*Cyro de Mattos é autor de 43 livros individuais. Organizou dez antologias. Tem doze livros publicados em várias editoras europeias. Membro efetivo da Academia de Letras da Bahia. Doutor Honoris Causa da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)
Eu sou fã de carteirinha do mestre Rubem Alves e
ler os seus livros tem me ajudado a ser um professor melhor e um ser humano
melhor. A forma simples que ele conseguia transmitir grandes ensinamentos me
encanta e faz perceber que a famosa frase do Leonardo da Vinci é a mais
pura verdade: “A simplicidade é o último grau de sofisticação”.
Li um texto no qual ele falava sobre as pessoas cisternas e
as pessoas fontes. Confira!
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William Blake foi um poeta inglês a quem aconteciam
aforismos. Disse «aconteciam» porque aforismos são como relâmpagos. Acontecem.
Iluminam repentinamente o céu vindos não se sabe donde. Como os relâmpagos, com
um poder para rachar rochas. Hoje um dos seus relâmpagos aconteceu: «As
cisternas contêm; as fontes transbordam.»
«Cisternas» são buracos que se fazem na terra para guardar a
água da chuva. São muito úteis em regiões áridas onde a chuva é rara e os rios
não correm.
A água que a cisterna contém não brota dela. É um outro que
a põe lá.
As fontes são outra coisa. São símbolos de vida. Parodiando
o Riobaldo eu digo: «Onde as fontes borbulham tudo é alegria.»
Para se ter uma fonte não é preciso cavar. É a própria água
que cava o seu buraco. A terra não consegue conter a sua pressão para sair. É
uma erupção vulcânica, a terra ejaculando a vida.
Olhando-se para o fundo de uma fonte através de sua água
cristalina a gente vê a areinha a ser lançada para cima pela força da água. A
água vai saindo sem parar até que transborda dos limites do seu buraco,
transformando-se num filete de água que pode, eventualmente, transformar-se num
rio.
Um outro aforismo de Blake dá-nos a chave para decifrar o
sentido deste: «O homem que nunca altera suas opiniões é como água parada: gera
répteis na sua mente.» Cisterna é um lugar de água parada que pode gerar
répteis. A «fonte» é um lugar de águas sempre novas que transbordam.
São metáforas de dois tipos de pessoas. Há pessoas que são
«cisternas» e há pessoas que são «fontes».
E são metáforas de dois tipos de educação. Há uma educação
cisterna e uma educação-fonte.
A educação cisterna quer encher o buraco chamado aluno com
uma água que não brota dele. A educação-fonte não quer colocar água dentro do
aluno. Quer é fazer brotar a fonte que mora dentro dele, escondida.
Lembrei-me do Pequeno Príncipe: «O deserto é belo porque em
algum lugar ele esconde uma fonte».
Uma criança é bela porque dentro dela há
uma fonte escondida.
Toda a gente tem uma fonte. Com frequência essa fonte está
enterrada com entulho.
Rubem Alves
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Sendo professor eu posso afirmar que nosso sistema
educacional ainda é extremamente arcaico e contribui para que nossos
queridos alunos deixem de ser fontes e passem a ser cisternas.
O que leva a isso é o modelo conteudista. Tem um
professor especializado para cada matéria: Matemática, Física, Química,
Biologia, Português, Inglês, História, Geografia…
O objetivo é encher o máximo possível os alunos de
conteúdos. Para que? Nem os professores sabem explicar.
Quando os alunos perguntam pra que precisam estudar tanta
coisa, a resposta quase unânime dos professores é: “Você precisa disso pra
fazer a prova do ENEM. Depois que você passar nunca mais vai precisar disso
novamente…”.
E infelizmente, eu também digo a mesma coisa, porque é a
verdade do nosso país! Aproveito até para comentar sobre a última prova do
ENEM, a do ano 2017. Comparada com os anos anteriores, ela estava absurdamente
mais difícil e específica. Foi-se o tempo no qual a prova era aquele mamão com
açúcar para interpretar um gráfico simples ou uma tabela mais simples ainda.
Eu sou formado em Física e teve questões de Física que se
você me perguntar como resolve eu vou dizer simplesmente: “Não sei!”. Tamanho
era o grau de dificuldade dessa prova.
Não consigo imaginar como uma prova como essa pode
contribuir para que os estudantes sejam fontes. Ela só reforça o modelo que já
vem se perpetuando há séculos.
Antes de concluir, quero comentar sobre algo que já falei
tempos atrás na fanpage do blog e ilustra perfeitamente a proposta do texto do
Rubem.
Em 2013 eu dei aula em uma escola da periferia de Fortaleza.
Uma escola na qual a quase totalidade dos alunos eram muito pobres e
desfavorecidos.
Foi uma verdadeira oficina de aprendizados na minha vida o
tempo que fiquei lá. Sempre digo que eu aprendi muito mais com os alunos do que
fui capaz de transmitir a eles.
Tinham alunos com capacidades natas extraordinárias, que não
eram valorizadas por causa do contexto no qual viviam. Dentro de uma periferia,
com mortes e assaltos acontecendo quase em cada esquina!
Um aluno em especial era o líder de uma das turmas. Era
muito querido pelos colegas e deixava o ambiente da sala com uma energia
incrível.
Era comunicativo, sabia se expressar como ninguém, tinha
liderança, sabia tocar vários instrumentos musicais sem nunca ter feito
escolinha de nada. Sabia atuar em peças de teatro com uma destreza que me
deixava de queixo caído etc.
No entanto, ele detestava Matemática e Física, as
disciplinas que ministrava. A gente se dava super bem e ele tinha um enorme
respeito por mim. Mas quando chegava as provas, seu resultado era um desastre
total, e quando chegava a hora de dar a nota dele, e me “estrebuchava” como se
diz. Eu dizia pra mim mesmo: “Quem sou eu pra dar uma nota dessa para um
garoto tão bom, tão talentoso?…”.
Eu me sentia muito mal em fazer isso. Estava, ao lhe dar
nota baixa, lhe fazendo se transformar em uma cisterna e deixando de ser uma
fonte.
Se ele fosse incentivado a fazer um curso de teatro ou de
comunicação e se desenvolvesse nisso, certamente ele se tornaria mais e mais
fonte a cada dia, mas a escola faz o contrário, ela enterra esses talentos
incríveis.
Esse é só um exemplo do que acontece o tempo todos nos 4
cantos desse país. Qualquer professor de escola que ler esse texto vai se
identificar com o que estou dizendo. Isso é praticamente um desabafo em relação
a um sistema educacional que já faliu há muito tempo e me parece que vem
ganhando força. Foi por isso que comentei sobre a prova ENEM 2017.
Reflita sobre esse genial texto do mestre Rubem Alves e esse
relato vivido por mim e procure alimentar o lado fonte que certamente existe
dentro de você e que talvez esteja adormecido por causa da vida e da sociedade
que acabaram lhe transformando numa cisterna…
ISAIAS COSTA
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Isaias Costa, 28 anos. Sou Bacharel em Física e Mestre em
Engenharia Mecânica. Descobri o meu amor pela escrita nas dificuldades que
passei no meu caminho, aliado ao prazer de ler sobre Filosofia, Psicologia e
Teologia.
O Dia da Consciência Negra é comemorado em 20
de novembro em todo o país.
A data homenageia o Zumbi, um escravo que
foi líder do Quilombo dos Palmares. Zumbi morreu em 20 de novembro de 1695.
O objetivo do Dia da Consciência Negra é fazer uma reflexão
sobre a importância do povo e da cultura africana, assim como o impacto que
tiveram no desenvolvimento da identidade da cultura brasileira.
A sociologia, a política, a religião e a gastronomia entre
várias outras áreas foram profundamente influenciadas pela cultura negra. Este
é um dia de comemorar e mostrar profundo apreço pela cultura afro-brasileira.
Origem do Dia Nacional da Consciência Negra
O Dia da Consciência Negra foi estabelecido pelo
projeto Lei nº 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. No entanto, apenas em
2011 a presidente Dilma Roussef sancionou a Lei 12.519/2011 que cria
a data, sem obrigatoriedade de feriado.
No entanto, atualmente, o Dia Nacional da Consciência Negra
é considerado feriado em mais de mil municípios.
História de Zumbi
No período do Brasil colonial, Zumbi simbolizou a luta do
negro contra a escravidão que sofriam os brasileiros de etnia negra. Zumbi
morreu enquanto defendia a sua comunidade e lutava pelos direitos do seu povo.
Os quilombos, liderados por Zumbi, formavam a resistência ao
sistema escravocrata que vigorava, e eram os principais responsáveis pela
preservação da cultura africana no Brasil.
Zumbi lutou até a morte contra a escravidão, que só viria acabar em
1888, com a abolição oficial da escravatura no Brasil, cerca de 193 anos após
sua morte.
Sou licenciando em filosofia, especialista em ética
e bacharel em teologia. Mestre em educação pela UEPG, e pela mesma
universidade, sou atualmente doutorando (bolsista CAPES/Fundação Araucária).
Gosto muito de estudar filosofia contemporânea com ênfase em ética. Acredito
que a existência é única e necessita ser refletida para encontrarmos o sentido
para a nossa vida.
Defendo o respeito à dignidade da pessoa humana como um
valor ético fundamental. Sou organizador de alguns livros pela Editora
Multifoco. Entre outros, relaciono: Diálogos Contemporâneos entre
Filosofia e Educação (2017); Ensaios entre Filosofia e Educação (2016); Educação
Contemporânea em Perspectiva (2015).
“O objetivo é divulgar uma perspectiva de entendimento do
ensino de filosofia que entende a filosofia como meio para a criação de
conceitos.”
Boa leitura!
Escritor Fábio Antonio Gabriel, é um prazer contarmos com a
sua participação na revista Divulga Escritor. Conte-nos, o que diferencia um
pensamento filosófico de um pensamento comum?
Fábio Gabriel - Parto da ideia de Gramsci de que todos
os homens são filósofos. Acredito que todas as pessoas estão a filosofar, mesmo
que não saibam a razão desse pensar; o que nos diferencia dos outros animais é
justamente a capacidade de pensar e, consequentemente, de filosofar. Por outro
lado, baseio-me no filósofo Deleuze para dizer que a filosofia é a arte de
criar conceitos. Então responderei esta questão dizendo que um pensamento
filosófico tem como especificidade ser um pensamento conceitual. Ao longo do
livro “A aula de Filosofia enquanto experiência filosófica” procuro destacar
que é importante que a aula de filosofia não seja algo distante da própria
existência.
Em que momento pensou em escrever “A aula de Filosofia
enquanto experiência filosófica”?
Fábio Gabriel - Na verdade, trata-se da minha pesquisa
de mestrado sobre ensino de filosofia que acabou se transformando em um livro.
Transformei-a em livro para poder socializar os resultados da pesquisa de
doutorado.
Quais os principais objetivos a serem alcançados por meio do
conteúdo apresentado nesta obra?
Fábio Gabriel - O objetivo é divulgar uma perspectiva
de entendimento do ensino de filosofia que entende a filosofia como meio para a
criação de conceitos.
Apresente-nos a obra
Fábio Gabriel – O livro“A aula de filosofia enquanto
experiência filosófica” destaca-se como uma obra que evidencia as pesquisas do
professor de filosofia Fábio Antonio Gabriel. Neste trabalho, o autor
problematiza a possibilidade de um ensino de filosofia que não esteja centrado
no enciclopedismo, mas no conhecimento de filósofos, propondo um ensino de
filosofia que se relacione com a existência dos próprios interlocutores. O
subtítulo:“Possibilitar ao estudante de filosofia criar conceitos e avaliar o
valor dos valores” descortina um entendimento das contribuições teóricas
de Deleuze e de Nietzsche apresentadas no livro. A obra revela a pesquisa de
mestrado sobre ensino de filosofia, realizada na Universidade Estadual de Ponta
Grossa.
A orientadora, Profa. Dra. Ana Lúcia Pereira, assim afirma
no prefácio: “A pesquisa de Fábio Antonio Gabriel vem ao encontro de estudos
que revelam que quando a aula de Filosofia permite ao estudante criar conceitos
e ou avaliar o valor dos valores está se permitindo realizar uma experiência
filosófica muito além do enciclopedismo. O autor destaca ainda que essas
atividades (criar conceitos e avaliar o valor dos valores) relacionam-se intimamente,
na medida em que, ao criar conceitos, o estudante estará repensando seus valores
e avaliando os valores vigentes na sociedade contemporânea, na sociedade em que
se insere, da mesma forma que, ao avaliar o valor dos valores, o estudante
também estará recriando conceitos e criando novos conceitos”.
Como seria uma aula de Filosofia enquanto experiência
filosófica?
Fábio Gabriel - Uma aula de filosofia enquanto
experiência filosófica é uma aula que relaciona os teóricos da filosofia com a
vida. O enciclopedismo tende apenas a transmitir os conhecimentos filosóficos
sem relacioná-los com a existência, e isso acaba limitando o âmbito da
filosofia. Acredito que a filosofia deve estar relacionada com a própria
existência das pessoas e, assim, penso que a filosofia deva contribuir para uma
existência mais significativa de quem tem contato com ela.
Fábio Gabriel - Não me vejo exatamente como um
escritor, mas como alguém que tem desejo de pesquisar sobre o ensino de
filosofia e acaba registrando e socializando seus resultados de pesquisa.
Pois bem, estamos chegando ao fim da entrevista. Muito bom
conhecer melhor o escritor Fábio Antonio Gabriel. Agradecemos sua participação
na Revista Divulga Escritor. Que mensagem você deixa para nossos leitores?
Fábio Gabriel - Termino com uma frase de Sócrates: “Uma
vida que não é examinada não vale a pena ser vivida”. Nesse sentido, acredito
que a filosofia pode nos auxiliar a pensar nossa própria existência e dar
sentido a ela. Quando damos sentido para nossa vida até mesmo o sofrimento
passa a contribuir para nosso crescimento pessoal e profissional.
No meu site você poderá conhecer mais sobre meu
trabalho como professor de filosofia e organizador de livros: www.fabioantoniogabriel.com
Divulga Escritor, unindo você ao mundo através da Literatura
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Hino à Bandeira
Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
Refrão:Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.
(Refrão)
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amado,
poderoso e feliz há de ser!
(Refrão)
Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!
Refrão:Recebe o afeto que se encerra
Em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!
(Poesias infantis, 1904)
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Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac),
jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de
dezembro de 1865, e faleceu, na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918. Um dos
fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a cadeira nº. 15, que tem
como patrono Gonçalves Dias.
+ Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus
25,14-30
- Glória a vós, Senhor!
Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:
Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou
seus bens.
A um deu cinco talentos, a outro deu dois e ao terceiro, um; a cada qual de
acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou.
O empregado que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com
eles, e lucrou outros cinco.
Do mesmo modo, o que havia recebido dois lucrou outros dois.
Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra,
e escondeu o dinheiro do seu patrão.
Depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar contas com os empregados.
O empregado que havia recebido cinco talentos entregou-lhe mais cinco, dizendo:
`Senhor, tu me entregaste cinco talentos.
Aqui estão mais cinco que lucrei'.
O patrão lhe disse: `Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na
administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais.
Vem participar da minha alegria!'
Chegou também o que havia recebido dois talentos, e disse:
`Senhor, tu me entregaste dois talentos. Aqui estão mais dois que lucrei'.
O patrão lhe disse: `Muito bem, servo bom e fiel! Como foste fiel na
administração de tão pouco, eu te confiarei muito mais.
Vem participar da minha alegria!'
Por fim, chegou aquele que havia recebido um talento, e disse: `Senhor, sei que
és um homem severo,
pois colhes onde não plantaste
e ceifas onde não semeaste. Por isso fiquei com medo
e escondi o teu talento no chão. Aqui tens o que te pertence'.
O patrão lhe respondeu: `Servo mau e preguiçoso! Tu sabias que eu colho onde
não plantei e que ceifo onde não semeei? Então devias ter depositado meu
dinheiro no banco, para que, ao voltar, eu recebesse com juros o que me
pertence.'
Em seguida, o patrão ordenou: `Tirai dele o talento e dai-o àquele que tem dez!
Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele
que não tem, até o que tem lhe será tirado.
Quanto a este servo inútil, jogai-o lá fora, na escuridão. Ali haverá choro e
ranger de dentes!'
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Roger
Araújo:
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Quem tem medo do Deus de Jesus?
“Fiquei com medo e enterrei o teu talento no chão” (Mt
25,25)
A liturgia deste domingo (33º Dom TC) nos propõe uma
parábola que pode ser facilmente mal interpretada; ou pior ainda, fomentar a
auto-autocobrança e o perfeccionismo. E, como consequência, os sentimentos de
culpa, de impotência, de fracasso...
No campo específico da espiritualidade cristã, uma leitura
deturpada da parábola dos “talentos” pode conduzir a uma religiosidade perigosa
por vários motivos: supõe a imagem de um Deus como um patrão que exige um
cumprimento das suas ordens até os mínimos detalhes, sem admitir nenhum
fracasso; fomenta a ideia do mérito e, com isso, uma religião mercantilista;
alimenta um perfeccionismo – busca de um “ideal de perfeição” -, que gera muito
sofrimento e farisaísmo; estimula a competitividade para ver quem consegue um
“prêmio maior”... Em definitiva, aqui nos encontramos diante de uma parábola
potencialmente perigosa.
Todos nós temos uma tendência a alimentar o perfeccionismo e
a leitura da parábola dos talentos só viria confirmar essa tendência. De fato,
o conceito de perfeição cristaliza-se em nós desde a infância, a partir de
experiências não integradas, de sentimentos de culpabilidade, e que acabam nos
identificando, no plano pessoal, como não ter defeitos, não ter fragilidades,
não ter nenhuma falha ou pecado. Trata-se de um modo fechado de viver dentro do
próprio eu orgulhoso, que exige o máximo esforço para não falhar em ponto
algum, uma vez que o “perfeccionista” está convencido de que somente será amado
por Deus e pelos outros se for perfeito. A grave consequência disso é que
estaríamos pervertendo a mensagem de Jesus, centrada radicalmente na
gratuidade, na compaixão e no amor.
Custa-nos reconhecer Jesus como autor da “parábola dos
talentos. Mas, em todo caso, não podemos perder de vista que se trata de uma
parábola, e que a leitura tampouco pode ser literal. Como ler esta parábola
para poder recuperar sua mensagem genuína e, ao mesmo tempo, evitar os riscos
que o próprio relato deixa transparecer?
Em primeiro lugar, coerente com a própria mensagem
evangélica, só nos cabe ler a parábola como palavra de sabedoria e não como
código moral; deve ser entendida a partir da gratuidade e não a partir da ideia
do mérito e da recompensa. Tudo é dom e somos felizes na medida em que
permitimos que esse dom se manifeste em e através de nós.
Também é importante que levemos em conta a situação concreta
em que Jesus vivia quando falava em parábolas. Ele viveu situações muito
conflitivas e de enfrentamento com os fariseus, os sumos sacerdotes, os mestres
da lei. Mateus coloca esta parábola dos talentos em um momento de máxima tensão
e enfrentamento de Jesus com os fariseus; concretamente, com o “Deus” dos
fariseus, que era um Deus terrível, ameaçante e justiceiro. Aqui, nesta
instigante parábola, Jesus desmascara a falsa imagem de Deus dos fariseus, que
torna a vida pesada e marcada pelo medo. É como se Ele dissesse: “Meu Pai não é
assim; Ele é fonte de amor, de misericórdia e só deseja que as pessoas vivam
felizes, sem medo”.
Nesse sentido, é sumamente útil aprofundar e conhecer o
verdadeiro sentido da parábola dos talentos. Normalmente, costuma-se explicar
esta parábola dizendo que Deus dá a cada pessoa uma quantidade determinada de
talentos, divinos e humanos, dos quais terá de prestar contas a Ele, até o
último centavo, no dia do Juízo Final. Quando se interpreta a parábola dessa
maneira, o Deus que aí aparece é uma ameaça insuportável; ao considerar a
parábola como uma exortação à uma “vida perfeita”, falsifica-se o sentido
autêntico da mesma. O que está em questão aqui é a “imagem” de Deus que todos
trazemos.
O indivíduo que recebeu um só talento está convencido de que
o “senhor”, ou seja, Deus, é “duro”, pois “colhe onde não semeou e ajunta onde
não espalhou”. Esse indivíduo tem uma ideia terrível de Deus. E por isso, como
é natural, “tem medo”; e o medo o leva a “esconder o talento debaixo da terra”.
Isso, precisamente, foi sua perdição. O medo paralisa, ou seja, torna as
pessoas estéreis. No fundo, Jesus está dizendo o seguinte: “o Deus que ameaça
com a exigência da prestação de contas até o último centavo, é um Deus que
bloqueia e anula as pessoas, os grupos, as comunidades”. Por isso, é urgente
acabar com a imagem do Deus que ameaça, que não liberta nem cura, que nos
amarra e não nos deixa viver.
De fato, a presença de Deus na vida e na história de muitas
pessoas é vivida secretamente sob as vestes do temor e do medo. Um “Deus” que a
todos nós pedirá contas no juízo, onde teremos de responder pelo mau uso de
nossos dons; um “Deus” que nos castiga com desgraças, por causa de nossos
fracassos; um “Deus” interesseiro, um senhor severo que impõe obrigações duras
e dificulta nossa entrada no banquete; um “deus-patrão” que nos prende com
contratos e cobranças; um “Deus” que é um constante perigo, causador do Grande
Medo que nos paralisa.
Crer em um Deus que pede conta até o último centavo é o
mesmo que crer em um juiz justiceiro que torna a vida amarga e pesada. Sem a
superação cotidiana dos medos, nossa experiência de Deus estará comprometida,
perderá sua força inovadora e nos fará menos humanos.
Para relacionar-nos humanamente com o Deus que Jesus nos
revelou, o mais urgente que devemos fazer é quebrar as “falsas imagens” d’Ele
que carregamos em nossas consciências, em nossa intimidade mais secreta. E a
primeira e principal imagem falsa é que Deus é uma ameaça da qual devemos nos
proteger.
Deus é fonte da Vida, ou melhor, o próprio Dom, o “talento”
que se dá generosamente em tudo. Ao conectar com nossa verdadeira identidade,
nós nos descobrimos n’Ele, não como uma presença separada, mas como nosso
núcleo mais íntimo e profundo.
Essa descoberta é a fonte de nossa ação; estamos permitindo
que o “talento” – o Dom, a Graça, Deus..., possa viver em nós; deixar “Deus ser
Deus em nossa vida”. Tal vivência sempre dará fruto abundante. Mas o fruto não
é algo conquistado, que antes nos faltara e nos é dado agora em forma de prêmio
ou recompensa – para engordar o ego -; o “prêmio” não é outro que a descoberta
daquilo que somos e o prazer de viver isso. O “talento” que nos é presenteado é
a descoberta da plenitude que sempre fomos.
Finalmente, aquele que não faz frutificar o talento fala
também de nós mesmos, quando permanecemos na ignorância de quem somos e, desse
modo, “perdemos” a vida, fechados – o talento enterrado – em nossa pequena
couraça narcisista. Isso significa não deixar o talento expandir e
permaneceremos nas trevas de nós mesmos, perdidos na confusão e no sofrimento.
Mais uma vez, não se trata de uma ameaça e, menos ainda, de
um castigo: é um apelo que nos chama a despertar, para que saiamos das crenças
tóxicas que envenenam a mente e o coração, não nos deixam amadurecer no nível
humano e espiritual e nos privam do prazer de viver o Dom (Talento) que nos habita.
Texto bíblico: Mt 25,14-30
Na oração: No interior de cada um, Deus está chamando, está
convidando a que ponha em movimento toda a capacidade de admiração e quer
ensinar a ler e interpretar Sua presença em todas as coisas.
- pedir para experimentar, desde já, a presença do Senhor
tal como Ele é, evitando todas as suas falsas imagens; diante de sua
presença cada um deve sentir-se acolhido, desafiado e com uma nobre missão a
realizar.
Tudo pronto para mais um “desjulgamento”. Graças à ministra
Cármen Lúcia, família Picciani nada tem a temer.
Por Lillian Witte Fibe
access_time16 nov 2017
O presidente do Senado e a presidente do Supremo.
(Reprodução/Reprodução)
Pois é, ministra Cármen Lúcia, políticos presos seguem sendo
libertados em todo o Brasil graças a seu voto de minerva.
Em nome do que, mesmo? Da segurança institucional?
Ora bolas, conta outra.
Quando a presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, se reuniu com o
presidente do Congresso, Eunício Oliveira, às vésperas da histórica decisão
sobre o recolhimento noturno do senador Aécio Neves, minhas antenas
jornalísticas me alertaram.
Mas não deu pra imaginar que as consequências seriam tão graves. Tão tristes
para uma sociedade que clama pelo combate à corrupção endêmica.
Pelo fim dos bancos paralelos, das planilhas de propinas, pelo fim dos carros
fortes transportando as nossas cédulas por ordem dos chefões das organizações
criminosas.
A presidente do Supremo, tão experiente também em política, pois não há novatos
nem ingênuos na corte, recuou num momento chave.
Poderia ter optado pela tolerância zero à corrupção, que até então parecia lhe
pautar a vida. Os senadores ameaçaram desacatar o Supremo, que tremeu. Ela se
reuniu com Eunício, e, em seguida, convocou o plenário. Quando deixou de lado a
tolerância zero, optando pela negociação. E desempatou uma votação: cabe aos
“legislativos” (câmaras municipais, assembleias estaduais, além do próprio
Congresso) a última palavra sobre a punição a seus pares, a despeito do que diz
a lei sobre o assalto contínuo que nos vitima a todos, o crime de roubo.
Em outras palavras: os juízes julgam, mas parlamentares… pensando bem, a única
palavra que me ocorre é uma inexistente: “desjulgam”.
Parlamentares “desjulgam”.
Não há na língua portuguesa outro verbo para isso.
Aécio, foro privilegiado, foi penalizado pelo Supremo e “despunido” pelo
Senado.
Daí em diante, a febre de soltura de outros corruptos reverberou pelo Brasil.
E os “legislativos”, imbuídos da autoridade que lhes foi concedida pelo mesmo
Supremo, não demoraram a agir:
Portanto, a família Picciani, alvo, como sabemos, de uma das mais recentes e
maiores operações da Polícia Federal, nada tem a temer.
Independente do que desembargadores decidirem hoje sobre os pedidos de prisão
do Ministério Público, está tudo pronto na Assembleia para manter em liberdade
seu líder máximo.
Que vem a ser pai do ministro do Esporte de Temer, Leonardo Picciani,
mencionado em delação premiada.