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terça-feira, 2 de maio de 2017

DE ARRAIAL A POVOADO - Sherney Pereira


De arraial a povoado


            A exemplo de Irineu Mendonça, outras pessoas instalaram-se na Fazenda Boa Vista, desbravando o matagal ali existente. Eram capoeiras habitadas por grandes quantidades de animais silvestres tais como: capivara, preá, raposa, sariguê, preguiça, papa-mel, ouriço caixeiro, guaxinin e algumas espécies de macacos, guariba, sagui e jupará.

            Aquela gente simples caminhava pelas matas através de caminhos estreitos, ou simplesmente veredas abertas pelas formigas-de-mandioca. Havia enormes formigueiros, que consistiam em sérios problemas para os horticultores, que desesperadamente lutavam para exterminá-los e defender as suas plantações das insaciáveis formigas.

            Em 1927, construía-se a estrada de rodagem, interligando Ilhéus e Itabuna. A rodagem passava no centro da fazenda e, vinte anos depois, ela viria a sofrer grande reforma. Não temos certeza se a reforma foi geral, porém, no eixo Ilhéus-Itabuna houve correções, talvez por a estrada apresentar-se cheia de defeitos topográficos, com curvas em excesso, bastante acidentada. Pode parecer estranho, mas esta reforma muito contribuiu para que, no futuro, surgisse na Fazenda mais uma ruazinha, que o povo passou a chamar de “Rodagem Velha”.

            Naquela rua residiram pessoas que hoje talvez já nem mais existam. Lembro-me, por exemplo, de um velho sapateiro que se chamava Rosalvo. A sua casinha ficava tão escondida, em meio às plantações, que era quase impossível vê-la à distância. Era mestre Rosalvo quem confeccionava calçados para o povo dali. O meu pai encomendava-lhe botinas para toda a família e, em dias de festa saíamos às ruas, vaidosos, ostentando as botinas rangideiras que, para nós, eram calçados de primeira qualidade.

            O primeiro açougue no Salobrinho, foi implantado por Ascendino. Ele tinha quatro filhas lindíssimas, de olhos verdes, e morou no arraial por pouco tempo, exercendo o ofício de magarefe, para depois partir, tomando rumo ignorado.

            Apesar das pessoas acreditarem no desenvolvimento do arraial, explorando diversos tipos de negócios, o lugar ainda dormia um sono profundo. As crianças cresciam sem escolas e sendo os pais, na sua maioria analfabeta, não reuniam condições de ensinar pelo menos as primeiras letras aos seus filhos. Então a criançada ficava tão somente restrita às peladas e aos banhos contínuos, nas águas do Rio Cachoeira, que, ainda hoje continua sendo uma das principais áreas de lazer.

            Em 1963, no governo do prefeito Herval Soledade, o Salobrinho viu nascer o seu Grupo Escolar. Em seguida, também chegava  o MOBRAL, Movimento Brasileiro de Alfabetização, cuja escola passou a funcionar à noite, no salão do “clube”, ao lado da Igreja Católica.

            A CEPLAC teve um papel relevante no impulso do Salobrinho, no que se refere à área social. Aquela gente que vivia sofrendo, trabalhando em roças particulares, pessoas que aventuravam a vida pescando no rio, apegaram-se a ela e, hoje, muitos são funcionários gabaritados daquele importante órgão, onde gozam de todos os direitos a que fazem jus.

            A CEPLAC foi, certamente, a mola propulsora que veio garantir a sobrevivência de centenas de pais de família que, outrora viviam naquele povoado, sem ter de onde tirar o indispensável para a vida. O homem do campo nela encontrou o reconhecimento da importância do seu trabalho. Com o seu advento, um outro grande acontecimento selava a felicidade dos moradores: era a aura branda da cultura que soprava na sua direção. Estava se concretizando a maior aspiração da Região Cacaueira, estava nascendo a Universidade de Santa Cruz, instituída de acordo com o Artigo nº 8, da Lei 5.540.

            Portanto, nas propriedades de Manoel Fontes Nabuco, divisando com o Salobrinho, foi colocada a pedra fundamental que daria origem à FESPI, Federação das Escolas Superiores de Ilhéus e Itabuna. Havia a necessidade de se adquirir mais espaço para o campus universitário e, no ensejo, a CEPLAC procurou os herdeiros, a fim de propor-lhes a desapropriação de 10 ha. de terra. A CEPLAC construiria catorze casas dentro do povoado, além da indenização dos moradores da Rua da Mangueira, que optaram também pela construção de casas, numa área que o próprio órgão beneficiaria.

            A Rua da Mangueira era arborizada. Havia nela pouquíssimas casas, na maioria casinhas toscas, cobertas de zinco e em ruínas, porque os seus proprietários não tinham recursos para repará-las. Houve o seu desaparecimento. Das suas cinzas, ergue-se, imponente e majestosa, a UNIVERSIDADE DE SANTA CRUZ, para a glória de toda a Região do Cacau.  

            Em 1974, dava-se início a uma importante obra, que iria beneficiar cerca de duas mil pessoas. Um convênio firmado entre a CEPLAC, Secretaria da Saúde e Prefeitura Municipal de Ilhéus, implantaria o Sistema de abastecimento d’água, levando o precioso líquido a todos os lares do povoado. O complexo hidráulico consistia de um poço perfurado, uma casa de bomba com conjunto elevatório, motor elétrico, reservatório de capacidade de quinze mil litros e quatro chafarizes. Este investimento custaria ao convênio o montante de CR$16.182,67, cabendo à Prefeitura a importância de CR$14.500,86.

            Recentemente, um novo convênio, firmado entre o FSESP e a Prefeitura Municipal de Ilhéus, recuperou e ampliou aquele sistema, porque já não mais atendia aos reclamos do povo. Foi construído um novo reservatório no topo da Rua do Ouro, com capacidade para abastecer todo o povoado.

            O Salobrinho, atualmente, conta com um número de oitocentas casas, e o seu índice demográfico já atinge a casa de quatro mil habitantes. Na área de Educação, está relativamente bem servido, pois conta com sete escolas, além da extensão do 1º grau, níveis II e III, do Instituto Municipal de Educação de Ilhéus, o qual funciona nas dependências da Universidade de Santa Cruz, num convênio firmado entre a FESPI e a Prefeitura de Ilhéus, respectivamente. Este convênio veio, efetivamente, beneficiar os estudantes do Salobrinho, Banco da Vitória e adjacências.

            Existem no povoado setenta e quatro casas comerciais, sendo que 70% são botequins improvisados, de onde os pequenos comerciantes retiram o sustento para a sua sobrevivência, vendendo cachaça, cigarros, balas e congêneres. O aspecto urbano é por demais desolador, deixando muito a desejar. O crescimento demográfico trouxe sérios transtornos porque, à proporção que aumenta o índice populacional, agrava-se o problema sanitário, deixando os seus habitantes desassistidos. A inexistência de rede de esgotos, água tratada e posto médico constitui numa ameaça constante, um verdadeiro atentado à saúde pública. As crianças – as que conseguem sobreviver – são doentes, indispostas e crescem debilitadas, sem nenhuma motivação para enfrentar a realidade da vida lá fora. Os casos de verminose são uma constante, porque os esgotos ali correm a céu aberto, pelo meio das ruas, invadindo as residências.

            Contudo, apesar da vida sofrida e subumana que levam os moradores do Salobrinho, em termos de assistência social, pode-se ver no semblante de cada um, o desejo e a esperança de que, um dia, seja a curto ou a longo prazo, tudo ali se transforme e que, de Fazenda Boa Vista, passe a ser um grande povoado, uma Vila Universitária, digna de acolher satisfatoriamente, os estudantes de nível superior, que para ali convergem, procedentes dos municípios da Região Cacaueira, com o objetivo único e exclusivo de tornarem mais fácil o acesso à cultura.

 (SALOBRINHO – ENCANTOS E DESENCANTOS DE UM POVOADO - 1984)
Sherney Pereira

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            "Li, com interesse o livro de Sherney – Salobrinho – Encantos e desencantos de um Povoado, por sua riqueza de carinho com o tempo, esse relicário inesgotável. Como é bom existirem desses garimpeiros fascinados, que desenterram da ganga do passado a gema da história. Que surjam outros para relatar o que sabem ou sentiram desde o surgimento de seus bairros: Pontal, Malhado, Outeiro, e mais. E que o façam como Sherney: sem olvidar a linha sentimental. O mal da vida não é passar, mas esquecer".

 Dorival de Freitas


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A ANTILISTA DA ODEBRECHT – Por Rosiska Darcy de Oliveira


A antilista da Odebrecht


Está em curso no Brasil uma revolução sui generis. Sem armas, sem exércitos, sem líderes revolucionários autonomeados. Uma velha ordem está sendo derrubada. Com ricos e poderosos sentados no banco dos réus, assiste-se à degola metafórica de toda a classe política, sem que desponte uma nova ordem como as que anunciam as revoluções.

O sistema político partidário está sendo contestado de fora para dentro. O que nos confronta com um paradoxo: a política está em estado terminal enquanto a democracia está mais forte do que nunca.

Milhões de brasileiros clamam por decência, uma palavra fora de moda, uma causa justa que hoje mobiliza mais do que as caquéticas ideologias. Querem coisas simples, como viver num país em que o dinheiro de impostos seja aplicado na saúde da população e não saqueado por criminosos cujo cinismo e insensibilidade moral raiam à obscenidade. 

O Brasil era governado por uma empresa que corrompeu a República. Tinha, no Senado, uma bancada majoritária, a soldo de seus interesses. A população está chocada como quem foi assaltado. E fomos.

Desmascarados, estes parlamentares perderam a legitimidade, sobretudo para votar uma reforma política. Com mão de gato, ainda tentam incluir na proposta de voto em lista fechada (destinada a garantir sua reeleição e foro privilegiado) o sigilo sobre os nomes nela incluídos. Para eles, não existimos.

O desrespeito à população tem sido a tônica da vida política. Marqueteiros pagos com dinheiro ilícito vendem uma imagem falsa dos candidatos tal como aconteceu na última eleição presidencial. O recurso sistemático à impostura se espalha país afora, chegando até as eleições municipais. Haja dinheiro de empresas para pagar fortunas a quem melhor vender gato por lebre ao eleitor.

Esta deformação alimenta um discurso perverso: ladrões foram eleitos pelo povo, logo a culpa é do povo que vota mal. Não, o povo compra o que a propaganda enganosa, financiada pelo roubo do dinheiro público, lhe vende. Os recursos que deveriam pagar escolas e hospitais financiam campanhas publicitárias que prometem as escolas e os hospitais que o povo não verá jamais. Mágica da corrupção que desmoraliza a democracia legitimando com o nosso voto os mesmos que nos assaltam.

O juiz Sérgio Moro restabeleceu a confiança na Justiça graças a um princípio claro e simples: ninguém está acima da lei. Moro não está só. Com ele, juízes, procuradores e a Polícia Federal estão envolvidos na apuração dos crimes. A reconstrução do país já está em curso, é preciso lembrar, quando a exposição diária à escabrosa criminalidade que nos assola estimula a depressão e a impotência.

O sistema político acabou e deixa um vazio. O buraco negro da política, sorvedouro de energias e esperanças, não se transforma da noite para o dia. Não saber como se faz o que precisa ser feito não impede que continue a ser preciso fazê-lo. A solução desse quebra cabeças tem que ser buscada em outros espaços e atores, nas novas formas de reivindicação de direitos e de ação transformadora já presentes na sociedade, a exemplo do que se fez na Campanha da Fome, de Betinho, e na Lei da Ficha limpa. A política só se regenera da sociedade para os partidos. 

Desmistificar o discurso paralisante da falta de lideranças no país é parte da reconstrução. Há lideranças, sim, que, por palavras e obras, conquistaram a confiança da população. Drauzio Varella, sem ser político, é uma liderança nacional. É urgente fazermos um mapeamento, nos círculos de confiança em que nos movemos, de gente em quem votaríamos com orgulho. 

Precisamos de uma antilista da Odebrecht, feita de homens e mulheres em quem a população se reconheça e que possa vir a representá-la. Para que essa lista de honra e não de vergonha seja viável precisamos de uma campanha nacional em prol da possibilidade de apresentação de candidaturas independentes, desvinculadas dos partidos e suas máquinas carcomidas. 

Precisamos de uma Constituinte com o mandato de refazer as instituições políticas adaptando-as aos tempos em que vivemos, às novas formas de expressão de opiniões e de comunicação que estão hoje à nossa disposição.

Do estatuto de um dos países mais corruptos do mundo passamos ao do país que melhor luta contra a corrupção. A volta por cima que estamos dando, quero ver quem dava. O mais difícil foi feito: enfrentar gigantes empresariais e caudilhos, quebrar o padrão de impunidade que estimulava a bandidagem.

Inovar é preciso. O novo não vem do velho. Ele se gera a si mesmo e cria o espaço para se expandir.

O Globo, 22/04/2017


Rosiska Darcy de Oliveira - Sexta ocupante da cadeira 10 da ABL, eleita em 11 de abril de 2013. É escritora e ensaísta. Sua obra literária exprime uma trajetória de vida. Foi recebida em 14 de junho de 2013 pelo Acadêmico Eduardo Portella, na sucessão do Acadêmico Lêdo Ivo, falecido em 23 de dezembro de 2012.


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segunda-feira, 1 de maio de 2017

A BALEIA AZUL E A FALTA DE UM PORQUÊ! – Pe. Zezinho scj


A baleia azul e a falta de um porquê! 



Em 1967 quando eu estudava nos Estados Unidos houve diversos casos de "daring" ou "extreme risk" entre jovens. TV e Rádio comentavam estes comportamentos "on the edge ".

Houve filmes sobre isso. Hoje, 50 anos depois, vejo e ouço que de vez quando , alguns adolescentes ainda arriscam ir aos extremos. Puxam-se ao último limite quando nem tentaram viver bem os seus começos!

Animais se suicidam no mar e nos precipícios e até hoje não se sabe o que os leva a isso !

Jovens praticam esportes extremamente perigosos como correr a 300kmh, rodar no Globo da Morte, assaltar um banco, picar-se com drogas, beber até entrar em coma, apostar corrida e dar cavalo de pau nas avenidas... Isto tudo são reprises da "baleia azul" . Desafiam a morte quando mal conhecem a vida fecunda que poderiam ter.

O que eles chamam de adrenalina é puxar-se ao extremo sem ter certeza de que não se acidentarão!

Qualquer estudioso de comportamento humano sabe o que é a Náusea, o Nojo e o Tanto-Faz da vida que leva muitos jovens a se abreviarem porque não conhecem nem a nostalgia do ontem, nem a vida com perspectivas.

Falta-lhes um grande porquê no seu mundo que se apequenou e se estreitou perigosamente !

Bons psicólogos, bons conselheiros, país atentos e religiões serenas e sem histerias fazem a diferença!

Eu não me apressaria em culpar os pais desses adolescentes. É muito difícil dizer não a uma geração que todos os dias, nos seus pequenos ou grandes aparelhos, lhes diz que eles devem não desistir de seus sonhos. Só não dizem que há sonhos dos quais se deve desistir porque acabam em pesadelo. A tal "baleia azul" é um deles ! 


Por Padre Zezinho scj


Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy.

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domingo, 30 de abril de 2017

O TALENTO ESQUECIDO - Chico Xavier

O Talento Esquecido
ABRIL 24, 2017


No mercado da vida, observamos os talentos da Providência Davina fulgurando na experiência humana, dentro das mais variadas expressões. Talentos da riqueza material, da intelectualidade brilhante, da beleza física, dos sonhos juvenis, dos louros mundanos, do brilho social e doméstico, do poder e da popularidade.

Alinham-se, à maneira de joias grandes e pequenas, agradáveis e preciosas, estabelecendo concorrência avançada entre aqueles que as procuram.
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Há, porém, um talento de luz acessível a todos. Brilha entre ricos e pobres, cultos e incultos. Aparece em toda parte. Salienta-se em todos os ângulos da luta. Destaca-se em todos os climas e sugere engrandecimento em todos os lugares.

E o talento da oportunidade, sempre valioso e sempre o mesmo, na corrente viva e incessante das horas.

É o desejo de doar um pensamento mais nobre ao círculo da maledicência, de fortalecer com um sorriso o ânimo abatido do companheiro desesperado, de alinhavar uma frase amiga que enterneça os maus a se sentirem menos duros e que auxilie aos bons a se revelarem sempre melhores, de prestar um serviço insignificante ao vizinho, plantando o pomar da gratidão e da amizade, de cultivar algum trato anônimo de solo, onde o arvoredo de amanhã fale sem palavras de nossas elevadas intenções.
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Acima de todos os dons, permanece o tesouro do tempo.

Com as horas os santos construíram a santidade e os sábios amealharam a sabedoria.

É com o talento esquecido das horas que edificaremos o nosso caminho, no rumo da Espiritualidade Superior, na aplicação silenciosa com o mestre que, atendendo compassivamente às necessidades de todos os aprendizes, prometeu, com amor, não somente demorar-se conosco até ao fim dos séculos terrestres, mas também asseverou, com justiça, que receberemos individualmente na vida, de acordo com as nossas próprias obras.
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Da obra: Caridade. Médium Francisco Cândido Xavier
Ditado pelo Espírito Emmanuel.
Clique aqui para ler mais: http://www.forumespirita.net/fe/poesia/mensagem-de-esperanca/585/#ixzz4ehIKoZSY




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sábado, 29 de abril de 2017

COMPRAS E VENDAS. OS MASCATES - Helena Borborema

Compras e Vendas. Os Mascates


          Até hoje não sei como a notícia chegava à minha casa. Não havia telefone, não havia rádio, nem propaganda de alto-falante; havia distância, mas a grande notícia vinha. Nunca perguntei como, por isso fiquei sempre na ignorância e ainda hoje é um mistério para mim. O certo é que ouvia minha mãe dizer: amanhã cedo vamos ver seu Gabriel, ele chegou. Esta frase para mim, menina, era como se me anunciassem uma visita ao céu. Eu vibrava de contentamento. À noite, ia dormir embalada na alegria do grande passeio que ia dar. Pela manhã cedinho, era acordada: “levante, está na hora!”. Que despertar maravilhoso eu sentia. Tínhamos de sair antes que o sol esquentasse, porque a caminhada era grande. Tomado o café, partíamos para o que eu considerava a grande aventura. Minha mãe comigo pela mão, a empregada com a minha irmã no braço, e um moleque para trazer os embrulhos. Da Rua Paulino Vieira, onde eu morava, até à Caixa d’Água, a esticada era grande. O sol ainda estava baixo. Íamos a pé, acompanhando a estrada de ferro. Logo no início, um grande empecilho: um alto pontilhão sobre o qual passava o trem. Aí parávamos e minha mãe ficava à espera de alguém que nos desse a mão e ajudasse uma a uma a pisar sobre os grandes e altos dormentes do pontilhão. Essa ajuda era fácil, porque a estrada era movimentada e nunca faltava um passante musculoso e prestativo. Vencida esta primeira etapa, a caminhada era feita sem tropeços, e eu adorando aquela aventura.

          Diversas casas se estendiam no alto do barranco que ladeava a estrada de ferro por onde passávamos. Esse trecho era chamado de Rua da Linha, por causa da linha férrea, e hoje corresponde à Avenida Ilhéus. A casa de seu Gabriel ficava mais adiante, na Caixa d’Água, então apenas uma ruazinha pouco mais além da atual Igreja de São Judas Tadeu. Enquanto andava, a minha alegria era pular sobre os dormentes e catar malmequer e florzinhas outras que cresciam no mato, ao longo do caminho. E assim, chegávamos à casa de seu Gabriel Bittar.

          A freguesia que aos poucos ia chegando, era recebida com toda a afabilidade pelo comerciante, no balcão da loja de tecidos que ficava na sala da frente de sua residência. Seu Gabriel, não sei se era sírio ou turco, tinha cabelos grisalhos, bigode, e fala com sotaque. As prateleiras estavam cheias de peças de tecidos que ele ia buscar diretamente em São Paulo. Ele vendia desde os tecidos de algodão, tricolines, algodãozinho, morim, cretones, até às mais finas cambraias de linho. Linho belga importado. Tudo ali era mais barato do que no centro da cidade. Uma cadeira era oferecida à minha mãe porque as compras eram demoradas, e ela, sentada, ia fazendo as suas escolhas. Metros e metros de tecidos para a roupa das empregadas, para panos de prato, lençóis, fronhas. Havia também boas toalhas de banho e de mesa prontas. Seu Gabriel também trazia bolsas de couro e outros artigos que estivessem em moda e lhe fossem encomendados.
  
          Na loja, nenhuma distração havia para mim, apenas ficava sentada num banco ao lado da parede, olhando a entrada e saída da freguesia com seus enormes embrulhos, e o puxa-estica dos preços na hora do pagamento. Feitas as compras, ficava às vezes a lista das encomendas que seu Gabriel devia trazer da próxima viagem a São Paulo. A volta para casa era feita obedecendo o horário do trem: muito antes que ele passasse e atendendo também ao sol, antes que esquentasse muito. Para mim, valia o passeio, que eu achava uma maravilha.

          Seu Gabriel não vendia sedas, estas eram compradas nas mãos dos mascates já conhecidos, vindos do Rio e São Paulo, que traziam para vender na cidade sedas puras lindíssimas, gazes as mais leves, rendas lindas para vestidos, perfumes franceses legítimos, vestidos prontos, meias finíssimas. Esses mascates eram dois lituanos, um de nome Maurício  e outro irmão de seu Elias Grimann, dono do Elite Bar, dois outros de origem russa e um libanês. Eram homens que se apresentavam bem trajados, de terno, gravata, pessoas tratáveis e que traziam as suas sedas em grandes malas de couro carregadas por um empregado. Alguns comerciantes, também de origem europeia, apareciam às vezes vendendo lindos casacos de peles, estolas de arminho e raposa ártica, casacos de astracã. Era um luxo que o clima da cidade não permitia. Mas que o dinheiro proporcionava às ricas senhoras da época, que tinhas nos cacauais o seu império.
  
          Também apareciam vendedores de joias, homens credenciados  que levavam em casas escolhidas as suas mercadorias para vender, bem como os japoneses que, vez por outra, apareciam vendendo bonitos colares de pérolas artificiais, outros vendendo brinquedos e ornamentos de sua arte, o origami.

          Assim, as famílias ricas de Itabuna podiam se dar ao luxo do bom e do melhor sem precisar viajar para comprar, porque a fama do dinheiro da cidade atraía comerciantes que queriam fazer bons negócios.

          Outro vendedor que frequentemente aparecia na cidade era o mascate de rendas de bilros ou de almofada. Aqui chegava, vindo do Ceará e Sergipe, o Norte como chamavam na época. Esse mascate ia de casa em casa, carregando grande valise de couro numa mão, e na outra um volumoso embrulho amarrado por grosso barbante. O seu comércio constava de peças de bonitas rendas, largas ou estreitas, com elaborados desenhos, confeccionadas pelas artesãs do “Norte”. Além das peças de rendas, traziam também, feitos com bilros de almofada, panos para decoração de móveis dos mais variados tamanhos e formatos: compridos, ovais, redondos, quadrados. Panos para bandeja, ricas toalhas de mesa e colchas. Ao lado das rendas, vinham também toalhas de tecido, bordadas à máquina no chamado “ponto batido”, nos mais lindos coloridos, com motivos de frutas e de flores. Tinha desde as chamadas toalhas de chá até as grandes para banquetes. Trabalhos primorosos como só as mãos treinadas das rendeiras nordestinas podiam confeccionar. Dos mascates do Nordeste, hoje poucos ainda circulam na cidade.

          Mas o comércio de Itabuna não era só isso. Além do cacau, principal fonte econômica do Município, a cidade vivia também do seu grande, forte e permanente comércio de tecidos, calçados, presentes e artigos outros, sem falar nas grandes casas de ferragens como a dos senhores Nicodemos Barreto e Júlio Sergipano, grandes armazéns comerciais como os do Sr. Astério Rebouças, João Franco e outros. As lojas de tecidos eram sortidas de artigos finos e variados, e muitas outras havia de tecidos populares. “O Crisântemo”, do Sr. Francisco Benício, era casa conceituada e uma das mais antigas; o ”Parc Central”, do Sr. Carlos Maron; a “Casa Stella”, o “Beija Flor” – um misto de armarinho e loja de brinquedos -, a “Casa Brasil”, dos irmãos Kauark; a loja do Sr. Augusto Andrade, de grande conceito e artigos variados, inclusive para presentes, eram conhecidas. O Sr. Francisco Fontes tinha também grande loja de tecido popular. A cidade possuía ainda boas livrarias, como a de seu Guedes e a “Agenciadora”, esta mais de artigos escolares. Boas farmácias atendiam à população, com  a “Drogaria Azevedo”, do Sr. Benigno Azevedo, grande e sortida, que atendia não só à cidade como aos distritos, e ficava numa das esquinas da hoje Avenida do Cinquentenário, naquela época rua J. J. Seabra. Nessa mesma rua, duas outras farmácias eram muito procuradas: a “Caridade”, do Dr. Nilo Santana, e a de seu Tourinho. O doutor Nilo reservava um dia da semana para aviar, de graça, receitas para os pobres que o procuravam.

          O comércio de Itabuna era ativo. Iniciado com os sírio-libaneses e sergipanos, foi enriquecido e cresceu com o trabalho de muitos outros comerciantes que se empenharam, como até hoje, pelo progresso da cidade. Aqueles mascates vinham apenas complementar com seus artigos de luxo importados, suas sedas puras, perfumes, peles, o que faltava para o requinte das pessoas mais endinheiradas. Até costureiras de alta-costura abriram aqui suas casas, como madame Débora e madame Pepita, procuradas pelas senhoras da sociedade. Além destas, havia ainda o ateliê da senhora Adélia Campos, bem instalado, com uma vitrina, e que atendia a uma grande freguesia. Este ficava na Rua Paulino Vieira, numa esquina bem em frente da atual Perfumaria Clipper.

          Com os requintes que o dinheiro então proporcionava, a vida social e cultural de Itabuna foi movimentada. Aqui chegaram a se apresentar, no teatro do Cinema Elite, grandes companhias teatrais, como as de Procópio Ferreira, Joracy Camargo e Alma Flora. Declamadoras como Margarida Lopes de Almeida aqui apresentaram a sua arte. Euríclides Formiga Lotou o recinto do teatro do Cinema Elite.
Exposições de pintura, como a de Santa Rosa e outros; de fotografias artísticas, como a de Brasilino Nery; cantores, violinistas e pianistas de destaque aqui se exibiram, nos salões do Itabuna Clube, demonstrando que a sociedade de Itabuna vivia realmente uma “era de ouro”. A arte deleitava a sociedade que  anos atrás podia gozar desse privilégio de assistir a belos espetáculos.

          Esse era um tempo de Itabuna rica, cuja fama ia além dos seus limites e se espalhava por todo o Estado e vizinhanças, no auge dos cacaueiros de frutos-de-ouro. Itabuna de uma época que dá saudades, mas que já passou.



(RETALHOS)
Helena Borborema

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HELENA BORBOREMA -  Nasceu em Itabuna. Professora de Geografia lecionou muitos anos no Colégio Divina Providência, na Ação Fraternal e no Colégio Estadual de Itabuna. Formada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia de Itabuna. Exerceu o cargo de Secretária de Educação e Cultura do Município. (A autora)
Conhecida professora itabunense, filha do Dr. Lafayette Borborema, o primeiro advogado de Itabuna. É autora de ‘Terras do Sul’, livro em que documento, memória e imaginação se unem num discurso despretensioso para testemunhar o quadro social e humano daqueles idos de Tabocas. Para a professora universitária Margarida Fahel, ‘Terras do Sul’ são estórias simples, plenas de ‘emoção e humanidade, querendo inscrever no tempo a história de uma gente, o caminho de um rio, a esperança de uma professora que crê no homem e na terra’.  (Cyro de Mattos)

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

ITABUNA CENTENÁRIA: CURTAS E BOAS – Faltou ensaiar

Faltou Ensaiar...


Advogar exige raciocínio rápido, inteligência e cliente esperto!...


Na Inglaterra um réu estava sendo julgado por assassinato... 
Havia evidências indiscutíveis sobre a culpa do réu, porém, o cadáver não aparecera. 

Quase ao final da sua sustentação oral, o advogado, temeroso de que seu cliente fosse condenado, recorreu a um truque: 
- "Senhoras e senhores do júri, senhor Juiz, eu tenho uma surpresa para todos!"- disse o advogado olhando para o seu relógio... - "Dentro de dois minutos, a pessoa que aqui se presume assassinada, entrará na sala deste Tribunal". E olhou para a porta. 

Os jurados, surpresos, também ansiosos, ficaram olhando para a porta.
Decorreram-se dois longos minutos e nada aconteceu. O advogado, então, completou:- "Realmente, eu falei e todos vocês olharam para a porta com a expectativa de ver a suposta vítima. Portanto, ficou claro que todos têm dúvida neste caso, se alguém realmente foi morto. Por isso insisto para que vocês considerem o meu cliente inocente"

(In dubio pro reo) Na dúvida a favor do réu. 

Os jurados, visivelmente surpresos, retiraram-se para a decisão final.
 Alguns minutos depois, o júri voltou e pronunciou o veredicto:- "Culpado!" 

- Mas como? perguntou o advogado... Eu vi todos vocês olharem fixamente para a porta, é de se concluir que estavam em dúvida! Como condenar na dúvida?
 E o juiz esclareceu:- Sim, todos nós olhamos para a porta, menos o seu cliente....


Moral da História:
NÃO ADIANTA SER UM BOM ADVOGADO SE O CLIENTE FOR ESTÚPIDO. 


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Enviado do meu smartphone Samsung Galaxy


(Autor não Mencionado)

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quinta-feira, 27 de abril de 2017

MEU IRMÃO WILSON – Waly de Oliveira Lima


Meu irmão Wilson 

Dos três irmãos, Wilson, Waly e Wilde assim mesmo com W, nomes de outras latitudes, mas nós todos tabaréus, sertanejos nascidos em Conquista – dos três irmãos, o Wilson não fez curso universitário. No ano do vestibular trocou a Faculdade de Medicina pelo casamento. Em vez de Hipócrates, de carne e osso, Cupido, de asas e flecha. 

E fez bem. Virou roceiro e, depois, logo depois, Tabelião de Notas em Itabuna.

Criatura recatada, modesta, mais para ouvir do que para falar.

Nunca fez um discurso como seus irmãos, que ele gostava de escutar, e, às vezes, aconselhá-los.

Jamais escreveu um poema, uma crônica, embora houvesse sido pela vida afora, um grande ledor, apreciador das boas obras, íntimo de muitos saberes da vida, que transmitia aos irmãos, em horas de aperto.

Não lhe aponto um gesto notável na sua vida, gesto capaz de marcá-lo, ressaltando-o, em algum momento singular, de seus concidadãos.

Porém, a sua bondade e sabedoria sempre foram continuadas, em silêncio. A sua voz, mansa, permanentemente para servir.

Somados gestos de bondade, frequentes, para amparar a parentes e amigos, conhecidos e desconhecidos, nesta Itabuna que ele elegeu sua pátria, terra de seus filhos e netos, tenda do seu bem querer e do seu bem servir, armada ali, na Travessa dos Artistas, sede do tabelionato do primeiro ofício, de absoluta honradez, respeitada e respeitosa, Wilson se transforma num rio de amor, sabedoria, dignidade, modéstia e prestimosidade.

Os irmãos doutores diziam sempre ao irmão tabelião de notas, nos momentos de congraçamento familiar, a ele que a todos amparou e protegeu: “você não precisou cursar a universidade para conquistar o saber, os dons invejáveis da verdadeira sabedoria. Já nasceu mestre, sobretudo na arte difícil de bem conviver, no dom de ser prestimoso”.

Wilson era assim. Sendo muito e tendo pouco. E assim ele nos deixou caladamente, numa noite triste.

Junto com Wilde, vi pela última vez o irmão Wilson, ele já no caixão, nos lábios um sorriso meio escabreado, de quem não gostava de incomodar, como se estivesse pedindo desculpas pelo estorvo de nossa viagem apressada, em tormentosa madrugada, para um até breve.

Em novo encontro que teremos, o irmão Wilson muito vai nos contar de tudo que já souber daquele outro lado, onde deve estar, agora, fazendo tudo para ajudar os outros.


(CRÔNICA AVULSA)
 Waly de Oliveira Lima
Da Antologia ITABUNA, CHÃO DE MINHAS RAÍZES
Seleção, Prefácio e Notas de Cyro de Mattos

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WALY DE OLIVEIRA LIMA - nasceu em Vitória da Conquista, a 29 de dezembro de 1919. Fez o curso primário em Jequié, Uruçuca e Salvador, onde, no Colégio Maristas, aprovado no admissão, iria ingressar no ginásio e alcançar o “complementar de direito”. Formado em advocacia pela Faculdade de Direito da Bahia, em 1944. Promotor de justiça durante muitos anos em Itabuna, onde lecionou nos colégios Divina Providência e Ação Fraternal. Crônicas suas aparecem na imprensa sul - baiana, jornal “Dimensão“ de Itapetinga, e “A Tarde”.

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