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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

O MISTÉRIO DA PEDRA PRECIOSA, Por W. W. Meade


Eu estava à procura
De um diamante,
Mas o que encontrei
Foi ainda mais
Surpreendente


            Uma das questões recorrentes na minha vida é a capacidade da ciência para esclarecer acontecimentos inexplicáveis. Muitos de meus amigos próximos têm uma admiração profunda pelo misticismo, com o qual não me identifico. Minha mulher, Ellen, e eu discutimos sobre tudo, desde OVNIs até cura espiritual. Na minha opinião, tudo isso é fantasia, mas para ela são possibilidades fascinantes.

            Filho de médico, sempre admirei a ciência e seu método rigoroso. Portanto, de modo geral, não acredito em algo que não possa ser medido e repetido de forma precisa. Ellen, no entanto, crê que há no universo muitos acontecimentos que ninguém pode explicar de forma exata - nem agora, nem nunca.

            Mas um incidente singular transformou nossa discussão normalmente afável em algo mais sério. Naquela época, morávamos em Nova York. Num domingo de manhã, a mãe de Ellen, Elizabete, telefonou de Yakima, no estado de Washington , onde morava. Depois de um animado “Oi, mãe”, minha mulher ficou em silêncio, só ouvindo. Pela expressão preocupada em seu rosto, pude perceber que a mãe estava aborrecida.

            Ele cobriu o fone com a mão e disse:
           
            - Ela perdeu o diamante, a pedra do anel de noivado. Foi visitar uma colega, e ele desapareceu em algum ponto do caminho.

            E falou ao telefone:

            - Ah, mãe, sinto muito! Eu sei como o anel é importante para você.

            Sem pensar, eu disse:

            - Diga a ela que não se preocupe. O diamante não está perdido, está no carro, embaixo do banco dianteiro.

            Ellen olhou para mim, os olhos arregalados, incrédula, mas transmitiu o recado assim mesmo. A mãe foi procurar o diamante e logo depois ligou de novo, dizendo que não tinha conseguido encontrá-lo em nenhum lugar do carro.

            - Bem, está lá  - eu disse.

            Depois de desligar o telefone, Ellen perguntou:

            - O que aconteceu com você?
            A verdade é que eu não tinha certeza. apenas encolhi os ombros e respondi:

            - Somente achei que soubesse. Talvez o universo estivesse falando comigo.

            - Logo com você!

            E sorriu de um jeito que me fez desejar ter ficado com a boca fechada.


            VAMOS AVANÇAR uns dois anos. Vivíamos ocupados, atarefados com a responsabilidade de criar um filho. Eu raramente pensava no diamante perdido de Elizabeth. De tempos em tempos, porém, um dos genros a visitava em Yakima. O episódio do diamante - e minha intuição de que ele estava no carro - passara a fazer parte do folclore da família. Todos o procuravam, mas ninguém conseguia encontrá-lo.

            Então, num verão, planejamos passar uns dias na casa dos pais de Ellen. Gostávamos muito de ir para lá. O pai tinha sido um empresário de sucesso e agora, aposentado, tornara-se um aficionado do radioamadorismo. A mãe era uma das pessoas mais racionais e cultas que já conheci. Achava divertido estar com eles. Além disso, partilhavam da minha impaciência com o lado intuitivo e irracional da experiência humana que tanto fascinava a filha deles. Às vezes nos uníamos contra ela nas conversas à mesa do jantar.

            Mas Ellen não é superficial em seus pontos de vista e era capaz de encerrar as discussões nos acusando de “pensar de forma linear e ficar presos a uma visão de mundo rígida e cientificista”.

            Na primeira noite de nossa estada, o jantar estava delicioso, a conversa animada e amistosa. Eu pressentia, no entanto, que Ellen esperava que eu tocasse no assunto do diamante. Então, enquanto ela e nosso filho ajudavam a tirar a mesa, eu disse para Elizabeth:

            - Se você me der uma lanterna, vou tentar achar seu diamante.

            Três cabeças se voltaram para mim como se eu tivesse falado numa língua incompreensível. Somente Ellen não pareceu surpresa. Luke disse:

            - Não vai conseguir, pai.

            É verdade, pensei. Não vou conseguir. Mas a sorte estava lançada. O máximo que poderia me acontecer era passar por um pequeno vexame. Mas seria bom deixar esse assunto de lado para poder reafirmar minha visão racional do mundo sem a enfraquecer com uma bobagem que eu mesmo criara.

            Tentando me tirar daquela situação delicada, meu sogro disse:

            - Aquela velha perua já fez tantas viagens ao depósito de lixo nesses dois anos que, se um dia o diamante esteve lá, com certeza não está mais.

            A própria Elizabeth me olhou como se eu estivesse de brincadeira. Apesar disso, foi até a cozinha e voltou com a lanterna. Desci ao porão e passei pela porta que leva à garagem. O branco fosco do carro brilhava com a luz fluorescente vinda do teto. Abri a porta do motorista e ajoelhei-me junto ao banco. O pai de Ellen, de pé na porta da garagem, olhava-me com ar divertido. Empurrei a alavanca que controla a posição do assento e o deslizei para trás a fim de ver o lugar onde eu imaginava que o diamante estivesse. Não estava lá.

            Exasperado, falei em voz alta:

            - Vamos lá, diamante! – E simultaneamente levantei a almofada do banco, expondo um suporte metálico em forma de L. Envolvido por um punhado de poeira, lá estava o diamante de Elizabeth. Olhei para ele, incrédulo. O fato de a linda pedra brilhante estar mesmo onde eu indicara me deixou nervoso.

            Peguei o diamante com cuidado, coloquei-o na palma da mão direita e fechei os dedos. Meu sogro desapareceu pela porta e eu o segui até a cozinha.

            Elizabeth estava na pia, arrumando a louça do jantar. Estendi a mão fechada. Ela me olhou intrigada e eu abri os dedos devagar.

            Elizabeth não esboçou qualquer reação. Tive a impressão de que estava tão certa de que eu não encontraria o diamante que não conseguia vê-lo. Ela começava a voltar ao trabalho, quando tornou a se virar para mim e gritou.

            Houve uma grande comoção na casa, enquanto Elizabeth mostrava a todos repetidamente seu tesouro recuperado. Ficou tão entusiasmada que achei que eu iria herdar a pedra ali mesmo. Sentou-se no sofá da sala, segurando o diamante nas mãos, com uma expressão de assombro no rosto.

            - Isso quase me faz acreditar no que considero impossível - disse ela. - Você não tem ideia do que significa para mim reaver o diamante.

            Mais tarde, reunimo-nos na cozinha, acalmando os ânimos após a surpresa da noite. Comecei a explicar a todos que eu poderia facilmente ter deduzido o local onde era mais provável que o diamante estivesse. Afinal eu tinha andado de carro com Elizabeth muitas vezes, sabia como ela segurava no volante e fazia um movimento brusco com o punho quando ligava a seta. Eu podia imaginar a mão batendo na maçaneta da porta, a pedra voando do anel. tudo isso estava dentro da esfera da possibilidade.

            Quando terminei a explicação, vi os quatros rostos sorrindo para mim, os olhares mostrando absoluto descrédito.

            - Por que você não aceita que não sabe? - perguntou Ellen.

            Somente seu pai teve a gentileza de dizer:

            - Bem, pode ter acontecido dessa maneira. Com certeza ele é um bom observador.

            Mas estava claro que a maioria dos votos era para o prodígio do inexplicável.

            Posteriormente, Elizabeth informou à seguradora que o anel havia sido encontrado e devolveu o dinheiro que recebera como indenização quando a pedra se perdera.  O presidente da empresa de seguros enviou-lhe uma carta dizendo que ela havia restaurado sua crença na humanidade, porque era a primeira vez que alguém devolvia o dinheiro em um caso semelhante.

            Minha maior lembrança daquela noite extraordinária foi o sorriso de Ellen. Ela parecia certa de que fatos desse tipo - tão distantes de minha compreensão ou das lições da ciência - eram plenamente possíveis.  Conscientizei-me de que nunca mais a venceria nas discussões sobre a validade exclusiva dos métodos científicos, e considerei isso um preço alto a pagar por ter encontrado a preciosa pedra de Elizabeth. Ainda assim, a alegria que irradiava de seu rosto, sentada à minha frente admirando a pedra que brilhava em sua mão, foi compensação suficiente.

            Não sei que lição tirar desse episódio, a não ser que talvez vivamos em um lugar muito mais surpreendente e misterioso do que imaginamos. Ter encontrado o diamante de Elizabeth foi importante não só para ela e para a seguradora, mas também para mim. Não sei bem por que, mas sinto-me melhor em relação à vida por causa deste episódio. Agora eu sei - por experiência própria - quem alguns fatos só se explicam pela fé.

            Não é possível saber tudo que gostaríamos a respeito das pessoas que amamos, de nós mesmos, do Criador. Enfim, encontrar o diamante reservou em meu Coração e em minha mente um lugar para o assombro diante da vida, e isso eu não trocaria por nada nesse mundo. É uma experiência quem valorizo muito.


(Reader’s Digest SELEÇÕES – Março de 2000)

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