Qual dessas representações (esta acima ou a imagem abaixo)
da Anunciação glorifica mais a puríssima Mãe de Deus?
Luis Sérgio Solimeo
Um espetáculo que não se pode deixar de qualificar como
sacrílego realizou-se no dia 27 de janeiro em presença do Papa Francisco,
durante a Jornada Mundial da Juventude no Panamá.1 Os atores
ridicularizaram o mistério da Anunciação e trataram Nossa Senhora com grande
irreverência. Apesar disso, no final da apresentação, o Papa aplaudiu e deu a
sua aprovação.22
Nessa peça
burlesca, a Virgem Santíssima é apresentada como “uma jovem normal, uma
jovem de hoje”, como a definiu recentemente o Papa Francisco.3 A jovem que
interpretou Nossa Senhora usava tênis, calça masculina ajustada e uma blusa
folgada de cor azul claro. Sua cabeça estava descoberta, e seu celular à vista.
O “anjo Gabriel” foi interpretado por um rapaz com calça, camisa e chapéu
brancos, tendo um par de pequenas asas preso às costas.
Qual dessas representações (esta ou a imagem no alto do
artigo) da Anunciação glorifica mais a puríssima Mãe de Deus?
Em uma
paródia da Anunciação, o “anjo” diz a “Maria” que ela se tornará mãe por obra
do Espírito Santo. Ela se mostra nervosa, quase histérica, e diz que ainda não
está casada com José, não está pronta, tem que ir à universidade, tem medo etc.
O “anjo” trata de convencê-la, e lhe diz que deveria regozijar-se. Cada vez
mais nervosa, ela responde que não pode regozijar-se: “Que dirá José? Que
pensará sua mãe quando souber? E os vizinhos?”
Então a
mulher começa a cantar que tem medo, se sente despreparada, e outras coisas. O
“anjo” a toma pelas mãos, dizendo que ela é a eleita, e ambos começam a dançar.
Outras “anjas” bailarinas, descalças, entram rodopiando, com vestes flutuantes,
como em qualquer espetáculo teatral obsceno.
Em seguida,
“Gabriel” e as “anjas” bailarinas põem uns óculos carnavalescos, e todos dançam
em ronda, cantando em termos semelhantes aos das Escrituras. “Maria” continua a
dizer que tem medo, mas logo começa a cantar as palavras do Evangelho, sempre
em ritmo pop: “Faça-se a tua vontade”.Em meio a risos, ela toma seu
celular e faz uma selfie com “Gabriel”. Outras duas moças sobem ao
palco, e dizem que o resto da história é bem conhecido: Jesus veio a nós e nos
deu seus ensinamentos.
Entra
depois no palco um time de futebol, representando os 12 Apóstolos, declamando e
cantando que têm medo de evangelizar, porque serão perseguidos. Surge então um
grupo de “policiais”, e os “apóstolos” fogem. Os “policiais” começam a cantar e
bailar loucamente, e depois se vão.
Os
“apóstolos” regressam ao cenário e continuam a cantar e dançar em coreografia,
repetindo sempre: “Tenho medo”. Depois de algum tempo dançando e
cantando, “Maria” se aproxima deles, segura suas mãos e diz que já falou com
“Gabriel”, e tudo funcionará.
Logo se
ouve uma voz forte pelos altofalantes: “Recebe o Espírito Santo, não
tenhas medo, regozija-te, e vai evangelizar”. Todos então se ajoelham,
levantam-se e começam a cantar junto com as bailarinas “anjas” e “Gabriel”. Em
seguida uma dança louca e uma canção, da qual participa “Maria”.
Quando
terminou a paródia sacrílega da Anunciação e Pentecostes, o Papa Francisco fez
um gesto de aprovação entusiástica. Depois se levantou e saudou efusivamente os
dois atores principais. Se já é extremamente grave a própria presença do Papa
em uma apresentação sacrílega como essa, tanto mais sua manifestação de apoio
irrestrito.
Encenação da doutrina do Papa Francisco
Essa
paródia parece ilustrar a doutrina do Papa sobre a Santíssima Virgem Maria. Com
efeito, há declarações dele sobre Maria Santíssima que contradizem tudo o que
veneramos e encontramos nos Evangelhos, na Tradição e no Magistério da Igreja,
bem como no sentimento dos fiéis. Recentemente assinalou que Maria “não
nasceu santa”, negando implicitamente o dogma da Imaculada Conceição.4 Suas
concepções sobre Nossa Senhora estão resumidas em seu livro-entrevista, ao
jornal italiano “Corriere della Sera”:
“[Uma]
jovem normal, uma jovem de hoje… normal, normalmente educada, disposta a se
casar, a ter uma família. […] Logo depois de conceber a Jesus, [ela] era ainda
uma mulher normal. […] Nada foi excepcional em sua vida, [ela era] uma mãe
normal: inclusive em seu matrimônio virginal, casta nesse sinal de virgindade,
Maria era normal. Ela trabalhou, fez compras, ajudou a seu Filho, e auxiliou
seu esposo. Normal”.5
Bem o contrário de tudo isso é o que nos diz o Papa Pio XII,
de saudosa memória, na encíclica Ad Cœli Reginam, de 11 de outubro de
1954, na qual estabelece a festa da Realeza da Santíssima Virgem Maria:
“Desde
os primeiros tempos os cristãos creram, e não sem razão, que Ela, de quem
nasceu o Filho do Altíssimo, recebeu privilégios de graça sobre todos os demais
seres criados por Deus. […] E quando os cristãos refletiram sobre a conexão
íntima que existe entre uma mãe e um filho, reconheceram facilmente a suprema
dignidade real da Mãe de Deus”.6
Nada é mais caro ao coração católico do que a honra da Mãe
de Deus, a Amada Filha do Padre Eterno, a Admirável Mãe do Filho de Deus, e a
Esposa Fidelíssima do Espírito Santo. O fato de o Papa Francisco tratar de
maneira simplista e confusa os temas mais delicados e complexos não elimina,
antes aumenta o dano que suas declarações fazem às almas, como as que se
referem a Nossa Senhora. Sua maneira confusa, improvisada e contraditória de
falar é incompatível com o ensinamento verdadeiro, claro e lógico da Igreja, e
com a missão do Papa de confirmar os irmãos na Fé.7
Ao
expressar a nossa indignação pela ofensa feita à Virgem Maria, nossa Mãe
Santíssima, nessa paródia teatral da Anunciação e de Pentecostes, apresentada
diante do Sumo Pontífice e com o apoio dele, sugerimos a todos os leitores que
façam atos de reparação por esse evento.
________________________
Notas:
1. “O sacrilégio é, em geral, a violação ou o tratamento
injurioso de um objeto sagrado. Num sentido menos apropriado, qualquer
transgressão contra a virtude da religião seria um sacrilégio”. – J. Delany,
s.v. “Sacrilege”, The Catholic Encyclopedia, (New York: Robert Appleton
Company, 1912). http://www.newadvent.org/cathen/13321a.htm.
4. No dia 21-12-18, o Papa Francisco declara aos empregados do
Vaticano: “Então, quem está feliz no presépio? Nossa Senhora e São José
estão cheios de júbilo: olham para o Menino Jesus e sentem-se felizes porque,
depois de numerosas preocupações, acolheram esta Prenda de Deus, com tanta fé e
tanto amor. ‘Transbordam’ de santidade e, por conseguinte, de alegria. E vós me
direis: claro! São Nossa Senhora e São José! Sim, mas não pensemos que foi
fácil para eles: não nascemos santos, tornamo-nos, e isto é válido também para
eles”.http://w2.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2018/december/documents/papa-francesco_20181221_dipendenti-vaticani.html.
5. Papa Francesco: “La Chiesa è popolo, l’élite il peccato,”
Corriere della Sera, Oct. 7, 2018,
https://www.corriere.it/cronache/18_ottobre_07/papa-francesco-chiesa-popolo-elite-peccato-2ab8a8ce-ca64-11e8-8417-701d201b7018.shtml.
Ver também, Luiz Sérgio Solimeo, artigo citado.
— Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo + segundo
Lucas.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, Jesus contou uma parábola aos
discípulos: “Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco?
Um discípulo não é maior do que o mestre; todo discípulo bem
formado será como o mestre.
Por que vês o cisco que está no olho do teu irmão, e não percebes
a trave que há no teu próprio olho?
Como podes dizer a teu irmão: ‘Irmão, deixa-me tirar o cisco
do teu olho’, quando não percebes a trave no teu próprio olho? Hipócrita! Tira
primeiro a trave do teu olho, e então poderás enxergar bem para tirar o cisco
do olho do teu irmão.
Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim
que dê frutos bons. Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos. Não se colhem
figos de espinheiros, nem uvas de plantas espinhosas.
O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração.
Mas o homem mau tira coisas más do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o
coração está cheio”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
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Coração Divinizado
“O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração”
(Lc 6,45)
A antropologia bíblica considera o coração como o interior
do ser humano em um sentido muito mais amplo que o das línguas latinas, que
evocam a vida afetiva, a sede dos sentimentos... O coração é o centro de nosso
ser, o nosso cerne mais íntimo, o coração do coração, que consiste, sobretudo,
no lugar do encontro com Deus.
“O sentido de nossa vida não é outro que a busca deste
lugar do coração” (Olivier Clément). Ou seja, no centro de nós mesmos,
unificando nosso ser, está o coração, o “cofre” onde se guarda/oculta o que é
mais nobre em nós. Por isso Jesus dava tanta importância ao coração: “a boca
fala daquilo que o coração está cheio” (Lc. 6,45); “Bem-aventurados os puros de
coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8).
É no “coração” que as forças vitais se acham
disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo para o
qual foi chamada a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de si, a sede das
decisões vitais, o lugar das riquezas pessoais, onde ela vive o melhor de si
mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as
suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e
do Infinito da sua vida.
O coração do ser humano é a própria fonte de sua
personalidade consciente, inteligente e livre. É o lugar de suas escolhas
decisivas, da lei não escrita e da ação misteriosa de Deus. Trata-se do centro
existencial que permite à pessoa orientar-se como um todo e plenamente em
direção a Deus e ao bem. No coração está gravada a imagem divina oculta, “o
homem de coração oculto” (1Pd. 3,4). S. Serafim de Sarov o denomina “o altar de
Deus”.
Aqueles que descem às profundidades do seu interior ficam
fascinados pelo esplendor daquilo que contemplam. O coração de cada um está
habitado de sonhos de vida, de futuro, de projetos; aqui, todo ser humano
sente-se seduzido pelo que é verdadeiro, bom e belo; busca ardentemente a
pacificação, a unificação interior, a harmonia com tudo e com todos...; sente
ressoar o chamado da verdade, o magnetismo do amor, da plenitude; sente-se
atraído por um desejo irreprimível de autotranscedência...
Por ser livre e responsável, o ser humano é capaz de
decisões e de realizações, de ser artífice de seu destino e de sua história.
Ele sente por dentro o impulso para a expansão de si; ele escuta por dentro o
chamado a viver e a viver em plenitude. Nesse sentido, o “coração” é, de nossa
parte, o espaço divino por excelência. “Só o amor pode adentrar-se no Deus que
é amor”. Assim, a descoberta do próprio ser profundo aproxima cada um do
autor da vida: Deus.
É no coração, “última solidão do ser”, que a pessoa se
decide por Deus e a Ele adere. Aqui Deus marca “encontro” com cada um. “Deus é
mais íntimo a cada um de nós do que nós mesmos” (S. Agostinho). Chegar ao lugar
do coração é dom de Deus: “Eu lhes darei um coração para conhecer-me; saberão
que eu sou o senhor. Eles serão meu povo e eu serei seu Deus; eles se
converterão a mim com todo seu coração” (Jer. 24,7). Eis o “lugar” onde
poderemos estar em segurança, profundamente repousados.
Um coração que vibra harmoniosamente, de modo coerente, “com
ondas de frequência elevada”, nos permite perceber a realidade de um modo
igualmente harmonioso; sua energia radiante, transmissora de paz, de quietude,
de confiança, de abertura, alcança os outros, tornando possível o sonho da
unidade entre nós e aqueles que estão ao nosso redor.
Para os antigos monges, o contrário desta abertura de
coração é a “sklerokardia”, ou seja, a “dureza de coração”, que impede a
entrada em si mesmo e o encontro com os outros e com Deus. O coração pode
palpitar ao ritmo da soberba ou da humildade, do amor ou do ódio, do egoísmo ou
da generosidade. E está cheio de mesclas: de trigo e de joio.
Quando nosso coração está “fechado”, nossos olhos não veem,
nossos ouvidos não ouvem, nossos braços e pés se atrofiam e não se movimentam
em direção ao outro; vivemos voltados sobre nós mesmos, insensíveis à admiração
e à ação de graças. Quando nosso coração está “fechado”, em nossa vida não há
mais compaixão e passamos a viver indiferentes à violência e injustiça que
destroem a felicidade de tantas pessoas. Vivemos separados da vida,
desconectados. Uma fronteira invisível nos separa do Espírito de Deus que tudo
dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia.
A viagem para a própria interioridade, para a terra sagrada
do coração, necessita de um hábil discernimento para conhecer as armadilhas e
os “inimigos” que aparecem ao longo do percurso.
Quando, numa visão mais profunda de nós mesmos e do mundo,
nos vemos como criaturas que surgem do amor de Deus, e quando essa visão é
fruto de uma vivência interior e transbordante, começa a brotar no coração
humano um movimento de unificação para Deus. Esse movimento é feito de
confiança, de canto, de amor, de entrega, de serviço...
Por ser imagem de Deus, e porque “Deus é Amor”, o coração do
ser humano é capaz do melhor: tem dada por Deus como dom da Criação, a
potencialidade de amar aos outros com o mesmo amor com que Deus lhe ama, ou
seja, com um amor gratuito e generoso. Mas, por ser uma imagem ofuscada pela
limitação e pela fragilidade, o coração humano é também capaz do pior: de negar
sua origem e sair ao encontro com a realidade a partir de suas
potencialidades necrófilas (forças de morte); de viver dando as costas a
Deus e distorcendo a imagem essencial de seu Criador; de se preocupar com o
“cisco” no olho do outro, assumindo atitudes intolerantes e julgadoras...
Quando nosso coração está centrado em Deus, ou seja, quando
ele se percebe que vem d’Ele, vive para Ele e para Ele retorna, tudo está em
seu lugar, tudo vai bem. É “árvore boa que dá bons frutos”. As “coisas” não são
obstáculos, e as pessoas muito menos. Nem sequer o nosso próprio e ambíguo “eu”
é tentação.
Até nossos instintos mais primários ficam integrados nessa
corrente de amor recebido e amor entregue. Mas quando se produz um
descentramento do coração, dá-se um corte com a Fonte e, portanto, com seu
destino; quando o coração é presa do “diá-bolos” (aquele que desune, que
divide), então tudo começa a desandar: o “eu” inflado se converte num
depredador; os instintos básicos se transformam em obsessões; a vida fica
fragmentada e dispersa. Tudo se petrifica. O coração torna-se “oxidado”, pois
seus impulsos oblativos não são ativados. “Não se colhem figos de espinheiros,
nem uvas de plantas espinhosas”. É a deriva do coração humano, a inversão de
sua vocação mais profunda.
Faz-se urgente reconectar-se com a Fonte, onde o coração é
continuamente gerado, sustentado, alimentado pelo amor de Deus que o irriga,
que o restaura. O coração profundo pode estar desprezado, adormecido, fechado,
mas não pode morrer.
Texto bíblico: Lc 6,39-45
Na Oração: A oração é o caminho interior que faz você
chegar até o seu próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde
reside não só o lado mais positivo de você mesmo, mas o próprio Deus. Este é o
nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde você é chamado a mergulhar
no silêncio, à escuta de todo o seu ser.
- Nas profundezas do seu coração, acolha, escute e reconheça
o murmúrio da voz de Deus, que, como um rio calmo e ao mesmo tempo vivaz, o(a)
acompanha, da nascente ao mar aberto.
Da sacada do apartamento, jogava o milho pisado para os
pombos. Via com prazer a cena inquieta dos bicos catando as migalhas na rua.
Comprava o passarinho com a gaiola, na feira, aos sábados.
Abria a portinhola, ficava feliz vendo o bichinho bater asas, desaparecer.
Tomava a direção da mata.
Comprara o binóculo para observar com detalhes o espetáculo
dos periquitos voando acima dos telhados, próximos ao edifício onde morava,
erguido na colina.
Gritos constantes das aves. Até que se empoleiravam nas
árvores perto da igreja.
Acordavam cedo, nuvem de asas acima da torre da igreja.
Tomavam depois a direção da mata. Voltavam pela tarde em busca do poleiro nas
árvores.
Aqueles bichinhos foram feitos por Deus para voar pelas
estações temperadas de sol e chuva. Bicar nas manhãs frutíferas. Alegrar a
natureza com voos e cantos. Cumprir a lei da reprodução da natureza, perpetuar
a espécie. Preso algum deles na gaiola, a vida do cantor prisioneiro passava
sem graça, em canto e plumagem perdia o sentido.
Igual a um castigo destamanho só o de alguém que nascesse
sem os braços ou arrancados do corpo em algum acidente, por exemplo.
Teve a certeza dolorida disso quando foi atropelado por um
caminhão, que passou na rua desembestado.
Com a pancada, perdeu um dos braços, o outro mutilado, sem a
mão, imprestável também. Sorte não ter morrido.
Difícil acostumar com a situação precária. Abatia seus
sentimentos e nervos. Os olhos denunciavam a alma entristecida.
Os de casa não ligavam para ele. Só servia quando era
gerente de banco, sustentando a mulher e os três filhos, a cunhada, a sogra e o
sogro.
Deficiente, impossível agora dar milho pisado aos pombos.
Ficava em silêncio, sentindo pena de si mesmo, a situação irreversível.
Até que uma manhã acordou com umas asas no lugar dos braços.
A princípio achou o acontecimento estranho. Dessas coisas que por mais que se
force a inteligência não se acha a explicação lógica do seu acontecimento. Um
milagre, para Deus nada é impossível.
Foi até a sacada. De lá alçou voo. Não hesitou, seguiu na
direção da mata. O mundo visto do alto pareceu-lhe então perfeito, cheio de
brilho e cores.
Cyro de Mattos é poeta e ficcionista. Premiado no Brasil,
México, Itália e Portugal. Publicado por editoras na Europa. Doutor Honoris
Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia).
Escrevi sobre o empoderamento feminino lá em casa (O DIA de
28/1/19) e deixei de propósito para citar a minha irmã em separado. Foi a
quinta filha do casal Fany e Marcos, depois de terem nascido quatro homens. O
meu pai dizia que não ia parar de ter filhos (coitada da minha mãe) enquanto
não viesse uma menina. E isso aconteceu em 5º lugar. Já imaginaram se fosse em
8º ou 9º?
A Rachel sempre foi um encanto lá em casa. Era a mais nova,
sempre muito bonita, e fez uma bela carreira em medicina. Teve um desempenho
brilhante no curso na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado
do Rio de Janeiro (UERJ), especializando-se em Pediatria. Não quis clinicar,
pois detestava o lado comercial da profissão, preferindo o seu aspecto
científico.
Com esse zelo integrou os quadros de grandes e notáveis
instituições, ganhando renome internacional. Em 2002, ela era conselheira
titular do Conanda (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do
Adolescente), e coordenou, para a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a
"Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes e Violência na Infância e
Adolescência". A sua atuação foi marcante e mostrou que a violência
doméstica potencializava a violência social e ocorria de forma velada entre os
mais ricos. Essa avaliação era resultado das diversas visitas que ela fazia por
todo o Brasil, conhecendo a fundo o funcionamento das instituições que cuidavam
de menores infratores, como as antigas Febens. Rachel fazia questão de
conversar com os adolescentes para saber os motivos pelos quais eles cometiam
atos que conflitavam com a lei. Na maioria das vezes, eles saíam de casa
fugindo da violência praticada pelos próprios pais.
Também chamou a atenção outra campanha da SBP, também sob a
coordenação de Rachel, chamada "Violência é Covardia - crescer sem
violência é direito fundamental das crianças e adolescentes", que foi
deslanchada em 2016. Nesta, outros aspectos foram abordados, como abuso sexual,
negligência e maus tratos psicológicos. A preocupação era mostrar que é
possível e saudável promover nas residências uma educação livre de atos
violentos.
No período em que fez parte do Conselho Estadual de Defesa
da Criança e do Adolescente do Rio de Janeiro, ela se preocupou em resolver os
principais problemas sociais que afetavam (e infelizmente ainda afetam) os
jovens e adolescentes aqui do nosso estado. Temas como o atendimento do
adolescente vítima de violência na emergência e violência psicológica
intrafamiliar sempre foram objeto de estudos e intervenções da entidade. A
atuação de Rachel ajudou a reforçar a ideia de que um relacionamento sadio e
amigável na família contribui para que os meninos e meninas se tornem adultos
plenos, produtivos, companheiros, solidários, generosos, bons cidadãos, bons
pais e eternamente bons filhos.
Com o bom humor que lhe é peculiar, Rachel Niskier Sanchez
diz que se considera uma "jurássica" na luta em defesa das crianças e
adolescentes, um título que ela procura honrar. Há muitos anos ela ficava
abordando transeuntes e colhendo assinaturas para a aprovação do Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), "numa mesinha", no centro da cidade
do Rio de Janeiro. Isso foi antes de 1990, quando o Estatuto ainda não havia
sido sancionado. Depois de tantas lutas e conquistas, hoje, é uma competente e
conceituada profissional que presta serviços no Instituto Fernandes Figueira,
participando com êxito de palestras e seminários.
Arnaldo Niskier -
Sétimo ocupante da Cadeira nº 18 da ABL, eleito em 22 de março de 1984, na
sucessão de Peregrino Júnior e recebido em 17 de setembro de 1984 pela
acadêmica Rachel de Queiroz. Recebeu os acadêmicos Murilo Melo Filho, Carlos
Heitor Cony e Paulo Coelho. Presidiu a Academia Brasileira de Letras em 1998 e
1999.
É bem possível que uma grande maioria
de nós já tenha se questionado dessa forma, em algum momento. Acontece
quando se entra em uma loja e o atendente nos ignora. Ou quando estamos frente
ao balcão de uma companhia aérea, tentando saber se o voo está no horário.
Ou, em algumas repartições públicas, à procura de informações. A pessoa que ali
está, simplesmente ignora nossa indagação, nossa presença. É como se fôssemos
invisíveis.
Para nós que lidamos com a imortalidade, que estudamos a
respeito da vida que nunca cessa, o primeiro pensamento que nos acode, ao
nos sentirmos assim ignorados é: Será que eu morri e não me dei conta?
Terei acaso atravessado a fronteira da vida sem me aperceber? Será por
causa disso que as pessoas não me vêem, não me respondem?
No entanto, além dessas situações, de um modo geral,
quase todos nós nos movemos no mundo sem darmos atenção aos demais. É
assim que caminhamos pela rua, olhando nomes das ruas, números,
veículos, sem olhar ao nosso redor. Por isso, é comum esbarrarmos nos
outros, e não nos darmos conta de suas presenças. Esbarramos e continuamos em
frente, ao encalço do nosso objetivo, sem nos determos sequer para pedir
desculpas. Ou para auxiliar a pessoa a juntar o que a fizemos derrubar com
nosso esbarrão. Isso, quando não é a própria pessoa que perde o equilíbrio e
vai ao chão.
Quando se abrem as portas dos coletivos urbanos, saímos como
quem precisa apagar incêndio logo adiante. Alguns vão abrindo caminho, à força,
batendo com a mochila que trazem às costas nos que aguardam nas filas e
continuam em frente. Pisam nos pés alheios, mas prosseguem andando. Na
ânsia de alcançar o seu destino, rapidamente, carregam consigo o que estiver
no caminho: embrulhos, livros... ou pessoas. Mas nunca se voltam
para pedir desculpas. Porque nada vêem, nada sentem, nada percebem. Somente
eles existem no caminho...
Em filas de cinema, supermercados, bancos, repartições, a
questão não é muito diferente. Pessoas com pressa, com compromissos
urgentes, tentam passar à frente de outras que aguardam há muito tempo. Para
elas, não existe ninguém mais do que elas mesmas... e o seu problema, a
sua dificuldade.
Se estamos no rol dessas pessoas afoitas, insensíveis, que
somente vêem a si mesmas, estanquemos o passo.Olhemos ao redor, observemos,
respeitemos os que compartilham o mesmo ônibus, a mesma lanchonete, a mesma
repartição pública. O fato de termos que resolver muitas questões não está
dissociado da possibilidade de sermos gentis, delicados, atenciosos. Não
nos impede de olharmos ao redor, de ceder o lugar a um idoso, uma grávida,
alguém com dificuldade física.
Pensemos que tanto quanto nós não desejamos ser tratados
como invisíveis, não devemos assim proceder com relação aos demais. Somos
todos humanos, necessitados uns dos outros. Ajamos então, como quem já se
alçou à Humanidade e deseja prosseguir caminho, rumo à angelitude, nosso
passo seguinte.
A minha última estada no Prado foi a passeio, mas o que mais
me chamou atenção foi o atrativo de seus encantos... Outras cousas ficaram à
margem. Tanto que dali a gente sai pensando em quando poderá voltar para o
convívio daquela gente boa que faz jus ao ambiente esplêndido onde as
cachoeiras encantam a todos que de alma isenta as contemplam com vontade de
entregar-se às carícias de suas águas límpidas... Mas não foi isto que comigo
aconteceu: folguei-me apenas em contemplá-las abastecendo-me de seus encantos.
Isto porque o tempo não permitiu que o fizesse além do delicioso passeio a
barco, do inesquecível banho de mar e da estirada até Comuruxatiba, situada a
poucos quilômetros da sede, - lugar aprazível e lindo, com as suas areias
monazíticas.
Quem não conhece o Prado, é bom que procure conhecê-lo, pois
o Prado dispõe, além do seu encanto natural realçado pela areia branca que o
contorna e reaviva o verde que o tapisa, o ar reconfortante que se respira e a
boa água que se bebe... O visitante sai de lá conduzindo no íntimo a satisfação
de ter conhecido um lugar realmente encantador. Essa satisfação ficou
impregnada no meu ser por tudo o que a sua natureza proporcionou, inclusive uma
via de acesso verdejante e tranquila que liga o município de Itamaraju ao Prado.
Para quem deseja conhecer o Prado há várias opções de
hospedagem: Pode-se, com facilidade, conseguir casa de aluguel para uma
temporada à escolha do veranista. E é oportuno dizer-se que numa casinha
modesta, mesmo de telha-vã, o luar do Prado é mais belo... Na encantadora
cidadezinha já brilha um hotel de cinco estrelas, cujo brilho, aliás, não
constitui, absolutamente, o seu principal atrativo porque o seu principal
atrativo, como já disse, está na sua beleza paisagística, nas suas cachoeiras
dadivosas, na delícia do seu clima, na simpatia da sua gente...
Neste momento, quando digito esta inútil louvação, penso em
Dorival Caymmi, de violão em punho, parodiando a sua famosa canção em que mal
altera a letra: