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sábado, 3 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – A rede de casal


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(São João de Meriti, 1946 – a rede de casal)


            A casa simples e agradável, situava-se no alto de pequena colina, a chácara toda media vinte e um mil metros quadrados cobertos por oitocentas laranjeiras. Pés de toranjas de duas ou três variedades, limeiras, limoeiros, pés de fruta-pão, sapotizeiros, goiabeiras, mangueiras, mamoeiros completavam o pomar. Uma louca criação de aves – galinhas de raças, patuassus, gansos, marrecos – animava o Peji de Oxóssi, nosso esconderijo, situado entre Caxias e São João de Meriti, no estado do Rio. Nele Zélia e eu curtimos enfim nossa lua-de-mel.

            Vivíamos juntos desde julho de 1945, mas não nos sobrava tempo para namorar tanto quanto desejaríamos: eu dirigia o cotidiano Paulista do Partido Comunista, o Hoje, tarefa que tomava a maior parte de meu tempo, Zélia se revelara imbatível ativista da Comissão de Finanças. Como se fosse pouco, a campanha eleitoral começara. Candidato a deputado federal, eu saía nos fins de tarde para comícios noturnos no interior, chegava pela madrugada. Resolvemos transferir a lua-de-mel para depois das eleições. 

            As eleições realizaram-se em novembro, deputado eleito deixei com a direção do partido minha carta de renúncia, partimos de viagem eu e Zélia. Viagem de núpcias, já era tempo.

            Apenas começávamos a sentir o sabor da lua de mel, passáramos alguns dias no Rio Grande do Sul, na chácara de Henrique Sclair, estávamos no Uruguai, devíamos ir a Buenos Aires, quando chegou o telegrama urgente de Prestes reclamando minha presença no Rio daí a três dias. comuna enquadrado, tomei o primeiro avião para o Brasil, Zélia comigo, ansioso para saber o motivo da intempestiva convocação.  

            Outro não era que o de tomar posse da cadeira de deputado. Ora, eu condicionara a aceitação de minha candidatura - escritor já bastante popular, meu nome traria votos para a legenda do Partido – à garantia de que, se eleito, renunciaria ao mandato dando lugar a convocação do suplente. queria retornar a meu trabalho literário, já bastante comprometido pela atividade de militante. Recordei a Prestes o compromisso assumido pela direção. Antes de viajar entrega a Arruda Câmara o documento de renúncia. Prestes estava a par, salientou que fora ele quem levara a direção a admitir a minha exigência  - podia um militante por acaso fazer naquele então qualquer exigência, justa, mínima, fosse qual fosse, ao Partido? Por isso mesmo sentia-se no direito de apelar para minha consciência de comunista responsável: que iriam dizer aqueles eleitores que tinham votado em mim, sobretudo os não comunistas, se eu não assumisse? Iriam acusar o Partido de ter usado meu nome para obter votos, é estratagema sujo, malandragem, os inimigos se aproveitariam para fazer a maior exploração e por aí afora, aquela argumentação. Propôs-me assumir o mandato por três meses e então efetivar a renúncia. Três meses, nem um dia a mais, assegurou-me Prestes.

            Resolvemos não alugar apartamento no Rio onde certamente o Partido me sobrecarregaria de tarefas, além das decorrentes do trabalho parlamentar, e ocuparia o tempo de Zélia, a Comissão Nacional de Finanças ameaçava requisitá-la. Na intenção de escrever um romance já amadurecido na cabeça, Seara Vermelha, preferi ficar o mais longe possível do Comité Central. Assim adquirimos o sítio de Laranjeiras e nele vivemos durante ano e meio: um caseiro bastava para cuidar das plantações e das aves: as aves merecem capítulo à parte. Nina, sua filha, se ocupava da casa.

            O casal húngaro que plantara o terreno e elevara a casa tinha o gosto europeu do conforto e, ao lado da vivenda, à sombra das árvores, construíra uma espécie de pátio, local de lazer, sítio de repouso. Enredadeiras subiam pelos pilares de alvenaria, flores explodiam em cada recanto, mesa rústica onde pousar pratos e copos, garrafas, sobre as lajes do chão espreguiçadeiras estendidas, penduradas dos galhos das mangueiras redes cearenses, brancas e amplas, de varandas bordadas, redes de casal. Assim era o Peji de Oxóssi, pequeno paraíso.

            Ali transamos, indóceis, adoidados, nossa tão adiada lua de mel. Zélia parecia uma menina; o alemão, nosso vizinho, pensava que ela fosse minha filha, aliás passei a vida ouvindo a mesma repetida pergunta sobre Zélia: é sua filha?

            Acordava cedíssimo, trabalhava no romance boa parte da manhã, por vezes a ele voltava à noite - ah, o bom tempo em que varava a noite batucando na máquina cenas e capítulos. Após o almoço, às treze horas, tomava um carro de aluguel, contratado por mês para me levar e trazer do Peji a Caxias  - os dez por cento dos proventos de deputado que o Partido me deixava davam exatos para pagar esta condução: eu devia viver de meus direitos autorais, segundo  a direção. Em Caxias embarcava no ônibus que me depositava na Praça Mauá, daí trotava até o Palácio Tiradentes onde funcionava a Assembleia Nacional Constituinte formada pela Câmara e pelo Senado reunidos. A sessão começava às quatorze horas, eu assistia, participava - extremamente ativo na Comissão de Educação e Cultura -, quando os trabalhos se encerravam fazia o caminho de volta, em geral chegava em casa entre sete e oito horas da noite. Por vezes, em dias de sessão noturna, não tinha hora de chegar.

            Terminado o jantar Zélia e eu costumávamos descansar no pátio onde corria a brisa, eu lhe contava os acontecidos do dia, ela ouvia ávida por detalhes sobre a atuação da bancada comunista - a primeira num parlamento brasileiro. Por vezes adormecíamos no embalo da rede. Numa daquelas redes cearenses, de casal, João Jorge foi feito, em noite de lua cheia, a luz das estrelas e ao ruído dos grilos.

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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(Bahia, 1990 – o porquê das coisas)

            “Meu neto Jorginho, filho de Rízia,
aquela mãe!, caçula de João Jorge, às vésperas de
completar seis anos, constata a coincidência
de nomes, parece-lhe estranha, me interpela no desejo
de entender o porquê:

            - Vô, você também se chama Jorge – como eu?
......................

JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.


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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO – O magnífico


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(Bahia, 1956 – o magnífico)


            Os meninos da revista MapaGlauber Rocha, Fernando da Rocha Perez*, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Paulo Gil Soares** - decretam e promovem guerra sem quartel a Edgard Santos, reitor da Universidade Federal, a quem a cultura da Bahia tanto deve.

            Mapa expressa em suas páginas as modernas tendências da arte e da literatura, a poesia, a pintura, o cinema, a gravura, o teatro, destrói e propõe, influi mas, ah!, corre perigo, vai deixar de aparecer, não tem anunciantes, não há dinheiro para pagar papel e oficina, problemas que afligem e derrotam as publicações de vanguarda.

            Um lambe-botas qualquer, é o que mais existe, vai correndo levar, a Edgard Santos o que lhe parece ser a boa, a grata notícia: a revista da subversão não mais circulará, a gráfica já não lhe faz crédito, menos ainda o fornecedor de papel, os ataques a administração do Reitor estarão silenciados para sempre, viva, viva! Edgard Santos escuta, Agradece a informação, manda pagar imediatamente o papel e a oficina, exige apenas dos credores sigilo sobre quem está assumindo as despesas, os meninos não devem saber: poderiam recusar, pior ainda poderiam entrar em crise de consciência devido aos ataques ao Reitor.

            Risonho, na mesa do almoço comenta o episódio, estamos Odorico, Carlos Bastos e eu: essa revista Mapa é o que há de melhor na Universidade, já pensaram se desaparecesse agora o que iriam dizer de mim? Iriam me chamar de reacionário, intolerante, teriam razão. Enquanto eu for reitor a circulação da revista está garantida, só que os meninos não devem desconfiar.

            Faz uma pausa, saboreia o acarajé, sabe da Universidade, dos professores e dos alunos, Magnífico Reitor:

            - São meninos de talento, amanhã serão os mestres. Mas entre eles tem um moleque, um tal de Glauber, esse é gênio, vai deslumbrar o mundo.

 *  Fernando da Rocha Perez, escritor.
** Paulo Gil Soares, cineasta.


(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado

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“Sou deveras incompetente, inepto, a lista das coisas que todo
mundo sabe fazer e eu não sei é longa. Aqui inscrevo apenas alguns exemplos: não sei dançar, cantar, assoviar, nadar, multiplicar, dividir por mais de dois números, empregar os verbos, pronunciar corretamente, dirigir automóvel (mas já soube andar de bicicleta com razoável equilíbrio).
Não sirvo para grande coisa.” (Jorge Amado)

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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes.

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DETESTÁVEL PRECONCEITO! - Antonio Nunes de Souza

Lamentavelmente, estamos todos passivos do abominável sentimento denominado “preconceito”!

Quando se fala sobre isso, vem logo na mente o mais conhecido e, imaginável por muitos, que somente é exorbitante quando se refere a cor. Um monstruoso e ledo engano. Esse podre sentimento é, tranquilamente, bastante forte com a etnia negra e suas derivações, como também e fortemente, com a classe social menos privilegiada, além dos homossexuais!

Época atrás chegava-se a dizer que os quatro Ps eram as classes mais combatidas: “Pretos, Pobres, Putas e Pederastas”. E, lamentavelmente, não mudou absolutamente nada!

Apenas, pela força dos desempenhos em algumas, ou todas atividades, portas foram abertas na sociedade, principalmente pelo poderio econômico, e com a benevolência interesseira da mídia.

Hoje, inegavelmente, com o bruto sucesso dos negros no futebol, literatura, danças, músicas, teatro, televisão e, praticamente em todas as modalidades esportivas, que, conhecidamente, são agraciados com salários astronômicos, são tolerados em grandes eventos sociais públicos e particulares! Entretanto, verdadeiramente, são tolerados porque dão “Ibope”, mas, no íntimo, não são aceitos. Nas fotos que a “sociedade organizada” tira com eles, são somente para aproveitar, pois, sabem que circularão em todas as revistas. Essa é uma parte conhecida da asquerosa hipocrisia social!

Temos todos, que são conscientes e bons observadores, segurar essa triste situação, se conformando constrangidos com as novas nomenclatura para os quatro “Ps”, que atualmente são chamados, em função das suas posses e famas de: Negro é “moreno escuro”, Pobre é “povo brasileiro”, Puta é “garota de programa” e Pederasta é “gay e trans”.

Como disse acima, as tolerâncias são baseadas exclusivamente nas famas e nas posses financeiras. Eu sou do tempo que preto era “negão”, pobre era “coitado”, prostituta era “puta” e pederasta era “viado”. O preconceito era muito mais acirrado. Também, essas classes, geralmente, eram de baixa renda, a não ser a homossexual que, há milhares de anos, sempre atingiu todas as classes sociais.

Eu, sinceramente, respeito todos eles, tenho o maior carinho e jamais discriminei alguém, pois, para mim, somos iguais e com direito de proceder da maneira que mais nos apraz!


Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL



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quinta-feira, 1 de agosto de 2019

10 DE AGOSTO: DIA DE JORGE AMADO - O Casamenteiro

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(Bahia, 1965 - O Casamenteiro)

           
            Fomos padrinhos, Zélia e eu, do casamento de João Gilberto com Astrud, o casal se separou nos Estados Unidos para onde Joãozinho viajara a fim de participar de um show, obteve tamanho sucesso que ficou por lá anos a fio.

            No dia de seu embarque, indo para o aeroporto passou por nosso apartamento para o abraço de despedida, vestia roupa leve, própria para o verão carioca, em new York a crueza do inverno era manchete nos jornais. Ao vê-lo tão desagasalhado retirei do guarda-roupa um sobretudo usado: vista-o ao desembarcar do avião senão vai morrer de frio, pegar pneumonia. Essa a minha contribuição para o êxito do cantor nos States, o sobretudo que o salvou da pneumonia dupla.

            Contribuí também para seu casamento com Miúcha*: do primeiro matrimônio fui testemunha, no segundo funcionei de casamenteiro. Um dia recebi na Bahia telefonema de Joãozinho, ligava de New York, aflito como sempre, não mudara, continuava o mesmo.

            - Jorginho, você é muito amigo de Sérgio Buarque de Holanda, não é?
           
            - Sou, sim, Joãozinho, por quê?

            Figura das mais fascinantes da comparsaria intelectual, Sérgio concedeu-me o privilégio de sua intimidade, coloquei-o de personagem em “O Capitão de Longo Curso”, assim homenageio aqueles que mais estimo e prezo, pondo-os nas páginas dos meus romances. Juntos, durante um congresso de literatura em Recife, fundamos uma Igreja de São Pedro dos Clérigos a Benemérita e Venerável Ordem do Hipopótamo Azul, dedicada ao trato das donzelas, e criamos a teoria das baquianas, as balzaquianas quando baqueiam, baseada na agitação das literatas locais que cortejavam Eduardo Portela, o sedutor. Na época do telefonema o mestre historiador se vangloriava de ser o pai de Chico Buarque, compositor que estourara nas paradas de sucesso.

            - Jorginho, estou apaixonado pela filha dele, a Miúcha, irmã do Chico. Miúcha anda por aqui, ela também gosta de mim, queremos nos casar, mas temos medo que Sérgio se oponha, você sabe como é, deve ter ouvido horrores a meu respeito. Queria que  você falasse com ele, pedisse a mão de Miúcha em casamento, para mim. Diga a ele que não sou tão ruim como dizem por aí.

            Habituado a me envolver com a vida de Joãozinho, prometo interferir - depressa, daqui a uma hora telefono de novo para saber o resultado. Desligara agoniado, eu ainda procuro o número de Sérgio no caderno de telefones, Joãozinho volta a ligar: eu ‘tava vexado que não mandei um beijo para Zelinha. Vexado, Joãozinho.

            Disco o número paulista, Amélia atende, trocamos gentileza, desejo falar com o vosso ilustre consorte, Sérgio vem ao telefone, sabendo que sou eu, começa a imitar sotaque holandês, é de morrer de rir, mas eu me punho sério para lhe informar:

            - Te telefonei para pedir a mão de tua filha Miúcha em casamento.

            - Hem? Que história é essa? - Abandona o acento batavo, coloca-se em posição de defesa, que peça estou querendo lhe pregar?

            - Não é para mim, é para João Gilberto, estão apaixonados, querem se casar, ele pediu que te dissesse que não é tão ruim assim, tão má pessoa como consta por aí, não deves acreditar nas más línguas...

            - Que me contas? É brincadeira ou falas a sério?

            Falo a sério, relato a conversa de Joãozinho, telefonema em dólares de New York, repetida, esquecera o beijo para Zélia. Empolga-me a paixão dos dois cantores, coisa linda, faço o elogio do candidato a genro e o faço com amor. De Joãozinho sei o direito e o avesso, do menino de Juazeiro nas barrancas do São Francisco ao músico ainda desconhecido, lutando no Rio em dias de aperto, sou seu parceiro, fiz a letra do Lamento de Marta, composto para o filme de Alberto D’Aversa**. Quando solteiro, Joãozinho aparecia à noite no apartamento da Rodolfo Dantas, trazia o violão, ficava até a madrugada, cantando. Acontecia que Zélia e eu, cansados, íamos dormir, Joãozinho prosseguia em companhia de João Jorge, menino ainda, privilegiado. João Gilberto tocava, cantava, tendo como ouvintes apenas o moleque e o pássaro sofrê: vivia solto na sala e assobiava as músicas que Joãozinho dedilhava ao violão.

            Sérgio escuta em silêncio minha lenga-lenga, a proclamação das virtudes de Joãozinho, gênio musical, amigo terno, pessoa amorável. No dia seguinte toma o avião para New York, vai estudar o assunto in locum, apaixona-se pelo candidato, só podia acontecer.

            Para terminar, um post-scriptum: já levava João Gilberto vários anos residindo nos Estados Unidos quando um dia me apareceu em casa um portador trazendo encomenda enviada pelo músico: um sobretudo novo em folha, soberbo, eu o usei longo tempo, ainda o tenho. Ou será que o dei a João Jorge, o ouvinte solitário, o privilegiado?


*Miúcha Heloísa Buarque de Holanda, cantora.
**Alberto d’Aversa, diretor de teatro de origem italiana.

(NAVEGAÇÃO DE CABOTAGEM)
Jorge Amado
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            “Os radicais da negritude nacional são mulatos brasileiros, uns mais escuros, outros mais claros, cujo único ideal na vida é serem negros norte-americanos, de preferência ricos.”
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JORGE AMADO - Quinto ocupante da Cadeira 23 da ABL, eleito em 6 de abril de 1961, na sucessão de Otávio Mangabeira e recebido pelo Acadêmico Raimundo Magalhães Júnior em 17 de julho de 1961. Recebeu os Acadêmicos Adonias Filho e Dias Gomes. 

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quarta-feira, 31 de julho de 2019

O REALEJO ESTRIDENTE - Péricles Capanema


20 de dezembro de 2018
♦  Péricles Capanema

Faz anos que das ruas anda quase sumido o realejo, por isso é mais seguro — atenção, jovens! — rápido lembrete. Observado por alguns, o tocador gira a manivela e o ambiente em volta se recreia do som de poucas e repetidas músicas. No Velho Mundo tem mais prestígio a representação; compõe, peça valiosa, paisagens urbanas da cultura popular. O “orgue de Barbarie” [fotos] faz parte da cena pitoresca da Paris sonhada por multidões (lá, sem o irrequieto papagaio tirador da sorte). Uma das explicações para a origem da expressão “órgão de Barbárie” seria a sonoridade tosca do realejo que lembraria, entretanto, os grandes órgãos das catedrais. Entre nós, o realejo e o papagaio por gerações encantaram crianças e seduziram adultos.

Viro a página. Na linguagem comum, realejo tem emprego pejorativo, bastante usado: a repetição monótona de um mesmo tema: “Aquele sujeito é um realejo”.

Entre realejo e avestruz, fico com o primeiro. Diz a lenda (é lenda mesmo), o avestruz enfia a cabeça na areia quando pressente o perigo. À vera, a ave encosta o pescoço e a cabeça no chão, escuta melhor algum predador e fica menos exposta. Contudo, o uso consagrou a frase, diante do perigo, o avestruz enfia a cabeça no chão.

De novo, escolho ser tocador de realejo a fechar os olhos diante do felino que avança contra o avestruz (no caso, todos nós). Vou apenas sublinhar e, quem sabe, ampliar coisas que já disse. “Ideia dita uma só vez, morre inédita”, avisava Nelson Rodrigues.

São duas matérias dos últimos dias. Em 15 de dezembro, Taís Hirata na “Folha de S. Paulo” descreveu novas possibilidades de aplicação de capitais chineses no Brasil em minucioso artigo intitulado “Após investir em energia, chineses miram saneamento básico no Brasil”.

De outro modo, segundo o texto, chineses, melhorando grupos chineses, vão comprar empresas estatais do setor de fornecimento de água e coleta de esgoto (aqui, também, o tratamento de resíduos). Ou comprar obras paralisadas, terminá-las e explorar comercialmente os serviços.

Um dos grupos chineses interessados é o Fosun, gigantesco conglomerado econômico. Segundo informações coletadas na rede (minha maior fonte), tem maioria de capital privado. Um dos proprietários, Guo Guangchang [foto], às vezes chamado de Warren Buffett chinês, faz parte do Conselho Político Consultivo do Povo Chinês, uma espécie de Senado dominado pelo Partido Comunista Chinês. De outro modo, é empresa próxima do governo. Preocupa. A matéria da Folha nada traz da proximidade do grupo com a tirania imperialista de Pequim.

Três outros grupos chineses, informa Taís Hirata, têm interesse em comprar empresas ligadas ao saneamento básico. O primeiro deles é o CCCC (China Communications Construction Company), sociedade anônima, com faturamento anual de aproximadamente 70 bilhões de dólares. É estatal chinesa; de outro modo, está em sintonia com as diretrizes do Partido Comunista Chinês (PCC). Nenhum diretor é indicado sem a anuência do partido. O segundo grupo é o Datang, outra estatal chinesa, com faturamento anual em torno 30 bilhões de dólares. O terceiro grupo é o CGGC (China Gezhouba Group Company Limited), também empresa estatal, com receitas anuais em torno de 15 bilhões de dólares. O artigo nada diz que dos quatro grupos, três pertencem ao governo chinês, de outro modo, agem em sintonia com as diretrizes políticas do Partido Comunista Chinês. Desde há anos, esse é o padrão usual da imprensa brasileira, esconde informações essenciais para o juízo equilibrado e objetivo do leitor.

Deixo para trás as informações do artigo de Tais Hirada, planos para o futuro, e me detenho em editorial do Estadão, 9 de dezembro, intitulado “O peso da China”, análise do presente. Nos primeiros onze meses de 2018, o Brasil acumulou superávit comercial de 51,7 bilhões de dólares. Desse total, 26,2 bilhões de dólares vieram do comércio com a China, 50,7%. Em 2017, 30,7% do saldo comercial vieram das trocas com a China. Dos 220 bilhões exportados nos onze primeiros meses de 2018, 58,8 bilhões foram para a China, 28,8% do total. Constata o editorial: “Só esses números bastariam para mostrar a crescente influência da China sobre a economia brasileira”.

A situação é mais preta: “Há outro aspecto que resulta em laços econômicas mais fortes. É a presença cada vez maior do capital chinês nos investimentos estrangeiros.” Capital chinês (sic!). Desde 2003 até hoje, segundo a Secretaria de Assuntos Internacionais (SEAIN) do Ministério do Planejamento em 269 projetos houve investimentos chineses anunciados e confirmados de 124 bilhões de dólares. Desse total, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, 87% foram de origem estatal, 13% de origem privada.

Vou, de novo, escrever o que ninguém ou quase ninguém põe no papel com clareza: esses 87% é dinheiro de empresas estatais chinesas, que trabalharão pelos objetivos do PCC, e cujos diretores se alinham sempre com a estratégia do partido. Os 13% restantes, via de regra, são de empresas que acertam o passo com o governo chinês. Não custa lembrar, de momento, a China luta com os Estados Unidos por áreas de influência, situação que está se refletindo em disputas comerciais e, na América Latina, apoia ativamente Cuba, Venezuela e Bolívia.

A própria linguagem eufemística da imprensa (investimento chinês, grupos chineses, capitais da China), que atenua a realidade bruta (dinheiro cujo dono é o governo chinês, longa manus do PCC), é triste indício de que o Brasil já experimenta incipientes reações de protetorado. A esquerda não dá um chiadinho contra a avalanche das estatais chinesas na economia brasileira; ela, agora, silenciosa, mas historicamente tão barulhenta nas diatribes contra o capital estrangeiro. Não adianta fechar os olhos para a realidade. Ela é o realejo estridente, óbvio ululante.



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terça-feira, 30 de julho de 2019

ITABUNA: RUY PÓVOAS EMITE NOTA DE REPÚDIO PELO “DESCONVITE” PARA A INAUGURAÇÃO DO TEATRO



O Professor, escritor e babalorixá, Ruy Póvoas emitiu nota de repúdio pelo “desconvite” que recebeu pra inauguração do Teatro Candinha Dória em Itabuna.
Na nota, um dos ícones da cultura Itabunense, disse que nunca viu e nem ouviu falar de “desconvite”. Veja abaixo o Desconvite recebido por Ruy Póvoas e sua nota de repúdio:


DESconvite do cerimonial oficial do Teatro Municipal Candinha Dória

Prezado Senhor Ruy Povoas , em nome do Prefeito Fernando Gomes, informamos que não foi possível confirmar sua cadeira no dia 26/07/2019, em razão da capacidade do Teatro ser inferior ao número de convidados confirmados. Orientados pelo corpo de Bombeiro que se preocupa sempre com a segurança de todos os cidadãos, lamentamos profundamente a não confirmação de vossa ilustre presença. Diante do exposto informamos que temos disponibilidade para a data 28/07/2019 às 17:00 horas onde será realizado a entrega da Comenda Firmino Alves. Gratos pela compreensão cerimonial oficial do Teatro Municipal Candinha Doria.
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Gente, nunca vi, nem ouvi falar em DESCONVITE. Mas a vida é assim: Quem do pouco se admira corra o mundo que vê mais. Foi necessário que eu vivesse 76 anos para descobrir que DESCONVITE é um lexema que também faz parte do dicionário da “língua” antediluviana da Região Grapiúna.
Eu não sabia que sou uma ameaça, a ponto de ser necessária a intervenção do Corpo de Bombeiros, que instruiu os responsáveis pelo evento a lançar mão do DESCONVITE.


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Comentário: Houve muitos “desconvites”. Aconteceram porque, de repente, o Governador Rui Costa resolveu trazer muito mais gente na sua comitiva. Bem feito para os filhos de Itabuna que dão apoio a um prefeito e um governador que vivem fechando hospitais. O corpo de bombeiros está no seu papel de não recomendar que se coloque pessoas além da capacidade do teatro.(ICAL)

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DOCUMENTÁRIO “ALBERTO DA COSTA E SILVA - FILHO DA ÁFRICA”, QUE EXALTA A TRAJETÓRIA DO HISTORIADOR, EMBAIXADOR E ACADÊMICO, ESTREIA NA ABL

Aos 88 anos, o historiador, embaixador e Acadêmico Alberto da Costa e Silva recebe os produtores Stéphanie Malherbe e Ricardo Vilas para “abrir o livro de sua vida e trajetória”. Com a discrição do diplomata e o humor fino do poeta, Alberto da Costa e Silva fornece neste filme um depoimento único sobre sua carreira, suas viagens a importância da África no Brasil.

Percurso

Acadêmico Alberto da Costa e Silva conta sobre sua infância em Fortaleza, quando ia para a escola montado num carneiro, as brincadeiras com as crianças do bairro e pelo mundo imaginário encarnado por seu pai, o poeta Antônio da Costa e Silva. Relata a força de sua mãe, que trazia a marca das mulheres da sua família.

O documentário também aborda a adolescência no Rio de Janeiro, na Tijuca, onde a família se instala, pois sua mãe acredita que essa mudança propiciaria um futuro melhor para o filho. E trata, ainda, da escolha de Alberto pela carreira diplomática para “vingar seu pai”, que, antes dele, teve seu ingresso recusado na diplomacia. Mas essa escolha também foi justificada por seu gosto pela aventura, pelo desconhecido e pelo distante.

"É uma alegria falar sobre Alberto da Costa e Silva, um homem incomum, singular... Eu diria que é um mestre. Um mestre da cultura, do pensamento... Um mestre da vida."
- Fala da Acadêmica Nélida Piñon para o filme "Alberto da Costa e Silva - Filho da África".

Alberto da Costa e Silva e a África

O Acadêmico Alberto da Costa e Silva é, reconhecidamente, no Brasil, o maior especialista em África, em razão de sua sede insaciável de procurar e entender as raízes do Brasil. Aos 14 anos, sendo um jovem branco e de classe média, tomou um choque ao ler Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, descobrindo que nós, brasileiros, éramos negros. “Mas, então, de onde viemos?” - perguntava-se, pois todos os escritos que encontrava traziam relatos mencionando negros já chegados ao Brasil, como se nascessem no próprio navio negreiro e não tivessem um passado, uma história ou uma cultura por trás de cada um. Era como se a África, de onde vinham, não existisse.
  
Alberto vai pesquisar, sem descanso, a História das Áfricas, porque “sem a África não existiria o Brasil”, tornando-se, assim, um pioneiro no Brasil dos estudos africanos.

O documentário

Além dos depoimentos de Alberto da Costa e Silva, o filme conta com testemunhos de intelectuais e pesquisadores, como Nélida Piñon, Franklin Martins, Muniz Sodré e Lilia Schwarcz, e de artistas, como Haroldo Costa, Nei Lopes e Martinho da Vila.

“Alberto da Costa e Silva - Filho da África” terá sua primeira exibição pública no dia 6 de agosto, às 15h30, no Teatro R. Magalhães Jr., na Academia Brasileira de Letras. O evento contará com a participação do cineasta e Acadêmico Carlos Diegues, que coordena as ações de cinema na ABL. A Entrada é franca, limitada à capacidade do teatro. Faça sua reserva abaixo!

INSCRIÇÕES
Garanta sua participação gratuita para esta sessão exclusiva. Lugares limitados.
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