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domingo, 14 de julho de 2019

PALAVRA DA SALVAÇÃO (139)


15º Domingo do Tempo Comum – 14/07/2019

Anúncio do Evangelho (Lc 10,25-37)

— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo Lucas.
— Glória a vós, Senhor.

Naquele tempo, um mestre da Lei se levantou e, querendo pôr Jesus em dificuldade, perguntou: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?”
Jesus lhe disse: “O que está escrito na Lei? Como lês?” Ele então respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e com toda a tua alma, com toda a tua força e com toda a tua inteligência; e ao teu próximo como a ti mesmo!”
Jesus lhe disse: “Tu respondeste corretamente. Faze isso e viverás”.
Ele, porém, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”. Jesus respondeu: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes. Estes arrancaram-lhe tudo, espancaram-no, e foram-se embora, deixando-o quase morto.
Por acaso, um sacerdote estava descendo por aquele caminho. Quando viu o homem, seguiu adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu o homem e seguiu adiante, pelo outro lado.
Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu e sentiu compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal e levou-o a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata e entregou-as ao dono da pensão, recomendando: ‘Toma conta dele! Quando eu voltar, vou pagar o que tiveres gasto a mais’”.
E Jesus perguntou: “Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Então Jesus lhe disse: “Vai e faze a mesma coisa”.

— Palavra da Salvação.

— Glória a vós, Senhor.

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Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Padre Roger Araújo:

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SOLIDARIEDADE: o amor como êxodo solidário

“Na tua opinião, qual dos três foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes” (Lc 10,36)

Em todo ser humano sempre há reservas e redutos de bondade e compaixão, adormecidas muitas vezes, mas que podem ser ativadas diante do sofrimento dos outros. Nas pessoas sofredoras, nos crucificados da história, nos excluídos da dignidade, há algo que atrai e convoca, que nos inquieta, que nos pode fazer sair de nós mesmos; aí está a origem da solidariedade. Junto ao sentimento ético de fazer algo, aparece o mais profundo e decisivo: o sentimento de proximidade com as vítimas deste mundo.

A parábola do Bom Samaritano é uma parábola sem palavras e com muita vida: há silêncios que dão significado aos gestos oferecidos ou negados, à decisão de acudir ou fechar os olhos frente ao homem ferido. Os gestos falam da força do amor que vai mais além de todos os credos e culturas, transformando o outro estranho em próximo.

No evangelho deste domingo, diante da pergunta do especialista em leis - “quem é o meu próximo?” -, Jesus responde, invertendo e reformulando a pergunta: “quem se torna próximo?”. Contudo, dentro da pergunta do “quem se torna próximo?”, Jesus responde à pergunta de “quem é o meu próximo?”: uma pessoa “qualquer”, sem nome, que passa ao nosso lado e que, independentemente de qualquer ligação de afinidade ou de pertença, cai em desgraça e clama por auxílio. A “proximidade” se define pela “travessia” em direção à margem do sofrimento e da exclusão.

Todo ser humano, dotado de “valor” e de “riquezas pessoais”, é também, em sua essência, um ser fraco e necessitado que, como criança recém-nascida, é carente de proteção e ternura. O infeliz da parábola lucana é o paradigma do ser humano que, em sua realidade constitutiva e mais profunda, é ser de necessidade que grita e espera auxílio. Ele é o representante da alteridade nua e radical, onde o outro se ergue diante do eu não mais como “corpo em forma” mas “ferido” que, em sua carência, questiona o meu eu, impelindo-me para o êxodo da responsabilidade.

A parábola do samaritano revela um sentido ainda mais profundo: do silêncio do corpo daquele infeliz - de quem não se sabe o nome, não se vê o seu rosto e nem sequer se diz que pediu ajuda - levanta-se uma “voz” que, em sua dramaticidade, interrompe o caminho dos passantes e os convoca à responsabilidade urgente; responder positivamente àquele grito, assumindo-o na compaixão, ou então se negar a isso, permanecendo agarrado ao próprio eu – eis a questão.

O sacerdote e o levita viram bem e entenderam o que tinha acontecido, através de um olhar de banda, carregado de suspeita, receio e desconfiança. Seguramente se perguntaram: “Que pode acontecer comigo se me aproximo dele e o ajudo?” Seu comportamento teria sido certamente diferente se se perguntassem: “Quê pode acontecer a este homem, se me aproximo dele e o ajudo?”

O pecado deles é o da omissão: não fazem nada, nem mau nem bom. São piedosos, mas insensíveis; praticam o culto e a liturgia, mas não adoram a Deus em espírito e verdade; enganam-se pensando que se chega a Deus pelo caminho vertical, e não por um caminho estreito e horizontal por onde se encontram as pessoas mais vulneráveis e necessitadas; amam a Deus só de palavras e de boca, e não com obras e segundo a verdade; não se dão conta que só no amor ao próximo é que se revela o amor a Deus.

“Viram” o ferido, porém, não se deixaram afetar. O amor a Deus foi incapaz de se expressar como amor ao próximo. Julgavam-se estar muito unidos a Deus mas, na verdade, estavam muito distantes do irmão sofredor. A fé desconectou-se da ética. Além disso, o “legalismo” falou mais forte que a lei da vida no coração dos dois responsáveis pela religião. Invocando a lei da pureza ritual (proibia o contato com cadáveres), sentiram-se dispensados de acudir o outro necessitado. A obediência ritual superou o apelo moral.

Mais contrastante foi a atitude do samaritano: “chegou perto, viu e sentiu compaixão”. É a dinâmica da misericórdia! Tudo começa com o “aproximar-se”. É impossível ser afetado pelo outro sem proximidade. Enquanto o sacerdote e o levita se desviaram do homem caído no chão, o samaritano “achegou-se”. A proximidade física permitiu-o “vê-lo” de fato. O “ver” do samaritano vem depois de chegar junto ao ferido; aproximar-se é o primeiro passo; se alguém não se aproxima não pode ver, e a originalidade e qualidade desta visão é o despertador da própria consciência e é aquela que dá passagem à ação solidária. O samaritano também conhecia as leis sobre a impureza legal, mas optou pelo mandamento do amor. Portanto, o “ver” do sacerdote e do levita foram qualitativamente distintos do “ver” do samaritano.

A qualidade deste olhar provém da “compaixão”. A experiência cristã se constitui como uma “mística de olhos abertos” (J.B. Metz), que, tal como um colírio, dilata as pupilas dos olhos para captar o horror tremendo do inferno da pobreza e da exclusão. A espiritualidade cristã nos ajuda a transitar pelos cenários humanos com os olhos abertos, e nos oferece uma nova fonte de conhecimento que brota da indignação diante de tanto sofrimento inocente e injusto que nos fere. Olhar-nos com os olhos do outro que nos visita supõe uma autêntica revolução interior. O olhar do outro nos arranca do “ensimesmamento” que nos cega e desmascara a enfermidade raiz de nossa cultura atual:  a indiferença e a cínica apatia diante da dor dos pobres e marginalizados.

É aqui que a parábola do samaritano desvela seu significado último e perturbador: o “outro” é o lugar originário no qual Deus nos fala e nos encontra, convocando-nos para a responsabilidade e solidariedade. Por ser presença de uma linguagem, o corpo é o outro em seu ser de necessidade, a alteridade em sua dignidade que nos desperta de nosso isolamento e dos nossos projetos intimistas. “Onde está Deus?” Não está entre os conhecedores de Sua identidade, não está nas instituições que o representam, mas está lá, onde ninguém o espera: quem não é “nada” O hospeda e O aponta.

Jesus deslocou Deus, transferindo seu habitat do templo para o corpo daquele que está à “beira da estrada”. O excluído é doravante, a revelação da Sua presença. O motivo pelo qual o lugar de onde Deus fala é o excluído da vida é porque é desse lugar que Ele convoca o eu para “fazer estrada”, viver o êxodo permanente, gerando-me continuamente para a responsabilidade como pura gratuidade e generosidade. Libertando-me do auto-aprisionamento, o eu tem acesso a uma nova proximidade carregada de compaixão. 

O “próximo” é todo homem e toda mulher através de quem o amor de Deus encontra o meu “eu”, chamando-me para sair de sua terra e caminhar em direção ao outro. É o rosto que derruba o “eu” de seu pedestal e de seus preconceitos e o convoca à bondade, à santidade, à compaixão e à generosidade. Importa “re-inventar” com urgência a solidariedade como valor ético e como atitude permanente de vida...; não uma solidariedade ocasional, mas uma solidariedade cotidiana que se encarna nos pequenos gestos de inclusão. 


Texto bíblico:  Lc 10,25-37 

Na oração: Alguns sociólogos têm estudado um fenômeno pós-moderno, a “invisibilidade urbana”. Hoje nos acostumamos com a miséria, com a violência, com o sofrimento e exclusão... e essas realidades não nos chocam. É como se não víssemos. “Caímos na globalização da indiferença. Nós nos habituamos ao sofrimento do outro” (Papa Francisco).

- Considerar a “invisibilidade” das pessoas nas estradas de sua vida: que atitudes brotam de seu coração?

- Considerar a gratuidade do samaritano: “ele viu, sentiu compaixão e cuidou do ferido”. Você se deixa afetar pela situação do excluído e marginalizado, vítimas de uma sociedade insensível?

Pe. Adroaldo Palaoro sj


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REVOLUÇÃO FRANCESA – 230 ANOS DEPOIS – Renato William Murta de Vasconcelos


12 de julho de 2019
Tomada do Palácio das Tulherias – Jean Duplessis-Bertaux (1818). Palácio de Versailles.

O ódio a todas as desigualdades levou uma minoria revolucionária ao terror sanguinário da Revolução Francesa. O mesmo processo revolucionário prossegue hoje em todo o mundo, e o conhecimento dessa revolução paradigmática nos ajuda a combatê-lo com eficácia.

Renato William Murta de Vasconcelos

Depois da revolução protestante (1517), uma segunda grande explosão do processo revolucionário,1preparada com longa antecedência, desencadeou a partir de 1789 na França uma série de transformações políticas, sociais e religiosas que inauguraram a era contemporânea. No conjunto das suas vertentes moderadas e radicais, difundiu ideias republicanas pelo mundo inteiro, derrubou monarquias milenares na Europa e abriu o caminho para a Revolução Comunista de 1917.

Os elementos mais radicais da Revolução Francesa estavam concentrados na facção jacobina. Segundo a utopia que os guiava, havia sobre os franceses dois jugos insuportáveis: o da superstição, representada pela Religião Católica; e o da tirania, constituída pelo governo monárquico. Com fervor “humanitário”, levantaram-se os “amigos do povo” para dissipar as trevas da “superstição” eclesiástica e quebrar os grilhões da “tirania” real. A intenção aparente seria, no final do processo, devolver o poder ao povo, tornando-o seu único detentor. Se algum ingênuo imagina que era essa a intenção, o mínimo que esse mesmo ingênuo pode constatar é que o objetivo real era a evidente tirania que se implantou em todo o mundo.

A Revolução Francesa, túmida do espírito igualitário que não admite qualquer forma de desigualdade, e encharcada de sensualidade que recusa qualquer freio às paixões, se levantou contra o Ancien Régime (Antigo Regime), uma ordem social hierárquica e austera em muitos de seus aspectos. Deixando atrás de si uma montanha de ruínas e um mar de sangue,2 os revolucionários moderados e radicais derrubaram instituições e costumes milenares, que haviam feito da antiga França o país de todas as perfeições, objeto da admiração do mundo inteiro.

Gravura ao lado: Catedral de Estrasburgo convertida em “Templo da razão” durante a Revolução Francesa (Revolutions-Almanach de 1795. Göttingen 1794, p. 327).

Minoria revolucionária impôs a ideologia anticristã

No Ancien Régime brilhavam ainda, e com muito fulgor, os melhores traços da cultura e do espírito francês: um esplendor na vida social, que bem se exprimia pela tríplice locução verbal “savoir dire, savoir plaire, savoir faire” (saber dizer, saber agradar, saber fazer). Bem vivos e dinâmicos eram também os princípios básicos da civilização cristã — a tradição, a família e a propriedade — dando consistência e elevação ao corpo social. Mas a inveja revolucionária via nessa consistência e nessa elevação uma forma de exploração das classes modestas. Para libertá-las, a solução seria derrubar o altar e o trono: Ni Dieu, ni maître (Nem Deus, nem senhor), segundo a formulação que servirá de base às agitações de maio de 1968 da Sorbonne.

A democracia instaurada na sequência da Revolução Francesa — o governo do povo pelo povo — contaminou praticamente todas as nações. Mas o resultado evidente é que as transformou em tremendas tiranias das minorias (auto-qualificadas como esclarecidas, avançadas, progressistas) sobre a maioria (pejorativamente rotulada de obtusa, retrógrada, conservadora). E não precisamos ir longe para colecionar exemplos. Já foi assim na própria fonte dessa revolução, que Augustin Cochin3descreve como um movimento realizado por cerca de 200 mil agentes para mudar radicalmente o modo de vida de 25 milhões de franceses. Os revolucionários constituíam 0,8% da população francesa, mas impuseram sua ideologia anticristã à imensa maioria de seus compatriotas.

Inauguração dos Estados Gerais – Auguste Couder (1789–1873). Musée national du château et des Trianons, Versailles.

O rei reina, mas não governa

Após décadas de preparação tendencial e ideológica, a Revolução Francesa entrou em 1789 na sua fase mais conhecida: a dos fatos. Vários fatores — um deles, a participação na guerra de independência dos Estados Unidos — haviam contribuído para que o Estado francês se encontrasse deficitário. A Assembleia dos Notáveis do Reino, convocada em 1787, mostrara-se incapaz de oferecer uma proposta adequada para solucionar a crise financeira. O rei Luís XVI convocou então os Estados Gerais, compostos de representantes do clero, da nobreza e do povo. A última vez em que estiveram reunidos fora em 1622, no reinado de Luís XIII. Tinham caráter meramente consultivo, e o Rei nutria a esperança de receber sugestões idôneas que concorressem para sanear a bancarrota do Estado.

Inaugurados nos primeiros dias de maio de 1789, os Estados Gerais adjudicaram para si um poder que não possuíam, transformando-se logo num corpo único: a Assembleia Nacional; e semanas depois, em Assembleia Nacional Constituinte, numa clara usurpação do poder real. Luís XVI não tinha a personalidade de Luís XIV nem a energia de seu avô Luís XV, e chancelou a redação de uma Constituição para o Reino, ao invés de dissolver a Assembleia. Ficava posto de lado o objetivo primordial da convocação dos Estados Gerais, e caminhava-se para uma mudança na forma da monarquia francesa: de absoluta para constitucional, onde “o rei reina, mas não governa”. Era um primeiro passo rumo à República.

Queda da Bastilha e prisão do governador M. de Launay, 14 de Julho de 1789 – Anônimo. Museu de História da França, Versailles.

Tomada da Bastilha, um marco do horror

Começaram então em Paris os distúrbios e agitações promovidos por hordas de arruaceiros.4 Em 14 de julho, há exatos 230 anos, ocorreu a tomada da Bastilha, transformada em símbolo da antiga ordem que devia desaparecer. Nas semanas subsequentes, hordas de bandidos percorreram o interior da França, incendiaram castelos, espalharam medo e terror por toda a parte.

No dia 5 de outubro, uma turbamulta composta em sua maioria por mulheres saiu de Paris rumo a Versailles, aonde chegou ao cair da noite, enlameada, feroz, armada. Na madrugada seguinte, uma porta aberta na grade do castelo lhes deu acesso a Versailles. Guardas foram barbaramente assassinados, e a própria Rainha por pouco não foi executada. Num cortejo macabro, cabeças de soldados foram espetadas em lanças, e a família real foi arrastada para Paris e alojada no Palácio das Tulherias.

Beneficiados pela efervescência geral, os deputados mais radicais tomaram a direção na Assembleia. Primeiramente os monarquistas tradicionais foram suplantados pelos monarquistas constitucionais; estes, por sua vez, foram superados pelos republicanos moderados quando da promulgação da Constituição. Pari passu foi mudando a fisionomia da estrutura social: os privilégios do clero e da nobreza foram supressos; os bens da Igreja foram nacionalizados; uma Constituição Civil, cismática e herética, foi imposta ao clero.

Gravura ao lado: Chamada das últimas vítimas do terror na prisão Saint Lazare – Charles L. Müller (1815–1892). Museu da Revolução Francesa, Vizille (França).

Clima de terror e radicalização rumo à esquerda

A Assembleia Legislativa sucedeu à Constituinte em 1791. Nela os republicanos radicais — os girondinos, assim chamados porque provinham em sua maioria da região da Gironda, cuja cidade principal era Bordeaux — passaram a dar o tom e exigir a supressão da monarquia.

O ataque ao Palácio das Tulherias no dia 20 de junho de 1792 preparou o grande assalto de 10 de agosto. Por ordem do Rei, desejoso de evitar derramamento de sangue, os guardas suíços não reagiram ao ataque de milhares de bandidos, e foram massacrados juntamente com centenas de nobres fiéis.

Indefesa, a família real refugiou-se durante três dias no recinto da Assembleia, de onde foi levada para o Palácio do Templo, pertencente ao Conde de Artois. Luís XVI, Maria Antonieta, os dois filhos — o Delfim (sete anos)5 e Mme. Royale (14 anos)6 — e Mme. Elisabeth (sobre a qual tratamos na nossa edição anterior) não foram encarcerados no palácio, como esperavam, mas de início na pequena torre, depois na grande torre adjunta ao palácio.

Nos dias 2 e 3 de setembro, magotes de jacobinos, com a complacência de Danton, ministro da Justiça, atacaram as prisões e massacraram centenas de nobres encarcerados desde o dia 10 de agosto. A matança voltou-se também contra membros do clero. Só no Convento do Carmo foram mortos dois bispos e mais de 100 sacerdotes. A Princesa de Lamballe, grande amiga de Maria Antonieta, foi assassinada a golpes de sabres e lanças. Despedaçada cruelmente, seu coração foi arrancado do peito e comido, ainda palpitante, por um dos assassinos. Depois espetaram sua cabeça na ponta de um chuço e a levaram, em meio a um berreiro e a uma farândola infernal, até à janela da prisão do Templo, para que fosse vista pela Rainha.

O clima de terror dominava Paris, e justamente no dia da eleição para a Convenção Nacional um elemento psicológico tremendo favoreceu a entrada de grande número de jacobinos radicais na nova câmara. A Convenção Nacional, sucessora da Assembleia Legislativa, abriu suas sessões no dia 21 de setembro, aboliu a monarquia e proclamou a república. Foi dirigida nos primeiros meses pelos girondinos, que assumiram seus assentos à direita (na Legislativa, estavam no lado esquerdo). Em meados do ano seguinte, os jacobinos derrubaram e eliminaram a facção girondina, aboletaram-se no poder e inauguraram o assim chamado período do terror. Era o processo de radicalização rumo à esquerda, por meio do qual os radicais de ontem se tornaram os moderados.
Gravura ao lado: O populacho aprisiona o rei nas Tulherias em 20 de junho de 1792

Condenação da família real em julgamento ilegal

Deposto o Rei, o que fazer dele? A ala radical jacobina não pretendia enviá-lo ao exílio, mas sim matá-lo com a cumplicidade do centrão formado pelos girondinos. Já no dia 11 de dezembro, a Convenção dispôs que Luís XVI fosse separado de sua família. O desfecho do processo — um verdadeiro escárnio da justiça — é por demais conhecido. Na madrugada de 18 de janeiro, 361 dos 720 deputados (a metade mais 1) votaram pela condenação à morte, sem apelo nem sursis. Detalhe horripilante dessa tragédia: o voto decisivo pela morte do Rei foi do Duque de Orleans, seu primo. Bastava ele omitir-se, e o Rei estaria salvo.7 Dois dias depois, ao rufar ensurdecedor dos tambores, a cabeça do Rei rolou no cadafalso, cercado por 15 mil soldados.

O populacho aprisiona o rei nas Tulherias em 20 de junho de 1792

Na prisão do Templo permaneceram juntos, durante alguns meses, Maria Antonieta, seus dois filhos e Mme. Elisabeth. Em fins de setembro, levaram Maria Antonieta para a prisão da Conciergerie, que era por assim dizer a antecâmara da guilhotina. Após um julgamento infame e infamante,8 Maria Antonieta foi condenada à morte e guilhotinada no dia 16 de outubro de 1793.

Confinados na torre do Templo, restavam ainda o jovem rei Luís XVII, sua irmã Mme. Royale e Mme. Elisabeth. Em meio a todas as incertezas, esta foi para os filhos do Rei uma segunda mãe, executada em 10 de maio do ano seguinte. Dia por dia, contavam-se vinte anos da morte de seu avô Luís XV.

O martírio de Luís XVI, Maria Antonieta e Mme. Elisabeth era uma verdadeira “queima dos navios” para tornar a Revolução Francesa irreversível, mas atraiu sobre a cabeça de seus responsáveis imediatos o castigo divino: a máquina revolucionária começou a devorar seus filhos. Mal decorreram três semanas da execução de Maria Antonieta, subiu ao cadafalso no dia 6 de novembro de 1793 o regicida Filipe Égalité; em fins de marco de 1794 foi a vez de Hébert, panfletista obsceno e porta-voz dos sans-culottes. Danton seguiu-lhe os passos no dia 5 de abril. E três meses depois, em 10 de Thermidor (28 de julho), perderam a cabeça na guilhotina Robespierre, Saint-Just, Dumas e mais uma vintena de seguidores.

A queda de Robespierre sinalizou o término do regime do Terror, pois a opinião pública francesa estava cansada de tantos excessos. Era um retrocesso necessário para a revolução progredir. Outras fases se sucederam: Diretório, Consulado, Império. A obra revolucionária prosseguiu inexoravelmente sob outras formas, e continua avançando. Mas esta já é matéria para outro artigo.
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Notas:

1. Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, Artpress, São Paulo, 1982, pp. 19-20.

2. Joseph de Maistre, em seu livro Considérations sur la France, J. B. Pelagaud, Lyon, 1880, calcula que a Revolução Francesa ceifou quatro milhões de vidas humanas, incluindo nesta cifra as vítimas das guerras napoleônicas, que exportaram para toda a Europa os princípios revolucionários de 1789. Só na campanha da Rússia morreram quase um milhão de soldados da Grande Armée.

3. Augustin Cochin, Les sociétés de pensée et la Démocratie: Études d´Histoire Révolutionnaire, Plon-Nourrit et Cie., 1921.

4. Esses arruaceiros, segundo Goncourt, eram cerca de seis mil indivíduos da pior espécie, não apenas de Paris, mas provenientes do interior da França e do estrangeiro. Haverá entre eles holandeses, prussianos, espanhóis e até americanos.

5. Louis-Charles de France (1785-1795) foi o segundo Delfim. Morreu prisioneiro na Torre do Templo, em condições deploráveis. O primeiro, Louis-Joseph, morreu em junho de 1789.

6. Mme. Royale, assim era chamada Marie Thérèse Charlotte de Bourbon (1778-1851), filha primogênita de Luís XVI e Maria Antonieta. Sobreviveu à prisão do Templo, casou-se com seu primo o Duque d´Angoulême e não teve descendência.

7. Robespierre murmurou espantado, ao ouvir o voto do regicida: “Que infeliz! Era o único que poderia abster-se, e não ousou fazê-lo!” (G. Lenotre, Les grandes heures de la Révolution Française, Perrin, Paris, 1962, p. 278).

8. Infame sob todos os pontos de vista: da ilegalidade do processo, da competência de seus juízes, da inexistência de razões e provas suficientes para a condenação. Acusaram-na, à falta de melhor, de haver pervertido sexualmente seu filho, o Delfim, criança de tenra idade.

Comentário
MARIO HECKSHER
13 de julho de 2019

Ótimo artigo. Parabéns ao autor.



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sábado, 13 de julho de 2019

QUE GRAÇA! - Marília Benício dos Santos


   
      Deinha era muito bonitinha, mas, mal-humorada. Vivia sempre desconfiada, agarrada com a mãe ou com o pai.

            Naquela manhã, ela acordara na casa da vó Loura e não estava num dos melhores dias.  Estava escovando os dentes na pia que era um pouco alta para ela, contudo, dava para escová-los sozinha. Enquanto fazia isto, a sua cabecinha pensava num montão de coisas e isto a levava a esquecer o que estava fazendo.

            A vovó Loura era muito esperta e paciente, mas como estava apressada disse:

            - Anda, Deínha, preciso tomar banho.       

            Deínha parou de escovar os dentes e olhando para a vó disse:

            - Que graça, um cavalão deste tomando banho.

            A vovó que era muito legal, deu muitas risadas e saiu contando a piada.

            É engraçado, este raciocínio de Deínha, é em escala menor, o que continua em nossa sociedade. Com a idade, as pessoas são marginalizadas e o mais grave, é que nós mesmos nos marginalizamos e quando alguém consegue dar a volta por cima, nós comentamos: “mas naquela idade”. Como se já tivéssemos morrido para as emoções, para as alegrias.

            Felizmente as coisas estão mudando. Há realmente, uma tentativa de acabar com este preconceito.

            Com a idade nós ganhamos mais experiência e se soubermos tirar proveito dela, seremos mais felizes.

            Não devemos fugir da velhice, mas, aproveitar o que ela nos oferece de bom.

            A cada dia que passa, nós nos tornamos mais responsáveis, principalmente com nós mesmos.

            À medida que sou mais feliz, quanto mais fácil será levar esta felicidade a outro.

            “Toda alma que se eleva, eleva o mundo. “


(CARROSSEL)
MARÍLIA BENÍCIO DOS SANTOS

Marília Benício dos Santos
*10/10/1920 – +24/05/2014

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REVOLUÇÃO FRANCESA

14 DE JULHO DE 1789 / 14 DE JULHO DE 2019 — 230 anos da Revolução Francesa 
12 de julho de 2019


Revista Catolicismo, Nº 822, Junho/2019

          Não conheceu a doçura de viver, quem não viveu antes de 1789 — portanto, antes da Revolução Francesa. A afirmação é do célebre diplomata francês Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord (1754-1838). A douceur de vivre (doçura de viver) à qual Talleyrand se refere, e que procurou descrever nas suas Memórias, não era apenas a felicidade terrena de que a população francesa desfrutava no Ancien Régime, mas também uma alegria de viver e bênção espiritual, remanescentes da Cristandade medieval, sacral e hierárquica, toda voltada para Deus e para tudo o que havia de mais elevado.

         A Revolução Francesa destruiu essa alegria de viver que impregnava todas as classes sociais. Ela, desde o início, espalhou promessas de Liberté, Egalité, Fraternité (liberdade anárquica, igualitarismo injusto, fraternidade hipócrita). Enquanto isso guilhotinava cabeças, sobretudo da nobreza e aristocracia, massacrava o clero e o povo que regiam contra a Revolução (como ocorreu na região da Vendeia), atacava virulentamente a Igreja Católica, e assim conturbou completamente a ordem social, sem conceder nunca as benesses que prometia. E como seria possível consegui-lo, sem respeitar as desigualdades sacrais estabelecidas por Deus na sociedade, sem as bênçãos que só se obtêm pela fidelidade à Fé católica?

         Neste ano, os atuais agentes da Revolução festejam os 230 anos desse sinistro acontecimento, cujo marco foi a queda da Bastilha em 14 de julho de 1789. Mas nada temos a comemorar, os que conhecemos em detalhes os distúrbios e deturpações impostos à França e ao mundo inteiro a partir dessa Revolução. Igualmente não nos satisfazem as interpretações “politicamente corretas” que nos impõem, sobre aquele que foi um dos mais sanguinários e injustos acontecimentos da História. No artigo de capa da edição de junho da revista Catolicismo, [foto acima] fica ainda mais desmascarada a Revolução Francesa, enquanto parte de um processo revolucionário para destruir o que subsistia de uma civilização autenticamente católica. Renato William Murta de Vasconcelos, com seu estudo lastreado em historiadores sérios — entre os quais não se contam esses manuaizinhos de história difundidos em colégios de norte a sul do País —, ajuda-nos a entender e a combater mais eficazmente esse processo revolucionário, como também as suas consequências em nossos dias.
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Comentário:
Chauke Stephan Filho
12 de julho de 2019
História fascinante. Torna-se ainda mais fascinante quando contada segundo a perspectiva dos que perderam a cabeça na guilhotina.


http://www.abim.inf.br/14-de-julho-de-1789-14-de-julho-de-2019-230-anos-da-revolucao-francesa/#.XSnE5ehKhpk

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sexta-feira, 12 de julho de 2019

AVANÇA A REFORMA DO ESTADO - Merval Pereira


A relevância da Câmara, como parte de um dos poderes da República, foi o destaque da sessão de ontem, quando a reforma da Previdência foi aprovada em primeiro turno por uma votação surpreendente pelo número de votos bem acima do necessário.

Ao final, o presidente Rodrigo Maia já puxou para a Câmara duas novas reformas: a tributária e a reorganização do serviço público, mantendo o protagonismo na reforma do Estado brasileiro

Há muito tempo não se viam deputados federais tendo o entendimento de que participavam de um momento histórico, sem receio de assumir suas posições.

O presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, foi feliz ao definir as relações equilibradas entre o Legislativo e o Executivo como necessárias para uma democracia forte, chamando a atenção de que investidores, além das questões fiscais controladas, que indicam futuro mais seguro para seus investimentos, também olham para a qualidade da democracia praticada no país.

Raramente se viu no plenário da Câmara uma concordância tamanha. Todos eram favoráveis a uma reforma da Previdência. Um avanço diante da posição de anos atrás, quando muitos insistiam em que não havia déficit no sistema.

O que a oposição alegou é que esta reforma não era a correta para o país. Houve também outra aproximação de posições, no sentido de admitir, com maior ou menor ênfase, que a reforma impõe um sacrifício à população.

O dissenso ficou por conta da visão política de cada um, a oposição batendo na tecla de que os menos favorecidos serão atingidos. Os favoráveis à reforma, e não apenas os deputados governistas, defendendo a tese de que ela ataca os privilégios do atual sistema previdenciário.

Outra unanimidade ontem na Câmara foi a bandeira nacional. Trazida ao plenário pelos favoráveis à reforma, foi também abraçada pela oposição, cada grupo ideológico transformando-a em um símbolo de sua luta.

Nossa bandeira jamais será vermelha, gritaram líderes de partidos do centro-direita e liberais. A bandeira nacional não pode ser usada contra os mais pobres, devolveram os líderes da oposição.

A deputada Jandira Fegalli, do PC do B, chegou a dizer que era líder da minoria dentro da Câmara, mas que a oposição representava a maioria do povo brasileiro. Não foi isso o que as urnas mostraram nas últimas eleições, mesmo que o governo não tenha conseguido montar uma base parlamentar.

A maioria do plenário formou-se em torno não do governo, que não tem base majoritária, mas a favor de uma visão liberal da economia. A tendência conservadora da maioria dos eleitos para a Câmara parecia favorecer a criação de uma base parlamentar sólida, mas a negociação política foi conduzida de maneira desastrada pelo novo governo.

A definição de um relacionamento não promíscuo com o Congresso foi um ponto positivo do governo Bolsonaro. Até mesmo a liberação das emendas parlamentares e de bancadas às vésperas da votação é do jogo democrático, pois os parlamentares vivem do que podem beneficiar suas bases eleitorais.

 O que não é admissível é compra de votos por baixo do pano, através da corrupção, como vinha acontecendo desde o mensalão, chegando ao petrolão.

Mas Bolsonaro não entendeu que a falta de promiscuidade não significa, por si só, um tratamento republicano. O novo Palácio do Planalto não conseguiu manter um relacionamento profícuo com o Congresso, e gerou uma disputa de poder que foi prejudicial à democracia brasileira.

A reforma só saiu porque a Câmara foi convencida da sua necessidade, mesmo que potencialmente impopular, e decidiu encarar o desafio. À medida que as discussões foram se desenrolando, a opinião pública foi também evoluindo no entendimento dessa necessidade.

A tal ponto que ontem muitos deputados de diversos partidos fizeram questão de aparecer em conjunto na tribuna do plenário. Um ambiente hostil à reforma da Previdência transformou-se em favorável ao longo do debate, e pesquisas de opinião mostram que a maioria já a apóia.

Sem dúvida o presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, foi o grande artífice da união em torno do substitutivo aprovado na Comissão Especial. E pelo ambiente tranqüilo em que transcorreu a votação, já que tem uma relação muito boa com os partidos de oposição – chegou a brincar dizendo que o DEM poderia apoiar o deputado Marcelo Freixo para a prefeitura do Rio – e conseguiu manter o plenário em desarmonia controlada.

O Globo, 11/07/2019

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Merval Pereira - Oitavo ocupante da cadeira nº 31 da ABL, eleito em 2 de junho de 2011, na sucessão de Moacyr Scliar, falecido em 27 de fevereiro de 2011, foi recebido em 23 de setembro de 2011, pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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O RIO DA MINHA CIDADE! (II) - Antonio Nunes de Souza


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Meu Deus, que grande perigo
Parece até um castigo
A sujeira das suas águas.
Somente em estar vendo
Choro e fico sofrendo
O coração cheio de mágoas!

Refiro-me ao rio Cachoeira
Que hoje é uma nojeira
O seu leito é uma lama.
Um esgoto ao céu aberto
De baronesas coberto
Hoje só resta a fama!

Lembro-me quando criança
Com alegria e esperança
Nele eu me banhava.
Hoje na velha idade
Sinto uma grande saudade
Do tempo que me deleitava!
  
Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL


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quinta-feira, 11 de julho de 2019

A MORENA DE ONTEM - Antônio Baracho


                 
Por onde andará, como viverá, o que será feito hoje em dia daquela garota de cabelos castanhos, olhos cor de mel, um sorriso formoso e atraente?

                Ambos andávamos pelos 14 anos de idade e ela menina-moça já de formas físicas de adolescente, era a atração de todos. Até os mais velhos sentiam-se seus prisioneiros.

                Uma das suas grandes forças era atrair amigos, especialmente rapazes; era uma espécie de cerco afetivo de jovens. Sobre eles, ela exercia maior simpatia, maior entusiasmo.

                Sempre tinha gestos e expressões delicadas, expressões afetuosas, tratamento carinhoso em parte, pela sua instintiva ternura. Tinha um donaire real de uma linda princesa que se orgulha da sua altíssima linhagem, com a sua índole açucarada.

                Desde tenra idade era um doce, uma flor de pessoa, de especial trato que a todos dispensava. Esse seu jeito era muito espontâneo, muito livre, muito natural. Fico-me a ver-lhe o porte elegante de corpo inteiro, da cabeça aos pés, da pele cor de jambo, dos olhos cor de mel, o jeito de andar, a cintura delgada e as pernas torneadas.

                Durante muitos anos foi a rainha da beleza, mesmo sem pleito e sem coroação, o seu primeiro lugar era garantido por pobres e ricos, por quantos a conheciam.

                Volvidos tantos anos, seus olhos continuavam cor de mel, porém o cabelo já não era castanho e a graça de outrora estava reduzida a quase nada. Mesmo assim, quem a conheceu no passado lembrava aquela adolescente que tinha um extraordinário poder de atração.


ANTONIO BARACHO – Poeta, psicólogo.
Membro da Academia Grapiúna de Letras- AGRAL, ocupante da cadeira nº 11.
Tel. (73) 99102-7937 / 98801-1224


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