A Academia Brasileira de Letras dá
continuidade ao seu Ciclo de Conferências do mês de novembro, intitulado Em
busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins, com palestra dos
Acadêmicos José Murilo de Carvalho e Edmar Bacha.
O tema escolhido é Economia e História. A coordenação é do
Acadêmico e economista Edmar Bacha. O evento será realizado no
dia 14 de novembro, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente
Wilson, 203 – Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
A Acadêmica e escritora Ana
Maria Machado é a coordenadora-geral dos Ciclos de Conferências de
2019.
Os Ciclos de Conferência, com
transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de
frequência.
A intitulação Em busca de
novos horizontes: economia e disciplinas afins, segundo o Acadêmico Edmar
Bacha, refere-se à relação da Economia com outras disciplinas, como
História, Literatura e Direito.
O Ciclo Em busca de novos
horizontes: economia e disciplinas afins terá mais duas palestras, às
quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os conferencistas e temas,
respectivamente: dia 21, Gustavo Franco, Economia e
Literatura, e dia 28, Elena Landau, Economia e
Direito.
Os Acadêmicos
José Murilo de Carvalho é Doutor em
Ciência Política pela Universidade de Stanford e Doutor Honoris Causa pela
Universidade de Coimbra. Foi professor da UFMG, do Instituto Universitário de
Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, e da UFRJ. No exterior, lecionou nas
universidades de Stanford, Oxford, Londres e Leiden, entre outras. É também
membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB.
Prêmios Internacionais
Prêmio Casa de las Américas, Cuba,
para o livro A Cidadania no Brasil: o Longo Caminho; Prêmio SCOPUS,
da Elsevier América Latina em parceria com a CAPES. Entre as muitas
publicações, destacam-se:A formação das almas: O imaginário da
República no Brasil, A cidadania no Brasil: o longo caminho, Forças
armadas e política no Brasil, D. Pedro II: ser ou não ser e O
pecado original da República.
Edmar Lisboa Bacha é sócio
fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das
Garças, um centro de estudos e debates no Rio de Janeiro. O acadêmico é também
membro da Academia Brasileira de Ciências. Formou-se em Economia pela Faculdade
de Ciências Econômicas da UFMG. É um dos primeiros economistas brasileiros com
doutorado no exterior, pela Universidade de Yale, em 1968. Em 1974, publicou
uma fábula sobre o reino de Belíndia, junção de Bélgica com Índia, que se
tornou, desde então, uma imagem recorrente do Brasil. Integrou a equipe econômica
que dominou a hiperinflação com o Plano Real, em 1994. Foi presidente do BNDES
e do IBGE, e professor em diversas universidades brasileiras e americanas.
Autor de 12 livros, organizou 19
livros sobre temas econômicos, políticos e sociais do Brasil e da América
Latina. Publicou cerca de 200 artigos em periódicos especializados, no Brasil e
no exterior. Seu último livro autoral é Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios
sobre o País dos Contrastes (Civilização Brasileira, 2012), agraciado
com o Prêmio Jabuti em 2013. O último livro que organizou, em conjunto com
Joaquim Falcão, José Murilo de Carvalho, Marcelo Trindade, Pedro Malan e Simon
Schwartzman, é 130 Anos: Em Busca da República (Intrínseca,
2019). Livro em sua homenagem, com o título De Belíndia ao Real:
Ensaios em Homenagem a Edmar Bacha com textos apresentados por colegas
e ex-alunos em seminário na Casa das Garças, foi publicado em 2018 pela
Civilização Brasileira.
Uma das maiores bençãos que se pode ter na vida é estar
livre da necessidade de se explicar.
É um privilégio conhecer pessoas que conseguem te enxergar
além da superfície, que dispensam explicações, simplesmente sabem quem você
é.
Tudo bem se você tiver errado. Não precisa falar que você
não é assim, porque elas sabem.
Não precisa explicar que você precisa dividir o que te
angustia, pois essas pessoas pegarão suas dores através de um abraço.
São elas que vão ligar em uma terça-feira sem graça tipo
hoje, só para perguntar como você está, ou sentir quando você não está nos
seus melhores dias.
As vezes elas te abençoarão com palavras e outras vezes te
ensinarão com o silêncio.
Seus risos refletem nos lábios delas e suas lágrimas
machucam a elas também.
Conseguir que te entendam depois de você se explicar é
ótimo, mas fazer isso sem palavras é uma Dádiva.
Não são muitas as pessoas que vão realmente saber quem você
é durante a vida.
Agradeça se elas chegarem a ocupar os cinco dedos de uma
mão.
Mas sinta-se abençoado se você tem alguém que entende seu
olhar. Que te ama mesmo quando você se esquece das próprias virtudes.
Quando você tem alguém que dispensa saber suas explicações,
é bom ficar sempre por perto. Pessoas assim são raras, verdadeiros
tesouros.
Alguns chamam de amor, outros de amizade...
Eu desisti de encontrar definição, porque esse encontro de
almas vai muito além da razão.
Por isso o único sentimento que cabe aqui é Gratidão.
Então Borá lá justificar esse carinho todo fazendo um lindo
dia acontecer.
Ela já era invocada como Mãe de Deus em pleno século III,
bem antes que esse dogma fosse promulgado
A Biblioteca John Rylands, de Manchester, na Inglaterra,
adquiriu em 1917 um grande painel de papiro egípcio escrito em koiné, o
dialeto grego popular que servia como língua franca em toda a região
Mediterrânea. É o mesmo dialeto grego, aliás, em que foram escritos os
Evangelhos.
No papiro em questão há um fragmento, numerado pela
biblioteca como 470, cujo conteúdo, decifrado em 1939, parece proceder de uma
antiquíssima liturgia cristã copta de Natal.
Trata-se de uma oração a Nossa Senhora, possivelmente
composta no século III, na qual Maria é invocada como “Theotókos”, um
termo grego que significa “Mãe de Deus“.
É importante observar que a maternidade divina de Maria só
viria a ser oficialmente explicitada pela Igreja no III Concílio Ecumênico, o
de Éfeso, cerca de duzentos anos depois. Ou seja: os primeiros cristãos já
veneravam Nossa Senhora como Mãe de Deus desde bem antes que o dogma fosse
promulgado – e ao menos um século antes de Constantino e do Edito de Milão.
“Sob a vossa proteção”
Diz a oração:
Sob a vossa proteção nos refugiamos,
Mãe de Deus!
Não desprezeis as nossas súplicas
em nossas dificuldades,
mas livrai-nos do perigo,
Vós, toda Santa e bendita!
Esta oração passou a ser tradicionalmente rezada quando se
sai de casa, pedindo o auxílio de Nossa Mãe.
“Sub tuum praesídium”
Conheça também a versão em latim:
Sub tuum praesídium confúgimus,
Sancta Dei Génitrix;
nostras deprecatiónes ne despícias
in necessitátibus nóstris,
sed a perículis cúnctis
líbera nos sémper,
Virgo gloriosa et benedicta.
Neste dia celebramos o 30º aniversário da impressionante
derrubada do Muro de Berlim — simbólica do desmoronamento do regime comunista e
de sua utopia igualitária.
Esse “Muro da Vergonha”, construído na ex-Alemanha comunista
em 1961, teve como objetivo esconder do mundo ocidental a miséria do império
soviético — fruto do projeto de dissolução das tradições, das famílias e das
propriedades particulares — e impedir que aqueles que estavam do lado de lá da “cortina
de ferro” fugissem do “paraíso” comunista. Para isso, nas proximidades do muro,
os esbirros bolcheviques, além de vigiarem dia e noite armados de
metralhadoras, mantinham cães ferozes, minaram o terreno e levantaram torres de
vigilância e cercas eletrificadas e de arame farpado.
Apesar de todos esses obstáculos, mais de 100 mil alemães
orientais tentaram atravessar a intransponível muralha a fim de fugir para o
lado ocidental; mais de mil deles foram, na tentativa de travessia,
covardemente mortos pelos vigias comunistas.
Em 9 de novembro de 1989 ruiu aquela muralha comunista e
temos muito a comemorar, assim como milhões de alemães ficaram eufóricos com a
ruína do Muro de Berlim — muito desejada, mas a tal ponto inacreditável que
muitos alemães afirmaram que, naquele dia histórico, se beliscavam para
comprovar que não estavam sonhando. Entretanto, não tenho visto comemorações
desta grande data por parte de certas autoridades eclesiásticas que, contudo,
tanto têm esbravejado contra a construção de muros… Então, comemoremos
nós!
Celebremos, mas mantenhamo-nos alertas, pois em muitos
países, inclusive no Brasil (sobretudo agora com a soltura de presidiários…),
temos visto movimentos de esquerda procurando “venezualizar” as instituições e
provocar o caos na pretensão de voltar ao poder, e… levantar novos muros como
bons agentes de Stalin que são.
Em memória desses 30 anos do desmoronamento do “Muro de
Berlim”, reproduzimos a seguir uma análise de Plinio Corrêa de Oliveira,
publicada em Catolicismo, Nº 181/2 (Janeiro/Fevereiro de 1966).
FUGINDO À TIRANIA DOS SEQUAZES DO DEMÔNIO
➤ Plinio Corrêa de
Oliveira
Enquanto o mundo ocidental se preparava para as festas do
Natal, uma notícia trágica, publicada com pouco destaque pela imprensa diária,
chamou a atenção de uns poucos leitores. Tratava-se de um telegrama conjunto
das agências Reuters e AFP, datado de Colônia. Informava ele que, segundo dados
coletados pelo Serviço Federal de Guardas de Fronteira, cerca de quatro mil
pessoas residentes na Alemanha comunista tentaram fugir para a Alemanha
Ocidental, transpondo de um ou de outro modo a cortina de ferro, nos dez
primeiros meses de 1965. Somente 1.233 delas foram bem sucedidas.
É claro que o que quatro mil pessoas ousaram um incontável
número desejou. Muitos, retidos pelo receio de sanções contra seus familiares,
nem tentaram fugir. Outros foram paralisados pelo explicável terror dos riscos
que esse lance acarreta.
Mas, apesar desses riscos, 400 alemães em cada mês
preferiram empreender a fuga, postos fora de si pelos horrores do paraíso
comunista.
* * *
Do que seja a atmosfera moral trágica em que essas evasões
se desenrolam dão testemunho os clichês desta página. Em um deles vemos uma
anciã de 78 anos, residente em uma casa situada no setor soviético de Berlim,
cujas janelas se abriam para o setor ocidental. A pobre setuagenária resolveu
saltar a janela do segundo andar, firmando-se no friso existente junto à mesma,
e daí jogar-se em uma rede que bombeiros desdobravam a seus pés. Alguns
comunistas, tomando conhecimento do fato, tiveram a covardia de tentar reter a
anciã pelo braço. Por fim, ela se desvencilhou, com a ajuda de populares, e
conseguiu cair sobre a rede em condições satisfatórias.
Essa fotografia bem poderia passar para a História como um
símbolo do martírio de todo um povo, mais precisamente de um dos povos mais
cultos e civilizados da terra.
A outra fotografia, de edifícios da Bernauer Strasse de
Berlim, mostra o resultado de evasões como esta. Os comunistas muraram todas as
janelas de todos os prédios situados no setor comunista que dão para o setor
ocidental. Com isso revelam eles a convicção de que sua tirania é de tal
maneira execrada, que por qualquer orifício praticável, dela fugiriam em
quantidade suas infelizes vitimas.
* * *
Esses clichês não ilustram apenas o quanto o comunismo é
mau. Eles provam também a que grau de endurecimento de alma chegaram largos
setores do Ocidente, que levam a insensibilidade moral ante fatos tais a ponto
de pensar seriamente na possibilidade de um modus vivendi com os
comunistas na política interna dos países ainda livres.
A maldade do comunismo não é, nele, mero acidente, que tanto
poderia existir como não existir. É uma consequência necessária de suas
concepções filosóficas e morais. É a expressão mais requintada da malícia
diabólica presente, já nesta vida terrena, nos que lutam por Satanás, suas
pompas e suas obras.
Quem ama o perigo nele perecerá, diz a Sagrada Escritura
(Ecli. 3, 27 ). É de algum modo amar o perigo, fechar os olhos para a gravidade
dele e aceitar as manobras astuciosas com que o adversário nos tenta ilaquear.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus,
que negam a ressurreição, e lhe perguntaram: “Mestre, Moisés deixou-nos
escrito: se alguém tiver um irmão casado e este morrer sem filhos, deve
casar-se com a viúva, a fim de garantir a descendência para o seu irmão.
Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu, sem deixar filhos. Também
o segundo e o terceiro se casaram com a viúva. E assim os sete: todos
morreram sem deixar filhos. Por fim, morreu também a mulher. Na
ressurreição, ela será esposa de quem? Todos os sete estiveram casados com
ela”.
Jesus respondeu aos saduceus: “Nesta vida, os homens e as
mulheres casam-se, mas os que forem julgados dignos da ressurreição dos
mortos e de participar da vida futura, nem eles se casam nem elas se dão em
casamento; e já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos, serão
filhos de Deus, porque ressuscitaram. Que os mortos ressuscitam, Moisés
também o indicou na passagem da sarça, quando chama o Senhor de ‘o Deus de
Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’.Deus não é Deus dos mortos, mas dos
vivos, pois todos vivem para ele”.
Estamos nos aproximando do final do ano litúrgico.
Finalmente, depois de um longo percurso contemplativo e fazendo caminho com
Jesus, chegamos a Jerusalém. Lucas já narrou a entrada solene na cidade e a
purificação do Templo. Continua a polêmica e os conflitos com os dirigentes
religiosos. Os saduceus, que tinham seu suporte junto ao templo, entram em
cena. Formado pela aristocracia laica e sacerdotal, eles constituíam a elite
econômica, social e religiosa da sociedade judaica nos tempos de Jesus. Eram
colaboracionistas dos romanos, uma estratégia para não colocar em risco seus
interesses. Só admitiam o Pentateuco como livro sagrado e não acreditavam na
ressurreição. Por isso, um grupo deles se aproxima de Jesus, ironizando
precisamente sobre o tema da ressurreição, apresentando um absurdo caso
hipotético de vários irmãos que, sucessivamente e de acordo com a lei do
levirato, casam-se com a mesma mulher.
Jesus, porém, não responde diretamente à pergunta absurda.
Como bom pedagogo, aproveita a ocasião e responde, sim, àquilo que deviam ter
perguntado. Jesus sempre foi muito sóbrio ao falar da vida nova depois da
ressurreição. No entanto, quando este grupo de aristocratas ridiculariza a fé
na ressurreição dos mortos, Jesus reage elevando a questão ao seu verdadeiro
nível e fazendo afirmações básicas.
Antes de mais nada, Jesus rejeita a ideia infantil dos
saduceus que imaginavam a vida dos ressuscitados como prolongamento desta vida
que agora conhecemos. É um erro representar a vida ressuscitada por Deus a
partir de nossas experiências atuais. Jesus tira sua própria conclusão, fazendo
uma afirmação decisiva para nossa fé: “Deus não é Deus dos mortos, mas dos
vivos, pois todos vivem para Ele”. E a ressurreição não é, como supõem os
saduceus, um retorno ao passado. Pelo contrário, é a entrada em uma outra vida.
Ressuscitar não é voltar a ser como antes, é voltar a ser como depois.
Por ser “Deus dos vivos”, a experiência da ressurreição
consiste numa Nova Criação. Deus é fonte inesgotável de Vida e acolhe a todos
em seu amor de Pai-Mãe. Nesse sentido, há uma diferença radical entre nossa
vida terrestre e essa vida plena, sustentada pelo Amor criativo de Deus, depois
da morte. É Vida absolutamente “nova”, que deve ser esperada, mas nunca
descrita ou explicada. As relações interpessoais não serão uma cópia do modo de
ser desta vida. A Ressurreição é uma “novidade” que está além de toda e
qualquer experiência terrestre e que é antecipada e preparada na maneira de
“viver intensamente” esta vida.
Nós somos destinados, portanto, não à morte, mas à Vida e
essa Vida já começou. Não temos Vida, somos Vida! Experimentamos que somos
Vida. Vida mais além desta vida, e não meramente “vida depois”, nem sequer
“vida perdurável”, mas vida transformada no seio da Vida que se faz vida em
nós. Vivemos no fluxo da única Vida que vive em nós. Nessa Vida repousamos,
surpreendidos e maravilhados por aquilo que Ela realiza em e através de tudo o
que existe.
Somos visibilizações da Vida, envolvidos, sustentados e
inspirados por Ela. Somos a Vida, ou mais precisamente, Ela é em nós. E a Vida
é uma contínua celebração de si mesma. É o Divino em nós que ativa todas as
possibilidades de nossa vida, conduzindo-nos ao seio da única Vida. Por isso,
crer no Deus que é Vida, revela uma forma de viver e implica ser militante em
favor da vida, frente a uma cultura de morte e violência. E crer na vida é
rebelar-se contra todos os poderes que a asfixiam, fazer-se presente junto às
vidas rejeitadas, ser humilde fermento que levanta e transforma as vidas
caídas, abrir o coração e os olhos para apalpar a Vida em todas as mãos e pés
feridos daqueles que são vítimas da “cultura do descarte”: os imigrantes
expulsos, os índios despojados de suas terras, as mulheres marginalizadas, as
crianças e idosos abandonados...
Com frequência, muitas pessoas que creem, estabelecem uma
separação entre Deus e a vida; ou seja, para elas, Deus e vida são realidades
dissociadas e, sobretudo, contrapostas. São muitos aqueles que veem na vida, com
seus males, seus sofrimentos e suas contradições, a grande dificuldade para
acreditar que existe um Deus infinitamente bom e misericordioso. E, em
sentido contrário, outros veem em Deus o grande obstáculo para viver,
desenvolver e desfrutar a vida em toda sua plenitude; pois o Deus que lhes é
anunciado é o Deus que manda, proíbe, ameaça e castiga. Tem-se a impressão que,
para viver a vida com todas as suas possibilidades e suas riquezas, é preciso
prescindir de Deus.
Na realidade, o que acontece é que, em Nome de Deus, muitas
vezes as religiões reprimem tudo aquilo que na vida significa dinamismos,
impulsos, forças..., enfim, tudo aquilo que o ser humano mais deseja e
necessita: ser feliz, viver com segurança, com dignidade, respeitado em seus
direitos, acolhido em suas diferenças, com a possibilidade real e concreta de
viver prazerosamente. Com isso, a religião e a vida entram em conflito, porque
a religião complica a vida de muitas pessoas que levam a sério sua experiência
de Deus. E a vida, com seus dinamismos, seus direitos e seus instintos mais
básicos, é vista, pelos responsáveis pela religião, como um perigo para fazer
uma experiência de Deus. Somos culpabilizados até que nos sintamos como
seres miseráveis que só merecem a eterna condenação.
Todos sabemos, e experimentamos, as consequências funestas
desta confrontação entre Deus e a vida: a centralidade do sacrifício e da
renúncia, a repressão dos instintos da vida, a violência contra os dinamismos
da sexualidade, a agressão a tudo o que se refere ao prazer e à alegria de
viver... No entanto, o Evangelho deixa muito claro que a mediação entre os
seres humanos e Deus é a vida, não a religião. A religião é uma expressão
fundamental da vida e deve estar sempre a seu serviço. Nesse sentido, a
religião é aceitável só na medida em que serve para potenciar e dignificar a
vida, inclusive o prazer e a alegria de viver. Quando a religião é vivida de
maneira a agredir à vida e à dignidade das pessoas, ela se desnaturaliza e se
desumaniza, e acaba sendo uma ofensa ao Deus da vida revelado por Jesus. De
fato, para Jesus, o primeiro é a vida e não a religião. Ele colocou a religião
onde deve estar: a serviço da vida, para dignificá-la. Ele tomou partido da
vida, contra aqueles que, a partir da religião, cometiam todo tipo de agressão
contra a vida.
Jesus sempre se deixou conduzir pelo Espírito do Senhor para
aliviar o sofrimento humano, levar a Boa Nova aos pobres, devolver a vista aos
cegos, dar a liberdade aos presos e oprimidos, dar vida àqueles que tinham a
vida massacrada ou diminuída, devolver a dignidade da vida àqueles que eram
encurvados pelo peso da opressão e do legalismo.
Isto significa que a espiritualidade cristã, apresentada
pelo Evangelho, funde a causa de Deus com a causa da vida; os cristãos encontram
a Deus somente na medida em que defendem, respeitam e dignificam a vida. Nesse
sentido, a vida tem a dimensão do milagre e até na morte anuncia o início de
algo novo; ela carrega no seu interior o destino da ressurreição.
Texto bíblico: Lc 20,27-38
Na oração: A maior perda da vida é o que “resseca”
dentro de nós enquanto vivemos: sonhos, criatividade, intuição.
A vida não é uma realidade estática, nem um momento
congelado ou petrificado. Cada dia é única e nela vamos construindo uma
história irrepetível, percorrendo um caminho em direção à Vida plena:
ressurreição.
- Quando vou começar a viver como ressuscitado? Há na vida
muitas coisas – pequenas ou imensas – que vão morrendo e nascendo de novo,
diferentes, melhores, reconciliadas...
- Que sinais de ressurreição vou vislumbrando no meu
cotidiano?
- Sou militante em favor da vida, ou alimento a cultura da
morte: julgamentos, intolerância, preconceitos...?
A inauguração da estrada de
ferro aconteceu com música. A bandinha tocou marchas, dobrados e maxixes para
saudar o desembarque feliz dos primeiros passageiros. Construído pela
administração da companhia que implantou a estrada de ferro, um barracão serviu
como o primeiro ponto oficial do desembarque.
O trem passou a fazer parte
da vida da cidade.
Na partida, os carregadores
colocavam apressados malas e embrulhos pelas janelas dos vagões. Reservavam os
lugares melhores para os seus fregueses conhecidos. Na chegada, sempre os
mesmos carregadores recebiam malas e embrulhos pelas janelas dos vagões.
O trem era uma coisa viva
que partia e chegava, trazendo as cargas de peixe, caju e coco. Pelo apito
ficava-se sabendo a hora certa da partida e chegada. Encontros eram marcados
pelo apito do trem, de manhã e à tarde, às vezes importantes.
Nos rastros do sonho, vejo a
trem fagulhando, atritando, apitando. No vento, no verde, na várzea. Entre os
passageiros segue com a conversa tola, velha a mansa. Gente de alpercata fuma
na tarde de verão seu cigarrinho de palha.
Quando passa, o trem fala
com as pessoas que estão no terreiro, nas portas e janelas das casas à beira da
estrada.
Na aurora, na tarde, na
fumaça, lá vai o trem.
Quando ele deu o último
apito na estação velha, não ficou fogo morto nem sucata.Nem qualquer sinal de fumaçazinha se perdendo
no longe.
No menino permaneceu um
percurso luminoso feito por vagões, indo e vindo, subindo e descendo por
trilhos que tinham um tom marcante de vozes coloridas na paisagem.
Vagões levavam dias de sol e
chuva, traziam a estação de magníficos sabores.
Moleques vendiam cordas de
caranguejo na plataforma. Vovó Maria Conga mercava beiju de Água Branca,
lugarejo que ficava distante alguns quilômetros da cidade pequena. Do tabuleiro
de Vovó Maria Conga vinha o cheiro de mingau quente, atraindo na manhã os
fregueses com o rosto de sono.
O trem dava ao menino
momentos alegres de aventuras indescritíveis. Certo sentimento humano corria
com o vento e formava com a natureza uma relação amiga.
Pela janela desfilavam vales
e outeiros.
Gado manso no verde subia a
encosta.
No céu nuvens como barcos,
almofadas, rochas brancas.
O sol brilhava a manhã com
fios de ouro nas folhas de capim.
A cachoeira batia nas pedras
uma pancada formosa.
Os olhos do menino viajavam
na paisagem.
Quando mais olhavam, mais
queriam olhar.
E de olhar tanto nunca se
cansavam.
Aos sábados havia uma
algazarra na chegada.
Atos, ruídos e gestos
propagavam-se pela plataforma
.
No desembarque, como se fosse feita
de papagaios e periquitos, mais aumentava a algazarra.
No peito do menino, a tarde
reverberava as cores do verão.
A paisagem acomodava-se ali
no quarto, os olhos semitontos de sono. Reaparecia num sonho quente e puro,
descendo e subindo pelos campos verdes do pequeno coração.
.............
*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro Titular da
Academia de Letras da Bahia e do Pen Clube do Brasil. Primeiro Doutor Honoris
Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz. Um dos idealizadores da Academia
de Letras de Itabuna (ALITA).