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segunda-feira, 21 de agosto de 2023

A saudação de Arno Wehling a José Murilo


O Acadêmico Arno Wehling, titular da cadeira 37, foi o orador oficial da Sessão da Saudade de Jose Murilo de Carvalho, realizada na última quinta-feira, dia 17 de agosto

Leia abaixo, o discurso proferido:



A homenagem que hoje a Academia Brasileira de Letras presta a José Murilo de Carvalho é, contrariamente ao senso comum, também um ritual de passagem. Ritual de passagem, porque o acadêmico se afasta de nosso quotidiano e ingressa na grande comunidade que constitui a vida intemporal da Casa. Se a ABL reúne em si passado, presente e futuro, é porque os que se foram continuam presentes, independentemente de épocas, estilos, formas de expressão e visões de mundo.

José Murilo de Carvalho viveu, e viveu intensamente, essa percepção. Ao pesquisar a história da Academia, deixando-nos os “Subsídios”, com o habitual aparato estatístico que manejava habilmente, e ao cuidar com desvelo de seu Arquivo, não o fazia apenas por dever do ofício de historiador, mas pela preocupação em deixar sempre desperto o espírito acadêmico. Sem isso - conforme entendia - a instituição não seria capaz de se manter. Sabia, por outro lado, não ser com o antiquarismo, mas pelo vibrar da vida cultural, que ela continuaria existindo, geração após geração.

Nessa despedida, senhor presidente, familiares de José Murilo, querida Norma Cortes, caros colegas, sei que não devo traçar o itinerário intelectual nem destacar as vitórias conquistadas. De certa forma já o fiz, com ele presente, nos 70 e nos 80 anos.

Gostaria de sublinhar a dimensão humana de José Murilo de Carvalho, particularmente importante numa instituição em que o convívio de pessoas absolutamente díspares é não só boa prática social como necessidade de realização do próprio ethos da Casa.

Creio que em abono dessa pretensão posso invocar alguma experiência. A profissional, sem dúvida, pois nessa corporação poliédrica de historiadores e cientistas sociais tínhamos várias afinidades – pertencíamos, afinal, à mesma tribo, como gostava de dizer. A valorização das instituições, como pude atestar quando de seu ingresso no Instituto Histórico, na Academia Brasileira de Ciências e na própria ABL. E as mais prosaicas: éramos vizinhos de bancada nesta sala de sessões – a bancada da “montanha”, como dizia em alusão à assembleia francesa – colaborávamos permanentemente na direção do arquivo e das bibliotecas e voltávamos para casa quase sempre juntos, pois José Murilo alternava minha carona com a de Edmar Bacha.

A Academia se despede de alguém cujas qualidades são fáceis de identificar e creio que meus colegas compartilharão a percepção.

Desde logo, a seriedade com que considerava tudo, o que se traduzia em cuidado minucioso na elaboração de juízos e na enunciação das opiniões. Em consequência, muito equilíbrio e ponderação, presentes em análises percucientes e eventualmente audaciosas, a que não faltava a elegância na exposição. Como também eventualmente não estava ausente algum humor crítico, leve ou ácido, em especial nas exposições orais – atitude que revelava, penso eu, impaciência com a falta de entendimento para o que lhe pareciam, à cartesiana, “ideias claras e distintas”.

Esse breve bosquejo do intelectual, porém, só se completa se lembrarmos o forte perfil ético de José Murilo de Carvalho. Não é pouco, quando sabemos como na vida em sociedade são fortes as cavilações, invejas, tergiversações e duplas faces. O homem e a obra, ao contrário, são íntegros, solares, translúcidos. E arriscaria dizer, lembrando Joaquim Nabuco, objeto de sua admiração, que este perfil ético é, nele, “o traço todo da vida”.

Com esses instrumentos morais e intelectuais José Murilo foi à luta. Impregnado de racionalidade, mas uma racionalidade que não se confinava ao gabinete de trabalho ou ao arquivo, antes se apoiava na vida. Certa vez convidou-me para falar na Academia sobre a ideia de História em Ortega y Gasset, num dos ciclos promovidos pela Casa. Até hoje não sei o grau de proximidade que tinha com o pensamento ortegueano – Norma talvez possa elucidar este ponto. Mas creio que a ele se aplica muito bem não só a orientação raciovitalista como sua motivação. Diz Ortega:

“O que me é dado ao ser-me dada a vida é a inexorável necessidade de ter que fazer algo, sob pena de deixar de viver... Vida é, pois, sempre, queira-se ou não, um que hacer algo.”

José Murilo dava a impressão de estar sempre prestes a “fazer algo”. Não, me expresso mal: dava-me a certeza de que sempre tinha algo a fazer. Mesmo em nossa última conversa, ao telefone, a despeito do evidente esforço para falar, era o futuro, “o que tínhamos a fazer”, que importava.

Esse raciovitalismo, ou essa racionalidade vital, foi canalizada para compreender seu país. Sabemos que deixa uma das obras mais importantes para a compreensão do Brasil. Sabemos que há temas da história do Império e da República, como a atuação das elites, a cultura política, o papel das forças armadas e a cidadania para os quais deu contribuições que se incorporaram, definitivamente, à nossa maneira de ver a formação brasileira. Sabemos que foi um pesquisador para quem, além dos trabalhos individuais, era relevante atuar em equipe, e liderava exemplarmente.

Não se pode conhecer o significado das elites oitocentistas e a própria existência do Império sem passar por seus estudos sobre a escola de minas de Ouro Preto e a sofisticada caracterização, inclusive estatística, como era seu gosto, que fez a propósito da “construção da ordem” estatal.

Sobre a cultura política são indispensáveis, os bestializados, desenhando a dicotomia povo – República e a visão do “bolchevismo de classe média” do Apostolado Positivista e seu legado para intelectuais e militares messiânicos e tantos ricos insights mais.

O livro sobre as forças armadas termina com uma relação de perguntas instigadoras e um comentário entre irônico e profético: “por falta de vontade política, de competência, de capacidade de antecipação, de virtu, como dizia Maquiavel, podemos ser novamente atropelados pelas rodas da fortuna.”

Seu estudo sobre a cidadania, aplicando ao Brasil procedimentos de Marshall sublinha outra dicotomia, a que existe historicamente entre o sistema eleitoral e a efetiva prática democrática.

Isso, e muito mais, sabemos e devemos a José Murilo de Carvalho.

O que não sabemos, excluindo as motivações estritamente acadêmicas, é o porquê dessas escolhas. Arrisquei uma explicação na comemoração de seus 70 anos: fazia história, como dizia Goethe, para se livrar do passado. Qual passado? O colonial: dependente, escravagista, clientelista, patrimonialista, mandonista. Nem por isso caiu em anacronismos ou juízos de valor intempestivos, antes utilizou seu racionalismo crítico para compreender sem justificar, e para concluir apontando caminhos.

Disse-me, mais tarde, que eu tinha sido bastante fiel à sua trajetória e a seus objetivos.

Trajetória, aliás, que começa com a esperança do jovem dos anos cinquenta, impregnado de desenvolvimentismo, que esperava ver o país arrancado de seu passado imóvel e chega ao intelectual da terceira década do século XXI com certo desencanto. Digo certo desencanto, porque talvez essa percepção esteja mais perto da visualização de circunstâncias conjunturais do que de uma convicção profunda.

O subtítulo de um de seus livros mais bem sucedidos, “Cidadania no Brasil – o longo caminho” talvez explique a razão do desencanto e de certa maneira o relativize. Há um longo caminho, porque as etapas de construção da cidadania foram, estão sendo, muito mais demoradas do que todos nós – José Murilo sobretudo – esperávamos. Entre o jovem Murilo dos anos 50 e o maduro intelectual de setenta anos depois há duas gerações – ou quatro, para Ortega – que não viram a plena superação do passado. E tenho a impressão de que o acadêmico de 2023 não se desencantou das expectativas do jovem mineiro que ele foi; apenas, mais uma vez se impacientou com a lentidão do processo.

De toda forma, pelo que representou para a interpretação do Brasil – portanto, para a cultura e a ciência do país – e para a Academia Brasileira de Letras, José Murilo de Carvalho será sempre uma referência maior.

18/08/2023

 

https://www.academia.org.br/noticias/saudacao-de-arno-wehling-jose-murilo

 


Arno Wehling
- Oitavo ocupante de cadeira 37, eleito em 9 de março de 2017, na sucessão de Ferreira Gullar e recebido em 11 de agosto de 2017 pelo Acadêmico Alberto da Costa e Silva.

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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O ACADÊMICO E HISTORIADOR JOSÉ MURILO DE CARVALHO E O ACADÊMICO E ECONOMISTA EDMAR BACHA SERÃO OS CONVIDADOS DA SEGUNDA CONFERÊNCIA DO CICLO “EM BUSCA DE NOVOS HORIZONTES: ECONOMIA E DISCIPLINAS AFINS”


A Academia Brasileira de Letras dá continuidade ao seu Ciclo de Conferências do mês de novembro, intitulado Em busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins, com palestra dos Acadêmicos José Murilo de Carvalho e Edmar Bacha. O tema escolhido é Economia e História. A coordenação é do Acadêmico e economista Edmar Bacha. O evento será realizado no dia 14 de novembro, às 17h30, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson, 203 – Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.
A Acadêmica e escritora Ana Maria Machado é a coordenadora-geral dos Ciclos de Conferências de 2019.
Os Ciclos de Conferência, com transmissão ao vivo pelo Portal da ABL, têm o patrocínio da Light.
Serão fornecidos certificados de frequência.
A intitulação Em busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins, segundo o Acadêmico Edmar Bacha, refere-se à relação da Economia com outras disciplinas, como História, Literatura e Direito.
O Ciclo Em busca de novos horizontes: economia e disciplinas afins terá mais duas palestras, às quintas-feiras, no mesmo local e horário, com os conferencistas e temas, respectivamente: dia 21, Gustavo Franco, Economia e Literatura, e dia 28, Elena Landau, Economia e Direito.
Os Acadêmicos
José Murilo de Carvalho é Doutor em Ciência Política pela Universidade de Stanford e Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. Foi professor da UFMG, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro – IUPERJ, e da UFRJ. No exterior, lecionou nas universidades de Stanford, Oxford, Londres e Leiden, entre outras. É também membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB.
Prêmios Internacionais
Prêmio Casa de las Américas, Cuba, para o livro A Cidadania no Brasil: o Longo Caminho; Prêmio SCOPUS, da Elsevier América Latina em parceria com a CAPES. Entre as muitas publicações, destacam-se: A formação das almas: O imaginário da República no BrasilA cidadania no Brasil: o longo caminhoForças armadas e política no BrasilD. Pedro II: ser ou não ser e O pecado original da República.
Edmar Lisboa Bacha é sócio fundador e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, um centro de estudos e debates no Rio de Janeiro. O acadêmico é também membro da Academia Brasileira de Ciências. Formou-se em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas da UFMG. É um dos primeiros economistas brasileiros com doutorado no exterior, pela Universidade de Yale, em 1968. Em 1974, publicou uma fábula sobre o reino de Belíndia, junção de Bélgica com Índia, que se tornou, desde então, uma imagem recorrente do Brasil. Integrou a equipe econômica que dominou a hiperinflação com o Plano Real, em 1994. Foi presidente do BNDES e do IBGE, e professor em diversas universidades brasileiras e americanas.
Autor de 12 livros, organizou 19 livros sobre temas econômicos, políticos e sociais do Brasil e da América Latina. Publicou cerca de 200 artigos em periódicos especializados, no Brasil e no exterior. Seu último livro autoral é Belíndia 2.0: Fábulas e Ensaios sobre o País dos Contrastes (Civilização Brasileira, 2012), agraciado com o Prêmio Jabuti em 2013. O último livro que organizou, em conjunto com Joaquim Falcão, José Murilo de Carvalho, Marcelo Trindade, Pedro Malan e Simon Schwartzman, é 130 Anos: Em Busca da República (Intrínseca, 2019). Livro em sua homenagem, com o título De Belíndia ao Real: Ensaios em Homenagem a Edmar Bacha com textos apresentados por colegas e ex-alunos em seminário na Casa das Garças, foi publicado em 2018 pela Civilização Brasileira.
Leitura complementar
Biblioteca Rodolfo Garcia disponibiliza seu acervo para pequisa e leitura de obras relacionadas ao tema desta conferência, como "Belíndia 2.0 [texto] : fábulas e ensaios sobre o país dos contrastes""Como reagir a crise? [texto] : políticas econômicas para o Brasil" e "Rachel de Queiroz : cadeira 5 - ocupante 5
Para consultar mais materiais como os citados, acesse o link abaixo e visite os "Levantamentos bibliográficos" realizados para este evento.

07/11/2019


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terça-feira, 10 de janeiro de 2017

2016 - José Murilo de Carvalho

2016


Em nossa história política, o ano de 2016 ficará provavelmente conhecido pelo impedimento da presidente da República, embora troca de presidentes fora do calendário eleitoral não seja novidade entre nós.

Baste lembrar que em 86 anos, de 1930 até hoje, apenas quatro presidentes eleitos pelo povo completaram seus mandatos: Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Isso quer dizer que nossa República pós-1930, passadas duas ditaduras e 26 anos de governo democrático, continua incapaz de rotini-zar a troca de governantes.

Embora parte de longa tradição, o impedimento havido neste ano teve marca própria, como todo evento histórico. Por lei, impedimento é julgamento político feito pelo Legislativo.
Fernando Collor não dispunha de apoio no Congresso nem nas ruas: sua remoção foi tranquila. Por contarem com esse apoio, escaparam do impedimento Fernando Henrique e Lula.

No corrente ano, a chefe de Estado, graças à inabilidade política, a diretrizes econômicas desastradas e à revelação das relações espúrias entre políticos, partidos e grandes empreiteiras, perdeu o apoio do Congresso e viu ruas e redes levantarem-se contra ela. A consequência foi a perda da batalha do impedimento. A diferença em relação a Collor foi que desta vez o país se dividiu e restou um legado de ressentimento e ódio.

O novo governo herdou a ingrata tarefa de enfrentar a maior crise econômica já vivida pelo país. De início, ele foi visto com moderado otimismo por contar com base parlamentar suficiente para fazer aprovar reformas impopulares exigidas para o reequilíbrio das contas públicas.

Mas o presidente logo se viu forçado a enfrentar a reação das ruas às reformas e, sobretudo, o enfraquecimento de sua base pela artilharia da Lava Jato. Seu próprio mandato passou a ser colocado em dúvida, agravando-se o estado de incerteza em que vive o país.

O ano termina com pesado passivo político: incerteza sobre a continuidade do mandato do chefe de Estado; a devastação causada pela Lava Jato nas lideranças políticas; a crise da esquerda e o consequente reforço do enraizado conservadorismo brasileiro evidenciado nas eleições municipais; a redução da confiabilidade em políticos, partidos, instituições e no próprio sistema representativo vigente; e a demonstração de que, 31 anos após a redemocratização, nossas instituições continuam frágeis e nosso sistema representativo é incapaz de processar os conflitos de interesses inerentes a uma sociedade escandalosamente desigual.

Essas dificuldades políticas, por sua vez, têm dificultado a implementação de iniciativas que reponham a economia na rota do crescimento, condição indispensável para reduzir os 12 milhões de desempregados e retomar as políticas sociais. 
De positivo, deve-se apontar a democratização da justiça.
Descontados excessos nas investigações, há que reconhecer que, levando-se também em conta o julgamento do mensalão, pela primeira vez na história do país ricos e poderosos foram, e continuam indo, para a cadeia, indicador de grande avanço Renata Miwa republicano.

Também, frente à desmoralização do Legislativo e do Executivo, o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal têm agido em consonância com o grosso da opinião pública. A Corte Suprema caminhava também nessa direção, acumulando credibilidade, até que aceitou um arreglo desmoralizante forçado pela arrogância do presidente do Senado, um réu que ela própria terá que julgar.

Ainda no lado positivo, tendo em vista nossa tradição, há que registrar o silêncio das Forças Armadas. Caberá só aos cidadãos continuar a batalha, já por demais longa, e talvez já perdida, por uma república democrática estável e eficaz. Os mais pessimistas podem ouvir neste fim de ano o "Nearer, my God, to Thee", tocado pelos violinistas enquanto o Titanic se afundava.

Folha de S. Paulo, 18/12/2016




José Murilo de Carvalho - Sexto ocupante da Cadeira nº 5 da ABL, eleito em 11 de março de 2004, na sucessão de Rachel de Queiroz e recebido em 10 de setembro de 2004 pelo acadêmico Affonso Arinos de Mello Franco.

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