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terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A GAROTA COM A MAÇÃ Por Herman Rosenblat

Herman and Roma Rosenblat are shown here in 2008 at their home in North Miami Beach, Fla. (J. Pat Carter/AP)

Por Herman Rosenblat 
Miami Beach, Flórida


Agosto de 1942, Piotrkow, Polônia. O céu estava cinzento naquela manhã em que esperávamos ansiosamente. Todos os homens, mulheres e crianças do gueto judaico de Piotrkow tinham sido levados até uma praça. Fora espalhado o boato de que seríamos transferidos. Meu pai tinha morrido de tifo alguns dias antes, e a notícia se espalhara pelo gueto apinhado. Meu maior temor era que nossa família fosse separada. “De maneira alguma,” sussurrou-me Isidore, meu irmão mais velho, “conte a eles a sua idade. Diga que tem dezesseis anos.” Eu era alto para um menino de onze, portanto poderia afirmar isto.

Dessa maneira eu poderia ser considerado útil como trabalhador. Um homem da SS aproximou-se de mim, as botas ressoando nas pedras. Olhou-me de alto a baixo, então perguntou minha idade. “Dezesseis,” eu disse. Ele encaminhou-me para a esquerda, onde meus três irmãos e outros jovens saudáveis já estavam.

Minha mãe foi levada para a direita com as outras mulheres, crianças, doentes e pessoas idosas. Cochichei para Isidore: “Por quê?” Ele não respondeu. Corri para o lado de mamãe e disse que queria ficar com ela. “Não,” disse ela firmemente. “Saia daqui. Não me aborreça. Vá com seus irmãos.” Ela jamais me falara tão duramente antes, mas eu entendi: mamãe estava me protegendo. Ela me amava tanto que, apenas por esta vez, ela fingiu não fazê-lo. Foi a última vez que a vi.

Meus irmãos e eu fomos transportados num vagão de gado até a Alemanha. Chegamos ao campo de concentração de Buchenwald numa noite várias semanas depois, e fomos levados até um barracão lotado. No dia seguinte, recebemos uniformes e números de identificação. “Não me chamem mais de Herman,” eu disse aos meus irmãos. “Chamem-me de 94983.” Fui designado para trabalhar no crematório do campo, colocando os mortos num elevador operado à manivela. Eu, também, me sentia morto. Endurecido, tinha me tornado um número. Em pouco tempo, meus irmãos e eu fomos enviados a Schlieben, um dos sub-campos de Buchenwald perto de Berlim.

Certa manhã, pensei ter ouvido a voz de minha mãe. “Filho,” dizia ela suave mas claramente, “estou enviando um anjo para você.” Então acordei. Fora apenas um sonho. Um lindo sonho. Porém num lugar daqueles não poderia haver anjos. Apenas trabalho, fome, e medo. Alguns dias depois, eu estava trabalhando no campo por trás dos barracões, perto da cerca de arame farpado onde os guardas não podiam ver com facilidade. Eu estava sozinho. No outro lado da cerca, divisei alguém, uma garota com cachos claros, quase luminosos. Estava meio escondida por trás de uma bétula. Olhei ao redor para me certificar que ninguém podia me ver, Chamei-a baixinho em alemão. “Você tem alguma coisa para comer?” Ela não entendeu. Aproximei-me mais da cerca e repeti a pergunta em polonês.

Ela deu um passo à frente. Eu era magro e macilento, com trapos ao redor dos pés, porém a menina não parecia assustada. Em seus olhos, eu via vida. Ela tirou uma maçã da sua jaqueta de lã e atirou-a por cima da cerca. Agarrei a fruta e, quando comecei a me afastar correndo, ouvi-a dizer baixinho: “Eu te vejo amanhã.”

Eu voltava ao mesmo ponto da cerca todos os dias à mesma hora. Ela estava sempre lá, com alguma coisa para eu comer; um pedaço de pão, ou melhor ainda, uma maçã. Não ousávamos conversar ou demorar ali. Ser apanhado significava a morte para nós dois. Eu não sabia nada sobre ela, “apenas uma garota da fazenda”, exceto que ela entendia polonês.

Qual era seu nome? Por que arriscava a vida por mim? A esperança era um artigo tão raro, e esta menina do outro lado da cerca me dava alguma, algo para me nutrir como faziam as maçãs e o pão.

Quase sete meses depois, meus irmãos e eu fomos colocados num carro de carvão e enviados para o campo Theresienstadt na Checoslováquia. “Não volte,” disse eu à garota aquele dia. “Estamos partindo.” Voltei-me em direção às barracas e não olhei para trás, nem sequer disse adeus à menina cujo nome eu jamais soube, a garota com as maçãs.

Ficamos em Theresientadt por três meses. A guerra estava diminuindo e as Forças Aliadas estavam se aproximando, porém meu destino parecia selado. Em 10 de maio de 1945, eu estava agendado para morrer na câmara de gás às 10 da manhã. No silêncio da madrugada, eu tentava me preparar. Tantas vezes a morte parecera me chamar, mas de alguma forma eu tinha sobrevivido. Agora, tudo estava acabado. Pensei nos meus pais. Pelo menos, estaríamos reunidos. Às 8 da manhã, houve uma comoção. Ouvi gritos, e vi pessoas correndo para todo lado através do campo. Consegui reunir-me aos meus irmãos.

As tropas russas tinham libertado o campo! Os portões foram abertos. Todos estavam correndo, portanto fiz o mesmo.

Surpreendentemente, todos os meus irmãos tinham sobrevivido; não sei como. Porém eu sabia que a garota com as maçãs tinha sido a chave da minha sobrevivência. Num lugar onde o mal parecia triunfar, a bondade de uma pessoa tinha salvado a minha vida, tinha me dado esperança onde não havia nenhuma. Minha mãe tinha prometido me enviar um anjo, e o anjo tinha vindo.

Com o tempo, consegui chegar à Inglaterra onde fui ajudado por uma instituição de caridade judaica, colocado num abrigo com outros meninos que tinham sobrevivido ao Holocausto e treinado em eletrônica. Então cheguei aos Estados Unidos, onde meu irmão Sam já estava morando. Alistei-me no exército americano durante a Guerra da Coréia e ao ser desembarcado na Itália, me apaixonei. Porém meus irmãos disseram: “Você partiu solteiro, volte para casa solteiro.” Por algum motivo, escutei-os e voltei à cidade de Nova York após dois anos, sozinho.

Em agosto de 1957 abri minha loja de consertos eletrônicos. Eu estava começando a me estabelecer. Um dia, meu amigo Sid, que eu conhecia desde a Inglaterra, telefonou-me. “Tenho um amigo que conhece uma moça da Polônia. Acho que você deveria encontrá-la.”

Um encontro às cegas? Não, aquilo não era para mim. Porém Sid ficava insistindo, e alguns dias depois fomos ao Brooklyn para encontrar Roma (Rivca). Tive de admitir, para um encontro às cegas até que não foi tão mau. Roma era enfermeira num hospital do Bronx. Era simpática, inteligente e cheia de vida.

Fomos de carro até Coney Island. Ela era uma pessoa agradável para conversar, uma boa companhia. Também estava cansada de encontros às cegas! Nós dois estávamos apenas fazendo um favor para amigos. Demos um passeio pelo calçadão na praia, apreciando a brisa do Atlântico, e depois jantamos ali perto. Achei a noite muito divertida. Voltamos ao carro de Sid, Roma e eu no banco traseiro. Como judeus europeus que tinham sobrevivido à guerra, sabíamos que havia muita coisa que ainda não fora dita entre nós. Ela aventou o assunto: “Onde você estava durante a guerra?”

“Nos campos,” eu disse, as terríveis lembranças ainda vívidas, a perda irreparável. Eu tinha tentado esquecer. Mas jamais se pode esquecer.

Ela assentiu. “Minha família estava escondida numa fazenda na Alemanha, não muito longe de Berlim. Meu pai conhecia um padre, e ele nos conseguiu documentos arianos.”

Imaginei como ela deveria ter sofrido também, tendo o medo como companheiro constante. E apesar de tudo ali estávamos nós, ambos sobreviventes, num novo mundo. “Havia um campo perto da fazenda,” continuou Roma. “Eu via um garoto ali e lhe jogava maçãs todos os dias.”

Que coincidência estranha ela ter ajudado algum outro menino. “Como era ele?” perguntei.

“Era alto. Magro. Faminto. Devo tê-lo visto todos os dias durante seis meses.” Meu coração estava pulando, eu não podia acreditar! Isso não era possível.

“Ele disse a você certo dia para não voltar porque ele estava deixando Schlieben?”

Roma olhou-me surpresa. “Sim.”

“Era eu!” Eu estava prestes a explodir de alegria e reverência, inundado pela emoção. Não podia acreditar. Meu anjo.

“Não vou deixá-la ir,” eu disse a Roma.

E na traseira do carro naquele encontro às cegas, eu a pedi em casamento. Não queria esperar.

“Você está louco!” disse ela. Porém convidou-me para conhecer seus pais no jantar do Shabat, na semana seguinte. Havia tantas coisas que eu queria saber sobre Roma, porém as mais importantes eu já sabia; sua firmeza de caráter, sua bondade. Durante muitos meses, na pior das circunstâncias, ela tinha ido até a cerca e me dado esperança. Agora que eu a encontrara de novo, não a deixaria ir. Naquele dia, ela disse sim. E eu mantive minha palavra. Após quase 50 anos de casamento, dois filhos e três netos, eu jamais deixei-a ir.


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                                                * * *

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O MISTÉRIO DA PEDRA PRECIOSA, Por W. W. Meade


Eu estava à procura
De um diamante,
Mas o que encontrei
Foi ainda mais
Surpreendente


            Uma das questões recorrentes na minha vida é a capacidade da ciência para esclarecer acontecimentos inexplicáveis. Muitos de meus amigos próximos têm uma admiração profunda pelo misticismo, com o qual não me identifico. Minha mulher, Ellen, e eu discutimos sobre tudo, desde OVNIs até cura espiritual. Na minha opinião, tudo isso é fantasia, mas para ela são possibilidades fascinantes.

            Filho de médico, sempre admirei a ciência e seu método rigoroso. Portanto, de modo geral, não acredito em algo que não possa ser medido e repetido de forma precisa. Ellen, no entanto, crê que há no universo muitos acontecimentos que ninguém pode explicar de forma exata - nem agora, nem nunca.

            Mas um incidente singular transformou nossa discussão normalmente afável em algo mais sério. Naquela época, morávamos em Nova York. Num domingo de manhã, a mãe de Ellen, Elizabete, telefonou de Yakima, no estado de Washington , onde morava. Depois de um animado “Oi, mãe”, minha mulher ficou em silêncio, só ouvindo. Pela expressão preocupada em seu rosto, pude perceber que a mãe estava aborrecida.

            Ele cobriu o fone com a mão e disse:
           
            - Ela perdeu o diamante, a pedra do anel de noivado. Foi visitar uma colega, e ele desapareceu em algum ponto do caminho.

            E falou ao telefone:

            - Ah, mãe, sinto muito! Eu sei como o anel é importante para você.

            Sem pensar, eu disse:

            - Diga a ela que não se preocupe. O diamante não está perdido, está no carro, embaixo do banco dianteiro.

            Ellen olhou para mim, os olhos arregalados, incrédula, mas transmitiu o recado assim mesmo. A mãe foi procurar o diamante e logo depois ligou de novo, dizendo que não tinha conseguido encontrá-lo em nenhum lugar do carro.

            - Bem, está lá  - eu disse.

            Depois de desligar o telefone, Ellen perguntou:

            - O que aconteceu com você?
            A verdade é que eu não tinha certeza. apenas encolhi os ombros e respondi:

            - Somente achei que soubesse. Talvez o universo estivesse falando comigo.

            - Logo com você!

            E sorriu de um jeito que me fez desejar ter ficado com a boca fechada.


            VAMOS AVANÇAR uns dois anos. Vivíamos ocupados, atarefados com a responsabilidade de criar um filho. Eu raramente pensava no diamante perdido de Elizabeth. De tempos em tempos, porém, um dos genros a visitava em Yakima. O episódio do diamante - e minha intuição de que ele estava no carro - passara a fazer parte do folclore da família. Todos o procuravam, mas ninguém conseguia encontrá-lo.

            Então, num verão, planejamos passar uns dias na casa dos pais de Ellen. Gostávamos muito de ir para lá. O pai tinha sido um empresário de sucesso e agora, aposentado, tornara-se um aficionado do radioamadorismo. A mãe era uma das pessoas mais racionais e cultas que já conheci. Achava divertido estar com eles. Além disso, partilhavam da minha impaciência com o lado intuitivo e irracional da experiência humana que tanto fascinava a filha deles. Às vezes nos uníamos contra ela nas conversas à mesa do jantar.

            Mas Ellen não é superficial em seus pontos de vista e era capaz de encerrar as discussões nos acusando de “pensar de forma linear e ficar presos a uma visão de mundo rígida e cientificista”.

            Na primeira noite de nossa estada, o jantar estava delicioso, a conversa animada e amistosa. Eu pressentia, no entanto, que Ellen esperava que eu tocasse no assunto do diamante. Então, enquanto ela e nosso filho ajudavam a tirar a mesa, eu disse para Elizabeth:

            - Se você me der uma lanterna, vou tentar achar seu diamante.

            Três cabeças se voltaram para mim como se eu tivesse falado numa língua incompreensível. Somente Ellen não pareceu surpresa. Luke disse:

            - Não vai conseguir, pai.

            É verdade, pensei. Não vou conseguir. Mas a sorte estava lançada. O máximo que poderia me acontecer era passar por um pequeno vexame. Mas seria bom deixar esse assunto de lado para poder reafirmar minha visão racional do mundo sem a enfraquecer com uma bobagem que eu mesmo criara.

            Tentando me tirar daquela situação delicada, meu sogro disse:

            - Aquela velha perua já fez tantas viagens ao depósito de lixo nesses dois anos que, se um dia o diamante esteve lá, com certeza não está mais.

            A própria Elizabeth me olhou como se eu estivesse de brincadeira. Apesar disso, foi até a cozinha e voltou com a lanterna. Desci ao porão e passei pela porta que leva à garagem. O branco fosco do carro brilhava com a luz fluorescente vinda do teto. Abri a porta do motorista e ajoelhei-me junto ao banco. O pai de Ellen, de pé na porta da garagem, olhava-me com ar divertido. Empurrei a alavanca que controla a posição do assento e o deslizei para trás a fim de ver o lugar onde eu imaginava que o diamante estivesse. Não estava lá.

            Exasperado, falei em voz alta:

            - Vamos lá, diamante! – E simultaneamente levantei a almofada do banco, expondo um suporte metálico em forma de L. Envolvido por um punhado de poeira, lá estava o diamante de Elizabeth. Olhei para ele, incrédulo. O fato de a linda pedra brilhante estar mesmo onde eu indicara me deixou nervoso.

            Peguei o diamante com cuidado, coloquei-o na palma da mão direita e fechei os dedos. Meu sogro desapareceu pela porta e eu o segui até a cozinha.

            Elizabeth estava na pia, arrumando a louça do jantar. Estendi a mão fechada. Ela me olhou intrigada e eu abri os dedos devagar.

            Elizabeth não esboçou qualquer reação. Tive a impressão de que estava tão certa de que eu não encontraria o diamante que não conseguia vê-lo. Ela começava a voltar ao trabalho, quando tornou a se virar para mim e gritou.

            Houve uma grande comoção na casa, enquanto Elizabeth mostrava a todos repetidamente seu tesouro recuperado. Ficou tão entusiasmada que achei que eu iria herdar a pedra ali mesmo. Sentou-se no sofá da sala, segurando o diamante nas mãos, com uma expressão de assombro no rosto.

            - Isso quase me faz acreditar no que considero impossível - disse ela. - Você não tem ideia do que significa para mim reaver o diamante.

            Mais tarde, reunimo-nos na cozinha, acalmando os ânimos após a surpresa da noite. Comecei a explicar a todos que eu poderia facilmente ter deduzido o local onde era mais provável que o diamante estivesse. Afinal eu tinha andado de carro com Elizabeth muitas vezes, sabia como ela segurava no volante e fazia um movimento brusco com o punho quando ligava a seta. Eu podia imaginar a mão batendo na maçaneta da porta, a pedra voando do anel. tudo isso estava dentro da esfera da possibilidade.

            Quando terminei a explicação, vi os quatros rostos sorrindo para mim, os olhares mostrando absoluto descrédito.

            - Por que você não aceita que não sabe? - perguntou Ellen.

            Somente seu pai teve a gentileza de dizer:

            - Bem, pode ter acontecido dessa maneira. Com certeza ele é um bom observador.

            Mas estava claro que a maioria dos votos era para o prodígio do inexplicável.

            Posteriormente, Elizabeth informou à seguradora que o anel havia sido encontrado e devolveu o dinheiro que recebera como indenização quando a pedra se perdera.  O presidente da empresa de seguros enviou-lhe uma carta dizendo que ela havia restaurado sua crença na humanidade, porque era a primeira vez que alguém devolvia o dinheiro em um caso semelhante.

            Minha maior lembrança daquela noite extraordinária foi o sorriso de Ellen. Ela parecia certa de que fatos desse tipo - tão distantes de minha compreensão ou das lições da ciência - eram plenamente possíveis.  Conscientizei-me de que nunca mais a venceria nas discussões sobre a validade exclusiva dos métodos científicos, e considerei isso um preço alto a pagar por ter encontrado a preciosa pedra de Elizabeth. Ainda assim, a alegria que irradiava de seu rosto, sentada à minha frente admirando a pedra que brilhava em sua mão, foi compensação suficiente.

            Não sei que lição tirar desse episódio, a não ser que talvez vivamos em um lugar muito mais surpreendente e misterioso do que imaginamos. Ter encontrado o diamante de Elizabeth foi importante não só para ela e para a seguradora, mas também para mim. Não sei bem por que, mas sinto-me melhor em relação à vida por causa deste episódio. Agora eu sei - por experiência própria - quem alguns fatos só se explicam pela fé.

            Não é possível saber tudo que gostaríamos a respeito das pessoas que amamos, de nós mesmos, do Criador. Enfim, encontrar o diamante reservou em meu Coração e em minha mente um lugar para o assombro diante da vida, e isso eu não trocaria por nada nesse mundo. É uma experiência quem valorizo muito.


(Reader’s Digest SELEÇÕES – Março de 2000)

* * *

PARA ESSES DIAS ATERRORIZADORES… Frases


“A Paz carregada num carro de Guerra” – Monumento em Londres, o “Arco de Green Park”, para comemorar as vitórias britânicas nas Guerras Napoleônicas.

  12 de janeiro de 2020

Para esses dias aterrorizadores, com ameaças de conflitos que poderiam envolver várias nações, seguem algumas frases para refletirmos: 


“Não se busca a paz para provocar a guerra, mas faz-se a guerra para conseguir a Paz”. 
(Santo Agostinho)

“Si vis pacem, para bellum” (se queres a paz, prepara-te para a guerra). 
(Provérbio Latino)

“Apenas ameaçai com a guerra, e tereis paz; vejam-vos preparados para usar a força, e eles mesmos restaurarão o direito”. 
(Tito Lívio)

“Pior do que a guerra é o próprio medo da guerra”. 
(Sêneca)

“Se quisermos gozar da paz, é preciso fazer a guerra”. 
(Cícero)

“A guerra é a continuação da política por outros meios”. 
(Clausewitz)

“Tínheis a escolher entre a vergonha e a guerra. Escolhestes a vergonha, e tereis a guerra”. 
(Churchill)





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domingo, 12 de janeiro de 2020

COMPROMISSO COM DEUS

"Alguns anos atrás, um Padre aceitou o desafio de implantar uma Igreja numa cidade do interior e mudou-se para lá.

Certo dia, ele teve a oportunidade de pegar um ônibus de sua casa até o centro da cidade. Quando ele se sentou, descobriu que o motorista lhe dera 50 centavos acima de seu troco. Enquanto analisava o que fazer, pensou consigo mesmo: 'É melhor você devolver esse dinheiro. Seria errado ficar com ele. 
Em seguida, outro pensamento lhe ocorreu: "Ah, esqueça! São apenas 50 centavos; quem se preocuparia com essa pequena quantia? Afinal de contas, a Empresa de ônibus ganha muito dinheiro; eles não vão sentir falta dessa 'moedinha'. Fique com ela como uma 'bênção de Deus'. Fique quieto! 

"Quando chegou ao ponto que iria descer, ele parou momentaneamente na porta, e então entregou os 50 centavos ao motorista e disse: 
'você me deu troco a mais.' 
O motorista, com um sorriso, respondeu: Você não é o novo Padre da cidade?

 Sim ele respondeu. 

Bem, tenho pensado muito ultimamente em aceitar Jesus. Eu só queria ver o que você faria se eu te desse dinheiro a mais... Eu vou fazer uma visita a sua Igreja neste domingo.

Quando o Padre desceu do ônibus, se apoiou no poste de luz mais próximo e disse:

Oh Deus, eu quase troquei meu compromisso contigo por 50 centavos!...

Nossas vidas são uma Bíblia aberta que as pessoas vão ler.

Este é um exemplo realmente assustador do quanto as pessoas nos observam como cristãos e nos colocarão à prova!

Sempre fique de "Guarda" - e lembre-se: 
Você carrega o nome de Cristo em seus ombros quando se diz 'cristão'.

 Por isso, Cuidado com seus pensamentos; eles vão se transformar em sentimentos.

Cuidado com seus SENTIMENTOS, eles vão se transformar em PALAVRAS.

Cuidado com as PALAVRAS; elas revelam o estado do seu CORAÇÃO.

Cuidado com o estado do seu CORAÇÃO, ele vai se transformar em AÇÕES.

Cuidado com suas AÇÕES; elas vão se transformar em HÁBITOS.

Cuidado com seus HÁBITOS; eles vão revelar o seu CARÁTER.

Cuide bem do seu CARÁTER; ele vai determinar o seu DESTINO.

Cuidado também com quem você anda e a quem você dá ouvidos; isso vai revelar quem, de fato, influencia sua vida. Cuidado com essas influências; elas irão determinar ao lado de "quem" você vai passar a ETERNIDADE!"


(Recebi via Whats, sem menção de autoria)

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (165)


Batismo do Senhor – Domingo, 12/01/2020

Anúncio do Evangelho (Mt 3,13-17)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Mateus.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, Jesus veio da Galileia para o rio Jordão, a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. Mas João protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?”
Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está, porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João concordou. Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus, descendo como pomba e vindo pousar sobre ele.
E do céu veio uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Cleberson Evangelista:
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“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17)

Começamos o “Tempo Comum” do novo ano litúrgico (Ano A: evangelista Mateus); ao longo deste ano vamos realizar um percurso contemplativo, deixando-nos impactar pelos mais importantes acontecimentos da vida pública de Jesus. É natural que comecemos com o primeiro relato deste percurso, o batismo.

Sem dúvida, foi a experiência decisiva na vida de Jesus. Ali, Ele tem clareza de ser o Messias, enviado pelo Pai, a serviço do Reino. Jesus mergulha no rio Jordão e, ao sair das águas, experimenta uma “teofania” (manifestação) que revela seu mistério mais profundo e que antecipa sua Páscoa. Jesus é proclamado oficialmente o “Filho amado do Pai” e sobre Ele desce o Espírito.

Jesus se sente verdadeiramente o Filho amado do “Abbá”, e o batismo deixa claro que o motor de toda sua trajetória humana é obra do Espírito. Nesse sentido, o Batismo revela-se como um momento chave no percurso de Jesus, marcando-o para toda sua vida; marcou sua experiência de Deus; marcou a experiência de si mesmo e marcou o caminho que tinha adiante.

Em Jesus, essa tomada de consciência de quem é Deus n’Ele, foi um processo que não terminou nunca. O relato do batismo está nos falando de um passo a mais, embora decisivo, nessa tomada de consciência. O que a cena do Batismo nos relata é uma autêntica conversão de Jesus, o que não quer dizer que vivia uma situação de pecado, mas um profundo despertar de sua missão, em seu caminhar para a plenitude.

Pela primeira vez, em sua condição humana, Jesus sente a confissão do Pai sobre Ele; confessa-o como Filho. E lhe marca com os sinais do amor: “Este é meu Filho o amado, no qual eu pus o meu agrado”. É a experiência messiânica fundante que marcará para sempre: júbilo, confiança, disponibilidade, fé profunda, fidelidade total, docilidade incondicional ao Pai e a seu desígnio de salvação.

Em seu batismo, Jesus ficou como que “tatuado” pelo amor do Pai. E por isso viveu numa total liberdade de espírito. Não importava se o rejeitavam, pois Ele se sentia profundamente unido ao Pai. Não importava se o criticavam, pois Ele se sentia marcado pelo amor do Pai. Não importava se os seus lhe abandonavam, pois Ele se sentia “tatuado” pelo amor do Pai.

Jesus quer viver sempre sendo Filho amado, que ama a seu Pai e, portanto, que ama o que seu Pai ama. Quer deixar-se apaixonar por aquilo que seduzia o coração do Pai: a vida da criação, a vida digna dos seus filhos e filhas, a quem também deixa transparecer um amor de predileção.

Essa experiência de ser “o Filho amado” será sua força vital durante toda a vida de Jesus. E essa também deveria ser a experiência do(a) seguidor(a) d’Ele: ser alguém “marcado como o(a) amado(a) de Deus”. Quando descobre este sinal e esta “tatuagem” de ser também ele(ela) “o(a) amado(a), o(a) predileto(a) de Deus”, então descobrirá o que é ser cristão(â), compreenderá sua fé, entenderá as exigências do Evangelho, acolherá o grande mandamento do Amor: “Amai-vos uns aos outros como eu vos tenho amado”.

Para amar como Ele amou, antes é preciso fazer a experiência de sentir-se amado(a) pelo Pai.
Deixando-se conduzir pelo Espírito, Jesus se encaminha para a plenitude humana, marcando-nos o caminho de nossa plenitude. Mas, é preciso ser muito consciente de que só nascendo de novo, nascendo da água e do Espírito, poderemos ativar todas as nossas possibilidades humanas. Não seguimos de Jesus a partir de fora, como se tratasse de um líder, mas entrando, como Ele, na dinâmica da vivência interior, onde o Espírito atua com liberdade. Daí em diante, tudo o que dissermos e fazermos será a manifestação continuada do Reinado de Deus, que experimentamos em nós mesmos.

Deus chega sempre a partir de dentro, não de fora. Nossa mensagem “cristã” de doutrinas, normas e ritos, está muito distante daquilo que Jesus viveu e pregou. O centro de sua mensagem consiste em convidar todos os homens e mulheres a ter a mesma experiência de Deus que Ele teve. Depois dessa experiência, Jesus vê com toda claridade que essa é a meta de todo ser humano e pode dizer como disse a Nicodemos: “é preciso nascer de novo”. Porque Ele já havia nascido da água e do Espírito.

Deus quer suscitar vibrações novas em nossas vidas e sua Presença instigante desperta em nós o grande desejo de entrar em sintonia com Seu coração. Abrir os olhos e os ouvidos à Presença e à ação de Deus nos faz ficar atônitos, fascinados e sensíveis à voz divina que cada dia ressoa em nosso interior.

Talvez Ele precise colocar outro ritmo em nossa existência, que nos permita estar atentos e à escuta das surpresas que a vida des-vela. A nós corresponde nos mobilizar e estar atentos aos movimentos do Seu Espírito e dos acontecimentos.

A experiência do batismo de Jesus também é importante para todos nós, seus(suas) seguidores(as), para compreender o verdadeiro sentido de nossas vidas. As raízes de nossas histórias podem estar marcadas pelo amor ou pelo desamor. Quando estas raízes estão marcadas pelo amor, crescemos em harmonia conosco mesmo, em harmonia com os outros e em harmonia com o mundo. Quando nossas raízes estão regadas pelo amor crescemos com segurança em nós mesmos, com confiança nos outros e nossas vidas passam a adquirir o sentido da unidade interior.

Somente aqueles(as) que mergulham nas águas do perdão, da compaixão, do amor solidário..., saem marcados pelo Espírito e confirmados na filiação. O mundo seria diferente se as pessoas, rompendo o medo e a insegurança, se atrevessem a sair dos seus moldes, dos seus hábitos arcaicos, das suas maneiras atrofiadas de pensar, sentir, amar...

Recordando os inícios do cristianismo, com João Batista submergindo as pessoas no rio Jordão, não podemos deixar de dar um destaque especial que também Jesus se submergiu. Jesus se submerge e experimenta, escuta, sente, adquire lucidez... Essa passagem de Jesus é determinante para nos abrirmos a uma experiência nova na vivência do seu seguimento. Ele nos aproxima ao abraço refrescante de Deus, recebido nas águas. O que para os outros foi purificação, perdão..., para Jesus é de um dinamismo incomparável. Essa experiência O transforma, O faz ir além de si mesmo, rompendo visões estreitas de Deus, quebrando conceitos antigos de religião...

Submergir-nos é sinônimo de deixar Deus, a Vida, trabalhar em nós. A água, com sua força misteriosa, com sua capacidade de gestar vida, é também um símbolo que nos move a abandonar o que é arcaico para deixar-nos submergir no que é de Deus, nunca antigo, nunca ultrapassado. A água que corre, que flui, sempre é nova. Deus Fonte inesgotável: Ruah, ar, alento, espírito, dinamismo, puro fluir.

Encharcados de água, entramos no fluir daquele maravilhoso início, quando a Ruah fluía e enchia nossa vida de alento e inspiração. Precisamos nos atrever a submergir de novo, adentrando-nos por caminhos desconhecidos, para descobrir nosso mapa interior e nossa verdadeira identidade: “Filhos e filhas, amados(as) do Pai”.

Texto bíblico:  Mt 3,13-17 
Na oração: Na musicalidade da vida sinta a regência, suave e delicada, do Grande Compositor, arrancando notas divinas da dispersão caótica do seu cotidiano. Sinta a cadência da música divina que vibra, conduz e vivifica. Receba, com gratidão, o mais leve toque das mãos providentes e ternas do Grande Maestro.
Aguce seus ouvidos e escute até com os olhos a sinfonia que brota do mais profundo de seu ser.
- Faça memória de sua experiência batismal; renove, junto ao Jordão interior, seu compromisso batismal. 

Pe. Adroaldo Palaoro sj


* * *

sábado, 11 de janeiro de 2020

AS DISTRIBUIDORAS DE SOPA Por Gerri Hirshey


Para os corações conturbados, a receita é:
Pare, saboreie, a vida é boa.


            Quando eu era criança, muitas vezes vi a minha pequenina avó italiana, Geraldine, tomar um ônibus para a cidade, levando um pote com sopa minestrone quente. Isso significava que alguém - tio Carmini, tia Antonetti - estava doente. Não importava se era gripe, problema na vesícula ou mau olhado. Tendo ouvido a notícia, Nonnie (como chamávamos a Vovó) atava o avental e começava a mexer as panelas de sopa.

            Durante quase meio século Nonnie foi a Distribuidora Oficial de Sopa para uma vasta rede napolitana de parentes e amigos em Stamford, Conecticut. Mistura de médico e psicanalista, essa figura é encontrada em muitas culturas e em geral é do sexo feminino. No meio de uma crise, suas receitas são básicas e nutritivas: Pare um instante. Saboreie isso. A vida é boa.

            Como as costas do vestido de estampa floral voltadas para nós, Nonnie conseguia fazer dos piores tubérculos, dos legumes mais ressecados e das verduras mais amargas infusões espessas capazes de confortar a alma. Eu ficava sentada à mesa da cozinha enquanto ela despejava seus elixires com a concha e endireitava a roupa antes de comparecer ao acontecimento seguinte - fosse velório, cabeceiras de doente ou desastre doméstico.

            Fui batizada em homenagem a Nonnie e a adorava. Mas foi só aos 30 e poucos anos, ao me pegar subindo quatro lances de escada, esbaforida, com um pote de guisado vegetariano para um solteirão rabugento - de cabelos grisalhos, que acabava de perder a vesícula - que me dei conta: eu me tornara a distribuidora Oficial de sopa  de minha geração.

            Pensando bem, deveria ter visto que isso aconteceria. Minha mãe, Rose (filha de Nonnie ), por sua vez havia se tornado a distribuidora oficial em nossa vizinhança. Despachava sopas de ervilha cremosas e fumegantes, frangos à caçadora - até mesmo rolinhos primavera leves como o lótus -, com a rapidez e eficiência da Cruz Vermelha. Tratou da depressão pós-parto de uma trêmula jovem irlandesa como macarrão e molho encorpado, e levou bandejas de peito de frango com cogumelos a um agoráfobo abalado e trancado em casa.

            Para os que vinham até nós, nossa cozinha era um confessionário cheirando a café. Enquanto minha mãe cozinhava, eles conversavam ao som do apito da panela de pressão e ao ritmo da faca: “Ele perdeu o carro no jogo...” Vapt! “Eu estou grávida de novo e CeeCee só tem nove meses... ”Vapt! Vapt!  Havia sempre murmúrios de compreensão, absolvições e biscoitos amanteigados.

            Mamãe chegou ao auge da produção com a instalação de uma engenhoca para selar embalagens de comida. Os extras do que comíamos - rollatini de berinjela, bife à suíça, o minestrone  (herança de família) – eram lacrados em sacos plásticos e entregues aos acamados, aos viúvos recentes e às grávidas em fim de gestação. Agora com mais de 70 anos, minha mãe ainda produz pilhas de refeições de microondas para a irmã inválida e o cunhado, bem como pacotes de “almôndegas da Nonnie” congeladas para meus filhos.

            Sem saber como, assumi o manto de distribuidora quando me mudei para Nova York, nos anos 70, e dirigi um “serviço de sopas” para jovens, inquietos e angustiados em meu apartamento. Simplesmente aconteceu. Surpreendi-me colocando lugares a mais para os emocionalmente necessitados: ex-hippies arrasados pela brutalidade do mercado de trabalho, solteiros no fim das forças e neuróticos urbanos comuns. Se alguém parecia mal ao telefone, eu dizia logo: “Então venha jantar.”

            Nova York é um lugar de desgarrados e durante anos ofereci um almoço no Dia de Ação de Graças a todos que não tivessem para onde ir. Remexendo fotografias antigas, encontrei uma série que mostrava os mesmos rostos sorridentes em volta da mesa em sucessivas noites de ano-novo. Eu também preparava aniversários e ocasiões sem nada de especial.

            Hoje me dou conta de que isso é um trabalho missionário. Não é propriamente um sacerdócio ortodoxo, e eu nunca aspirei à santidade: o impulso da distribuidora vem de um coração faminto e, a seu modo, é bastante egoísta. Como disse minha mãe recentemente: “Gosto de ter gente à minha volta.”

            Converter alguém aos confortos e prazeres da mesa é a recompensa terrena da distribuidora. A mãe de meu marido é amorosa, mas tem uma deficiência culinária que até hoje a faz anunciar o jantar com um grito que parece alarme de incêndio. Quando o conheci, o armário em sua cozinha de solteiro continha apenas carne enlatada e pão de forma branco. Gosto de pensar que, nos dez anos em que estamos juntos, reabilitei seu paladar, assim como sua perspectiva. Numa noite, ao terminar uma refeição bastante saborosa, ele declarou: “Sabe, uma boa comida deixa a gente muito feliz. Com vontade de falar, de estar com as pessoas.” E propôs um plano para nossa nova casa: “Ceias dominicais em que todos serão bem-vindos.”

            Compramos uma segunda mesa de jantar que se desdobra para acomodar 16 pessoas. E há pouco tempo descobri um meio de continuar as entregas para meu pessoal da cidade. Preparei uma panela daquele guisado de legumes e o levei para a casa de minha mãe. Com uma precisão que eu diria quase ritualística, ela colocou para funcionar a engenhoca seladora. Nós enchemos, selamos, empilhamos. Meia dúzia de belos pacotes do guisado foi entregue a freezers desamparados.

            Dei algumas embalagens para minha tia Mary, que com quase 80 anos é a distribuidora mais maravilhosa em matéria de forno. Ainda entrega bolos de Páscoa italianos, mas detesta cozinhar para si mesma. “Isso é ótimo, meu bem”, disse ela, guardando os pacotes de guisado na sacola de compras que sempre a acompanha. “Mas é bom me dar a receita. Conheço uma pessoa a quem essas proteínas ajudariam bastante.”


(Reader’s Digest SELEÇÕES – MARÇO 2000)

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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

ITABUNA CENTENÁRIA UM SONETO: Oscar Benício dos Santos - Duas Lágrimas


Duas Lágrimas 

“...,em que tentamos esboçar uma face de bem e outra do mal
desta vida, tão infamada por uns como glorificada por outros.”C.C.Branco



Só duas furtivas lágrimas rolaram
dos olhos, frutos do bem e do mal,
as quais em cada comissura labial,
passageiras, a se ocultar voltaram.


Lágrimas mudaram o tônus facial:
face alegre em tristonha mascararam;
os olhos vivos em tristes cerraram,
premendo pérolas do humor lacrimal.


Duas lágrimas de opostos sentimentos
– natas dos mesmos olhos geminados –,
uniram-se na boca ao humor salival.


A combinação dos dois elementos,
Que sempre apareciam isolados,
são um só sentimento: o Bem e o Mal.


Oscar Benicio Dos Santos
Faz. Guanabara

*08/12/1926 - +19/02/2019

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