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segunda-feira, 2 de setembro de 2019

ARTIGO DO VICE-PRESIDENTE HAMILTON MOURÃO NO JORNAL ESTADÃO


Uma aula de história, de verdade, de brasilidade, que encerra definitivamente a questão sobre os outros interesses escusos sobre a nossa Amazônia.
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“No contexto de uma campanha internacional movida contra o Brasil, ressurgiu a antiga pretensão de relativizar, ou mesmo neutralizar, a soberania brasileira sobre a parte da Região Amazônica que nos cabe, a nossa Amazônia.

Acusações de maus-tratos a indígenas, uso indevido do solo, desflorestamento descontrolado e inação governamental perante queimadas sazonais compõem o leque da infâmia despejada sobre o País, a que se juntou a nota diplomática do governo francês ofensiva ao presidente da República e aos brasileiros.

O Brasil não mente. E tampouco seu presidente, seu governo e suas instituições.

Em primeiro lugar, porque o Brasil tem a seu lado a História, sobre a qual, em consideração à memória nacional, nos devemos debruçar.

A Amazônia que nos pertence foi conquistada no tempo em que só a ação intimorata garantia direitos. Depois da expulsão dos franceses de São Luís (1615) e da fundação do forte do Presépio, a futura Belém (1616), corsários ingleses e holandeses foram combatidos e expulsos da foz do Rio Amazonas.

A União Ibérica (1580-1640) ofereceu oportunidade para que bandeirantes e exploradores rompessem as Tordesilhas, um desenvolvimento histórico que tem na primeira navegação da foz à nascente do Amazonas (1637), façanha cometida por Pedro Teixeira, seu marco definitivo.

Foram fortalezas que prefiguraram a ocupação e a delimitação da Amazônia brasileira. Foi a catequese que aglutinou os indígenas sob a proteção da cruz, favorecendo a miscigenação que fomentou o povoamento da região. A fundação do forte de São José do Rio Negro, na confluência do Rio Negro com o Solimões (1663), reuniu em seu entorno índios barés, baniuas e passés, dando origem à povoação que viria a se transformar na cidade de Manaus.

Após a Independência, em nossa primeira legislatura, quando a pretensão estrangeira de impor um monopólio de navegação no Amazonas ousou atribuir aos brasileiros a pecha de ignorantes, coube ao Senado devolvê-la, lembrando que cabia aos brasileiros a primazia dos descobrimentos sobre a região, conforme atestado pelo próprio Humbolt.

E no início do século 20, enquanto a Europa se dilacerava nos campos de batalha da 1.ª Guerra Mundial, um dos nossos maiores soldados, Cândido Mariano da Silva Rondon, completava sua campanha sertanista (1915-1919) em Mato Grosso levantando cartograficamente os vales do Araguaia e as cabeceiras do Xingu; descobrindo minas de sulfeto de ferro, ouro, diamantes, manganês, gipsita, ferro e mica; e o mais importante, fazendo amigas as nações nhambiquara, barbados, quepi-quepi-uats, pauatês, tacuatés, ipoti-uats, urumis, ariquemes e urupás, que ao final da ciclópica empreitada apontavam para as armas dos exploradores e diziam: “Enombô, paranã! Dorokói pendehê” (“joguem no rio, a guerra acabou”).

Epopeia consumada, mas por concluir, na qual o Brasil jamais prescindiu da cooperação das nações condôminas desse patrimônio reunidas no Pacto Amazônico, que comemorou, no ano passado, 40 anos de sua assinatura, o qual, pela sua finalidade e sua clareza de propósitos, dispensa protagonismos de última hora movidos por interesses inconfessáveis. Se existisse algum protagonismo nacional na Amazônia sul-americana compartilhada por nove países, algo que o Brasil nunca avocou, ele seria, pelos números, pela presença e pela História, brasileiro.

Se a História dá razão ao Brasil em qualquer debate sobre a Amazônia, cabe colocar, em segundo lugar, que ele tem a seu favor os fatos.

Não há país que combine legislação ambiental, produtividade agropecuária, segurança alimentar e preservação dos biomas com mais eficiência, eficácia e efetividade do que o Brasil. Não bastassem todos os dados legais e científicos, sobejamente conhecidos, que comprovam essa assertiva, tomem-se não as palavras, mas os atos do governo brasileiro no sentido de combater queimadas e apurar crimes de toda natureza praticados na Região Amazônica, o que desqualifica as desproporcionais acusações e agressões desferidas contra o País por causa do meio ambiente.

E se não bastassem a História e os fatos, cabe apontar o que se revela nas declarações oficiais, nas confidências mal escondidas, nas entrelinhas dos comunicados e no ecorradicalismo incensado pela imprensa: a velha ambição disfarçada por filantropia de fachada.

É inacreditável que, num momento em que guerras comerciais e protecionismos turvam o horizonte mundial, e são publicamente condenados em todas as instâncias internacionais responsáveis, líderes de países europeus venham, individualmente ou em conjunto, tomar iniciativas contra o livre-comércio, procurando sabotar acordos históricos como o firmado entre a União Europeia e o Mercosul e entre este e os países da Associação Europeia de Livre-Comércio (Efta) – Noruega, Suíça, Islândia e Liechtenstein.

Como é inacreditável que pessoas que até há pouco tempo ocupavam cargos públicos se esqueçam de uma das linhas mestras da diplomacia do Brasil, a de preservar a liberdade de interpretar a realidade do País e de encontrar soluções brasileiras para os problemas brasileiros, conforme colocadas pelo chanceler Horácio Lafer em 1959.

Nada disso prevalecerá. O Brasil não tem tempo a perder. Com trabalho, coragem e determinação ele encontrará o seu destino de grandeza: ser a mais pujante e próspera democracia liberal do Hemisfério Sul.

E por qualquer perspectiva, da preservação ao desenvolvimento, da defesa à segurança, da História ao Direito, a nossa Amazônia continuará a ser brasileira.

E nada exprime melhor isso do que a canção do internacionalmente reconhecido Centro de Instrução de Guerra na Selva: À Amazônia inconquistável o nosso preito, / A nossa vida por tua integridade/ A nossa luta pela força do direito/ Com o direito da força por validade.”


(Recebi via WhatsApp)


A mais alta das árvores gigantes da Amazônia está dentro de uma unidade de conservação estadual de uso sustentável, a Floresta Estadual do Parú (PA)Divulgação/Jhonathan dos Santos

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domingo, 1 de setembro de 2019

ABISMO DA RAZÃO - Cyro de Mattos


Abismo da Razão
Cyro de Mattos*


            Do lado de lá, nas terras longes, o homem irascível, bigodinho nervoso. Acabava de instalar o império do medo. Desejava ser o dono do mundo, montado na crença da supremacia da raça branca. Dos mais sofisticados, em alta escala, os armamentos bélicos. Milhões de criaturas indefesas reduzidas a cinzas nos fornos crematórios.

           Anos de fogo, sombras, pesadelos. O mal sem limites.  Corpos usados para expe­riências absurdas. Mães separadas dos filhos, maridos das mulheres. A terra virada no inferno. Milhões de inocentes eliminados sem dó, na enchente a morte. A liberdade recuada para os subterrâneos mais indignos.

          Sirenes, bombas, torpedos. Explosões, cra­teras, escombros.  A fera ressurgia da antiga caverna, assoberbada galopava nas trevas. Não concedia a trégua, bania a razão para os confins inimagináveis do abismo mais profundo.  A vida nutrida de fúria galopava na engrenagem monstruosa do absurdo, o elogio de nadas, tudo sem sentido. Orgulhoso o hominho irascível, inundado de prazer, sorrindo de contente com o holocausto, rostos de penúria, estilhaços de gente por todos os cantos.

          No final, o triunfo do amor. Solda­dos uníssonos no campo da vitória. Retirada do estúpido abismo, de forças dementes   a razão açoitada no gesto vil, a pobre coitada ainda resistia.  Encerrada com os corpos de pessoas fuziladas, o tenebroso acúmulo de ossatura, o teatro fétido nos odores da morte, empilhada nos canais enormes.
  
         Grande passeata pelas ruas do lado de cá, gente grande e pequena dando vivas à liberdade.  O sorriso que alarga o rosto apareceu na rua de barro batido, os habitantes da cidade pequena em euforia incontrolável.  Bombas inimigas caladas para sempre. Já não existem mais as horas do mundo cheio de grito e agonia. Os sinos tocando sem parar a canção constante da paz, antiga, belíssima, irradiando bondade e alegria.
  
         Acreditava-se nos dias promissores. O homem redimido agora, renascido da razão,  nervos fraternos, sentimentos do amor. Cânticos emanavam do peito o bem supremo da felicidade. Não mais o coração esmagado sob as patas impassíveis de manadas enfurecidas. Nos ares libertos da opressão, bemóis da cantiga geral da união como verdade.

          A praça, um bloco extenso de gente, comoventes olhos brilhavam na direção do homem fardado no palanque. De volta da guerra, o rosto do herói numa máscara feita de tecidos sólidos. O locutor chamou o guardador dos ramos da vitória.  Entregou-lhe o microfone. “Comece, por favor, estão ansiosos para ouvir seu relato sobre o horror.”  O homem disse para o locutor, tinha o   olhar imóvel diante da multidão, soltando murmúrios, o vozear confuso, “não posso”.  “Faça um esforço”, retornou o locutor, animando-o.  “Não tenho palavras para descrever o terror.” Acrescentou, mastigando as palavras, “é impossível”.   O locutor ainda perguntou, “não tem palavras?”  O herói fez um esgar medonho, deixou todos com a expressão no assombro diante do silêncio impassível.  Com dificuldade, confirmou, “perdi as palavras nos anos de fogo e bombardeio.”  

           A multidão frustrada, gente triste rumo às suas casas, passos pesados, arrastados, em silêncio, rostos para o chão. Uma procissão de almas penadas, visagens de outro mundo.  O herói havia ajudado esmagar uma mulher diabólica, que arrasa os sonhos, bombardeia projetos, dizima a maravilha, mata a esperança, tritura a ternura, no lugar põe o abismo, que engole a razão sem remorso.  Com sua corrida desembestada, pisoteia tudo que nasce do amor.  Era importante ouvi-lo. Inútil sua palavra congelada. Imprestável para relatar o terror.  Sua razão não tinha sã consciência para descrever a imensa desgraça que viveu no pior abismo.
      

*CYRO DE MATTOS publicou mais de 50 livros, de diversos gêneros.  Autor com prêmios importantes. Também editado no exterior. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia) 

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PALAVRA DA SALVAÇÃO (146)


22º Domingo do Tempo Comum – 01/09/2019

Anúncio do Evangelho (Lc 14,1.7-14)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola:
“Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: ‘Dá o lugar a ele’. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: ‘Amigo, vem mais para cima’. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”.
E disse também a quem o tinha convidado: “Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.

— Palavra da Salvação.
— Glória a vós, Senhor.


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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a encenação do Evangelho:
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HUMILDADE: deslocar-se para o lugar do último

“Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado” (Lc 14,11) 

Jesus sempre se revelou muito livre, transitando por mesas de diferentes pessoas. É muito inspirador ter em conta o contexto do evangelho deste domingo. Ele nos revela, mais uma vez, Jesus participando de uma refeição, convidado por “um dos chefes dos fariseus” da região. É uma refeição especial de sábado, preparada desde a véspera com todo esmero. Como é costume, os convidados são amigos do anfitrião, fariseus de grande prestígio, doutores da lei, modelos de vivência religiosa para todo o povo.

Jesus já era uma pessoa muito conhecida e muito discutida. Seguramente a intenção deste convite era comprometê-lo diante dos demais convidados. Mas temos a impressão que Jesus não se sente cômodo neste ambiente; sente falta de seus amigos, os pobres, aqueles que encontra mendigando pelos caminhos, aqueles que nunca são convidados por ninguém, aqueles que não contam: excluídos da convivência, esquecidos pela religião, desprezados por quase todos.

Sabemos que Jesus sempre se fez presente no lugar onde se encontravam aqueles que não tinham “lugar”, os “deslocados”, os socialmente rejeitados e que eram a razão de seu amor e do seu cuidado; fez-se solidário com os “sem lugares” e abriu para eles um “novo lugar” no Reino do Pai. Na Galileia, Jesus teve suas preferências e escolheu o seu “lugar”, o lugar entre os mais pobres, vítimas daqueles que se faziam donos dos lugares. Os evangelhos destacam que Jesus, na sua vida e missão, sempre deu grande importância às refeições em comum, mesas de partilha, mesas festivas... É neste ambiente de comunhão que o Reino se visibiliza e antecipa o sentido da refeição plena, preparada pelo Pai.

É a partir desse ato sagrado que podemos olhar o outro mais de perto, escutá-lo mais de perto, senti-lo mais de perto... pois “a comida, o alimento de nossas refeições, não é somente o que aparenta, mas, remete a algo que está atrás de si, para além de si. Portanto, o gesto de sentar-se à mesa para comer revela um tipo de relação social de um determinado grupo humano” (Manuel Diaz Mateos).

O Reino de Deus, ao se fazer presente, desperta em nós a mística da mesa que alimenta uma vida que se faz doação, como o pão que é partilhado: a amizade, a convivência, a acolhida... Sentar-se à mesa com o outro é descobrir-se vivo, corpo pulsante, latente, carente. Mas é também descobrir um outro tipo de alimento, que só pode ser colhido na delicadeza da inter-relação, da inter-comum-união com o outro. E a vida floresce em plenitude quando está impregnada de amor e gratuidade, sem competição de “egos” e nem desejos de protagonismo. 

No texto do evangelho deste domingo, encontramos duas pequenas parábolas. Uma se refere aos convidados; outra diz respeito ao anfitrião. Em ambos os casos, Jesus nos propõe uma maneira diferente de compreender as relações humanas. Ele quer deslocar comportamentos que consideramos normais, para entrar em uma nova dinâmica, que nos leva a mudar a escala de valores do mundo.

Na primeira imagem, não se trata de um simples ato de educação para receber elogios. Jesus parte de um modo de proceder generalizado (buscar os primeiros lugares) como ocasião para apresentar uma visão diferente e mais profunda da humildade. Colocar-se no último lugar não deve ser uma estratégia para conseguir maior admiração e honra. A frase “quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado”, pode levar-nos a uma falsa interpretação. Jesus aconselha não buscar as honras e o prestígio diante dos outros, como meio para fazer-se valer. Condena toda vanglória e vaidade como contrárias à sua mensagem. 

O convite a “sentar no último lugar” revela um enfoque nem sempre percebido em seu sentido profundo. Ele revela aos participantes da refeição um “novo ângulo” ou um novo modo de ver as coisas: não a partir do lugar dos comensais, mas a partir da perspectiva de quem não está sentado à mesa.

O gesto de Jesus convida a fazer um deslocamento, ou seja, ocupar o lugar da pessoa que não participa da mesa. Quê novidade se percebe a partir deste lugar? Portanto, olhar a refeição a partir do ângulo de quem está no último lugar muda totalmente as perspectivas. Jesus revela, então, um “novo ângulo” ou um novo modo de “olhar as pessoas”: não a partir do lugar do poder, mas a partir da perspectiva dos fracos e indefesos.

Não é comum prestar atenção ao lugar ocupado pelo outro, sobretudo o outro que pensa e sente diferente; é normal perceber, delimitar, defender e fechar-se no próprio lugar. Isso se faz de maneira tão zelosa que nem se vê aquilo que está para além do próprio lugar. São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. O próprio lugar se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz. Para isso é preciso uma “mudança de lugar”, um deslocamento para baixo, em direção aos pequenos. Quem “desce” encontra-se com Jesus. Quem acolhe um “pequeno” está acolhendo o “maior”, o próprio Jesus. 

A segunda parábola apresenta um matiz diferente. Antes de despedir-se, Jesus se dirige àquele que o tinha convidado. Não é para agradecer-lhe o banquete, mas para sacudir sua consciência e convidá-lo a viver  um estilo de vida menos convencional e mais humano. “Não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos. Convida os pobres, aleijados, coxos, cegos...”. Mais uma vez Jesus se esforça por humanizar a vida, rompendo esquemas e critérios de atuação que nos podem parecer muitos respeitáveis, mas que, no fundo, estão indicando nossa resistência a construir esse mundo mais humano e fraterno, querido por Deus.

Normalmente vivemos instalados em um círculo de relações familiares, sociais, políticas ou religiosas com as quais nos ajudamos mutuamente a cuidar de nossos interesses, deixando fora aqueles que nada podem trazer. Convidamos para ter acesso à nossa vida àqueles que, por sua vez, podem nos convidar.

Jesus não quer dizer que fazemos mal quando convidamos os familiares e amigos para uma refeição. Ele quer dizer que estes convites não vão mais além do egoísmo amplificado àqueles que são do nosso círculo. Essa atitude para com os amigos não é sinal do amor evangélico. O amor que Jesus nos pede precisa ir mais além do sentido comum, dos sentimentos ou do interesse pessoal. A demonstração de que  entramos na dinâmica do Reino está em que buscamos o bem dos outros sem esperar nada em troca.

A gratuidade é a marca do Reino. 

Texto bíblico:  Lc 14,1.7-14
Na oração: Precisamos sair de nossos pequenos círculos para criar vínculos com tantos grupos e organizações sociais, movimentos que buscam outra cultura, a cultura da solidariedade, da interconexão responsável, do encontro comprometido.
 “Considerar” aqueles que não tem “lugar” em nossas comunidades; colocar-se em seu lugar e sentir o que eles sentem.

Pe. Adroaldo Palaoro sj

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sábado, 31 de agosto de 2019

PALHAÇOS - Luiz Gonzaga Dias


Palhaços


Eu vos entendo bem pobre palhaços!
Meus irmãos na impotência e no fadário.
Vejo punhais agudos e estilhaços,
Detrás do vosso rir de mercenário.

Vossa amargura é pasto do sadismo,
Da heterogênea e torpe multidão
Que nesse esgar de trágico histerismo -
Não reconhece a vossa maldição.

Eu reconheço... E sofro esta tortura,
Dos corações iguais na afinidade.
Alma afeita aos remígios e segura,
Na terra pela vil necessidade.

Vos compreendo - Prometeus histriões!
No picadeiro - Rigoleto abjeto.
Escondendo o estoicismo de Epíteto,
detrás do alvaiade dos bufões.

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Palhaços II


Fostes na velha Grécia o grande Homero,
Roto e faminto tateando a glória.
Fostes em Roma o matricida Nero,
Fantasma horrendo nas galés da história.

Savanarola!... O circo é muito vasto!
E tem por palco, o mundo milenar.
São palhaços, Junqueira, o velho Fausto
Para fazerem rir, de horror chorar...

- Ó César! Napoleão! Ó Macedônio!
Se o universo pra vos era uma tenda
A vossa fome enorme de demônio
É simples tema para a voz da lenda.

Califas! Faraó! Imperadores!
Tzares – espectros lá na antiguidade –
Sombras gigantes de conquistadores,
Sois os palhaços da posteridade!

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Palhaços III


Representais sátiras e comédias,
O Gwenplayne de alma grande e nobre!
Cujas farsas são íntimas tragédias,
Dadas ao povo como chiste dobre.

Cambalhotas, trejeitos e piadas,
Malabarismos sem sair do chão...
Vossas vinganças são bem calculadas...
- Rires daqueles de quem sois truão!

Em cada chiste esconde-se um sarcasmo,
Lançado à turba - cimitarra oculta,
Que lacera sutil... Eu fico pasmo,
Dessa humildade que servil, insulta.

Palhaços meus irmãos, servis demonos,
A humanidade de quem rides? Ora!
Consolai-vos, porque nós todos somos
Heróis palhaços pela vida a fora!


(IMAGENS MUTILADAS - 1963)
Luiz Gonzaga Dias


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TEMPOS NOVOS, MUITO NOVOS - Paulo Henrique Chaves


31 de agosto de 2019
Colheita de algodão em Campo Novo do Parecis (MT)

Paulo Henrique Chaves
 
Incontáveis indígenas anelam se inserir no mundo civilizado, mas muitas ONGs e elementos da “esquerda católica” tentam impedi-los de abandonar os seus costumes selvagens. Em 2018, no Mato Grosso os índios Parecis plantaram 12 mil hectares de soja, e como “prêmio” receberam 44 multas do IBAMA, totalizando 129,2 milhões de reais. O motivo das multas? Castigo pelo fato de os índios terem plantado e colhido!

Tempos novos, muito novos mesmo, pois agora os índios querem produzir, empreender, sair do humilhante “zoológico” em que costumam ser apresentados ao mundo, espécie de cobaias para antropólogos e missionários inescrupulosos. Sem falar das ONGs que os rodeiam, gente com interesse pouco claro, mas que deixa evidente a intenção de tirar proveito disso.

Tal trama revolucionária da esquerda, em que missionários da igreja “progressista” se mostram contrários ao desenvolvimento espiritual e material dos índios, negando-lhes ensinar o evangelho, foi denunciada em 1977 por Plinio Corrêa de Oliveira, em seu livro Tribalismo Indígena – Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI.

Nas suas pegadas, sempre empenhados em manter alto o estandarte alçado por este ilustre brasileiro, e, sobretudo dada a atualidade que o tema ganhou no Brasil em razão do Sínodo sobre a Amazônia, a ser realizado em Roma proximamente, fomos a Campo Novo do Parecis (MT) [foto ao lado] a fim de conhecer realidade sobre esses índios empreendedores que plantam e colhem, progridem e se civilizam.

Em fevereiro último, estiveram lá para o encerramento de um Encontro Nacional de Agricultores Indígenas, dois ministros de Estado. Na ocasião, a Ministra Tereza Cristina, da Agricultura, que é mato-grossense, declarou que a vontade dos índios é soberana, cabendo a eles decidirem o que fazer ou deixar de fazer. Já o Ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, observou que os índios plantam e produzem com muita competência, demonstrando aptidão para se integrarem ao agro sem perder suas origens.

No ensejo, os índios fizeram a ministra Tereza Cristina um pedido no qual reivindicaram crédito para aquisição de insumos e maquinário, além de mudanças na lei que os impede de comercializar o que vêm produzindo.

A ministra reafirmou a Ronaldo Paresi [foto ao lado], presidente da Cooperativa Agropecuária dos Povos Indígenas – Coopihanama, que eles merecem o mesmo apoio que os demais produtores rurais brasileiros. E espera que o exemplo deles possa contribuir para “mudar a miséria e a manipulação que existe hoje em torno dos povos indígenas do Brasil”.

Com efeito, eles vêm se destacando pela produção agrícola mecanizada de soja, milho e feijão. Na atual safra, segundo informações dos próprios indígenas, eles plantaram cerca de 19 mil hectares de grãos, produção autorizada pelos órgãos competentes.

Para a ministra Tereza Cristina, a FUNAI deve trabalhar com um novo olhar, cuidando dos direitos indígenas, sem considerá-los como “coitadinhos”, dando-lhes todas as condições para que consigam a autonomia de produzir, bem como possam desfrutar de boa qualidade de vida.

O Diretor Financeiro da Cooperativa, Adilson Paresi fez um resumo da exploração agrícola que os índios vêm fazendo. Segundo ele, “são nove terras indígenas totalizando 1.500.000 hectares, abrangendo cinco municípios circunvizinhos”.

"Nessas terras há 63 aldeias com uma população de mais de 2.000 índios”. Área correspondente à metade da Bélgica, hoje habitada por 11 milhões de pessoas. Para Adilson, “sua etnia criou uma política de autossustentação dentro do seu território”.

Tempos novos, muito novos! Chamou-nos a atenção nas aldeias, cujas casas e mesmo as ocas ainda existentes possuem luz elétrica, geladeira, freezer, televisão, sinal de internet, ventiladores… Todas as crianças de certa idade já possuem o seu celular na palma da mão.



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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

XIX BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO - Bienal News 3ª Edição


Já baixou o nosso APP? Disponível em todos sistemas operacionais e gratuito, nele você fica por dentro de todas as informações da XIX Bienal do Livro e mais: pode montar uma agenda personalizada com as suas atrações favoritas para não perder nada! Baixe e garanta o seu ingresso no maior evento literário do país! Te esperamos, Venha, Viva, Conte!
 Considerada a Bienal mais acessível de toda a história, pela primeira vez, o evento oferece visitas guiadas para Pessoas com Deficiência Visual explorarem o Pavilhão Infantil. 
Acompanhados por dois guias, crianças e adultos terão a oportunidade de conhecer o espaço por meio de audiodescrição e experiência sensorial. Na toca de leitura, disponibilizaremos livros em braile.

As visitas acontecerão nos dias 30 e 31 de agosto e 01, 04, 05, 06, 07 e 08 de setembro, às 9h, durante a semana, e às 10h, nos finais de semana, e são limitadas a 20 pessoas.

A inscrição pode ser realizada no site e o ponto de encontro será no balcão de informações do Pavilhão das Artes. Sujeito à lotação. Os dias 02 e 03/09 estão reservados para 40 crianças com deficiência visual do Instituto Benjamin Constant, que serão contempladas com convite para visitar a Bienal.

Pela primeira vez, todas as sessões da programação oficial terão tradução em libras.


O Pavilhão das Artes, maior galeria de arte urbana da América Latina, ganhou um toque especial com obras de mais dois artistas renomados: KUBO e Maurício de Sousa.
Carlos Kubo, artista plástico filho de pais japoneses, país homenageado desta edição, deixa sua marca no espaço com duas esculturas e um painel da série “1000 Tsurus by Carlos Kubo”. Já o cartunista e escritor Maurício de Sousa colore o espaço com um painel de quadrinhos dos personagens da Turma da Mônica, em parceria com a muralista Simone Siss. Celebrando 60 anos de carreira, Mauricio assina a obra na abertura do evento, dia 30, às 9h

Grande homenageada desta edição da Bienal por seus 50 anos de carreira, Ana Maria Machado visitou a Escola Municipal Domingos Bebiano, em Inhaúma, e interagiu com cerca de 100 alunos, de 6 a 12 anos. No encontro, a autora conversou com as crianças sobre a importância da leitura e sua ilustre trajetória e promoveu uma contação de história do livro “Jabuti Sabido e Macaco Metido”. Durante a leitura, o ator Patrick Dadalto deu pitadas de humor com brincadeiras sobre a narrativa. A ação aconteceu no último dia 16.
Já no dia 13 de agosto, a influenciadora e escritora Nathália Arcuri esteve na Escola Municipal Epitácio Pessoa, no Andaraí. 
Conhecida por suas dicas de educação financeira no canal “Me Poupe”, que virou livro, Nathália falou para cerca de 120 estudantes adolescentes, que compartilharam seus planos para os próximos anos e ouviram dicas preciosas para um futuro próspero.

“Atire a primeira pedra” quem ainda não viu um totem ou galhardete da Bienal transcendendo o Riocentro? Fazendo jus ao fato de estar entre os quatro maiores eventos do Rio de Janeiro, a Bienal tomou conta da cidade. São 800 galhardetes e 16 totens espalhados por diversos bairros. Espalhe ainda mais essa ideia!

Reforçando a missão do evento – incentivar o hábito da leitura para mudar o país – firmamos parceria com o MetrôRio, empresa do grupo Invepar, para promover a ação “Embarque na Leitura”. No dia 27 de agosto, os clientes que embarcaram nas estações terminais Pavuna, Botafogo e Jardim Oceânico encontraram livros sobre os assentos. Ao todo, mil obras, de diferentes gêneros literários, foram “achadas” pelos passageiros. Algumas personalidades como Gilberto Gil participaram da ação e doaram livros com dedicatórias.
Já no BRT, visando garantir a comodidade e agilidade no transporte, a iniciativa é diferente: vamos disponibilizar uma linha extra especialmente criada para atender o público do evento durante os finais de semana. A Linha 99 – Jardim Oceânico x Terminal Recreio (Via Bienal) Expresso irá operar nos dias 31 de agosto e 1, 7 e 8 de setembro, de 9h30 às 22h45, e os visitantes deverão desembarcar na estação OLOF PALME.



E-mail enviado por: GL EVENTS CENTRO DE CONVENCOES S.A - 05.495.076 0001-59
AV. SALVADOR ALLENDE, 6555 - BAIRRO DA TIJUCA, RIO DE JANEIRO, RJ, 22783127 BR 


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CRIATIVIDADE DA SEGUNDONA - Merval Pereira


A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal exerceu o direito de errar por último, como Rui Barbosa definiu ser prerrogativa do STF. Mas o Supremo é composto por 11 ministros, onze ilhas, na definição de Sepulveda Pertence, “Os Onze” retratados com maestria pelo livro desse nome dos jornalistas Felipe Recondo e Luis Weber.

Portanto, os três votos que inovaram a interpretação da lei para anular o primeiro julgamento da Lava-Jato, usando uma criatividade que até o momento era atribuída apenas ao “direito de Curitiba”, na expressão jocosa do ministro Gilmar Mendes, não representam a opinião do pleno, e em algum momento o caso deverá ser enfrentado pelo conjunto do Supremo.

Ou então a própria Segunda Turma, diante da má repercussão da medida na opinião pública, pode explicitar no acórdão que os efeitos da decisão só se produzem nos processos posteriores, não tendo efeito retroativo para os casos em que a defesa não alegou cerceamento em recurso ainda na primeira instância.

Essa interpretação de que os réus delatores são parte da acusação, e por isso o réu delatado deve ter o direito de se defender por último, deve servir para basear pedidos de anulação de uma série de processos, pois nunca os juízes separaram delatores e delatados, sempre considerados réus igualmente.

A anulação com base nessa nova interpretação da Segunda Turma, porém, só seria possível em situações como a de Bendine, em que a defesa dos réus pediu que falassem depois dos delatores. Os que assim fizeram, antes da primeira condenação, tiveram seus recursos negados pelo juiz de primeira instância, pelo TRF-4 e pelo STJ, e agora podem ser beneficiados.

Como salientei ontem, o advogado Cristiano Zanin não fez esse recurso no julgamento de primeira instância nos dois julgamentos em que Lula foi condenado, o do triplex, e o do sítio de Atibaia, mas tenta se aproveitar da nova interpretação no julgamento em curso do processo sobre o terreno do Instituto Lula dado pela Odebrecht.

A decisão do juiz Luiz Antonio Bonat ainda não foi divulgada mas, como de praxe, ele deu aos réus o mesmo prazo, fossem delatores ou não. Como o julgamento não terminou na primeira instância, basta que o juiz que substituiu Moro siga a nova instrução do Supremo, refazendo essa parte do processo, concedendo à defesa de Lula o direito de ser a última a falar.

A única possibilidade de que a decisão da Segunda Turma atinja a todos os condenados seria mais uma interpretação criativa.

Devido à controvérsia que a decisão causou, era provável que o recurso da Procuradoria-Geral da República fosse encaminhado pelo relator da Lava-Jato, ministro Edson Fachin, para decisão do plenário do Supremo. Foi o que ele fez, ontem à noite, usando outro processo.

Será a única maneira de esclarecer se essa criatividade jurídica conta com o respaldo da maioria do STF. Se a Segunda Turma recebesse o recurso, dificilmente o resultado seria diferente. Pode até ser que a ministra Carmem Lucia, que surpreendeu a todos votando junto com Gilmar Mendes e Lewandowski, defendesse  a tese de que a decisão se restringe ao caso de Bendini. Os dois outros teriam interpretação diferente, provavelmente, e o resultado seria um empate de 2 a 2, que beneficiaria o réu.

O ministro Celso de Mello está internado, e provavelmente não retornará ao trabalho tão cedo. A defesa de Lula poderia se aproveitar dessa baixa na Segunda Turma para apresentar o recurso, alargando sua interpretação. Esta é a primeira grande derrota da Operação Lava-Jato no Supremo, pois resultou na anulação de uma condenação.

As outras derrotas, como o fim da condução coercitiva, ou a contenção da prisão preventiva, foram superadas na prática do dia a dia. Agora, depois da divulgação de diálogos entre Sergio Moro e Dallagnol, e entre os procuradores de Curitiba entre si, foram revelados detalhes pessoais dos investigadores que reforçaram uma rejeição que já havia latente em muitos dos ministros do Supremo, e expressada por outros, sendo o mais contundente o ministro Gilmar Mendes.

Mesmo que as conversas não revelem nenhuma irregularidade jurídica nas decisões tomadas, mostram uma faceta nada edificante das investigações. São questões morais que não deveriam interferir no julgamento, mas interferem.    Muitos atribuem a esse incômodo o voto da ministra Cármem Lúcia.

O Globo, 29/08/2019


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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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