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sábado, 14 de abril de 2018

A PATOLOGIA LULA - Carlos José Marques


13/abr/2018
FOTO: Marcos Bizzotto

As romarias, os cânticos em seu nome, a louvação às suas palavras, tudo leva a crer que os adoradores de Lula já o colocaram em um pedestal de divindade, no qual nenhuma acusação de crime, nenhuma prova ou evidência pode alcançá-lo. Nem mesmo erros conhecidos, a clamorosa afronta às instituições, o descaso que demonstrou com a Lei e a ordem, a incitação à baderna – sugerindo aos seguidores “queimar pneus”, “fazer passeatas” e “ocupações no campo e na cidade” – serão capazes de denegri-lo. Não para esses fiéis, cegos na veneração.

Não importa, não tem valor os desmandos, não maculem a imagem do protetor dos desassistidos – mesmo que ele tenha se locupletado com o dinheiro alheio, justamente daqueles a quem prometia a salvação. É perjúrio dizer isso, pecado capital. Bem-aventurados os que creem porque esses seguirão ao lado do todo-poderoso. O próprio Lula, como diz na pregação que fez de autorreferência, nos momentos derradeiros do martírio rumo ao calabouço, descortinou o caminho da fé: “eu não sou mais um ser humano, sou uma ideia”.

 Talvez o grau etílico no momento da fala, naquele sábado de paixão petista, tenha contribuído para o delírio. Mas há de se supor que Lula acredita na própria profecia. A ascensão do mundo dos mortais à esfera dos deuses se dá com a sagração de seus apóstolos.

 Cada um deles, congressistas de carteirinha, tratou logo de pedir à plenária daquela casa de tolerância a inclusão da menção “Lula” em seus respectivos nomes parlamentares. Assim Gleisi “Lula” Hoffmann, Paulo “Lula” Pimenta e quetais, da noite para o dia, devotaram sua existência política ao redentor. Eis a mensagem da fé! Aleluia ao Senhor. Seria cômico, não fosse triste. O Partido dos Trabalhadores agoniza engolfado pelo devaneio. Deixou de lado programas, bandeiras, a própria essência ideológica que dava corpo à agremiação, para virar seita. Tal qual a de reverendos suicidas que conclamam incautos para a reclusão e o fim trágico coletivo em nome de uma crença. A cúria petista, nos dias que se seguiram a prisão de seu líder maior, arrastou uma patológica massa de romeiros para Curitiba, sede da masmorra/recanto de seu mentor, e ali fincou acampamento, revezou hordas de peregrinos nos gritos de saudação “bom dia, Lula”, “boa noite, Lula” e maquinou a ressurreição do demiurgo. Levou governadores partidários para visitas improváveis, articulou comissões no Senado para a averiguação das condições da cadeia, promoveu algazarra e violência a intimidar os locais. Em suma, rezou conforme a cartilha de insanidades do lulopetismo. No enredo do calvário que culminou com a rendição midiática o ingrediente das vaias e fogos a comemorar o feito da Justiça não poderia faltar. Lula aquiesceu na última das quedas de sua paixão, em pleno heliporto da atual morada. 

Horas antes, do palanque improvisado em um carro de som, como numa missa de corpo presente, exibiu-se à imagem e semelhança de um cadáver político. Dava para notar no tom soturno de suas imprecações, inconformado com o próprio fim, que rogava por uma plateia maior que a avistada ali de cima. Lula almejava a reencarnação em “um pedacinho de célula de cada um de vocês”. Pedia a militância de muitos “lulinhas”, dos “milhões e milhões de Lulas”. Já era o ente falando. Os exegetas bíblicos deveriam rapidamente rever as encíclicas para incluir o nome do novo santo. Lula tem certeza de seu direito divino a figurar nos versículos do livro sagrado. Disse em certa ocasião que “as pessoas deveriam ler mais a bíblia para não usar tanto meu nome em vão” e cravou a memorável lembrança de que “não existe uma viva alma mais honesta do que eu”.

A mística do Salvador da Pátria em pessoa deu o tom do desvario de lá para cá. Não há na política brasileira mais espaço para um messias oportunista. De mais a mais, as previsões apocalípticas não se confirmaram. O mundo não acabou com a sua prisão, como ele e a parolagem petista vaticinaram. Lula é agora apenas um número no Cadastro Nacional de Presos (CNP). Detento ficha 700004553820. Até ressuscitar vai uma penosa provação. Aleluia.


Sobre o autor
Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três


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CURIOSAS SUPERSTIÇÕES! - Antonio Nunes de Souza


Curiosas superstições!

O ser humano, creio que desde o seu aparecimento no Paraíso, ou sua transformação de antigos símios como disse Darwin, provavelmente tem e carregam crenças sobre uma série de coisas que, graças a Deus, são, consistentemente, sem sentidos e sem maiores prejuízos!

Claro que, mesmo não carregando a pecha prejudicial diretamente, não deixa de causar transtornos para aqueles que creem literalmente nos seus efeitos, principalmente, quando trata-se efeitos negativos!

Esse meu preambulo foi para falar de uma superstição bastante respeitada, resguardada e, cuidadosamente olhada, que são as “sextas-feiras 13”!

Geralmente são encaradas como perigosas, carregadas de azares pecaminosos, atrapalhações nos planos, projetos, negócios e, logicamente, nas amizades e amores também!

Os mais fanáticos, ou fracos de personalidades, jamais fazem qualquer coisa de importante nessas datas, que geralmente estão presente em algumas ocasiões durante o calendário anual. Sendo que, se for no mês de agosto, para os supersticiosos, trata-se de um dia “perigosíssimo para qualquer atividade”, principalmente para viagens aéreas ou terrestres que são as mais comuns!

Infelizmente não sei a origem dessa superstição e nem de outras existentes, mas, como ser humano que sou, acompanho o respeito por essa data “fatídica”, misteriosamente azarenta!
Nada nos custa respeitar as crenças existentes tendo-se cautelas. Pois, se algo acontecer de errado, rigorosamente, a culpa foi da pobre data com fama de maligna. E, para evitar que isso aconteça, não custa nada deixar as coisas que nos são importantes para o dia seguinte, não dando chances de “azares” aos nossos interesses em todas as vertentes!

Com sinceridade, estou escrevendo essa crônica com todo cuidado, para que seja bem entendida, clara e cheia de lógicas, bastante preocupado com medo de estar sendo medíocre, sobre uma superstição tão respeitada e cultuada, por todos os brasileiros! Digo brasileiros por que desconheço se essa data também é execrada em outras fronteiras.

Se a sua significação é verídica ou não, nada custa deixar para amanhã as decisões que deveriam ser tomadas hoje. “Precaução e canja de galinha nunca fazem mal a ninguém”!

Desejo que hoje seja um dia lindo para todos e que, se fizerem algo de especial, essa terrível data esteja dormindo e que nada aconteça no sentido contrário!

Antonio Nunes de Souza, escritor
Membro da Academia Grapiúna de Letras-AGRAL

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

PROFECIA EM PALAVRAS - Gillian Macbeth-Louthan


Nós profetizamos o futuro pelas palavras que falamos no presente. As nossas palavras são sempre uma profecia auto realizável. Não plantemos sementes negativas, profetizemos apenas o bem e a intenção do bem. Nós podemos cancelar os melhores planos estabelecidos do Universo através das nossas palavras negativas e devaneios negativos.

A morte e a vida são o poder das nossas palavras. Nós teremos aquilo que dizemos. As nossas palavras vão dar vida exatamente àquilo que dizemos. Quando falamos estamos dando vida ao que estamos dizendo, estamos plantando uma semente. Nós vamos obter exatamente aquilo que estamos falando. As palavras são como as sementes: elas têm poder criativo. Nós somos o que somos hoje por causa das palavras que dissemos no passado.Todas as nossas palavras se tornam uma profecia auto realizável.

Ouçamos o que dizemos sobre nós mesmos. Pensamentos negativos não precisam tornar-se palavras negativas. No momento em que se diz algo abertamente isso ganha todo um novo significado e toda uma nova energia. Se não gostamos do que estamos vivenciando, comecemos a mudar as nossas palavras. É melhor não dizer nada do que dizer algo negativo. As palavras negativas anulam os planos de Deus, estão praguejando contra o nosso futuro, estão praguejando contra a nossa vida. Podemos usar as palavras para praguejar contra a nossa vida ou podemos usar as palavras para abençoar a nossa vida.

Digamos palavras de fé; declaremos a proteção de Deus na nossa luz e no nosso coração. Mudemos a atmosfera de todos os lugares onde vamos com as nossas palavras!Clamemos o bem! Clamemos a luz! Clamemos o amor! Clamemos por ajuda divina! Não falemos de problemas, falemos de soluções. Não somos repórteres das nossas histórias, mas protagonistas das nossas vidas.Devíamos clamar o invisível como se ele fosse realmente visível. Clamemos aquilo que nós desejamos! Clamemos com palavras cheias de fé! Clamemos com luz!

Mudemos o mundo à nossa volta mudando nossas palavras. A morte e a vida estão no poder da nossa língua. Estamos gerando ou estamos destruindo? As circunstâncias alinham-se com cada palavra que dizemos. As nossas palavras são profecias auto realizáveis. Nós somos os criadores de nossas próprias circunstâncias. O que criarmos através de nossas palavras, nós podemos alterar. Quando reagimos negativamente a mudanças repentinas e ao caos na nossa vida estamos atrasando o propósito da criação. Se aceitarmos o caos como uma oportunidade para a elevação espiritual, então a dor desaparecerá. O nosso próprio comportamento determina em que universo entramos. A profecia é ver o futuro nas nossas ações presentes.

"Gotas de Crystal" gotasdecrystal@gmail..com


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CANSAÇO - Carlos Nejar

Cansaço 
Estamos num tempo cansado, tempo que não sabe mais o que fazer de si, como não sabemos mais o que fazer ou esperar da Justiça. Outro dia, houve o julgamento de um habeas corpus de um ex-presidente. E o nobilíssimo Supremo Tribunal Federal revelou quanto a Justiça se mostra exaurida. E para não julgar, com exceções, deve estar pronta para longas férias na República. Talvez por estresse, talvez por interesses ou pressões. Pois não vi antes um habeas esquecer provas e condenações de colegiados jurisdicionais. Todavia, recordo os versos de Gonçalves Dias: “Meninos, eu vi!”

Antes o Supremo era o último baluarte da cidadania, hoje tende a ser — salvo melhor juízo, e o juízo é sempre mutável —, por tal benesse, um baluarte dos poderosos. Diz a digna presidente do Egrégio Tribunal que o tratamento ao ex-presidente é igual a qualquer um. Mas jamais vislumbrei, qualquer um, de repente, receber o benefício do salvo-conduto até o próximo julgamento. E os ministros do Supremo Tribunal Federal deram à ministra Rosa Weber a tranquilidade de exercitar a incoerência. As posições do plenário vão mudando com as estações, ou ventos. Ou as águas das constantes chuvas de violência que alagam a nação.

É humano que o Supremo canse, é humano que ele mereça solenes e incessantes férias. E é previsível até que algum dos julgadores peça vista dos autos e prolongue infinitamente o julgamento, pois a incoerência nasce da exaustão e a exaustão, do peso de julgar, nada valendo as anteriores decisões. Talvez também por serem todos os julgadores míopes, e só o Supremo saiba, tenha a claridade bem-aventurada na retina. “Não vai a Roma quem quer, mas quem pode” — advertia Machado de Assis. Todo esse processamento desvela um aspecto, além do cansaço, dos que são mais iguais diante da lei e os menos iguais — o mais não passa de remendo velho em pano velho.

Muitos aguardavam que viesse um vinho novo, um resultado de equilibrada justiça, a certeza de que ninguém está acima da Constituição. Já o tal salvo-conduto nos deixou atônitos, por inexistir precedente. Agora assistimos ao que vier, tristes, sem laivo de esperança. Porque o cansaço do Supremo, com exceções, é o cansaço supremo da Justiça, o recuo, o desabar de mais altas tradições. Se não falta coragem, falta fôlego. Se não falta fôlego, falta a ousadia no presente, que é sem futuro.
O Globo, 02/04/2018

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Carlos Nejar - Quinto ocupante da cadeira nº 4 da ABL, eleito em 24 de novembro de 1988, na sucessão de Vianna Moog, foi recebido em 9 de maio de 1989 pelo Acadêmico Eduardo Portella.

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quinta-feira, 12 de abril de 2018

O DERRETIMENTO DE UM LÍDER POLÍTICO - Jairo José da Silva



Terminado o discurso de Lula não mais olhei pra TV, fui ao concerto, jantar com amigos, pensar em outras coisas. Levei 12 horas pra digerir o que vi.

Que espetáculo! Nem Fellini poderia ter dirigido aquilo! Esses dois dias passarão para a História, não tenham dúvidas.

Vimos hoje, em cima daquele caminhão, o derretimento de um líder político em repulsivo strip-tease moral, uma viagem alucinante ao passado, uma epifania de verdades sob véus de mentiras.

Um homem que ocupou o proscênio da política brasileira por quase quatro décadas, que presidiu o país por oito anos, reduzido ao seu eu mais profundo, um agitador barato de porta de fábrica, um líder estudantil senil, um agente provocador. Discursando embebido de cachaça e ódio, sedento de vingança, conclamando arruaceiros a queimar pneus, invadir propriedades, atacar adversários, num paroxismo autolaudatório de mitomania.

O homem que ocupou a mais alta magistratura na Nação atacando a imprensa e o judiciário como um vulgar porralouca, desrespeitando instituições da democracia que jurou respeitar e defender.

Todo o espetáculo oscilou entre o patético e o ridículo. Uma fauna incrível de puxa-sacos e ratos brigando pelo espólio enfeitada com padres paramentados. Tinha até um bispo. Se eu não tivesse visto não acreditaria. Uma paródia de missa em pretensa homenagem a uma morta, mas toda dedicada ao endeusamento de um muito vivo que mostrava seu sentimento religioso mamando cachaça de uma garrafinha de água (que tentavam tirar da mão dele antes que fosse muito tarde).

Sabendo que aquele era o seu ocaso, poderia ter tido um gesto de grandeza, ter ensaiado sua entrada na História de modo mais digno, mas preferiu mandar trazer cerveja e carvão para o churrasco. Inacreditável!

Lula foi um talento político como poucos, um homem de evidente inteligência prática, mas infelizmente completamente desprovido de princípios éticos. Ele nunca se deu conta de que foi uma marionete nas mãos de oligarquias corruptoras e arcaicas estruturas políticas que o manipularam como quiseram às custas de agrados, mimos, presentes, adulação.

Aliou desonestidade pessoal com a já consagrada desonestidade intelectual e moral das esquerdas. Roubar o Estado lhe parecia uma justa estratégia política, ainda que tivesse que entregá-lo a tubarões exploradores, desde que também pudesse usufruir pessoalmente de algumas migalhas desse banquete de ratos.

Lula terminou sua carreira como começou, como um líder sindicalista. Mas se aquele homem jovem dos anos 80 trazia consigo uma promessa de renovação, o velho fauno de hoje é só uma paródia de si mesmo.

Esse Lula de hoje é o mesmo Lula dos anos 80 e 90, o verdadeiro. O Lulinha paz e amor dos anos 00 e 10 foi uma invenção de Marcelo Odebrecht, que inclusive redigiu o infame Manifesto à Nação que tornou Lula palatável às classes médias. Lula Odebrecht acabou, sobrou um saco vazio recolhido a uma cela.

Lula foi preso e o país não parou, não houve comoção popular, não houve choro e ranger de dentes - o povo preferiu ir aos estádios de futebol - e na frente do sindicato só havia os mesmos fanáticos de sempre.

A montanha pariu um rato.


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OS ESTILHAÇOS DA REALIDADE - Antonio Carlos Secchin


Os estilhaços da realidade


Na capa de Exílio, de Lucas Guimaraens, uma imagem negra se adensa, depois se esvazia, até se configurar em pigmentos estilhaçados. Que melhor representação para o exílio, senão o estilhaço? Pontos nômades, sem centro, submersos no "lago das incertezas", subtítulo deste que é o terceiro livro de poemas do autor.

As 68 páginas do volume são atravessadas pela presença icônica de algumas linhas que menos costuram do que desfazem os nós de uma aventura na linguagem, espraiada em cinco seções que mesclam prosas e poemas. Pena que o volume, de 68 páginas, abertas por epígrafe de Silviano Santigo, e seguidas por arguto ensaio de Edmilson Pereira, não comporte sumário, para que o leitor se informe das etapas que o esperam nesse périplo: "das asas", "ponto", "histórias reais de um carnaval imaginário", "festival" e "do risoto ao Mar Morto".

Tais títulos já indiciam a resoluta opção por trilhas refratárias a compromissos "realistas", confessionais, em prol de uma elocução que investe na espessura da linguagem. A dicção de Lucas deseja-se intensamente poética, ainda que às expensas de maior grau de comunicabilidade. Daí, em algumas peças, a constituição de um mundo imerso no onírico ("se aros de bicicletas rangessem olhos"), em que as palavras, em vez de "explicar" a realidade, terminam por cifrá-la.

Num poema do livro de estreia. Onde (2011), declara Lucas: "poesia é alumbramento/... /é condensação de vertigens". Na segunda obra, 33,333-conexões bilaterais (2015), esmerada produção gráfica numa parceria com as imagens de Fernando Pacheco, o poeta permanece fiel a esse ideário, na busca de "palavras que trepam delírios". E em Exílio, não sem alguma ironia, declara: "você operária do verso coloquial/ permanecerei na órbita lunar/ .../ lerei seus posts ao contrário/ quem sabe me apaixono por você". Poeta lunar, na trilha de seu bisavô Alphonsus? Não exatamente, porque, se Alphonsus celebrava a luz da Lua refletida na Terra, Lucas prefere não aterrissar no planeta pedestre e "coloquial", optando por encetar viagens verbais que o lancem aos "brilhos das estrelas", território livre em que "feridas e sonhos remanejam o invisível".

Uma atmosfera sombria marca a primeira seção da obra. Em "das asas", tanto na prosa do texto inicial quanto nos versos da grande maioria das nove peças subsequentes o desencontro é a tônica, conforme se lê na forte imagem que arremata o poema "exílio": "corrimão de incertezas sob os dedos da saudade". A abertura em prosa, seguida de poemas, é, aliás, um procedimento que se reitera em todas as seções do livro. Um curioso mix de realidade e delírio perpassa os blocos quatro e cinco, em que textos inicialmente "referenciais" - um festival de poesia de que Lucas efetivamente participou, na Turquia, uma viagem à Europa e a Israel - sofrem gradativas interferências e estranhamentos, a ponto de desnortear as balizas de causa e efeito que o leitor, eventualmente, estivesse tentando erguer. Em Lucas, o real surge em fragmentos, e o resultado remete a um conjunto de peças díspares que não propiciam a tranquilidade apaziguadora de um espelho, mas, ao contrário, atiçam a percepção do desencaixe das coisas, afirmando que nada é exatamente o que supomos que seja. Mundo em contínuo deslizamento, espaço de fraturas expostas pelo verbo, eis a fabulação de uma poesia que não nos acalenta, mas provoca e desafia. Contra o bom senso e a previsibilidade, este "exílio", decididamente, nos faz mergulhar no "lago das incertezas".

Estado de Minas, 06/04/2018

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Antonio Carlos Secchin - Sétimo ocupante da Cadeira nº 19 da ABL, eleito em 3 de junho de 2004, na sucessão de Marcos Almir Madeira e recebido em 6 de agosto de 2004 pelo acadêmico Ivan Junqueira.

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quarta-feira, 11 de abril de 2018

CENAS DE UM DIA NA CORTE - Zuenir Ventura


Cenas de um dia na Corte

Foram quase 11 horas com apenas alguns intervalos, bem mais do que a peça de Ariane Mnouchkine “Rei do Camboja”, de oito horas, a que assisti em 1985 em Paris e que era o meu recorde de espectador. Só que o espetáculo do STF teve mais suspense, pois não se sabia o que iria acontecer com o protagonista.

O número exótico foi apresentado por Gilmar Mendes, vindo especialmente de Lisboa, para onde voltou após votar. Deu um show de interpretação com sua retórica teatral de caras e bocas. Exaltou-se, responsabilizou os petistas pela atual intolerância e jogou pedras na Geni, que é a imprensa hoje.

Disse que nunca viu uma “mídia opressiva” como a de agora. Acusou o “Jornal Nacional” de “neopunitivismo” por querer “provar minha incoerência” , deu um esbarrão no GLOBO e fez pior com a “Folha de S.Paulo”, chamando-a de “mídia chantagista”. Queixou-se também dos que querem lhe dar lição sobre o sistema penitenciário. “É injusto ou indigno para comigo. Eu fui a Bangu e Pedrinhas, conheço esse sistema”. Ah, sim, e também votou, como esperado, a favor da concessão do habeas corpus.

O melhor momento foi proporcionado por Luís Roberto Barroso. Com um discurso claro, objetivo e convincente, ele deixou sem graça os que defendem o tal trânsito em julgado, ao exibir exemplos de condenados que, de recurso em recurso, passaram dez, 20 anos livres. Como “impactos devastadoramente negativos” de uma decisão proibindo a prisão após condenação em segunda instância, ele citou a impunidade de quem tem bons advogados e o descrédito do sistema penal. “Condenou-se a advocacia criminal ao papel de interpor recurso incabível atrás de recurso incabível para impedir a conclusão do processo e gerar artificialmente prescrições”.

Rosa Weber foi a quinta a votar, cercada da maior expectativa. Era aguardada como fiel da balança. Por cerca de uma hora fez uma apresentação técnica, hermética, coerente, sem concessões, de sua justificativa. Ela se baseou no “princípio da colegialidade”, que faz “as vozes da individualidade cederem em favor de uma voz institucional”.

Por fim, é triste lamentar o comportamento de Marco Aurélio (ajudado por Levandowski), que, inconformado com a derrota, foi deselegante e descortês com Cármen Lúcia e Rosa Weber, interrompendo-as enquanto falavam, lançando farpas e distribuindo ressentimentos e queixumes.

Marco Aurélio perdeu uma boa oportunidade de se mostrar um cavalheiro com duas das mais brilhantes e serenas representantes do empoderamento feminino na Justiça.

O Globo, 07/04/2018

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Zuenir Ventura - Sétimo ocupante da Cadeira n.º 32 da ABL, Zuenir Ventura foi eleito no dia 30 de outubro de 2014, na sucessão do Acadêmico Ariano Suassuna, e recebido no dia 6 de março de 2015, pela Acadêmica Cleonice Berardinelli.

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