Prossegue embora em flóreas sendas, sempre ovante
De glórias cheia no teu sólio triunfante
Que antes que a morte vibre em ti funéreo golpe seu
A natureza irá roubando o que te deu
E quanto a mim, irei cantando o meu ideal de amor
Que é sempre novo no viçor da primavera
Na lira austera em que o Senhor me fez tão destro
Será meu estro só do que for imortal
Terei mais glória em conquistar com sentimento
Pensantes almas de varões e alto saber
E com amor e com pujança de talento
Fazer um bardo ternas lágrimas verter
Isso é mais nobre, mais sublime e edificante
Do que vencer um coração ignorante
Porque a beleza é só matéria e nada mais traduz
Mas o talento é só espírito e só luz
Tu podes bem sorrir das minhas desventuras
Pertenço à dor e gosto até de assim penar
Eu tenho n'alma um grande cofre de amarguras
Que é o meu tesouro e que ninguém pode roubar
Pois quando a dor me vem pedir alguma esmola
Eu lhe descerro as portas d'alma, que a consola
E dou-lhe as lágrimas que vão lhe mitigar o ardor
Que a inspiração dos versos meus só devo à dor
Descantarei na minha lira as obras-primas do Criador
O mago olor da flor desabrochando à luz do luar
O incenso d'água que nos olhos faz a mágoa rutilar
Uns olhos onde o amor tem seu altar
E o verde mar que se debruça n'alva areia a espumejar
E a noite que soluça e faz a Lua soluçar
E a estrela d'alva, a estrela Vésper languescente
Bastam somente para os bardos inspirar
Mas quando a morte conduzir-te à sepultura
O teu supremo orgulho a pó reduzirá
E após a morte profanar-te a formosura
Dos teus encantos mais ninguém se lembrará
Mas quando Deus fechar meus olhos sonhadores
Serei lembrado pelos bardos trovadores
Que os versos meus hão de, na lira, em magos tons, gemer
E eu, morto embora, nas canções hei de viver
Nasceu no Maranhão e mudou-se para o Rio de Janeiro com a
família aos 17 anos. Na capital, cedo travou contato com músicos do choro, como
Anacleto de Medeiros e Sátiro Bilhar. É considerado um dos maiores poetas
populares do Brasil, tendo escrito letra para músicas como Luar do Sertão, de
João Pernabuco e Flor Amorosa, de Joaquim Callado.
Nascimento: Brasil, São Luis do Maranhão, 08/10/1863
Falecimento: Brasil, Rio de Janeiro, RJ, 10/05/1946
Solenidade da Epifania do Senhor – Domingo, 05/01/2020
Anúncio do Evangelho (Mt 2,1-12)
— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Mateus.
— Glória a vós, Senhor.
Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo
do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, perguntando:
“Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no
Oriente e viemos adorá-lo”.
Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado, assim como
toda a cidade de Jerusalém. Reunindo todos os sumos sacerdotes e os
mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. Eles
responderam: “Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: E
tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades
de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu
povo”.
Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber
deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. Depois os enviou a
Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E,
quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”.
Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que
tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava
o menino. Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria
muito grande. Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua
mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe
ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. Avisados em sonho para não
voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.
“Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria
muito grande” (Mt 2,10)
O relato evangélico deste domingo é desconcertante: o Deus,
escondido na fragilidade humana, não é encontrado pelos que vivem instalados no
poder ou fechados na segurança religiosa. Ele se deixa revelar àqueles que,
guiados por pequenas luzes, buscam incansavelmente uma esperança para o ser
humano, na ternura e na pobreza da vida.
Para além da intencionalidade do evangelista Mateus, o texto
contém um profundo simbolismo, carregado de sabedoria. Tudo começa com uma
“estrela”. É a luz interior (intuição, insight) que desencadeia o processo de
busca e nos põe a caminho. Pode aparecer de maneira inesperada, em qualquer
momento e, com frequência, costuma surgir numa situação de crise que, ao
remover nossos hábitos, faz com que nos abramos a uma dimensão mais profunda.
Estar a caminho de Belém é fazer a travessia em direção a
nós mesmos. Ao buscar uma Criança na Gruta, buscamos nossa verdade mais
profunda e original, a verdade interna da alegria e do amor, do sentida da
vida, em meio a um mundo no qual a maioria só parece buscar coisas externas,
afastando-se de si mesmos. A luz que aqui importa é a tua, a nossa, a minha, ou
seja, a de Deus que ilumina o caminho da vida, que nos leva até Jesus e com
Jesus nos leva ao Reinado do Pai, que é a plenitude de nossa própria vida.
Peregrinos somos todos, mas não em guerra de estrelas
(star-wars) e sim em um caminho messiânico que leva ao ouro, incenso e mirra de
Belém, que é o sinal da verdade da vida. Trata-se sempre da voz do desejo que
nos habita, e que não é outra coisa que expressão de nossa verdadeira
identidade que nos chama para “voltar à casa”. Com efeito, o caminho no qual o
desejo nos introduz é o caminho da verdade; a estrela sempre conduz à verdade.
E sabemos ou intuímos que a verdade vai nos desnudar de tudo aquilo que havíamos
absolutizado. Por esse motivo, é importante que nos perguntemos se realmente
buscamos a verdade..., ou nos conformamos com qualquer coisa que a substitua.
A estrela não tem outra finalidade que a de conduzir-nos à
“casa”, nossa gruta interior. Mas, apenas iniciamos o caminho, aparecem as
dificuldades: os apegos que não estamos dispostos a soltar, as formas de viver
que se fizeram habituais, o medo do incômodo que toda mudança supõe, o susto
diante do desconhecido... e, em último termo, a ignorância básica que nos faz
acreditar naquilo que não somos e nos mantém acomodados na noite da
insatisfação existencial.
Os Magos (sábios) do Oriente são símbolo do ser humano em
sua busca de Deus, em seu desejo de infinito e plenitude. Esta é a “impressão
digital” de artista que Deus deixou em todos nós: a saudade do divino, do
sublime, do infinito, do pleno, do Outro.
A estrela simboliza a força dos desejos mais profundos do
ser humano (no latim, a palavra desejo “de-sid-erium”, contém a raiz “sid”:
sideral, firmamento, horizonte). Portanto, quem deseja transgride as estreitas
fronteiras da vida e se deixa conduzir para além de si mesmo; quem não ativa os
desejos profundos, limita-se a vegetar, a cercar-se de proteção, a buscar
segurança... atrofiando a própria existência. Só os nobres desejos, presentes
em nosso interior, alimentam o espírito de busca, acendem a criatividade e nos
movem ao encontro do novo e do diferente.
Se levássemos a sério o movimento de “saída” dos Magos,
muitas coisas poderiam mudar: o interior de nós mesmos, nosso entorno mais
próximo, a estrutura social, as igrejas, as religiões, a ecologia... O “quê” da
questão não está nos verbos senão no sujeito ativo que gera o ato de sair,
buscar e encontrar.
Como os Magos, precisamos ativar a capacidade de abrir a
janela que nos conecta com a vida dos outros e nos permite continuar
interessados, com paixão e com lucidez (para ter boas fontes de informação),
por tudo aquilo que está ocorrendo em nosso convulsionado mundo. Visitar
ambientes que talvez nunca tivemos ocasião de conhecer, sair de nossos espaços
rotineiros e conhecidos, abrir-nos às surpresas da vida...
Os Magos perguntam àqueles que podem ajudá-los. Hoje
precisamos dialogar com mais profundidade.
Todo ser humano é aventureiro por essência; com ardor, ele
anseia por uma causa última pela qual viver, um valor supremo que unifique a
multiplicidade caótica de suas vivências e experiências, um projeto que mereça
sua entrega radical. Para dar sentido à sua vida e realizar-se como pessoa, o ser
humano necessita da autotranscedência, isto é, viver para além de si mesmo, de
seus impulsos, caprichos, interesses.
Ele carrega dentro de si a sede do infinito, a criatividade,
a capacidade de romper fronteiras, os sonhos, a luz... Portador de uma força
que o arrasta para algo maior que ele, não se limita ao próprio mundo; traz uma
aspiração profunda de ser pleno, de realização, de busca do “mais”...
O desejo do encontro é força determinante para se manter
acesa a chama da dinâmica da busca. É uma chama que se mantém acesa em
proporção ao sentido e à grande importância de quem ou do que se busca. Vale a
pena buscar o que é importante e encontrar Aquele que responde às razões mais
profundas da busca.
Os Magos ensinam como devemos nos mobilizar para viver esse
deslocamento (geográfico, interno, social...) para acolher intensamente a
surpresa do encontro: caminham em busca, observam os sinais com atenção,
desfrutam o trajeto com alegria, porque a alegria consiste em caminhar para o
outro, entram no lugar onde Maria já oferece o ambiente aberto... É
interessante notar este detalhe do texto do evangelho: “viram o menino com
Maria, sua mãe” (v. 11); tudo indica que o tinham em frente, no centro, como o
mais importante. Maria põe o Filho fácil de ser encontrado. Nem sequer
perguntam por Ele, já o descobrem imediatamente. Não estabelecem diálogo com a
mãe. Vão mudos e diretos ao objetivo. Podemos aqui intuir o regozijo de Maria,
pois sua felicidade é que a humanidade descubra seu Filho como ela o descobriu.
Uma vez dentro, os visitantes se prostram, se abaixam,
reconhecem, identificam, adoram. Em seguida abrem seus cofres e oferecem seus
presentes. O relato diz que os magos levaram ouro, incenso e mirra. A meta,
para a qual aponta a voz do desejo, requer desapego e desprendimento de nossos
“tesouros”. E isso só é possível quando compreendemos que aquilo à qual nos
havíamos apegado se esvazia diante da verdade d’Aquele diante de quem estamos.
Procuremos, neste dia festivo, seguir os passos do processo
de busca-encontro-manifestação que os Magos experimentaram. Eles buscavam o Rei
dos judeus porque “viram sua estrela”, e o encontram em um menino, em casa, com
sua mãe, Maria. Descobrem o divino no humano mais frágil. Este é o núcleo da
mensagem do relato da Adoração dos Magos. O divino está no humano. Quanto mais
humano mais divino.
Como os Magos, também nós somos buscadores de Deus. E, como
eles, devemos nos perguntar: a quê Deus buscamos? Onde o encontraremos? Como é
possível saber que de fato o encontramos?
A Epifania consiste no encontro com Recém-nascido em Belém;
o reconhecimento recíproco transforma os Magos em testemunhas vivas da
Boa-Nova. Transformados, eles mesmos se tornam Boa-Nova e assim anunciam, em
diálogo vivo, a Luz das nações.
Epifania é deter-nos a contemplar aquela Criança, o Mistério
de Deus que se faz homem na humildade e na pobreza; mas é, sobretudo, acolher
de novo em nós mesmos aquele Menino, que é Cristo Senhor, para viver de sua
mesma vida, para fazer que seus sentimentos, seus pensamentos, suas ações,
sejam nossos sentimentos, nossos pensamentos, nossas ações. Celebrar a Epifania
é, portanto, manifestar a alegria, a novidade, a luz que o Nascimento de Jesus
trouxe e que afeta toda a nossa existência, para sermos, também nós, portadores
da alegria, da autêntica novidade, da luz de Deus aos outros.
Texto bíblico: Mt 2,1-12
Na oração: Em sua aparente simplicidade, o relato dos
Magos nos apresenta perguntas decisivas: diante de quem nos ajoelhamos? Como se
chama o “deus” que adoramos no fundo de nosso ser? Como cristãos, adoramos o
Menino de Belém? Colocamos a seus pés nossas riquezas? Estamos dispostos a
escutar seu chamado para entrar na lógica do Reinado de Deus e sua justiça?
Da Universidade Federal da Bahia. Gloriosa Faculdade de
Direito, como era comum alguns universitários dizerem, voz cheia de expressão
feliz que o rosto deixava transparecer. No percurso que eu fiz na Faculdade de
Direito, de 1958 a 1962, recordo a maneira de ser dos mestres nas aulas, a
regularidade, a precisão e a ordem daqueles homens de vasto saber.
Diante de mim, nesse instante, a paixão de Adalício Nogueira
pelo Direito Romano. A exposição exemplar que Nelson Sampaio fazia sobre a
desumanização da Política ao longo dos séculos. A visão ampla e moderna de
Machado Neto em torno da consideração do Direito concebido como norma de
Kelsen, o jurista austríaco. A graça do professor Machadinho, o
tetracatedrático, baixinho e gordo. Dizia em voz sonante, antes de iniciar a
aula, que os alunos ficassem mais que atentos, com os seus ensinamentos as
paredes iriam tremer.
Lembro a eloquência de Josafá Marinho em suas lições de
Direito Constitucional, a maneira encantatória das aulas de Direito Penal, ministradas
por Aloysio de Carvalho Filho, substituído depois pela veemência de Raul
Chaves. A eficiência de Elson Gottschalk para demonstrar o lado pragmático do
Direito do Trabalho. O jeito elegante, a dicção objetiva, o poder de síntese e
densidade com que o mestre Orlando Gomes transmitia, sem esforço, as aulas
admiráveis de Direito Civil.
Com esse e outros mestres, a razão do moço que veio do
interior logo tomou conhecimento que o Direito é uma das maiores conquistas do
ser humano neste planeta. Sem essa hora não existe o homem real, mas o regresso
na escala biológica. Não há coexistência, a paz, meta maior de todos nós nesse
tão difícil gesto de viver.
Faculdade de Direito de minha adolescência. Dos jovens de
ontem, residentes na Capital ou vindos do interior, alguns deles bem nascidos.
A minha turma da Faculdade de Direito era também a de Antônio Luís Calmon
Teixeira, o civilista, Marcelo Gomes, o empresário, Adalberto Carvalho, o
cracão de bola, João Berbert, o cientista social, Dylson Dórea, de notável memória,
o jurista, Artur Caria, o juiz, Raul Ferraz, o deputado, Lucy Lopes Moreira, a
desembargadora, Ildásio Tavares, o poeta, João Ubaldo Ribeiro, o romancista, e
Edvaldo Brito, o orador.
No rigor de atitude que comanda, o tempo passa e não perdoa.
Sabe todos os caminhos, a claridade do dia e a escuridão da noite. Deixa-me sem
resposta, se pergunto por essas vozes, risos, expectativas, desafios, emoções
que passam por meus olhos agora como sombra de uma paisagem precária. Por que
tão depressa lá se foram esses gestos na curva da estrada? Ninguém pode me
dizer algo sobre esse instante em que só tenho ouvido para escutar o rumor
daquelas vozes.
Ninguém decifra como dói saber que a recordação de certas
imagens nada mais é do que saudade de certos instantes. E as pessoas, objetos,
bichos, ruas são fugidios. Como os dias, semanas e meses. Infelizmente.
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Cyro de Mattos, escritor e poeta. Primeiro Doutor Honoris
Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Membro efetivo da Academia de
Letras da Bahia, Pen Clube do Brasil, Academia de Letras de Ilhéus e Academia
de Letras de Itabuna. Autor premiado no Brasil, Portugal, Itália e México.
A Lava Jato virou uma nação inteira de ponta-cabeça.
Há um outro Brasil depois de Moro.
10 ANOS EM RETROSPECTIVA
O fato mais importante da década para o Brasil foi a
explosão na cena nacional de um moço nascido no norte do Paraná, formado numa
faculdade de direito da cidade de Maringá e desvinculado de corpo e alma do
grande circuito São Paulo-Brasília-Rio de Janeiro de celebridades jurídicas,
reais ou imaginárias.
Seu nome, como todo o Brasil e boa parte do mundo sabe hoje,
é Sérgio Moro – um típico “juizinho do interior”, como foi definido na ocasião
pelo ex-presidente Lula e sua corte imperial.
Todo mundo se lembra: eles simplesmente não entenderam nada
quando Moro começou a chamá-lo, como um cidadão normal, para prestar contas à
Justiça sobre o que tinha feito em seus tempos de poder e glória.
Onde já se viu uma coisa dessas?
O titular de uma modesta Vara Criminal de Curitiba, com
pouco mais de 40 anos de idade, querendo interrogar, processar e talvez até
condenar “o maior líder político” da história do Brasil?
Pois é.
Era isso mesmo.
E o mundo inteiro sabe o que aconteceu depois.
Sérgio Moro mudou a realidade do
Brasil como ninguém mais, nestes últimos dez anos – ou 50,
ou sabe-se lá quantos.
Condenou e botou na cadeia por crimes de corrupção e lavagem
de dinheiro, pela primeira vez na história, um ex-presidente da
República.
Comandou a maior operação judicial contra a corrupção jamais
realizada no Brasil.
Não só a maior: a primeira feita para valer em 500 anos, a
mais bem-sucedida em termos de resultados concretos e a mais transformadora da
vida pública que o País já conheceu.
Moro, no comando da Lava Jato, conseguiu mostrar a todos, na
prática, que a impunidade das castas mais ricas, poderosas e atrasadas da
sociedade brasileira não tinha de ser eterna – podia ser quebrada, e foi.
O governo paralelo que as empreiteiras de obras sempre
exerceram no Brasil, mais importante que qualquer governo constituído, foi
simplesmente riscado do mapa.
Em suma: a Lava Jato virou uma nação inteira de
ponta-cabeça.
Havia um Brasil antes de Moro.
Há um outro depois dele.
Exagero?
Pergunte à Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa ou
OAS se mudou ou não alguma coisa importante em suas vidas.
A mesma pergunta pode ser feita às dezenas de políticos
processados e presos, a empresários piratas que durante décadas saquearam o
Tesouro Nacional e aos monarcas absolutos que reinavam nas diretorias das
empresas estatais: e aí, pessoal, tudo bem com vocês?
Dá para ver se houve ou não mudança, também, quando se
constata que a ação de Moro levou milhões de brasileiros para as ruas, num
inédito movimento de massas contra a corrupção.
Varreu do poder um partido, um sistema e milhares de
militantes políticos que mandaram no Brasil durante mais de 13 anos.
Fez uma presidente ser deposta do cargo por fraude contábil.
Moro e o seu time fizeram muito mais que condenar 385
magnatas, aplicar 3.000 anos de penas de prisão e recuperar para o erário, até
agora, R$ 4,5 bilhões em dinheiro roubado.
É bom notar, também, que em toda a Lava Jato não há um único
trabalhador punido.
Não há nenhum inocente na prisão, agora ou desde que a
operação começou, em 2014.
Não há, enfim, uma única ilegalidade em nada do que Moro fez
– tomou centenas de decisões e três tipos de tribunais superiores a ele
examinaram com microscópio tudo o que fez, sem encontrar nada de errado até
hoje em sua conduta moral.
Acusou-se Moro, até no STF, de colocar em risco “a
democracia”.
Bobagem.
O que acaba com democracia é golpe militar, e não juiz
criminal que põe ladrão na cadeia.
Nenhum país do mundo, até hoje, virou ditadura por punir a
corrupção dentro da lei.
Sérgio Moro deu ao Brasil uma chance de ser um país
civilizado.
É muito.”
.............
José Roberto Guzzo, mais conhecido como J.R. GUZZO,
jornalista brasileiro.