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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

INFÂNCIA DE POETA - Marco Lucchesi


Infância de Poeta


O mundo como espanto e admiração é a nossa primeira experiência com o ambiente que nos cerca. A voz da mãe, tão viva e contundente na memória ilumina partes secretas do labirinto de que somos feitos. Uma fina membrana nos separa da vida. Agrega e separa, como um sonho fugaz.

A infância profunda é um naufrágio delicado. O barco segue oculto no seio do mar primordial. Boiam alguns fragmentos, ideias rarefeitas, sentimentos em estado selvagem, antes da organização das palavras, da forma de entender o mar e de saber quem somos.

É certo que a infância não passa nunca, desafiadora, como um velho álbum, que, de quando em quando, é preciso rever, com tantas pessoas nas fotos, cujo nome ignoramos, se estão vivos ou não. Boa parte deixou de ser. A infância é um álbum povoado de fantasmas, para os adultos, cujas fotos manuseiam, emocionados ou indiferentes. 

Mas a infância do poeta não passa. A poesia é o estado permanente daquele menino impossível, de Jorge de Lima, cercado de brinquedos ou versos cheios de mistério e luz. O brincar como ensaio do que estávamos construindo para nós.

Desenho a locação das nuvens, condensadas ao longo de zonas celestes, distantes para os olhos de agora e de ontem, que desde cedo me deslumbram.

Minha infância incerta no mês de julho no Rio, com seus dias breves, feridos por uma espessa camada de melancolia, ainda mais sentida nos subúrbios da Leopoldina, sinuosa, como a linha de trem que avança nas entranhas fluminenses.

Como alcançar as feridas da memória, que chego apenas a sentir, quase impalpável, dor que a tudo se mostra rebelde e insubmissa nos primeiros anos?

Sob o líquido coral de nuvens, passa um menino, perdido, com seu cãozinho branco nos quintais. Seus olhos fosfatados de inocência trazem largas parcelas de futuro, como se estivesse ao abrigo dos deuses ferozes do mundo, dentro de uma esfera de pura vertigem. Inventa e sonha a linha do horizonte. Talvez fosse incluir um canário amarelo, com a gaiola, na parte dos fundos da casa, na pequena e infinita varanda, um cachorrinho branco, saltitante. Uma casa verde, cheia de bichos como a Arca de Noé.

No fim do mundo, posso apostar, “alguma coisa escapa do naufrágio das ilusões” e verei todos os meus animais.

Uma narrativa ou memória sem quantidade, feita de sentimentos dispersos é quanto me resta. Mas, e se tudo não passa de mera intuição, vida provisória, potência que se afoga no vazio das palavras?
Será apenas um salto no silêncio, a volta para a infância, algo que se nutre do nada em que se apoia e brilha, fugaz como um raio: sentimento que de súbito se exaure, na vida adulta, como num piscar de olhos?

Ao longe, e a muitos quintais de distância, reconheço uma farmácia. Não lembro como se chamava, onde se lia, em letras redondas, na vitrine, “agradecemos a preferência, volte sempre”.

Tão obscura me parece a relação do menino com as nuvens e os remédios da farmácia. Um fio da memória esgarçado em muitos pontos que deviam, mas não sabem, fazer um único nó.

Porque, a essa altura, o cachorro branco fugiu da coleira e perdeu-se. O menino deixou o quintal em busca de outros, mais incertos. A farmácia baixou as portas e não sei onde buscar novos remédios.
Como dizer uma história sem progressão? Fechada para o mundo como se a névoa lhe impedisse o passado.

Essa rememoração tem algo do canário que a tanto mundo não se atreve. Para Kafka, uma gaiola saiu para buscar um pássaro. Amarelo talvez, como aquele do menino, cujo canto dissipou-se na partitura dos dias.

Indago tão-somente a densidade das nuvens e a rarefação da história, que se passa no mês de julho, nos subúrbios do Rio e que reúne, sem motivos claros, a infância de um menino, o quintal onde armou alguns sonhos e as portas baixas da farmácia.

Um físico pergunta: Por que não nos lembramos do futuro?

O Globo, 31/07/2018


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Marco Lucchesi - Sétimo ocupante da cadeira nº 15 da ABL, eleito em 3 de março de 2011, na sucessão de Pe. Fernando Bastos de Ávila foi recebido em 20 de maio de 2011 pelo Acadêmico Tarcísio Padilha. Foi eleito Presidente da ABL para o exercício de 2018.

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CANÇÃO PARA ACORDAR JORGE AMADO - Heribaldo de Assis


AGOSTO DE JORGE AMADO:

Canção para acordar Jorge Amado 


O escritor Jorge Amado, prestes a completar 90 anos, dormia profundamente em sua cadeira de balanço – suas mãos pendiam... Nelas os dedos calejados por uma antiga máquina de escrever mecânica.

Mas, há algum tempo, o velho Jorge Amado não escrevia, devido a um problema na visão – uma Degeneração Macular que estava retirando-lhe até o ânimo de viver, pois o impossibilitava de dedicar-se a sua maior paixão: a Literatura!

Inconformados com aquela situação, as personagens de Jorge Amado resolveram então sair das páginas dos romances e das novelas para tentarem despertar o escritor e reanimá-lo a enveredar-se pelas páginas da Literatura novamente, mesmo que com o auxílio visual de sua eterna companheira Zélia Gattai.

Mas, para não ocupar muito espaço na sala da casa do Rio Vermelho em Salvador – Bahia, somente algumas personagens de Jorge Amado receberam a permissão de saírem do mundo da imaginação e realizarem a tarefa de acordar o desanimado e sonolento escritor.

Então Gabriela, Tiêta, Tereza Batista (cansada de guerra), Dona Flor (sem seus dois maridos), Perpétua, Cinira, Amorzinho, o Negro Damião e Sinhozinho Badaró abandonaram temporariamente as páginas dos romances e do mundo imaginário para acordarem Jorge Amado...

E, num átimo, aportaram magicamente diante do escritor que havia lhes dado o sopro da vida e concedido-lhes destinos, sonhos, ideais, alegrias e sofrimentos. Por alguns instantes contemplaram emudecidos as marcas visíveis que quase um século de dedicação à Literatura e à luta pela Liberdade haviam deixado no corpo alquebrado do escritor octogenário: os cabelos brancos de preocupação com a miséria social da Bahia, as rugas que simbolizavam o testemunho de todo um passado, os calos nas mãos que extenuaram-se nas teclas da máquina de escrever, as pálpebras cansadas das romanescas noites em claro.

Ele parecia estar sonhando – mas com o que sonhava Jorge Amado: com um país no qual as crianças tivessem acesso a uma educação pública e gratuita de qualidade (e assim, no futuro, se tornassem cidadãs ao invés de se tornarem capitães de areia) ? Ou sonhava com um país no qual cavaleiros da Esperança e da Justiça finalmente triunfassem sobre a corrupção, a miséria e a violência?

Sim! Esse era Jorge Faria Amado – o filho do senhor João Amado e Dona Lalu: o menino grapiúna que nasceu em Ferradas (distrito de Itabuna-BA) em 10 de agosto de 1912 e que começou a publicar seus primeiros romances (No país do carnaval, Cacau, Suor) a partir de 1931. Logo depois vieram outras obras: Jubiabá (1935); Mar Morto (1936); Capitães de Areia (1937); Terras do Sem-fim (1942); Gabriela, Cravo e Canela (1958), dentre outros títulos que venderam milhões de exemplares, foram traduzidos para 54 idiomas e adaptados para a televisão, o teatro e o cinema. Uma carreira literária que o levou a ser eleito pela Academia Brasileira de Letras em 1959 e indicado ao Prêmio Nobel de Literatura por três vezes.

Nisso as personagens começaram a confabular sobre a melhor maneira de acordar o escritor – o Negro Damião (que estava com um clavinote na mão), propôs logo dar um tiro para o ar:

- Assim ele vai acordar mais rápido. Disse o Negro Damião.

Perpétua se contrapôs:

- Tá doido homem?! Assim ele vai é acordar assustado.

Tieta, indiferente à discussão das outras personagens, aproximou-se do escritor e sussurrou-lhe sensualmente no ouvido:

- Jorge, acorda. Sou eu, sua cabritinha: béé, béé, béé!

Dona Flor teve uma ideia e propôs:

- Por que não chamamos meu marido Teodoro para tocar fagote: assim, ao invés de acordar com barulho, Jorge vai acordar é com uma bela canção.

Tereza Batista comentou:

- Somente nove personagens tiveram permissão de vir até aqui, por que é que não teve essa ideia antes? Assim viriam 10 personagens ao invés de nove – se fosse permitido é claro.

Nisso alguém surge, mas não era Teodoro, era Vadinho (o primeiro marido de Dona Flor) – que (num passe de mágica) adentrara a sala completamente nu. Cinira e Amorzinho começaram a gritar e quase desmaiaram ao verem a nudez desavergonhada do defunto que abandonou as páginas do romance Dona Flor e seus dois maridos sem nenhuma permissão. Subitamente Vadinho aproximou-se de Dona Flor (que distraidamente confabulava com Gabriela a respeito de doces e quitutes) e então Vadinho apalpou as volumosas nádegas de Dona Flor que, acostumada com aquele gesto impetuoso, foi logo dizendo sem voltar-se para trás:

- Vadinho, deixe de vadiagem: aqui não né!

Gabriela também o censurou:

- Estamos em uma missão importante seu Vadinho, olha o respeito!

Vadinho limitou-se a dar um sorriso debochado para as duas e após acenar para a sua amada Dona Flor resolveu abandonar o recinto – não sem antes balançar as partes íntimas diante de Cinira e Amorzinho que, não desmaiaram porque foram amparadas por Perpétua. E Perpétua ameaçou:

- Volte logo para sua estória homem senão eu te dou umas bordoadas com meu guarda-chuva!

E, apesar de estar se divertindo com tudo aquilo, Vadinho resolveu retornar para o mundo da ficção para não criar mais balbúrdia ainda na sala da casa do Rio Vermelho. Sinhozinho Badaró, impaciente com toda aquela situação, tentou acordar mais uma vez Jorge Amado, mas não obteve sucesso.

Por fim, Gabriela fez mais uma tentativa: colocou as mãos no ombro de Jorge Amado, sem querer suas mãos macias e graciosas deslizaram no peito do escritor – mas o coração estava parado!

Quase aos prantos Gabriela cravo e canela exclamou para as demais personagens:

- Nenhuma música no coração de Jorge! Nenhuma música no coração de Jorge!

Todas as personagens imediatamente aproximaram-se para examinar o corpo desfalecido do escritor: a testa fria, as mãos geladas, o coração parado.

Então lágrimas escorreram dos olhos tristes de suas filhas mais famosas: Dona Flor, Tieta, Tereza Batista e... Gabriela. As demais personagens também ficaram inconsoláveis: O Negro Damião (homem acostumado a ver muitas mortes) tentou disfarçar a tristeza, Cinira, Amorzinho e Perpétua se amparavam – umas nos braços das outras. Sinhozinho Badaró contemplou o chão para não ter que encarar aquela cena.Todas as personagens, ao redor do corpo inerte de Jorge Amado, ficaram cabisbaixas e, inconscientemente, fizeram mais do que um minuto de silêncio. E em silêncio era até possível ouvir o bramido do mar nas praias do bairro Rio Vermelho:

"É doce morrer no mar, nas águas verdes do mar.
É doce morrer no mar, nas águas verdes do mar."

Por fim, disse Perpétua:

- Não há mais o que fazer aqui: vamos embora!

Instantaneamente quase todas as personagens desapareceram no ar e retornaram às paginas dos romances que encantavam e entretinham milhões de leitores no mundo inteiro.

Somente Gabriela ficou na sala, diante de Jorge Amado – aquele que lhe concedera fama e notoriedade. E, em um último esforço, Gabriela aproximou-se do corpo sem vida de Jorge Amado (que continuava na imóvel cadeira de balanço), sentou-se em seu colo e encostando a cabeça no peito dele sussurrou em prantos:

- Acorda painho, acorda!

Embalando a cadeira de balanço com suas coxas grossas, Gabriela fez o corpo inerte de Jorge Amado movimentar-se pela última vez – como se o embalasse para dormir junto com ela... E por fim ela também dormiu e desapareceu para entrar no coração sem vida do velho escritor. Amante e amada, escritor e personagem, criador e criatura fundiram-se finalmente para encerrarem o capítulo final de um dos maiores e bem-sucedidos escritores da Literatura Brasileira! Muito longe dali, à meia-noite, um jagunço – montando em um cavalo também espectral – galopou velozmente pelas ruas de Itabuna e Ilhéus bradando fantasmagoricamente a anunciar:

- Coronel Jorge Amado morreu! Coronel Jorge Amado morreu! Coronel Jorge Amado morreu!

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Heribaldo de Assis – Escritor, Poeta, Filósofo, Compositor, Redator-publicitário e Licenciado em Letras pela UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz.

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terça-feira, 31 de julho de 2018

POETA EM SÃO PAULO: ÁLVARO ALVES DE FARIA - Cyro de Mattos


Poeta em são Paulo: 
Álvaro Alves de Faria

Cyro de Mattos 



            Da “Geração 60” dos poetas de São Paulo, Álvaro Alves de Faria é o único que circula por diversas escritas literárias. Publicou romances, novelas, ensaios e peças teatrais encenadas em várias capitais brasileiras. Organizou antologias e praticou o jornalismo literário, que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Imprensa por duas vezes, em 1976 e 1983.

           Ao fazer o lançamento de O Sermão do Viaduto, no Viaduto do Chá, na capital paulista, durante noves recitais, que lhe deram  cinco detenções, até que foram proibidos pelo DOPS por motivos políticos, sob a alegação de que realizava manifestações subversivas, o poeta Álvaro Alves de Faria instalava um comportamento poético diferente do que se estava acostumado a ver nos meios culturais de São Paulo. A geração antecedente de poetas vinha aprisionando a vida nas torres da arte. Outros grupos daquela época demitiam da poesia a intuição, propondo uma sintaxe visual com o mínimo de palavras e a valorização do espaço em branco  na elaboração do poema.  Ao reduzirem o conteúdo à estrutura visual do poema,  suscitavam dúvidas quanto à sua fecundação: a repetição de uma só palavra gerava ausência de criatividade, derivando para um automatismo que desligava a linguagem das matrizes perspectivistas, carregada de símbolos e conotações no discurso  imanente.

            Qual profeta moderno, o poeta revolucionário   recorria ao sermão para atar as pontas da vida e da poesia nas grandes e desertas  planícies. Manipulava a metáfora, a alegoria e a parábola na via pública até perder-se na noção de sua altura, exatamente naquele ponto no qual  se busca reencontrar  uma morada antiga. Seus versos cheios de verdade compareciam  na paisagem de incertezas sob o tom luminoso para resistir  aos rumores e tremores do abismo. Com uma dicção bíblica feita de imagens corajosas, sábias,  enfrentava o poeta visionário  a ordem política atemorizadora, que bania o amor, galopava nas trevas, como se a solidariedade fosse coisa inútil e o absurdo do déspota, a única tecla. A voz de uma beleza profunda propagava-se no intuito de iluminar de esperança os desertos. Repercutia com seu ramo de luz no tema da pobreza e  da criatura indefesa. Do coração sensitivo do poeta atuante ofertava-se o trigo vindo dos longes comovidos para os sem voz num campo de mágoas.

            Já em  20 Poemas Quase Líricos e Algumas Canções para Coimbra, o poeta do sermão no Viaduto do Chá conduz o coração para o transe lírico da memória. A forma do poema, o ritmo que flui do dizer poético reiterativo sobre seres e coisas  aderem ao fluxo lírico de forte teor emotivo. O coração acordado do poeta pulsando no presente  fere a “memória da memória”,  assinala a ensaísta portuguesa Graça Capinha.,   da Universidade de Coimbra. Atravessa lugares do imaginário e do real na medida em que a viagem inexplicável vai sendo empreendida pelos caminhos do tempo. O coração do andante solitário transpira momentos que lhe são caros, e a memória veste-se de  imagens com passagens puras e ardentes. Situações  que chegam de rostos, sombras,  lugares superpostos  liberados do subconsciente, coabitam no poeta,  trazendo  daquela zona suspensa  do azul o tempo que perdura no afeto.

            A emoção do poeta cresce nas gradações do amor que a cidade revela nas ruas, becos, ofícios que afloram de outras idades, degraus que não têm fim, telhados acumulados de ausência, janelas fechadas, portas  que não se abrem.  Circula nas alusões aos poetas nos cafés, resvala no efêmero ante o eterno que desce no rio Mondego. Oscila  entre memória e coração avivando as  paragens dos antepassados, o pai nasceu em Lobito, Angola, a mãe em Famalicão, Portugal.  A memória aflora do que há de mais amoroso, o coração pulsa  candente no que há de mais sensível e essencial. No encontro agitado da sensibilidade produzem  uma poesia palpitante nas fissuras cósmicas, pendendo de remotas raízes portuguesas.

            Permanente registro de atração por uma cidade que o chama, o poeta em densidade lírica a atravessa no olhar e se deixa invadir de impressões, ilusões, visões doloridas de secreto caminhar, através de sustos que não se decifram, porejando ternuras no imaginário  que delira. E, do ardor no sermão em viaduto, no fluxo mediúnico que verte o comportamento da linguagem inserida no discurso,  ao soluço lúcido do caminhante solitário, faz e refaz  andanças do mesmo todo, tentando compreender determinada realidade escamoteada sob a máscara do que foi e no que é visto com suas  verdades essenciais. De qualquer modo, travessia.

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*Cyro de Mattos é escritor e poeta. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia.  Doutor Honoris Causa pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia). Premiado no Brasil, Portugal, Itália e México. Tem livro publicado em Portugal, Itália, França, Alemanha, Espanha e Dinamarca. Conquistou o Segundo Lugar do Prêmio Internacional de Literatura Maestrale  Marengo d’Oro ,  duas vezes, em Gênova, Itália, o  Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras,  o da Associação Paulista de Críticos de Arte   e o Prêmio Nacional Pen Clube do Brasil.  O texto “Poeta em São Paulo: Álvaro Alves de Faria” pertence ao livro A Leitura Lembrada, ensaios, em andamento.

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O PODER DA PALAVRA - Paulo Coelho



Destruindo o seu próximo

Malba Tahan ilustra os perigos da palavra: uma mulher tanto falou que seu vizinho era ladrão, que o rapaz acabou preso. Dias depois, descobriram que era inocente; o rapaz foi solto processou a mulher.

– Comentários não são tão graves – disse ela para o juiz.

– De acordo – respondeu o magistrado. – Hoje, ao voltar para casa, escreva tudo que disse de mal sobre o rapaz; depois pique o papel, e jogue os pedaços no caminho. Amanhã volte para ouvir a sentença.

A mulher obedeceu, e voltou no dia seguinte.

– A senhora está perdoada se me entregar os pedaços do papel que espalhou ontem. Caso contrário, será condenada a um ano de prisão – declarou o magistrado.

– Mas é impossível? O vento já espalhou tudo!

– Da mesma maneira, um simples comentário pode ser espalhado pelo vento, destruir a honra de um homem, e depois é impossível consertar o mal já feito.

E enviou a mulher para o cárcere.


Uma lenda do Polo Norte

Conta uma lenda esquimó que, na aurora do mundo, não havia qualquer diferença entre homens e animais: todas as criaturas viviam em harmonia sobre a face da Terra, e cada uma podia transformar-se na outra, a fim de entendê-la melhor. Os homens viravam peixes, os peixes viravam homens, e todos falavam a mesma língua.

“Nesta época”, continua a lenda, “as palavras eram mágicas, e o mundo espiritual distribuía fartamente suas bênçãos. Uma frase dita ao acaso podia ter estranhas consequências; bastava pronunciar um desejo que este se realizava”.

Foi então que todas as criaturas começaram a abusar deste poder. A confusão se instalou, e a sabedoria se perdeu.

“Mas a palavra continua mágica, e a sabedoria ainda concede o dom de fazer milagres a todos que a respeitam”, conclui a lenda.


Os tempos difíceis

Um homem vendia laranjas no meio de uma estrada. Era analfabeto, de modo que nunca lia jornais. Colocava pelo caminho alguns cartazes, e passava o dia apregoando o sabor de sua mercadoria.
Todos compravam, e o homem progrediu. Com o dinheiro, colocou mais cartazes, e passou a vender mais frutas. O negócio progredia rapidamente quando seu filho – que era culto e havia estudado numa grande cidade – procurou-o:

– Papai, você não sabe que o Brasil está atravessando momentos difíceis? A economia do país anda péssima!

Preocupado, o homem reduziu o número de cartazes, e passou a revender mercadoria de pior qualidade, porque era mais barata. As vendas despencaram imediatamente.

“Meu filho tem razão”, pensou ele. “Os tempos estão muito difíceis”.


O manual de instruções

Depois de comprar uma nova máquina de descascar legumes, a mulher tentou – usando o manual de instruções – fazer com que funcionasse. Terminou por desistir, deixando as peças espalhadas na mesa. Foi ao mercado, e ao voltar descobriu que a empregada tinha montado o aparelho.

“Mas como conseguiu isso?”, perguntou, surpresa.

“Bem, como não sei ler, fui obrigada a usar a cabeça”, foi a resposta.

Diário do Nordeste , 28/07/2018


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Paulo Coelho - Oitavo ocupante da Cadeira nº 21 da ABL, eleito em 25 de julho de 2002 na sucessão de Roberto Campos e recebido em 28 de outubro de 2002 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier.

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segunda-feira, 30 de julho de 2018

COMO SE TORNAR ESTÚPIDO EM 60 MINUTOS


Espetáculo baseado na obra de Martin Page estreia no dia 4 de agosto

Uma série de questões contemporâneas relativas à convivência humana num mundo globalizado, competitivo e hiperconectado será exposta e comentada na comédia Como Se Tornar Estúpido em 60 MINUTOS de João Sanches e Rafael Medrado baseado na obra Como me tornei estúpido de Martin Page. A peça entra em cartaz no Teatro Sesi Rio Vermelho no próximo dia 4 de agosto, aos sábados e domingos, às 20 horas.

Na comédia, um personagem que sofre por pensar demais. Infeliz por sua compulsão em racionalizar e compreender tudo e a todos, tenta, de diversas formas, “se tornar estúpido” para alcançar um pouco de paz e felicidade. A partir de sua experiência pessoal, aborda diversos episódios hilários sobre suas tentativas de se tornar estúpido.

Com muita ironia e bom-humor, o espetáculo apresenta uma espécie de aula performática sobre o tema. No espaço, que inicialmente é predominantemente preto, o “conferencista” anota dicas com giz colorido, traduzindo visualmente seus assuntos. Apaga e refaz diversas vezes, montando a cenografia no decorrer da apresentação, ao vivo, e compondo, ao fim, uma espécie de grande mural, repleto de ideias livremente associadas.

De forma dinâmica e divertida, a comédia propõe uma reflexão sobre comportamentos controversos e recorrentes na sociedade atual. Além de construir a cenografia, o ator divide a cena com um musico que conduz a trilha sonora ao vivo do espetáculo e aciona efeitos, criando uma paisagem dos acontecimentos interpretados e assuntos debatidos.

Como Se Tornar Estúpido em 60 MINUTOS teve pré estreia em Lisboa, Portugal, na Escola Superior de Teatro e Cinema, na qual Rafael Medrado faz mestrado. A peça conquistou o público português e já tem apresentações vendidas e faz temporada de estreia ainda em 2018. 

Esta sarcástica comédia convida espectadores de todos os gêneros e faixas etárias para uma divertida reflexão sobre os intrigantes condicionamentos e neuroses do mundo atual.


Ficha Técnica
Atuação/Performance: Rafael Medrado  
Encenação:João Sanches
Dramaturgia: João Sanches e Rafael Medrado (A partir da obra de Martin Page)
Trilha ao vivo: Leonardo Bittencourt
Iluminação, Cenário e Figurino: João Sanches
Operação/Performance de luz e cenário: Rafael Medrado
Paisagem Sonora : João Sanches, Leonardo Bittencourt, Rafael Medrado
Produção: Carambola Produções e LadoBe Agencia Criativa
Produtores: Milena Leão, Luana Bistane, João Sanches.
Realização: Teatro Estúdio 

Serviço
Teatro Sesi Rio Vermelho
Sábados e domingos - 20H
Estreia 04/08/18
Ingressos R$ 40,00 /20,00
Vendas na bilheteria do teatro e no Sympla
Censura: 14 anos

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RELAÇÕES AMOROSAS – Jorge Luís Santos


Toda a atividade para ser realizada precisa de uma ferramenta específica. O pintor, depende do pincel; o médico, do raio laser, o homem do campo, da enxada... E com estas mantém uma relação de amor. Quem escreve não é diferente. A caneta, antigamente, depois a máquina de escrever e hoje o computador, são ferramentas imprescindíveis, sem os quais o autor não consegue plasmar a sua criatividade.

            Tenho pessoalmente um verdadeiro amor por esses objetos “inanimados”. Cada um a seu turno. Sou do tempo da caneta, da máquina de escrever e, felizmente, da informatização destes meios: o computador.

            Lembro-me de que na comemoração de um dos dia do estudante, ganhei uma caneta no sorteio realizado na sala de aula. Fique muito feliz. Quando coloquei tinta nela, vi a minha felicidade azul escorrer por todos os lados. Mesmo assim guardei aquela caneta furada. Depois ganhei outra da mesma marca e modelo. Elas são douradas, parece de ouro, mas são de alumínio chinês. Chamam tanto a atenção, que são objetos da cobiça alheia. Quando fui assaltado, o autor do fato visava a caneta, mas só conseguiu levar o meu relógio de pulso. A máquina de escrever veio logo depois. Tive-as de quase todas as marcas. Não tenho preferência por nenhuma delas. Todas facilitam o trabalho do autor, na tarefa feliz da sua produção literária. Quem está próximo, lá pelas tantas horas da madrugada, reclama do seu tic-tac infernal. Mas o autor pode e deve, em respeito ao sono alheio e á continuidade da formalização de sua obra, utilizar-se da colaboração silenciosa da caneta, na noite iluminada pela fonte inesgotável do seu poder criador.

            O computador, principalmente o net-book, revolucionou esta relação. Menor, mais leve e portador de recursos antes inimagináveis, o net-book tornou-se uma ferramenta imprescindível na área de pesquisa e comunicação, superando infinitamente a contribuição simplória dada pela caneta e pela maquina de escrever.

            Aquele assalto não me deixou fobias. Transito pelas ruas sem nenhuma síndrome, mas também sem portar o computador. Ele não fica lá em casa, mas no meu escritório. Para acessá-lo, preciso acionar oito chaves, abrindo primeiro as portas do coração, sem o qual nem Dante Alighieri teria se inspirado, para poder nos legar a Divina Comédia.

Jorge Luís Santos.
Advogado e cronista. Itabuna - Bahia


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SUAS PALAVRAS CONSTROEM OU DESTROEM – Gloria Wendroff


Algo especial está acontecendo no mundo agora e já faz algum tempo. Está se revertendo uma tendência. Seu coração e sua mente vagam pelo mundo. Aquilo que você fala é ouvido ao redor do mundo.. O que você ouve ressoa dentro de você e cria ondas no exterior para ser repetido àquele que falou e a todos os outros, perto ou longe. Todos os problemas que você lê nos jornais, pelo simples ato de ler, você mesmo os propaga. Toda mensagem que você postar, vai alcançar mais do que apenas o destinatário. Ele na verdade viaja nas ondas de luz. Mesmo quando as ondas de luz são supostamente inexistentes, elas são vistas. Até mesmo os cegos podem vê-las.

Você é um produtor e receptor de pensamentos. O mesmo pode ser dito em relação ao amor. Você pode aumentá-lo ou não. Quem possui domínio virtual fala mais alto. A vibração deles vai mais longe. Aqueles que postam em redes, fazem sua luz chegar mais longe e mais rápido. Sua postagem pode não ser significativa, mas Seus pensamentos são. Suas palavras são. Seu amor também. O algo especial de que falo é que há uma onda de luz energizando todo o mundo. Apesar de toda a bobagem, há mais amor ressoando, e esta onda está pegando.

Sabes, onde há amor, o julgamento sai pela janela. Você treme ao pensar sobre a devastação que alguns governantes impuseram ao mundo. Uma parte sua coloca simples Seres Humanos em duas filas! Uma é a fila que lhes dá permissão para viver e a outra, a que põe um X na vida deles. As duas filas são a personificação do julgamento. Quando você julga, com seus pensamentos, você coloca as pessoas em uma destas duas filas. Basta! Faz uma só fila. Você sabe bem qual. No mundo, tudo está de cabeça para baixo. E agora você deve agir e virar o mundo para cima.

Você agora sabe que seus pensamentos afetarão todos que viverem. E agora você quer o fim da crueldade. Então, tira todas as tristezas do seu coração e transforma-as em tochas de amor. Do julgamento para o amor. Do desdém para o amor. Há muito espaço em seu coração para o amor. Dispensa o julgamento e você terá aberto muito mais espaço para o amor florescer.. Se você quisesse realmente eliminar a negatividade da face da Terra, Você nada mais  publicaria. Substitua seus pensamentos de desaprovação por atitudes de gentileza e amor, mesmo sobre aqueles que magoaram você.

Você encontrará uma maneira, pois ninguém magoa tanto quanto seus próprios pensamentos. Aqueles que causaram dor a você, estejam eles perto ou longe, sejam eles conhecidos ou não, já se esqueceram de você e não estão magoados mais. Você tomou o lugar deles com seus próprios pensamentos. Com cada pensamento nocivo que você tem, Você mesmo abre as feridas. É você quem deve acabar com a paródia da injustiça. É você quem deve transformar-se no Justo. É você quem deve eliminar os resíduos de julgamento de seu coração e seus pensamentos. É você quem deve fazer as pazes consigo mesmo e assim colocar paz no mundo.

Você não ama a guerra, mas mesmo assim pode amar as pessoas que fazem a guerra. Você tem que amá-las, pois a paz depende de você. Se você realmente ama a paz, tem que parar de condenar a todos, inclusive condenar a você mesmo. Nenhuma palavra de condenação deve sair de seus lábios novamente. Nenhuma estória de transgressão deve ser contada, pois quando você conta, você as apoia. Conta algo sobre a guerra e você vai declará-la novamente. Elimina a guerra de seu coração e cria paz. Declara trégua a você mesmo. Vá ao silêncio do seu coração e deixe jorrar as ondas de luz da paz.

Gloria Wendroff

 "Gotas de Crystal 04" <ppscrystal@yahoo.com.br>

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