um homem vive, ele morre’”.

         Também monge de Fontgombault, Dom Pateau, afirma que “a tecnologia nos domina até os momentos finais”“Deus deve nos forçar a aproveitar esse tempo: Ele diz: ‘Basta’, quando o homem moderno responderia prontamente: ‘Não tenho tempo’. Estaríamos prontos para perder o ponto alto desta vida. O homem se tornou escravo. Do mesmo modo, ele não tem mais tempo para si e para Deus. A falta é cruel. Ele não tem tempo para morrer porque não tem tempo para viver. Por sua parte, o monge concorda em perder todo o seu tempo para Deus. A vida monástica é feliz; a morte monástica também é”.

         O autor conclui considerando como a morte é vista pelos cartuxos, os mais austeros e inacessíveis de todos os religiosos. Um deles lhe diz: “Passo metade da minha vida pensando na vida eterna. Ela é o pano de fundo constante que reveste toda a minha existência […]. Devemos amar esta porta que nos permitirá conhecer o Pai”. Depois acrescenta: “Não é a porta que eu estou esperando, mas o que está do outro lado dela. Não estou esperando pela morte, mas pela Vida”.

            Diat comenta que se diz correntemente dos cartuxos que eles “fazem santos”, “mas não promovem suas causas”, porque todos devem tender à santidade. E narra o caso de um irmão leigo cartuxo que em meados do século XVII começou a praticar muitos milagres em sua sepultura, ameaçando tornar o mosteiro um lugar de peregrinação, com todos os inconvenientes inerentes a isso. O prior então, para cortar o mal pela raiz, dirigiu-se ao falecido monge e lhe disse: “Em nome da santa obediência, eu vos proíbo de fazer milagres”. A partir de então os fenômenos extraordinários cessaram.

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PROPAROXÍTONAS – Eduardo Afonso


As proparoxítonas são mágicas, únicas, o máximo!

Falar sobre as proparoxítonas sempre me remete à "Construção", do Chico Buarque, letra que ele escreveu com maestria finalizando cada verso com uma proparoxítona.
Isso deu uma força incrível à produção!


"Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto.

As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico. 
Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas. Das mais lânguidas às mais lúgubres. Das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.

Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto - e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica!

Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito.

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.

O inclinado e o íngreme.

O irregular e o áspero.

O grosso e o ríspido.

O brejo e o pântano.

O quieto e o tímido.


Uma coisa é estar na ponta – outra, no vértice.

Uma coisa é estar no topo – outra, no ápice.

Uma coisa é ser fedido – outra é ser fétido.


É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido.

Ser artesão não é nada, perto de ser artífice.

Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice.


(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da gramática.)


Quer causar um impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.

É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo.

O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo – mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.

Da mesma forma, errar é humano. Épico mesmo é cometer um equívoco.

Escapar sem maiores traumas é escapar ileso – tem que ter classe pra escapar incólume.

O que você não conhece é só desconhecido. O que você não tem a mínima ideia do que seja – aí já é uma incógnita.

Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago.

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo – e são chamados de oxítonos e paroxítonos. Não é o cúmulo?"



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quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

A MÁ FAMA DOS POLÍTICOS



 Um pequeno conto para ilustrar a visão geral que os políticos construíram no imaginário popular – não sem motivos!


“O florista foi ao barbeiro para cortar seu cabelo.

Após o corte, perguntou ao barbeiro o valor do serviço e o barbeiro respondeu:
– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O florista ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um buquê com uma dúzia de rosas na porta e uma nota de agradecimento do florista.

Mais tarde, no mesmo dia, veio um padeiro para cortar o cabelo. Após o corte, quando o homem tencionou pagar, o barbeiro disse:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.
O padeiro ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um cesto com pães e doces na porta e uma nota de agradecimento do padeiro.

Naquele segundo dia, veio um deputado para um corte de cabelo.

Quando o deputado-freguês foi pagar, o barbeiro disse:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O deputado ficou feliz e foi embora. No dia seguinte, quando o barbeiro foi abrir a barbearia, havia uma dúzia de deputados, com seus filhos, tios, sobrinhos, afilhados, vizinhos, cabos eleitorais, todos fazendo fila para cortar cabelo de graça!.
Essa é uma das diferenças entre os cidadãos e os políticos.”


 “Os políticos e as fraldas devem ser trocados frequentemente e pela mesma razão.”     (Eça de Queiróz)



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LIVRO INFANTIL DE CYRO DE MATTOS FOI ATRAÇÃO NO FESTIVAL LITERÁRIO DE SENHOR DO BONFIM



Com uma programação pra lá de especial, o primeiro Festival Literário de Senhor do Bonfim foi realizado em 19 e 20 de dezembro de 2019, movimentando   o Centro-Norte da Bahia através de encontros fascinantes entre os leitores e os livros.   Contou para isso com uma série de eventos e, entre eles, na parte de contação de histórias, foi apresentado o livro infantil Minha Feira Tudo Tem Como Onda Vai Vem, de Cyro de Mattos, publicado pela editora Via Litterarum.

A Biblioteca de Extensão do Estado (Bibex) teve dessa vez como ponto de parada o Festival Literário de Senhor do Bonfim (Flisbon), sendo esta a primeira edição do evento que patrocinou na região.  A unidade da Bibex é integrada ao Sistema de Bibliotecas Públicas da Fundação Pedro Calmon (FPC), órgão da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (SecultBA).

Foi esta a programação do Flisbon:

Quinta-feira (19):
9h às 12h – Exposição Bibliográfica;
9h às 12h – Visita à Biblioteca Móvel;
9h30 – Contação de História: O poderoso chinelinho. Autora: Patrícia Gonçalves;
10h30 – Entretenimento Cultural – Brincadeiras Educativas;
14h30 – Contação de Histórias: Minha feira tudo tem como onda vai e vem. Autor: Cyro de Mattos;
15h – Oficina Criativa: Origami.

Sexta-feira (20):
9h às 12h – Exposição Bibliográfica;
9h às 12h – Visita à Biblioteca Móvel;
9h30 – Contação de História: Mauro e o pé de pitanga. Autores: Camila Baqueiro;
11h – Oficina Artística: Pintura, desenho e colagem;
14h30 – Contação de Histórias: O rei bigodeira e a sua banheira. Autor: Awdrey Wood;
15h30 – Oficina Criativa: Primavera.



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quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA SORRINDO Humor 2


Guardiães da Gramática

No prédio de uma grande editora de livros, entrei num elevador apinhado de gente. quando percebi estava junto aos botões dos andares.

            - Todo mundo já marcou o número de seus andares? - perguntei, gentil.

            Após alguns instantes de silêncio, uma voz jovem feminina disse, lá do fundo:

            - Todos.

            - Como? – Perguntei.

            - Todos. “Todos já marcaram o número de seus andares?” Sua frase ficaria melhor assim.

            - E não deveria ser “seu andar”, em vez de “andares”? – perguntou um rapaz. – Afinal de contas, cada um de nós saltará em um único andar.

            - E não seria ainda melhor dizer “Todos já apertaram?” em vez de “Todos já marcaram” – uma terceira voz acrescentou.

            E ali estava eu, corrigido e envergonhado. Mas pelo menos fiquei satisfeito em saber que ainda há quem se preocupe com o bom uso da língua.

                    - RICHARD CURTIS, citado em Enid Nemy e Ron Alexander no New York Times

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Autossuficiente?

            Meu pai viajava frequentemente a trabalho e não gostava que providenciassem tudo para ele. Uma vez, ao chegar à Inglaterra, pegou o metrô para Londres e começou a procurar o hotel. Depois de muito tempo, achou que deveria ter deixado a secretária providenciar o transporte. Por fim chamou um táxi e deu ao motorista o endereço. O táxi levou-o de volta ao aeroporto-onde ficava o hotel.
                                                                                                                                             - M.E. PELSMA-OSTENDORF, Países Baixos.

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Aviso Pertinente

            Sou arquiteto, funcionário da prefeitura da minha cidade. Fui medir um posto de saúde que deveria ser reformado. Ao chegar, encontrei o seguinte comunicado na porta do posto: FECHADO. MOTOVO: DOENÇA.

  - GERSON LUIZ KAUER, Sáo Leopoldo (RS)
                                                                                                                                                                                                                                -----------------

Perguntas Indiscretas

            O que os especialistas em cometer gafes sempre perguntam:

            Quantos anos você tem?

            Tem certeza de que você vai comer isso?

            Alguém vai querer esse último pedaço?

            Você se lembra de mim?

            Você ainda está solteiro?

            Você ainda está casado?

            Se não servir, eles aceitam troca?

            Quanto custou?

            É verdadeira ou é bijuteria?

            Você está grávida

                             - CLAUDIA MATARAZZO, Gafe não é pecado (Editora Melhoramentos)


(Reader’s Digest SELEÇÕES – Março 2000)

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