— O Senhor esteja convosco.
— Ele está no meio de nós.
— PROCLAMAÇÃO do Evangelho de Jesus Cristo + segundo João.
— Glória a vós, Senhor.
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: ”Não se perturbe o vosso
coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há
muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar
para vós e, quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos
levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós. E, para
onde eu vou, vós conheceis o caminho”.
Tomé disse a Jesus: “Senhor, nós não sabemos para onde vais. Como podemos
conhecer o caminho?” Jesus respondeu: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a
Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. Se vós me conhecêsseis,
conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes”.
Disse Felipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” Jesus respondeu:
“Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Felipe? Quem me viu, viu o
Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? Não acreditas que eu estou
no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim
mesmo, mas é o Pai, que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. Acreditai-me:
eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas
mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará
as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o
Pai”.
Ligue o vídeo abaixo e acompanhe a reflexão do Pe. Paulo
Ricardo:
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VIVER COMO
RESSUSCITADOS: encontrar-se na própria casa
“Vou preparar um lugar para vós..., a fim de que onde
eu estiver estejais também vós” (Jo. 14,3)
O evangelho deste domingo (5º Dom Pásscoa), tomado de João,
não descreve uma aparição do Ressuscitado, mas é o mesmo Ressuscitado que se
apresenta e fala para a comunidade dos seus seguidores.
Trata-se de um texto pós-pascal, pois à medida que vamos
entrando no texto caímos na conta que Aquele que fala é o Vivente. A sua voz
não é aquela de um morto que apareceu, mas a Voz da Vida. O contexto deste
evangelho é o discurso de despedida de Jesus na Última Ceia. Nos versículos
anteriores, Ele havia anunciado a traição de Judas, a negação de Pedro, o
anúncio da partida. Tudo isso deixou os discípulos desconcertados, abatidos e
com medo.
Jesus sente a tristeza e a perturbação dos seus discípulos;
esquecendo-se de si mesmo e do que lhe espera, dirige-lhes palavras para
animá-los na esperança, fortalecê-los no meio da angústia, devolver-lhes o
horizonte de vida. E uma das imagens que Jesus usa para pacificá-los é a da
“morada” ou “estâncias” no coração do Pai; imagem que pode oferecer o
sentimento de proteção e acolhimento. Uma morada significa muito mais que
uma presença. Uma pessoa pode estar presente em seu local de trabalho, na rua...,
mas a morada, a habitação ela a tem em sua casa. E Deus quis ter uma morada e
uma habitação em nosso interior. Somos sua casa!
“Na casa do Pai há muitas moradas”; há lugar para todos,
talvez de formas diferentes, por caminos diversos, mas há lugar abundante. A
casa de Deus é ampla, é a casa de todos os seres humanos, casa de reconciliação
e justiça, aberta antes de tudo para aqueles que foram e são oprimidos. Aqueles
que não cabem na casa deste mundo (os que foram expulsos de suas casas) podem
entrar na casa da Vida de Jesus.
Jesus Cristo, durante seu ministério, construiu com suas
palavras uma morada para as pessoas, na qual estas se sentiram seguras. Ele
falou de tal forma que as pessoas encontraram harmonia consigo mesmas. E elas
tinham o sentimento de poder habitar em suas palavras, e por meio de suas
palavras, encontrar uma pátria n’Ele. De fato, o ser humano sempre aspirou
viver em um espaço onde pudesse se sentir seguro, em paz; um espaço humanizador
que lhe permitisse ativar todas as suas potencialidades de vida e deixasse
transpare-cer a própria identidade; um espaço onde pudesse se “sentir em casa”.
É da nossa condição humana buscar um espaço, um lugar
hospitaleiro e acolhedor, o lugar onde nos situamos no mundo e onde podemos ser
encontrados; esse espaço nos ajuda a fazer contato com nossas “moradas
interiores”: lugar de intimidade com Deus, espaço de contemplação, ambiente de
discernimen-to e construção de decisões. Nesse sentido, a morada interior
já é antecipação da nossa morada eterna, no coração do Pai.
Um dos dramas vivido pelo ser humano no atual contexto
social pós-moderno é que ele perdeu não somente seu lar exterior, mas também se
afastou de sua morada interior. Comprovamos hoje um “déficit de interioridade”.
As pessoas perderam o caminho da direção do seu coração; vivem fora de si
mesmas e não conseguem colocar as grandes perguntas existenciais: “de onde
venho? Quem sou? Para onde vou?...”. Elas já não sabem mais quem são.
Muitas já não conseguem mais recolher-se e voltar para “dentro
de sua morada” para recuperar o centro gravitacional de suas vidas, o ponto de
equilíbrio interior; já não são capazes de velejar nas águas da interioridade,
passando a viver uma vida superficial e sem sentido. Elas se percebem sem o
sentimento de acolhida e proteção, pois perderam seu sentido de pertença, além
de não mais saberem o que as sustenta. Não sabem mais onde poderão encontrar
segurança e acolhimento.
O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e
em constante mutação? O que significa “morada” para nós atualmente? Que tipo de
sentimento está conectado a ela? Onde nos sentimos de verdade em casa?
“A infelicidade do ser humano moderno consiste em que ele
não é mais capaz de permanecer em sua cela” (Pascal). “O ser humano só está em
casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Nas palavras de Jesus na Última
Ceia, Ele deixa transparecer que, só quando cremos que o mistério de Deus
habita em nós, é que podemos nos sentir em casa; só podemos permanecer em nós
mesmos porque o próprio Deus já está em nós e nos mantém. Nós podemos fazer
morada em nós, porque Deus mesmo já fez morada em nós.
Nossa morada interior é o espaço no qual Deus mesmo habita
em nós. Ali, nós somos plenamente nós mesmos, salvos e íntegros.
Verdadeiramente em casa. Nós precisamos apenas olhar para dentro. O céu está em
nós e ali, no céu interior, está a verdadeira pátria que ninguém pode nos
roubar ou pode destruir. E ali, as nossas próprias preocupações e temores não
tem nenhum acesso. Ninguém pode nos ferir ali.
Aspiramos um espaço onde possamos ser nós mesmos. Espaço no
qual podemos entrar em contato com algo que nos plenifica e nos expande.
Vivemos das forças e da energia que emanam da nossa casa interior. Desejamos
encontrar-nos conosco mesmos, desenvolver nossas possibilidades, descobrir e
clarificar nossa identidade. O sentimento de ser totalmente nós mesmos nos dá a
sensação de ter encontrado o suporte numa torrente de vida e de amor. Desse
modo, em meio às incertezas deste mundo, podemos experimentar um ambiente de
tranquilidade e de acolhimento.
Num mundo de muita superficialidade, onde a imposição do
imediato, da rapidez, da produtividade e da eficácia se apresentam como deveres
imperiosos, somos chamados, como seguidores(as) de Jesus, a “ser pessoas de
interioridade”. Diante da “cultura líquida” na qual vivemos, é urgente gerar
espaços que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno
à “morada interior”, onde é gestada a nossa identidade e as nossas opções mais
sólidas.
Precisamos, sob a ação da Graça, destravar nossa “morada
viva e sempre inédita”, de tal maneira que dali brote a novidade que tudo
renova e dá sentido à nossa existência.
Texto bíblico: Jo 14,1-12
Na oração: Existe uma crise de moradia muito mais grave que
a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedo-ras e
disponíveis para seus irmãos.
Casa: lugar do lava-pés, do mandamento novo; lugar da
Ressurreição e Pentecostes.
Lugar do encontro com o Senhor; Ele vem. Sua presença causa mudança.
Deixe ressoar a voz do Senhor: “Eu quero, em tua casa, celebrar a Minha Ceia!”.
Como me sinto em minha casa? Preciso abri-la, arejá-la?
Modificá-la? Iluminá-la? É acolhedora? Humanizadora?...
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro é o título conferido a
Maria, Mãe de Jesus, representada em um ícone de estilo Bizantino venerado
desde 1865 em Roma, na Igreja de Santo Afonso, dos Missionários Redentoristas.
Vindo da Ilha de Creta, passando pela Igreja de São Mateus,
em Roma, durante trezentos anos este ícone foi venerado e reconhecido pelos
sinais prodigiosos operados pela fé de muitos devotos da Mãe do Belo Amor,
nosso Perpétuo Socorro. Esta devoção se expandiu graças ao trabalho dos
Redentoristas que, desde 19 de janeiro de 1866, a pedido do Papa Pio IX,
espalham por todas as paróquias e santuários onde atuam, esta importante
devoção.
Santo Afonso escreveu um tratado completo sobre o papel de
Maria no plano da salvação chamado: “As Glórias de Maria”. Dizia que Maria, por
ser tão amada por Deus e corresponder plenamente ao Seu amor, se tornou novo
modelo perfeito de vida cristã. Segundo a biografia de Afonso, a devoção a
Maria vem desde a sua infância. A ela dedicou sua vida, seu amor e uma grande
obra para que pudéssemos, como ele, venerá-la com a mesma intensidade.
Dizia Santo Afonso: “Maria, a cheia de Graça que adianta as
nossas orações, ampara-nos nas aflições, protege-nos e dá-nos santas
inspirações para vivermos profundamente a caridade. Mais ainda, ela anima e
fortalece nos momentos mais difíceis. É fiel defensora dos seus filhos”.
No Brasil, temos diversos santuários onde existem novenas,
um estilo popular de rezar e cantar a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
invocando as suas bênçãos pelos objetos, pela água, pelos enfermos e por todas
as necessidades das pessoas.
Em Campinas, Goiânia (GO), na tradicional “Campininhas” onde
chegaram os primeiros Missionários Redentoristas vindos da Alemanha, cresce
cada vez mais esta devoção. A cada terça-feira, se deslocam milhares de fiéis
de Goiânia e arredores para agradecerem graças alcançadas e pedirem benefícios
em oração e súplica a Mãe de Deus e nossa mãe.
Hoje, a Matriz e Santuário de Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro de Campinas é um grande centro de devoção onde todos os devotos
visitam, rezam e buscam alcançar as graças necessárias. Nas suas angústias,
sofrimentos, alegrias e tantas necessidades querem se aproximar do seu Filho
Jesus, o Redentor do mundo onde encontramos a salvação e a vida plena.
Somos agradecidos a Deus por termos no Centro-Oeste um
santuário que acolhe os devotos de Maria, em seu Perpétuo Socorro. Ao mesmo
tempo, pedimos ao Divino Pai Eterno as graças necessárias para que o mesmo seja
conhecido a todos os povos do Brasil e do mundo, oferecendo cada vez mais, melhores
condições para acolher bem a todos que vão para rezar, agradecer, pedir e
contemplar em Maria o Perpétuo Socorro, recebendo pela fé e oração todos os
benefícios pedidos.
Rezemos com Santo Afonso: “Toda sois formosa e em vós não há
mancha. Ó Mãe puríssima, toda cândida, toda bela, sempre amiga de Deus!
Dulcíssima, amabilíssima, imaculada Maria. Sois tão bela aos olhos do Senhor.
Olhai-me e compadecei-vos de mim e curai-me. Oh belo imã dos corações, atraí
para vós, também, este meu coração. Tende piedade de mim e rogai a meu favor.
Amém!” Que a Mãe do Belo Amor, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, abençoe a
todos!
Pe. João Otávio Martins, C.Ss.R.
Missionário Redentorista
Natural de Lagoa Formosa (MG), nasceu em 19 de abril de
1951. Seus pais tiveram 13 filhos e chegaram a Goiás no início da década de
1960 para viver na cidade de Morro Agudo. Foi lá que João Otávio conheceu os
Redentoristas. Ingressou no Seminário São José, na Vila Aurora, em 1974, e
neste tempo conheceu a Matriz de Campinas, onde atuou pastoralmente na equipe
da missa das 10 da manhã de domingo.
Estudou no antigo Colégio Paulo VI e também no Colégio
Estadual Castelo Branco. Depois mudou-se para Tietê (SP), onde fez o ensino
médio. De volta a Goiânia, cursou a filosofia na primeira turma do Instituto de
Filosofia e Teologia de Goiás. Fez o noviciado na antiga Fazenda Arrozal, perto
de Trindade, e após os votos residiu no antigo Convento dos Redentoristas, hoje
Centro Cultural Gustav Ritter. Neste período em que cursou teologia, trabalhou
como escriturário em uma agência bancária em Campinas, e também como vendedor
de livros.
Foi ordenado presbítero em 1987, em Morro Agudo, e iniciou
então uma caminhada de intensa pastoral: de 1988 a 1990, em Parauabebas (PA);
de 1991 a 1996, na Paróquia Nossa Senhora da Guia, no Parque dos Buritis, entre
Goiânia e Trindade; de 1997 a 1999, na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em São
Sebastião (DF); em 2000 e 2001, como formador dos seminaristas na Nova Vila, e
pároco da Paróquia Nossa Senhora da Abadia, em Itauçu; de 2002 a 2003, na
Paróquia Santo Afonso, em São Sebastião (DF), e em seguida, na zona rural de
Brasília, na Paróquia São Paulo, entre 2004 e 2006.
Padre João Otávio também atuou, de 2007 a 2008, na Paróquia
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul (DF). Em 2009 foi transferido
para Goiânia, onde colaborou na Paróquia Nossa Senhora de Lourdes, da Nova
Vila. No ano seguinte, assumiu a Paróquia da Vila Brasília, em Aparecida de
Goiânia, onde foi pároco entre 2010 e 2013. Em 2014, foi pároco da Paróquia São
Sebastião, em Nova Xavantina (MT). Desde 2015, é pároco da Paróquia Nossa
Senhora da Conceição e reitor do Santuário-Basílica Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro, em Goiânia. Foi o responsável pela coordenação do projeto de
instalação da Basílica Menor.
Em meio a tantas atividades pastorais, padre João Otávio
também realizou estudos acadêmicos. Cursou Ciências Sociais na Universidade
Federal de Goiás, e fez pós-graduação em Filosofia na Universidade Católica de
Brasília (UCB). Concluiu o mestrado em Ciências da Religião pela PUC/Goiás, no
trabalho que resultou no livro “Pesquisa sobre os carreiros”. Foi professor
universitário por 5 anos na UCB, e por 8 anos na Fajesu, em Brasília.
Quando o teu (tua) filho (a) disser: pai, mãe não se metam
na minha vida!
(Texto criado por um sacerdote)
Hoje que estou aprofundando meus estudos teológicos na
Família, seus valores, seus princípios, suas riquezas, seus conflitos,
recordo-me de uma ocasião em que escutei um jovem gritar para seu pai: Não te metas na minha vida!
Essa frase tocou-me profundamente. Tanto que, frequentemente,
a recordo e comento nas minhas conferências com pais e filhos. Se,
em vez de sacerdote, tivesse optado por ser pai de família, o que diria ante
essa exclamação impertinente de meu (minha) filho (a)?
Esta poderia ser a minha resposta : Filho, um momento, não sou eu que me meto na tua vida, foste tu que te meteste na minha!
Faz muitos anos, graças a Deus, e pelo amor que tua mãe e eu
sentimos, chegaste às nossas vidas e ocupaste todo nosso tempo. Ainda antes de
nasceres, tua mamãe sentia-se mal, não conseguia comer, tudo o que comia,
vomitava. E tinha que ficar de repouso. Tive que me dividir entre as
tarefas do meu trabalho e as da casa para ajudá-la. Nos últimos meses, antes
que chegasses, tua mãe não dormia e não me deixava dormir.
Os gastos aumentaram incrivelmente, tanto que grande parte
do que ganhava era gasto contigo, para pagar um bom médico que atendesse tua
mamãe e a ajudasse a ter uma gravidez saudável, em medicamentos, na
maternidade, em comprar-te todo um guarda-roupa etc. Tua mãe não podia ver nada
de bebê, que não o quisesse para ti, compramos tudo o que podíamos, contando
que tu estivesses bem e tivesses o melhor possível.
Não meter-me na tua vida?!
Chegou o dia em que nasceste: Tivemos que comprar algo para
dar de recordação aos que te vieram conhecer, Tivemos que adaptar um quarto
para você. Desde a primeira noite não dormimos. A cada três horas,
como se fosses um alarme de relógio, despertavas para te darmos de comer.
Outras, porque te sentias mal e choravas e choravas, sem que nós soubéssemos o
que fazer, pois não sabíamos o que te tinhas, até chorávamos contigo.
Não meter-me na tua vida?!
Começaste a andar e não sei quando foi que tive
que andar mais atrás de ti; se quando começaste a andar ou quando pensaste
que já sabias. Já não podia sentar-me tranquilo lendo jornal,
vendo um filme ou o jogo do meu time favorito, porque quando acordavas, te
perdias da minha vista e tinha que sair atrás de ti para evitar que
te machucasses.
Não meter-me na tua vida?!
Ainda me lembro do primeiro dia de aula. Quando
tive que telefonar para o serviço e dizer que não podia ir. Já que tu, na porta
do colégio, não querias soltar-me a mão e entrar. Choravas e pedias-me que não
fosse embora. Tive que entrar contigo na escola, e pedir à professora que
me deixasse estar ao teu lado, algum tempo, na sala, para que te
fosses acostumando. Depois de algumas semanas, já não me pedias que
ficasse e até esquecias de se despedir quando saías do carro correndo para te
encontrares com os teus amiguinhos.
Não meter-me na tua vida?!
Foste crescendo, já não querias que te levássemos às festas
em casa de teus amiguinhos, pedias-nos que parássemos numa rua antes de te
deixarmos e que te fôssemos buscar numa rua depois. Porque já eras top, não querias chegar cedo em casa.
Incomodava-te que te impuséssemos regras. Não podíamos fazer comentários sobre
os teus amigos, sem que te voltasses contra nós, como se os conhecesses a eles
toda a tua vida e nós fôssemos uns perfeitos desconhecidos para ti.
Não meter-me na tua vida?!
Cada vez sei menos de ti por ti mesmo, sei mais pelo que
ouço dos demais. Já quase não queres falar comigo, dizes que apenas sei
reclamar, e tudo o que faço está mal, ou é razão para que te rias de mim,
pergunto: como, com esses defeitos, pude dar-te o que até agora tens
tido? Tua mãe passa noites em claro e, consequentemente, não me deixa
dormir dizendo-me que ainda não chegaste e que já é madrugada, que o teu
celular está desligado, que já são 3h e não chegas. Até que,
por fim, podemos dormir quando acabas de chegar.
Não meter-me na tua vida?!
Já quase não falamos, não me contas as tuas coisas,
aborrece-te falar com velhos que não entendem o mundo de hoje.
Agora só me procuras quando tens que pagar algo ou necessitas de dinheiro
para a universidade, ou para se divertir. Ou pior ainda, procuro-te eu,
quando tenho que chamar-te a atenção.
Não meter-me na tua vida?!
Mas estou seguro que diante destas palavras: não te metas na minha vida, podemos responder juntos: filho (a), não me meto na tua vida, pois
foste tu que te meteste na minha. te asseguro que desde o primeiro dia até
o dia de hoje, não me arrependo que te tenhas metido nela e a tenhas
transformado para sempre!
Enquanto for vivo, vou meter-me na tua vida, assim como tu
te meteste na minha, para ajudar-te, para formar-te, para amar-te e para
fazer de ti um homem ou uma mulher de bem!
Só os pais que sabem meter-se na vida de seus
filhos conseguem fazer deles, homens e mulheres que triunfam na vida e são
capazes de amar!
Pais: muito obrigado! Por se meterem na vida
dos seus filhos. Ah, melhor ainda, corrijo, por terem deixado que os seus
filhos se metam nas suas vidas!
E para vocês filhos: Valorizem seus pais. Não
são perfeitos, mas amam vocês e tudo o que desejam é que vocês
sejam capazes de enfrentar a vida e triunfar como homens de bem!
A vida dá muitas voltas, e, em menos tempo do que vocês imaginam
alguém lhes dirá: “NÃO TE METAS NA MINHA VIDA!” A paternidade não é
um capricho ou um acidente, é um dom de Deus, que nasce do Amor! Deus os
abençoe! A todos!
“Gente que dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta
como inimiga. Um muro foi erguido para me separar desses amigos”
Ando sensível. Acho que já contei isso aqui. Choro à toa.
Antes era com comercial de margarina, cenas de novela, trechos do filme. Agora,
é lendo jornal. Cada notícia da Lava-Jato, de início, me enche de indignação.
Em seguida, fico triste. É aí que choro. Ando tendo vontade de chorar também em
discussões com amigos. Gente que tempos atrás dividia comigo a mesma ideologia
hoje se comporta como inimiga. Ou sou eu o inimigo? De qualquer maneira, num
mundo que derrubava muros, de repente, um muro foi erguido para me separar
desses amigos. Tento explicar como vejo o trabalho de Sergio Moro e nunca consigo
terminar o raciocínio. No meio da discussão, me emociono, fico com vontade de
chorar e prefiro interromper o pensamento. “Coxinha”, me xingam nas redes
sociais. Bem, se o mundo está obrigatoriamente dividido entre coxinhas e
petralhas, não tenho como fugir: sou coxinha!
Leio na internet que “coxinha” é uma gíria paulista cujo
significado se aproxima muito do ultrapassado “mauricinho”. Mas, desde a
reeleição de Dilma, esse conceito se ampliou. Serviu para definir de forma
pejorativa os eleitores de Aécio Neves. Seriam todos arrumadinhos, malhadinhos,
riquinhos e votavam em seu modelo. Isso não tem nada a ver comigo. Mas, nesta
briga de agora, estou do lado que é contra Lula, logo sou contra os petralhas,
logo sou coxinha.
Gostaria de falar em nome da democracia. Mas não posso. A
democracia agora é direito exclusivo dos meus amigos que estão do outro lado do
muro. Só eles podem falar em nome dela. Então, como coxinha assumido, deixo uma
pergunta. Vocês acharam muito normal o ex-presidente Lula incentivar os
sindicalistas para os quais discursou esta semana a irem mostrar ao juiz Sergio
Moro o mal que a Operação Lava-Jato faz à economia brasileira? Vocês acreditam
sinceramente nisso? O que a Operação Lava-Jato faz? Caça corruptos pelo país.
Não importa se são pobres ou ricos. Não importa se são poderosos. Não era isso
o que todos queríamos, quando estávamos todos do mesmo lado, quando ainda não
havia um muro nos separando, e fomos às ruas pedir Diretas Já? Não era no que
pensávamos quando voltamos às ruas para gritar Fora Collor? E, principalmente,
não era nisso que acreditávamos quando votamos em Lula para presidente uma,
duas, três, quatro, cinco vezes!!! Não era o Lula quem ia acabar com a
corrupção? Ele deixou essa tarefa pro Sergio Moro porque quis.
Como, do lado de cá do muro, me decepcionei com o ex-líder
operário, o lado de lá deu pra dizer que sou de direita. Se for verdade, está
aí mais um motivo para eu estar com raiva de Lula. Foi ele quem me levou pra
direita. Confesso que tenho dificuldades de discutir com qualquer petralha que
não se irrita quando Lula diz se identificar com quem faz compras na Rua 25 de
Março. Vem cá, já faz tempo que os ternos de Lula são feitos pelo estilista
Ricardo Almeida. Será que Ricardo Almeida abriu uma lojinha na rua de comércio
popular de São Paulo? Por mim, Lula pode se vestir com o estilista que quiser.
Mas ele tem que admitir que o discurso da 25 de Março ficou fora do contexto. A
gente não era contra discursos demagógicos? O que mudou?
Meus amigos petralhas dizem que é muito perigoso tornar
Sergio Moro um herói. Que o Brasil não precisa de um salvador da pátria. Mas,
vem cá, não foi como salvador da pátria que Lula foi convocado para voltar ao
governo? Não é ele mesmo quem diz que é “a única pessoa” que pode incendiar
este país? Não é ele mesmo quem diz que é a “única pessoa” que pode dar um
jeito “nesses meninos” do Ministério Público? Será que o verdadeiro perigo não
está do outro lado do muro? Não é lá que estão forjando um salvador da pátria?
Há muitas décadas ouço falar que as empreiteiras brasileiras
participam de corrupção. Nunca foi provado. Agora, chegou um juiz do Paraná,
que investigava as práticas de malfeito de um doleiro local, e, no desenrolar
das investigações, botou na cadeia alguns dos homens mais poderosos do país.
Enfim, apareceu alguém que levou a sério a tarefa de desvendar a corrupção que
há muitos governos atrapalha o desenvolvimento do país. E, justo agora, quando
a gente está chegando ao Brasil que sempre desejamos, Lula e seus soldados
querem limites para a investigação. Pensando bem, rejeito a acusação de ser
coxinha, rejeito ser enquadrado na direita, rejeito o xingamento de
antidemocrata, só porque apoio o juiz Sergio Moro e a Operação Lava-Jato.
Coxinha é o Lula que se veste com Ricardo Almeida e mantém uma adega de
razoáveis proporções no sítio de Atibaia. E, para encerrar, roubo dos petralhas
sua palavra de ordem: sinto muito, mas não vai ter golpe. Sergio Moro vai
ficar.
Artur Xexéo - Rapaz tímido, crescido no interior, Artur Xexéo se tornou
jornalista por acaso. Bom com números, primeiro quis ser engenheiro, mas trocou
o curso pela Comunicação Social porque era “fácil de entrar e rápido para
concluir”. O que ele não esperava era que iria se encantar pelo jornalismo e
superar o medo de falar em público. Uma etapa necessária para que se tornasse
um dos principais colunistas de cultura do Brasil.
Xexéo começou no Jornal do Brasil e passou pelas redações
dos maiores periódicos do Rio de Janeiro. Como colunista, seu texto crítico
versa sobre cultura, política e comportamento. Ele confessa ter se inspirado no
estilo de Stanislaw Ponte Preta (heterônimo de Sérgio Porto, quando escrevia no
jornal Última Hora), autor que, segundo ele, “tinha muito do universo da
televisão, do show business, comportamento político”. Nos últimos anos, o
jornalista inaugurou uma nova fase na carreira ao se tornar comentarista de
cultura da GloboNews. A boa aceitação do público o alçou ao posto de crítico de
cinema durante a transmissão do Oscar na Globo.